O silêncio na suíte do hotel parecia, pela primeira vez desde que Stephanie White pisara naquele vale, uma trégua genuína. O ruído baixo da chuva contra a vidraça da janela ritmava a respiração de Jane, que aos poucos perdia a rigidez defensiva.
Diante do sofá, a mesa de centro abrigava a bandeja do serviço de quarto. O vapor do consommé de legumes e carne subia em espirais finas, trazendo um aroma aconchegante de alho-poró, do caldo denso e da salsa fresca. A jarra de porcelana branca guardava o chá de camomila fumegante, e ao lado, as torradas caseiras repousavam sob um guardanapo.
— Coma um pouco — disse Stephanie, a voz mantendo uma inflexão baixa, quase velada, desprovida da projeção altiva que costumava usar nas assembleias e reuniões. — Não é a comida caseira do rancho, que com certeza deve ser melhor, mas vai te dar alguma substância.
Jane olhou para a tigela de cerâmica. A mão esquerda, livre do imobilizador que sustentava seu ombro direito, moveu-se com relativa lentidão, a mão fechando-se ao redor do cabo pesado da colher de prata.
— Você não precisava ter feito tudo isso, Stephanie — murmurou a rancheira, o olhar fixo no caldo denso antes de levar a primeira colherada à boca. O calor do alimento desceu aquecendo seu peito, espalhando uma sensação de alívio que parecia cruzar diretamente com o efeito que as duas pílulas analgésicas começavam a exercer em seu corpo.
— Eu não fiz por cortesia profissional, Jane. Fiz porque você estava prestes a cair de cara no chão da prefeitura — Stephanie respondeu, sentando-se na poltrona estofada defronte ao sofá, ajustando a saia de seu conjunto de lã cinza. Ela pegou a xícara de porcelana e serviu-se de um pouco de chá, observando a mulher à sua frente através do vapor.
O silêncio entre as duas agora era confortável e até desejável. Jane comeu devagar. A cada minuto que passava, o peso de suas pálpebras tornava-se mais denso. O anti-inflamatório potente da do por Stephanie, combinado com as noites mal dormidas no Rancho Brown, com a febre baixa decorrente da inflamação no ombro e com o desgaste emocional do confronto com a Holding, o remédio agiu como uma maré pesada, trazendo relaxamento e sono.
Quando Jane pousou a colher na bandeja, metade do consommé ainda permanecia na tigela. A cabeça da rancheira pendeu ligeiramente para o lado, repousando na curva macia do encosto de veludo do sofá. Os olhos castanhos, que no palco da prefeitura haviam sido duas fogueiras de indignação contra os representantes da Holding, agora lutavam para se manter abertos, fixos no borrão elegante que era Stephanie a pouca distância.
— O remédio está fazendo efeito — constatou Stephanie, colocando a xícara pires sobre a mesa sem fazer ruído. Ella ergueu-se com passos firmes e silenciosos, aproximando-se do sofá. — Você está quase dormindo.
— Eu... eu preciso voltar para a fazenda — Jane tentou articular, mas a voz saiu arrastada, enfraquecida pela névoa provocada pelo analgésico. Ela fez um menção de projetar o tronco para a frente, mas o movimento acionou uma pontada sutil na escápula, fazendo-a soltar um gemido abafado contra os dentes.
— Você não vai a lugar nenhum nesse estado — Stephanie interveio com autoridade serena. Com movimentos firmes e cuidado para não tocar no ombro lesionado, ela segurou Jane pelas costas e pelo braço esquerdo, impedindo que ela se erguesse. — Escute o que estou te dizendo. O seu capataz sabe que você está aqui comigo até o pôr do sol. A picape já deve estar no Rancho Brown. Se você tentar dirigir ou sacudir no banco de uma caminhonete agora, a sua articulação pode inflamar de tal forma que o médico do condado terá que gessar o seu tórax inteiro.
— O trabalho no canal... as cercas do pasto norte... — Jane balbuciou, a mente lutando contra o entorpecimento.
— As cercas e o canal vão continuar lá daqui a quatro horas. O vale não vai sumir enquanto você descansa — Stephanie disse, a voz suavizando-se ao ver a linha da testa de Jane relaxar gradativamente. — Deite-se. A cama do quarto principal é mais confortável que este sofá.
— Não... o quarto não — Jane murmurou, com um resto teimosia. — O sofá está bom.
Stephanie avaliou a teimosia da rancheira e percebeu que discutir seria contraproducente. Em vez disso, caminhou em direção ao quarto principal, cruzando o portal de madeira entalhada. Voltou carregando um edredom pesado e dois travesseiros.
Com uma delicadeza que surpreenderia qualquer acionista da White & Sovereign ou do mercado financeiro que a conhecessem, Stephanie posicionou um dos travesseiros sob o pescoço de Jane e o outro logo abaixo do braço direito imobilizado, criando uma elevação suave que tirava a tensão de peso do ombro lesionado. Em seguida, desdobrou o edredom sobre o corpo da rancheira, cobrindo-a até a altura do peito.
— Durma, Jane — sussurrou Stephanie, a mão repousando por um segundo sobre os cabelos castanhos da rancheira, afastando uma mecha rebelde que caía sobre sua testa fria. — Eu vou resolver os assuntos da Holding no QG e volto para te buscar. Quando você acordar, eu mesma te levo de volta para o Rancho Brown no Cadillac, se for preciso.
Jane não respondeu. O calor do edredom, o alívio na articulação e a voz firme de Stephanie atuaram como um sonífero definitivo. A respiração da rancheira tornou-se profunda, ritmada e pesada. Em menos de três minutos, Jane Brown mergulhou em um sono profundo e reparador.
Stephanie permaneceu de pé ao lado do sofá por longos instantes, observando o semblante tranquilo da mulher que, poucas horas antes, era sua principal oponente pública. A dureza das feições de Jane derretera no sono; sem a tensão da batalha, ela parecia mais jovem.
A executiva caminhou até a escrivaninha de madeira, pegou sua bolsa de couro, o bloco de notas e vestiu o sobretudo cinza de lã. Antes de sair, conferiu o trinco da janela para garantir que o vento úmido não entrasse na sala, ajustou o radiador de parede para manter uma temperatura constante de vinte e dois graus e fechou a porta pesada da Suíte 301, girando a chave de latão na fechadura e guardando-a no bolso interno do sobretudo.
A chuva havia cessado quando o Cadillac verde de Stephanie deixou o estacionamento dos fundos do hotel. As ruas apresentavam o aroma típico das tardes de verão em 1980. Poças d'água refletiam os letreiros em neon fraco da farmácia local, da loja de ferragens e do posto de gasolina Texaco.
Stephanie dirigiu pelas três quadras que separavam o hotel do antigo prédio que foi alugado pela White & Sovereign para funcionar como quartel-general das operações da Holding na região do vale.
Ao atravessar as portas do QG, o ambiente que Stephanie encontrou era de intensa atividade, principalmente com a chegada de novos funcionários convocados as pressas por ela. O som estridente das máquinas de escrever elétricas IBM preenchia o salão amplo, misturando-se ao zumbido contínuo dos aparelhos de telex no fundo da sala e ao aroma de café requentado em cafeteiras. Duas secretárias datilografavam minutas de contratos a toda velocidade, enquanto jovens analistas em ternos beges e gravatas estreitas conferiam mapas topográficos da bacia hidrográfica espalhados sobre mesas de fórmica amarela.
No centro do escritório, Vance, o advogado responsável, e Pendleton, o diretor de operações do projeto de expansão, discutiam acaloradamente sobre um mapa de microfilme projetado em uma tela.
— A recusa de hoje foi um ato político orquestrado — dizia Vance, gesticulando com uma caneta nas mãos. — Se não aplicarmos a cláusula de execução hipotecária nos títulos da família Brown quando vencer o prazo e de outros três médios produtores pelo menos até sexta-feira, o conselho em Chicago vai interpretar como hesitação da diretoria!
— A diretoria não está hesitante, Vance — a voz de Stephanie cortou o salão como uma lâmina, fazendo os analistas mais jovens se espremerem nas cadeiras, na tentativa de ficarem invisíveis a fúria da chefe, o som das máquinas de escrever perdendo o compasso por um segundo.
Stephanie caminhou pelo corredor central com passos firmes, retirando o sobretudo, entregando-os à uma das secretárias, que correra ao seu encontro com uma pasta de papéis timbrados.
