O ar dentro da Suíte 301 parecia subitamente escasso, saturado pelo calor agradável produzido pelo radiador, pelo cheiro do tecido do casaco de Jane e pela fragrância cara e amadeirada de Stephanie. Quando os lábios se separaram por uma fração de milímetro, apenas o tempo necessário apenas para que um suspiro entrecortado passasse de uma boca para a outra, a postura de Stephanie já não era mais uma armadura, mas uma força canalizada para o domínio absoluto na cama.
Jane tentou mover o braço esquerdo, insinuando uma reação, talvez no reflexo instintivo de buscar o controle da situação que sempre lhe coube nas lidas do rancho. Stephanie, contudo, percebeu a intenção antes mesmo que se traduzisse em movimento. Com um gesto firme, segurou o pulso de Jane e o conduziu para baixo, prendendo-o contra a cintura da rancheira, enquanto sua outra mão subia pelo pescoço de Jane, os dedos se embrenhando na linha do cabelo até que a palma segurasse sua nuca com uma pressão firme.
— Não — murmurou Stephanie contra a pele quente do pescoço de Jane, a voz sumida em um sussurro grave, desprovido do tom impessoal que usara na coletiva de imprensa, mas revestido da mesma autoridade inquestionável. — Hoje não, Jane. Hoje você não vai comandar nada.
Jane tentou entreabrir os lábios para retrucar, mas a fala foi sumariamente tragada quando Stephanie voltou a tomar sua boca. Não era mais o beijo impetuoso da entrada, fruto da indignação e frustração acumulada, mas uma investida deliberada, lenta e profunda. Stephanie movimentava a boca com uma cadência calculada, chupando o lábio inferior de Jane, exigindo uma rendição que não passava por contratos de concessão, mas sim buscava o rendimento total do corpo da rancheira.
Com passos firmes, mantendo o corpo colado ao de Jane, Stephanie a foi empurrando devagar para trás. Os saltos do sapato de Stephanie marcavam o ritmo no tapete espesso da sala de estar, enquanto as botas de trabalho de Jane recuavam involuntariamente, tropeçando na transição entre o piso de madeira da entrada e a área do quarto principal. Jane sentia a firmeza do peito de Stephanie contra o seu, o corpo dela contra o seu, ditando o caminho a ser seguido.
Quando a parte posterior das pernas de Jane atingiu a borda do colchão na cama, ela vacilou por um segundo. Stephanie não deu espaço para reequilíbrio: pressionou o corpo fazendo-a sentar-se na colcha de seda escura. Antes que Jane pudesse se apoiar ou tentar se levantar, Stephanie curvou-se sobre ela, apoiando um dos joelhos no colchão, ficando exatamente entre as pernas da rancheira.
— Stephanie... — Jane arfou, a mão esquerda buscando apoio no lençol. O olhar castanho estava turvo, oscilando entre o choque da postura dominadora da executiva, diferente da primeira vez, quando era Stephanie que se encontrava vulnerável aos comandos de Jane e a onda de calor que se espalhava por seu ventre. — Eu não...
— Você fala demais quando está brava, e pensa muito mais quando está apavorada — interrompeu Stephanie, olhando-a de cima. Os cabelos loiros, agora totalmente desfeitos do coque austero por conta da mão de Jane momentos antes, caíam em ondas desalinhadas sobre os ombros do terno. A imagem da executiva perfeita, intocável, desmoronava para dar lugar a uma mulher cujos olhos azuis faiscavam com uma determinação quase predatória. — Agora você vai ficar quieta.
Com mãos hábeis e rápidas, Stephanie alcançou os botões do próprio terno de abotoamento duplo. Desfez um por um, sem desviar os olhos dos de Jane. Em seguida, desabotoou os punhos e deslizou o paletó pelos braços, jogando a peça de alfaiataria de corte impecável de qualquer jeito sobre a poltrona ao lado da cama. Ficou apenas com a camisa de seda clara, cujos primeiros botões já estavam abertos, revelando o colo corado pela respiração acelerada.
Jane assistia a tudo sem conseguir mover um músculo. A dor no ombro direito, limitada pela tipoia preta, parecia uma lembrança distante, anestesiada pela descarga de adrenalina. Quando Stephanie se debruçou novamente sobre ela, a executiva começou a desabotoar o casaco de Jane. As mãos de Stephanie eram precisas, mas havia um tremor imperceptível na ponta dos dedos, o único indício de que a compostura dela também estava prestes a ruir.
— A tipoia — instruiu Stephanie baixinho, deslizando o casaco pelos ombros de Jane com um cuidado cirúrgico, evitando qualquer movimento brusco que pudesse causar mais dor a articulação machucada. Quando o casaco caiu ao chão, Stephanie desfez o nó da tipoia com extrema delicadeza, liberando o braço direito de Jane e apoiando-o suavemente sobre um travesseiro macio. — Pronto. Não se mova.
— Você acha que pode simplesmente mandar em mim? — Jane tentou recuperar a voz, embora o tom saísse sem qualquer autoridade real, desprovido do vigor que usara no restaurante.
— Eu não acho, Jane. Neste quarto, nesta cama, eu estou mandando — respondeu Stephanie, a voz descendo mais um tom, resvalando em uma promessa sussurrada.
Stephanie inclinou-se e começou a abrir os botões da camisa xadrez de Jane. A cada pedaço de pele exposta, a executiva depositava um beijo lento e demorado. Desceu pelo pescoço, detendo-se na curva entre a mandíbula e a clavícula, onde sentiu o pulso de Jane disparado, batendo contra seus lábios como um animal encurralado em uma sebe. Jane soltou um arquejo audível, a cabeça pendendo para trás no travesseiro. A mão esquerda de Jane subiu involuntariamente para segurar o braço de Stephanie, mas a executiva suavemente desfez o toque, segurando o pulso de Jane e prendendo-o contra o colchão, ao lado do corpo da rancheira.
