O amanhecer do dia seguinte trouxe uma névoa espessa, que subia do leito do rio Loup e se entranhava nos vãos dos prédios. Às oito horas da manhã, contudo, a umidade do ar já dava lugar ao calor abafado dos refletores montados no salão do Hotel onde Stephanie estava hospedada. O ambiente cheirava a café forte, fumo, cera de assoalho e ao odor acre de papel jornal recém-impresso.
Dezenas de jornalistas se espremiam nas cadeiras dobráveis de metal. Havia repórteres locais, correspondentes regionais de Omaha e Lincoln, e até mesmo enviados de cadernos de economia de jornais de Chicago, atraídos pela repercussão do impasse entre o capital financeiro e as famílias de produtores rurais do Nebraska. Microfones pesados com os logotipos das redes de rádio e televisão estavam alinhados sobre a mesa coberta por um pano cinza.
Quando a porta lateral se abriu, Stephanie White ingressou no salão com a postura impecável que a elite executiva das grandes metrópoles dominava com perfeição. Trajava um terno feminino de corte reto em tom azul-marinho, de abotoamento duplo, cuja estrutura rígida acentuava a elegância de sua figura. Os cabelos loiros estavam recolhidos em um coque austero, sem um único fio fora do lugar. Ao seu lado, Vance carregava uma pasta de couro abarrotada de documentos, enquanto Pendleton mantinha uma expressão tensa, ajustando o nó da gravata a todo momento.
Stephanie não hesitou diante dos flashes das câmeras fotográficas. Caminhou até o centro da mesa, sentou-se e aguardou que os cliques e o zumbido das conversas cessassem. Não havia papéis de rascunho diante dela — apenas suas duas mãos com unhas bem cuidadas repousando sobre a madeira.
— Senhoras e senhores da imprensa — começou Stephanie, a voz projetando-se com uma clareza cristalina, sem o menor traço da hesitação ou da emoção que presenciara no dia anterior no quarto de hotel. — A White & Sovereign convocou esta coletiva para esclarecer, de forma definitiva, os termos da reestruturação financeira e do plano de desenvolvimento hídrico para o Vale do Loup.
Ela fez uma pausa calculada, permitindo que os gravadores de rolo de fita cassete sobre a mesa registrassem a cadência de suas palavras.
— Ouvimos as preocupações manifestadas pelos produtores locais na assembleia de ontem. A Holding reconhece que a seca severa que assola o estado há três safras consecutivas exige uma abordagem que vá além do rigor estritamente bancário. Por essa razão, por decisão exclusiva da presidência executiva, estamos introduzindo aditivos contratuais de efeito imediato e reconsiderando outros aportes.
Os repórteres inclinaram-se para a frente, as canetas esferográficas em punho, rabiscando os blocos de anotações amarelos.
— Em primeiro lugar — prosseguiu Stephanie, encarando diretamente a lente de uma câmera de TV —, o índice de reajuste sobre a carteira credora, adquirida das hipotecas bancárias sem quitação, deixará de ser atrelado às taxas flutuantes do mercado e passará a ter como teto o preço mínimo de garantia dos produtos agropecuários estabelecidos pelo Governo. Em segundo lugar, estão suspensas todas as execuções de penhoras sobre maquinários agrícolas e bens de subsistência familiar. Nenhum pequeno produtor perderá seus tratores ou sua moradia enquanto mantiver a boa-fé nas tratativas de repactuação.
Um murmúrio surpreso percorreu as fileiras de jornalistas. Vance, ao lado de Stephanie, manteve o rosto inexpressivo, ajustando os óculos, enquanto Pendleton assentia discretamente.
— No entanto — a voz de Stephanie subiu meio tom, recuperando a inflexibilidade que a caracterizava na liderança da White & Sovereign —, para que essas concessões tenham condições técnicas e operacionais, ou seja, sejam viáveis, a Holding exige a contrapartida indispensável prevista no plano original: a cessão irrevogável e definitiva dos direitos de gestão e outorga sobre o canal central de agua e os reservatórios, as bacias de contenção da região.
Um repórter do jornal local levantou a mão, quase se levantando da cadeira.
— Senhorita White! Isso significa que a Holding terá o controle absoluto sobre quem recebe água e em qual quantidade ao longo do vale?
— Isso significa — Stephanie respondeu sem piscar — que a infraestrutura hídrica passará a ser gerida por uma entidade com capacidade de investimento privado para modernizar os canais, estancar os vazamentos e garantir a vazão mínima necessária para a preservação do lençol freático. O direito de propriedade da terra permanece com os fazendeiros; contudo, a água — que é um recurso estratégico e finito — será administrada pela Holding sob concessão de longo prazo. Termos individuais de transição estão sendo entregues nesta manhã a cada proprietário. A oferta de repactuação com as novas garantias permanecerá aberta por cinco dias. Após esse prazo, os títulos vencidos retornarão à execução judicial sumária, sem possibilidade de recurso administrativo.
A declaração caiu sobre a sala como uma sentença sumária. Stephanie oferecera uma promessa do alívio financeiro imediato, mas mantivera o punho de ferro no ponto crucial: o controle da água. Ao dominar o canal, a Holding dominaria, em última instância, a sobrevivência de cada palmo de terra cultivável do vale.
***
Nas quarenta e oito horas seguintes à coletiva de imprensa, o impacto da estratégia de Stephanie começou a se desenhar com a precisão de um jogo de xadrez.
Nos galpões de secagem de grãos, nos armazéns de suprimentos e nas mesas dos pequenos cafés ao longo da rota estadual que cortava o Vale do Loup, o desespero deu lugar ao pragmatismo doloroso. Pequenos proprietários, sufocados por juros acumulados e ameaçados pela penhora iminente de seus lares, viram nas concessões oferecidas pela White & Sovereign uma tábua de salvação real. A promessa de proteger a moradia e o maquinário, aliada à fixação de juros razoáveis, falou mais alto do que a resistência desesperada.
