O cheiro de papel antigo e couro que impregnava o escritório do Rancho Brown parecia mais denso do que o habitual. A luz amarelada do abajur de mesa projetava sombras compridas pelas paredes de tábuas de pinho, destacando o mapa topográfico da bacia do Rio Loup e os quadros meio empoeirados com fotos em tom sépia das gerações anteriores da família Brown.
Jane caminhou até a grande escrivaninha de carvalho, puxou a cadeira de madeira e sentou-se com um suspiro pesado, sem se dar ao trabalho de tirar o casaco. A tipoia preta ainda imobilizava seu ombro direito, tornando cada gesto com o braço esquerdo mais lento e deliberado. Sobre o tampo da mesa, a lâmpada iluminava a caderneta de capa de couro sintético onde o pai de Jane anotava, com caligrafia inclinada e precisa, o fluxo de caixa do rancho, ao lado dos envelopes pardos com a marca d'água do Banco do Nebraska.
Hank entrou logo atrás dela, tirando o chapéu de feltro e encostando-se no batente da porta. O velho capataz trazia no rosto as marcas profundas de um dia longo e a apreensão de quem sabia o quanto os números escritos naquela caderneta eram assustadores.
— Oito mil dólares, Hank — começou Jane, a voz rouca cortando o silêncio da sala enquanto a mão esquerda abria a caderneta e corria o indicador pela coluna de valores. — É o que nos falta para cobrir os vinte por cento restantes da última parcela da hipoteca, menos a diferença que ainda temos a receber pelo gado já entregue. Não vai ser suficiente. Faltam treze dias para o prazo final do banco. Se nós não depositarmos esse valor até o encerramento do expediente bancário, a ordem de execução vai para o juiz do condado e a Holding arremata a propriedade no leilão judicial bem fácil.
Hank tirou um lenço xadrez do bolso da calça, limpou a testa e soltou um arfar ruidoso.
— Oito mil dólares em treze dias é uma dinheirama nesta época do ano, patroa — disse o velho, balançando a cabeça. — O que a gente tinha de bom já foi vendido. O que nos resta nos currais são cento e sessenta bezerros. Eles são bons de carcaça, têm boa genética, mas ainda faltam pelo menos noventa dias de engorda para atingirem o peso mínimo de abate no mercado.
Jane inclinou-se para a frente, apoiando o cotovelo esquerdo na mesa e cravando o olhar no mapa da propriedade.
— Eu sei disso, Hank. Mas não temos noventa dias. Nós temos treze — ela rebateu com firmeza, a determinação sobrepujando o cansaço. — Minha ideia é ir pessoalmente até a corretora de gado de Omaha. Vou tentar fechar um contrato de venda futura com adiantamento em dinheiro. Se eu oferecer os cento e sessenta bezerros com um desconto de quinze por cento sobre o valor de arroba pronta, dando a garantia do nosso lote e aceitando que eles fiquem no nosso confinamento até o peso final, nós conseguimos levantar esses oito mil dólares em dinheiro vivo até o fim do prazo.
Hank descruzou os braços, deu dois passos para o interior do escritório e apoiou as duas mãos espalmadas sobre a borda da escrivaninha, encarando a rancheira com gravidade.
— E como a senhora pretende manter esses bezerros ganhando peso nos próximos noventa dias, Jane menina? — perguntou o capataz, usando o apelido de infância para enfatizar o alerta. — A senhora já olhou a planilha de custos de trato desta semana? A chuva que deu há três dias lavou a poeira e encheu um pouco as lagoas do setor sul, mas a seca que vem castigando o Vale do Loup há três anos não acabou e ainda tem o problema do represamento que aquela gente de Chicago fez morro acima. A pastagem natural está queimada pelo sol. Para manter esses cento e sessenta bezerros ganhando peso, nós estamos comprando silagem de milho e farelo de soja de fora do condado. E o preço da tonelada de ração subiu trinta por cento por causa da alta dos combustíveis e da escassez regional.
Ele fez uma pausa, apontando com o indicador grosso para o livro de contas.
— Nós estamos gastando mais do que podemos para comprar essa silagem, Jane. Se a senhora der um desconto de quinze por cento no valor dos Bezerros para pegar o dinheiro adiantado, o que sobrar não vai pagar nem o frete do milho e o combustível das bombas de irrigação. Nós vamos salvar o rancho da hipoteca esta semana para falirmos por falta de insumos daqui a um mês.
Jane fechou os olhos por alguns segundos, massageando a têmpora esquerda. As palavras de Hank eram irrefutáveis. A engenharia financeira para manter uma propriedade daquele porte sem capital de giro em pleno ano de 1980 era um jogo de sobrevivência cruel. O custo do frete, os juros bancários e o preço dos insumos agrícolas afetados pela seca e a alta do combustível pareciam combinados para empurrar o pequeno produtor para o abismo sem fim das hipotecas vencidas.
