Capítulo 46

Diversão

de 34, por Luciane Ribeiro

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Helena

O dia tinha sido uma verdadeira montanha-russa.E, mesmo assim, de alguma forma, tudo pareceu um pouco mais leve quando chegamos à casa de Aline e Larissa.

Talvez porque aquele lugar tivesse vida.

Risadas.

Música.

Cheiro de comida.

Crianças correndo de um lado para o outro.

Ou talvez porque, depois de tantas horas encarando apenas medo e dor, todas nós precisássemos desesperadamente lembrar que ainda existiam motivos para sorrir.

A cerimônia de integração à Dália Negra ainda aquecia meu peito.

Ela me fez sentir parte de algo muito maior do que qualquer laboratório, pesquisa ou descoberta científica.

Apesar disso, minha atenção continuava voltada para Eve.

Ela sorria.

Conversava.

Mas eu conhecia aquele sorriso.

A culpa ainda a consumia por dentro.

Sabia exatamente no que ela estava pensando.

Quando Taís descobrisse toda a verdade...

Quando Aline e Larissa soubessem o que havia acontecido com Dandara...

Nada voltaria a ser como antes.

Apertei sua mão com mais força.

Ela olhou para mim.

Sorriu de leve.

E sorriu de volta apenas para me tranquilizar.

Peguei sua mão e seguimos caminhando entre os convidados.

Reconheci alguns rostos da última vez em que estive ali.

Cumprimentei alguns deles rapidamente enquanto atravessávamos o jardim.

Mais adiante, avistei Lourdes conversando animadamente com uma mulher de forte sotaque italiano.

Assim que me viu, levantou-se imediatamente.

Veio ao meu encontro com os olhos brilhando de felicidade.

Aquele carinho sempre me emocionava.

Ela me fazia sentir como uma filha.

- Heleninha!

Abriu os braços antes mesmo de chegar até mim.

- Seja muito bem-vinda. Estou tão feliz em ver você.

Sorri e a abracei.

- Eu também estou muito feliz em vê-la.

Ela se afastou apenas o suficiente para me observar.

Seu sorriso aumentou.

- Você está diferente.

Segurou minhas mãos.

- O casamento está fazendo muito bem a você.

Olhei para Eve.

Não consegui conter o sorriso.

- Está mesmo.

Lourdes acompanhou meu olhar.

- Quem diria que o amor da sua vida era alguém que nós já conhecíamos... e de quem gostávamos tanto?

Depois abriu novamente os braços.

- E você? Não vai me dar um abraço, Evelyn?

Eve riu baixinho.

- Oi, mama Lu.

As duas se abraçaram com força.

Era evidente que aquele reencontro carregava anos de carinho.

Quando se afastaram, Lourdes segurou delicadamente o rosto dela.

- Como está sua avó?

- Está bem.

- Fico feliz. Mande um beijo enorme para ela quando voltar.

_ Mandarei. Soube que a Senhora e mama Nay comemoram cinquenta anos de amor. É uma pena que não pude estar presente.

_Você sumiu .Nos abandonou. Depois de muito tempo soubemos o que tinha acontecido com você. Ficamos de coração partido. Fico muito feliz que esteja bem agora. Espero que não desapareça das nossas vidas de Novo. Somos família .E famílias devem ficar unidas.Certo,Heleninha?

_Sim senhora!

_Senhora?

_Certo mama Lu.

