34 por Luciane Ribeiro
A Rainha Púrpura
Do que estão falando?
Helena olhou para mim.
Havia hesitação em seus olhos.
- Eve... eu sei que concordamos em esperar o fim das festividades para contar. Mas acho que Karina precisa saber agora.
Karina franziu a testa.
- Saber o quê?
Senti um frio percorrer meu corpo inteiro.
Amanda se agitou dentro de mim.
Como se tentasse assumir o controle.
E, por um instante, eu quis deixar.
Assim não precisaria dizer em voz alta aquilo que me perseguia havia tanto tempo.
Não precisaria admitir meu erro.
Mas não podia mais fugir.
Helena segurou minha mão.
Fechei os olhos por um segundo.
- Certo...
Minha voz saiu baixa.
- Você se lembra da nossa noite do pijama no laboratório? Com as crianças do estudo sobre diabetes?
Karina assentiu.
- Claro.
Um pequeno sorriso apareceu e desapareceu rapidamente.
- Foi um ótimo encerramento para o estudo. Apesar de não termos conseguido os resultados que queríamos, aprendemos muita coisa.
Engoli em seco.
- Havia mais que açúcar no suco que Laura nos serviu. Depois que fomos dormir ,ela acreditando que não acordaríamos, tirou uma das crianças do colchonete e levou para o laboratório.
O sorriso desapareceu completamente.
- O quê?
- Ela usou uma das crianças como cobaia para um experimento ,de um composto em que trabalhava.
Karina empalideceu.
O corpo inteiro ficou rígido.
Ela apoiou uma das mãos na bancada.
Como se já soubesse que não gostaria da resposta seguinte.
- Qual criança?
Sua voz saiu quase num sussurro.
- Qual delas?
Meu coração disparou.
Não havia mais como voltar atrás.
- Dandara.
Karina ficou imóvel.
Completamente imóvel por um momento.
Por alguns segundos ninguém respirou.
- Não...
A palavra saiu fraca.
Quase inaudível.
Heloísa se aproximou.
Os movimentos eram tranquilos.
Controlados.
Ela parou diante de mim.
Não parecia assustada.
Nem surpresa.
Mas havia algo diferente em seu olhar.
_Há quanto tempo vocês sabem disso?
A pergunta atingiu em cheio.
- Faz algum tempo.
- E você decidiu não contar a ninguém.!?
Não era uma pergunta.
Era uma acusação.
- Eu queria encontrar uma solução antes.
Karina soltou uma risada amarga.
Ela deu um passo à frente.
_E também tive medo.
Minha voz saiu mais baixa.
- Se eu denunciasse Laura, nossas carreiras seriam destruídas. O Isabel Montello e o Travinski responderiam judicialmente. Nós acabaríamos presas e não conseguiríamos ajudar Dandara.
- Então você resolveu decidir sozinha?
- Não.
Baixei os olhos.
- Eu resolvi ganhar tempo.
Karina soltou outra risada amarga.
- E nos fez perder um tempo precioso.
A culpa apertou meu peito.
- Eu sei.
Pela primeira vez desde que a conversa começou, não tentei me defender.
- Foi uma das piores decisões que tomei na vida.
As palavras ficaram presas na garganta por um instante.
- Eu não esperava que meu empenho para salvá-la fosse interrompido quando entrei em coma.
Olhei para Karina.
- Talvez você já tivesse encontrado uma saída se eu tivesse sido honesta desde o início.
O silêncio voltou.
Pesado.
Hostil.
Foi Heloísa quem o interrompeu.
_Se está nos contando. Significa que existe algum risco a Dandara.
_Infelizmente sim.
_Então explique! Detalhadamente, de um jeito que eu consiga entender. Depois vocês vão usar essa mesma explicação para contar a Aline e à Larissa o que está acontecendo com a filha delas.
A pausa que ela fez pareceu uma eternidade.
- E, nesse momento... torçam para que elas sejam mais compreensivas do que eu.
Senti a ameaça.
Mas o que realmente me perturbou foi outra coisa.
Helena.
Porque eu sabia que, quando aquela notícia chegasse às mães de Dandara, ninguém sairia ileso.
