O silêncio se instalou no auditório após a debandada dos fazendeiros, a tensão elétrica do confronto ainda vibrava nas paredes de madeira do auditório. Vance arrumou os óculos no rosto, ajustando a gravata com dedos úmidos, e deu um passo na direção da executiva.
— Senhorita White, isso foi um desastre — começou o advogado, a voz ecoando a frustração contida da equipe executiva. — A recusa coletiva cria um precedente perigoso para o conselho de administração. Nós precisamos emitir as ordens de despejo e execução imediata ainda hoje para conter essa insubordinação antes que o mercado de ações...
Stephanie não ouviu o restante da frase. O som da voz de Vance transformou-se em um zumbido distante e irrelevante, abafado pela imagem persistente que queimava em sua retina: o tecido preto da tipoia contrastando com o xadrez verde da camisa de Jane, o suor frio brilhando na têmpora da rancheira e o momento exato em que a dor quase fez os joelhos de Jane cederem na saída do corredor central.
Em uma reação pura e visceral, completamente desprovida do cálculo analítico que guiara seus muitos anos de carreira em Chicago, Stephanie virou as costas para a mesa diretora. Ignorando as pastas abertas, os relatórios de risco e o apelo indignado de Pendleton, ela caminhou a passos largos em direção à porta lateral do palco.
— Stephanie! Aonde você vai? Os jornalistas estão lá fora, esperando respostas! — gritou Pendleton, dando dois passos atrás dela, mas parando ao ver a postura rígida da presidente herdeira da Holding.
Ela não respondeu. Seus saltos altos desceram os degraus de madeira com uma cadência rápida e determinada. Stephanie atravessou o corredor de serviço, ignorando os funcionários da prefeitura que trabalhavam no local, e empurrou a porta pesada de saída dos fundos, que dava acesso ao pátio pavimentado de paralelepípedos onde os veículos estavam estacionados.
O ar úmido do pós-tempestade atingiu seu rosto como um choque térmico, desfazendo a atmosfera sufocante do auditório. Stephanie acelerou o passo, os olhos azuis varrendo o estacionamento ainda tomado por picapes antigas e tratores.
A cerca de trinta metros dali, a caminhonete Ford azul do Rancho Brown estava parada perto de um carvalho secular. Hank já havia aberto a porta do passageiro e segurava Jane com uma firmeza respeitosa pelo cotovelo, ajudando a rancheira a subir o degrau alto do veículo. Jane estava de costas, o corpo visivelmente curvado sob o peso da exaustão, a cabeça baixa enquanto tentava recolher as pernas para dentro da cabine.
— Jane! — o grito escapou da garganta de Stephanie antes que sua razão pudesse intervir.
A voz feminina, clara e imperiosa, cortou o barulho dos motores que ligavam ao redor. Jane travou o movimento no ar. Hank girou o corpo imediatamente, seus olhos astutos e endurecidos fixando-se na executiva que se aproximava com passadas rápidas, o sobretudo cinza balançando ao ritmo de seus passos.
O velho capataz deu dois passos à frente, fechando o ângulo entre Stephanie e a porta aberta da picape. Ele ajustou o chapéu de feltro sobre a testa e cruzou os braços sobre o peito, transformando-se em uma barreira intransponível de carne, osso e anos de lealdade cega à família Brown.
— A senhora já disse tudo o que tinha para dizer lá dentro, Senhorita White — a voz de Hank soou profunda, áspera como casca de árvore seca, carregada de uma hostilidade velada. — O assunto acabou por hoje. A patroa não está em condições de ouvir mais nenhuma ameaça da senhorita ou da sua empresa.
— Afaste-se, Hank — Stephanie pediu, parando a dois passos do capataz, sem demonstrar medo, embora o ritmo de sua respiração revelasse a urgência do momento. — Eu não vim como representante da Holding. Preciso falar com a Jane. Agora.
— A senhora não vai falar com ninguém — Hank rebateu, sem se mover um centímetro, o corpo bloqueando totalmente a visão da cabine. — A senhora viu o estado dela. Se tiver um pingo de humanidade vai entrar no seu carro e voltar para onde veio.
— Hank... — a voz de Jane saiu fraca da cabine, acompanhada por um gemido abafado de dor.
