O ronco e a aceleração constante do motor da velha picape preta de Sarah Lee cortou a nuvem de poeira que subia do acostamento. Jane bateu a porta do passageiro com firmeza. O interior do veículo trazia um aroma profundamente nostálgico: couro antigo ressecado pelo sol do Nebraska, poeira de estrada e o cheiro doce do aromatizante sintético de baunilha pendurado no retrovisor interno.
Sarah acelerou de forma constante, ganhando velocidade ao passar pelos campos ressequidos que se estendiam até o horizonte. O silêncio entre as duas durou as primeiras três milhas. Não era um silêncio desconfortável, mas vinha denso, carregado de uma curiosidade reprimida que se avolumava a cada metro rodado. Jane mantinha a cabeça encostada no apoio estofado, os olhos castanhos fixos nos postes de madeira da fiação elétrica que passavam em ritmo cadenciado, enquanto sua mão esquerda repousava inquieta sobre o colo, com os dedos comprimindo insistentemente a perna.
Depois de alguns minutos em que apenas o zumbido contínuo dos pneus contra o asfalto e o sopro fraco das saídas de ar do painel da picape preenchia o espaço, Sarah pigarreou. Ela ajeitou as mãos sobre o aro do volante, deu uma rápida olhada de soslaio para a amiga e soltou um riso baixo, de canto.
— Hummm... então... — Sarah esticou a entonação, com o canto da boca curvada em uma ironia afetuosa. — Vai me contar o que está rolando?
Jane soltou o ar devagar pelos lábios, fechando os olhos por um segundo antes de voltar o rosto na direção da amiga. Sabia que tentar inventar desculpas para Sarah Lee era um esforço inútil. Conheciam-se desde a infância, e a cumplicidade de anos tornava qualquer disfarce transparente.
— Por onde você quer que eu comece? — murmurou Jane, passando a mão esquerda pela testa, ajeitando o chapéu de couro no colo.
— Que tal pelo começo? — Sarah sugeriu, reduzindo ligeiramente a velocidade para desviar de uma pequena imperfeição na pista. — Ou melhor... comece pela parte mais interessante. – Disse, ainda sorrindo de canto.
Jane assentiu devagar, buscando as memórias daquela primeira noite que pareciam ainda incandescer em sua pele.
— Naquela noite... quando você me deixou em casa, depois do nosso encontro no bar em Grand Island, eu estava tentando colocar as ideias no lugar. Fiquei dizendo para mim mesma que estava tudo em ordem e que ficaria tudo bem, mas a Stephanie apareceu logo em seguida, logo que você desapareceu na estrada de volta para Grand Island. Ela tinha bebido. Estava claramente alterada, incomodada com o fato de eu ter saído com você, de alguma forma ela nos viu no bar e ficou furiosa, jogando indiretas com aquela postura defensiva e arrogante de sempre. Mas acho que estava completamente desarmada por baixo daquela armadura que ela usa para atacar as pessoas.
Sarah manteve o olhar fixo na estrada, mas a leve inclinação de sua cabeça demonstrava que absorvia cada detalhe.
— Ela foi tirar satisfação? Eu disse aquela vez que você estava ferrada amiga! — disse Sarah, em tom meio divertido.
— Foi. Estava zangada, questionando coisas sem o menor sentido, tentando fingir que era só sobre os negócios e sobre a dívida do rancho e sobre eu não querer assinar a desistência das terras e incentivar os outros a fazer o mesmo. A discussão subiu de tom ainda na varanda, mas a tensão... a tensão entre nós duas já estava insuportável há dias. Uma coisa levou à outra. A raiva virou outra coisa. Nós transamos. Foi confuso, selvagem e desesperado na forma como nos buscamos, mas aconteceu.
Jane fez uma pausa, lembrando-se do impacto daquela primeira noite no quarto da fazenda, do contraste entre a frieza que Stephanie demonstrara, mas que derretera com o calor que as consumira.
— E depois? — estimulou Sarah, mantendo a voz tranquila. — Como as coisas ficaram entre vocês?
— Esse é o grande problema, Sarah. Depois daquela noite, nada voltou ao normal. Nós tentamos... eu tentei fingir que tinha sido um erro absurdo, fruto da bebida e do estresse da hipoteca e a pressão da Holding. Stephanie manteve a postura de presidente, focada nos prazos, na imprensa e nos contratos de concessão de água. Mas a atenção dela comigo... a atenção que ela passou a me dar na cidade, toda vez que nos encontramos novamente, me desarmou por completo, tanto que isso não pode ser casual, é deliberado, eu acho...
Jane virou o corpo ligeiramente na direção do painel, gesticulando com a mão livre para tentar traduzir o turbilhão das últimas semanas.