Imaginem o cérebro como uma cidade inteira funcionando com eletricidade.
Karina permaneceu em silêncio.
- O cérebro de uma pessoa comum consome muita energia. Mesmo representando uma pequena parte do corpo, ele utiliza uma quantidade enorme dos recursos disponíveis.
Helena apontou para alguns gráficos.
- O composto criado por Laura fez o cérebro da Dandara trabalhar muito acima do normal. É como pegar uma cidade inteira e obrigá-la a funcionar dia e noite sem nunca desligar as luzes.
- O problema - continuou Helena - é que toda essa atividade exige combustível.
Karina cruzou os braços.
- E o corpo não consegue produzir o suficiente.
Helena apontou para outra imagem.
- Então o organismo começa a fazer escolhas.
- Que escolhas?
- Sobrevivência.
A palavra caiu pesada na sala.
- O corpo entende que o cérebro é prioridade absoluta. Então começa a retirar energia de outras áreas para mantê-lo funcionando.
Então o que acontece?
Minha esposa fechou os olhos por um instante.
Como se procurasse uma forma menos cruel de dizer aquilo.
Não encontrou.
- O corpo começa a falhar.
Karina ficou imóvel.
- Um órgão.
- Depois outro.
- Depois outro.
A voz de Helena estava cada vez mais baixa.
- Até que chega um ponto em que não existe mais energia suficiente para manter tudo funcionando.
Ninguém falou nada.
- E é por isso que estamos correndo contra o tempo.
Karina virou lentamente o rosto para mim.
A raiva que havia explodido antes agora parecia ainda pior.
Meu estômago afundou quando ela começou a caminhar na minha direção.
O rosto vermelho.
A respiração pesada.
Os punhos cerrados.
Eu me preparei para o golpe.
Não porque acreditasse que Karina fosse uma pessoa violenta.
Mas porque entendia perfeitamente sua raiva.
Porém, antes que ela chegasse até mim, Heloísa segurou seu braço.
- Respira, Karina.
A voz dela era calma.
Fria como gelo.
- Eve errou.
Ela não tentou me defender.
Nem suavizar o que aconteceu.
- Mas nós duas sabemos muito bem como é tomar a decisão errada acreditando que estamos fazendo a coisa certa.
As palavras atingiram Karina como um choque.
Lentamente a raiva cedeu lugar ao desespero.
Ela recuou alguns passos.
Sentou-se em uma cadeira.
E começou a chorar.
Karina balançou a cabeça.
- Talvez o composto tenha sido eliminado do organismo dela com o tempo. Nunca vimos nada que não pudesse ser explicado pelo diabetes.
- Não!Ele estava e continua lá - respondi. - Vocês só não sabiam exatamente o que procurar.
Ela fechou os olhos por um instante.
- Como eu não percebi?
Sua voz saiu quebrada.
- Como eu não percebi que tinha algo errado?
- Ninguém percebeu, por que de algum jeito ,a degeneração foi retardada e aparentemente só afetou o crescimento e o consumo de nutrientes.
Ao ver a culpa consumindo Karina
Helena foi imediatamente até ela.
Sentou-se ao seu lado e segurou sua mão.
- Eu prometo que vou encontrar uma solução.
Karina ergueu os olhos.
- Helena...
- Dandara vai crescer.
Sua voz era firme.
Convicta.
- E vai se tornar a grande cientista que todos nós sabemos que ela nasceu para ser.
O silêncio voltou.
Mas agora era diferente.
Não era um silêncio de acusação.
Era um silêncio de batalha.
De pessoas tentando encontrar uma saída.
Heloisa caminhou até o enorme monitor instalado na parede.
Os passos eram tranquilos.
Controlados.
Como alguém acostumada a tomar decisões difíceis.
- A situação é péssima e urgente. Raiva e acusações não vão ajudar agora.
Sua voz não foi alta.
Não precisou ser.
Todas prestaram atenção imediatamente.
- A partir deste momento vocês duas fazem parte do Isabel Montello.
Eu me endireitei.
- Aceito qualquer coisa que queiram fazer comigo. Mas Helena é inocente. Ela só descobriu isso há alguns dias.
- Não importa.
Heloísa me encarou.