Um a um, sem grandes alardes e evitando os olhares dos vizinhos mais radicais, os produtores começaram a cruzar a porta do prédio do antigo onde o QG de Stephanie estava instalado. Com as mãos calejadas e tremendo de incerteza, assinavam os aditivos preparados pela equipe de Vance. A frente unida de resistência que Jane Brown conseguira erguer no auditório da prefeitura começara a ruir pelas beiradas.
No Rancho Brown, a trinta milhas da cidade, a realidade soprava de forma muito mais impiedosa.
Dois dias após a entrevista coletiva, o fim da manhã ensolarada encontrou Jane na cozinha da casa principal. Seu ombro direito ainda repousava na tipoia preta, embora a dor aguda houvesse cedido para uma rigidez incômoda que ela ignorava com obstinação. Sobre a mesa de fórmica, ao lado de uma xícara de café preto e amargo, repousavam três envelopes pardos com o timbre da instituição financeira de Omaha que detinha a hipoteca sobre o rancho e uma cópia dobrada do jornal local.
A manchete de capa estampava em letras escuras e garrafais: "HOLDING OFERECE TRÉGUA FINANCEIRA, MAS EXIGE O DOMÍNIO DAS ÁGUAS DO VALE". Logo abaixo, uma fotografia em preto e branco mostrava Stephanie White na coletiva de imprensa, impecável, distante, com uma expressão de serena determinação.
Jane leu o artigo duas vezes, a respiração tornando-se pesada a cada linha. Ela reconheceu imediatamente a jogada executada por Stephanie. A presidente da Holding não apenas mantivera o objetivo central de controlar o canal, como usara o alívio financeiro para fragmentar a comunidade de pequenos proprietários, transformando a resistência coletiva em uma soma de desespero individual.
Para piorar a situação, a carta do banco que repousava ao lado do jornal trazia um lembrete categórico e sem rodeios: Faltavam exatamente 13 dias para o encerramento do prazo final de quitação da dívida consolidada do Rancho Brown.
Os vinte por cento restantes da quantia exigida para salvar a propriedade da família Brown, acumulada ao longo de anos de secas e pela hipoteca para a reforma emergencial das comportas do canal principal e manutenção do rancho, ainda era um montante bastante significativo. Mesmo que Jane vendesse todo o lote de gado que restava no pasto, ela não possuía nem metade do capital necessário para quitar por completo a dívida e penhorar o maquinário não era uma opção, pois eram parte da primeira hipoteca realizada por seu pai anos atrás, na tentativa de modernizar o rancho. Se o prazo expirasse sem o pagamento integral do restante da dívida ou sem a assinatura do contrato de concessão da água com a White & Sovereign, o Rancho Brown sofreria execução judicial e a terra de quatro gerações seria arrematada pela Holding no leilão judicial.
A porta da cozinha abriu-se e Hank entrou, retirando o chapéu de feltro e trazendo o cheiro do curral. O semblante do velho capataz trazia uma expressão sombria que dispensava palavras.
— O Carson assinou, patroa — disse Hank, a voz rouca caindo como uma pedra sobre o silêncio do cômodo. — Passou no escritório da Holding ontem à tarde. O Thompson e os outros também assinaram hoje cedo. Estão dizendo que não tinham escolha... que se não aceitassem o que aqueles sanguessugas ofereceram, o banco tomaria os tratores e as terras na próxima semana.
Jane levantou-se da cadeira com um salto bruscamente contido, a mão esquerda batendo sobre a madeira da mesa e fazendo a xícara de café estremecer.
— Escolha?! — a voz de Jane saiu inflamada, a raiva represada explodindo de uma só vez. — Eles tinham a escolha de permanecer unidos! Eles entregaram o canal! Entregaram a agua do vale em troca de um desconto na dívida, que nem por isso vai ser amortizada, o saldo devedor vai continuar lá!
— Eles estão com medo, Jane menina — Hank argumentou com tristeza, tratando-a pelo nome próprio como fazia apenas nos momentos mais críticos. — O povo está cansado de passar dificuldades financeiras. E aquela mulher de Chicago... ela soube exatamente onde apertar. Ela deu um pão velho com uma mão e pegou a chave da água com a outra.
— Ela fez exatamente o que eu sabia que faria — Jane rosnou, o olhar cravado na fotografia de Stephanie no jornal. As lembranças das poucas horas que passaram juntas na Suíte 301 — o cuidado delicado de Stephanie, a bolsa de gelo no ombro, o chá quente, a postura quase vulnerável e aquele beijo suave e contido — pareceram, naquele instante, uma lembrança cruel. Uma distração calculada para mantê-la adormecida e inofensiva enquanto o destino do vale era selado.
A raiva que tomou conta do peito de Jane não era apenas pelos negócios; era uma dor pessoal e ardente, uma sensação de ter sido manipulada no exato momento em que se permitira demonstrar fraqueza diante da executiva.
— Pegue as chaves da picape, Hank — ordenou Jane, a voz vibrando de uma determinação cega e perigosa.
— Patroa, a senhora ainda não pode dirigir com esse ombro...
— Eu disse para pegar a chave! — Jane esbravejou, pegando seu casaco e vestindo-o por cima da camisa xadrez com um movimento brusco que a fez cerrar os dentes de dor, ignorando a fisgada na articulação. — Se você não vai dirigir, eu vou a pé. Mas eu vou àquela cidade hoje. Agora!
Hank percebeu que qualquer tentativa de dissuadir a rancheira seria inútil. Ele suspirou, ajustou o chapéu na cabeça e pegou o chaveiro sobre o aparador.
A picape Ford azul cortou as estradas de terra que levava ao asfalto levantando uma nuvem de poeira seca, os pneus rodando furiosos até alcançar o pavimento de paralelepípedos da cidade, por volta do meio-dia.
O trânsito na rua principal estava movimentado. Produtores rurais em trajes de trabalho cruzavam os passeios, muitos deles evitando encarar o veículo do Rancho Brown quando este passou em direção ao centro da cidade. A presença da picape azul era agora o símbolo incômodo de uma resistência que a maioria preferia esquecer para conseguir dormir à noite.
Jane não mandou Hank parar no escritório da Holding. Ela sabia exatamente onde encontrar a presidente da White & Sovereign na hora do almoço.