— Toda vez que eu precisei ir à cidade tratar das burocracias e enfrentá-la ou quando me machuquei no canal, e apareci na reunião na Prefeitura, a Stephanie pareceu se importar. Ela notou este ombro deslocado, a dor, e quando quase caí na saída da assembleia da prefeitura, ela ignorou os advogados, a imprensa, todo mundo. Correu atrás de mim no estacionamento, enfrentou o Hank e me levou para a suíte dela no hotel só para garantir que eu estivesse bem, me deu uma medicação e fez questão que eu comesse alguma coisa. Ela foi extremamente cuidadosa, colocou gelo na minha articulação, preparou chá e me fez descansar, com uma... ternura que não combina em nada com o papel de executiva implacável que ela desempenha no palco dos negócios. É essa atenção constante e protetora que esteve me enlouquecendo. Não condiz com nada do que ela é. Fora as cobranças absurdas, que se não acreditasse na armação, diria que parece ciúmes...
Sarah ouviu o relato em silêncio, acompanhando os gestos de Jane com acenos sutis de cabeça. O motor mantinha seu ronco ritmado, cobrindo milha após milha da paisagem que se transformava à medida que se afastavam do centro urbano. Quando Jane finalmente fez uma pausa longa para tomar ar, Sarah virou o rosto rapidamente, os olhos brilhando com uma certeza absoluta, e disparou sem qualquer rodeio:
— E hoje vocês transaram de novo.
Jane parou no meio de um movimento, os dedos congelados sobre o casaco. O sangue subiu para o seu rosto instantaneamente, queimando suas bochechas de forma incontrolável.
— Como... como você sabe disso? — perguntou Jane, a voz sumindo em um sussurro acanhado.
Sarah soltou uma gargalhada curta, dando uma leve batida no aro do volante antes de responder.
— Está na sua cara, amiga. E estava na cara dela também quando ela saiu pela porta do hotel parecendo um furacão, me olhando como se quisesse me fuzilar. O jeito como você reagiu, essa inquietação, a postura de quem está com o corpo moído e não só pelo braço... e, acima de tudo, esse olhar. Eu conheço esse seu olhar desde quando éramos garotas. É o olhar de quem esteve se enroscando com alguém poucas horas atrás. E... acho que você está completamente apaixonada por ela.
Jane puxou a gola da camisa xadrez para cima, tentando disfarçar o rubor que queimava a pele.
— Não viaja, Sarah! — reagiu Jane, balançando a mão esquerda negativamente, o tom de voz subindo. — Não tem nada a ver com estar apaixonada. Você sabe exatamente a guerra que estou enfrentando contra a Holding. Faltam treze dias para o prazo da hipoteca vencer, as expropriações estão acontecendo e o Vale inteiro está ruindo. O que aconteceu hoje na suíte foi só uma explosão, uma recaída motivada pelo estresse acumulado desses últimos dias. A Stephanie é uma mulher calculista, focada em números e resultados para os acionistas de Chicago. Não existe espaço para romantismo nisso. Tudo nela é calculado, eu conheço muito bem esse jogo!
Sarah olhou para Jane de lado, exibindo um sorriso cheio de uma paciência afetuosa, de quem conhece as defesas da amiga desde sempre.
— Jane, pare um pouco e ouça a si mesma — disse Sarah, com a voz calma e pausada. — Você sempre foi brilhante para analisar relatórios, ler contratos nas entrelinhas e entender de terra e de gado. Mas quando o assunto é o que acontece bem debaixo do seu nariz no campo afetivo, você é simplesmente cega. Você nunca foi de perceber muito as coisas em termos românticos. E quer saber de mais uma coisa? A Stephanie também está caidinha por você. Na verdade, pelo que vi hoje, ela arrasta um caminhão carregado de cimento por você e você não percebe isso!
Jane soltou um riso seco e nervoso, balançando a cabeça em negação absoluta enquanto encarava a estrada.
— Caidinha por mim? Um caminhão de cimento?! A Stephanie White? Sarah, você perdeu o juízo. Isso é um absurdo. Se a Stephanie demonstra esse cuidado todo ou se envolveu comigo de novo, é puramente estratégico.
— Estratégico? — Sarah ergueu uma sobrancelha, divertida.
— Sim, uma estratégia corporativa para me desestabilizar! — afirmou Jane, batendo a mão esquerda sobre o próprio joelho. — Pense bem. O Rancho Brown é o último grande pilar de resistência contra a cessão total dos direitos de água do vale. Ela sabe que, se me mantiver confusa, emocionalmente vulnerável ou distraída por essa atração física, eu perco a força para liderar os outros produtores e contestar as ações da Holding. É um jogo de poder puro e simples. Ela está usando essa atenção para manter o controle da situação.
Sarah encarou a pista reta por alguns segundos e, em seguida, caiu na gargalhada. Foi uma risada alta, franca, que ecoou por toda a cabine da picape preta e fez os ombros da motorista balançarem contra a jaqueta jeans.
— Estratégia de desestabilização? Meu Deus, Jane Cat! — Sarah disse, limpando o canto do olho com as costas da mão. — Você realmente prefere inventar uma conspiração maquiavélica de negócios a aceitar que uma executiva linda e poderosa está desesperadamente apaixonada por você?
