Capítulo 47

Posicionado as peças

de 34, por Luciane Ribeiro

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Já passava das quatro quando retornamos para a cidade.Eu me sentia leve, como se tivesse descoberto uma nova forma de existir.

Eve e eu estávamos exaustas, dormimos assim que nos aconchegamos na cama. Dormi um sono sem sonhos e quando acordei parecia não ter dormido nada.

A ressaca tomava conta do ambiente quando nos reunimos com as outras. Acreditei que aquele seria o momento de conversar com Aline e Larissa, porém Karina e Heloísa nos impediram. Segundo elas ainda tinha muita coisa a ser esclarecida e resolvida antes de apresentar os fatos a elas. Nos despimos de todos ali com o coração apertado.Com a sensação de culpa por ter recebido todo aquele acolhimento e carinho.

Seguimos de volta para o Rio no final da tarde. Clarissa e Karina foram para casa levando a filha e os sobrinhos de Carissa. O resto de nós seguimos direto para a casa de Taís e Clara, onde revelamos a verdade a elas e a Marcela e Sabrina.

Clara permaneceu em absoluto silêncio durante toda a explicação.

Taís, por outro lado, parecia incapaz de acreditar no que estava ouvindo.

- Precisavam inventar tudo isso... só para levar a Dandara com vocês?

Eve balançou a cabeça.

- Infelizmente, não é invenção. A Dandara está em perigo. Precisamos salvá-la.

O sorriso desapareceu do rosto de Taís.

Sem dizer mais nada, ela se levantou e saiu da sala.

Clara percebeu imediatamente o que estava acontecendo.

Correu atrás dela.

Mesmo assim, quando Taís voltou, já estava com uma arma na mão.

Meu coração disparou.

Instintivamente, Eve se colocou à minha frente.

- Eu sei que mereço isso... - disse ela, sem recuar. - Mas, por favor... a Helena é inocente.

- Nós confiamos em vocês! - a voz de Taís tremia de raiva. - Integraram vocês à Dália Negra, a missão mais importante das nossas vidas... e esconderam um crime odioso!

- Taís, amor... para.

Clara segurou delicadamente o braço da esposa.

- Me entrega essa arma.

Ela não soltou.

- Solta, Clara!

Os olhos de Taís estavam marejados.

- Se a Dandara vai morrer... por que elas deveriam continuar vivas?

Ninguém respondeu.

Foi Sabrina quem quebrou o silêncio.

- Você poderá descarregar toda essa raiva nas pessoas certas.

Ela se aproximou devagar.

- Eu prometo.

Heloísa completou:

- Se acalme, minha amiga. A Dandara precisa de você.

Depois de alguns segundos que pareceram intermináveis, Taís respirou fundo.

A arma finalmente foi entregue a Clara.

Ela se deixou cair no sofá e passou as mãos pelo rosto.

- Muito bem...

Sua voz já não carregava a mesma fúria.

- Imagino que vocês tenham um plano.

Olhou diretamente para Heloisa.

- E acho bom que ele seja o milagre de que estamos precisando.

Heloisa assentiu.

- Antes de qualquer coisa, preciso que resolva a situação empregatícia delas. Quero as duas na ilha o quanto antes, e sabemos que o Travinski não vai liberá-las facilmente.

Heloísa ligou o monitor da sala.

- Para convencer você, vou mostrar exatamente com o que estamos lidando.

Ela exibiu todos os arquivos encontrados no laboratório.

As mensagens sobre o experimento.

As ameaças contra Eve.

Os planos para destruir sua carreira.

As tentativas de me sequestrar.

O possível plano para sequestrar Dandara e a mim.

Taís assistiu a tudo sem interromper.

Quando a apresentação terminou, o ódio em seu olhar continuava ali.

Mas agora estava direcionado a Laura e seus cúmplices.

- Quer que eu cuide da rescisão delas?

- Sim.

Taís assentiu.

- Vou resolver isso.

Marcela cruzou os braços.

- Quero ver todos os relatórios médicos.

Karina sorriu discretamente.