— Nós não temos escolha, Hank — Jane respondeu, reabrindo os olhos, o tom de voz calmo e inflexível. — Se não pagarmos o Banco em treze dias, não haverá rancho para alimentar gado no mês que vem. Oitenta por cento da dívida da minha família já foi paga com o nosso trabalho. Eu não vou entregar estas quatro gerações de terra para a White & Sovereign por causa de vinte por cento. A gente aperta os cintos, raciona a silagem, corta as despesas da casa e usa o gerador só no horário de pico. Mas eu vou a Omaha buscar esse adiantamento.
Hank encarou a rancheira por longos instantes. Nos olhos castanhos de Jane, ele viu a mesma teimosia inabalável do velho Freddie Brown. O capataz soltou um suspiro profundo, ajustou o chapéu na cabeça e assentiu em resignação.
— Está certo, patroa. Se essa é a decisão, eu vou mandar os meninos revisarem tudo e separarem os lotes no curral de manejo amanhã cedo para começar a acelerar o processo de engorda. Mas a senhora precisa descansar esse ombro antes de encarar a estrada para Omaha.
— Eu vou descansar, Hank. Mas amanhã nós começamos cedo.
Os três dias seguintes desdobraram-se em uma rotina brutal de trabalho sob o céu incerto do Nebraska.
Embora a tempestade do início da semana houvesse trazido um alívio temporário para a poeira e a falta de agua nos canais e reservatórios do rancho, o calor seco do outono logo voltou a dominar a paisagem. A terra sedenta absorvera a água da chuva em questão de horas, mantendo a necessidade imperiosa de irrigação artificial para garantir que os pequenos piquetes de pastagens não morressem.
Jane dividiu as horas entre a escrivaninha e os campos do Rancho Brown. Impedida pelo ombro imobilizado de realizar esforços braçais pesados, ela assumiu a coordenação do trabalho de bombeamento de água a partir do canal central. Acompanhou Hank e os peões no reparo dos velhos motores a diesel que puxavam a água do leito cada vez mais seco para as valas de irrigação dos pastos norte e leste. O barulho ensurdecedor dos motores, o cheiro de óleo queimado e o calor sufocante do sol do meio-dia transformaram as jornadas em provações físicas exaustivas.
Ao mesmo tempo, a pressão política e econômica na cidade continuava a rugir ao fundo. Pelos rádios de pilha, ouvia-se a confirmação de que novos produtores haviam assinado os aditivos contratuais com a White & Sovereign. A Holding avançava silenciosa e eficientemente, assumindo o controle das comportas de agua e consolidando seu domínio hídrico sobre o vale. A resistência isolada do Rancho Brown tornara-se um farol incômodo para os executivos em Chicago e um lembrete doloroso de dignidade para os vizinhos que haviam cedido.
Jane trabalhou sem descanso. Durante o dia, checava a balança do confinamento, ajustava as cotas de ração de silagem para que os bezerros não perdessem peso e organizava as planilhas que levaria para a corretora em Omaha. À noite, a exaustão física e mental impedia que ela pensasse nos desdobramentos de sua vida pessoal — embora a lembrança das palavras de Stephanie no hotel, a intensidade do que acontecera entre elas na Suíte 301 e a conversa reveladora com Sarah Lee na picape permanecessem como um pano de fundo latente, queimando sob a superfície de sua consciência.
No fim da tarde de domingo — faltando exatamente dez dias para o encerramento do prazo da hipoteca bancária —, o trabalho no campo foi finalmente interrompido pelo pôr do sol.
O dia fora especialmente duro. Um dos motores principais de bombeamento de água do canal sofrera uma pane logo cedo, exigindo que Jane e Hank passassem seis horas sob o sol causticante trocando as correias e desentupindo os injetores de combustível. Quando o motor finalmente voltou a funcionar, soltando sua fumaça negra ritmada pelo vale, o corpo de Jane estava no limite absoluto das suas forças.
Eles recolheram as ferramentas na oficina e liberaram os dois funcionários temporários. Jane avisou Hank de que acordaria às quatro horas da manhã seguinte para pegar na primeira hora de viagem rumo a Omaha, onde tentaria a reunião decisiva com os compradores de gado.
Eram quase sete horas da noite quando Jane subiu os degraus da varanda de madeira da casa principal.
O céu do Nebraska ostentava uma gradação de cores espetacular: tons de violeta, rosa e âmbar queimado tingiam as nuvens baixas sobre as colinas do vale. A brisa da noite começava a soprar fria, trazendo o aroma acre de terra e capim seco.