_Muito bem !Aprendeu rápido.
_Onde está sua esposa, Anaya? - perguntei.
Lourdes sorriu.
- Hoje ela assumiu o comando da cozinha. Disse que ninguém estragaria o jantar da Aline enquanto ela estivesse por perto.
Ri baixo.
- Vai passar a festa inteira cozinhando?
- Conhecendo a Anaya? Só até ter certeza de que todo mundo comeu bem. Depois aparece por aqui como se não tivesse passado horas dando ordens.
Antes que eu respondesse, senti alguém se aproximar por trás.
- Com licença, mama Lu...
Taís passou o braço pelo de Eve com a maior naturalidade do mundo.
- Vou roubar essa daqui por alguns instantes.
Eve olhou para mim, pedindo autorização apenas com o olhar.
Sorri.
- Pode ir.
_Quem diria que alguém ia domar a Evelyn!
_Não fui domada ,mama Lu.Estou apenas me comunicando com minha esposa.
_Claro.Vamos fingir que você não se tornou dócil e domesticada.Vamos ,minha pupila.
As duas riram.
Observei Eve se afastando ao lado de Taís.
Era curioso.
Taís ainda não fazia ideia do peso que Eve carregava naquele momento.A tratava como se fossem melhores amigas de infância.
Talvez fosse exatamente disso que Eve precisasse.
Alguns minutos vivendo sem culpa.
Sem medo.
Apenas cercada de pessoas que gostavam dela.
Enquanto as duas desapareciam entre os convidados, Lourdes segurou delicadamente minha mão.
- Ela vai ficar bem, Heleninha.
Olhei para ela, surpresa.
- Eu não disse nada.
- Não precisava.
Ela sorriu daquele jeito acolhedor que só algumas pessoas conseguem.
- Você olha para essa menina como quem tenta protegê-la do mundo inteiro.
Sorri sem jeito.
- Acho que ela faz o mesmo comigo.
- Então vocês já têm tudo que importa.
Agora vá se divertir também. E salve sua esposa da Taís. Aquela garota é um furacão categoria cinco. Se ninguém segurar, arrasta tudo pelo caminho.
Não consegui conter a gargalhada.
- Vou ver se ainda dá tempo de salvá-la.
Dei alguns passos na direção delas.
Mas não cheguei muito longe.
Clara surgiu ao meu lado e enlaçou meu braço com a maior naturalidade do mundo.
- Exatamente quem eu estava procurando.
Olhei para ela, divertida.
- É mesmo?
- Claro.
Ela sorriu.
- A Taís vai cuidar da Eve por alguns minutos.
Apontou discretamente para a frente, onde as duas já conversavam animadamente.
- Enquanto isso, você fica comigo. Ainda precisamos nos conhecer melhor.
Assenti, entrando na brincadeira.
- E por onde pretende começar?
Clara abriu um sorriso travesso.
- Pela pergunta mais importante da noite.
Fez uma breve pausa.
- Cerveja... ou vinho?
_Na verdade estava pretendendo experimentar um dos drinks .
_Parece que estamos em sintonia. Estou querendo experimentar o Lune de Aline.
_Todos os drinks que Larissa cria são batizados em homenagem a Aline?
_A maioria deles. Às vezes fico pensando se Tais e eu nos amamos pouco ou se são elas que vivem em um universo diferente do nosso.
_Pelo que notei, nenhuma de vocês ama menos . Sua irmã e Karina por exemplo, ficam ansiosas quando não estão juntas. E a Heloisa, a famosa e aparentemente temida Rainha Purpura, perde totalmente a pose perto da esposa. E você e a Tais até completam a frase uma da outra pelo que pude notar .
_Observadora .O que mais devo saber sobre você? Quem é a Helena Heys fora do laboratório?
_Uma pessoa que procurando a si própria. E tentando entender seu lugar no mundo.
_Somos seres em construção, constantemente em obras. Desculpe a metáfora de construção.Rs
_Sem problemas.
O garçom colocou nossos drinks sob o balcão. Eles eram azuis de um jeito que parecia mágico. Clara entregou um deles a mim e segurou o outro.
_Bem na hora.Vamos fazer um brinde .
Tais parecia ter ouvido telepaticamente pois apareceu junto a nós trazendo Eve um tanto vermelha ate nós.Clara conhecendo a esposa logo perguntou.
_Tais Cristina por que ela esta tão vermelha? O que andou dizendo a nossa afilhada?
Tais abriu um largo ,culpado e divertido sorriso.

Na primeira vez dessas duas...

Apontou discretamente para Karina e Clarissa.

- Minha irmã se esqueceu que nossos parentes do interior iam dormir na casa dela, nossa tia precisou entrar na frente deles e ir  recolhendo as roupas íntimas que as duas  deixaram espalhadas pela sala antes que o restante da família pudesse ver.

O silêncio durou apenas um segundo.

Depois a gargalhada foi tão alta que algumas pessoas ao redor olharam para nós tentando descobrir o motivo.

Karina cobriu o rosto com as mãos.

- Eu definitivamente escolhi a família errada pra entrar. Será que ainda dá tempo de fugir?

- Tarde demais - respondeu Clarissa entre risadas. -Agora é até que a morte nos separe querida.

Até Eve ria sem qualquer preocupação.

As brincadeiras continuaram por mais alguns minutos.

Cada história arrancava uma gargalhada mais alta que a anterior.

Os drinks iam desaparecendo aos poucos, enquanto a vergonha das protagonistas da vez divertia o restante do grupo.