— Senhorita White! — Pendleton virou-se, surpreso e claramente irritado com o desfecho da assembleia na prefeitura. — Nós a procuramos por todo o prédio após a sua saída abrupta! Os jornalistas de importantes jornais do Estado e um correspondente da rádio local ficaram exigindo uma declaração oficial sobre o boicote dos fazendeiros!
— Os jornalistas podem esperar pela coletiva de imprensa agendada para amanhã de manhã — Stephanie respondeu de forma fria. — Entrem na minha sala. Todos vocês. Vance, Pendleton e os dois analistas de crédito. Agora.
Eles marcharam para a sala da diretoria, um espaço envidraçado no mezanino do prédio. Assim que a porta de madeira maciça se fechou, isolando o barulho das máquinas de escrever e do telex, Stephanie sentou-se na cadeira de couro macio e encarou seus subordinados.
— Quero uma mudança imediata de estratégia no plano de compra da carteira de dívidas das propriedades hipotecadas — começou Stephanie, abrindo seu bloco de notas e apoiando as mãos sobre a mesa.
Vance franziu os olhos por trás das lentes de seus óculos. — Mudança de estratégia? Senhorita White, o conselho aprovou a diretriz de aquisição menos agressiva que a senhorita propôs a pouco tempo! Mudanças agora poderão ocasionar prejuízos!
— A diretriz de Chicago foi aprovada por homens que enxergam este vale através de relatórios estatísticos e projeções de rendimento de commodities em planilhas que vocês elaboraram — Stephanie rebateu, a voz gélida e inquestionável. — Eles não consideraram, e nem vocês estão considerando a estrutura e a capacidade de reação da comunidade local. O que aconteceu na prefeitura hoje demonstrou que a pressão jurídica às cega apenas consolidou a liderança de Jane Brown sobre os pequenos produtores. Se emitirmos as ordens de despejo em massa hoje dos inadimplentes, como você sugeriu, Vance, teremos cinquenta fazendeiros armados bloqueando as estradas e o canal. O custo de imagem para a Holding e o desdobramento judicial na corte estadual vão paralisar o projeto por dois anos.
— E qual é a sua proposta, Stephanie? — perguntou Pendleton, cruzando os braços, cético. — Cruzar os braços e esperar que a dívida caduque e ai então perdemos todo o projeto?
— Absolutamente não — Stephanie puxou uma minuta de contrato em papel timbrado. — Quero que a equipe jurídica reescreva as cláusulas de reestruturação dos pequenos proprietários. Vamos focar as desapropriações e execuções judiciais estritamente nas áreas críticas não produtivas e nos trechos de terra improdutiva. Para os pequenos fazendeiros que possuem áreas agricultáveis em uso, nós vamos renegociar os juros da dívida, indexando as parcelas ao preço mínimo dos produtos regionais fixado pelo governo, e não às taxas do mercado financeiro de Chicago.
Vance arregalou os olhos, escandalizado.
— Isso vai reduzir a margem de lucro operacional da Holding no primeiro quinquênio em quase doze por cento! O conselho não vai aceitar mais essa flexibilização!
— O conselho aceitará o que a presidente herdeira apresentar como o único caminho viável para garantir a posse definitiva das águas do canal sem uma guerra civil no Vale do Loup — Stephanie disse, inclinando-se para a frente, fixando o olhar no advogado. — Além disso, ao oferecer termos genuinamente mais vantajosos e protetores para os pequenos proprietários, nós vamos quebrar o bloco de resistência de Jane Brown. Os fazendeiros menores, desesperados para salvar o sustento de suas famílias, assinarão os contratos individuais. Jane Brown ficará isolada com o Rancho Brown, e quando isso acontecer, a negociação com ela deixará de ser um confronto político comunitário e passará a ser uma transação privada.
Pendleton coçou o queixo, avaliando a lógica fria da proposta. — É uma jogada dividida. Rompe a solidariedade do grupo ao oferecer uma saída de emergência real para os mais fracos.
— Exatamente — confirmou Stephanie. — Quero os novos rascunhos de contrato na minha mesa amanhã às oito horas da manhã. Reduzam as exigências para empréstimos sobre o maquinário agrícola e garantam cota mínima de água para irrigação familiar em todos os aditivos. Se mostrarmos que a Holding pode ser uma parceira de desenvolvimento e não apenas uma executora de dívidas, a oposição política desmorona.
— E quanto ao Rancho Brown? — Vance perguntou, desconfiado. — Como fica a situação da dívida principal de Jane Brown?
— Da dívida do Rancho Brown eu cuido pessoalmente — Stephanie respondeu, levantando-se da cadeira, indicando que a reunião estava encerrada. — Trabalhem no texto dos novos contratos. Quero discrição absoluta sobre essa revisão. Se os jornais souberem antes da hora, considerarei vazamento de informação sigilosa e demitirei o responsável sumariamente.
Os executivos recolheram suas pastas e saíram da sala em silêncio, impressionados pela determinação e pelo cálculo político da presidente herdeira. Stephanie caminhou até a janela da diretoria, olhando para a rua principal. No fundo de sua mente, sabia que a mudança nos contratos não era apenas uma estratégia fria para isolar Jane; era também a única forma defensável que encontrara para evitar a ruína financeira absoluta da mulher que agora dormia sob seu edredom na Suíte 301, antes que pudesse revelar o segredo sobre a herança, sem parecer condescendente. Ela havia encontrado uma saída e a usaria para salvar o legado dos Brown e quem sabe, salvar-se a si mesma no processo.
***
Já passava das quatro horas da tarde quando o Cadillac verde de Stephanie retornou à garagem privativa nos fundos do hotel. O sol de fim de tarde rompia timidamente as nuvens, projetando uma luz alaranjada sobre as fachadas de tijolos.
Stephanie subiu pelas escadas e caminhou pelo corredor atapetado do terceiro andar. O silêncio do prédio só era quebrado pelo estalar suave dos tacos de madeira sob seus passos. Ela retirou a chave do bolso, girou a tranca e abriu a porta da Suíte 301 com extremo cuidado para não fazer barulho.
A penumbra tomava conta da sala de estar. As cortinas pesadas de linho creme amorteciam a claridade externa, criando um ambiente acolhedor. O cheiro do consommé fora recolhido pelo garçom mais cedo, restando apenas o aroma leve do chá e a fragrância sutil do estofado.
No sofá, Jane não se mexera um centímetro. Ela continuava deitada de lado, o corpo completamente envolvido pelo edredom pesado, a cabeça afundada no travesseiro macio. O ritmo de sua respiração era profundo e pausado, indicando que o analgésico e o esgotamento físico ainda dominavam seu organismo. O tom pálido e febril de sua pele dera lugar a um tom mais natural, embora pequenas sombras de cansaço ainda marcassem a curva abaixo dos seus olhos.
Stephanie fechou a porta silenciosamente, tirou o sobretudo e aproximou-se do sofá. Ajoelhou-se no tapete macio, na mesma posição em que esteve horas antes, e observou o rosto da rancheira. Ver Jane tão vulnerável, desarmada de qualquer armadura de orgulho ou do dever que ela achava que tinha, provocou em Stephanie uma sensação estranha de posse e proteção. Naquele quarto neutro, não havia a presidente de Holding nem a rancheira endividada; havia apenas duas mulheres unidas por uma atração inevitável.
Stephanie estendeu a mão e, com a ponta dos dedos, roçou suavemente as maçãs do rosto de Jane, subindo até a têmpora, onde a pele estava morna.
— Jane... — chamou Stephanie em um tom quase inaudível, um murmúrio caloroso.
Jane mexeu-se devagar. Um suspiro longo escapou de seus lábios, e suas pálpebras franziram-se com a transição lenta do sono profundo para a consciência. Ela abriu os olhos devagar, as íris castanhas tentando focar o ambiente na penunbra até encontrarem o rosto de Stephanie ajoelhada ao seu lado.
— Stephanie...? — a voz de Jane saiu rouca pelo sono prolongado. Ela pestanejou, confusa por um instante, olhando para as cortinas, para a sala refinada e para o edredom pesado que a cobria. — Que horas são?
— Pouco mais de quatro e meia da tarde — Stephanie respondeu com doçura, sem afastar a mão do rosto de Jane, os dedos acariciando a linha de seu queixo. — Você dormiu quase quatro horas seguidas. Como está o seu ombro?