Jane tirou as botas de trabalho na entrada, deixando-as ao lado da porta, foi ao quarto e tomou um banho rápido, trocou de roupa, uma camiseta e um moletom e depois caminhou até a cozinha descalça. Pegou uma garrafa de cerveja na antiga geladeira de porta de trinco, abriu a tampinha com um abridor de garrafas que catou na gaveta dos talheres e voltou para o exterior da casa.
Ela sentou-se no velho banco de madeira de balanço que ficava no canto da varanda, abrigado sob o beiral do telhado. Apoiou a garrafa gelada na coxa esquerda, reclinou a cabeça contra a parede de tábuas de madeira e fechou os olhos, permitindo que a brisa da noite esfriasse o calor do dia em seu rosto. A dor nas costas e o incômodo no ombro imobilizado eram pesados, mas a sensação de dever cumprido nas tarefas do dia trazia um alívio momentâneo. Ela tomou um gole longo da cerveja amarga, sentindo o líquido gelado descer rasgando a garganta seca.
O silêncio do rancho era quebrado apenas pelo coaxar distante dos sapos nas lagoas do setor sul e pelo ranger suave das correntes do banco de balanço sob o seu peso.
Dez minutos se passaram naquela penumbra acolhedora.
Foi então que o som sutil de pneu rolando sobre o cascalho fino da estrada de acesso silenciou o murmúrio da noite.
Jane abriu os olhos devagar. Não era o ronco grave dos caminhões de fazenda nem o barulho solto da picape de Hank. Era um rosnado baixo, aveludado e ritmado — o som inconfundível de um motor de alta cilindrada.
Na curva da estrada de terra que costeava os carvalhos seculares, os faróis duplos de luz amarelada despontaram na penumbra, cortando a névoa fina que começava a subir do chão. O veículo avançou com elegância pela alça de acesso, os refletores iluminando a fachada de madeira da casa e o gramado seco.
O Cadillac Eldorado com sua pintura verde brilhando sob a luz da lua nascente, parou suavemente no centro do pátio de cascalho.
O motor foi desligado. As luzes dos faróis se apagaram, deixando a cena banhada apenas pela claridade fraca da lâmpada da varanda e pela luz prateada do céu de outono.
Jane não se mexeu. Ela permaneceu sentada no banco de balanço, com a garrafa de cerveja segura na mão esquerda, o corpo tenso, os olhos castanhos acompanhando cada movimento.
A porta do motorista do Cadillac abriu-se com um clique suave.
Stephanie White desceu do automóvel.
Ela não trajava as roupas elegantes, os ternos azul ou cinza das reuniões corporativas de negócios, nem trazia a pasta de couro abarrotada de documentos e planilhas de custos. Vestia calças compridas de cor escura e corte reto, botas de cano curto sem salto e um casaco marrom-escuro sobre uma blusa de gola alta creme. Os cabelos loiros estavam soltos sobre os ombros, ligeiramente desalinhados pelo vento da estrada.
Stephanie trazia nas mãos um pacote retangular dobrado com cuidado, envolto em papel de seda claro.
A executiva fechou a porta do Cadillac sem bater e caminhou pelo pátio de cascalho. Seus passos eram pausados, desacelerados, desprovidos da pressa imperiosa que costumava caracterizar suas aparições em Grand Island. Ao aproximar-se da varanda, a iluminação da lâmpada amarela revelou seu rosto: havia sombras sutis de cansaço sob seus olhos azuis, mas sua expressão era serena, desarmada de qualquer arrogância ou postura defensiva.
Stephanie subiu o primeiro degrau de madeira da varanda. Depois o segundo.
Jane continuou em silêncio absoluto. Ela não se levantou, não disse uma palavra e não fez nenhum gesto de hostilidade. Apenas sustentou o olhar da mulher que se aproximava, o peito subindo e descendo em um ritmo acelerado que desafiava a calma aparente do seu corpo.
Stephanie caminhou pelo assoalho da varanda até parar diante do banco de balanço. Ela olhou para Jane, reparando na tipoia preta ainda firme no ombro e na garrafa de cerveja entre seus dedos.
Sem dizer uma única palavra, Stephanie estendeu os braços e depositou o pacote envolto em papel de seda sobre a pequena mesa de apoio ao lado do banco.
O papel de seda abriu-se ligeiramente com o movimento, revelando o conteúdo: era a camiseta preta de algodão macio que Jane lhe havia emprestado na noite em que Stephanie aparecera embriagada no rancho — lavada, passada com esmero e dobrada com uma precisão impecável.