— Eu disse para não intervir — sussurrou Stephanie, a boca roçando a pele macia do abdômen de Jane, agora desnudado da camisa.
A sensação do contraste era avassalador. Stephanie, com a textura macia de sua camisa de seda, dominava o corpo de Jane, marcado pelo sol do Nebraska. Quando Stephanie afastou o tecido da camisa e desfez o fecho do sutiã de Jane, o contato direto da língua quente de Stephanie sobre os mamilos enrijecidos fez a rancheira arquear as costas, um gemido agudo escapando entre seus dentes fechados.
— Stephanie... meu Deus... — Jane suplicou, sem saber ao certo se pedia para que ela parasse ou para que continuasse com aquela tortura lenta e deliberada.
Stephanie não respondeu com palavras. Respondeu intensificando o ritmo das carícias. Sua mão livre deslizou pela cintura de Jane, descendo pela linha do jeans até alcançar o fecho da calça. Com movimentos firmes e desimpedidos, desabotoou o jeans e baixou o zíper, deslizando as mãos por baixo do tecido para livrar Jane da peça pesada e das botas, deixando-a apenas com as peças íntimas sobre o lençol.
A visão de Jane — vulnerável, arfando, a pele bronzeada destacando-se contra a colcha e os olhos castanhos brilhando de um desejo incandescente — fez o autocontrole de Stephanie oscilar por um segundo. A executiva rapidamente tirou a própria calça de alfaiataria e a camisa de seda, ficando apenas de lingerie de renda preta. O corpo de Stephanie cobriu o de Jane novamente.
Dessa vez, não houve hesitação. Stephanie guiou a própria mão pelo corpo de Jane, descendo entre as coxas da rancheira. Quando seus dedos tocaram o clitóris de Jane, encontraram-no completamente úmido, aquecido e pronto.
— Olhe para mim — ordenou Stephanie, a voz entrecortada, enquanto começava a mover os dedos com uma precisão torturante.
Jane abriu os olhos com dificuldade. Encontrar o olhar azul fixo no seu, enquanto as mãos de Stephanie ditavam o ritmo de seu prazer, foi o golpe final na resistência dela. Stephanie não permitia que Jane assumisse o controle; a cada vez que Jane tentava erguer o quadril ou buscar o corpo de Stephanie com mais urgência, a executiva desacelerava o movimento por alguns segundos, apenas para reativá-lo em seguida com mais força e profundidade, mantendo a rancheira à beira do abismo, sem permitir que ela se jogasse como queria.
— Você quer isso? — Stephanie sussurrou, deslizando o polegar sobre o ponto mais sensível de Jane, arrancando-lhe um suspiro desesperado. — Admita, Jane. Diga que você quer isso de mim.
— Sim... por favor, Stephanie... — Jane cedeu, a voz embargada, cravando as unhas da mão esquerda no travesseiro enquanto a cabeça se movia de um lado para o outro.
A resposta foi a aceleração implacável dos dedos de Stephanie. O movimento tornou-se contínuo, quente e faminto. Stephanie subiu um pouco mais o corpo e baixou a cabeça, colando os lábios nos de Jane para abafar os gritos de prazer que começavam a escapar da garganta da rancheira. Quando sentiu que o orgasmo viria rápido para Jane, Stephanie desceu o corpo, e lambeu a sua entrada, concentrando-se em movimentos circulares com a língua no clitóris de Jane, o orgasmo vindo finalmente como uma onda incontrolável: seu corpo inteiro estremeceu contra o colchão, os músculos das coxas se contraindo ao redor do rosto e da boca de Stephanie, a respiração transformando-se em arquejos curtos e desordenados enquanto o prazer se espalhava em ondas profundas por cada fibra de seu ser.
Stephanie manteve a boca ali, lambendo, sorvendo delicadamente, até que os espasmos finais de Jane cessassem completamente. Só então se deitou ao lado dela, puxando o edredom sobre ambas e puxando Jane para o seu peito com um abraço firme.
Nos minutos que se seguiram, o silêncio da Suíte 301 desceu como uma trégua, uma concessão provisória de paz. O único som na sala era o murmúrio baixo do radiador e a respiração ritmada de ambas, voltando aos poucos ao normal.
Jane repousava a cabeça no peito nu de Stephanie, ouvindo as batidas firmes do coração da executiva. A mão de Stephanie passeava de forma preguiçosa e carinhosa pelos cabelos castanhos de Jane, desembaraçando os nós que a paixão do momento haviam criado. A hostilidade, a dívida da hipoteca, e o fantasma da concordata pareciam ter sido temporariamente suspensos, banidos para fora daquelas paredes.
Por alguns instantes, Jane permitiu-se fechar os olhos e aproveitar o calor da pele de Stephanie. Havia uma paz estranha naquele enrosco de lençóis e corpos, uma vulnerabilidade que nenhuma das duas ousaria demonstrar sob a luz do sol do Vale do Loup. Stephanie pressionou os lábios no topo da cabeça de Jane, um gesto silencioso de carinho que contrastava terrivelmente com a frieza com que conduzira a coletiva de imprensa dois dias antes.
O silêncio calmo e acolhedor, contudo, dura bem pouco quando o mundo exterior é cruel e decide cobrar seu preço.
Sobre a mesa de cabeceira de carvalho escuro, o telefone fixo da suíte começou a tocar. O toque estridente e metálico cortou a atmosfera do quarto, desfazendo a calma momentanea.
Jane estremeceu contra o peito de Stephanie, abrindo os olhos imediatamente. A realidade voltou com a força de um choque elétrico. Stephanie soltou um suspiro de frustração, mantendo os olhos fechados por dois segundos antes de se esticar sobre Jane para alcançar o gancho.
