34 por Luciane Ribeiro
Iniciação
EVE
Naquele instante, voltamos a ser apenas um grupo de pessoas normais, animadas pra uma festa de aniversário.
Pouco tempo depois,Karina ficou em silêncio por alguns instantes.
O sorriso havia desaparecido completamente.
Ela respirou fundo antes de voltar a falar.
- Vocês devem estar achando que a Heloísa é meio maluca... por causa da mudança repentina de atitude.
Olhei para Helena e depois para Karina.
- Um pouco.
Ela sorriu sem humor.
- Eu devia ter sido mais sensível. Falar da nossa obsessão desperta lembranças terríveis nela.
Franzi a testa.
- Que tipo de lembranças?
Karina parou o carro ,tirou as mãos do volante e se encostou no banco.
- Nossa família fez muitas vítimas, Eve. Infelizmente, Heloísa foi uma delas.
Meu estômago se contraiu.
- Ela passou por coisas horríveis nas mãos de Diana. Imagino que vocês já tenham ouvido falar das vítimas dela... e do que fez antes de ser encontrada morta.
Assenti.
- Sim. Foram três vítimas...
Karina balançou a cabeça.
- Não.
Sua voz saiu firme.
- Na verdade Diana matou oito mulheres. Três foram as que a policia conseguiu identificar e esse número sobe se considerarmos suas participações nas atividades de Danilo quando ela ainda era menor.
O silêncio voltou a cair sobre nós.
- E claro ,ela também tentou matar sua esposa. Nossa rainha púrpura, Heloisa.
Olhei imediatamente para Helena.
Depois para Karina.
- Heloísa era esposa da Diana?
- Sim.
Ela fechou os olhos por um instante.
- E sentiu na pele as consequências da obsessão dos Resquier. Diana era tão obcecada que não admitia sequer a possibilidade de Heloísa pertencer a outra pessoa.
Balancei a cabeça.
- Eu jamais machucaria a Helena dessa forma.
Karina assentiu.
- Eu sei.
Depois me encarou com uma seriedade que fez meu coração apertar.
- Mas toda obsessão é perigosa.
Fez uma breve pausa.
- Liah era uma mulher extraordinária, mas assim como Diana ,ela também era obsecada por Heloisa,porém ,diferente de Diana,ela jamais a machucaria.
Olhou rapidamente para Helena.
- Mas teria matado qualquer pessoa que ousasse tentar feri la.
Sua voz ficou ainda mais baixa.
- Inclusive a si mesma.
Senti um aperto estranho no peito.
Porque aquela frase era assustadoramente familiar.
Karina percebeu.
- Isso não lembra alguém?
Não consegui responder.
Porque conhecia bem aquele sentimento.
Aquela necessidade sufocante de proteger Helena.
Eu faria qualquer coisa por ela.
Sem pensar duas vezes.
Helena apertou minha mão.
Sabia exatamente o que estava passando pela minha cabeça.
- O que aconteceu com essa tal de Liah?
- Ela foi assassinada por um dos nossos primos psicopatas.
Karina respirou fundo.
- E isso só aconteceu porque decidiu sair das sombras e declarar guerra à família para salvar Heloísa.
O silêncio voltou.
Helena virou-se para mim.
Segurou minha mão com ainda mais força.
- Eu não vou permitir que você faça alguma imprudência para me proteger.
Seus olhos permaneceram presos aos meus.
- Prometa.
Engoli em seco.
- Helena...
- Prometa, meu amor.
Sua voz era firme.
- Seja lá o que acontecer, nós vamos enfrentar tudo juntas.
Acariciou delicadamente minha mão.
- Não enfrente nenhum inimigo sozinha. Não tome nenhuma decisão sem falar comigo. Prometa.
Fechei os olhos por um instante.
Depois assenti.
- Está bem.
Sorri de leve.
- Eu prometo.
Karina também sorriu.
Um sorriso pequeno.
Mas sincero.
- Eu vou ajudar você a controlar essa obsessão, Eve.
Fez uma breve pausa.
- Não vou deixar que ela destrua você... como destruiu tantos dos nossos.
Sorri, emocionada.
- Obrigada.
Helena continuou segurando minha mão durante todo o caminho até o Refúgio.
Nenhuma de nós disse mais nada.
Não era necessário.
O simples calor da mão dela na minha bastava para me lembrar da promessa que acabara de fazer.
Quando atravessamos o portão do Refúgio, o silêncio deu lugar ao som de diversas vozes misturadas a risadas.
Karina, sem a menor cerimônia, foi direto até Clarissa.