Jane moveu o corpo com cautela sob o edredom, testando a articulação afetada. A dor aguda e latejante que a torturara durante toda a manhã na prefeitura havia cedido, transformada em um incômodo perfeitamente suportável.
— O remédio é poderoso... — Jane admitiu, soltando um pequeno riso rouco, envergonhada pela profundidade de seu sono. — Eu não lembrava a última vez que dormi assim, sem acordar a cada duas horas pensando nas contas ou no gado.
— Eu disse que o tratamento do meu médico funcionaria — Stephanie sorriu, um sorriso genuíno e raro, que transformou completamente a severidade habitual de suas feições. — Você estava exausta, Jane. Seu corpo simplesmente desligou.
Jane sentou-se devagar no sofá, ajudando-se com a mão esquerda enquanto Stephanie segurava o travesseiro para dar apoio às suas costas. O edredom deslizou para o seu colo, revelando a camisa xadrez verde amassada e a tipoia preta ainda perfeitamente ajustada.
— Você foi ao seu escritório? — perguntou Jane, olhando para Stephanie, notando que a executiva não usava mais o sobretudo, apenas a camisa de seda marfim e a saia.
— Fui. Tive uma reunião longa com a equipe — Stephanie disse, sentando-se na beirada do sofá, bem ao lado das pernas de Jane. — Reorganizei as prioridades da Holding. Nós vamos alterar os termos dos contratos oferecidos aos pequenos fazendeiros.
Jane ergueu as sobrancelhas, a surpresa afastando os últimos vestígios de torpor em sua mente.
— Alterar os termos? E eles concordaram com isso?
— Eles trabalham para mim, Jane. A White & Sovereign pertence à minha família e eu tomo as decisões estratégicas — Stephanie afirmou com firmeza calma. — Nós vamos indexar os juros da dívida ao preço agrícola garantido pelo governo e retirar as cláusulas abusivas de empréstimos ou penhor sobre os equipamentos de trabalho. Ninguém vai perder a casa ou a ferramenta de subsistência, embora eu só consiga alguns milímetros com a diretoria, isso ainda poderá ajudar os fazendeiros.
Jane encarou Stephanie em silêncio. Seus olhos castanhos devoravam a expressão da executiva, buscando qualquer sinal de manipulação ou falsidade, mas encontrou apenas uma determinação serena. A mudança de atitude de Stephanie não era apenas um golpe de mestre político, mas também a influência do confronto doloroso que haviam tido na assembleia e a súbita compreensão do sentimento de Stephanie por Jane, naquela mesma sala horas antes.
— Isso vai dar um fôlego enorme para famílias do Vale — Jane murmurou, a voz carregada de uma emoção contida. — Eles estavam desesperados. Você salvou essas pessoas de irem para a miséria.
— Eu fiz o que era racional para a estabilidade do projeto — Stephanie justificou-se, querendo manter sua fachada executiva, mas o olhar que direcionou a Jane traía sua verdadeira motivação.
Antes que Jane pudesse responder, o som agudo e estridente do telefone de disco sobre a escrivaninha cortou o ar da suíte, quebrando a atmosfera intimista que se reconstruíra entre as duas.
Rrrring! Rrrring!
Stephanie suspirou, desgostosa com a interrupção. Ela se levantou do sofá e caminhou até a escrivaninha de madeira maciça, tirando o fone preto do gancho.
— Suíte 301, White falando — disse ela de forma ríspida.
— Stephanie! Graças a Deus você atendeu! — a voz de Pendleton soou alterada e ruidosa pelo alto-falante do telefone, acompanhada por barulhos de discussão e passos apressados ao fundo.
— O que aconteceu, Pendleton? Eu deixei instruções claras de que não queria ser incomodada até amanhã de manhã.
— É o capataz do Rancho Brown! Aquele velho, o Hank! — Pendleton relatou, afobado. — Ele acabou de invadir a recepção do nosso QG aqui no prédio! Ele está acompanhado de dois homens armados com espingardas de caça no pátio dos fundos! Ele está exigindo ver a Jane Brown imediatamente! Ele acha que nós a mantivemos presa ou que a forçamos a assinar documentos sob coação!
Stephanie cerrou os dentes, a raiva faiscando em seus olhos azuis.
— Ele está armado dentro do escritório?
— Não dentro da recepção, mas os dois homens dele estão na calçada com as armas à vista, e ele está no saguão aos gritos, ameaçando quebrar as portas se não entregarmos a patroa dele! O Vance já queria chamar o xerife do condado para prender todo mundo por perturbação da ordem e ameaça armada!
Jane, que acompanhava a conversa do sofá, percebeu a mudança na postura de Stephanie e ergueu o corpo, a apreensão estampada em seu rosto.
— É o Hank? — perguntou a rancheira em voz alta.
Stephanie colocou a mão sobre o bocal do fone e olhou para Jane. — Sim. Seu capataz está no meu QG criando um tumulto enorme com mais dois homens armados. Vance quer mandar o xerife prendê-los.
— Não! Não chame o xerife! — Jane disse imediatamente, tentando se levantar do sofá com pressa. — O xerife local não é muito bem quisto pelos fazendeiros! Se ele prender o Hank, vai haver um tiroteio no meio da cidade! Me dá esse telefone, Stephanie!
Stephanie caminhou até o sofá carregando o fone de disco com o fio espiralado esticado ao máximo e entregou o receptor à mão esquerda de Jane.
— Pendleton, passe para o Hank. Agora — Stephanie ordenou ao telefone antes de passar o aparelho para a rancheira.
Após alguns segundos de ruído na linha e o som de altercação abafada, a voz profunda e enfurecida de Hank ecoou no fone.
— Quem está falando?! Eu já disse que não vou embora sem a minha patroa!
— Hank! Sou eu! Acalme-se! — Jane falou com autoridade, embora o cansaço ainda pesasse em sua voz.
Houve uma pausa dramática do outro lado da linha. A respiração ofegante do velho capataz podia ser ouvida com clareza.
— Jane menina? É a senhorita mesmo? A senhorita está bem? Essa gente de Chicago te machucou ou te obrigou a assinar alguma coisa?
— Eu estou perfeitamente bem, Hank. Ninguém me forçou a nada — Jane explicou, mantendo o tom firme para acalmar o velho leal. — O remédio que tomei fez efeito e eu acabei dormindo mais do que devia no hotel. Onde estão os meninos?
— Eles estão comigo no pátio, patroa. Nós viemos com a picape porque deu quatro horas da tarde e a senhora não apareceu no rancho. Eu imaginei que esses almofadinhas estivessem te segurando contra a vontade.
— Hank, mande os meninos guardarem as armas na caminhonete imediatamente! — Jane ordenou. — Não façam nenhuma besteira na cidade! Eu já estou me ajeitando para sair daqui. Me espere ai em frente e peça desculpas pelo tumulto. Eu chego aí em cinco minutos.
— A senhora quer que eu vá com a picape te buscar?
— Não precisa. Eu já estou descendo — Jane respondeu, olhando para Stephanie, que acompanhava a cena com os braços cruzados. — Nos vemos ai em alguns minutos, mantenha a calma.
Jane desligou o fone, devolvendo-o a Stephanie, que o recolocou no lugar. A rancheira soltou um suspiro profundo, passando a mão esquerda pelo rosto, irritada com o excesso de zelo de seu capataz, mas profundamente tocada pela lealdade daqueles homens.
— Hank é como um pai para mim desde que o meu pai faleceu — Jane justificou-se, olhando para a executiva. — Ele não confia em nada que venha de fora do vale.
— Ele é um homem leal, embora extremamente imprudente — Stephanie comentou, a voz sem rancor. — Trazer homens armados para o meu escritório quase provocou um problema sério que pode afetar você. Se Vance registrasse uma queixa formal de ameaça à mão armada, o juiz do condado emitiria um mandado de prisão para o seu capataz ainda hoje.
— Eu sei... eu vou resolver isso assim que chegar lá — Jane disse, fazendo força para ficar de pé.
Stephanie caminhou até a rancheira e segurou-a suavemente pelo cotovelo esquerdo, ajudando-a a firmar o corpo no chão.
— Você não vai caminhando até lá. Eu vou te levar no Cadillac.
— Stephanie, o prédio fica a três quadras daqui — Jane protestou fracamente. — Se o povo da cidade nos vir chegando juntas no seu carro, os boatos vão correr...