- Eu ia pedir justamente isso. Preciso que você integre e lidere a equipe médica.

Marcela confirmou com a cabeça.

- Considere feito.

Sabrina foi a próxima.

- E eu?

Heloísa ampliou um mapa na tela.

- Você vai começar a cavar.

Apontou para uma área da Zona Norte.

- A Lótus identificou uma instalação bastante suspeita. O escaneamento detectou diversos leitos, pessoas em camas ligadas a aparelhos e uma área refrigerada com múltiplas formas humanas.

Sabrina imediatamente ficou séria.

- Me mande tudo.

Pegou o celular.

- Começo essa investigação amanhã cedo.

Karina voltou a falar.

- Por enquanto, Aline e Larissa não podem saber de nada.

- Vamos contar quando tivermos a solução... e os culpados.

Taís apoiou os cotovelos nos joelhos.

- E a Laura?

Heloísa sorriu de um jeito que me fez entender por que tantas pessoas tinham medo dela.

- Eu mesma vou convencê-la a colaborar.

Olhei para ela.

- E se ela se recusar?

Foi Taís quem respondeu.

Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.

- Bem... digamos que nós não somos exatamente as mocinhas desta história.

Olhou para mim.

- Em algumas situações... ficamos bem mais próximas das vilãs.

Tais arqueou uma sobrancelha.

- Tudo bem para você, Helena?

Pensei por alguns segundos.

Depois respondi com sinceridade.

- Meus pais me ensinaram que não existem santos e demônios.

Olhei para todas elas.

-  Todo ser humano vive no meio do caminho.

Respirei fundo.

- E, às vezes... precisamos caminhar um pouco mais perto do nosso lado mais sombrio para impedir que alguém faça coisas muito piores.

Eve sorriu.

- Gostei disso.

Virei imediatamente para Eve.

Alguma coisa estava errada.

A maneira como ela sorria...

A postura.

O brilho dos olhos.

Segurei seu rosto entre as mãos.

- Amanda...

Ela abriu seu tradicional sorriso sarcástico.

- Demorou mais para perceber desta vez... noivinha.

- Por que apareceu?

Ela deu de ombros.

- Porque a Eve não é forte o bastante para manter você segura.

Seu olhar percorreu a sala.

- Na verdade... ela não consegue nem manter nós duas seguras.

Sorriu de lado.

- Quase levamos um tiro há poucos minutos.

Antes que eu pudesse explicar qualquer coisa, ela mesma tomou a palavra e se apresentou.

- Eu me chamo Amanda. Divido este corpo com a Eve. Como .Quando. E por que eu existo, ninguém realmente sabe .E também não importa.

Depois segurou minha mão.

_O que precisam ter sempre em mente é que Helena também é minha mulher.

Olhou para todas.

- O que significa que não vou admitir que coloquem nenhuma de nós em risco.

Sabrina inclinou a cabeça.

- Você é uma espécie de alter ego?

Amanda deu de ombros.

- Para simplificar... podemos dizer que sim, mas sou muito mais que isso.

Taís sustentou seu olhar.

As duas pareciam prestes a iniciar outro confronto.

- Se voltar a apontar uma arma para nós... é melhor ter certeza de que vai atirar para matar.

Amanda sorriu.

- Do contrário... eu mesma vou eliminar você.

Taís não recuou.

- Veremos quem elimina quem.

- Parem com isso! - repreendeu Clara.

Taís apontou um dedo para Amanda.

- Foi ela quem começou, amor!

Clara cruzou os braços.

- A culpa foi sua por ter pego a arma.

Esperou alguns segundos.

- Peça desculpas.

Taís bufou, contrariada.

- Está bem...

Respirou fundo.

- Você está certa.

Olhou para Amanda.

- Eu exagerei.

Fez uma pequena pausa.

- Me desculpe.

Amanda sorriu, satisfeita.

- Desculpas aceitas.

Sabrina e Marcela observavam toda a cena como quem assistia a uma novela.

Nenhuma das duas parecia realmente preocupada.

Conheciam Taís bem demais.