A picape freou bruscamente na área de desembarque em frente ao hotel. Antes mesmo que Hank pudesse desligar o motor ou descer para abrir a porta, Jane empurrou a porta do veículo com o pé e desceu para a calçada com passos largos, a barra da calça jeans marcada com a poeira e o semblante fechado como uma tempestade de neve.
— Patroa! Espera! — gritou Hank da janela.
— Volte para o rancho, Hank! — Jane respondeu sem se virar, cruzando as portas de vidro do saguão do hotel. – Eu vou demorar aqui.
O saguão do hotel, com seus tapetes e lustres elegantes, contrastava terrivelmente com a figura de Jane Brown. O recepcionista de terno escuro ergueu os olhos, assustado com a entrada abrupta da rancheira.
— Senhora, posso ajudar? — começou o funcionário, dando um passo à frente para interceptá-la.
Jane nem sequer reduziu o ritmo dos passos.
— Onde está Stephanie White?
— A Senhorita White está no restaurante executivo, mas...
Jane ignorou o homem e caminhou a passos rápidos em direção às portas duplas de madeira que davam acesso ao restaurante privativo do hotel. Ao empurrar as portas, a cena que encontrou atiçou ainda mais a chama de sua indignação.
Stephanie estava sentada a uma mesa reservada no fundo do salão, sob a luz suave de uma luminária. Trajava o mesmo terno azul-marinho da coletiva, perfeitamente arrumada, cortando delicadamente um filé sobre o prato de porcelana fina. Diante dela, Vance e Pendleton discutiam, documentos abertos sobre a toalha de mesa branca, enquanto dois garçons de colete serviam vinho caro.
O som dos saltos das botas de Jane contra o assoalho de madeira fez Stephanie erguer os olhos. Ao reconhecer a figura de Jane caminhando em sua direção com os olhos em chamas, a executiva congelou a colher de molho no ar por um fração de segundo, mas recuperou a compostura quase imediatamente, pondo o talher de volta sobre o prato.
— Jane — disse Stephanie de forma neutra, embora uma ponta de surpresa atravessasse suas feições.
— Você é uma mentirosa descarada, Stephanie! — a voz de Jane ecoou pelo restaurante refinado, fazendo garçons pararem e o casal de idosos na mesa vizinha engasgar com o vinho.
Vance levantou-se num salto, ajustando os óculos com indignação.
— Senhorita Brown! Este é um ambiente privado! A senhora não tem o direito de...
— Cale a boca, Vance! — Jane esbravejou, dando um passo à frente e apoiando a mão esquerda sobre a borda da mesa de Stephanie, inclinando o corpo sobre a executiva. — O meu assunto é com a sua chefe!
Pendleton fez menção de chamar os seguranças do hotel, mas Stephanie ergueu uma das mãos, interrompendo o homem com um gesto imperioso que não admitia réplicas.
— Deixem-nos a sós — ordenou Stephanie, sem desviar o olhar dos olhos castanhos de Jane.
— Mas senhorita Stephanie... — Vance tentou protestar.
— Saiam. Agora. Os dois — Stephanie repetiu, a voz perigosamente baixa.
Vance e Pendleton recolheram rapidamente as pastas de documentos e retiraram-se do salão, lançando olhares furiosos para a rancheira.
Stephanie dobrou o guardanapo de pano sobre a mesa, levantou-se devagar e encarou Jane. A diferença de altura e de trajes entre as duas tornava o confronto visual ainda mais denso.
— Você perdeu completamente o juízo, Jane? — Stephanie perguntou em um sussurro tenso, os olhos azuis faiscando de raiva contida. — Invadir o restaurante do hotel assim, aos gritos?
— Eu não invadi o hotel, eu entrei pela porta, você não viu?! — Jane riu, um riso amargo e carregado. — O que me deixa maluca é a forma como você age! Você se fingiu de humana naquele quarto! Usou a minha dor, colocou gelo no meu ombro, me deu chá e me beijou para me manter quieta enquanto preparava o golpe pelas minhas costas!
— Não fale do que aconteceu naquele quarto como se tivesse sido um subterfúgio para te distrair! — Stephanie disparou, dando um passo para mais perto, a voz subindo ligeiramente. — O que aconteceu lá não teve nada a ver com a Holding! O que acontece entre nós não tem nada a ver...
— Teve tudo a ver! — Jane rebateu, a respiração descompassada. — Você foi para a imprensa e ofereceu esmolas aos pequenos produtores para destruir a resistência deles! Você está comprando o canal pedaço por pedaço! Faltam treze dias para o prazo da minha hipoteca vencer e você sabe perfeitamente que eu não tenho todo o dinheiro! Você planejou isso para me encurralar e me obrigar a ajoelhar diante da sua empresa!
— Eu ofereci uma saída digna para famílias que estavam prestes a perder tudo! — Stephanie respondeu, a indignação avermelhando suas bochechas claras. — Eu baixei os juros! Eu protegi as terras deles! Se você é orgulhosa demais para enxergar que essa era a única forma de salvar o vale de uma execução sumária, a culpa é da sua teimosia irracional!
— O que você chama de saída digna é espoliação pura! — Jane exclamou, avançando mais um passo. – A saída que vocês oferecem carrega a entrega do bem mais precioso, a agua do vale!
O restaurante inteiro assistia à cena em silêncio absoluto. A frase de Jane cortou o ar como um chicote.
Stephanie travou o maxilar. A paciência da executiva — polida ao longo de anos de diplomacia e autocontrole rigoroso — esgotou-se por completo diante da acusação insolente de Jane. Ela cansara de tentar ser racional, cansara das barreiras de orgulho levantadas a todo momento pela rancheira e cansara daquela birra contínua que mascarava a tensão insuportável que queimava entre as duas desde o primeiro instante em que se viram.
Sem dizer uma única palavra, Stephanie deu dois passos largos ao redor da mesa. Antes que Jane pudesse reagir ou se afastar, Stephanie estendeu a mão e segurou com firmeza absoluta o braço esquerdo de Jane, apertando os dedos ao redor do tecido do casaco.
— Me solta, Stephanie! — Jane rosnou, tentando puxar o braço.