Stephanie deu um passo para o lado, esquivando-se da figura do capataz, e conseguiu olhar para o interior do veículo. Jane havia conseguido se sentar no banco, mas seu rosto estava assustadoramente pálido, uma máscara de sofrimento contido. A rancheira mantinha a mão esquerda pressionada contra o ombro direito imobilizado, os olhos fechados e os dentes cravados no lábio inferior enquanto tentava dominar a crise de dor desencadeada pelo esforço físico de sair da prefeitura.
Ver a vulnerabilidade dolorida de Jane — aquela mesma mulher que, minutos atrás, desafiara o maior conglomerado financeiro do Estado com uma inteligência e uma paixão arrebatadoras — fez o peito de Stephanie se contrair em um aperto quase insuportável. A barreira corporativa que a executiva construíra ao longo de anos desmoronou por completo.
— Jane, por favor — Stephanie disse, a voz perdendo o tom autoritário e adquirindo uma inflexão suave, quase desesperada, que fez Hank franzir a testa em choque. — Você mal consegue respirar. Deixe-me tirar você daqui. Precisamos conversar sem cinquenta pessoas nos observando.
Jane abriu os olhos devagar. As íris castanhas estavam enevoadas pela dor, mas a chama de firmeza ainda brilhava no fundo de sua pupila. Ela olhou para Stephanie, notando a respiração descompassada da executiva, os fios loiros do coque que haviam se soltado com a corrida e a genuína aflição estampada naqueles olhos azuis que costumavam ser frios como gelo.
— Não temos nada para conversar, Stephanie... — Jane murmurou, embora a falta de ar tornasse suas palavras pausadas. — O recado foi dado lá dentro.
— Você e eu sabemos que isso não é verdade — Stephanie deu mais um passo à frente, aproximando-se da porta aberta da picape, ignorando o gesto de advertência de Hank. — A reunião acabou, mas a situação real não mudou em nada. Você está se destruindo para manter uma fachada de resistência, de força. Por favor, Jane... meia hora. Apenas meia hora longe de todos eles... Eu ainda tenho muito que dizer.
Jane sustentou o olhar de Stephanie por longos segundos. O silêncio no estacionamento era quebrado apenas pelo ronco distante dos motores dos fazendeiros que deixavam o local. A rancheira podia sentir a preocupação real que emanava da mulher à sua frente, um sentimento que não combinava em nada com o papel de executiva implacável que Stephanie desempenhara no palco. A exaustão física de Jane atingira o limite absoluto; a ideia de voltar para o Rancho Brown sacudindo na suspensão dura da picape por trinta milhas parecia uma tortura insuportável.
— Hank — Jane disse, voltando-se para o capataz.
— Não faça isso, patroa — o velho implorou em um sussurro tenso. — Não confie nessa mulher. É mais um jogo de imprensa ou de advogados. Deixe que eu te leve para a fazenda. O Dr. Evans deixou o analgésico forte no armário da cozinha.
— Leve a picape para o rancho, Hank — Jane ordenou com uma firmeza serena que não admitia réplica. — Cuide do gado no pasto norte e garanta que os portões do canal fiquem trancados. Eu dou um jeito de voltar para a fazenda mais tarde.
Hank olhou de Jane para Stephanie, o rosto contorcido pela desaprovação e pela preocupação paternal. Ele hesitou por alguns segundos, ajustando o chapéu com força sobre a cabeça, antes de soltar um suspiro pesado de resignação.
— Se a senhorita não estiver no rancho até o pôr do sol, eu venho com os meninos da vizinhança buscar a senhorita — o velho advertiu, direcionando um olhar duro e promissor para Stephanie. — E não estou nem aí para os advogados de Chicago.
Hank deu um passo para trás, abrindo espaço. Stephanie respondeu com um aceno solene de cabeça, reconhecendo o aviso silencioso do capataz.
Com extremo cuidado, Stephanie estendeu a mão esquerda para ajudar Jane a descer da cabine alta da Ford. Jane hesitou por um segundo antes de aceitar o apoio, colocando a mão esquerda sobre o ombro de Stephanie. O contato físico, embora sutil, fez uma corrente elétrica percorrer a espinha de ambas. Stephanie amparou a cintura de Jane com o braço, suportando a maior parte do peso da rancheira enquanto ela tocava o chão de paralelepípedos.