Jane olhou para o pacote sobre a mesa e depois voltou os olhos para Stephanie.
Stephanie não deu explicações sobre o pacote. Em vez disso, deu um passo para o lado, contornou a borda do móvel e sentou-se no banco de madeira de balanço, ao lado de Jane.
A distância entre as duas no banco curto era de poucos centímetros. O calor do corpo de Stephanie e o perfume amadeirado e sofisticado que ela usava inundaram imediatamente os sentidos de Jane, sobrepondo-se ao cheiro de poeira e óleo queimado que marcara o dia da rancheira e que ainda permanecia em suas narinas.
Ambas ficaram em silêncio.
O silêncio que se instalou na varanda do Rancho Brown não era tenso ou carregado do ressentimento das discussões anteriores. Era uma quietude densa, povoada apenas pela brisa fresca do entardecer que movia as folhas dos carvalhos, pelo estalar sutil da madeira do banco sob o peso das duas e pela respiração ritmada que compartilhavam na penumbra.
Jane deu mais um gole curto na cerveja, o olhar fixo no horizonte escuro dos campos. Ela sentia o quadril de Stephanie roçar suavemente o seu através dos tecidos, um contato simples que fazia seu pulso martelar desenfreado.
Stephanie manteve as mãos cruzadas sobre o colo, encarando o pátio de cascalho e o Cadillac estacionado sob a lua. Pela primeira vez desde que pisara no Nebraska, a presidente da White & Sovereign parecia ter desligado os relógios do mundo das finanças e negócios, com os ponteiros sempre correndo sobre as projeções de lucro, as atas de reuniões e os prazos de expropriação. Ela estava ali simplesmente como uma mulher que atravessara milhas de estrada em um início de noite para estar ao lado da única pessoa que conseguira desarmar sua armadura.
Cinco minutos se passaram naquele silêncio contemplativo e absoluto, onde as palavras pareciam desnecessárias ou incapazes de traduzir a complexidade do vínculo que as unia.
Então, devagar, Stephanie moveu o corpo no banco.
Ela virou-se de lado, apoiando o cotovelo direito no encosto de madeira, e olhou para o perfil de Jane. Observou a linha forte da mandíbula da rancheira, o pescoço bronzeado pelo sol do trabalho, os fios de cabelo castanho soltos e a expressão compenetrada que Jane mantinha.
Stephanie ergueu a mão esquerda. Com uma delicadeza extrema, os dedos finos da executiva tocaram a lateral do rosto de Jane, roçando a pele morna da bochecha e contornando a curva de sua orelha.
Jane travou o movimento no banco, mas não se afastou. Ela virou a cabeça devagar, encarando Stephanie de frente.
Os olhos azuis de Stephanie brilhavam sob a luz fraca da varanda com uma intensidade limpa, despida de qualquer artifício, transbordando de um afeto nú e inevitável. Ela pegou a cerveja da mão de Jane e deu um longo gole no líquido gelado. Em seguida, depositou a garrafa na mesa de apoio ao lado calmamente e virou-se novamente para Jane.
Antes que Jane pudesse formular qualquer pergunta ou erguer qualquer defesa, Stephanie aproximou o rosto de súbito.
Ela colou seus lábios nos de Jane.
Foi um beijo profundo, macio e faminto, nascido da saudade acumulada ao longo de três dias de separação e de orgulho ferido e sentimentos não ditos. A boca de Stephanie buscou a de Jane com uma urgência suave, os lábios se entreabrindo para acolher os da rancheira em uma entrega absoluta. A mão de Stephanie subiu para a nuca de Jane, segurando-a com uma firmeza carinhosa que puxava o rosto da rancheira para mais perto do seu.
Jane cedeu completamente ao contato. Sua mão esquerda livre subiu rapidamente, cravando os dedos na cintura de Stephanie, puxando o corpo da executiva para o seu no banco de balanço. O gosto de Stephanie — uma mistura sutil de menta, o amargor da cerveja e a doçura natural de sua pele — inundou os sentidos de Jane, apagando o cansaço do dia de trabalho, a preocupação com os bezerros e a ameaça iminente dos dez dias restantes do prazo final para quitar a hipoteca.
O beijo prolongou-se por longos e ardentes segundos, com as respirações de ambas se misturando na brisa da noite do Nebraska, uma troca quente e verdadeira onde a rivalidade entre o capital e a resistência da terra simplesmente deixou de existir.
Quando Stephanie finalmente afastou os lábios, mantendo a testa apoiada na de Jane, a respiração entrecortada e os olhos azuis fitando os castanhos a milímetros de distância, a executiva deslizou o polegar com suavidade pelos lábios úmidos da rancheira e sussurrou em um tom baixo, rouco e carregado:
— Eu estava com saudades de você, Jane...