— Chega — Stephanie disse, a voz baixa, fria e inflexível como uma ordem de execução. — Você vai subir comigo agora.
— Eu não vou a lugar nenhum com você!
— Você vai subir, nem que eu tenha que chamar quatro funcionários para te arrastarem até lá e criar o maior escândalo que este condado já viu — Stephanie declarou, cravando os olhos azuis nos de Jane com uma intensidade implacável que não deixava margem para dúvidas. — Nós vamos resolver isso sem plateia assistindo.
A força e a determinação repentina de Stephanie surpreenderam Jane. A rancheira, apanhada de surpresa pelo contato físico direto e pela postura dominante da executiva, hesitou por um segundo crucial. Stephanie aproveitou a hesitação e puxou Jane com firmeza em direção à porta lateral do restaurante, ignorando os olhares atônitos dos garçons e do recepcionista.
Elas cruzaram o saguão a passos rápidos. Jane tentava soltar o braço, mas a pegada de Stephanie era de uma firmeza surpreendente, alimentada pela raiva e pelo desejo acumulado.
— Isso é loucura, Stephanie! Me solta! — Jane protestava em sussurros furiosos enquanto era conduzida ao elevador privativo. Dessa vez, Stephanie não optara pelas escadas.
Stephanie empurrou a alavanca do elevador e fechou a grade metálica com um baque seco. O pequeno cubículo começou a subir lentamente em direção ao terceiro andar. O espaço reduzido tornou o ar subitamente denso; a respiração descompassada de ambas preenchia o silêncio, enquanto o perfume caro de Stephanie se misturava ao cheiro de poeira e couro que emanava do casaco de Jane.
Nenhuma das duas disse uma palavra durante a subida. Os olhos azuis de Stephanie permaneciam fixos na porta de ferro, os maxilares contraídos, mantendo a mão firme sobre o braço de Jane. Jane, por sua vez, encarava o perfil da executiva, o peito subindo e descendo com violência, tomado por uma mistura confusa de raiva, indignação e uma atração física assustadora que fazia seu sangue entrar em ebulição.
O elevador parou no terceiro andar com um estalo metálico. Stephanie abriu a grade bruscamente e puxou Jane pelo corredor atapetado, cujos passos abafados pareciam acelerar o ritmo das batidas de seus corações.
Chegaram à porta da Suíte 301. Stephanie retirou a chave do quarto do bolso com a mão livre, tentando encaixá-la na fechadura. Suas mãos tremiam ligeiramente de raiva e impaciência. Na segunda tentativa, o miolo da tranca girou com um estalo metálico firme.
Stephanie empurrou a porta pesada de madeira, puxou Jane para dentro do ambiente e bateu a porta com violência atrás de si.
O som da porta se fechando ressoou pela sala de estar privativa. Stephanie girou a chave na tranca duas vezes e retirou a chave, jogando-a sobre a escrivaninha de madeira com um ruído seco.
Jane virou-se bruscamente, livrando-se finalmente da pegada firme de Stephanie, e deu dois passos para trás, arfando de indignação.
— Ficou louca?! — Jane esbravejou, a voz ecoando pelas paredes da suíte elegante. — Você acha que pode me arrastar pelo hotel como se eu fosse sua propriedade?!
— Cala a boca, Jane! — Stephanie gritou, perdendo completamente a compostura, o rosto corado e os olhos azuis brilhando de raiva.
Stephanie avançou o espaço que as separava com dois passos rápidos. Antes que Jane pudesse concluir a frase ou erguer a mão esquerda para se defender, Stephanie segurou a gola do casaco de Jane com as duas mãos, puxando a rancheira com força contra si, eliminando qualquer distância entre seus corpos.
Antes que a razão pudesse intervir ou que as palavras de raiva pudessem continuar a serem despejadas, Stephanie colou seus lábios nos de Jane em um beijo quente e apaixonado.
Não havia nada do cuidado suave ou do desejo contido do beijo anterior naquela mesma suíte. Era um encontro urgente, faminto e impetuoso, nascido da raiva represada, do cansaço, do orgulho e da atração avassaladora que ambas lutavam em vão para sufocar. Stephanie pressionou a boca contra a de Jane com uma avidez quase desesperada, os lábios buscando os dela com uma força que fez a rancheira soltar um gemido abafado contra seus lábios.
Jane estacou, o cérebro gritando para que se afastasse, para que mantivesse a guarda erguida contra a mulher que ameaçava destruir seu rancho, o legado de sua família. Mas o calor da boca de Stephanie, o perfume de sua pele e a entrega absoluta daquela mulher implacável desarmaram qualquer resistência.
Em uma fração de segundo, a raiva de Jane transformou-se em uma chama correspondente. Esquecendo a dívida, o canal, a imprensa e os treze dias restantes, Jane cedeu por completo. Sua mão esquerda subiu rapidamente, cravando os dedos com força na nuca de Stephanie, soltando alguns fios do coque perfeito e puxando a executiva para ainda mais perto de si.
O beijo aprofundou-se com uma paixão avassaladora. Os lábios de Jane se abriram sob a pressão da boca de Stephanie, e suas línguas se enroscaram em um ritmo quente, desordenado e faminto. Stephanie soltou a gola do casaco e envolveu a cintura de Jane com os braços, puxando o corpo da rancheira contra o seu com tanta força que parecia que seu corpo poderia se fundir ao de Jane.
Jane retribuiu a intensidade do beijo com um ardor acumulado por dias de negação. O som das respirações entrecortadas e dos suspiros abafados preenchia a sala de estar, sobrepondo-se ao ruído suave do radiador na parede oposta, que mantinha o local em uma temperatura agradável.
Stephanie enredou a mão esquerda nos cabelos castanhos de Jane, inclinando a cabeça da rancheira para intensificar ainda mais o contato, explorando a boca de Jane com uma posse absoluta que parecia devorar qualquer vestígio da rivalidade que as dividia no mundo lá fora.
