Capítulo 49

Uma estranha no ninho?

de 34, por Luciane Ribeiro

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AMANDA

Entrei no carro e Vicente começou a dirigir em silêncio. Quando virou o carro e passamos por Helena, ela acenou como se estivesse me dizendo: vai ficar tudo bem.
Minha vontade era de sair e ir até ela. Não apenas porque me sentia desconfortável com aquele homem, mas porque a ideia de ficar longe dela me deixava ansiosa.
Acreditei que íamos a uma padaria próxima, mas ele pegou a Avenida das Américas e seguiu como se estivesse buscando o horizonte.
Durante o caminho, falava sem parar, contava piadas ruins e histórias das netas. De certa forma, aquilo me reconfortava.
Quando finalmente chegamos, notei que o lugar escolhido existia havia mais tempo do que Eve provavelmente tinha de vida.
Sentamo-nos em uma mesa no canto, próxima a uma grande janela.
Eu não sabia o que dizer.
Ele sabia.
— Sei que você não é a Eve. Você é Amanda, certo?
Acenei com a cabeça.
— Deve ser difícil para você ter que interagir conosco. Não entendo muito bem como isso funciona. O que minha sogra me explicou é que você é como uma irmã gêmea.
Ele sorriu.
— Conheço muito bem a Eve e quero conhecer você também. Saber se você é de sol ou de chuva, de achocolatado ou café.
As palavras dele me deram uma sensação de calor acolhedor.
Sinceramente, não esperava que fosse reagir tão bem à minha existência, principalmente porque Aretta me evitava como se eu fosse uma doença.
Porém, eu a entendia.
Na visão dela, eu era a prova de que sua filha nunca mais seria a mesma.
Vicente me observava com atenção, desviando o olhar de vez em quando para o cardápio.
Decidi dar um passo em direção àquele amor paterno exagerado que eu conhecia pelas lembranças de Eve.
— Bem, diferente de Eve, eu prefiro café com leite e pão francês com requeijão.
— Já temos isso em comum. Também gosto de café com leite e um pãozinho francês bem moreninho.
Ele gesticulou, chamando a atendente, que anotou nosso pedido.
Enquanto aguardávamos, engatamos em uma conversa bastante interessante sobre carros. Eu não entendia muito bem do assunto, mas tinha certo fascínio por automóveis.
Em algum momento, a conversa chegou à minha falta de experiência ao volante.
— Você sabe dirigir?
— Não me deixaram pegar no volante ainda, então não tenho muita certeza se tenho essa habilidade.
Ele me olhou por alguns segundos, como se tivesse acabado de tomar uma decisão.
— Eu fiz questão de ensinar todos os meus filhos. Com você não será diferente. Depois do café, nós dois vamos testar suas habilidades.
— Está falando sério?
— Claro que estou! Vamos passear e nos divertir.
— Isso inclui uma visita à oficina de restauração de carros antigos?
Ele soltou uma gargalhada.
— Com certeza. Sua irmã está restaurando um Opala vermelho que está ficando uma obra de arte. Você precisa ver.
Me empolguei mais do que gostaria de admitir.
No entanto, aquilo significava outra interação familiar.
Alicia.
Pelas memórias de Eve, eu sabia que ela era quieta, mas muito carinhosa com a irmã.
Como reagiria a mim?
Vicente, como excelente observador que era, percebeu minha preocupação.
— Não se preocupe. Alicia vai adorar você.
— Tenho uma curiosidade.
— Qual?
— Por que deu esses nomes aos seus filhos?
Ele sorriu.
— Eu era e continuo sendo um homem apaixonado e devoto à minha esposa.
Fez uma pequena pausa, como se estivesse organizando as lembranças.
— Quando Aretta engravidou de Arthur, ela estava fascinada pelas histórias da mitologia grega. Queria nomes de deuses gregos e seres do tipo.
— E você?
— Eu queria nomes mais comuns ,mas que tivessem a inicial A, para combinar com o nome dela.
Ri.
— Então vocês fizeram um acordo?
— Mais ou menos. Então concordamos em Aquiles para agradar a ela e Arthur para me agradar.
— E Alicia?
O sorriso dele mudou ligeiramente.
— Na época em que Aretta engravidou de Alicia, nós estávamos separados. Vivíamos brigando e nos magoando, até que, um dia, o choro de Arthur durante uma das nossas brigas nos fez acordar para o que estávamos fazendo.
Ele sorriu de leve, perdido na lembrança.
— Fizemos Arthur dormir e saímos para o quintal para conversar. Talvez tenha sido a luz da lua cheia, mas, naquele momento, ela me pareceu ainda mais linda. E eu me apaixonei por ela de novo.
O sorriso dele se tornou mais evidente.
— Alicia foi concebida naquela noite. Então ela escolheu Ártemis, que é a deusa da lua, e eu escolhi Alicia, pela beleza nobre de Aretta que nossa filha herdou.