Jane caminhou até a grande escrivaninha de carvalho, puxou a cadeira de madeira e sentou-se com um suspiro pesado, sem se dar ao trabalho de tirar o casaco. A tipoia preta ainda imobilizava seu ombro direito, tornando cada gesto com o braço esquerdo mais lento e deliberado. Sobre o tampo da mesa, a lâmpada iluminava a caderneta de capa de couro sintético onde o pai de Jane anotava, com caligrafia inclinada e precisa, o fluxo de caixa do rancho, ao lado dos envelopes pardos com a marca d'água do Banco do Nebraska.
Hank entrou logo atrás dela, tirando o chapéu de feltro e encostando-se no batente da porta. O velho capataz trazia no rosto as marcas profundas de um dia longo e a apreensão de quem sabia o quanto os números escritos naquela caderneta eram assustadores.
— Oito mil dólares, Hank — começou Jane, a voz rouca cortando o silêncio da sala enquanto a mão esquerda abria a caderneta e corria o indicador pela coluna de valores. — É o que nos falta para cobrir os vinte por cento restantes da última parcela da hipoteca, menos a diferença que ainda temos a receber pelo gado já entregue. Não vai ser suficiente. Faltam treze dias para o prazo final do banco. Se nós não depositarmos esse valor até o encerramento do expediente bancário, a ordem de execução vai para o juiz do condado e a Holding arremata a propriedade no leilão judicial bem fácil.
Hank tirou um lenço xadrez do bolso da calça, limpou a testa e soltou um arfar ruidoso.
— Oito mil dólares em treze dias é uma dinheirama nesta época do ano, patroa — disse o velho, balançando a cabeça. — O que a gente tinha de bom já foi vendido. O que nos resta nos currais são cento e sessenta bezerros. Eles são bons de carcaça, têm boa genética, mas ainda faltam pelo menos noventa dias de engorda para atingirem o peso mínimo de abate no mercado.
Jane inclinou-se para a frente, apoiando o cotovelo esquerdo na mesa e cravando o olhar no mapa da propriedade.
— Eu sei disso, Hank. Mas não temos noventa dias. Nós temos treze — ela rebateu com firmeza, a determinação sobrepujando o cansaço. — Minha ideia é ir pessoalmente até a corretora de gado de Omaha. Vou tentar fechar um contrato de venda futura com adiantamento em dinheiro. Se eu oferecer os cento e sessenta bezerros com um desconto de quinze por cento sobre o valor de arroba pronta, dando a garantia do nosso lote e aceitando que eles fiquem no nosso confinamento até o peso final, nós conseguimos levantar esses oito mil dólares em dinheiro vivo até o fim do prazo.
Hank descruzou os braços, deu dois passos para o interior do escritório e apoiou as duas mãos espalmadas sobre a borda da escrivaninha, encarando a rancheira com gravidade.
— E como a senhora pretende manter esses bezerros ganhando peso nos próximos noventa dias, Jane menina? — perguntou o capataz, usando o apelido de infância para enfatizar o alerta. — A senhora já olhou a planilha de custos de trato desta semana? A chuva que deu há três dias lavou a poeira e encheu um pouco as lagoas do setor sul, mas a seca que vem castigando o Vale do Loup há três anos não acabou e ainda tem o problema do represamento que aquela gente de Chicago fez morro acima. A pastagem natural está queimada pelo sol. Para manter esses cento e sessenta bezerros ganhando peso, nós estamos comprando silagem de milho e farelo de soja de fora do condado. E o preço da tonelada de ração subiu trinta por cento por causa da alta dos combustíveis e da escassez regional.
Ele fez uma pausa, apontando com o indicador grosso para o livro de contas.
— Nós estamos gastando mais do que podemos para comprar essa silagem, Jane. Se a senhora der um desconto de quinze por cento no valor dos Bezerros para pegar o dinheiro adiantado, o que sobrar não vai pagar nem o frete do milho e o combustível das bombas de irrigação. Nós vamos salvar o rancho da hipoteca esta semana para falirmos por falta de insumos daqui a um mês.
Jane fechou os olhos por alguns segundos, massageando a têmpora esquerda. As palavras de Hank eram irrefutáveis. A engenharia financeira para manter uma propriedade daquele porte sem capital de giro em pleno ano de 1980 era um jogo de sobrevivência cruel. O custo do frete, os juros bancários e o preço dos insumos agrícolas afetados pela seca e a alta do combustível pareciam combinados para empurrar o pequeno produtor para o abismo sem fim das hipotecas vencidas.