— Deixe que corram — Stephanie rebateu com serenidade absoluta, pegando seu sobretudo cinza no suporte e vestindo-o. — Eu prometi que levaria você. Nós vamos no meu carro. Ponto final.
Jane olhou para Stephanie, vendo a determinação inabalável naqueles olhos azuis, e percebeu que continuar discutindo seria inútil. Além disso, no fundo de seu peito, a ideia de passar mais alguns minutos a sós com a executiva antes do inevitável retorno à dura realidade do Rancho Brown trazia uma sensação estranha e acolhedora de conforto.
— Está bem — concordou Jane. — Mas estacionamos nos fundos do prédio para evitar exposições desnecessárias. Já tivemos palco demais.
— Combinado — Stephanie sorriu levemente. Ela pegou a chave da suíte, a bolsa e estendeu o braço para que Jane se apoiasse.
Elas deixaram a Suíte 301. O corredor do terceiro andar estava calmo. Elas desceram pelas escadas que as levou direto para a garagem dos fundos. Stephanie abriu a porta do passageiro do Cadillac, ajudando Jane a acomodar-se no banco largo de couro, ajustando a alavanca do encosto para que a rancheira ficasse ligeiramente reclinada, reduzindo ao máximo qualquer impacto sobre a escápula lesionada.
Stephanie contornou a frente imponente do carro, assumiu o volante e girou a chave na ignição.
O Cadillac saiu da garagem privativa e ganhou a rua de paralelepípedos. O céu de fim de tarde pintava as nuvens com tons violetas, o vento fresco soprando pelas ruas.
Enquanto manobrava o veículo com precisão pelas ruas pacatas, Stephanie olhou de soslaio para Jane. A rancheira mantinha a cabeça encostada no apoio de couro, os olhos observando as fachadas do comércio local passarem devagar pela janela do carro.
— O que vai acontecer agora, Stephanie? — perguntou Jane, sem desviar o olhar da paisagem do lado de fora. — Quando o seu advogado apresentar os novos contratos e os outros fazendeiros começarem a assinar... o que acontece entre o Rancho Brown e a sua Holding?
Stephanie manteve as duas mãos firmes sobre o volante de couro. — O Rancho Brown continuará sendo o centro da resistência até que nós encontremos uma solução que respeite a história da sua família e os interesses do meu conselho administrativo — respondeu a executiva, a voz carregada de uma sinceridade profunda. — Eu não vou destruir a sua terra, Jane. Eu te dou a minha palavra de honra de que encontraremos um caminho intermediário.
Jane virou a cabeça devagar no encosto do banco, fixando os olhos castanhos no perfil elegante de Stephanie. A promessa feita por uma executiva de Chicago em um carro de luxo em 1980 parecia algo improvável, mas a verdade nos olhos azuis de Stephanie era inquestionável.
— Você é uma mulher surpreendente, Stephanie White — disse Jane, um sorriso sincero e desgastado surgindo em seus lábios. — Tão perigosa com um contrato na mão quanto é cuidadosa quando decide proteger alguém.
— Eu só protejo aquilo que considero valioso — Stephanie respondeu baixo, sem virar o rosto, mas deixando subir um rubor suave nas maçãs do rosto.
O Cadillac dobrou a esquina da travessa comercial e entrou no pátio pavimentado nos fundos do antigo prédio. A picape Ford azul do Rancho Brown estava estacionada em fila dupla perto da entrada de serviço, cercadas por alguns funcionários da Holding que observavam a cena com apreensão.
Hank estava de pé ao lado da porta de entrada, com os braços cruzados sobre o peito e o chapéu de feltro enterrado até as sobrancelhas, enquanto os dois peões mantinham as mãos nos bolsos dos casacos.
Quando o Cadillac verde parou suavemente a poucos metros das caminhonetes e o motor foi desligado, Hank deu três passos à frente, o rosto tenso franzindo-se ao ver Stephanie sair do lado do motorista.
Stephanie contornou o carro com calma e abriu a porta do passageiro, estendendo a mão para ajudar Jane a descer. Jane aceitou o apoio, pondo os pés no chão de paralelepípedos com segurança, demonstrando que não estava mais tão debilitada como na saída do auditório.
Ao ver a patroa de pé, ereta e com uma expressão tranquila no rosto, o velho capataz soltou um suspiro audível de alívio, tirando o chapéu de feltro da cabeça em um gesto automático de respeito.
— Patroa... — Hank aproximou-se, olhando com desconfiança para Stephanie e depois para o Cadillac. — A senhora está bem mesmo? Não precisa que a gente chame o doutor?
— Eu estou ótima, Hank — Jane respondeu com firmeza, a voz clara sob o ar da tarde. — O analgésico que tomei fez o efeito necessário e eu pude descansar algumas horas no hotel. O tumulto que você armou aqui no escritório foi completamente desnecessário.
Hank baixou os olhos, um pouco constrangido pela repreensão pública, mas sustentou a postura do velho capataz teimoso. — Eu tinha um dever com o seu pai e com a senhorita, patroa. Se essa gente da cidade grande tentasse alguma esperteza, a gente estava pronto para resolver.
— Ninguém tentou esperteza nenhuma, Hank — disse Jane, dando um passo em direção ao capataz, mas mantendo-se ao lado de Stephanie. — A Senhorita White agiu com absoluto respeito e consideração comigo desde que saímos da prefeitura. Ela é uma mulher de palavra.
Hank olhou de Jane para Stephanie, surpreso com o tom de defesa que a rancheira usara para se referir à executiva da Holding. O velho capataz ajustou o chapéu na cabeça e, após alguns segundos de hesitação, fez um aceno curto e solene com a cabeça na direção de Stephanie.
— Se a patroa está dizendo, eu me desculpo pelo incômodo na recepção, Senhorita White — disse Hank, com sua voz áspera. — Mas meu dever é cuidar da segurança da família Brown.
— Eu entendo a sua lealdade, Hank — Stephanie respondeu com frieza polida, mas respeitosa. — Se eu estivesse no seu lugar, faria o mesmo pela minha família. Apenas garanta que seus homens não voltem a exibir armas na cidade. Nós estamos tentando construir um canal de negociação civilizado.
— Vamos voltar para o rancho, Hank — Jane instruiu. — Ajeite as coisas na picape. Eu vou com você no banco do passageiro. Os meninos podem ir atrás.
— Sim, senhorita. A camionete está pronta — Hank disse, afastando-se em direção à Ford azul para dar as instruções aos outros dois.
No pátio dos fundos do prédio, sob a luz que marcava o início do pôr do sol nas colinas do vale do Loup, Stephanie e Jane permaneceram a sós por um último momento entre os dois veículos.
— Obrigada por tudo, Stephanie — Jane disse em voz baixa, aproximando-se da executiva. — Pelo remédio... e por ter ouvido o que eu tinha para dizer lá dentro.
— Eu cumpri a minha promessa de te trazer de volta em segurança — Stephanie respondeu, a voz mantendo a textura íntima que reservava apenas para a rancheira. — Amanhã de manhã, Vance apresentará os novos termos contratuais aos fazendeiros. Quando você ler o texto final, saberá que cumpri o restante da minha palavra.
Jane olhou nos olhos azuis de Stephanie, sentindo a atração avassaladora que continuava a pulsar entre elas, forte e inegável. Com a mão esquerda livre, a rancheira tocou delicadamente o pulso de Stephanie sobre a lã do sobretudo cinza, um gesto rápido de carinho antes de se afastar.
— Nos veremos na próxima reunião da comissão dos rancheiros, presidente White — disse Jane, um brilho desafiador e afetuoso reaparecendo em seus olhos castanhos.
— Nos veremos no vale, rancheira Brown — Stephanie respondeu com um sorriso contido, observando Jane caminhar devagar até a picape Ford azul.
Hank abriu a porta do passageiro com cuidado, ajudando a patroa a subir o degrau da cabine alta. Jane acomodou-se no banco, acenando uma última vez pela janela antes que a picape ligasse o motor e deixasse o pátio pavimentado.
Stephanie permaneceu de pé ao lado de seu Cadillac, as mãos afundadas nos bolsos do sobretudo cinza, observando a picape azul desaparecer na curva da rua principal em direção à estrada que levava ao vale. A tempestade passara, mas a guerra pelos direitos da terra e da água ainda existia, e agora, envolta em uma aliança secreta e profunda que mudaria para sempre o destino do Vale do Loup e o coração da herdeira de Chicago.