Ali, trancadas no quarto 301, cercadas pela penumbra, da luz difusa de um abajur e distantes das pressões de Chicago e do Vale do Loup, o confronto entre a presidente da Holding e a rancheira deu lugar a um incêndio incontrolável, onde a paixão e o desejo começavam a falar muito mais alto do que qualquer contrato ou orgulho ferido.
Dezenas de jornalistas se espremiam nas cadeiras dobráveis de metal. Havia repórteres locais, correspondentes regionais de Omaha e Lincoln, e até mesmo enviados de cadernos de economia de jornais de Chicago, atraídos pela repercussão do impasse entre o capital financeiro e as famílias de produtores rurais do Nebraska. Microfones pesados com os logotipos das redes de rádio e televisão estavam alinhados sobre a mesa coberta por um pano cinza.
Quando a porta lateral se abriu, Stephanie White ingressou no salão com a postura impecável que a elite executiva das grandes metrópoles dominava com perfeição. Trajava um terno feminino de corte reto em tom azul-marinho, de abotoamento duplo, cuja estrutura rígida acentuava a elegância de sua figura. Os cabelos loiros estavam recolhidos em um coque austero, sem um único fio fora do lugar. Ao seu lado, Vance carregava uma pasta de couro abarrotada de documentos, enquanto Pendleton mantinha uma expressão tensa, ajustando o nó da gravata a todo momento.
Stephanie não hesitou diante dos flashes das câmeras fotográficas. Caminhou até o centro da mesa, sentou-se e aguardou que os cliques e o zumbido das conversas cessassem. Não havia papéis de rascunho diante dela — apenas suas duas mãos com unhas bem cuidadas repousando sobre a madeira.
— Senhoras e senhores da imprensa — começou Stephanie, a voz projetando-se com uma clareza cristalina, sem o menor traço da hesitação ou da emoção que presenciara no dia anterior no quarto de hotel. — A White & Sovereign convocou esta coletiva para esclarecer, de forma definitiva, os termos da reestruturação financeira e do plano de desenvolvimento hídrico para o Vale do Loup.
Ela fez uma pausa calculada, permitindo que os gravadores de rolo de fita cassete sobre a mesa registrassem a cadência de suas palavras.
— Ouvimos as preocupações manifestadas pelos produtores locais na assembleia de ontem. A Holding reconhece que a seca severa que assola o estado há três safras consecutivas exige uma abordagem que vá além do rigor estritamente bancário. Por essa razão, por decisão exclusiva da presidência executiva, estamos introduzindo aditivos contratuais de efeito imediato e reconsiderando outros aportes.
Os repórteres inclinaram-se para a frente, as canetas esferográficas em punho, rabiscando os blocos de anotações amarelos.
— Em primeiro lugar — prosseguiu Stephanie, encarando diretamente a lente de uma câmera de TV —, o índice de reajuste sobre a carteira credora, adquirida das hipotecas bancárias sem quitação, deixará de ser atrelado às taxas flutuantes do mercado e passará a ter como teto o preço mínimo de garantia dos produtos agropecuários estabelecidos pelo Governo. Em segundo lugar, estão suspensas todas as execuções de penhoras sobre maquinários agrícolas e bens de subsistência familiar. Nenhum pequeno produtor perderá seus tratores ou sua moradia enquanto mantiver a boa-fé nas tratativas de repactuação.
Um murmúrio surpreso percorreu as fileiras de jornalistas. Vance, ao lado de Stephanie, manteve o rosto inexpressivo, ajustando os óculos, enquanto Pendleton assentia discretamente.
— No entanto — a voz de Stephanie subiu meio tom, recuperando a inflexibilidade que a caracterizava na liderança da White & Sovereign —, para que essas concessões tenham condições técnicas e operacionais, ou seja, sejam viáveis, a Holding exige a contrapartida indispensável prevista no plano original: a cessão irrevogável e definitiva dos direitos de gestão e outorga sobre o canal central de agua e os reservatórios, as bacias de contenção da região.
Um repórter do jornal local levantou a mão, quase se levantando da cadeira.
— Senhorita White! Isso significa que a Holding terá o controle absoluto sobre quem recebe água e em qual quantidade ao longo do vale?
— Isso significa — Stephanie respondeu sem piscar — que a infraestrutura hídrica passará a ser gerida por uma entidade com capacidade de investimento privado para modernizar os canais, estancar os vazamentos e garantir a vazão mínima necessária para a preservação do lençol freático. O direito de propriedade da terra permanece com os fazendeiros; contudo, a água — que é um recurso estratégico e finito — será administrada pela Holding sob concessão de longo prazo. Termos individuais de transição estão sendo entregues nesta manhã a cada proprietário. A oferta de repactuação com as novas garantias permanecerá aberta por cinco dias. Após esse prazo, os títulos vencidos retornarão à execução judicial sumária, sem possibilidade de recurso administrativo.
A declaração caiu sobre a sala como uma sentença sumária. Stephanie oferecera uma promessa do alívio financeiro imediato, mas mantivera o punho de ferro no ponto crucial: o controle da água. Ao dominar o canal, a Holding dominaria, em última instância, a sobrevivência de cada palmo de terra cultivável do vale.
***
Nas quarenta e oito horas seguintes à coletiva de imprensa, o impacto da estratégia de Stephanie começou a se desenhar com a precisão de um jogo de xadrez.
Nos galpões de secagem de grãos, nos armazéns de suprimentos e nas mesas dos pequenos cafés ao longo da rota estadual que cortava o Vale do Loup, o desespero deu lugar ao pragmatismo doloroso. Pequenos proprietários, sufocados por juros acumulados e ameaçados pela penhora iminente de seus lares, viram nas concessões oferecidas pela White & Sovereign uma tábua de salvação real. A promessa de proteger a moradia e o maquinário, aliada à fixação de juros razoáveis, falou mais alto do que a resistência desesperada.
Um a um, sem grandes alardes e evitando os olhares dos vizinhos mais radicais, os produtores começaram a cruzar a porta do prédio do antigo onde o QG de Stephanie estava instalado. Com as mãos calejadas e tremendo de incerteza, assinavam os aditivos preparados pela equipe de Vance. A frente unida de resistência que Jane Brown conseguira erguer no auditório da prefeitura começara a ruir pelas beiradas.