Jane soltou um suspiro entrecortado quando os pés tocaram o solo, a dor no ombro estalando em uma pontada aguda. Ela permaneceu encostada no corpo de Stephanie por um breve segundo, o aroma de lã fria e o perfume sofisticado da executiva envolvendo seus sentidos, antes de se recompor e dar um passo para trás, mantendo a distância que considerava mais segura para seus sentimentos já combalidos.
— O meu carro está no estacionamento reservado — Stephanie disse baixo, mantendo a mão a centímetros das costas de Jane, pronta para ampará-la se seus joelhos falhassem. — Vamos.
Elas caminharam em silêncio até o Cadillac verde estacionado na lateral da prefeitura. Stephanie abriu a porta do passageiro, ajudando Jane a se acomodar no banco de couro macio e ajustando a alavanca para reclinar o encosto, garantindo que a pressão sobre o ombro direito fosse minimizada. A executiva contornou o veículo com passos rápidos e assumiu o volante, girando a chave na ignição para despertar o motor que roncou suavemente no silêncio do pátio.
O veículo ganhou a rua principal da cidade. Stephanie consultou rapidamente seu relógio de pulso, que marcava quinze minutos para o meio-dia.
— Já é quase meio-dia — Stephanie começou, mantendo os olhos fixos na rua de paralelepípedos molhados enquanto manobrava o carro pelas ruas pacatas da pequena cidade. — Nós podemos ir até o restaurante na outra rua, perto do hotel. É um lugar reservado, eles têm uma mesa no fundo onde ninguém vai nos incomodar e poderemos comer algo enquanto...
— Não — Jane interrompeu, a voz baixa, sem se virar para olhar para Stephanie. — Eu não vou sentar em um restaurante público com você depois do que aconteceu naquele auditório. Metade desta cidade está querendo o meu pescoço por não ter aceitado o acordo de reestruturação, incluindo autoridades locais que querem o que a Holding pode oferecer, e a outra metade quer colocar fogo no seu escritório. Se nos virem juntas comendo como duas velhas amigas, a pouca autoridade que me resta para manter aqueles fazendeiros unidos vai desaparecer em dez minutos.
Stephanie apertou o couro do volante até que as articulações de seus dedos ficassem brancas. Ela sabia que Jane tinha razão. A política local era um campo minado e a cena das duas juntas em um restaurante selaria a ruína da credibilidade de Jane diante da comunidade.
Sem dizer uma única palavra, Stephanie acionou a seta para a esquerda no cruzamento seguinte. Em vez de seguir pela rota que levava direto ao restaurante, ela manobrou o Cadillac em direção ao único hotel de padrão executivo da região, onde se hospedava, desde que havia chegado.
Jane franziu a testa ao perceber a mudança de trajeto.
— Onde você pensa que vai? — perguntou a rancheira, erguendo o corpo no banco com um vinco de desconfiança na testa.
— Para o hotel — Stephanie respondeu de forma objetiva, mantendo a voz neutra. — Minha suíte fica no último andar. É o único lugar nesta cidade onde ninguém vai tentar nos fotografar, nos interromper ou exigir explicações. Eu vou pedir para o serviço de quarto subir a refeição.
— Stephanie, eu não acho que seja uma boa ideia eu ir para o seu quarto de hotel... — Jane começou, uma ponta de hesitação cruzando sua voz.
— Você prefere que eu estacione no acostamento da estrada para conversarmos sobre a falência do seu vale? — Stephanie rebateu, virando o carro para a garagem privativa nos fundos do hotel. — Não seja teimosa, Jane. Você mal consegue se manter de pé. Precisa de um lugar confortável, de um analgésico e de algo quente no estômago antes que desmaie na minha frente.
O tom de firmeza da executiva não deixava margem para replicações. Stephanie estacionou o Cadillac em uma vaga perto da porta nos fundos. Ela desceu rapidamente, contornando o carro para abrir a porta de Jane. Desta vez, Jane não recusou a mão oferecida; a caminhada e a mudança de temperatura haviam intensificado a dor no ombro, tornando cada movimento uma batalha contra o próprio corpo.