— Nós não temos escolha, Hank — Jane respondeu, reabrindo os olhos, o tom de voz calmo e inflexível. — Se não pagarmos o Banco em treze dias, não haverá rancho para alimentar gado no mês que vem. Oitenta por cento da dívida da minha família já foi paga com o nosso trabalho. Eu não vou entregar estas quatro gerações de terra para a White & Sovereign por causa de vinte por cento. A gente aperta os cintos, raciona a silagem, corta as despesas da casa e usa o gerador só no horário de pico. Mas eu vou a Omaha buscar esse adiantamento.
Hank encarou a rancheira por longos instantes. Nos olhos castanhos de Jane, ele viu a mesma teimosia inabalável do velho Freddie Brown. O capataz soltou um suspiro profundo, ajustou o chapéu na cabeça e assentiu em resignação.
— Está certo, patroa. Se essa é a decisão, eu vou mandar os meninos revisarem tudo e separarem os lotes no curral de manejo amanhã cedo para começar a acelerar o processo de engorda. Mas a senhora precisa descansar esse ombro antes de encarar a estrada para Omaha.
— Eu vou descansar, Hank. Mas amanhã nós começamos cedo.
Os três dias seguintes desdobraram-se em uma rotina brutal de trabalho sob o céu incerto do Nebraska.
Embora a tempestade do início da semana houvesse trazido um alívio temporário para a poeira e a falta de agua nos canais e reservatórios do rancho, o calor seco do outono logo voltou a dominar a paisagem. A terra sedenta absorvera a água da chuva em questão de horas, mantendo a necessidade imperiosa de irrigação artificial para garantir que os pequenos piquetes de pastagens não morressem.
Jane dividiu as horas entre a escrivaninha e os campos do Rancho Brown. Impedida pelo ombro imobilizado de realizar esforços braçais pesados, ela assumiu a coordenação do trabalho de bombeamento de água a partir do canal central. Acompanhou Hank e os peões no reparo dos velhos motores a diesel que puxavam a água do leito cada vez mais seco para as valas de irrigação dos pastos norte e leste. O barulho ensurdecedor dos motores, o cheiro de óleo queimado e o calor sufocante do sol do meio-dia transformaram as jornadas em provações físicas exaustivas.
Ao mesmo tempo, a pressão política e econômica na cidade continuava a rugir ao fundo. Pelos rádios de pilha, ouvia-se a confirmação de que novos produtores haviam assinado os aditivos contratuais com a White & Sovereign. A Holding avançava silenciosa e eficientemente, assumindo o controle das comportas de agua e consolidando seu domínio hídrico sobre o vale. A resistência isolada do Rancho Brown tornara-se um farol incômodo para os executivos em Chicago e um lembrete doloroso de dignidade para os vizinhos que haviam cedido.
Jane trabalhou sem descanso. Durante o dia, checava a balança do confinamento, ajustava as cotas de ração de silagem para que os bezerros não perdessem peso e organizava as planilhas que levaria para a corretora em Omaha. À noite, a exaustão física e mental impedia que ela pensasse nos desdobramentos de sua vida pessoal — embora a lembrança das palavras de Stephanie no hotel, a intensidade do que acontecera entre elas na Suíte 301 e a conversa reveladora com Sarah Lee na picape permanecessem como um pano de fundo latente, queimando sob a superfície de sua consciência.
No fim da tarde de domingo — faltando exatamente dez dias para o encerramento do prazo da hipoteca bancária —, o trabalho no campo foi finalmente interrompido pelo pôr do sol.
O dia fora especialmente duro. Um dos motores principais de bombeamento de água do canal sofrera uma pane logo cedo, exigindo que Jane e Hank passassem seis horas sob o sol causticante trocando as correias e desentupindo os injetores de combustível. Quando o motor finalmente voltou a funcionar, soltando sua fumaça negra ritmada pelo vale, o corpo de Jane estava no limite absoluto das suas forças.
Eles recolheram as ferramentas na oficina e liberaram os dois funcionários temporários. Jane avisou Hank de que acordaria às quatro horas da manhã seguinte para pegar na primeira hora de viagem rumo a Omaha, onde tentaria a reunião decisiva com os compradores de gado.
Eram quase sete horas da noite quando Jane subiu os degraus da varanda de madeira da casa principal.
O céu do Nebraska ostentava uma gradação de cores espetacular: tons de violeta, rosa e âmbar queimado tingiam as nuvens baixas sobre as colinas do vale. A brisa da noite começava a soprar fria, trazendo o aroma acre de terra e capim seco.
Jane tirou as botas de trabalho na entrada, deixando-as ao lado da porta, foi ao quarto e tomou um banho rápido, trocou de roupa, uma camiseta e um moletom e depois caminhou até a cozinha descalça. Pegou uma garrafa de cerveja na antiga geladeira de porta de trinco, abriu a tampinha com um abridor de garrafas que catou na gaveta dos talheres e voltou para o exterior da casa.