Diante do sofá, a mesa de centro abrigava a bandeja do serviço de quarto. O vapor do consommé de legumes e carne subia em espirais finas, trazendo um aroma aconchegante de alho-poró, do caldo denso e da salsa fresca. A jarra de porcelana branca guardava o chá de camomila fumegante, e ao lado, as torradas caseiras repousavam sob um guardanapo.
— Coma um pouco — disse Stephanie, a voz mantendo uma inflexão baixa, quase velada, desprovida da projeção altiva que costumava usar nas assembleias e reuniões. — Não é a comida caseira do rancho, que com certeza deve ser melhor, mas vai te dar alguma substância.
Jane olhou para a tigela de cerâmica. A mão esquerda, livre do imobilizador que sustentava seu ombro direito, moveu-se com relativa lentidão, a mão fechando-se ao redor do cabo pesado da colher de prata.
— Você não precisava ter feito tudo isso, Stephanie — murmurou a rancheira, o olhar fixo no caldo denso antes de levar a primeira colherada à boca. O calor do alimento desceu aquecendo seu peito, espalhando uma sensação de alívio que parecia cruzar diretamente com o efeito que as duas pílulas analgésicas começavam a exercer em seu corpo.
— Eu não fiz por cortesia profissional, Jane. Fiz porque você estava prestes a cair de cara no chão da prefeitura — Stephanie respondeu, sentando-se na poltrona estofada defronte ao sofá, ajustando a saia de seu conjunto de lã cinza. Ela pegou a xícara de porcelana e serviu-se de um pouco de chá, observando a mulher à sua frente através do vapor.
O silêncio entre as duas agora era confortável e até desejável. Jane comeu devagar. A cada minuto que passava, o peso de suas pálpebras tornava-se mais denso. O anti-inflamatório potente da do por Stephanie, combinado com as noites mal dormidas no Rancho Brown, com a febre baixa decorrente da inflamação no ombro e com o desgaste emocional do confronto com a Holding, o remédio agiu como uma maré pesada, trazendo relaxamento e sono.
Quando Jane pousou a colher na bandeja, metade do consommé ainda permanecia na tigela. A cabeça da rancheira pendeu ligeiramente para o lado, repousando na curva macia do encosto de veludo do sofá. Os olhos castanhos, que no palco da prefeitura haviam sido duas fogueiras de indignação contra os representantes da Holding, agora lutavam para se manter abertos, fixos no borrão elegante que era Stephanie a pouca distância.
— O remédio está fazendo efeito — constatou Stephanie, colocando a xícara pires sobre a mesa sem fazer ruído. Ella ergueu-se com passos firmes e silenciosos, aproximando-se do sofá. — Você está quase dormindo.
— Eu... eu preciso voltar para a fazenda — Jane tentou articular, mas a voz saiu arrastada, enfraquecida pela névoa provocada pelo analgésico. Ela fez um menção de projetar o tronco para a frente, mas o movimento acionou uma pontada sutil na escápula, fazendo-a soltar um gemido abafado contra os dentes.
— Você não vai a lugar nenhum nesse estado — Stephanie interveio com autoridade serena. Com movimentos firmes e cuidado para não tocar no ombro lesionado, ela segurou Jane pelas costas e pelo braço esquerdo, impedindo que ela se erguesse. — Escute o que estou te dizendo. O seu capataz sabe que você está aqui comigo até o pôr do sol. A picape já deve estar no Rancho Brown. Se você tentar dirigir ou sacudir no banco de uma caminhonete agora, a sua articulação pode inflamar de tal forma que o médico do condado terá que gessar o seu tórax inteiro.
— O trabalho no canal... as cercas do pasto norte... — Jane balbuciou, a mente lutando contra o entorpecimento.
— As cercas e o canal vão continuar lá daqui a quatro horas. O vale não vai sumir enquanto você descansa — Stephanie disse, a voz suavizando-se ao ver a linha da testa de Jane relaxar gradativamente. — Deite-se. A cama do quarto principal é mais confortável que este sofá.
— Não... o quarto não — Jane murmurou, com um resto teimosia. — O sofá está bom.
Stephanie avaliou a teimosia da rancheira e percebeu que discutir seria contraproducente. Em vez disso, caminhou em direção ao quarto principal, cruzando o portal de madeira entalhada. Voltou carregando um edredom pesado e dois travesseiros.
Com uma delicadeza que surpreenderia qualquer acionista da White & Sovereign ou do mercado financeiro que a conhecessem, Stephanie posicionou um dos travesseiros sob o pescoço de Jane e o outro logo abaixo do braço direito imobilizado, criando uma elevação suave que tirava a tensão de peso do ombro lesionado. Em seguida, desdobrou o edredom sobre o corpo da rancheira, cobrindo-a até a altura do peito.
— Durma, Jane — sussurrou Stephanie, a mão repousando por um segundo sobre os cabelos castanhos da rancheira, afastando uma mecha rebelde que caía sobre sua testa fria. — Eu vou resolver os assuntos da Holding no QG e volto para te buscar. Quando você acordar, eu mesma te levo de volta para o Rancho Brown no Cadillac, se for preciso.
Jane não respondeu. O calor do edredom, o alívio na articulação e a voz firme de Stephanie atuaram como um sonífero definitivo. A respiração da rancheira tornou-se profunda, ritmada e pesada. Em menos de três minutos, Jane Brown mergulhou em um sono profundo e reparador.
Stephanie permaneceu de pé ao lado do sofá por longos instantes, observando o semblante tranquilo da mulher que, poucas horas antes, era sua principal oponente pública. A dureza das feições de Jane derretera no sono; sem a tensão da batalha, ela parecia mais jovem.
A executiva caminhou até a escrivaninha de madeira, pegou sua bolsa de couro, o bloco de notas e vestiu o sobretudo cinza de lã. Antes de sair, conferiu o trinco da janela para garantir que o vento úmido não entrasse na sala, ajustou o radiador de parede para manter uma temperatura constante de vinte e dois graus e fechou a porta pesada da Suíte 301, girando a chave de latão na fechadura e guardando-a no bolso interno do sobretudo.
A chuva havia cessado quando o Cadillac verde de Stephanie deixou o estacionamento dos fundos do hotel. As ruas apresentavam o aroma típico das tardes de verão em 1980. Poças d'água refletiam os letreiros em neon fraco da farmácia local, da loja de ferragens e do posto de gasolina Texaco.
Stephanie dirigiu pelas três quadras que separavam o hotel do antigo prédio que foi alugado pela White & Sovereign para funcionar como quartel-general das operações da Holding na região do vale.
Ao atravessar as portas do QG, o ambiente que Stephanie encontrou era de intensa atividade, principalmente com a chegada de novos funcionários convocados as pressas por ela. O som estridente das máquinas de escrever elétricas IBM preenchia o salão amplo, misturando-se ao zumbido contínuo dos aparelhos de telex no fundo da sala e ao aroma de café requentado em cafeteiras. Duas secretárias datilografavam minutas de contratos a toda velocidade, enquanto jovens analistas em ternos beges e gravatas estreitas conferiam mapas topográficos da bacia hidrográfica espalhados sobre mesas de fórmica amarela.
No centro do escritório, Vance, o advogado responsável, e Pendleton, o diretor de operações do projeto de expansão, discutiam acaloradamente sobre um mapa de microfilme projetado em uma tela.
— A recusa de hoje foi um ato político orquestrado — dizia Vance, gesticulando com uma caneta nas mãos. — Se não aplicarmos a cláusula de execução hipotecária nos títulos da família Brown quando vencer o prazo e de outros três médios produtores pelo menos até sexta-feira, o conselho em Chicago vai interpretar como hesitação da diretoria!
— A diretoria não está hesitante, Vance — a voz de Stephanie cortou o salão como uma lâmina, fazendo os analistas mais jovens se espremerem nas cadeiras, na tentativa de ficarem invisíveis a fúria da chefe, o som das máquinas de escrever perdendo o compasso por um segundo.
Stephanie caminhou pelo corredor central com passos firmes, retirando o sobretudo, entregando-os à uma das secretárias, que correra ao seu encontro com uma pasta de papéis timbrados.