— Stephanie White — atendeu ela, a voz subitamente assumindo a postura profissional, embora ainda um pouco rouca.
Do outro lado da linha, a voz alterada e audível de Vance ressoava pelo fone:
— Senhorita White! Desculpe interrompê-la, mas a situação no QG da Holding exige sua presença imediata. Os oficiais de justiça do condado acabam de chegar com as ordens preliminares de reintegração de posse e as notificações das primeiras expropriações das propriedades que recusaram o acordo inicial! A equipe jurídica precisa da sua assinatura para dar andamento aos processos de execução das propriedades inadimplentes!
Jane, ouvindo perfeitamente as palavras do advogado do outro lado da linha, congelou. A palavra "expropriações" ressoou na sua mente como um alarme de incêndio.
— Estou descendo em vinte minutos, Vance. Mantenha os oficiais na sala de reuniões e prepare os papéis — respondeu Stephanie, de forma curta e direta, antes de desligar o telefone no gancho com um clique seco.
A executiva virou-se para Jane, mas a rancheira já havia se afastado no colchão. O olhar de Jane, que há pouco brilhava com a névoa do prazer recém gozado, agora transbordava de uma amargura renascida e ainda mais dolorosa.
— Expropriações — disse Jane, a voz fria, sentando-se na borda da cama e começando a recolher suas roupas do chão com movimentos rápidos e ríspidos. — As ordens já estavam prontas. Enquanto você me mantinha aqui, os seus advogados já estavam assinando a tomada das terras dos produtores que se recusaram a aceitar suas chantagens.
— Jane, escute — Stephanie sentou-se, cobrindo o peito com o lençol, a expressão endurecendo ao ver o muro de defesa de Jane se erguer novamente entre ambas. — São os trâmites legais para os produtores que não aceitaram os aditivos. É o procedimento padrão da Holding para garantir que as ordens bancárias sejam...
— Procedimento padrão — Jane riu sem qualquer humor, vestindo a camisa xadrez e abotoando-a com as mãos trêmulas de raiva. Reencaixou o braço direito na tipoia preta com uma careta de dor que tentou disfarçar. — Eu fui uma tola. Uma tola completa por achar que tinha alguma coisa real aqui dentro.
Jane vestiu o casaco por cima da tipoia e pegou o chapéu de couro sobre a escrivaninha. Stephanie levantou-se da cama, enrolada no lençol, e deu um passo em direção a ela.
— Não distorça as coisas, Jane! O que aconteceu nesta cama não tem nada a ver com todo o resto, já disse isso milhares de vezes! Você veio aqui me acusar, me provocou...
— Eu estou indo embora — Jane cortou, caminhando até a porta e pegando a chave sobre a mesa.
— Você não pode ir embora assim, a pé ou de qualquer jeito! — Stephanie exclamou, a raiva voltando a tomar conta de sua voz. — Espera. Eu me visto e te levo de carro até onde você quiser.
— Eu não quero nada que venha de você, Stephanie — Jane respondeu sem olhar para trás, destrancando a porta com um solavanco. — Guarde a sua carona para os seus advogados.
— Jane! Não seja teimosa! — Stephanie gritou, dando mais um passo, mas a porta já havia sido aberta.
Jane saiu para o corredor e bateu a porta com força, o som reverberando pelo andar silencioso. Stephanie ficou parada no meio do quarto, com o lençol enrolado ao corpo, os dentes cravados no lábio inferior e as mãos fechadas em punho de pura frustração. A teimosia daquela rancheira a levava à loucura.
Jane desceu as escadas do hotel a passos largos, recusando-se a esperar pelo elevador privativo. A dor no ombro estalava a cada degrau, mas a dor no peito — o sentimento corrosivo de ter sido novamente ludibriada por sua própria fraqueza física e emocional — era infinitamente pior.
Ao cruzar as portas do saguão, o ar quente e seco da tarde no Nebraska atingiu seu rosto como um tapa. Ela parou na calçada, olhando para ambos os lados da rua principal. Hank já havia ido embora com a picape Ford azul, conforme suas próprias ordens expressas. Ela estava sozinha no centro da cidade, a milhas de distância do Rancho Brown, sem transporte e com o orgulho em farrapos.
— Jane Cat? — uma voz feminina e familiar chamou da borda do meio-fio.
Jane virou-se bruscamente. Parada ao lado da picape preta velha, com o caçamba carregada de caixas de papelão e malas de viagem, estava Sarah Lee.
Sarah vestia uma jaqueta de jeans gasta, o cabelo castanho-claro preso em um rabo de cavalo prático. A primeira namorada de adolescência de Jane, uma cumplicidade antiga que o tempo e a distância haviam transformado em uma amizade sincera e desprovida de outras intenções. Sarah olhava para Jane com uma mistura de surpresa e preocupação.
— Sarah? — Jane deu dois passos na direção dela, a guarda baixando ligeiramente. — O que você está fazendo por aqui?
— Eu passei no armazém para pegar as últimas provisões para a viagem — disse Sarah, aproximando-se e apontando para a bagagem na traseira do veículo. — Estou indo embora do Vale do Loup, Jane, você lembra que te falei sobre isso? Vou me mandar, procurar ares melhores, novas oportunidades...
A notícia caiu pesada sobre Jane. Mais uma peça do vale que se desfazia.
— Eu sinto muito, Sarah... — murmurei Jane, a voz cansada.
— Não sinta. Para mim foi um alívio, de certa forma — Sarah deu um sorriso triste e reparou na tipoia de Jane e no semblante abatido da amiga. — E você? O que está fazendo parada na calçada do hotel com essa cara?
— Eu... eu vim resolver um assunto aqui, mas acabei ficando sem carona — Jane admitiu, passando a mão esquerda pelo rosto. — Estou tentando arranjar um jeito de voltar para o rancho.