Ela sentou-se no velho banco de madeira de balanço que ficava no canto da varanda, abrigado sob o beiral do telhado. Apoiou a garrafa gelada na coxa esquerda, reclinou a cabeça contra a parede de tábuas de madeira e fechou os olhos, permitindo que a brisa da noite esfriasse o calor do dia em seu rosto. A dor nas costas e o incômodo no ombro imobilizado eram pesados, mas a sensação de dever cumprido nas tarefas do dia trazia um alívio momentâneo. Ela tomou um gole longo da cerveja amarga, sentindo o líquido gelado descer rasgando a garganta seca.
O silêncio do rancho era quebrado apenas pelo coaxar distante dos sapos nas lagoas do setor sul e pelo ranger suave das correntes do banco de balanço sob o seu peso.
Dez minutos se passaram naquela penumbra acolhedora.
Foi então que o som sutil de pneu rolando sobre o cascalho fino da estrada de acesso silenciou o murmúrio da noite.
Jane abriu os olhos devagar. Não era o ronco grave dos caminhões de fazenda nem o barulho solto da picape de Hank. Era um rosnado baixo, aveludado e ritmado — o som inconfundível de um motor de alta cilindrada.
Na curva da estrada de terra que costeava os carvalhos seculares, os faróis duplos de luz amarelada despontaram na penumbra, cortando a névoa fina que começava a subir do chão. O veículo avançou com elegância pela alça de acesso, os refletores iluminando a fachada de madeira da casa e o gramado seco.
O Cadillac Eldorado com sua pintura verde brilhando sob a luz da lua nascente, parou suavemente no centro do pátio de cascalho.
O motor foi desligado. As luzes dos faróis se apagaram, deixando a cena banhada apenas pela claridade fraca da lâmpada da varanda e pela luz prateada do céu de outono.
Jane não se mexeu. Ela permaneceu sentada no banco de balanço, com a garrafa de cerveja segura na mão esquerda, o corpo tenso, os olhos castanhos acompanhando cada movimento.
A porta do motorista do Cadillac abriu-se com um clique suave.
Stephanie White desceu do automóvel.
Ela não trajava as roupas elegantes, os ternos azul ou cinza das reuniões corporativas de negócios, nem trazia a pasta de couro abarrotada de documentos e planilhas de custos. Vestia calças compridas de cor escura e corte reto, botas de cano curto sem salto e um casaco marrom-escuro sobre uma blusa de gola alta creme. Os cabelos loiros estavam soltos sobre os ombros, ligeiramente desalinhados pelo vento da estrada.
Stephanie trazia nas mãos um pacote retangular dobrado com cuidado, envolto em papel de seda claro.
A executiva fechou a porta do Cadillac sem bater e caminhou pelo pátio de cascalho. Seus passos eram pausados, desacelerados, desprovidos da pressa imperiosa que costumava caracterizar suas aparições em Grand Island. Ao aproximar-se da varanda, a iluminação da lâmpada amarela revelou seu rosto: havia sombras sutis de cansaço sob seus olhos azuis, mas sua expressão era serena, desarmada de qualquer arrogância ou postura defensiva.
Stephanie subiu o primeiro degrau de madeira da varanda. Depois o segundo.
Jane continuou em silêncio absoluto. Ela não se levantou, não disse uma palavra e não fez nenhum gesto de hostilidade. Apenas sustentou o olhar da mulher que se aproximava, o peito subindo e descendo em um ritmo acelerado que desafiava a calma aparente do seu corpo.
Stephanie caminhou pelo assoalho da varanda até parar diante do banco de balanço. Ela olhou para Jane, reparando na tipoia preta ainda firme no ombro e na garrafa de cerveja entre seus dedos.
Sem dizer uma única palavra, Stephanie estendeu os braços e depositou o pacote envolto em papel de seda sobre a pequena mesa de apoio ao lado do banco.
O papel de seda abriu-se ligeiramente com o movimento, revelando o conteúdo: era a camiseta preta de algodão macio que Jane lhe havia emprestado na noite em que Stephanie aparecera embriagada no rancho — lavada, passada com esmero e dobrada com uma precisão impecável.
Jane olhou para o pacote sobre a mesa e depois voltou os olhos para Stephanie.
Stephanie não deu explicações sobre o pacote. Em vez disso, deu um passo para o lado, contornou a borda do móvel e sentou-se no banco de madeira de balanço, ao lado de Jane.