Elas cruzaram o pequeno saguão dos fundos sem encontrar nenhum hóspede. Subiram as escadas até o terceiro andar. Stephanie retirou a chave pesada de latão do bolso do sobretudo e encaixou-a na fechadura da Suíte 301, girando o miolo com um estalo metálico firme antes de dar passagem para que a rancheira entrasse primeiro.
A suíte era espaçosa, decorada com tons sóbrios de creme e madeira escura. Uma grande janela oferecia uma vista panorâmica das casas e das colinas verdes do vale ao fundo, ainda encobertas pela névoa da tempestade passageira. Havia uma escrivaninha de madeira organizada com uma máquina de escrever, folhas datilografadas e pilhas de pastas de papelão, uma área de estar com um sofá de veludo azul-marinho e, ao fundo, a porta aberta para o quarto principal com uma cama aconchegante perfeitamente arrumada.
Jane deu dois passos para o interior do ambiente, sentindo o calor dos radiadores acolher seu corpo. Ela parou no meio da sala de estar, a figura em jeans e flanela parecendo um elemento estranho no ambiente refinado do hotel, e diante da executiva de Chicago.
Stephanie fechou a porta e girou a tranca, retirando o sobretudo cinza e pendurando-o no suporte ao lado da entrada.
— Sente-se no sofá, por favor — disse Stephanie, indicando o estofado azul. — Eu vou ligar para a recepção e pedir o almoço.
— Eu não estou com muita fome — murmurou Jane, mas obedeceu, acomodando-se devagar no sofá. Ela apoiou as costas com cuidado contra as almofadas, soltando um suspiro longo enquanto tentava achar uma posição que aliviasse a tensão na escápula.
Stephanie caminhou até o telefone de disco sobre a escrivaninha, discando o ramal do restaurante do hotel.
— Bom dia, aqui é a Srta. White da suíte 301 — disse ela, a voz recuperando o tom profissional e polido. — Gostaria de solicitar o serviço de quarto. Preciso de uma garrafa de água mineral sem gás, uma jarra de chá de camomila quente com mel e duas porções do consommé de legumes e carne com torradas. Nada pesado. E por favor, tragam um recipiente com gelo limpo e duas toalhas secas. Sim, imediatamente. Obrigada.
Stephanie desligou o aparelho e caminhou em direção ao banheiro privativo. Ela voltou alguns segundos depois carregando um copo de água e uma pequena caixa de comprimidos que tirara de sua bolsa de viagem.
— Tome isso — disse ela, estendendo o copo e duas pílulas brancas para Jane. — É um anti-inflamatório forte que o meu médico pessoal em Chicago receita para dores musculares que tenho. Vai agir mais rápido do que qualquer coisa que você tenha no rancho.
Jane olhou para a mão de Stephanie, observando os dedos longos, as unhas impecavelmente tratadas e o anel discreto de ouro branco. Ela pegou os comprimidos com a mão esquerda, tomando cuidado para não tocar na pele de Stephanie, e engoliu-os com um gole longo de água.
— Obrigada — Jane disse baixo, colocando o copo sobre a mesa de centro.
Stephanie permaneceu de pé a alguns passos de distância, os braços cruzados sobre o peito enquanto observava a rancheira. O silêncio voltou a se instalar no quarto, mas já não era o silêncio tenso do auditório; era uma atmosfera carregada de uma intimidade involuntária e perigosa, onde o ruído da chuva fraca batendo contra o vidro da janela parecia ampliar cada respiração.
— Você foi impressionante lá dentro — Stephanie quebrou o silêncio, a voz baixa, quase reflexiva. — A sua leitura sobre a cláusula de variação de custo operacional foi impecável. Vance passou vinte e quatro horas sem dormir desenhando aquela estrutura toda com os auditores de Chicago. Você desmantelou o argumento principal dele em menos de dois minutos.
Jane deu um sorriso amargo, sem olhar para a executiva.