— Não é conspiração, é visão pragmática de quem está prestes a perder a terra de quatro gerações! — protestou Jane, embora a firmeza em sua voz começasse a vacilar diante da gargalhada genuína da amiga.
— É uma ilusão, uma defensiva sua, isso sim — corrigiu Sarah, reduzindo o riso, mas mantendo a leveza no olhar. — Jane, você é uma pessoa incrível, mas o seu radar para identificar o interesse das outras pessoas por você sempre esteve completamente desligado. Você não percebe quando alguém está entregue a você. Aliás, você nunca nem percebeu que eu mesma, na nossa adolescência, fui perdidamente apaixonada por você.
O silêncio caiu instantaneamente no interior do veículo. A declaração de Sarah pareceu congelar o ar quente da cabine. Jane virou o rosto devagar na direção da amiga, o choque estampado em suas feições, os olhos castanhos arregalados enquanto processava a revelação.
— O quê? — soprou Jane, a voz falhando por completo. — Você... o quê?
Sarah sorriu — um sorriso suave, nostálgico e destituído de qualquer mágoa —, mantendo as mãos firmes no volante.
— É exatamente o que você ouviu. Na época do colégio, quando tínhamos nossos, dezesseis, dezessete anos, antes de irmos para a faculdade e seguirmos caminhos diferentes... eu era completamente louca por você. Passei um tempão suspirando pelos cantos, desenhando coraçõezinhos com nossas iniciais nos diários, inventando desculpas para ir ao Rancho Brown, oferecendo caronas e te levando para aqueles encontros furtivos que nós tínhamos.
Jane piscou, a mente resgatando imediatamente as lembranças da juventude que guardara na memória em compartimentos bem seguros. Lembrou-se das escapadas noturnas para os fundos do celeiro abandonado no rancho dos pais de Sarah, das conversas sussurradas nas margens do canal sob as estrelas de verão, e principalmente das noites abafadas passadas nos bancos de trás de uma picape velha, estacionada em estradas de terra ermas, onde dividiam beijos afoitos e explorações atrapalhadas, cheias de descobertas e sensações intensas.
— Sarah... aqueles encontros no banco de trás da picape que era do seu pai... — Jane gaguejou, sentindo o rosto queimar com a lembrança da própria ingenuidade. — Eu achava que nós estávamos apenas experimentando coisas, que era uma grande aventura de amigas descobrindo o mundo... Claro, eu gostava muito de você, minha primeira “namoradinha”, mas...
— Para você podia ser uma aventura de descoberta, Jane — disse Sarah, dando uma risada leve. — Mas para mim era uma paixão devastadora. Eu achava que cada beijo roubado naquele banco de couro todo esfarrapado, longe dos olhos do seu pai, do meu pai e da cidade, era uma declaração implícita. Eu esperava que você percebesse o quanto eu tremia quando te tocava nas noites quentes. Mas você simplesmente não enxergava. Na sua cabeça, nós éramos apenas duas garotas do vale dividindo segredos e fugindo do tédio de um lugar em que nunca acontecia nada empolgante. Ficou tudo bem, o tempo passou e aquele sentimento de adolescente amadureceu para a amizade verdadeira que nós temos hoje. Mas estou te contando isso para você entender que a sua cegueira no campo afetivo é antiga. Você não viu quando eu estava apaixonada por você anos atrás, e está cometendo o mesmo erro agora com a Stephanie White. Só que com uma diferença gigante.
— Qual diferença? — perguntou Jane, a voz fraca, absorvendo o peso das palavras.
— A diferença é que você não gostava de mim daquele jeito romanticamente, mas é visceralmente apaixonada por essa mulher de Chicago. E ela por você. Se você continuar se escondendo atrás dessa tese ridícula de “estratégia corporativa para me desestabilizar”, vai perder a chance de viver algo real por puro medo de se entregar.
A picape avançava pela marca das vinte milhas, quase chegando ao rancho Brown. O sol de fim de tarde começava a descer no horizonte do Nebraska, projetando sombras longas e avermelhadas sobre a vegetação rasteira e o terreno seco, mesmo após as chuvas recentes. Jane permaneceu em silêncio por um longo momento, digerindo a revelação sobre o passado e encarando a verdade nua e crua sobre o presente.
As memórias das últimas semanas ao lado de Stephanie passaram por sua mente: o primeiro encontro no rancho, das borboletas no estômago, a noite compartilhada na cama no rancho, o confronto inflamado no auditório, a postura firme da executiva na coletiva, mas também a delicadeza de suas mãos ao aplicar a bolsa de gelo em seu ombro machucado, o toque cuidadoso ao servir o chá quente e a intensidade avassaladora com que se entregaram na cama do hotel. Não havia frieza ou cálculo naqueles momentos. Havia um desejo faminto, proteção e um sentimento denso que nenhuma estratégia que Stephanie pudesse estar usando, seria capaz de simular assim.