— Entre aí — Sarah disse imediatamente, caminhando até a porta do passageiro da picape preta e abrindo-a. — Eu te levo até o Rancho Brown. É o meu caminho de saída mesmo. A gente aproveita e se despede direito.
— Obrigado, Sarah. De verdade — Jane suspirou, aliviada, e deu um passo para se aproximar do veículo. As duas se abraçaram rapidamente, um abraço que refletia todo o carinho que sentiam uma pela, antes que Jane se preparasse para subir no cabine.
Enquanto Jane colocava o pé no estribo da picape de Sarah, o som alto e ritmado de saltos femininos contra o paralelepípedo da calçada fez ambas as mulheres se virarem.
Stephanie White surgira pelas portas do hotel como um furacão.
Ela havia se vestido em tempo recorde, o sobretudo cinza aberto por cima. Os cabelos loiros haviam sido apressadamente alinhados, mas o rosto de Stephanie exibia um rubor de pura indignação. A executiva atravessara a calçada com passos largos e decididos, ignorando os olhares curiosos de dois moradores rurais que passavam do outro lado da rua.
Ao ver Jane abraçada a outra mulher ao lado de uma picape carregada de coisas, algo profundamente irracional acendeu-se no peito de Stephanie. Era ciúme puro, incandescente e incontrolável.
— Jane! — a voz de Stephanie cortou o ar como um estalo, detendo a rancheira no lugar.
Sarah Lee permaneceu ao lado da porta do motorista, franzindo o cenho enquanto observava a mulher elegante se aproximar com os olhos faiscando.
Jane desceu do estribo, virando-se para encarar a executiva.
— O que você quer agora, Stephanie?
Stephanie parou a meio metro de distância de Jane. Ela ignorou completamente a presença de Sarah Lee, embora seu olhar azul tivesse passado rapidamente pela mulher que ela reconhecera como a amiga que estivera com Jane no bar a muitos dias atrás, com uma frieza cortante antes de se fixar totalmente em Jane.
— Você não vai embora assim, agindo como se fosse uma vítima e se jogando nos braços da primeira pessoa que aparece com uma picape! — Stephanie disse, a voz fervendo de ciúmes e raiva contida, o peito subindo e descendo aceleradamente sob o sobretudo.
— A Sarah é minha amiga, você sabe disso e está me oferecendo a carona que eu preciso — Jane rebateu, o tom subindo. — E você não tem absolutamente nada a ver com quem me leva ou deixa de levar para lugar nenhum!
Stephanie deu mais um passo à frente, encurtando a distância até que pudesse encarar Jane diretamente nos olhos, a poucos centímetros de seu rosto. A tensão entre as duas era tão palpável que Sarah Lee, de dentro da cabine da picape preta onde havia se abrigado, acompanhava a cena em absoluto silêncio, impressionada com a eletricidade daquela discussão.
— Realmente. Eu posso não mandar na sua carona, Jane Brown, já que você recusou a minha — Stephanie sussurrou com uma ferocidade controlada, a voz vibrando de uma intensidade que fez Jane prender a respiração. — Mas antes de você subir nessa caminhonete e fugir de mim de novo, você vai escutar muito bem o que eu tenho para te dizer.
Jane travou o maxilar, mas não recuou.
— Lembre-se de duas coisas — prosseguiu Stephanie, cravando os olhos azuis nos castanhos de Jane, sem piscar. — A primeira: eu fiz uma promessa a você naquela cozinha do seu rancho no primeiro dia em que fizemos amor, e vou repetir agora. Tão logo toda essa situação com a Holding e com a água do vale se resolva, eu vou fazer você olhar exatamente nos meus olhos e admitir, sem o seu orgulho idiota para se esconder atrás, tudo o que você sente por mim. Tudo.
Jane abriu a boca, mas as palavras pareceram travar em sua garganta diante da audácia e da certeza absoluta da executiva, a frase “fizemos amor” flutuando entre ambas, aquecendo seu peito de uma forma inexplicável, diante de toda a situação.
— E a segunda promessa — Stephanie continuou, a voz descendo para um tom imperativo, quase solene —, é que eu vou resolver a questão do Rancho Brown. Eu vou resolver a sua hipoteca. Você querendo ou não, entendendo os meus métodos ou não. A única coisa que você precisa fazer, e que parece ser a tarefa mais difícil da sua vida de teimosa é confiar em mim.
Antes que Jane pudesse articular qualquer resposta, antes que a raiva ou a comoção pudessem se transformar em palavras na boca da rancheira, Stephanie deu meia-volta bruscamente. O sobretudo cinza esvoaçou com o movimento rápido enquanto a presidente da White & Sovereign caminhava de volta em direção ao saguão do hotel, a postura ereta, os saltos batendo com firmeza contra o pavimento, sem olhar para trás uma única vez.
Jane permaneceu estática na calçada, o peito arfando, os olhos cravados nas costas de Stephanie até que as portas do hotel se fechassem atrás da executiva.
Da janela aberta da picape preta, Sarah Lee observou o rastro de tensão deixado pela mulher de Chicago. Depois de alguns segundos de silêncio absoluto na rua poeirenta do Vale do Loup, Sarah inclinou-se sobre o banco do passageiro e olhou para Jane, balançando a cabeça com uma expressão que mesclava espanto e ironia:
— Pela mãe de Deus, Jane... Mas o que aconteceu aqui?! — disse Sarah, puxando o freio de mão. — Essa é a tal mulher de Chicago?
Jane engoliu em seco, sentindo o pulso ainda descontrolado. Ela ajustou a tipoia no ombro machucado, voltou a picape e abriu a porta do passageiro, subindo na cabine sem tirar os olhos da fachada do hotel.
