34 por Luciane Ribeiro
Planejamento
Karina voltou para a sala.
Os olhos vermelhos.
O rosto ainda marcado pelo choro.
- O que aconteceu?
Ninguém respondeu imediatamente.
Heloísa apenas apontou para a tela.
Karina começou a ler.
E, conforme avançava pelos e-mails, sua expressão foi mudando.
Choque.
Incredulidade.
Raiva.
Até parar na última mensagem.
Remetente: Henrique Vins Santez
Destinatário: Laura Rios
"Ela deve ser eliminada.
Enviarei alguém para resolver a questão."
O silêncio tomou conta da sala.
Helena foi a primeira a se mover.
Leu a mensagem outra vez.
Depois uma terceira.
Como se estivesse tentando encontrar alguma outra interpretação.
Não encontrou.
- Meu Deus...
Sua voz saiu baixa.
A tela mudou novamente.
Sétimo e-mail
Remetente: Laura Rios
Destinatário: Henrique Vins Santez
Ela com certeza evitará envolver o nome Resquier em mais um experimento ilegal com humanos.
Oitavo e-mail
Remetente: Marcos Saran Santez
Destinatário: Laura Rios
Doutora Atena é um ativo importante demais para ser descartado. Convença-a a não falar.
Se for preciso, crie provas que a incriminem.
Faça dela uma cúmplice deste e de todos os outros experimentos que você realizou.
Meu estômago revirou.
Então era isso.
Não tinham desistido de me silenciar.
Tinham tentado me prender junto deles.
A tela mudou outra vez.
Nono e-mail
Encaminhado por: Marcos Saran Santez
Remetente original: Henrique Vins Santez
Destinatário: Laura Rios
Se o plano para silenciá-la pacificamente falhar, eliminarei a todos.
Inclusive a criança.
Nenhuma de nós falou.
Nem mesmo Karina.
A tela exibiu a mensagem seguinte.
Décimo e-mail
Remetente: Marcos Saran Santez
Destinatário: Laura Rios
Quanto tempo levará e como saberemos se o Archer 1 funciona?
Décimo primeiro e-mail
Remetente: Laura Rios
Destinatário: Marcos Saran Santez
Se der certo, a criança atingirá nível universitário em no máximo cinco anos.
Se der errado, ela morrerá.
Irei acompanhá-la discretamente ao longo do tempo.
Vamos devagar.
Não cometerei outro erro por apressar demais as coisas.
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Karina antes mesmo que ela percebesse.
- Ela tinha cinco anos...
Sua voz saiu quebrada.
- Cinco anos...
Heloísa permaneceu imóvel.
Mas seu olhar endureceu.
Ainda mais.
Se aquilo era possível.
A tela exibiu o último registro.
Décimo segundo e-mail
Remetente: Marcos Saran Santez
Destinatário: Laura Rios
É aqui que nossa comunicação se encerra.
Quero relatórios anuais.
O silêncio voltou a dominar a sala.
Pesado.
Sufocante.
Heloísa respirou fundo.
Depois cruzou os braços.
- Já vi tudo que precisava ver.
Ninguém respondeu.
- Agora é hora de convocar a cavalaria.
Ela olhou diretamente para Helena.
- Você assumirá a frente do laboratório junto com Karina.
- E eu? - perguntei.
- Você se juntará a elas depois, Eve.
Seu olhar permaneceu fixo em mim.
- Primeiro temos outras coisas para resolver.
- Como o quê?
- Como se explicar para Taís.
Helena franziu a testa.
- Quem é Taís?
Foi Karina quem respondeu.
- A madrinha da Dandara.
Sua voz ainda estava abalada.
- Foi ela quem ajudou Larissa durante todo o processo de adoção.
Karina engoliu em seco.
- Foi ela quem colocou Dandara nos braços da mãe pela primeira vez. Ela é muito pouco tolerante a pessoas que prejudicam crianças , principalmente as nossas.
O peso daquela informação caiu sobre nós.
Heloísa assentiu.
- E também é a chefe do nosso setor jurídico.
Ela apoiou as mãos na mesa.
- Preciso que ela desvincule vocês duas da Travinski o mais rápido possível.
- E depois? - perguntou Helena.
O sorriso que surgiu no rosto de Heloísa não tinha absolutamente nada de gentil.
- Depois iremos para cima da Travinski e da Santez com toda a força.
Seu olhar permaneceu preso à tela.
- E, se isso não funcionar...
Ela fez uma pausa.
- Usaremos outros métodos.
