Capítulo 48

Encerrando um ciclo

de 34, por Luciane Ribeiro

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Vicente chegou animado como sempre. Não sabia dizer se tinha sido uma boa influência para Tris. Aquele cachorro atrapalhado estava mais agitado do que costumava ser. Agora eu tinha que lidar com três hiperativos antes do café da manhã.
— Vocês já prepararam o café?
— Ainda não. Estava a caminho da padaria quando o senhor chegou.
— Não me chame de senhor, Heleninha. Parece que tenho oitenta anos. Já pedi para me chamar de sogro ou sogrinho.
— Claro, sogrinho.Me desculpe.Eu esqueci.
— Essa é a ultima vez que vou perdoar.
__Sim senhor!
__Por que, ao invés de comprar coisas pra preparar o café , nós não vamos a padaria? Quando meus filhos eram pequenos, sempre os levava para tomar café na padaria aos domingos.
— Eu adoraria.
— O que fez com minha filha, Helena?
— Eu?
— Cheguei faz quinze minutos e ela está quieta e bem-comportada demais.
— Ela ainda está sonolenta. Precisa de açúcar para despertar.
— Então é melhor irmos atrás do café da manhã. Conheço o lugar perfeito.
Enquanto pegava minha bolsa, meu celular começou a tocar. Era um número desconhecido.
— Alô.
— Bom dia, doutora Helena. Sou a Rafaela, irmã da Dandara. Vim deixá-la na Casa Verde, mas não tem ninguém aqui.
— Desculpe. Eu esqueci completamente de avisar que a Carolina teve um problema e ia chegar mais tarde e a Talita começou no novo emprego e não ira mais estar conosco. Espere um pouco, que estou a caminho. Vou autorizar sua entrada.
— Certo! Ah! A tia Taís pediu para te avisar que a aguarda para uma reunião com a equipe jurídica às três horas. Para não se esquecer.
— Não esquecerei. Logo estarei aí.
Vicente e Amanda me aguardavam no portão. Ela parecia completamente sem jeito perto de Vicente. Achei um pouco divertido vê-la tão tímida.
— Desculpe, sogrinho, não poderei acompanhá-los no café. A folga do recesso terminou. Preciso voltar ao trabalho. Minha aluna está me esperando.
— Tudo bem, Heleninha. Não vão faltar oportunidades para tomarmos café juntos. Eve e eu vamos aproveitar por você.
Amanda olhou para mim, como se pedisse ajuda para escapar daquele encontro, mas eu acreditava que a convivência entre eles era importante, considerando que ela dividia o mesmo corpo com Eve.
Aproximei-me dela e a abracei. Ela aproveitou para pedir socorro.
— Diz que eu preciso ir com você.
— Está com medo?
— Não sei como devo agir com ele. Não sei o que dizer.
— Vai se sair bem. É só ser você mesma.
— Amor...
— Relaxe, vai dar tudo certo.
Meu sogro obviamente não perdeu a oportunidade de provocar a filha ao ver que ela não me soltava.
— Filha, prometo que vou te devolver antes que morra de saudades dela.
Amanda deu um sorriso amarelo, depois me deu um beijo e outro abraço demorado.
— Vou sentir sua falta.
— Também vou. Muita.
— Te amo.
— Também te amo.
Me separei dela. Meu sogro me abraçou. Em seguida, coloquei o Tris no carro e parti.
Quando cheguei à Casa Verde, logo vi que havia algo errado. Rafaela e Dandara estavam no jardim, e a expressão de cansaço no rosto de Rafaela era evidente.
Dandara veio correndo me cumprimentar. Nesse momento, percebi o motivo do cansaço de Rafa. Dandara disparou mil palavras em dez segundos. Estava extremamente agitada, e a agitação aumentou quando abri a porta e Tris foi direto para ela.
Os dois começaram a correr sem parar.
Eu precisava acalmá-la antes que seu cérebro se sobrecarregasse.
Rafaela se aproximou. Amava a irmã, mas o cansaço da faculdade e do estágio antecipado no escritório de Taís não permitia que ela a acompanhasse naquele momento hiperativo.
— Desculpe sair de fininho, doutora, mas Dada quase me deixou maluca no caminho até aqui. Acho que vou morrer se não dormir antes de ir para a faculdade.
— Tudo bem, Rafa. Obrigada por trazê-la. Deixe que eu cuido da nossa bateria infinita. Talvez o Tris a canse o bastante antes de começarmos os estudos.
— Boa sorte, doutora. Tchau, Dada. Te amo.
— Tchau, Rafa.
Deixei Dandara brincando com Tris enquanto organizava tudo no laboratório. Precisava preparar as cobaias e todo o material do 34 para nossa mudança.
Enquanto olhava para o laboratório, um certo receio, misturado à nostalgia, começou a tomar conta de mim.