— Sim... essa — respondeu Jane, a voz sumida enquanto fechava a porta — é a mulher que está destruindo a minha vida... em todos os sentidos.
Jane tentou mover o braço esquerdo, insinuando uma reação, talvez no reflexo instintivo de buscar o controle da situação que sempre lhe coube nas lidas do rancho. Stephanie, contudo, percebeu a intenção antes mesmo que se traduzisse em movimento. Com um gesto firme, segurou o pulso de Jane e o conduziu para baixo, prendendo-o contra a cintura da rancheira, enquanto sua outra mão subia pelo pescoço de Jane, os dedos se embrenhando na linha do cabelo até que a palma segurasse sua nuca com uma pressão firme.
— Não — murmurou Stephanie contra a pele quente do pescoço de Jane, a voz sumida em um sussurro grave, desprovido do tom impessoal que usara na coletiva de imprensa, mas revestido da mesma autoridade inquestionável. — Hoje não, Jane. Hoje você não vai comandar nada.
Jane tentou entreabrir os lábios para retrucar, mas a fala foi sumariamente tragada quando Stephanie voltou a tomar sua boca. Não era mais o beijo impetuoso da entrada, fruto da indignação e frustração acumulada, mas uma investida deliberada, lenta e profunda. Stephanie movimentava a boca com uma cadência calculada, chupando o lábio inferior de Jane, exigindo uma rendição que não passava por contratos de concessão, mas sim buscava o rendimento total do corpo da rancheira.
Com passos firmes, mantendo o corpo colado ao de Jane, Stephanie a foi empurrando devagar para trás. Os saltos do sapato de Stephanie marcavam o ritmo no tapete espesso da sala de estar, enquanto as botas de trabalho de Jane recuavam involuntariamente, tropeçando na transição entre o piso de madeira da entrada e a área do quarto principal. Jane sentia a firmeza do peito de Stephanie contra o seu, o corpo dela contra o seu, ditando o caminho a ser seguido.
Quando a parte posterior das pernas de Jane atingiu a borda do colchão na cama, ela vacilou por um segundo. Stephanie não deu espaço para reequilíbrio: pressionou o corpo fazendo-a sentar-se na colcha de seda escura. Antes que Jane pudesse se apoiar ou tentar se levantar, Stephanie curvou-se sobre ela, apoiando um dos joelhos no colchão, ficando exatamente entre as pernas da rancheira.
— Stephanie... — Jane arfou, a mão esquerda buscando apoio no lençol. O olhar castanho estava turvo, oscilando entre o choque da postura dominadora da executiva, diferente da primeira vez, quando era Stephanie que se encontrava vulnerável aos comandos de Jane e a onda de calor que se espalhava por seu ventre. — Eu não...
— Você fala demais quando está brava, e pensa muito mais quando está apavorada — interrompeu Stephanie, olhando-a de cima. Os cabelos loiros, agora totalmente desfeitos do coque austero por conta da mão de Jane momentos antes, caíam em ondas desalinhadas sobre os ombros do terno. A imagem da executiva perfeita, intocável, desmoronava para dar lugar a uma mulher cujos olhos azuis faiscavam com uma determinação quase predatória. — Agora você vai ficar quieta.
Com mãos hábeis e rápidas, Stephanie alcançou os botões do próprio terno de abotoamento duplo. Desfez um por um, sem desviar os olhos dos de Jane. Em seguida, desabotoou os punhos e deslizou o paletó pelos braços, jogando a peça de alfaiataria de corte impecável de qualquer jeito sobre a poltrona ao lado da cama. Ficou apenas com a camisa de seda clara, cujos primeiros botões já estavam abertos, revelando o colo corado pela respiração acelerada.
Jane assistia a tudo sem conseguir mover um músculo. A dor no ombro direito, limitada pela tipoia preta, parecia uma lembrança distante, anestesiada pela descarga de adrenalina. Quando Stephanie se debruçou novamente sobre ela, a executiva começou a desabotoar o casaco de Jane. As mãos de Stephanie eram precisas, mas havia um tremor imperceptível na ponta dos dedos, o único indício de que a compostura dela também estava prestes a ruir.
— A tipoia — instruiu Stephanie baixinho, deslizando o casaco pelos ombros de Jane com um cuidado cirúrgico, evitando qualquer movimento brusco que pudesse causar mais dor a articulação machucada. Quando o casaco caiu ao chão, Stephanie desfez o nó da tipoia com extrema delicadeza, liberando o braço direito de Jane e apoiando-o suavemente sobre um travesseiro macio. — Pronto. Não se mova.
— Você acha que pode simplesmente mandar em mim? — Jane tentou recuperar a voz, embora o tom saísse sem qualquer autoridade real, desprovido do vigor que usara no restaurante.
— Eu não acho, Jane. Neste quarto, nesta cama, eu estou mandando — respondeu Stephanie, a voz descendo mais um tom, resvalando em uma promessa sussurrada.
Stephanie inclinou-se e começou a abrir os botões da camisa xadrez de Jane. A cada pedaço de pele exposta, a executiva depositava um beijo lento e demorado. Desceu pelo pescoço, detendo-se na curva entre a mandíbula e a clavícula, onde sentiu o pulso de Jane disparado, batendo contra seus lábios como um animal encurralado em uma sebe. Jane soltou um arquejo audível, a cabeça pendendo para trás no travesseiro. A mão esquerda de Jane subiu involuntariamente para segurar o braço de Stephanie, mas a executiva suavemente desfez o toque, segurando o pulso de Jane e prendendo-o contra o colchão, ao lado do corpo da rancheira.
— Eu disse para não intervir — sussurrou Stephanie, a boca roçando a pele macia do abdômen de Jane, agora desnudado da camisa.