No Rancho Brown, a trinta milhas da cidade, a realidade soprava de forma muito mais impiedosa.
Dois dias após a entrevista coletiva, o fim da manhã ensolarada encontrou Jane na cozinha da casa principal. Seu ombro direito ainda repousava na tipoia preta, embora a dor aguda houvesse cedido para uma rigidez incômoda que ela ignorava com obstinação. Sobre a mesa de fórmica, ao lado de uma xícara de café preto e amargo, repousavam três envelopes pardos com o timbre da instituição financeira de Omaha que detinha a hipoteca sobre o rancho e uma cópia dobrada do jornal local.
A manchete de capa estampava em letras escuras e garrafais: "HOLDING OFERECE TRÉGUA FINANCEIRA, MAS EXIGE O DOMÍNIO DAS ÁGUAS DO VALE". Logo abaixo, uma fotografia em preto e branco mostrava Stephanie White na coletiva de imprensa, impecável, distante, com uma expressão de serena determinação.
Jane leu o artigo duas vezes, a respiração tornando-se pesada a cada linha. Ela reconheceu imediatamente a jogada executada por Stephanie. A presidente da Holding não apenas mantivera o objetivo central de controlar o canal, como usara o alívio financeiro para fragmentar a comunidade de pequenos proprietários, transformando a resistência coletiva em uma soma de desespero individual.
Para piorar a situação, a carta do banco que repousava ao lado do jornal trazia um lembrete categórico e sem rodeios: Faltavam exatamente 13 dias para o encerramento do prazo final de quitação da dívida consolidada do Rancho Brown.
Os vinte por cento restantes da quantia exigida para salvar a propriedade da família Brown, acumulada ao longo de anos de secas e pela hipoteca para a reforma emergencial das comportas do canal principal e manutenção do rancho, ainda era um montante bastante significativo. Mesmo que Jane vendesse todo o lote de gado que restava no pasto, ela não possuía nem metade do capital necessário para quitar por completo a dívida e penhorar o maquinário não era uma opção, pois eram parte da primeira hipoteca realizada por seu pai anos atrás, na tentativa de modernizar o rancho. Se o prazo expirasse sem o pagamento integral do restante da dívida ou sem a assinatura do contrato de concessão da água com a White & Sovereign, o Rancho Brown sofreria execução judicial e a terra de quatro gerações seria arrematada pela Holding no leilão judicial.
A porta da cozinha abriu-se e Hank entrou, retirando o chapéu de feltro e trazendo o cheiro do curral. O semblante do velho capataz trazia uma expressão sombria que dispensava palavras.
— O Carson assinou, patroa — disse Hank, a voz rouca caindo como uma pedra sobre o silêncio do cômodo. — Passou no escritório da Holding ontem à tarde. O Thompson e os outros também assinaram hoje cedo. Estão dizendo que não tinham escolha... que se não aceitassem o que aqueles sanguessugas ofereceram, o banco tomaria os tratores e as terras na próxima semana.
Jane levantou-se da cadeira com um salto bruscamente contido, a mão esquerda batendo sobre a madeira da mesa e fazendo a xícara de café estremecer.
— Escolha?! — a voz de Jane saiu inflamada, a raiva represada explodindo de uma só vez. — Eles tinham a escolha de permanecer unidos! Eles entregaram o canal! Entregaram a agua do vale em troca de um desconto na dívida, que nem por isso vai ser amortizada, o saldo devedor vai continuar lá!
— Eles estão com medo, Jane menina — Hank argumentou com tristeza, tratando-a pelo nome próprio como fazia apenas nos momentos mais críticos. — O povo está cansado de passar dificuldades financeiras. E aquela mulher de Chicago... ela soube exatamente onde apertar. Ela deu um pão velho com uma mão e pegou a chave da água com a outra.
— Ela fez exatamente o que eu sabia que faria — Jane rosnou, o olhar cravado na fotografia de Stephanie no jornal. As lembranças das poucas horas que passaram juntas na Suíte 301 — o cuidado delicado de Stephanie, a bolsa de gelo no ombro, o chá quente, a postura quase vulnerável e aquele beijo suave e contido — pareceram, naquele instante, uma lembrança cruel. Uma distração calculada para mantê-la adormecida e inofensiva enquanto o destino do vale era selado.
A raiva que tomou conta do peito de Jane não era apenas pelos negócios; era uma dor pessoal e ardente, uma sensação de ter sido manipulada no exato momento em que se permitira demonstrar fraqueza diante da executiva.
— Pegue as chaves da picape, Hank — ordenou Jane, a voz vibrando de uma determinação cega e perigosa.
— Patroa, a senhora ainda não pode dirigir com esse ombro...
— Eu disse para pegar a chave! — Jane esbravejou, pegando seu casaco e vestindo-o por cima da camisa xadrez com um movimento brusco que a fez cerrar os dentes de dor, ignorando a fisgada na articulação. — Se você não vai dirigir, eu vou a pé. Mas eu vou àquela cidade hoje. Agora!
Hank percebeu que qualquer tentativa de dissuadir a rancheira seria inútil. Ele suspirou, ajustou o chapéu na cabeça e pegou o chaveiro sobre o aparador.
A picape Ford azul cortou as estradas de terra que levava ao asfalto levantando uma nuvem de poeira seca, os pneus rodando furiosos até alcançar o pavimento de paralelepípedos da cidade, por volta do meio-dia.
O trânsito na rua principal estava movimentado. Produtores rurais em trajes de trabalho cruzavam os passeios, muitos deles evitando encarar o veículo do Rancho Brown quando este passou em direção ao centro da cidade. A presença da picape azul era agora o símbolo incômodo de uma resistência que a maioria preferia esquecer para conseguir dormir à noite.
Jane não mandou Hank parar no escritório da Holding. Ela sabia exatamente onde encontrar a presidente da White & Sovereign na hora do almoço.
A picape freou bruscamente na área de desembarque em frente ao hotel. Antes mesmo que Hank pudesse desligar o motor ou descer para abrir a porta, Jane empurrou a porta do veículo com o pé e desceu para a calçada com passos largos, a barra da calça jeans marcada com a poeira e o semblante fechado como uma tempestade de neve.