A conversa só foi interrompida quando anunciaram a tradicional entrega dos cartões de aniversário.

Todas seguiram para o jardim, onde Aline recebeu um a um os cartões escritos pelas pessoas que faziam parte da sua vida.

Logo depois vieram as apresentações das filhas.

As meninas dançaram com tanta empolgação que arrancaram aplausos, assobios e algumas lágrimas discretas das mães mais emotivas.

Quando o jantar terminou, o bolo foi servido.

Pouco a pouco os convidados começaram a deixar a casa.

Diferente da festa de Anaya e Lourdes, que teve pista de dança, DJ e música até o amanhecer, Aline preferira uma comemoração mais simples.

Mais íntima.

Mais parecida com ela.

Achei que a noite estivesse chegando ao fim.

Estava completamente enganada.

Assim que os últimos convidados partiram, fomos conduzidas até um micro-ônibus que nos aguardava em frente à casa.

Olhei curiosa para Lourdes.

- Para onde vamos agora?

Ela sorriu como quem estava prestes a revelar um segredo.

- Para a serra, Heleninha.

Arqueei uma sobrancelha.

- Serra?

- Sim.

Aline entrou na conversa.

- Lá podemos nos divertir sem correr o risco de sermos vistas pelos nossos filhos.

Olhei para ela, surpresa.

- Quantas casas vocês têm?

Larissa riu.

- Só duas.

Aline fez um gesto com a mão.

- E, sinceramente, chamar nosso lugarzinho na serra de casa é um exagero.

Procurou as palavras por um instante.

- Está mais para um...

- Um boteco no meio das árvores - interrompeu Karina, arrancando risadas.

Aline revirou os olhos.

- Obrigada por destruir toda a poesia da minha descrição.

- Estou apenas sendo sincera.

- O lugar é o bar da Cíntia - explicou Lourdes. - Ela foi levar as crianças para casa e vai nos encontrar lá daqui a pouco.

Larissa sorriu.

- Normalmente o bar vive cheio.

- Mas hoje está fechado.

Aline ergueu o copo vazio que ainda carregava nas mãos.

- Exclusivamente para a nossa festinha.

Olhei para Eve.

Ela devolveu um sorriso curioso.

Entramos por uma estrada cercada por árvores.

Mesmo em meio à serra, o caminho era muito bem iluminado e sinalizado.

Poucos minutos depois, o micro-ônibus parou diante de um grande galpão de madeira.

Olhei pela janela, intrigada.

Por fora, o lugar parecia apenas um antigo depósito reformado.

Nada chamava muita atenção.

- É aqui? - perguntei.

Karina sorriu.

- Espera entrar.

Descemos uma a uma.

Assim que atravessei a porta, precisei parar por alguns segundos.

O interior era completamente diferente do que eu imaginava.

O amplo salão era tomado por mesas de madeira maciça, distribuídas de forma que todos conseguissem conversar sem perder a sensação de estarem reunidos.

Nas duas laterais havia longos balcões de madeira e granito preto.

Atrás deles, prateleiras iluminadas exibiam garrafas de bebidas dos mais diversos lugares do mundo.

O ambiente tinha um charme rústico, mas sem abrir mão da elegância.

No fundo do salão, enormes portas de vidro davam acesso a um deque.

Lá fora, pequenas luzes amarelas serpenteavam entre as árvores, iluminando discretamente o deck de madeira e parte da mata ao redor.

O som dos grilos misturava-se ao vento frio da serra, criando uma tranquilidade difícil de explicar.

Sorri, encantada.

- Isso está muito longe de ser um boteco.

Karina deu de ombros.

- Continua sendo um boteco.

Aline riu.

- Não liga para ela. A Karina chama qualquer lugar que venda bebida de boteco.

- E ela está certa - respondeu Clarissa. - Só que esse é o melhor boteco da serra.

Todas riram.

Naquele momento, compreendi por que faziam tanta questão de terminar as comemorações ali.

Aquele lugar parecia ter sido feito para reunir amigos, esquecer os problemas por algumas horas e simplesmente aproveitar a companhia uns dos outros.

Juntamos algumas mesas e nos acomodamos.

Larissa caminhava pelo local como quem conhecia cada canto.

Provavelmente conhecia.

Meus olhos percorriam o salão inteiro.

Cada detalhe parecia ter sido pensado com carinho.

Eu estava tão encantada que mal percebi Clara se aproximando.

Ela sorriu ao notar minha expressão.

- Gostou?