Eu estava na Travinski havia tanto tempo que já a considerava minha casa.
Foi lá que conheci Eve. Também foi lá que vivi meu pior pesadelo. Causado por ela.
Começar no Isabel Montello me assustava um pouco. Havia um certo medo do que viria pela frente. Às vezes, eu pensava que tudo aquilo era uma loucura e que deveria desistir da ideia.
O que havia dado em mim para concordar tão rapidamente com pessoas que eu mal conhecia?
Mas, quando me lembrava dos laboratórios modernos e da liberdade criativa que me ofereceram, meu lado cientista gritava:
“Vamos logo.”
E, quando me lembrava de tudo no que a Travinski permitiu que Laura fizesse com Dandara, meu lado humano queria explodi-los.
Estava distraída quando Dandara entrou.
Parecia um pouco mais calma, mas ficou visivelmente confusa ao me ver embalando tudo.
— O que está acontecendo, doutora? A senhora vai embora?
— Sim! A partir de hoje, não faço mais parte do Instituto.
Ela ficou me olhando por alguns segundos.
— E eu? O que acontecerá comigo?
— Você irá comigo. Nós duas vamos nos divertir com sua tia Karina, no Isabel Montello.
Um sorriso lindo surgiu no rosto de Dandara. Seus pequenos olhos brilharam como estrelinhas.
— Acabei de pedir à sua mãe para solicitar sua transferência.
Os olhos de Dandara brilharam.
— Então vou estudar no Isabel Montello?
— Vai. E sua tia Karina provavelmente vai adorar ter você por perto.
— Ela vai me ensinar genética? E a tia Eve? Ainda quero aprender muitas coisas com ela. E o programa de verão da doutora Erika?
— Bem... a Eve também vai conosco. Quanto ao programa, sei que você estava ansiosa por ele, mas não poderá mais participar. Porém, vai aprender genética, biologia molecular e tudo o que for interessante nas pesquisas da sua tia Karina. Além disso, poderá participar de todas as experiências com a Eve.
Dandara sorriu.
— Vai ser muito legal!
__Depois que terminarmos de empacotar, vamos ao meu outro laboratório e deixarei você nas aulas de estudos gerais. Mais tarde, vou buscá-la para as aulas avançadas.
Ela olhou para as caixas espalhadas pelo laboratório.
— Posso ajudar?
— Pode.
— E o Tris? Ele vai ficar sozinho?
— Claro que não. Eve e eu jamais o deixaríamos. Você vai poder causar caos com ele sempre que quiser.
Dandara riu.
— Ele é comportado. Nós dois somos... às vezes.
Olhei para ela.
Ela sorriu.
— Está bem. Vou tentar.
Balancei a cabeça, rindo.
— Já é um começo. Agora vamos terminar isso.
Quando estávamos prestes a sair para ir a Travinski, recebi a chamada de Tais.
— Bom dia, Helena. Como vai você?
— Bom dia. Estou bem. E você?
— Estou empolgada. Seus empregadores acabaram de começar uma guerra comigo.
— O que quer dizer?
— No momento, eles entraram com uma liminar proibindo você de levar qualquer coisa dos seus laboratórios, alegando que é propriedade deles.
— Não acredito! Então não posso buscar sequer meus itens pessoais que ainda estão no escritório?
— No momento, não. Mas não se preocupe. Vou contra-atacar com tanta força que nem vão saber o que os atropelou. Darei mais detalhes em nossa reunião mais tarde. Liguei apenas para avisar que você deve ir até lá hoje.
—Obrigada pelo aviso.
— Ah, Rafa me disse que deixou a Dandara com você. Sei que ela deveria ir para as aulas básicas hoje, mas devo orientá-la a não levá-la. Heloisa disse que a Lótus interceptou alguns e-mails estranhos de Laura e de outra pessoa. Por segurança, mantenha-a ao seu lado. Heloisa mandará gente para proteger vocês.
Olhei para Dandara.
Ela já estava tentando descobrir qual caixa poderia carregar.
— E a Amanda?
— Não se preocupe ,ela segura. Parece que a ameaça é só contra Dandara.
Depois de desligar o telefone com Tais, decidi deixar a mudança de lado e exercer meu papel de professora.
Chamei Dandara e comecei a ensiná-la sobre as diversas terminações nervosas do cérebro, a influência delas sobre os neurônios e a relação com as demais áreas cerebrais.
A aula se prolongou mais do que eu havia planejado. Dandara parecia incapaz de manter a concentração em um único assunto por muito tempo. A cada explicação, surgiam outras perguntas, que acabavam nos levando para um assunto completamente diferente.
Depois do almoço, voltamos às aulas, mas por pouco tempo. Logo começamos a nos preparar para a reunião com Tais.