— Você acha mesmo... que eu estou me escondendo, fugindo? Stephanie tem me acusado da mesma coisa — perguntou Jane, olhando para a tipoia preta que imobilizava seu braço.
— Tenho certeza e ela com certeza tem razão também — respondeu Sarah, com leve tom maternal. — Você tem medo e também é um bocado orgulhosa para dar o braço a torcer, Jane. O Rancho Brown carrega o peso da memória do seu pai, o legado de quatro gerações, das mulheres lendárias que trouxeram progresso para este Vale e a responsabilidade de manter aqueles fazendeiros unidos. Aceitar que a mulher que representa a ameaça financeira a essa terra também é a mulher que domina o seu coração assusta, porque coloca seus sentimentos em jogo. É muito mais fácil tratar tudo como uma guerra de negócios. Na guerra, você sabe como lutar. No amor... você tem que se render, deixar o orgulho de lado.
A picape cortou as milhas finais da estrada secundária de terra. A poeira subia em uma nuvem alaranjada pela luz do entardecer. As cercas conhecidas da propriedade do Rancho Brown começaram a surgir ao longo da pista, sinalizando o fim do trajeto.
Jane olhava para a paisagem familiar com a mente mais clara, embora o peito continuasse acelerado. A conversa com Sarah removera as camadas de negação que ela erguera como escudo. A lembrança dos encontros furtivos na adolescência trouxe uma onda de carinho profundo e gratidão pela lealdade da amiga, que soubera guardar a história do passado sem permitir que ela tornasse estranha a cumplicidade do presente.
— Obrigada, Sarah — disse Jane, a voz embargada. — De verdade. Eu precisava ouvir tudo isso. E desculpe por ter sido tão desatenta... naquela época.
Sarah sorriu calorosamente, piscando para ela.
— Não peça desculpas por nada. Aquilo faz parte de quem nós fomos no passado. O que importa é quem você é agora e o que vai fazer com essa mulher de Chicago.
A picape fez a curva final e cruzou o grande portão de madeira do Rancho Brown. O pátio de cascalho estava silencioso sob a luz de final de tarde.
Em frente à garagem de maquinários, a picape Ford azul da fazenda estava estacionada. De pé ao lado do veículo, com os braços cruzados sobre o peito e o chapéu de feltro enterrado até as sobrancelhas, o velho capataz Hank aguardava a chegada da patroa. A expressão em seu rosto era de pura preocupação e alívio ao ver a caminhonete preta se aproximar.
Sarah diminuiu a marcha e parou o veículo suavemente em frente à varanda da casa principal, desligando o motor.
— Bem, está entregue. Cuide-se bem, Jane — disse Sarah, voltando-se para a amiga com um tom de despedida afetuoso.
Jane olhou para Sarah e sorriu com sinceridade.
— Eu vou me cuidar. E você também... boa sorte na sua viagem.
As duas se aproximaram no espaço reduzido da cabine e se abraçaram com força — um abraço longo e apertado, cuidadoso para com o ombro ainda um pouco dolorido de Jane, mas que refletia anos de história, segredos compartilhados e uma despedida definitiva do vale.
— Promete que vai manter contato? — pediu Jane ao se afastar.
— Prometo. Escrevo assim que me instalar — respondeu Sarah. — Agora vá lá. O Hank parece que já estava prestes a montar uma comitiva para ir te buscar na cidade.
Jane assentiu.
- É, tenho certeza de que ele faria isso de novo. – Falou, e em seguida abriu a porta da picape e desceu. O ar fresco do início da noite no campo atingiu seu rosto. Ela fechou a porta com um estalo firme e acenou enquanto Sarah ligava o motor e fazia a volta no pátio de cascalho.
Jane permaneceu de pé na entrada, acompanhando com o olhar a picape preta cruzar o portão do rancho e desaparecer na estrada de terra, deixando para trás apenas uma nuvem de poeira que se dissipava contra a luz do sol. A partida de Sarah deixou uma sensação imediata de vazio no pátio, um silêncio melancólico que tornava a vastidão da terra ainda mais evidente.
— Patroa! — a voz áspera de Hank cortou o silêncio enquanto o velho capataz se aproximava a passos rápidos pela varanda. — Graças a Deus a senhorita chegou! Fiquei preocupado quando vi que a senhorita não voltou logo. Ainda bem que aquela moça te trouxe da cidade. A senhorita está bem? Aconteceu alguma coisa lá no hotel?
Jane virou-se devagar para o velho e leal capataz, ajeitando a tipoia no ombro. Ela olhou para a casa da fazenda, para os campos do Rancho Brown e depois para Hank. As palavras de Stephanie no hotel — a promessa de resolver a hipoteca e a exigência de que Jane admitisse o que sentia — ainda ressoavam em sua mente, acompanhadas agora pela clareza trazida pelas palavras de Sarah.