E havia outra coisa.

As duas tinham a estranha sensação de que aquela rivalidade não duraria muito.

Com o tempo...

Amanda e Taís provavelmente acabariam se tornando grandes amigas.

Vamos prosseguir. Vou precisar que me enviem cópias dos contratos de vocês com a Travinski. Quero procurar irregularidades. Se encontrar o que estou imaginando, entro com um pedido de rescisão indireta.

Clara arqueou uma sobrancelha.

- Até parece que você quer que seja fácil assim, meu amor.

Taís sorriu de lado.

- Amo como você me conhece tão bem, minha Clara.

Ela se aproximou da esposa e lhe deu um beijo e um abraço demorado.

Ainda me causava certo estranhamento a facilidade com que aquelas mulheres alternavam entre declarações de amor e planos de guerra, como se as duas coisas fizessem parte da mesma conversa.

- Foco, vocês duas! - reclamou Heloísa.

- Exatamente - completou Sabrina. - Deixem o namoro para depois que formos embora.

Taís deu de ombros.

- Somos multitarefas.

Voltou a ficar séria.

- Enquanto vocês conversavam, já pedi para a minha equipe preparar os pedidos de demissão das duas e coloquei a Rafa para levantar precedentes jurídicos semelhantes.

Clara sorriu, divertida.

- Isso explica por que ela desapareceu tão cedo da festa.

Olhou para a esposa.

- Você é uma carrasca. Tem feito ela trabalhar muito.

- É assim que vou transformá-la na melhor advogada que puder ser.

Taís cruzou os braços.

- E não adianta implicarem só comigo. A Marcela consegue ser ainda pior com a Sara... e a Heleninha também não pega leve com a Dandara.

Sorri discretamente.

- Estava demorando para sobrar para mim.

_Não sou carrasca, Taís. Sou uma excelente mentora. A medicina não é para os fracos.

_Marcela tem razão!

Sabrina olhou para todas nós.

- Nossa crianças são o nosso legado. É natural que sejamos exigentes quando decidem seguir nossas carreiras.

Fez uma breve pausa.

- Agora podemos manter o foco?

Heloisa se levantou do sofá.

- Vamos todas para casa. Absorver tudo. Descansar... e nos preparar para o que vem pela frente.

- Acho melhor assim - concordou Marcela.

Amanda e eu nos despedimos de todas e fomos para casa.

Ela estava estranhamente silenciosa.

Tomou banho, arrumou um lanchinho para nós duas, levou para o quarto, ligou a televisão e se deitou.

Tudo sem dizer uma única palavra.

Pensei em dar espaço, mas o silêncio dela me preocupava demais.

- O que está acontecendo com você? Sem provocações para me irritar ,piadinhas ou tentativas de tirar a minha roupa?

- Estou irritada! E, se eu disser tudo o que estou pensando, iremos brigar. E eu não quero isso.

Fez uma pequena pausa antes de continuar.

- E sobre minha falta de tentativas de te deixar nua... não é que eu não te deseje. Muito pelo contrário. Quero você em todos os sentidos.

- O que isso quer dizer exatamente?

- Não quero ser apenas seu escudo e seu alívio sexual. Quero dormir abraçada e fazer todas as coisas bobas de casal que você faz com ela.

Havia algo de irresistível naquele pedido um pouco torto de atenção. Aquele azul profundo de seus olhos parecia ainda mais hipnotizante naquele momento. Passei o braço em sua cintura e a puxei pra mais perto.

Ela não resistiu.

Apenas se entregou em silêncio.

- Eu comecei a namorar pela primeira vez e já me casei. Agora eu tenho duas esposas que são completamente diferentes, mas habitam o mesmo corpo. É uma situação muito atípica. Ainda estou me adaptando a tudo isso.

- E eu ainda estou me adaptando a existir. Até agora, só conheci o mundo pelos olhos da Eve. Eu queria dizer que somos realmente diferentes, mas não somos. A única coisa que nos difere é que eu não tenho medo de me arriscar por alguém ou por algo que eu queira. E nós duas somos unânimes quando se trata de você.