— Senhorita White! — Pendleton virou-se, surpreso e claramente irritado com o desfecho da assembleia na prefeitura. — Nós a procuramos por todo o prédio após a sua saída abrupta! Os jornalistas de importantes jornais do Estado e um correspondente da rádio local ficaram exigindo uma declaração oficial sobre o boicote dos fazendeiros!
— Os jornalistas podem esperar pela coletiva de imprensa agendada para amanhã de manhã — Stephanie respondeu de forma fria. — Entrem na minha sala. Todos vocês. Vance, Pendleton e os dois analistas de crédito. Agora.
Eles marcharam para a sala da diretoria, um espaço envidraçado no mezanino do prédio. Assim que a porta de madeira maciça se fechou, isolando o barulho das máquinas de escrever e do telex, Stephanie sentou-se na cadeira de couro macio e encarou seus subordinados.
— Quero uma mudança imediata de estratégia no plano de compra da carteira de dívidas das propriedades hipotecadas — começou Stephanie, abrindo seu bloco de notas e apoiando as mãos sobre a mesa.
Vance franziu os olhos por trás das lentes de seus óculos. — Mudança de estratégia? Senhorita White, o conselho aprovou a diretriz de aquisição menos agressiva que a senhorita propôs a pouco tempo! Mudanças agora poderão ocasionar prejuízos!
— A diretriz de Chicago foi aprovada por homens que enxergam este vale através de relatórios estatísticos e projeções de rendimento de commodities em planilhas que vocês elaboraram — Stephanie rebateu, a voz gélida e inquestionável. — Eles não consideraram, e nem vocês estão considerando a estrutura e a capacidade de reação da comunidade local. O que aconteceu na prefeitura hoje demonstrou que a pressão jurídica às cega apenas consolidou a liderança de Jane Brown sobre os pequenos produtores. Se emitirmos as ordens de despejo em massa hoje dos inadimplentes, como você sugeriu, Vance, teremos cinquenta fazendeiros armados bloqueando as estradas e o canal. O custo de imagem para a Holding e o desdobramento judicial na corte estadual vão paralisar o projeto por dois anos.
— E qual é a sua proposta, Stephanie? — perguntou Pendleton, cruzando os braços, cético. — Cruzar os braços e esperar que a dívida caduque e ai então perdemos todo o projeto?
— Absolutamente não — Stephanie puxou uma minuta de contrato em papel timbrado. — Quero que a equipe jurídica reescreva as cláusulas de reestruturação dos pequenos proprietários. Vamos focar as desapropriações e execuções judiciais estritamente nas áreas críticas não produtivas e nos trechos de terra improdutiva. Para os pequenos fazendeiros que possuem áreas agricultáveis em uso, nós vamos renegociar os juros da dívida, indexando as parcelas ao preço mínimo dos produtos regionais fixado pelo governo, e não às taxas do mercado financeiro de Chicago.
Vance arregalou os olhos, escandalizado.
— Isso vai reduzir a margem de lucro operacional da Holding no primeiro quinquênio em quase doze por cento! O conselho não vai aceitar mais essa flexibilização!
— O conselho aceitará o que a presidente herdeira apresentar como o único caminho viável para garantir a posse definitiva das águas do canal sem uma guerra civil no Vale do Loup — Stephanie disse, inclinando-se para a frente, fixando o olhar no advogado. — Além disso, ao oferecer termos genuinamente mais vantajosos e protetores para os pequenos proprietários, nós vamos quebrar o bloco de resistência de Jane Brown. Os fazendeiros menores, desesperados para salvar o sustento de suas famílias, assinarão os contratos individuais. Jane Brown ficará isolada com o Rancho Brown, e quando isso acontecer, a negociação com ela deixará de ser um confronto político comunitário e passará a ser uma transação privada.
Pendleton coçou o queixo, avaliando a lógica fria da proposta. — É uma jogada dividida. Rompe a solidariedade do grupo ao oferecer uma saída de emergência real para os mais fracos.
— Exatamente — confirmou Stephanie. — Quero os novos rascunhos de contrato na minha mesa amanhã às oito horas da manhã. Reduzam as exigências para empréstimos sobre o maquinário agrícola e garantam cota mínima de água para irrigação familiar em todos os aditivos. Se mostrarmos que a Holding pode ser uma parceira de desenvolvimento e não apenas uma executora de dívidas, a oposição política desmorona.
— E quanto ao Rancho Brown? — Vance perguntou, desconfiado. — Como fica a situação da dívida principal de Jane Brown?
— Da dívida do Rancho Brown eu cuido pessoalmente — Stephanie respondeu, levantando-se da cadeira, indicando que a reunião estava encerrada. — Trabalhem no texto dos novos contratos. Quero discrição absoluta sobre essa revisão. Se os jornais souberem antes da hora, considerarei vazamento de informação sigilosa e demitirei o responsável sumariamente.
Os executivos recolheram suas pastas e saíram da sala em silêncio, impressionados pela determinação e pelo cálculo político da presidente herdeira. Stephanie caminhou até a janela da diretoria, olhando para a rua principal. No fundo de sua mente, sabia que a mudança nos contratos não era apenas uma estratégia fria para isolar Jane; era também a única forma defensável que encontrara para evitar a ruína financeira absoluta da mulher que agora dormia sob seu edredom na Suíte 301, antes que pudesse revelar o segredo sobre a herança, sem parecer condescendente. Ela havia encontrado uma saída e a usaria para salvar o legado dos Brown e quem sabe, salvar-se a si mesma no processo.
***
Já passava das quatro horas da tarde quando o Cadillac verde de Stephanie retornou à garagem privativa nos fundos do hotel. O sol de fim de tarde rompia timidamente as nuvens, projetando uma luz alaranjada sobre as fachadas de tijolos.
Stephanie subiu pelas escadas e caminhou pelo corredor atapetado do terceiro andar. O silêncio do prédio só era quebrado pelo estalar suave dos tacos de madeira sob seus passos. Ela retirou a chave do bolso, girou a tranca e abriu a porta da Suíte 301 com extremo cuidado para não fazer barulho.
A penumbra tomava conta da sala de estar. As cortinas pesadas de linho creme amorteciam a claridade externa, criando um ambiente acolhedor. O cheiro do consommé fora recolhido pelo garçom mais cedo, restando apenas o aroma leve do chá e a fragrância sutil do estofado.
No sofá, Jane não se mexera um centímetro. Ela continuava deitada de lado, o corpo completamente envolvido pelo edredom pesado, a cabeça afundada no travesseiro macio. O ritmo de sua respiração era profundo e pausado, indicando que o analgésico e o esgotamento físico ainda dominavam seu organismo. O tom pálido e febril de sua pele dera lugar a um tom mais natural, embora pequenas sombras de cansaço ainda marcassem a curva abaixo dos seus olhos.
Stephanie fechou a porta silenciosamente, tirou o sobretudo e aproximou-se do sofá. Ajoelhou-se no tapete macio, na mesma posição em que esteve horas antes, e observou o rosto da rancheira. Ver Jane tão vulnerável, desarmada de qualquer armadura de orgulho ou do dever que ela achava que tinha, provocou em Stephanie uma sensação estranha de posse e proteção. Naquele quarto neutro, não havia a presidente de Holding nem a rancheira endividada; havia apenas duas mulheres unidas por uma atração inevitável.
Stephanie estendeu a mão e, com a ponta dos dedos, roçou suavemente as maçãs do rosto de Jane, subindo até a têmpora, onde a pele estava morna.
— Jane... — chamou Stephanie em um tom quase inaudível, um murmúrio caloroso.
Jane mexeu-se devagar. Um suspiro longo escapou de seus lábios, e suas pálpebras franziram-se com a transição lenta do sono profundo para a consciência. Ela abriu os olhos devagar, as íris castanhas tentando focar o ambiente na penunbra até encontrarem o rosto de Stephanie ajoelhada ao seu lado.
— Stephanie...? — a voz de Jane saiu rouca pelo sono prolongado. Ela pestanejou, confusa por um instante, olhando para as cortinas, para a sala refinada e para o edredom pesado que a cobria. — Que horas são?
— Pouco mais de quatro e meia da tarde — Stephanie respondeu com doçura, sem afastar a mão do rosto de Jane, os dedos acariciando a linha de seu queixo. — Você dormiu quase quatro horas seguidas. Como está o seu ombro?
Jane moveu o corpo com cautela sob o edredom, testando a articulação afetada. A dor aguda e latejante que a torturara durante toda a manhã na prefeitura havia cedido, transformada em um incômodo perfeitamente suportável.