Durante o caminho, notei um carro estranho nos seguindo.
No início, tentei ignorar.
Talvez fosse apenas coincidência.
Mudei de faixa.
O carro mudou também.
Fiz uma conversão desnecessária.
Ele continuou atrás de nós.
Olhei pelo retrovisor e senti meu corpo ficar em alerta.
Dandara estava distraída, falando sobre alguma coisa que havíamos discutido durante a aula.
Eu não queria assustá-la.
Peguei o celular e liguei para Tais. Ela não atendeu. Liguei então pra Clara ,não atendeu tambem. Na verdade nenhum dos números que disquei ,atendeu. Logo agora. Quando eu mais precisava delas.
Precisávamos chegar àquela reunião.
Entramos em um trecho deserto da estrada.
O carro acelerou e logo ficou ao nosso lado.
Olhei rapidamente para o motorista, mas não consegui identificar quem estava dentro.
Pouco à frente, dois carros entraram na via e pararam, bloqueando completamente a passagem.
Pisei no freio para evitar a colisão.
Dandara arregalou os olhos.
— O que está acontecendo?
— Dandara, ligue para suas tias.
— Qual?
— Qualquer uma delas!
Os homens desceram dos carros e vieram em nossa direção, apontando as armas e ordenando que saíssemos do veículo.
— Doutora...
Segurei firme a mão de Dandara.
— Vai ficar tudo bem!
Descemos do carro e eles nos fizeram entrar em outro veículo.
Eu segurava Dandara como se ela pudesse desaparecer a qualquer momento. Só tinha uma certeza: em hipótese alguma permitiria que nos separassem.
Em determinado ponto da estrada, vi mais dois carros à nossa frente.
Eles pararam.
Homens armados desceram e apontaram as armas para mim.
— Desça.
Apertei ainda mais Dandara contra o meu corpo.
— Não vou sem ela.
Um dos homens se aproximou.
— Não posso te matar, mas posso te entregar toda quebrada. Não me teste.
Olhei diretamente para ele.
— Então terá que me deixar em pedaços.
Fiz uma pausa, sem soltar Dandara.
— Mas garanto que, seja lá quem tenha contratado você, vai gostar muito menos do resultado.
O homem fez um gesto com a cabeça para o comparsa, que abriu a porta e começou a tentar me arrancar do carro.
Dandara, assustada, mas com uma coragem admirável, começou a dar socos e chutes no braço do homem.
Ele se irritou, apontou a arma para ela e mandou que parasse ou atiraria.
Ao perceber que ele não estava blefando, segurei o rosto de Dandara entre as mãos.
— Dandara, acalme-se, por favor. Vai ficar tudo bem.
Saí do carro e eles começaram a me empurrar em direção ao outro veículo.
Eu só conseguia pensar em uma coisa: precisava continuar perto dela.
Torcia para que algum milagre acontecesse.
E ele aconteceu.
Assim que entrei no carro, ouvi o estampido seco do primeiro tiro, seguido por outros.
Os homens se abaixaram e começaram a procurar abrigo enquanto revidavam os disparos.
Eu me virei imediatamente, tentando enxergar Dandara.
— Dandara!
Meu coração disparou.
Eu precisava saber se ela estava bem.
Três pessoas vestidas de preto, com o rosto coberto, se aproximaram de forma estratégica.
Vi quando abriram a porta do carro e retiraram Dandara.
— Não!
Tentei me soltar, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, um dos homens entrou no carro onde eu estava.
O motor foi acionado e arrancamos em alta velocidade.
Olhei pela janela, tentando encontrar Dandara entre os homens.
Não consegui.
Agora, além do medo de para onde estavam me levando, havia outro: o de sofrermos um acidente.
O carro avançava pela estrada em uma velocidade absurda, fazendo as curvas sem diminuir.
Apertei o cinto e segurei com força no banco.
Eu precisava manter a cabeça no lugar.
Precisava descobrir para onde estavam me levando.
Mas, acima de tudo, precisava encontrar uma maneira de voltar para Dandara.
— Você vai matar nós dois dirigindo desse jeito. Seus comparsas foram rendidos. Desista e me deixe ir.
Ele nem sequer olhou para mim.
— Não sou homem de deixar trabalho pela metade.Posso ter perdido a garota ,mas a mercadoria principal será entregue.De um jeito ou de outro.
Olhei novamente para a estrada.
— Desse jeito nós dois morreremos.
Ele soltou uma risada curta.
— Sei o que estou fazendo.Fica tranquila, chegaremos sãos e salvos.
Senti um arrepio percorrer meu corpo.
— Então para onde está me levando?
Ele não respondeu.
Apenas acelerou ainda mais.

Fim do capítulo

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