— Eu estou bem, Hank — disse Jane, a voz firme e tranquila, exibindo um sorriso sereno que o capataz não via há semanas. — Está tudo bem. Vamos entrar. Nós temos muito trabalho pela frente.
Sarah acelerou de forma constante, ganhando velocidade ao passar pelos campos ressequidos que se estendiam até o horizonte. O silêncio entre as duas durou as primeiras três milhas. Não era um silêncio desconfortável, mas vinha denso, carregado de uma curiosidade reprimida que se avolumava a cada metro rodado. Jane mantinha a cabeça encostada no apoio estofado, os olhos castanhos fixos nos postes de madeira da fiação elétrica que passavam em ritmo cadenciado, enquanto sua mão esquerda repousava inquieta sobre o colo, com os dedos comprimindo insistentemente a perna.
Depois de alguns minutos em que apenas o zumbido contínuo dos pneus contra o asfalto e o sopro fraco das saídas de ar do painel da picape preenchia o espaço, Sarah pigarreou. Ela ajeitou as mãos sobre o aro do volante, deu uma rápida olhada de soslaio para a amiga e soltou um riso baixo, de canto.
— Hummm... então... — Sarah esticou a entonação, com o canto da boca curvada em uma ironia afetuosa. — Vai me contar o que está rolando?
Jane soltou o ar devagar pelos lábios, fechando os olhos por um segundo antes de voltar o rosto na direção da amiga. Sabia que tentar inventar desculpas para Sarah Lee era um esforço inútil. Conheciam-se desde a infância, e a cumplicidade de anos tornava qualquer disfarce transparente.
— Por onde você quer que eu comece? — murmurou Jane, passando a mão esquerda pela testa, ajeitando o chapéu de couro no colo.
— Que tal pelo começo? — Sarah sugeriu, reduzindo ligeiramente a velocidade para desviar de uma pequena imperfeição na pista. — Ou melhor... comece pela parte mais interessante. – Disse, ainda sorrindo de canto.
Jane assentiu devagar, buscando as memórias daquela primeira noite que pareciam ainda incandescer em sua pele.
— Naquela noite... quando você me deixou em casa, depois do nosso encontro no bar em Grand Island, eu estava tentando colocar as ideias no lugar. Fiquei dizendo para mim mesma que estava tudo em ordem e que ficaria tudo bem, mas a Stephanie apareceu logo em seguida, logo que você desapareceu na estrada de volta para Grand Island. Ela tinha bebido. Estava claramente alterada, incomodada com o fato de eu ter saído com você, de alguma forma ela nos viu no bar e ficou furiosa, jogando indiretas com aquela postura defensiva e arrogante de sempre. Mas acho que estava completamente desarmada por baixo daquela armadura que ela usa para atacar as pessoas.
Sarah manteve o olhar fixo na estrada, mas a leve inclinação de sua cabeça demonstrava que absorvia cada detalhe.
— Ela foi tirar satisfação? Eu disse aquela vez que você estava ferrada amiga! — disse Sarah, em tom meio divertido.
— Foi. Estava zangada, questionando coisas sem o menor sentido, tentando fingir que era só sobre os negócios e sobre a dívida do rancho e sobre eu não querer assinar a desistência das terras e incentivar os outros a fazer o mesmo. A discussão subiu de tom ainda na varanda, mas a tensão... a tensão entre nós duas já estava insuportável há dias. Uma coisa levou à outra. A raiva virou outra coisa. Nós transamos. Foi confuso, selvagem e desesperado na forma como nos buscamos, mas aconteceu.
Jane fez uma pausa, lembrando-se do impacto daquela primeira noite no quarto da fazenda, do contraste entre a frieza que Stephanie demonstrara, mas que derretera com o calor que as consumira.
— E depois? — estimulou Sarah, mantendo a voz tranquila. — Como as coisas ficaram entre vocês?
— Esse é o grande problema, Sarah. Depois daquela noite, nada voltou ao normal. Nós tentamos... eu tentei fingir que tinha sido um erro absurdo, fruto da bebida e do estresse da hipoteca e a pressão da Holding. Stephanie manteve a postura de presidente, focada nos prazos, na imprensa e nos contratos de concessão de água. Mas a atenção dela comigo... a atenção que ela passou a me dar na cidade, toda vez que nos encontramos novamente, me desarmou por completo, tanto que isso não pode ser casual, é deliberado, eu acho...
Jane virou o corpo ligeiramente na direção do painel, gesticulando com a mão livre para tentar traduzir o turbilhão das últimas semanas.