— O remédio é poderoso... — Jane admitiu, soltando um pequeno riso rouco, envergonhada pela profundidade de seu sono. — Eu não lembrava a última vez que dormi assim, sem acordar a cada duas horas pensando nas contas ou no gado.
— Eu disse que o tratamento do meu médico funcionaria — Stephanie sorriu, um sorriso genuíno e raro, que transformou completamente a severidade habitual de suas feições. — Você estava exausta, Jane. Seu corpo simplesmente desligou.
Jane sentou-se devagar no sofá, ajudando-se com a mão esquerda enquanto Stephanie segurava o travesseiro para dar apoio às suas costas. O edredom deslizou para o seu colo, revelando a camisa xadrez verde amassada e a tipoia preta ainda perfeitamente ajustada.
— Você foi ao seu escritório? — perguntou Jane, olhando para Stephanie, notando que a executiva não usava mais o sobretudo, apenas a camisa de seda marfim e a saia.
— Fui. Tive uma reunião longa com a equipe — Stephanie disse, sentando-se na beirada do sofá, bem ao lado das pernas de Jane. — Reorganizei as prioridades da Holding. Nós vamos alterar os termos dos contratos oferecidos aos pequenos fazendeiros.
Jane ergueu as sobrancelhas, a surpresa afastando os últimos vestígios de torpor em sua mente.
— Alterar os termos? E eles concordaram com isso?
— Eles trabalham para mim, Jane. A White & Sovereign pertence à minha família e eu tomo as decisões estratégicas — Stephanie afirmou com firmeza calma. — Nós vamos indexar os juros da dívida ao preço agrícola garantido pelo governo e retirar as cláusulas abusivas de empréstimos ou penhor sobre os equipamentos de trabalho. Ninguém vai perder a casa ou a ferramenta de subsistência, embora eu só consiga alguns milímetros com a diretoria, isso ainda poderá ajudar os fazendeiros.
Jane encarou Stephanie em silêncio. Seus olhos castanhos devoravam a expressão da executiva, buscando qualquer sinal de manipulação ou falsidade, mas encontrou apenas uma determinação serena. A mudança de atitude de Stephanie não era apenas um golpe de mestre político, mas também a influência do confronto doloroso que haviam tido na assembleia e a súbita compreensão do sentimento de Stephanie por Jane, naquela mesma sala horas antes.
— Isso vai dar um fôlego enorme para famílias do Vale — Jane murmurou, a voz carregada de uma emoção contida. — Eles estavam desesperados. Você salvou essas pessoas de irem para a miséria.
— Eu fiz o que era racional para a estabilidade do projeto — Stephanie justificou-se, querendo manter sua fachada executiva, mas o olhar que direcionou a Jane traía sua verdadeira motivação.
Antes que Jane pudesse responder, o som agudo e estridente do telefone de disco sobre a escrivaninha cortou o ar da suíte, quebrando a atmosfera intimista que se reconstruíra entre as duas.
Rrrring! Rrrring!
Stephanie suspirou, desgostosa com a interrupção. Ela se levantou do sofá e caminhou até a escrivaninha de madeira maciça, tirando o fone preto do gancho.
— Suíte 301, White falando — disse ela de forma ríspida.
— Stephanie! Graças a Deus você atendeu! — a voz de Pendleton soou alterada e ruidosa pelo alto-falante do telefone, acompanhada por barulhos de discussão e passos apressados ao fundo.
— O que aconteceu, Pendleton? Eu deixei instruções claras de que não queria ser incomodada até amanhã de manhã.
— É o capataz do Rancho Brown! Aquele velho, o Hank! — Pendleton relatou, afobado. — Ele acabou de invadir a recepção do nosso QG aqui no prédio! Ele está acompanhado de dois homens armados com espingardas de caça no pátio dos fundos! Ele está exigindo ver a Jane Brown imediatamente! Ele acha que nós a mantivemos presa ou que a forçamos a assinar documentos sob coação!
Stephanie cerrou os dentes, a raiva faiscando em seus olhos azuis.
— Ele está armado dentro do escritório?
— Não dentro da recepção, mas os dois homens dele estão na calçada com as armas à vista, e ele está no saguão aos gritos, ameaçando quebrar as portas se não entregarmos a patroa dele! O Vance já queria chamar o xerife do condado para prender todo mundo por perturbação da ordem e ameaça armada!
Jane, que acompanhava a conversa do sofá, percebeu a mudança na postura de Stephanie e ergueu o corpo, a apreensão estampada em seu rosto.
— É o Hank? — perguntou a rancheira em voz alta.
Stephanie colocou a mão sobre o bocal do fone e olhou para Jane. — Sim. Seu capataz está no meu QG criando um tumulto enorme com mais dois homens armados. Vance quer mandar o xerife prendê-los.
— Não! Não chame o xerife! — Jane disse imediatamente, tentando se levantar do sofá com pressa. — O xerife local não é muito bem quisto pelos fazendeiros! Se ele prender o Hank, vai haver um tiroteio no meio da cidade! Me dá esse telefone, Stephanie!
Stephanie caminhou até o sofá carregando o fone de disco com o fio espiralado esticado ao máximo e entregou o receptor à mão esquerda de Jane.
— Pendleton, passe para o Hank. Agora — Stephanie ordenou ao telefone antes de passar o aparelho para a rancheira.
Após alguns segundos de ruído na linha e o som de altercação abafada, a voz profunda e enfurecida de Hank ecoou no fone.
— Quem está falando?! Eu já disse que não vou embora sem a minha patroa!
— Hank! Sou eu! Acalme-se! — Jane falou com autoridade, embora o cansaço ainda pesasse em sua voz.
Houve uma pausa dramática do outro lado da linha. A respiração ofegante do velho capataz podia ser ouvida com clareza.
— Jane menina? É a senhorita mesmo? A senhorita está bem? Essa gente de Chicago te machucou ou te obrigou a assinar alguma coisa?
— Eu estou perfeitamente bem, Hank. Ninguém me forçou a nada — Jane explicou, mantendo o tom firme para acalmar o velho leal. — O remédio que tomei fez efeito e eu acabei dormindo mais do que devia no hotel. Onde estão os meninos?
— Eles estão comigo no pátio, patroa. Nós viemos com a picape porque deu quatro horas da tarde e a senhora não apareceu no rancho. Eu imaginei que esses almofadinhas estivessem te segurando contra a vontade.
— Hank, mande os meninos guardarem as armas na caminhonete imediatamente! — Jane ordenou. — Não façam nenhuma besteira na cidade! Eu já estou me ajeitando para sair daqui. Me espere ai em frente e peça desculpas pelo tumulto. Eu chego aí em cinco minutos.
— A senhora quer que eu vá com a picape te buscar?
— Não precisa. Eu já estou descendo — Jane respondeu, olhando para Stephanie, que acompanhava a cena com os braços cruzados. — Nos vemos ai em alguns minutos, mantenha a calma.
Jane desligou o fone, devolvendo-o a Stephanie, que o recolocou no lugar. A rancheira soltou um suspiro profundo, passando a mão esquerda pelo rosto, irritada com o excesso de zelo de seu capataz, mas profundamente tocada pela lealdade daqueles homens.
— Hank é como um pai para mim desde que o meu pai faleceu — Jane justificou-se, olhando para a executiva. — Ele não confia em nada que venha de fora do vale.
— Ele é um homem leal, embora extremamente imprudente — Stephanie comentou, a voz sem rancor. — Trazer homens armados para o meu escritório quase provocou um problema sério que pode afetar você. Se Vance registrasse uma queixa formal de ameaça à mão armada, o juiz do condado emitiria um mandado de prisão para o seu capataz ainda hoje.
— Eu sei... eu vou resolver isso assim que chegar lá — Jane disse, fazendo força para ficar de pé.
Stephanie caminhou até a rancheira e segurou-a suavemente pelo cotovelo esquerdo, ajudando-a a firmar o corpo no chão.
— Você não vai caminhando até lá. Eu vou te levar no Cadillac.
— Stephanie, o prédio fica a três quadras daqui — Jane protestou fracamente. — Se o povo da cidade nos vir chegando juntas no seu carro, os boatos vão correr...
— Deixe que corram — Stephanie rebateu com serenidade absoluta, pegando seu sobretudo cinza no suporte e vestindo-o. — Eu prometi que levaria você. Nós vamos no meu carro. Ponto final.