Abraçou a esposa e a beijou como se estivessem separadas havia semanas.
A cena arrancou assobios, aplausos e brincadeiras das mulheres que assistiam.
Sorri ao vê-las.
Enquanto observava a cena, vi um rosto exatamente igual ao de Clarissa sorrir e vir caminhando em nossa direção.
Ela abriu um sorriso ao cumprimentar Helena
- Boa tarde, doutora Helena. É bom revê-las.
- Boa tarde, Clara. Como vão você e sua família? - perguntou Helena.
- Muito bem. Os meninos estão ótimos... e minha esposa maluca também. Acabamos de voltar de uma viagem romântica.
- Quem você está chamando de maluca?
A voz divertida fez Clara rir antes mesmo de se virar. E ninguém precisava me dizer ,no momento em que a vi eu soube quem era .
Taís vinha logo atrás dela.
Sorrindo.
Completamente alheia à verdade que, mais cedo ou mais tarde, apagaria aquele sorriso.
- Então essa é a famosa tia Eve.
Sorri, um pouco sem jeito.
- Famosa?
- Muito.
Taís riu.
- Ouvi Dandara falar de você tantas vezes quando ela era pequena que, confesso, sentia uma pontinha de ciúmes.
- Ciúmes? - perguntei, surpresa.
Senti um soco no estômago.
Pensei no quanto Dandara me admirava.
E no que eu, ainda que involuntariamente, permitira que fizessem com ela.
Taís deu de ombros, divertida, sem perceber meu desconforto.
- Eu queria ser a pessoa favorita dela.
Sorriu.
- Mas como competir com experimentos científicos, visitas a laboratórios... e uma cientista disposta a responder todas as perguntas que passavam pela cabeça daquela menina?
- Dandara ama todo mundo - disse Clara, rindo. - Ela muda de pessoa favorita o tempo todo.
- Isso é verdade - comentou Tais. - Depois que esteve no laboratório durante a visita da doutora Erika, ela não parava de falar nela.
Aline, que acabara de se aproximar, entrou na conversa com um sorriso divertido.
- É porque minha cientista mirim admira muito a doutora Erika.
Olhou para Helena e para Eve.
- E lamento informar, mas nenhuma de vocês duas é páreo para ela.
- Aline... - advertiu Larissa , segurando o riso. - Pare de provocar as duas.
Aline ergueu as mãos em sinal de rendição.
- Amor, deixa eu torturá-las só mais um pouquinho.
Depois voltou a olhar para nós.
- Ah, e tem mais uma novidade.
Esperou um segundo de propósito, aumentando o suspense.
- Dandara decidiu que vai participar do projeto especial de verão da doutora Erika.
Helena sorriu imediatamente.
- Ela conseguiu convencer a Erika?
- Conseguiu.
Aline riu.
- Na verdade, acho que ninguém consegue dizer "não" para aquela menina.
- Modéstia à parte... ela aprendeu isso comigo. - Aline sorriu, orgulhosa.
Taís riu.
- Larissa, você vai mesmo deixar nossa menina ir para a Alemanha com uma desconhecida?
- Desconhecida? Nem de longe.
Larissa balançou a cabeça.
- Tive o prazer de conhecer a doutora Erika. Além disso, ela não seria louca de deixar acontecer qualquer coisa com a minha filha.
Um sorriso divertido surgiu em seu rosto.
- Ela se arrependeria amargamente.
_Com toda a certeza, meu amor.
Senti Helena estremecer ao meu lado.
As outras, porém, continuavam conversando e rindo, completamente alheias ao turbilhão que se passava entre nós.
Aline e Larissa tinham um vínculo tão profundo que, às vezes, parecia que conseguiam conversar apenas pelo olhar.
A diferença de idade entre as duas jamais significara alguma coisa.
- Amor... - disse Aline, cruzando os braços. - Conta logo a verdade sobre como Dandara conseguiu autorização para passar um mês na Alemanha sem levar nenhuma de nós.
Larissa riu.
- Está bem, eu confesso.
Ergueu as mãos em rendição.
- Fiz uma parceria com um antigo colega da faculdade. Vou ensinar culinária brasileira e nigeriana para a turma de gastronomia da universidade na mesma cidade onde acontecerá o projeto da Erika. Ficarei hospedada bem próximo de onde ela ficará.
Aline arqueou uma sobrancelha.
- Nem um pouco superprotetora.
- Depois de tudo o que passamos...
Larissa deu de ombros.
- Acho que conquistei o direito de ser.
Aline sorriu derrotada.