— Toda vez que eu precisei ir à cidade tratar das burocracias e enfrentá-la ou quando me machuquei no canal, e apareci na reunião na Prefeitura, a Stephanie pareceu se importar. Ela notou este ombro deslocado, a dor, e quando quase caí na saída da assembleia da prefeitura, ela ignorou os advogados, a imprensa, todo mundo. Correu atrás de mim no estacionamento, enfrentou o Hank e me levou para a suíte dela no hotel só para garantir que eu estivesse bem, me deu uma medicação e fez questão que eu comesse alguma coisa. Ela foi extremamente cuidadosa, colocou gelo na minha articulação, preparou chá e me fez descansar, com uma... ternura que não combina em nada com o papel de executiva implacável que ela desempenha no palco dos negócios. É essa atenção constante e protetora que esteve me enlouquecendo. Não condiz com nada do que ela é. Fora as cobranças absurdas, que se não acreditasse na armação, diria que parece ciúmes...
Sarah ouviu o relato em silêncio, acompanhando os gestos de Jane com acenos sutis de cabeça. O motor mantinha seu ronco ritmado, cobrindo milha após milha da paisagem que se transformava à medida que se afastavam do centro urbano. Quando Jane finalmente fez uma pausa longa para tomar ar, Sarah virou o rosto rapidamente, os olhos brilhando com uma certeza absoluta, e disparou sem qualquer rodeio:
— E hoje vocês transaram de novo.
Jane parou no meio de um movimento, os dedos congelados sobre o casaco. O sangue subiu para o seu rosto instantaneamente, queimando suas bochechas de forma incontrolável.
— Como... como você sabe disso? — perguntou Jane, a voz sumindo em um sussurro acanhado.
Sarah soltou uma gargalhada curta, dando uma leve batida no aro do volante antes de responder.
— Está na sua cara, amiga. E estava na cara dela também quando ela saiu pela porta do hotel parecendo um furacão, me olhando como se quisesse me fuzilar. O jeito como você reagiu, essa inquietação, a postura de quem está com o corpo moído e não só pelo braço... e, acima de tudo, esse olhar. Eu conheço esse seu olhar desde quando éramos garotas. É o olhar de quem esteve se enroscando com alguém poucas horas atrás. E... acho que você está completamente apaixonada por ela.
Jane puxou a gola da camisa xadrez para cima, tentando disfarçar o rubor que queimava a pele.
— Não viaja, Sarah! — reagiu Jane, balançando a mão esquerda negativamente, o tom de voz subindo. — Não tem nada a ver com estar apaixonada. Você sabe exatamente a guerra que estou enfrentando contra a Holding. Faltam treze dias para o prazo da hipoteca vencer, as expropriações estão acontecendo e o Vale inteiro está ruindo. O que aconteceu hoje na suíte foi só uma explosão, uma recaída motivada pelo estresse acumulado desses últimos dias. A Stephanie é uma mulher calculista, focada em números e resultados para os acionistas de Chicago. Não existe espaço para romantismo nisso. Tudo nela é calculado, eu conheço muito bem esse jogo!
Sarah olhou para Jane de lado, exibindo um sorriso cheio de uma paciência afetuosa, de quem conhece as defesas da amiga desde sempre.
— Jane, pare um pouco e ouça a si mesma — disse Sarah, com a voz calma e pausada. — Você sempre foi brilhante para analisar relatórios, ler contratos nas entrelinhas e entender de terra e de gado. Mas quando o assunto é o que acontece bem debaixo do seu nariz no campo afetivo, você é simplesmente cega. Você nunca foi de perceber muito as coisas em termos românticos. E quer saber de mais uma coisa? A Stephanie também está caidinha por você. Na verdade, pelo que vi hoje, ela arrasta um caminhão carregado de cimento por você e você não percebe isso!
Jane soltou um riso seco e nervoso, balançando a cabeça em negação absoluta enquanto encarava a estrada.
— Caidinha por mim? Um caminhão de cimento?! A Stephanie White? Sarah, você perdeu o juízo. Isso é um absurdo. Se a Stephanie demonstra esse cuidado todo ou se envolveu comigo de novo, é puramente estratégico.
— Estratégico? — Sarah ergueu uma sobrancelha, divertida.
— Sim, uma estratégia corporativa para me desestabilizar! — afirmou Jane, batendo a mão esquerda sobre o próprio joelho. — Pense bem. O Rancho Brown é o último grande pilar de resistência contra a cessão total dos direitos de água do vale. Ela sabe que, se me mantiver confusa, emocionalmente vulnerável ou distraída por essa atração física, eu perco a força para liderar os outros produtores e contestar as ações da Holding. É um jogo de poder puro e simples. Ela está usando essa atenção para manter o controle da situação.
Sarah encarou a pista reta por alguns segundos e, em seguida, caiu na gargalhada. Foi uma risada alta, franca, que ecoou por toda a cabine da picape preta e fez os ombros da motorista balançarem contra a jaqueta jeans.
— Estratégia de desestabilização? Meu Deus, Jane Cat! — Sarah disse, limpando o canto do olho com as costas da mão. — Você realmente prefere inventar uma conspiração maquiavélica de negócios a aceitar que uma executiva linda e poderosa está desesperadamente apaixonada por você?
— Não é conspiração, é visão pragmática de quem está prestes a perder a terra de quatro gerações! — protestou Jane, embora a firmeza em sua voz começasse a vacilar diante da gargalhada genuína da amiga.