— Você sabe que tenho formação em economia e trabalhei no mercado financeiro antes de voltar para o vale para cuidar do meu pai, Stephanie. E também ajudou vocês terem enviado a minuta de contrato juntamente com o convite. Pude analisar com calma. Eu conheço a estratégia financeira e social que empresas como a sua usam para esmagar pequenas propriedades rurais. Vocês vendem veneno embalado como remédio e depois cobram o caixão quando o produtor não consegue mais pagar a conta.
— Nós oferecemos liquidez em um mercado que está sendo destruído pela seca e pela taxa de juros inflacionada! — Stephanie rebateu, dando dois passos à frente, o tom de voz subindo ligeiramente ao sentir a ferroada do comentário. — Você fala como se a White & Sovereign fosse um bando de piratas que invadiu o vale para roubar a terra de vocês! Aquele conselho de administração responde a investidores internacionais, Jane. Se nós não comprássemos a carteira de créditos dos bancos regionais, outro fundo de investimento teria feito a mesma coisa, e garanto a você que eles não teriam oferecido nem metade das garantias de uso de água que colocamos no contrato por pura concessão minha. Você tem ideia do tempo e do desgaste que levei para convencer os acionistas a concordarem com regras mais flexíveis? Você sabe quais os danos que foram provocados, tanto financeiros quanto a minha reputação por isso?!
— Ah, então eu deveria te agradecer? — Jane virou o rosto, os olhos castanhos inflamando-se de raiva enquanto encarava a executiva. — Deveria ajoelhar e beijar os seus pés porque você decidiu nos enforcar com uma corda de seda em vez de uma de cânhamo rústico? A terra da minha família está nesta região há quatro gerações! O meu pai morreu tentando manter aquele canal aberto para que os nossos vizinhos pudessem plantar sem ter que pedir licença para ninguém! Você não entende o que isso significa porque a sua vida inteira foi construída sobre números, planilhas e dividendos trimestrais!
— Não ouse julgar a minha vida ou o que eu entendo sobre trabalho duro! — Stephanie disparou, caminhando até a borda da mesa de centro, ficando a menos de um metro de Jane, o rosto corado pela indignação. — Você não sabe nada sobre de onde eu vim ou o que eu tive que sacrificar para sentar naquela cadeira de presidente! Eu passei os últimos dez anos trabalhando cinquenta horas por semana em um ambiente dominado por homens que esperavam o meu primeiro deslize para me ver cair! Que achavam que eu só estava ali porque era herdeira, que desmereciam cada decisão que eu tomava, não importando quão acertada fosse ou o dinheiro que rendia acima da média! Eu conquistei cada centímetro da minha posição com muito esforço e disciplina absoluta!
— E vendeu a sua alma no processo! — Jane devolveu, tentando se levantar do sofá, mas a dor no ombro travou o movimento na metade, fazendo-a soltar um gemido agudo e cair de volta contra as almofadas, a mão esquerda voando para cobrir a articulação lesionada.
Stephanie deu um salto à frente, a preocupação sobrepujando a raiva em uma fração de segundo.
— Jane! Não se mexa! — ela exclamou, ajoelhando-se no tapete macio logo em frente ao sofá, as mãos voando instintivamente para os ombros da rancheira.
— Me deixa... eu estou bem — Jane rosnou entre os dentes cravados, tentando se afastar, mas seu corpo recusava-se a obedecer. O rosto da rancheira estava banhado em uma nova camada de suor frio, as sobrancelhas franzidas pela intensidade da pontada que percorria seu braço.
— Cala a boca, Jane, você não está bem! — Stephanie repreendeu com seriedade, mantendo as mãos firmes sobre os braços da rancheira para impedi-la de se mover. — Você é a pessoa mais teimosa, irracional e autodestrutiva que eu já conheci na minha vida!
Duas batidas suaves na porta da entrada interromperam o embate.
— Serviço de quarto — anunciou uma voz jovem do lado de fora.
Stephanie soltou um suspiro frustrado, sem desviar os olhos do rosto de Jane. Ela se levantou do tapete e caminhou até a porta. Ela abriu apenas o suficiente para que o funcionário passasse com o carrinho de metal coberto por cloches e o balde de gelo pedido.
— Deixe sobre a mesa de centro, por favor — Stephanie instruiu, entregando uma nota de vinte dólares como gorjeta ao rapaz. — Obrigada, não preciso de mais nada.