- Certo. Você venceu no argumento.
_Dandara é brilhante ,mas ainda é uma criança .Precisa ser cuidada e protegida.
Levantou-se e estendeu a mão para a esposa.
- Então vamos logo para o avião antes que a Clarissa resolva decolar sem nenhuma de nós.
Aline se aproximou de nós sorridente e orgulhosa da sua esposa leoa. Enquanto caminhávamos ela exaltava a esposa.
_Não fiquem com essas caras assustadas. Prometo que Larissa é inofensiva.
_Tem certeza?
_Claro Heleninha. Ela é meu bom senso quando quero explodir meio mundo. Minha calmaria quando sou tomada pela fúria. Confesso que depois de tantos anos vendo o mal no tribunal é ela quem me impediu de ir para o lado errado da lei diversas vezes .Ela é meu porto seguro e ponto de apoio. Não apenas pra mim ,mas pra muitas de nós. Pra tira la do sério tem que acontecer algo muito sério.
_Você ama muito essa mulher .
_Nessa e em todas as vidas. Vamos pra festa!
A comitiva seguiu para o Heliporto. A viagem de volta pareceu mais lenta do que a de ida. Pousamos no pequeno aeroporto da cidadezinha onde moravam ,por volta das seis da tarde. Rapidamente Larissa se encaminhou para a cozinha, enquanto Aline foi nos acomodar em nossos devidos lugares.
Pouco tempo depois, antes da chegada dos primeiros convidados, fomos chamadas para o sótão.
Era um cômodo encantador.
As grandes janelas e a varanda davam a sensação de espaço aberto.
Em outro momento eu teria passado horas ali apenas aproveitando a brisa e o ar fresco.
Mas, naquele instante, algo muito mais importante estava prestes a acontecer.
Clarissa nos posicionou no centro da sala.
As demais mulheres formaram um círculo ao nosso redor.
Heloísa, que já havia se juntado ao grupo, aproximou-se carregando um pequeno saco de tecido bordado.
- Alianças, por favor.
Sem dizer uma palavra, cada casal retirou as próprias alianças.
Prenderam-nas com uma pequena fita e as depositaram cuidadosamente dentro do saco.
Quando terminou, Heloísa permaneceu diante de Helena e de mim.
Nossas alianças continuavam em nossos dedos.
Ela segurou nossas mãos unidas e amarrou delicadamente uma fita em volta delas.
Depois voltou-se para Karina.
- Você apresentou a candidatura de Helena Heyes e Atena Evelyn para integrar a Dália Negra.
Fez uma breve pausa.
- Continua com o mesmo posicionamento?
Karina não hesitou.
- Continuo.
Confesso que me surpreendi.
Depois de tudo o que havia acontecido no laboratório, imaginei que ela retiraria nossa indicação.
Mas ela prosseguiu.
-Como manda as regras pré estabelecidas quando a Dália Negra foi fundada, elas foram verificadas e testadas.
Heloisa então olhou para Helena.
Depois para mim.
- Vocês tem uma história complicada ,um começo um tanto controverso ,mas o amor foi maior do que todas os motivos que as impediam de ficar juntas. Esse tipo de resiliência é o que biscamos em nossos membros.
Sorriu discretamente.
- Acredito que Atena e Helena trarão um novo olhar para nossa missão.
Heloísa assentiu.
Depois voltou-se para as demais.
- Alguém se opõe?
O silêncio respondeu.
Todas concordavam.
Heloísa então voltou sua atenção para nós.
Seu olhar era firme.
Mas acolhedor.
- Helena Heyes...
Depois olhou para mim.
- Atena Evelyn...
Ergueu levemente o pequeno saco onde descansavam as alianças das demais.
- Vocês aceitam caminhar ao nosso lado na missão de proteger, acolher e ajudar mulheres em situação de vulnerabilidade e risco, onde quer que estejam?
Olhei para Helena.
Ela fez o mesmo.
Nenhuma de nós esperava que aquele dia terminasse daquela forma.
Mesmo assim...
Naquele instante...
As já sabiam qual seria a resposta.
- Sim!
Respondi sem pensar duas vezes.
Olhei para Helena.
Ela sorriu para mim.
Um sorriso pequeno.
Mas cheio de orgulho.
- Sim.
Heloísa fez um leve movimento afirmativo com a cabeça.
- A partir de hoje, vocês fazem parte desta família.
Sua voz era firme.
- Nós cuidaremos, aconselharemos e protegeremos vocês, onde quer que estejam e sempre que precisarem.
Fez uma pequena pausa.