— É uma ilusão, uma defensiva sua, isso sim — corrigiu Sarah, reduzindo o riso, mas mantendo a leveza no olhar. — Jane, você é uma pessoa incrível, mas o seu radar para identificar o interesse das outras pessoas por você sempre esteve completamente desligado. Você não percebe quando alguém está entregue a você. Aliás, você nunca nem percebeu que eu mesma, na nossa adolescência, fui perdidamente apaixonada por você.
O silêncio caiu instantaneamente no interior do veículo. A declaração de Sarah pareceu congelar o ar quente da cabine. Jane virou o rosto devagar na direção da amiga, o choque estampado em suas feições, os olhos castanhos arregalados enquanto processava a revelação.
— O quê? — soprou Jane, a voz falhando por completo. — Você... o quê?
Sarah sorriu — um sorriso suave, nostálgico e destituído de qualquer mágoa —, mantendo as mãos firmes no volante.
— É exatamente o que você ouviu. Na época do colégio, quando tínhamos nossos, dezesseis, dezessete anos, antes de irmos para a faculdade e seguirmos caminhos diferentes... eu era completamente louca por você. Passei um tempão suspirando pelos cantos, desenhando coraçõezinhos com nossas iniciais nos diários, inventando desculpas para ir ao Rancho Brown, oferecendo caronas e te levando para aqueles encontros furtivos que nós tínhamos.
Jane piscou, a mente resgatando imediatamente as lembranças da juventude que guardara na memória em compartimentos bem seguros. Lembrou-se das escapadas noturnas para os fundos do celeiro abandonado no rancho dos pais de Sarah, das conversas sussurradas nas margens do canal sob as estrelas de verão, e principalmente das noites abafadas passadas nos bancos de trás de uma picape velha, estacionada em estradas de terra ermas, onde dividiam beijos afoitos e explorações atrapalhadas, cheias de descobertas e sensações intensas.
— Sarah... aqueles encontros no banco de trás da picape que era do seu pai... — Jane gaguejou, sentindo o rosto queimar com a lembrança da própria ingenuidade. — Eu achava que nós estávamos apenas experimentando coisas, que era uma grande aventura de amigas descobrindo o mundo... Claro, eu gostava muito de você, minha primeira “namoradinha”, mas...
— Para você podia ser uma aventura de descoberta, Jane — disse Sarah, dando uma risada leve. — Mas para mim era uma paixão devastadora. Eu achava que cada beijo roubado naquele banco de couro todo esfarrapado, longe dos olhos do seu pai, do meu pai e da cidade, era uma declaração implícita. Eu esperava que você percebesse o quanto eu tremia quando te tocava nas noites quentes. Mas você simplesmente não enxergava. Na sua cabeça, nós éramos apenas duas garotas do vale dividindo segredos e fugindo do tédio de um lugar em que nunca acontecia nada empolgante. Ficou tudo bem, o tempo passou e aquele sentimento de adolescente amadureceu para a amizade verdadeira que nós temos hoje. Mas estou te contando isso para você entender que a sua cegueira no campo afetivo é antiga. Você não viu quando eu estava apaixonada por você anos atrás, e está cometendo o mesmo erro agora com a Stephanie White. Só que com uma diferença gigante.
— Qual diferença? — perguntou Jane, a voz fraca, absorvendo o peso das palavras.
— A diferença é que você não gostava de mim daquele jeito romanticamente, mas é visceralmente apaixonada por essa mulher de Chicago. E ela por você. Se você continuar se escondendo atrás dessa tese ridícula de “estratégia corporativa para me desestabilizar”, vai perder a chance de viver algo real por puro medo de se entregar.
A picape avançava pela marca das vinte milhas, quase chegando ao rancho Brown. O sol de fim de tarde começava a descer no horizonte do Nebraska, projetando sombras longas e avermelhadas sobre a vegetação rasteira e o terreno seco, mesmo após as chuvas recentes. Jane permaneceu em silêncio por um longo momento, digerindo a revelação sobre o passado e encarando a verdade nua e crua sobre o presente.
As memórias das últimas semanas ao lado de Stephanie passaram por sua mente: o primeiro encontro no rancho, das borboletas no estômago, a noite compartilhada na cama no rancho, o confronto inflamado no auditório, a postura firme da executiva na coletiva, mas também a delicadeza de suas mãos ao aplicar a bolsa de gelo em seu ombro machucado, o toque cuidadoso ao servir o chá quente e a intensidade avassaladora com que se entregaram na cama do hotel. Não havia frieza ou cálculo naqueles momentos. Havia um desejo faminto, proteção e um sentimento denso que nenhuma estratégia que Stephanie pudesse estar usando, seria capaz de simular assim.
— Você acha mesmo... que eu estou me escondendo, fugindo? Stephanie tem me acusado da mesma coisa — perguntou Jane, olhando para a tipoia preta que imobilizava seu braço.