A voz robótica interrompeu o silêncio.
- Mensagens recentes relevantes encontradas. Deseja exibi-las?
Heloísa ergueu o rosto.
- Sim.
A tela mudou imediatamente.
Mensagem recente
Remetente: Laura Rios
Destinatário: Henrique Vins Santez
Boa noite, doutor.
Como pode ver, a criança cresceu e excedeu todas as expectativas.
Está na hora de tomarmos posse do ativo.
Transfira-a para mim.
O sangue desapareceu do rosto de Karina.
Outra mensagem surgiu.
Remetente: Henrique Vins Santez
Destinatário: Laura Rios
Você terá a criança quando me entregar exatamente o que a doutora Helena Heyes utilizou para trazer Atena Evelyn de volta dos mortos.
Estamos observando ambas desde a transferência suspeita da doutora Helena para a Casa Verde.
A única informação que conseguimos confirmar é que um paciente foi levado para o laboratório de neurociência na mesma noite em que a morte cerebral de Atena Evelyn foi declarada.
Durante anos, ninguém além de Erika Carvalho teve acesso à sala 202.
Agora Atena Evelyn voltou.
Anda.
Fala.
Pensa.
Age como se nunca tivesse morrido.
Não quero teorias.
Não quero explicações.
Quero resultados.
Descubra o que Helena Heyes fez.
Descubra como ela derrotou a morte.
E me entregue essa tecnologia.
Não importa o preço.
Não importa quem precise desaparecer.
O silêncio que se seguiu foi ainda pior do que todos os anteriores.
Porque agora sabíamos de uma coisa.
Eles não estavam observando apenas Dandara.
Estavam observando todas nós.
Aquela última mensagem atingiu muito mais do que minha consciência.
Amanda reagiu imediatamente.
Com violência.
Senti sua presença avançar dentro de mim como uma onda.
Minha cabeça começou a latejar.
A visão ficou turva.
As vozes ao redor pareceram se afastar.
Como se eu estivesse afundando lentamente dentro de mim mesma.
- Eve?
A voz de Helena chegou distante.
- Amor?
Tentei responder.
Não consegui.
Minhas mãos começaram a tremer.
Amanda estava forçando passagem.
Desesperadamente.
Eu sabia que estava perdendo a batalha.
Sentia seu ódio.
Seu desejo de ferir qualquer um.
Qualquer coisa que ousasse ameaçar Helena.
Helena chegou até mim em segundos.
Passou um braço pela minha cintura antes que eu perdesse o equilíbrio.
- Eve.
Ela me conduziu até uma cadeira.
- Olha pra mim.
Minha respiração estava acelerada.
Meu coração parecia querer escapar do peito.
- Amanda... não consigo segurá-la.
Minha voz saiu falha.
Quase um sussurro.
Helena segurou meu rosto entre as mãos.
- Respira fundo, amor.
Seus olhos permaneceram presos aos meus.
Firmes.
Confiantes.
- Fica comigo, Eve.
Karina e Heloísa se aproximaram imediatamente.
Karina observava tudo com preocupação.
Mas havia outra coisa ali.
Curiosidade.
A mesma curiosidade científica que ela nunca conseguia desligar completamente.
Ela olhou para Helena.
- Amanda?
Helena apenas assentiu.
Karina suspirou.
Como se tivesse acabado de confirmar uma teoria.
Então olhou diretamente para mim.
- Se não consegue proteger sua mulher, talvez seja melhor encontrar alguém que consiga.
Meu corpo inteiro reagiu.
Antes mesmo que eu pudesse pensar.
Levantei num impulso.
A cadeira caiu para trás.
Dei dois passos na direção dela.
Furiosa.
Pronta para atacar.
Pronta para machucá-la.
Só por ter sugerido que Helena pudesse me deixar.
- O que está acontecendo? - perguntou Heloísa, colocando-se imediatamente entre nós duas. - O que você está fazendo, Karina?
Karina não pareceu assustada.
Nem surpresa.
Apenas triste.
Muito triste.
- Agora eu entendo.
Olhou para mim.
Depois para Helena.
- Eu estava certa.
Heloísa franziu a testa.
- Devo me preocupar?
- Não.
Karina respondeu sem tirar os olhos de mim.
- Ela só precisa vencer a batalha dentro dela mesma.
Eu continuava ouvindo tudo.
Mas parecia distante.
Confuso.
Como se cada palavra precisasse atravessar quilômetros até chegar à minha consciência.