A distância entre as duas no banco curto era de poucos centímetros. O calor do corpo de Stephanie e o perfume amadeirado e sofisticado que ela usava inundaram imediatamente os sentidos de Jane, sobrepondo-se ao cheiro de poeira e óleo queimado que marcara o dia da rancheira e que ainda permanecia em suas narinas.
Ambas ficaram em silêncio.
O silêncio que se instalou na varanda do Rancho Brown não era tenso ou carregado do ressentimento das discussões anteriores. Era uma quietude densa, povoada apenas pela brisa fresca do entardecer que movia as folhas dos carvalhos, pelo estalar sutil da madeira do banco sob o peso das duas e pela respiração ritmada que compartilhavam na penumbra.
Jane deu mais um gole curto na cerveja, o olhar fixo no horizonte escuro dos campos. Ela sentia o quadril de Stephanie roçar suavemente o seu através dos tecidos, um contato simples que fazia seu pulso martelar desenfreado.
Stephanie manteve as mãos cruzadas sobre o colo, encarando o pátio de cascalho e o Cadillac estacionado sob a lua. Pela primeira vez desde que pisara no Nebraska, a presidente da White & Sovereign parecia ter desligado os relógios do mundo das finanças e negócios, com os ponteiros sempre correndo sobre as projeções de lucro, as atas de reuniões e os prazos de expropriação. Ela estava ali simplesmente como uma mulher que atravessara milhas de estrada em um início de noite para estar ao lado da única pessoa que conseguira desarmar sua armadura.
Cinco minutos se passaram naquele silêncio contemplativo e absoluto, onde as palavras pareciam desnecessárias ou incapazes de traduzir a complexidade do vínculo que as unia.
Então, devagar, Stephanie moveu o corpo no banco.
Ela virou-se de lado, apoiando o cotovelo direito no encosto de madeira, e olhou para o perfil de Jane. Observou a linha forte da mandíbula da rancheira, o pescoço bronzeado pelo sol do trabalho, os fios de cabelo castanho soltos e a expressão compenetrada que Jane mantinha.
Stephanie ergueu a mão esquerda. Com uma delicadeza extrema, os dedos finos da executiva tocaram a lateral do rosto de Jane, roçando a pele morna da bochecha e contornando a curva de sua orelha.
Jane travou o movimento no banco, mas não se afastou. Ela virou a cabeça devagar, encarando Stephanie de frente.
Os olhos azuis de Stephanie brilhavam sob a luz fraca da varanda com uma intensidade limpa, despida de qualquer artifício, transbordando de um afeto nú e inevitável. Ela pegou a cerveja da mão de Jane e deu um longo gole no líquido gelado. Em seguida, depositou a garrafa na mesa de apoio ao lado calmamente e virou-se novamente para Jane.
Antes que Jane pudesse formular qualquer pergunta ou erguer qualquer defesa, Stephanie aproximou o rosto de súbito.
Ela colou seus lábios nos de Jane.
Foi um beijo profundo, macio e faminto, nascido da saudade acumulada ao longo de três dias de separação e de orgulho ferido e sentimentos não ditos. A boca de Stephanie buscou a de Jane com uma urgência suave, os lábios se entreabrindo para acolher os da rancheira em uma entrega absoluta. A mão de Stephanie subiu para a nuca de Jane, segurando-a com uma firmeza carinhosa que puxava o rosto da rancheira para mais perto do seu.
Jane cedeu completamente ao contato. Sua mão esquerda livre subiu rapidamente, cravando os dedos na cintura de Stephanie, puxando o corpo da executiva para o seu no banco de balanço. O gosto de Stephanie — uma mistura sutil de menta, o amargor da cerveja e a doçura natural de sua pele — inundou os sentidos de Jane, apagando o cansaço do dia de trabalho, a preocupação com os bezerros e a ameaça iminente dos dez dias restantes do prazo final para quitar a hipoteca.
O beijo prolongou-se por longos e ardentes segundos, com as respirações de ambas se misturando na brisa da noite do Nebraska, uma troca quente e verdadeira onde a rivalidade entre o capital e a resistência da terra simplesmente deixou de existir.
Quando Stephanie finalmente afastou os lábios, mantendo a testa apoiada na de Jane, a respiração entrecortada e os olhos azuis fitando os castanhos a milímetros de distância, a executiva deslizou o polegar com suavidade pelos lábios úmidos da rancheira e sussurrou em um tom baixo, rouco e carregado:
— Eu estava com saudades de você, Jane...
Fim do capítulo

Minh@linda!
23/09/2026 às 11:28
Jurava que Stephanie estava levando os documentos que comprovam a herança de Jane.A bichinha tá o pó da rabiola.
Duduka
22/09/2026 às 18:37