A sensação do contraste era avassalador. Stephanie, com a textura macia de sua camisa de seda, dominava o corpo de Jane, marcado pelo sol do Nebraska. Quando Stephanie afastou o tecido da camisa e desfez o fecho do sutiã de Jane, o contato direto da língua quente de Stephanie sobre os mamilos enrijecidos fez a rancheira arquear as costas, um gemido agudo escapando entre seus dentes fechados.
— Stephanie... meu Deus... — Jane suplicou, sem saber ao certo se pedia para que ela parasse ou para que continuasse com aquela tortura lenta e deliberada.
Stephanie não respondeu com palavras. Respondeu intensificando o ritmo das carícias. Sua mão livre deslizou pela cintura de Jane, descendo pela linha do jeans até alcançar o fecho da calça. Com movimentos firmes e desimpedidos, desabotoou o jeans e baixou o zíper, deslizando as mãos por baixo do tecido para livrar Jane da peça pesada e das botas, deixando-a apenas com as peças íntimas sobre o lençol.
A visão de Jane — vulnerável, arfando, a pele bronzeada destacando-se contra a colcha e os olhos castanhos brilhando de um desejo incandescente — fez o autocontrole de Stephanie oscilar por um segundo. A executiva rapidamente tirou a própria calça de alfaiataria e a camisa de seda, ficando apenas de lingerie de renda preta. O corpo de Stephanie cobriu o de Jane novamente.
Dessa vez, não houve hesitação. Stephanie guiou a própria mão pelo corpo de Jane, descendo entre as coxas da rancheira. Quando seus dedos tocaram o clitóris de Jane, encontraram-no completamente úmido, aquecido e pronto.
— Olhe para mim — ordenou Stephanie, a voz entrecortada, enquanto começava a mover os dedos com uma precisão torturante.
Jane abriu os olhos com dificuldade. Encontrar o olhar azul fixo no seu, enquanto as mãos de Stephanie ditavam o ritmo de seu prazer, foi o golpe final na resistência dela. Stephanie não permitia que Jane assumisse o controle; a cada vez que Jane tentava erguer o quadril ou buscar o corpo de Stephanie com mais urgência, a executiva desacelerava o movimento por alguns segundos, apenas para reativá-lo em seguida com mais força e profundidade, mantendo a rancheira à beira do abismo, sem permitir que ela se jogasse como queria.
— Você quer isso? — Stephanie sussurrou, deslizando o polegar sobre o ponto mais sensível de Jane, arrancando-lhe um suspiro desesperado. — Admita, Jane. Diga que você quer isso de mim.
— Sim... por favor, Stephanie... — Jane cedeu, a voz embargada, cravando as unhas da mão esquerda no travesseiro enquanto a cabeça se movia de um lado para o outro.
A resposta foi a aceleração implacável dos dedos de Stephanie. O movimento tornou-se contínuo, quente e faminto. Stephanie subiu um pouco mais o corpo e baixou a cabeça, colando os lábios nos de Jane para abafar os gritos de prazer que começavam a escapar da garganta da rancheira. Quando sentiu que o orgasmo viria rápido para Jane, Stephanie desceu o corpo, e lambeu a sua entrada, concentrando-se em movimentos circulares com a língua no clitóris de Jane, o orgasmo vindo finalmente como uma onda incontrolável: seu corpo inteiro estremeceu contra o colchão, os músculos das coxas se contraindo ao redor do rosto e da boca de Stephanie, a respiração transformando-se em arquejos curtos e desordenados enquanto o prazer se espalhava em ondas profundas por cada fibra de seu ser.
Stephanie manteve a boca ali, lambendo, sorvendo delicadamente, até que os espasmos finais de Jane cessassem completamente. Só então se deitou ao lado dela, puxando o edredom sobre ambas e puxando Jane para o seu peito com um abraço firme.
Nos minutos que se seguiram, o silêncio da Suíte 301 desceu como uma trégua, uma concessão provisória de paz. O único som na sala era o murmúrio baixo do radiador e a respiração ritmada de ambas, voltando aos poucos ao normal.
Jane repousava a cabeça no peito nu de Stephanie, ouvindo as batidas firmes do coração da executiva. A mão de Stephanie passeava de forma preguiçosa e carinhosa pelos cabelos castanhos de Jane, desembaraçando os nós que a paixão do momento haviam criado. A hostilidade, a dívida da hipoteca, e o fantasma da concordata pareciam ter sido temporariamente suspensos, banidos para fora daquelas paredes.
Por alguns instantes, Jane permitiu-se fechar os olhos e aproveitar o calor da pele de Stephanie. Havia uma paz estranha naquele enrosco de lençóis e corpos, uma vulnerabilidade que nenhuma das duas ousaria demonstrar sob a luz do sol do Vale do Loup. Stephanie pressionou os lábios no topo da cabeça de Jane, um gesto silencioso de carinho que contrastava terrivelmente com a frieza com que conduzira a coletiva de imprensa dois dias antes.
O silêncio calmo e acolhedor, contudo, dura bem pouco quando o mundo exterior é cruel e decide cobrar seu preço.
Sobre a mesa de cabeceira de carvalho escuro, o telefone fixo da suíte começou a tocar. O toque estridente e metálico cortou a atmosfera do quarto, desfazendo a calma momentanea.
Jane estremeceu contra o peito de Stephanie, abrindo os olhos imediatamente. A realidade voltou com a força de um choque elétrico. Stephanie soltou um suspiro de frustração, mantendo os olhos fechados por dois segundos antes de se esticar sobre Jane para alcançar o gancho.
— Stephanie White — atendeu ela, a voz subitamente assumindo a postura profissional, embora ainda um pouco rouca.