- Por que eu?

- Por que vocês se conheceram? Por que vocês se apaixonaram? Por que você a trouxe de volta? Por que eu existo? São muitas perguntas, mas, no fim, acho que as respostas não importam. Tudo aconteceu como deveria, quando deveria. E talvez essa loucura de unir aquelas mulheres também seja algo predeterminado por alguma coisa ou alguém muito acima de nós.

- Acredita que tudo no universo esteja conectado e que todas estamos destinadas a nos conhecer?

- Acredito. O universo é vasto demais, assim como a vida,é um mistério indecifrável demais para acharmos que sabemos tudo.

- Quem diria que você seria tão espiritual.

- Gostou?

- Bastante.

Amanda sorriu.

- Devo continuar falando sobre os mistérios do universo? Ou será que devemos apenas matar a saudade de estarmos juntas nessa cama?

Ela se deitou de lado, colocou a mão em meu rosto e ficou acariciando suavemente minha pele enquanto mantinha os olhos fixos nos meus.

- Aquela senhora, Lourdes, tem razão. Você está diferente. Quando te conheci, você ainda tinha uma névoa escura nos olhos, mas agora tudo que vejo é calor e uma luz que brilha à distância.

- Eu finalmente encontrei meu lugar no mundo. E estou livre para ocupá-lo. Não tenho mais receio de buscar o que quero.

_E o que você quer ,Helena?

Não queria mais conversar. Logo seríamos separadas pelas nossas tarefas em prol de Dandara. Tudo que eu queria naquele momento era continuar o que havia começado na ilha e na casa de Larissa.

Beijei Amanda.

Ela correspondeu, suavemente no início. Por um instante, parecia Eve, mas, à medida que o beijo se intensificava, ela me lembrava exatamente quem era.

Amanda assumiu o controle, ficou por cima, beijou meu pescoço enquanto desabotoava, sem pressa, minha blusa. Parou por alguns instantes, me observando enquanto suas mãos deslizavam pelos ombros, seios e abdômen. Senti minha pele ficar mais quente ao observá-la tirar as próprias roupas, e se aqueceu ainda mais ao sentir sua pele nua encostar na minha. Me beijou enquanto uma das suas mãos deslizava devagar para dentro do meu short. Gemi alto quando começou a movê-los devagar, sentindo meu corpo se abrir lentamente à sua vontade. Sua boca sugava meu seio direito, alternando com o esquerdo. Meu corpo obedecia e correspondia a cada toque, a cada beijo. Perdi o fôlego quando entraram em mim sem aviso. Cravei as unhas em sua pele, sentindo-os entrando e saindo, lento e cada vez mais fundo. Ela beijou minha boca novamente. Acariciei seu rosto e segurei firme seu cabelo. O êxtase veio violento, fazendo meu corpo tremer. Ela tirou seus dedos e se encaixou em mim. Quase desfaleci ao sentir o quanto ela estava excitada. Nos ajeitamos em um encaixe perfeito. Nos movemos em um ritmo primeiro lento, mas que foi se acelerando. Atingimos o êxtase juntas. Nos deitamos entrelaçadas, ainda tremendo, tentando normalizar nossa respiração acelerada.

Minutos depois, nos levantamos, trocamos o lençol e fomos para o banho. Tentamos assistir a um filme depois do banho, mas acabamos adormecendo.

Na manhã seguinte, enquanto fazíamos as malas, o celular de Eve tocou.

- Bom dia, Vicente. Certo! Certo! Bom dia, papai.

Não pude deixar de sorrir ao ouvir aquela correção. Estava curiosa para ver como seria a interação entre Amanda e Vicente. Os dois tinham a mesma energia.

Por sorte, eu teria a oportunidade de verificar com meus próprios olhos. Ele ligou para avisar que estava a caminho da nossa casa para tomar café e entregar o Tris.

 

Fim do capítulo

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Comentários

1
M

Mmila

24/08/2026 às 05:00

Bem revelador esse capítulo e tudo encontrado um caminho.....

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