- O que exatamente está acontecendo? - insistiu Heloísa.
Karina respirou fundo.
- Eu estudei genética porque queria entender uma coisa que existe na minha família há gerações.
- O quê?
- Nossa obsessão pelo que amamos.
O silêncio tomou conta da sala.
- Mesmo quando não somos violentos, essa obsessão continua lá.
Ela deu de ombros.
- Eu me policio diariamente.
Sorriu sem humor.
- Mas às vezes ela aparece como ciúmes quase doentios.
Olhou para Heloisa, de um jeito cúmplice e culpado.
- Diana tinha isso.
- Liah tinha isso.
- Eu tenho isso.
Depois voltou a me encarar.
- E, pelo que descobri, todos os Resquier carregam essa mesma característica em algum grau.
Heloísa cruzou os braços.
- E a Eve?
Karina apontou discretamente para mim.
- A mente dela fez algo diferente.
Sua voz ficou mais baixa.
Mais cautelosa.
- Parece que essa obsessão foi separada do restante da personalidade.
- Separada?
- Sim.
Ela assentiu.
- Como se tivesse criado uma consciência própria.
Meu corpo inteiro estremeceu.
- Uma consciência cuja única função é proteger quem ela ama.
Karina fez uma pausa.
- E que reage violentamente sempre que percebe uma ameaça.
Eu ainda escutava.
Ainda entendia.
Mas parecia estar presa atrás de uma parede de vidro.
Sentia Amanda.
Sua raiva.
Sua ansiedade.
Sua urgência.
E, por alguns segundos, tive certeza de que perderia o controle.
Foi então que algo completamente inesperado aconteceu.
O celular de Heloísa tocou.
Ela olhou para a tela.
E a transformação foi instantânea.
Toda a frieza desapareceu.
Toda a tensão.
Toda a dureza daquela mulher que minutos antes estava declarando guerra contra corporações inteiras.
- Oi, amor.
O sorriso surgiu naturalmente.
Como se tivesse sido aceso por dentro.
Ela ouviu alguma coisa e riu.
- Claro, vida. Já estou indo para casa.
Nova pausa.
Então revirou os olhos.
- Não vou me desviar no caminho.
Mais alguns segundos ouvindo.
- Eu prometo.
Não sei por quê.
Talvez pela normalidade daquela conversa.
Talvez porque, pela primeira vez desde que chegamos ali, alguém estivesse falando sobre algo que não envolvia morte, experimentos ou conspirações.
Talvez porque fosse impossível não notar o quanto Heloísa amava a esposa.
Mas aquilo me trouxe de volta.
Como uma âncora.
A pressão na minha cabeça diminuiu.
Amanda recuou.
Relutante.
Irritada.
Mas recuou.
Consegui respirar novamente.
Consegui pensar.
Quando Heloísa desligou, voltou a olhar para nós.
Ainda havia firmeza em seus olhos.
Mas agora também existia algo muito mais humano.
Muito mais gentil.
- Agora que já traçamos a estratégia...
Guardou o celular no bolso.
- E que Dada está estável...Eve parece ...bem
Olhou para Karina.
Depois para Helena.
Por fim, para mim.
- Vamos nos juntar às outras.
Karina soltou uma risada cansada.
- Como se nada estivesse acontecendo?
- Exatamente assim.
- Tudo isso já está ficando confuso demais para um único dia.
Heloísa sorriu.
- Hoje é aniversário da Aline. E minha esposa disse que vai pedir divórcio se eu não estiver na frente dela em dez minutos
O silêncio tomou conta da sala por alguns segundos. Antes que Karina rompesse o silêncio com uma gargalhada que sacudiu todo o seu corpo.
_Você perde totalmente a postura forte quando Leona fala com você.Ah se as pessoas soubessem que a poderosa Rainha Púrpura não passa de uma gatinha dengosa ...
Aquela risada. Afastou Amanda de vez ,fui contagiada pela incontrolável de Karina e acabei rindo ate ficar completamente vermelha.
Helena olhou e sorriu aliviada ,sabia que eu ainda era eu,que ainda estava com ela.
- Você está certa.Não vamos resolver tudo em um único dia. Melhor aproveitarmos esse momento alegre antes de mergulharmos completamente nesse caos
Ninguém acreditou que aquilo fosse possível.
Nem por um segundo.
Mas, ainda assim...
Todas nós nos levantamos.
Quando saímos do laboratório, o sol do meio-dia brilhava forte, banhando toda a ilha com uma luz dourada e quente.