O funcionário obedeceu rapidamente e retirou-se em silêncio, fechando a porta novamente.
O aroma quente do consommé de legumes e carne perfumou o ambiente, misturando-se ao cheiro de camomila e mel que subia da jarra de porcelana. Stephanie aproximou-se do carrinho, pegou uma das toalhas secas que o serviço de quarto trouxera e encheu-a com os cubos de gelo, dobrando as pontas do tecido para criar uma bolsa térmica improvisada.
Ela caminhou de volta ao sofá e ajoelhou-se novamente no tapete, exatamente entre as pernas de Jane.
— Tire a mão — Stephanie ordenou com suavidade, aproximando a bolsa de gelo do ombro da rancheira.
— Stephanie, não precisa... — Jane começou, tentando recuar o corpo contra o encosto do sofá.
— Jane Brown, se você protestar mais uma vez, eu vou chamar a equipe médica do hospital do condado para vir até aqui e te sedar — Stephanie disse, os olhos azuis cravados nos de Jane com uma determinação absoluta que não deixava espaço para discussão. — Agora, por favor... relaxe o corpo.
Jane olhou para o rosto da executiva. A intimidade que esta proximidade trazia era avassaladoramente nova. Stephanie estava ajoelhada entre suas pernas, o rosto a poucos centímetros de seu rosto; Jane podia ver as pequenas sardas de sua pele clara, a curva delicada de seus lábios e o brilho intenso daquelas íris azuis que pareciam devorar cada detalhe de sua expressão. A raiva que queimara entre elas instantes atrás parecia ter se transformado em uma substância mais densa, magnética e perigosa.
A rancheira cedeu. Ela soltou a mão esquerda do ombro machucado e deixou a cabeça tombar levemente para trás contra o veludo azul do sofá, fechando os olhos.
Com extrema delicadeza, Stephanie posicionou a bolsa de gelo sobre o tecido da tipoia preta, cobrindo a região inflamada do ombro direito de Jane. O contato do frio intenso fez a rancheira soltar um longo suspiro entrecortado, o corpo relaxando gradativamente à medida que a anestesia térmica começava a fazer efeito junto com as pílulas que engolira.
— Melhor? — Stephanie perguntou em um murmúrio baixo, mantendo a mão esquerda sobre a bolsa de gelo para segurá-la no lugar, enquanto sua mão direita repousava suavemente sobre o joelho coberto pelo jeans de Jane.
— Sim... — Jane respondeu sem abrir os olhos, a voz rouca caindo para um tom quase inaudível. — O gelo ajuda com a dor. Obrigada.
- Me conta o que aconteceu com seu ombro? – Pediu Stephanie.
Jane a olhou nos olhos, o olhar se desviando por um instante para os lábios tão próximos.
- Eu cai no fundo do canal que leva agua para o setor sul. Se não fosse por Hank que estava por perto, eu poderia ter me afogado. O braço deslocou com a queda. – Relatou.
Stephanie ficou em silêncio, observando a linha da mandíbula de Jane, a curva suave de seu pescoço onde a gola da camisa xadrez estava ligeiramente aberta e o subir e descer ritmado de seu peito. A vulnerabilidade de Jane naquele momento desarmou qualquer vestígio de postura fria na executiva. Ela percebeu o quanto desejava estar ali, o quanto aquele confronto na prefeitura fora apenas a válvula de escape para uma força muito mais profunda e incontrolável que se desenvolvera entre elas desde o primeiro encontro no pátio do rancho.
— Por que você não me ligou e me contou? — Stephanie sussurrou, a mão no joelho de Jane subindo alguns centímetros, um movimento quase involuntário de carinho.
Jane abriu os olhos devagar, encarando a mulher ajoelhada à sua frente.
— Ligar para contar o quê? Sobre o acidente?
— Sobre a dor... sobre o quanto esse ombro estava mal — disse Stephanie, os olhos azuis carregados de uma ternura dolorosa. — Você se portou na frente naquele palco como se fosse inquebrável. Mas estava morrendo por dentro e continuou atacando a mim e à minha empresa como se nada pudesse te atingir.