Do outro lado da linha, a voz alterada e audível de Vance ressoava pelo fone:
— Senhorita White! Desculpe interrompê-la, mas a situação no QG da Holding exige sua presença imediata. Os oficiais de justiça do condado acabam de chegar com as ordens preliminares de reintegração de posse e as notificações das primeiras expropriações das propriedades que recusaram o acordo inicial! A equipe jurídica precisa da sua assinatura para dar andamento aos processos de execução das propriedades inadimplentes!
Jane, ouvindo perfeitamente as palavras do advogado do outro lado da linha, congelou. A palavra "expropriações" ressoou na sua mente como um alarme de incêndio.
— Estou descendo em vinte minutos, Vance. Mantenha os oficiais na sala de reuniões e prepare os papéis — respondeu Stephanie, de forma curta e direta, antes de desligar o telefone no gancho com um clique seco.
A executiva virou-se para Jane, mas a rancheira já havia se afastado no colchão. O olhar de Jane, que há pouco brilhava com a névoa do prazer recém gozado, agora transbordava de uma amargura renascida e ainda mais dolorosa.
— Expropriações — disse Jane, a voz fria, sentando-se na borda da cama e começando a recolher suas roupas do chão com movimentos rápidos e ríspidos. — As ordens já estavam prontas. Enquanto você me mantinha aqui, os seus advogados já estavam assinando a tomada das terras dos produtores que se recusaram a aceitar suas chantagens.
— Jane, escute — Stephanie sentou-se, cobrindo o peito com o lençol, a expressão endurecendo ao ver o muro de defesa de Jane se erguer novamente entre ambas. — São os trâmites legais para os produtores que não aceitaram os aditivos. É o procedimento padrão da Holding para garantir que as ordens bancárias sejam...
— Procedimento padrão — Jane riu sem qualquer humor, vestindo a camisa xadrez e abotoando-a com as mãos trêmulas de raiva. Reencaixou o braço direito na tipoia preta com uma careta de dor que tentou disfarçar. — Eu fui uma tola. Uma tola completa por achar que tinha alguma coisa real aqui dentro.
Jane vestiu o casaco por cima da tipoia e pegou o chapéu de couro sobre a escrivaninha. Stephanie levantou-se da cama, enrolada no lençol, e deu um passo em direção a ela.
— Não distorça as coisas, Jane! O que aconteceu nesta cama não tem nada a ver com todo o resto, já disse isso milhares de vezes! Você veio aqui me acusar, me provocou...
— Eu estou indo embora — Jane cortou, caminhando até a porta e pegando a chave sobre a mesa.
— Você não pode ir embora assim, a pé ou de qualquer jeito! — Stephanie exclamou, a raiva voltando a tomar conta de sua voz. — Espera. Eu me visto e te levo de carro até onde você quiser.
— Eu não quero nada que venha de você, Stephanie — Jane respondeu sem olhar para trás, destrancando a porta com um solavanco. — Guarde a sua carona para os seus advogados.
— Jane! Não seja teimosa! — Stephanie gritou, dando mais um passo, mas a porta já havia sido aberta.
Jane saiu para o corredor e bateu a porta com força, o som reverberando pelo andar silencioso. Stephanie ficou parada no meio do quarto, com o lençol enrolado ao corpo, os dentes cravados no lábio inferior e as mãos fechadas em punho de pura frustração. A teimosia daquela rancheira a levava à loucura.
Jane desceu as escadas do hotel a passos largos, recusando-se a esperar pelo elevador privativo. A dor no ombro estalava a cada degrau, mas a dor no peito — o sentimento corrosivo de ter sido novamente ludibriada por sua própria fraqueza física e emocional — era infinitamente pior.
Ao cruzar as portas do saguão, o ar quente e seco da tarde no Nebraska atingiu seu rosto como um tapa. Ela parou na calçada, olhando para ambos os lados da rua principal. Hank já havia ido embora com a picape Ford azul, conforme suas próprias ordens expressas. Ela estava sozinha no centro da cidade, a milhas de distância do Rancho Brown, sem transporte e com o orgulho em farrapos.
— Jane Cat? — uma voz feminina e familiar chamou da borda do meio-fio.
Jane virou-se bruscamente. Parada ao lado da picape preta velha, com o caçamba carregada de caixas de papelão e malas de viagem, estava Sarah Lee.
Sarah vestia uma jaqueta de jeans gasta, o cabelo castanho-claro preso em um rabo de cavalo prático. A primeira namorada de adolescência de Jane, uma cumplicidade antiga que o tempo e a distância haviam transformado em uma amizade sincera e desprovida de outras intenções. Sarah olhava para Jane com uma mistura de surpresa e preocupação.
— Sarah? — Jane deu dois passos na direção dela, a guarda baixando ligeiramente. — O que você está fazendo por aqui?
— Eu passei no armazém para pegar as últimas provisões para a viagem — disse Sarah, aproximando-se e apontando para a bagagem na traseira do veículo. — Estou indo embora do Vale do Loup, Jane, você lembra que te falei sobre isso? Vou me mandar, procurar ares melhores, novas oportunidades...
A notícia caiu pesada sobre Jane. Mais uma peça do vale que se desfazia.
— Eu sinto muito, Sarah... — murmurei Jane, a voz cansada.
— Não sinta. Para mim foi um alívio, de certa forma — Sarah deu um sorriso triste e reparou na tipoia de Jane e no semblante abatido da amiga. — E você? O que está fazendo parada na calçada do hotel com essa cara?
— Eu... eu vim resolver um assunto aqui, mas acabei ficando sem carona — Jane admitiu, passando a mão esquerda pelo rosto. — Estou tentando arranjar um jeito de voltar para o rancho.
— Entre aí — Sarah disse imediatamente, caminhando até a porta do passageiro da picape preta e abrindo-a. — Eu te levo até o Rancho Brown. É o meu caminho de saída mesmo. A gente aproveita e se despede direito.