— Tenho certeza e ela com certeza tem razão também — respondeu Sarah, com leve tom maternal. — Você tem medo e também é um bocado orgulhosa para dar o braço a torcer, Jane. O Rancho Brown carrega o peso da memória do seu pai, o legado de quatro gerações, das mulheres lendárias que trouxeram progresso para este Vale e a responsabilidade de manter aqueles fazendeiros unidos. Aceitar que a mulher que representa a ameaça financeira a essa terra também é a mulher que domina o seu coração assusta, porque coloca seus sentimentos em jogo. É muito mais fácil tratar tudo como uma guerra de negócios. Na guerra, você sabe como lutar. No amor... você tem que se render, deixar o orgulho de lado.
A picape cortou as milhas finais da estrada secundária de terra. A poeira subia em uma nuvem alaranjada pela luz do entardecer. As cercas conhecidas da propriedade do Rancho Brown começaram a surgir ao longo da pista, sinalizando o fim do trajeto.
Jane olhava para a paisagem familiar com a mente mais clara, embora o peito continuasse acelerado. A conversa com Sarah removera as camadas de negação que ela erguera como escudo. A lembrança dos encontros furtivos na adolescência trouxe uma onda de carinho profundo e gratidão pela lealdade da amiga, que soubera guardar a história do passado sem permitir que ela tornasse estranha a cumplicidade do presente.
— Obrigada, Sarah — disse Jane, a voz embargada. — De verdade. Eu precisava ouvir tudo isso. E desculpe por ter sido tão desatenta... naquela época.
Sarah sorriu calorosamente, piscando para ela.
— Não peça desculpas por nada. Aquilo faz parte de quem nós fomos no passado. O que importa é quem você é agora e o que vai fazer com essa mulher de Chicago.
A picape fez a curva final e cruzou o grande portão de madeira do Rancho Brown. O pátio de cascalho estava silencioso sob a luz de final de tarde.
Em frente à garagem de maquinários, a picape Ford azul da fazenda estava estacionada. De pé ao lado do veículo, com os braços cruzados sobre o peito e o chapéu de feltro enterrado até as sobrancelhas, o velho capataz Hank aguardava a chegada da patroa. A expressão em seu rosto era de pura preocupação e alívio ao ver a caminhonete preta se aproximar.
Sarah diminuiu a marcha e parou o veículo suavemente em frente à varanda da casa principal, desligando o motor.
— Bem, está entregue. Cuide-se bem, Jane — disse Sarah, voltando-se para a amiga com um tom de despedida afetuoso.
Jane olhou para Sarah e sorriu com sinceridade.
— Eu vou me cuidar. E você também... boa sorte na sua viagem.
As duas se aproximaram no espaço reduzido da cabine e se abraçaram com força — um abraço longo e apertado, cuidadoso para com o ombro ainda um pouco dolorido de Jane, mas que refletia anos de história, segredos compartilhados e uma despedida definitiva do vale.
— Promete que vai manter contato? — pediu Jane ao se afastar.
— Prometo. Escrevo assim que me instalar — respondeu Sarah. — Agora vá lá. O Hank parece que já estava prestes a montar uma comitiva para ir te buscar na cidade.
Jane assentiu.
- É, tenho certeza de que ele faria isso de novo. – Falou, e em seguida abriu a porta da picape e desceu. O ar fresco do início da noite no campo atingiu seu rosto. Ela fechou a porta com um estalo firme e acenou enquanto Sarah ligava o motor e fazia a volta no pátio de cascalho.
Jane permaneceu de pé na entrada, acompanhando com o olhar a picape preta cruzar o portão do rancho e desaparecer na estrada de terra, deixando para trás apenas uma nuvem de poeira que se dissipava contra a luz do sol. A partida de Sarah deixou uma sensação imediata de vazio no pátio, um silêncio melancólico que tornava a vastidão da terra ainda mais evidente.
— Patroa! — a voz áspera de Hank cortou o silêncio enquanto o velho capataz se aproximava a passos rápidos pela varanda. — Graças a Deus a senhorita chegou! Fiquei preocupado quando vi que a senhorita não voltou logo. Ainda bem que aquela moça te trouxe da cidade. A senhorita está bem? Aconteceu alguma coisa lá no hotel?
Jane virou-se devagar para o velho e leal capataz, ajeitando a tipoia no ombro. Ela olhou para a casa da fazenda, para os campos do Rancho Brown e depois para Hank. As palavras de Stephanie no hotel — a promessa de resolver a hipoteca e a exigência de que Jane admitisse o que sentia — ainda ressoavam em sua mente, acompanhadas agora pela clareza trazida pelas palavras de Sarah.
— Eu estou bem, Hank — disse Jane, a voz firme e tranquila, exibindo um sorriso sereno que o capataz não via há semanas. — Está tudo bem. Vamos entrar. Nós temos muito trabalho pela frente.
Fim do capítulo

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