— Porque eu preciso ser inquebrável, Stephanie — Jane respondeu, o olhar fixo no de Stephanie, a seriedade de suas palavras cortando a atmosfera. — Se aqueles fazendeiros virem um único sinal de fraqueza em mim, eles vão se render. Eles vão assinar os contratos da sua Holding e entregar as terras que os pais deles levaram cem anos para construir. Eu sou a única coisa que está mantendo a coragem daquelas famílias viva. Eu não posso me dar ao luxo de sentir dor.
— E quem cuida de você, Jane? — a pergunta de Stephanie saiu carregada de um sentimento que ela própria não conseguiu conter. — Quem cuida de você quando as coisas dão errado, quando as expectativas acabam?
A pergunta atingiu Jane como um impacto silencioso. A rancheira piscou, surpresa com a vulnerabilidade na voz de Stephanie. Ninguém lhe fazia aquela pergunta há anos. Desde a morte de seu pai, Jane assumira o papel de protetora, de pilar inabalável, referência de toda uma comunidade, sufocando suas próprias necessidades, dores e desejos em nome de um dever de herança que parecia devorá-la dia após dia.
— Ninguém — Jane respondeu em um sopro de voz, o tom desprovido de qualquer ressentimento, apenas a constatação fria de sua reality. — Eu cuido do rancho, a terra cuida da gente. É assim que funciona.
— Não precisa ser assim, me deixa te ajudar — Stephanie disse, a voz falhando ligeiramente.
A mão direita de Stephanie deixou o joelho de Jane e subiu devagar, tocando a curva de sua cintura com uma leveza extrema, quase receosa de feri-la. Os dedos finos da executiva tocaram a pele quente da mandíbula de Jane em um afago suave, que fez a rancheira prender a respiração.
O ar no quarto pareceu esquentar de súbito. A bolsa de gelo permanecia apoiada com firmeza sobre o ombro lesionado, enquanto toda a atenção das duas mulheres se concentrava no espaço ínfimo que separava seus rostos.
— Stephanie... — Jane pronunciou o nome da executiva como um sopro hesitante, mas não se afastou.
Stephanie aproximou o rosto com extrema cautela, consciente de cada músculo tenso no corpo de Jane. Ajoelhada entre as pernas de Jane no sofá, ela se inclinou milímetro a milímetro e selou seus lábios nos dela.
Foi um toque delicado, um roçar suave e calmo que carregava a fragilidade do momento e o peso da dor que Jane carregava no ombro e corpo. O beijo nasceu calmo, um encontro sutil de lábios que dispensava qualquer pressa ou avidez, traduzindo apenas o carinho pungente e a compreensão mútua que surgira entre ambas. Jane suspirou contra a boca de Stephanie, relaxando o rosto e permitindo-se entregar àquele carinho por alguns segundos, enquanto a mão da executiva permanecia firme e cuidadosa em seu pescoço, sem exercer nenhuma pressão sobre seu ombro.
Stephanie sentiu a respiração de Jane vacilar ligeiramente sob o esforço de se manter ereta e, com a mesma delicadeza com que começara, afastou devagar os lábios. Ela permaneceu a poucos centímetros de Jane, os olhos azuis fitando-a com uma mistura limpa de afeto e preocupação.
— Chega por agora — sussurrou Stephanie, deslizando o polegar com suavidade pela bochecha de Jane antes de recolher a mão. — Você precisa comer algo quente e descansar essa articulação antes que o remédio perca o efeito.
Jane piscou, ainda meio tonta pela proximidade e pelo alívio súbito da dor, mas acolheu o gesto com um aceno sutil de cabeça. A executiva se levantou do tapete com elegância, ajustou o terno e caminhou até a mesa de centro que continha o serviço de quarto ali depositado.
Com gestos práticos e cuidadosos, Stephanie serviu uma tigela do consommé fumegante, acomodou a jarra de chá ao lado e trouxe a bandeja até a mesa de centro, posicionando tudo ao alcance fácil da mão esquerda de Jane. O cuidado, o carinho e a atenção genuína revelados nos atos simples da executiva confundiram Jane, um sentimento se desenhando entre elas como um refúgio seguro no meio de toda aquela tempestade.
Fim do capítulo

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