Por alguns instantes, foi difícil acreditar que, poucos minutos antes, estávamos descobrindo uma conspiração que envolvia experimentos ilegais, tentativa de assassinato e a possível sentença de morte de uma criança que todas amávamos.
Enquanto caminhávamos em direção ao carro, Heloísa continuou trabalhando como se nada fosse capaz de desacelerá-la.
Pegou o celular e começou a digitar e a dar comandos.
- Lótus, mande minha equipe de limpeza dar uma geral nessa casa. Elas serão convidadas frequentes. Adicione as doutoras Helena Heyes e Atena Evelyn ao sistema da propriedade.
- Executando - respondeu a voz artificial.
- Quero que mantenha silêncio nas comunicações. Não repasse ligações ou mensagens para os meus celulares, a menos que sejam emergências.
- Comando recebido.
Helena e eu trocamos um olhar.
Toda vez que víamos aquela interação entre Heloísa e a inteligência artificial, sentíamos a mesma coisa.
Curiosidade.
Muita curiosidade.
Queríamos fazer centenas de perguntas.
Como aquilo funcionava.
Quem havia desenvolvido.
Até onde aquela tecnologia era capaz de chegar.
Mas aquele definitivamente não era o momento para tietagem científica.
Continuamos caminhando.
Quando nos aproximamos da Casa Roxa, localizada logo acima do laboratório, avistamos Leona descendo a trilha em nossa direção.
Foi como assistir a uma transformação instantânea.
O sorriso que surgiu no rosto de Heloísa seria capaz de iluminar uma pequena cidade durante um mês inteiro.
Ela acelerou os passos.
Depois praticamente correu.
Leona abriu os braços e as duas se encontraram no meio do caminho.
Trocaram um beijo rápido.
Daqueles que não precisam durar muito para dizer tudo.
Depois ficaram alguns segundos apenas se olhando.
Como se o restante do mundo tivesse desaparecido.
Karina apoiou os braços sobre o teto do carro.
- Acho que já perdemos ela.
- Concordo - respondi.
Heloísa voltou até nós de mãos dadas com a esposa.
O olhar firme da Rainha Púrpura tinha desaparecido completamente.
No lugar existia apenas uma mulher apaixonada.
- Desculpem, meninas, mas Heloísa não vai poder acompanhar vocês de volta ao Refúgio.
Karina sorriu maliciosamente.
- Ela tem outro compromisso urgente?
Heloísa olhou e sorriu para Leona com a cara mais boba do mundo e disse:
- Exatamente. Tenho um assunto muito urgente para tratar.
- Sei que assunto é esse - respondeu Helena, sorrindo. - Nós entendemos.
Fiquei um pouco surpresa ao ver Helena participando da provocação.
- Nos vemos mais tarde.
- Até mais tarde - respondeu Heloísa.
Então olhou para nós com um sorriso divertido.
- E não exagerem para não estarem cansadas demais à noite.
Leona riu imediatamente.
- Pode deixar. Estaremos muito bem-dispostas e prontas para a diversão noturna.
Karina levou uma das mãos ao peito.
- Vamos embora antes que eu tenha uma overdose de açúcar com todo esse mel escorrendo delas.
Heloísa mostrou a língua para ela.
Um gesto tão inesperadamente infantil que me fez rir.
Karina assumiu o volante.
Eu e Helena entramos no banco de trás.
O carro começou a descer a estrada.
Enquanto nos afastávamos, vi pelo retrovisor as duas caminhando de mãos dadas em direção à casa.
Poucos segundos depois desapareceram pelo portão.
Karina afundou no banco.
- Eu senti uma invejinha agora.
- Sentiu? - perguntou Helena.
- Quero a minha esposa também.
Helena soltou uma risada baixa.
Então passou o braço pelos meus ombros.
- Sorte a minha.
Virei o rosto para ela.
- Por quê?
- Porque o meu amor está bem aqui do meu ladinho.
Antes que eu pudesse responder, ela se inclinou e me deu um beijo rápido.
Karina fez uma careta exagerada.
- Odeio vocês duas.
- Calma - respondi, rindo. - Sua esposa está logo ali.
- Não é a mesma coisa.
- Drama.
- Eu sou casada com Clarissa. Drama faz parte do pacote.
Helena gargalhou. E eu consegui rir sem sentir o peso do mundo esmagando meu peito.
Naquele instante, voltamos a ser apenas um grupo de pessoas normais, animadas pra uma festa de aniversário.
Fim do capítulo
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