Assenti imediatamente.

- Muito.

Ela olhou ao redor com certo orgulho.

- Fui eu quem fez todo o projeto.

Olhei novamente para o salão.

- Sério?

- Me inspirei em outra obra minha.

Sorriu.

- A Caverna dos Amantes, na ilha.

- Você é muito talentosa.

Falei sem esconder a admiração.

- Espero conhecer a gruta quando voltarmos para lá.

- Vai conhecer.

Ela deu um gole no drink antes de perguntar:

- Então... a Karina conseguiu convencer você a trabalhar com ela?

Sorri.

- Podemos dizer que sim.

Os olhos dela brilharam.

- Isso é ótimo!

Ela riu.

- A Dandara vai enlouquecer quando descobrir.

O nome de Dandara ameaçou levar embora toda a leveza que eu sentia.

Mas minha atenção foi completamente desviada quando vi Eve e Taís surgindo com dois microfones nas mãos.

As duas começaram um dueto.

Pela reação das outras, era uma música muito conhecida.

Menos para mim.

Passei tantos anos da minha vida acreditando que certas coisas eram "do mundo" e deveriam ser evitadas, que nunca me permiti descobrir o prazer de simplesmente ouvir música.

Quando terminaram, foram aplaudidas com entusiasmo.

Depois vieram Heloísa e Larissa.

Em seguida Karina e Clarissa.

E, aos poucos, praticamente todas passaram pelo karaokê.

Entre uma música e outra, torres de chope iam sendo esvaziadas.

Drinks coloridos apareciam sobre as mesas sem parar.

E, por determinação de Anaya, garrafas de água eram distribuídas no mesmo ritmo.

- Bebam água também! - ela repetia da cozinha sempre que alguém esquecia.

Segundo ela, aquilo evitaria que acordássemos mortas de ressaca na manhã seguinte.

Como eu ainda era uma completa iniciante no universo das músicas populares, fui poupada da humilhação pública de cantar completamente desafinada.

Confesso que agradeci por isso.

Quando o karaokê chegou ao fim, as luzes diminuíram um pouco e a música ambiente tomou conta do salão.

Foi então que Eve estendeu a mão para mim.

- Dança comigo?

Sorri antes mesmo de responder.

Segurei sua mão e deixei que me conduzisse até o pequeno espaço livre entre as mesas.

Enquanto ela me envolvia pela cintura, uma lembrança atravessou minha mente.

Da primeira festa em que estive com aquelas mulheres.

Eu me lembrava de observá-las dançando e de pensar, em silêncio, como seria bom viver algo assim um dia.

Naquela época, parecia um sonho distante.

Hoje...

Eu estava exatamente onde sempre quis estar.

Nos braços da mulher que eu amava.

Você está tão quieta...

Eve sorriu para mim enquanto continuávamos balançando lentamente ao som da música.

- Está tudo bem?

Sorri de volta.

- Sim.

Olhei ao redor por um instante.

As risadas.

As conversas.

As luzes refletidas nos copos.

O cheiro da madeira misturado ao ar frio da serra.

Depois voltei a encará-la.

- Está tudo perfeito.

Ela inclinou a cabeça de leve.

- Ainda não.

Franzi a testa, divertida.

- O que está faltando?

Ela não respondeu.

Apenas diminuiu ainda mais a distância entre nós.

Seus dedos acariciaram delicadamente meu rosto.

Então seus lábios encontraram os meus.

Foi um beijo lento.

Suave.

Cheio de carinho.

Quando nossos lábios se separaram, ela não se afastou.

Me abraçou mais apertado.

Apoiei a cabeça em seu ombro e fechei os olhos.

Queria sentir aquele momento de forma física, como sentia a brisa suave da noite sobre a pele.Era um daqueles momentos em que se percebe a dimensão do que sentimos.

Eu a amava.

Fosse Amanda ou Eve... eu amava as duas.

E, se algum dia surgisse outra versão dela, provavelmente também encontraria um jeito de amá-la.

 

 

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

2
M

Mmila

22/08/2026 às 10:40

Histórias apaixonadas e apaixonantes....

Adorando cada capítulo.

Parabéns autora.

J

jake

01/08/2026 às 05:56

Cada vez mais apaixonada pela história das nossas meninas 

Parabéns por nós presentear com essa maravilhosa história....

L

Luciane Ribeiro 20/08/2026 às 07:19

Ola .Como vai você? Obrigada por não ter desistido e abandonado nossas meninas.
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