— Patroa! Espera! — gritou Hank da janela.
— Volte para o rancho, Hank! — Jane respondeu sem se virar, cruzando as portas de vidro do saguão do hotel. – Eu vou demorar aqui.
O saguão do hotel, com seus tapetes e lustres elegantes, contrastava terrivelmente com a figura de Jane Brown. O recepcionista de terno escuro ergueu os olhos, assustado com a entrada abrupta da rancheira.
— Senhora, posso ajudar? — começou o funcionário, dando um passo à frente para interceptá-la.
Jane nem sequer reduziu o ritmo dos passos.
— Onde está Stephanie White?
— A Senhorita White está no restaurante executivo, mas...
Jane ignorou o homem e caminhou a passos rápidos em direção às portas duplas de madeira que davam acesso ao restaurante privativo do hotel. Ao empurrar as portas, a cena que encontrou atiçou ainda mais a chama de sua indignação.
Stephanie estava sentada a uma mesa reservada no fundo do salão, sob a luz suave de uma luminária. Trajava o mesmo terno azul-marinho da coletiva, perfeitamente arrumada, cortando delicadamente um filé sobre o prato de porcelana fina. Diante dela, Vance e Pendleton discutiam, documentos abertos sobre a toalha de mesa branca, enquanto dois garçons de colete serviam vinho caro.
O som dos saltos das botas de Jane contra o assoalho de madeira fez Stephanie erguer os olhos. Ao reconhecer a figura de Jane caminhando em sua direção com os olhos em chamas, a executiva congelou a colher de molho no ar por um fração de segundo, mas recuperou a compostura quase imediatamente, pondo o talher de volta sobre o prato.
— Jane — disse Stephanie de forma neutra, embora uma ponta de surpresa atravessasse suas feições.
— Você é uma mentirosa descarada, Stephanie! — a voz de Jane ecoou pelo restaurante refinado, fazendo garçons pararem e o casal de idosos na mesa vizinha engasgar com o vinho.
Vance levantou-se num salto, ajustando os óculos com indignação.
— Senhorita Brown! Este é um ambiente privado! A senhora não tem o direito de...
— Cale a boca, Vance! — Jane esbravejou, dando um passo à frente e apoiando a mão esquerda sobre a borda da mesa de Stephanie, inclinando o corpo sobre a executiva. — O meu assunto é com a sua chefe!
Pendleton fez menção de chamar os seguranças do hotel, mas Stephanie ergueu uma das mãos, interrompendo o homem com um gesto imperioso que não admitia réplicas.
— Deixem-nos a sós — ordenou Stephanie, sem desviar o olhar dos olhos castanhos de Jane.
— Mas senhorita Stephanie... — Vance tentou protestar.
— Saiam. Agora. Os dois — Stephanie repetiu, a voz perigosamente baixa.
Vance e Pendleton recolheram rapidamente as pastas de documentos e retiraram-se do salão, lançando olhares furiosos para a rancheira.
Stephanie dobrou o guardanapo de pano sobre a mesa, levantou-se devagar e encarou Jane. A diferença de altura e de trajes entre as duas tornava o confronto visual ainda mais denso.
— Você perdeu completamente o juízo, Jane? — Stephanie perguntou em um sussurro tenso, os olhos azuis faiscando de raiva contida. — Invadir o restaurante do hotel assim, aos gritos?
— Eu não invadi o hotel, eu entrei pela porta, você não viu?! — Jane riu, um riso amargo e carregado. — O que me deixa maluca é a forma como você age! Você se fingiu de humana naquele quarto! Usou a minha dor, colocou gelo no meu ombro, me deu chá e me beijou para me manter quieta enquanto preparava o golpe pelas minhas costas!
— Não fale do que aconteceu naquele quarto como se tivesse sido um subterfúgio para te distrair! — Stephanie disparou, dando um passo para mais perto, a voz subindo ligeiramente. — O que aconteceu lá não teve nada a ver com a Holding! O que acontece entre nós não tem nada a ver...
— Teve tudo a ver! — Jane rebateu, a respiração descompassada. — Você foi para a imprensa e ofereceu esmolas aos pequenos produtores para destruir a resistência deles! Você está comprando o canal pedaço por pedaço! Faltam treze dias para o prazo da minha hipoteca vencer e você sabe perfeitamente que eu não tenho todo o dinheiro! Você planejou isso para me encurralar e me obrigar a ajoelhar diante da sua empresa!
— Eu ofereci uma saída digna para famílias que estavam prestes a perder tudo! — Stephanie respondeu, a indignação avermelhando suas bochechas claras. — Eu baixei os juros! Eu protegi as terras deles! Se você é orgulhosa demais para enxergar que essa era a única forma de salvar o vale de uma execução sumária, a culpa é da sua teimosia irracional!
— O que você chama de saída digna é espoliação pura! — Jane exclamou, avançando mais um passo. – A saída que vocês oferecem carrega a entrega do bem mais precioso, a agua do vale!
O restaurante inteiro assistia à cena em silêncio absoluto. A frase de Jane cortou o ar como um chicote.
Stephanie travou o maxilar. A paciência da executiva — polida ao longo de anos de diplomacia e autocontrole rigoroso — esgotou-se por completo diante da acusação insolente de Jane. Ela cansara de tentar ser racional, cansara das barreiras de orgulho levantadas a todo momento pela rancheira e cansara daquela birra contínua que mascarava a tensão insuportável que queimava entre as duas desde o primeiro instante em que se viram.
Sem dizer uma única palavra, Stephanie deu dois passos largos ao redor da mesa. Antes que Jane pudesse reagir ou se afastar, Stephanie estendeu a mão e segurou com firmeza absoluta o braço esquerdo de Jane, apertando os dedos ao redor do tecido do casaco.
— Me solta, Stephanie! — Jane rosnou, tentando puxar o braço.
— Chega — Stephanie disse, a voz baixa, fria e inflexível como uma ordem de execução. — Você vai subir comigo agora.
— Eu não vou a lugar nenhum com você!