Sorri.
— E a Eve? Por que ela não tem dois nomes começando com A?
O sorriso dele desapareceu por alguns segundos.
— Eve tinha uma irmã gêmea. Então foi um pouco mais demorado para escolhermos os nomes. Pensamos em muitas combinações. No final, decidimos por Ananque Amanda e Atena Ana.
Meu coração pareceu falhar uma batida.
Vicente continuou:
— Mas, infelizmente, a irmã deixou de existir no quarto mês.
Baixou os olhos por um instante.
— Aretta ficou arrasada ,a gravidez se tornou de alto risco então ela quase não saia da cama. Eu levava as crianças pra minha mãe todos os dias para que ela pudesse repousar .
Fiquei em silêncio.
— No dia em que ela entrou em trabalho de parto, meu carro ficou preso em um alagamento enquanto voltava. No desespero comecei a ligar para todo mundo que conhecia ,apenas uma vizinha atendeu.
Ele sorriu ao lembrar.
— Essa vizinha era bastante idosa e Aretta sempre ia a sua casa para saber se ela estava bem de saúde. Por isso não hesitou em nos socorrer, ela ajudou o bebê a vir ao mundo.
Ele me olhou.
— Decidimos dar o nome dela à nossa filha em homenagem. Para Eve não se sentir diferente dos irmãos mantivemos Atena como primeiro nome.
Fez uma pausa.
— Assim ficou Atena Evelyn.
Vicente segurou minha mão e me olhou fixamente. Havia tanta ternura naquele olhar que, por um instante, não consegui desviar.
— Talvez você seja a nossa Ananque Amanda que voltou para nós.
Meu peito apertou.
Ele continuou segurando minha mão, sem exigir nada, sem esperar uma resposta.
E, diante daquele homem que acabara de me contar uma parte tão íntima da história da família, senti um impulso estranho.
Quis abraçá-lo.
Aquele abraço paternal mexeu demais comigo.
Quis muito aquilo.
Quis fazer parte daquela família, ser mimada, ser uma das princesas do papai, como ele se referia às filhas.
Vicente percebeu meu conflito.
— Não quero que se sinta pressionada, nem nada disso. Mas eu acharia o máximo se você me chamasse de pai.
Engoli em seco.
— Desculpe... acho que...
— Tudo bem. Eu entendo.
A carinha de tristeza dele rompeu minha defesa.
Antes que eu pudesse pensar melhor, as palavras escaparam:
— Podemos ir para a minha aula de direção, pai?
Os olhos dele se iluminaram imediatamente.
— Com toda a certeza!
Levantou-se, sorrindo de orelha a orelha.
— Vamos, princesa. Já avisei sua irmã que estamos a caminho.
Aquilo pareceu incomodar profundamente Eve, pois ela se remexeu dentro de mim.
Para ser sincera, gostei bastante de causar esse efeito nela.
Vicente dirigiu com calma até chegarmos ao grande galpão particular onde funcionava a oficina de restauração.
Alicia estava completamente concentrada, imersa no que parecia ser um motor.
— Ali! Ali!
Ela ergueu a cabeça.
— Oi, papai! Desculpe, estava distraída.
Alicia se aproximou, e Vicente a abraçou, levantando-a no ar sem nenhum esforço.
Era engraçado como aquele homem enorme e intimidador, na verdade, era um grande ursinho emotivo.
— Seja bem-vinda, Amanda. Papai falou que você não sabe dirigir. Preparei um carro para sua primeira aula.
— Obrigada.
Vicente se aproximou do motor, e os dois começaram a conversar sobre o problema.
Não sei como, mas alguns minutos depois eu me vi usando equipamentos de proteção e segurando uma pistola de tinta.
Meu “pai” havia prometido aquele carro se eu .conseguisse dirigir.
Fiquei envolvida na pintura do Chevette, que já mostrava sinais de que seria uma obra-prima, assim como o Opala, que era o grande amor atual de Alicia. Os olhos dela brilhavam sempre que olhava para ele.
— Vamos à sua aula.
Ela me levou até um Fusca 78, clássico, bonito e imponente.
Sentei-me ao volante e liguei o carro. Alicia foi me orientando no início, mas logo eu já estava dirigindo como se fizesse aquilo havia anos.
Com certeza, isso tinha alguma relação com a mente compartilhada com Eve.
Fiquei curiosa para descobrir quais outras habilidades nós compartilhávamos.
Minha curiosidade estava prestes a ser sanada.
Pouco depois de estacionarmos, Karina surgiu na oficina.
— Karina? O que faz aqui?
— Oi, Ali! Oi, tio Vicente. Desculpe atrapalhar vocês, mas preciso da Amanda.
Vicente franziu a testa.
— O que houve?
— Nada demais. Só preciso que ela me ajude a resolver uma papelada científica.
— Tem que ser agora? Estamos nos conhecendo.
— Desculpe, tio. É muito importante.
Olhei para Vicente.