- Pelo que ouvi até agora, a união de vocês é a melhor chance que Dandara possui.
Helena cruzou os braços.
- Vou me dedicar integralmente a isso. Porém não vou integrar o Isabel Montello. Tenho um contrato longo com a Travinski.
Heloísa sustentou seu olhar sem hesitar.
- Não temos tempo, então,vocês não têm escolha.
Heloísa voltou sua atenção para o monitor.
- Lótus, fique em espera.
Uma voz feminina respondeu imediatamente pelos alto-falantes.
- Comando aceito. Aguardando instruções.
Parte da tela se reorganizou.
Dados desapareceram.
Novos painéis surgiram.
- Agora me digam exatamente do que precisam.
Helena respirou fundo.
Quando voltou a falar, já não parecia abalada.
Era a cientista assumindo o controle da situação.
- Precisamos conseguir o Archer 1 original.
- Explique.
- Todas as amostras que encontrei são derivadas. Quero a fórmula criada por Laura. Preciso saber exatamente quais compostos ela utilizou e como cada um reage separadamente ao composto 34.
- Para quê?
- Porque um deles é responsável pela regeneração celular acelerada.
Karina acompanhava cada palavra.
- E se você descobrir qual é?
- Talvez eu consiga impedir que o tratamento destrua o hospedeiro.
O silêncio voltou a dominar a sala.
Heloísa assentiu.
- Continue.
- Também preciso dos arquivos originais do Projeto Eros.
- Os arquivos de Danilo?
- Sim.
- Por quê?
Helena apontou para a tela onde os dados ainda estavam abertos.
- Se ele conseguiu programar um vírus para atacar indivíduos com características genéticas específicas, existe uma possibilidade.
- Qual?
- Adaptar o 34 para atacar apenas as células infectadas pelo Archer 1.
Meu coração disparou.
Era a primeira vez que eu ouvia uma possibilidade real.
Não uma esperança.
Uma possibilidade.
- Isso funcionaria? - perguntei.
Helena me olhou.
- Eu não sei.
A sinceridade dela fez meu peito apertar.
- Mas é a melhor hipótese que temos até agora.
Heloísa concordou com um leve movimento de cabeça.
- Mais alguma coisa?
- Sim.
Helena caminhou até o monitor.
- Quero especialistas examinando Dandara.
- Quais áreas?
- Neurologia. Endocrinologia. Genética. Desenvolvimento infantil. Metabolismo celular.
Ela não hesitou.
- Quero uma avaliação completa.
- Só isso?
- Por enquanto.
Heloísa voltou-se para a inteligência artificial.
- Lótus.
- Sim.
- Localize os melhores especialistas disponíveis nessas áreas.
A tela se encheu de nomes.
Hospitais.
Centros de pesquisa.
Universidades.
- Inicie contato imediatamente.
- Comando aceito.
- Também quero todas as informações disponíveis sobre a doutora Laura.
- Especifique.
- Tudo.
Heloísa cruzou os braços.
- Endereços. Contatos. Contas. Viagens. Projetos. Parceiros. Histórico profissional.
A inteligência artificial processou o pedido por alguns segundos.
- Comando aceito.
- E monitore Dandara Cariello vinte e quatro horas por dia.
- Monitoramento iniciado.
- Qualquer alteração relevante em seu estado de saúde deverá ser comunicada imediatamente.
- Confirmado.
-Preciso de ar.
A voz de Karina saiu rouca.
Ela passou por nós sem esperar resposta e deixou a sala.
A porta se fechou atrás dela.
O silêncio que ficou pareceu ainda mais pesado.
Helena observou a direção por onde Karina havia saído.
- Ela vai ficar bem?
Heloísa soltou um suspiro longo.
- Não.
A resposta veio simples.
Honesta.
Ela permaneceu alguns segundos olhando para a porta fechada.
- Mas vai continuar em pé. É o que ela sempre faz.
Depois voltou a atenção para a enorme tela.
As informações sobre Dandara continuavam ali.
Gráficos.
Exames.
Anos de dados.
Anos de sinais que ninguém havia interpretado corretamente.
Heloísa ficou em silêncio por alguns instantes.
Pensando.