— Você vai subir, nem que eu tenha que chamar quatro funcionários para te arrastarem até lá e criar o maior escândalo que este condado já viu — Stephanie declarou, cravando os olhos azuis nos de Jane com uma intensidade implacável que não deixava margem para dúvidas. — Nós vamos resolver isso sem plateia assistindo.
A força e a determinação repentina de Stephanie surpreenderam Jane. A rancheira, apanhada de surpresa pelo contato físico direto e pela postura dominante da executiva, hesitou por um segundo crucial. Stephanie aproveitou a hesitação e puxou Jane com firmeza em direção à porta lateral do restaurante, ignorando os olhares atônitos dos garçons e do recepcionista.
Elas cruzaram o saguão a passos rápidos. Jane tentava soltar o braço, mas a pegada de Stephanie era de uma firmeza surpreendente, alimentada pela raiva e pelo desejo acumulado.
— Isso é loucura, Stephanie! Me solta! — Jane protestava em sussurros furiosos enquanto era conduzida ao elevador privativo. Dessa vez, Stephanie não optara pelas escadas.
Stephanie empurrou a alavanca do elevador e fechou a grade metálica com um baque seco. O pequeno cubículo começou a subir lentamente em direção ao terceiro andar. O espaço reduzido tornou o ar subitamente denso; a respiração descompassada de ambas preenchia o silêncio, enquanto o perfume caro de Stephanie se misturava ao cheiro de poeira e couro que emanava do casaco de Jane.
Nenhuma das duas disse uma palavra durante a subida. Os olhos azuis de Stephanie permaneciam fixos na porta de ferro, os maxilares contraídos, mantendo a mão firme sobre o braço de Jane. Jane, por sua vez, encarava o perfil da executiva, o peito subindo e descendo com violência, tomado por uma mistura confusa de raiva, indignação e uma atração física assustadora que fazia seu sangue entrar em ebulição.
O elevador parou no terceiro andar com um estalo metálico. Stephanie abriu a grade bruscamente e puxou Jane pelo corredor atapetado, cujos passos abafados pareciam acelerar o ritmo das batidas de seus corações.
Chegaram à porta da Suíte 301. Stephanie retirou a chave do quarto do bolso com a mão livre, tentando encaixá-la na fechadura. Suas mãos tremiam ligeiramente de raiva e impaciência. Na segunda tentativa, o miolo da tranca girou com um estalo metálico firme.
Stephanie empurrou a porta pesada de madeira, puxou Jane para dentro do ambiente e bateu a porta com violência atrás de si.
O som da porta se fechando ressoou pela sala de estar privativa. Stephanie girou a chave na tranca duas vezes e retirou a chave, jogando-a sobre a escrivaninha de madeira com um ruído seco.
Jane virou-se bruscamente, livrando-se finalmente da pegada firme de Stephanie, e deu dois passos para trás, arfando de indignação.
— Ficou louca?! — Jane esbravejou, a voz ecoando pelas paredes da suíte elegante. — Você acha que pode me arrastar pelo hotel como se eu fosse sua propriedade?!
— Cala a boca, Jane! — Stephanie gritou, perdendo completamente a compostura, o rosto corado e os olhos azuis brilhando de raiva.
Stephanie avançou o espaço que as separava com dois passos rápidos. Antes que Jane pudesse concluir a frase ou erguer a mão esquerda para se defender, Stephanie segurou a gola do casaco de Jane com as duas mãos, puxando a rancheira com força contra si, eliminando qualquer distância entre seus corpos.
Antes que a razão pudesse intervir ou que as palavras de raiva pudessem continuar a serem despejadas, Stephanie colou seus lábios nos de Jane em um beijo quente e apaixonado.
Não havia nada do cuidado suave ou do desejo contido do beijo anterior naquela mesma suíte. Era um encontro urgente, faminto e impetuoso, nascido da raiva represada, do cansaço, do orgulho e da atração avassaladora que ambas lutavam em vão para sufocar. Stephanie pressionou a boca contra a de Jane com uma avidez quase desesperada, os lábios buscando os dela com uma força que fez a rancheira soltar um gemido abafado contra seus lábios.
Jane estacou, o cérebro gritando para que se afastasse, para que mantivesse a guarda erguida contra a mulher que ameaçava destruir seu rancho, o legado de sua família. Mas o calor da boca de Stephanie, o perfume de sua pele e a entrega absoluta daquela mulher implacável desarmaram qualquer resistência.
Em uma fração de segundo, a raiva de Jane transformou-se em uma chama correspondente. Esquecendo a dívida, o canal, a imprensa e os treze dias restantes, Jane cedeu por completo. Sua mão esquerda subiu rapidamente, cravando os dedos com força na nuca de Stephanie, soltando alguns fios do coque perfeito e puxando a executiva para ainda mais perto de si.
O beijo aprofundou-se com uma paixão avassaladora. Os lábios de Jane se abriram sob a pressão da boca de Stephanie, e suas línguas se enroscaram em um ritmo quente, desordenado e faminto. Stephanie soltou a gola do casaco e envolveu a cintura de Jane com os braços, puxando o corpo da rancheira contra o seu com tanta força que parecia que seu corpo poderia se fundir ao de Jane.
Jane retribuiu a intensidade do beijo com um ardor acumulado por dias de negação. O som das respirações entrecortadas e dos suspiros abafados preenchia a sala de estar, sobrepondo-se ao ruído suave do radiador na parede oposta, que mantinha o local em uma temperatura agradável.
Stephanie enredou a mão esquerda nos cabelos castanhos de Jane, inclinando a cabeça da rancheira para intensificar ainda mais o contato, explorando a boca de Jane com uma posse absoluta que parecia devorar qualquer vestígio da rivalidade que as dividia no mundo lá fora.
Ali, trancadas no quarto 301, cercadas pela penumbra, da luz difusa de um abajur e distantes das pressões de Chicago e do Vale do Loup, o confronto entre a presidente da Holding e a rancheira deu lugar a um incêndio incontrolável, onde a paixão e o desejo começavam a falar muito mais alto do que qualquer contrato ou orgulho ferido.
Fim do capítulo

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