Depois ergueu o pequeno saco onde estavam as alianças.
- Agora vamos descobrir quem será o casal mentor de vocês.
Helena arqueou discretamente uma sobrancelha.
Heloísa sorriu ao perceber.
- Toda nova dupla da Dália Negra recebe um casal mais experiente para caminhar ao seu lado.
Olhou para todas ao redor.
- Serão suas companheiras ,mães ,irmãs, filhas nesta família.
- Vão aconselhá-las na vida, no casamento... e também durante as missões.
Estendeu o saco para nós.
- Retirem um par de alianças.
Helena e eu colocamos as mãos juntas ,meus dedos logo tocaram um dos pares.
Olhei para ela.
Ela apenas assentiu.
Retirei as alianças e as entreguei a Heloísa.
Assim que viu o par, um sorriso divertido surgiu em seu rosto.
Ela ergueu as alianças para que todas vissem.
- Parece que o destino tem muito a dizer , vocês ganharam um excelente casal mentor .
Olhou para duas mulheres no círculo.
- Clara... Taís...
Ela estendeu as alianças na direção delas.
- A partir de hoje, Helena e Atena serão suas pupilas. Cuidem bem delas. As ensine e faça delas grandes Dálias .
Clara e Taís se aproximaram.
Ficamos as quatro frente a frente.
Clara foi a primeira a falar.
- É uma grande honra... e também uma grande responsabilidade.
Sorriu com serenidade.
- Faremos o nosso melhor para guiá-las daqui para a frente.
- Obrigada. - respondi.
Taís sorriu em seguida.
- Estou verdadeiramente feliz. Tenho certeza de que formaremos um ótimo time.
Olhou para Helena.
Depois para mim.
- Sejam muito bem-vindas.
Heloísa entregou a Taís uma pequena caixa preta.
Na tampa havia uma dália dourada cuidadosamente desenhada.
Taís a abriu.
Dentro repousavam dois broches delicados.
Ela e Clara prenderam um deles na roupa de Helena e o outro em mim.
Era um gesto simples.
Mas carregado de significado.
Depois da cerimônia, elas nos apresentaram um pouco do trabalho desenvolvido pela Dália Negra.
Descobri que a organização oferecia apoio jurídico e psicológico para mulheres em disputas de guarda, vítimas de violência doméstica, mulheres tentando reconstruir a vida depois de relacionamentos abusivos e meninas vítimas de estupro.
Mas aquilo era apenas a superfície.
A verdadeira missão era outra.
A Dália Negra caçava homens que a Justiça não conseguia alcançar.
Serial killers.
Estupradores.
Traficantes.
Criminosos protegidos por dinheiro, influência ou poder.
Homens que escapavam dos tribunais...
Mas não delas.
Foi naquele momento que compreendi a dimensão daquelas mulheres.
Não eram apenas cientistas.
Nem empresárias.
Nem médicas.
Eram uma rede de proteção.
Uma família.
Talvez eu ainda não soubesse exatamente como poderia ajudá-las.
Mas me senti profundamente honrada por agora fazer parte daquele mundo.
Heloísa bateu palmas uma única vez.
- Agora que estão oficialmente integradas...
Sorriu.
- Vamos comemorar.
Apontou para a porta.
- Arrumem se !Nos encontramos no bar.
- Certo.
Quando Helena e eu entramos no quarto reservado pra nós , minhas preocupações começaram a tomar minha mente, como sempre Helena percebeu antes que eu mesma notasse que tinha ficado completamente perdida em meus sentimentos de culpa e preocupação.
Ela se aproximou por trás e me abraçou pela cintura.
Entrelacei meus dedos aos dela.
Ela apoiou o rosto em meu ombro.
- O que está acontecendo nessa mente brilhante?
Respirei fundo antes de responder.
- Como vão confiar em mim... depois que todas souberem o que fiz?
Ela me apertou um pouco como se tentasse tirar o peso que cismava em pesar sobre meus ombros.
- Se Karina foi capaz de manter a decisão de nos integrar mesmo depois de descobrir toda a verdade... acredito que as outras também compreenderão que você nunca quis fazer mal a ninguém.
- Mas...
Ela me virou delicadamente para ela ,fixando seus olhos nos meus.
- Eve...
Segurei seu rosto entre as mãos.
- Tudo deve e vai ficar no passado.
Sorri de leve.
- Não continue se condenando por uma escolha errada.
Ela acariciou meus rosto e beijou de leve minha testa.
- Concentre-se em fazer a escolha certa daqui para frente.
Fechei os olhos por um instante, apenas sentindo seu carinho.