— Obrigado, Sarah. De verdade — Jane suspirou, aliviada, e deu um passo para se aproximar do veículo. As duas se abraçaram rapidamente, um abraço que refletia todo o carinho que sentiam uma pela, antes que Jane se preparasse para subir no cabine.
Enquanto Jane colocava o pé no estribo da picape de Sarah, o som alto e ritmado de saltos femininos contra o paralelepípedo da calçada fez ambas as mulheres se virarem.
Stephanie White surgira pelas portas do hotel como um furacão.
Ela havia se vestido em tempo recorde, o sobretudo cinza aberto por cima. Os cabelos loiros haviam sido apressadamente alinhados, mas o rosto de Stephanie exibia um rubor de pura indignação. A executiva atravessara a calçada com passos largos e decididos, ignorando os olhares curiosos de dois moradores rurais que passavam do outro lado da rua.
Ao ver Jane abraçada a outra mulher ao lado de uma picape carregada de coisas, algo profundamente irracional acendeu-se no peito de Stephanie. Era ciúme puro, incandescente e incontrolável.
— Jane! — a voz de Stephanie cortou o ar como um estalo, detendo a rancheira no lugar.
Sarah Lee permaneceu ao lado da porta do motorista, franzindo o cenho enquanto observava a mulher elegante se aproximar com os olhos faiscando.
Jane desceu do estribo, virando-se para encarar a executiva.
— O que você quer agora, Stephanie?
Stephanie parou a meio metro de distância de Jane. Ela ignorou completamente a presença de Sarah Lee, embora seu olhar azul tivesse passado rapidamente pela mulher que ela reconhecera como a amiga que estivera com Jane no bar a muitos dias atrás, com uma frieza cortante antes de se fixar totalmente em Jane.
— Você não vai embora assim, agindo como se fosse uma vítima e se jogando nos braços da primeira pessoa que aparece com uma picape! — Stephanie disse, a voz fervendo de ciúmes e raiva contida, o peito subindo e descendo aceleradamente sob o sobretudo.
— A Sarah é minha amiga, você sabe disso e está me oferecendo a carona que eu preciso — Jane rebateu, o tom subindo. — E você não tem absolutamente nada a ver com quem me leva ou deixa de levar para lugar nenhum!
Stephanie deu mais um passo à frente, encurtando a distância até que pudesse encarar Jane diretamente nos olhos, a poucos centímetros de seu rosto. A tensão entre as duas era tão palpável que Sarah Lee, de dentro da cabine da picape preta onde havia se abrigado, acompanhava a cena em absoluto silêncio, impressionada com a eletricidade daquela discussão.
— Realmente. Eu posso não mandar na sua carona, Jane Brown, já que você recusou a minha — Stephanie sussurrou com uma ferocidade controlada, a voz vibrando de uma intensidade que fez Jane prender a respiração. — Mas antes de você subir nessa caminhonete e fugir de mim de novo, você vai escutar muito bem o que eu tenho para te dizer.
Jane travou o maxilar, mas não recuou.
— Lembre-se de duas coisas — prosseguiu Stephanie, cravando os olhos azuis nos castanhos de Jane, sem piscar. — A primeira: eu fiz uma promessa a você naquela cozinha do seu rancho no primeiro dia em que fizemos amor, e vou repetir agora. Tão logo toda essa situação com a Holding e com a água do vale se resolva, eu vou fazer você olhar exatamente nos meus olhos e admitir, sem o seu orgulho idiota para se esconder atrás, tudo o que você sente por mim. Tudo.
Jane abriu a boca, mas as palavras pareceram travar em sua garganta diante da audácia e da certeza absoluta da executiva, a frase “fizemos amor” flutuando entre ambas, aquecendo seu peito de uma forma inexplicável, diante de toda a situação.
— E a segunda promessa — Stephanie continuou, a voz descendo para um tom imperativo, quase solene —, é que eu vou resolver a questão do Rancho Brown. Eu vou resolver a sua hipoteca. Você querendo ou não, entendendo os meus métodos ou não. A única coisa que você precisa fazer, e que parece ser a tarefa mais difícil da sua vida de teimosa é confiar em mim.
Antes que Jane pudesse articular qualquer resposta, antes que a raiva ou a comoção pudessem se transformar em palavras na boca da rancheira, Stephanie deu meia-volta bruscamente. O sobretudo cinza esvoaçou com o movimento rápido enquanto a presidente da White & Sovereign caminhava de volta em direção ao saguão do hotel, a postura ereta, os saltos batendo com firmeza contra o pavimento, sem olhar para trás uma única vez.
Jane permaneceu estática na calçada, o peito arfando, os olhos cravados nas costas de Stephanie até que as portas do hotel se fechassem atrás da executiva.
Da janela aberta da picape preta, Sarah Lee observou o rastro de tensão deixado pela mulher de Chicago. Depois de alguns segundos de silêncio absoluto na rua poeirenta do Vale do Loup, Sarah inclinou-se sobre o banco do passageiro e olhou para Jane, balançando a cabeça com uma expressão que mesclava espanto e ironia:
— Pela mãe de Deus, Jane... Mas o que aconteceu aqui?! — disse Sarah, puxando o freio de mão. — Essa é a tal mulher de Chicago?
Jane engoliu em seco, sentindo o pulso ainda descontrolado. Ela ajustou a tipoia no ombro machucado, voltou a picape e abriu a porta do passageiro, subindo na cabine sem tirar os olhos da fachada do hotel.
— Sim... essa — respondeu Jane, a voz sumida enquanto fechava a porta — é a mulher que está destruindo a minha vida... em todos os sentidos.
Fim do capítulo

Duduka
20/09/2026 às 00:45
Minh@linda!
19/09/2026 às 23:17
Stephanie arrasaaa!!!
Fiquei sem ar, que nem Jane, com as promessas dela.
Deu pra ouvir até o som do salto alto no chão.