Jane olhou para Stephanie, vendo a determinação inabalável naqueles olhos azuis, e percebeu que continuar discutindo seria inútil. Além disso, no fundo de seu peito, a ideia de passar mais alguns minutos a sós com a executiva antes do inevitável retorno à dura realidade do Rancho Brown trazia uma sensação estranha e acolhedora de conforto.
— Está bem — concordou Jane. — Mas estacionamos nos fundos do prédio para evitar exposições desnecessárias. Já tivemos palco demais.
— Combinado — Stephanie sorriu levemente. Ela pegou a chave da suíte, a bolsa e estendeu o braço para que Jane se apoiasse.
Elas deixaram a Suíte 301. O corredor do terceiro andar estava calmo. Elas desceram pelas escadas que as levou direto para a garagem dos fundos. Stephanie abriu a porta do passageiro do Cadillac, ajudando Jane a acomodar-se no banco largo de couro, ajustando a alavanca do encosto para que a rancheira ficasse ligeiramente reclinada, reduzindo ao máximo qualquer impacto sobre a escápula lesionada.
Stephanie contornou a frente imponente do carro, assumiu o volante e girou a chave na ignição.
O Cadillac saiu da garagem privativa e ganhou a rua de paralelepípedos. O céu de fim de tarde pintava as nuvens com tons violetas, o vento fresco soprando pelas ruas.
Enquanto manobrava o veículo com precisão pelas ruas pacatas, Stephanie olhou de soslaio para Jane. A rancheira mantinha a cabeça encostada no apoio de couro, os olhos observando as fachadas do comércio local passarem devagar pela janela do carro.
— O que vai acontecer agora, Stephanie? — perguntou Jane, sem desviar o olhar da paisagem do lado de fora. — Quando o seu advogado apresentar os novos contratos e os outros fazendeiros começarem a assinar... o que acontece entre o Rancho Brown e a sua Holding?
Stephanie manteve as duas mãos firmes sobre o volante de couro. — O Rancho Brown continuará sendo o centro da resistência até que nós encontremos uma solução que respeite a história da sua família e os interesses do meu conselho administrativo — respondeu a executiva, a voz carregada de uma sinceridade profunda. — Eu não vou destruir a sua terra, Jane. Eu te dou a minha palavra de honra de que encontraremos um caminho intermediário.
Jane virou a cabeça devagar no encosto do banco, fixando os olhos castanhos no perfil elegante de Stephanie. A promessa feita por uma executiva de Chicago em um carro de luxo em 1980 parecia algo improvável, mas a verdade nos olhos azuis de Stephanie era inquestionável.
— Você é uma mulher surpreendente, Stephanie White — disse Jane, um sorriso sincero e desgastado surgindo em seus lábios. — Tão perigosa com um contrato na mão quanto é cuidadosa quando decide proteger alguém.
— Eu só protejo aquilo que considero valioso — Stephanie respondeu baixo, sem virar o rosto, mas deixando subir um rubor suave nas maçãs do rosto.
O Cadillac dobrou a esquina da travessa comercial e entrou no pátio pavimentado nos fundos do antigo prédio. A picape Ford azul do Rancho Brown estava estacionada em fila dupla perto da entrada de serviço, cercadas por alguns funcionários da Holding que observavam a cena com apreensão.
Hank estava de pé ao lado da porta de entrada, com os braços cruzados sobre o peito e o chapéu de feltro enterrado até as sobrancelhas, enquanto os dois peões mantinham as mãos nos bolsos dos casacos.
Quando o Cadillac verde parou suavemente a poucos metros das caminhonetes e o motor foi desligado, Hank deu três passos à frente, o rosto tenso franzindo-se ao ver Stephanie sair do lado do motorista.
Stephanie contornou o carro com calma e abriu a porta do passageiro, estendendo a mão para ajudar Jane a descer. Jane aceitou o apoio, pondo os pés no chão de paralelepípedos com segurança, demonstrando que não estava mais tão debilitada como na saída do auditório.
Ao ver a patroa de pé, ereta e com uma expressão tranquila no rosto, o velho capataz soltou um suspiro audível de alívio, tirando o chapéu de feltro da cabeça em um gesto automático de respeito.
— Patroa... — Hank aproximou-se, olhando com desconfiança para Stephanie e depois para o Cadillac. — A senhora está bem mesmo? Não precisa que a gente chame o doutor?
— Eu estou ótima, Hank — Jane respondeu com firmeza, a voz clara sob o ar da tarde. — O analgésico que tomei fez o efeito necessário e eu pude descansar algumas horas no hotel. O tumulto que você armou aqui no escritório foi completamente desnecessário.
Hank baixou os olhos, um pouco constrangido pela repreensão pública, mas sustentou a postura do velho capataz teimoso. — Eu tinha um dever com o seu pai e com a senhorita, patroa. Se essa gente da cidade grande tentasse alguma esperteza, a gente estava pronto para resolver.
— Ninguém tentou esperteza nenhuma, Hank — disse Jane, dando um passo em direção ao capataz, mas mantendo-se ao lado de Stephanie. — A Senhorita White agiu com absoluto respeito e consideração comigo desde que saímos da prefeitura. Ela é uma mulher de palavra.
Hank olhou de Jane para Stephanie, surpreso com o tom de defesa que a rancheira usara para se referir à executiva da Holding. O velho capataz ajustou o chapéu na cabeça e, após alguns segundos de hesitação, fez um aceno curto e solene com a cabeça na direção de Stephanie.
— Se a patroa está dizendo, eu me desculpo pelo incômodo na recepção, Senhorita White — disse Hank, com sua voz áspera. — Mas meu dever é cuidar da segurança da família Brown.
— Eu entendo a sua lealdade, Hank — Stephanie respondeu com frieza polida, mas respeitosa. — Se eu estivesse no seu lugar, faria o mesmo pela minha família. Apenas garanta que seus homens não voltem a exibir armas na cidade. Nós estamos tentando construir um canal de negociação civilizado.
— Vamos voltar para o rancho, Hank — Jane instruiu. — Ajeite as coisas na picape. Eu vou com você no banco do passageiro. Os meninos podem ir atrás.
— Sim, senhorita. A camionete está pronta — Hank disse, afastando-se em direção à Ford azul para dar as instruções aos outros dois.
No pátio dos fundos do prédio, sob a luz que marcava o início do pôr do sol nas colinas do vale do Loup, Stephanie e Jane permaneceram a sós por um último momento entre os dois veículos.
— Obrigada por tudo, Stephanie — Jane disse em voz baixa, aproximando-se da executiva. — Pelo remédio... e por ter ouvido o que eu tinha para dizer lá dentro.
— Eu cumpri a minha promessa de te trazer de volta em segurança — Stephanie respondeu, a voz mantendo a textura íntima que reservava apenas para a rancheira. — Amanhã de manhã, Vance apresentará os novos termos contratuais aos fazendeiros. Quando você ler o texto final, saberá que cumpri o restante da minha palavra.
Jane olhou nos olhos azuis de Stephanie, sentindo a atração avassaladora que continuava a pulsar entre elas, forte e inegável. Com a mão esquerda livre, a rancheira tocou delicadamente o pulso de Stephanie sobre a lã do sobretudo cinza, um gesto rápido de carinho antes de se afastar.
— Nos veremos na próxima reunião da comissão dos rancheiros, presidente White — disse Jane, um brilho desafiador e afetuoso reaparecendo em seus olhos castanhos.
— Nos veremos no vale, rancheira Brown — Stephanie respondeu com um sorriso contido, observando Jane caminhar devagar até a picape Ford azul.
Hank abriu a porta do passageiro com cuidado, ajudando a patroa a subir o degrau da cabine alta. Jane acomodou-se no banco, acenando uma última vez pela janela antes que a picape ligasse o motor e deixasse o pátio pavimentado.
Stephanie permaneceu de pé ao lado de seu Cadillac, as mãos afundadas nos bolsos do sobretudo cinza, observando a picape azul desaparecer na curva da rua principal em direção à estrada que levava ao vale. A tempestade passara, mas a guerra pelos direitos da terra e da água ainda existia, e agora, envolta em uma aliança secreta e profunda que mudaria para sempre o destino do Vale do Loup e o coração da herdeira de Chicago.
Fim do capítulo

Minh@linda!
16/09/2026 às 16:02
Cada um com sua armadura, né?!