- Você está certa, amor.
Sorriu sem graça.
- Desculpa estragar um momento tão bonito com minha autopiedade.
Ri baixinho.
- Eu amo todos os momentos com você.
Inclinei-me e beijei sua mão
- Até os de autopiedade?
_Principalmente esses!
Ela riu.
Uma risada pequena.
Mas verdadeira.
Naquele momento ela me pareceu ainda mais bonita .Se é que isso era possível.
- Você está linda!
- Obrigada. Você também está ,meu amor. Da última vez que estive aqui, Anaya me disse que esperava conhecer o amor da minha vida algum dia.
Ela segurou minha mão.
- Estou feliz por finalmente poder apresentá-la a ela.
Helena sorriu, passei um braço pela sua cintura e a puxei para perto.
- Não mais do que eu.As vezes ainda me pego pensando no que fiz de tão certo na vida ,pra ter ganhado você.
Seus olhos brilhavam.
- Sabe do que mais gosto em estarmos juntas?
Esperei a resposta.
- De ter encontrado, na mesma mulher, minha melhor amiga... e o amor da minha vida.
Sorriu de um jeito completamente apaixonado.
- Me sinto profundamente agradecida por nós.
Quando a beijei, a intensidade com que correspondeu ao beijo despertou em mim uma sensação diferente.
Inquietante.
Mas escolhi ignorar.
Apesar de tudo o que ainda teríamos de enfrentar, eu estava feliz.
Não queria estragar aquele momento.
Quando chegamos à área da festa, fomos recebidas por Dandara, que veio correndo na nossa direção como uma pequena tempestade elétrica.
- Boa noite, doutora! Boa noite, tia Eve!
Helena sorriu imediatamente.
- Boa noite, Dandara. Como você está?
- Muito bem! Aprendi uma coisa muito legal com a doutora Erika. Ela também me mostrou toda a base da pesquisa que deu a ela o primeiro prêmio científico.
Helena fingiu um ar de preocupação.
- Estou começando a achar que você não vai mais querer ser minha aluna.
Dandara arregalou os olhos.
- Jamais, doutora! Ainda tenho muito o que aprender com a senhora. Os mistérios do cérebro continuam sendo os mais interessantes.
Sorri.
- E eu? Não quer mais aprender bioquímica?
Ela riu.
- Não se preocupe, tia Eve. Experiências nunca vão deixar de ser do meu total interesse.
Karina, que nos observava de longe, aproximou-se sorrindo.
Mas havia um brilho de desconfiança divertido em seu olhar.
- Ei, vocês duas! Parem de tentar convencer a minha mini cientista de que eu deixei de ser a favorita dela.
Passou um braço pelos ombros de Dandara.
- Vem comigo, Dada. Tenho presentes para você.
Os olhos de Dandara brilharam.
No segundo seguinte, eu havia perdido completamente sua atenção.
Karina prometera montar um laboratório só para ela no Isabel Montello.
Como competir com isso?
Sinceramente...
Nem eu conseguiria.
Também queria um laboratório daquele.
- Mamãe...
Aline se aproximou de nós naquele instante.
Dandara correu imediatamente para ela e se agarrou à sua cintura, como se procurasse abrigo.
Na verdade, ela apenas adorava ficar grudada nas mães.
Aline passou a mão pelos cabelos da filha e sorriu.
- O que vocês estão fazendo com a minha filha?
Karina ergueu as mãos em sinal de rendição.
- Não se preocupe, Aline. Eu estava apenas garantindo a sucessão do laboratório.
Aline apontou o dedo para nós três.
- Nada de laboratórios ou experiências hoje.
Depois apontou para o bar.
- Vocês três. Já para o bar. A Taís está procurando vocês.
Em seguida olhou para Dandara.
- E você, mocinha, vá encontrar suas irmãs. A Rafaela está parecendo uma sargento, organizando uma suposta surpresa para mim.
Dandara fez uma careta divertida.
- Ela não deixa ninguém fazer nada errado.
- Nem vai deixar - respondeu Aline, rindo. - Agora vai antes que ela venha buscar você.
Você não vai se juntar a nós, Aline?
- Daqui a pouco. Primeiro vou buscar minha esposa na cozinha. Quero ela grudada em mim igual chiclete no cabelo. Depois nos juntamos a vocês.
Ela olhou para Helena.
- Ah, Helena... minha sogra, dona Lourdes, pediu para você procurá-la.
- Sabe onde ela está?
- Acho que está no gramado.
- Certo. Vou até lá.
Fim do capítulo
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