— Não fique assim, papai. Prometo que vou recompensar você outro dia.
Ele suspirou.
— Está bem.
Me despedi de Alicia e do meu pai. Depois acompanhei Karina até o carro.
Assim que entramos, a expressão tranquila dela desapareceu.
— Amanda, preciso que você fique calma.
— O que aconteceu?
Ela me encarou por um instante.
— Helena e Dandara foram sequestradas.
Meu corpo inteiro reagiu antes mesmo que eu conseguisse pensar.
— O quê?
— Foram levadas há pouco tempo. Já sabemos onde estão e a equipe está indo buscá-las.
— Quem fez isso?
Karina hesitou por uma fração de segundo.
— Laura.
Senti o sangue ferver e Eve, se remexendo tentando assumir o controle. Respirei fundo e me concentrei. Não ia deixar ela emergir.
Só Helena importava. E ela não era forte para traze la de volta.
— Onde elas estão?
— Amanda...
— Onde?
Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia.
Karina respirou fundo.
— Já mandamos pessoas para resgatá-las.
— Quero ir!
— Eu sei. Mas é uma operação delicada.
— Não estou nem aí! Vou buscá-las, nem que tenha que ir sozinha.
Karina me encarou em silêncio.
— Suas habilidades são necessárias em outro lugar. Estamos indo para lá.
— Não vou a lugar algum a não ser para onde está Helena.
Karina me encarou com firmeza.
— Estou te dando uma escolha: ser útil e descontar sua raiva em pessoas ruins ou ficar em casa esperando.
Franzi a testa.
— Que tipo de escolha é essa?
— O tipo mais eficaz.
Ela fez uma pausa.
— Escolha.
Pensei seriamente em atacá-la e tentar descobrir sozinha onde Helena estava.
Mas eu não fazia ideia de onde elas tinham sido levadas.
De que adiantaria sair correndo sem saber para onde ir?
E se Karina estivesse certa?
E se minha presença realmente colocasse a operação em risco?
Eu odiava admitir, mas ficar parada esperando também não era uma opção.
Se eu não podia chegar até Helena, pelo menos poderia fazer alguma coisa para ajudar a trazê-la de volta.
Respirei fundo.
— Para onde vamos?
Karina finalmente relaxou um pouco.
— Primeiro vamos pegar os equipamentos e nos juntar à equipe.
Assenti.
Não era o que eu queria.
Mas, se alguém ousasse tocar em Helena, eu queria estar pronta quando chegasse a hora.
Chegamos a uma espécie de chácara.
Assim que entramos na casa, vi várias mulheres preparadas para uma guerra. Coletes à prova de balas, equipamentos de comunicação portáteis e armas espalhadas por todos os lados.
Uma delas se aproximou.
— Bom dia, Amanda. Sei que está preocupada, mas confie em nós. Ninguém vai deixar que Helena e Dandara se machuquem.
— É bom que isso não aconteça. Ou eu mesma caçarei cada uma de vocês.
Ela sorriu de canto.
— É desse fogo raivoso que precisamos. Vamos invadir um laboratório. A recepção vai ser pesada, então não podemos hesitar.
Ela me entregou um fuzil.
Fiquei olhando para a arma por alguns segundos.
Até aquele momento, eu nem tinha percebido que nunca havia segurado uma.
Olhei para Karina.
— Esperem! Eu não sei atirar!
_Venha!Vamos ver se você tem capacidade.
Karina me levou até a área externa e apontou para um alvo a certa distância.
— Tente.
Segurei o fuzil sem muita confiança.
— Karina....
—Apenas mire.
Respirei fundo e ergui a arma.
Algo dentro de mim pareceu assumir o controle.
Ajustei a posição do corpo, alinhei a mira e puxei o gatilho.
O disparo acertou o centro do alvo.
Fiquei completamente imóvel.
Olhei para o alvo.
Depois para a arma.
— Eu... acertei?
Karina estava me encarando com os olhos arregalados.
Então um sorriso surgiu em seu rosto.
— Fascinante!
—Como sabia que eu conseguiria?
Ela se aproximou, claramente empolgada.
— Eu não sabia.Foi uma aposta.
Karina cruzou os braços, pensativa.
— Você não sabe atirar. Mas a Eve sabe.
Franzi a testa.
— Como?
— Eu mesma a ensinei, a pedido da tia Aretta.
_Aretta ?Ela parece uma pacifista.
_Tia Aretta também tem um lado sombrio. Houve um tempo que ela era um pouco rebelde e selvagem. Quando os parentes começaram a ser mortos ,ela me fez ensinar seus filhos a se protegerem.
Ela apontou para o alvo.
— Parece que, além das memórias, você também consegue acessar e utilizar as habilidades da Eve.
Olhei novamente para o fuzil em minhas mãos.
De repente, aquela coisa que eu achava ser apenas uma estranha consequência de dividirmos o mesmo corpo parecia muito maior.
— Então... o que mais eu consigo fazer?
Karina sorriu.
— Quero muito descobrir ,mas agora temos trabalho.

Fim do capítulo

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