Ligando peças.
Procurando algo que talvez todas nós tivéssemos deixado passar.
Então pegou o celular.
- Lótus.
- Sim, senhora.
- Quero que verifique todos os e-mails da doutora Laura Rios e da Travinski dos últimos sete anos.
- Busca iniciada.
- Procure qualquer menção ao estudo de diabetes. Qualquer referência ao Projeto Archer. E principalmente qualquer registro de experimentos realizados sem autorização.
- Entendido.
Helena franziu a testa.
- Você acha que a Travinski sabia?
Heloísa apoiou uma das mãos sobre a bancada.
Seu olhar permaneceu fixo na tela.
- Não sei.
Fez uma pausa.
- Mas Laura não me parece o tipo de pessoa que arriscaria a própria carreira sem ter alguma garantia de proteção.
- Talvez ela só acreditasse que nunca seria descoberta - argumentei.
- Talvez.
Heloísa assentiu.
- Mas pessoas como Laura raramente trabalham sem uma rede de segurança.
Ela cruzou os braços.
- Se alguém autorizou, encobriu ou ignorou o que aconteceu com Dandara, eu quero descobrir quem foi.
A voz continuava calma.
Educada.
Mas havia algo nela que me fez sentir pena de qualquer pessoa que estivesse envolvida.
- E quando descobrir? - perguntou Helena.
Heloísa finalmente desviou os olhos da tela.
Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
Não era um sorriso gentil.
Nem tranquilizador.
Era o sorriso de alguém que já havia tomado uma decisão.
- Então vamos decidir o que fazer com eles.
A enorme tela continuava exibindo linhas de código, arquivos sendo abertos e cruzamentos de dados acontecendo em uma velocidade impossível para qualquer ser humano acompanhar.
Era assustador.
E fascinante.
Aquela tecnologia estava muito além de tudo o que eu imaginava existir fora dos filmes.
Lótus voltou a falar:
- Arquivos encontrados. Deseja exibi-los?
- Sim - respondeu Heloísa imediatamente.
A tela mudou.
Um e-mail surgiu diante de nós.
Remetente: Laura Rios
Destinatário: Marcos Saran Santez
"Encontrei a cobaia perfeita para o primeiro teste do Archer 1.
Menina negra. Cinco anos.
Inteligência excepcional.
Portadora de diabetes tipo 1."
O ar pareceu desaparecer da sala.
Helena fechou os olhos por um instante.
Eu não consegui desviar o olhar.
Cinco anos.
Ela tinha apenas cinco anos.
Outro arquivo surgiu.
Remetente: Henrique Vins Santez
Destinatário: Laura Rios
"Marcos me informou sobre a cobaia.
Inicie os testes para verificar compatibilidade apesar do diabetes.
Tenha cuidado para não levantar suspeitas."
Heloísa ficou imóvel.
O rosto perdendo qualquer traço de simpatia.
Apenas observando.
Lendo.
Memorizando.
O terceiro e-mail apareceu.
Remetente: Laura Rios
Destinatário: Marcos Saran Santez
"Testes realizados.
Cobaia pronta."
Karina ainda não havia retornado.
Talvez fosse melhor assim.
O quarto e-mail surgiu logo em seguida.
Remetente: Marcos Saran Santez
Destinatário: Laura Rios
"Comece o teste."
Simples.
Frio.
Como se estivessem discutindo a manutenção de uma máquina.
Não a vida de uma criança.
Meu estômago embrulhou.
Então surgiu o quinto e-mail.
E meu sangue gelou.
Remetente: Laura Rios
Destinatário: Henrique Vins Santez
"Archer 1 injetado.
Infelizmente houve uma testemunha.
A doutora Atena Evelyn me flagrou.
Porém não creio que será um problema."
A sala inteira ficou em silêncio.
Helena virou o rosto lentamente para mim.
Eu me senti voltar anos no tempo.
Ao laboratório.
Àquela noite.
Ao momento em que percebi que algo terrivelmente errado havia acontecido.
Então apareceu o sexto e-mail.
Remetente: Henrique Vins Santez
Destinatário: Laura Rios
"Ela deve ser eliminada.
Enviarei alguém para resolver a questão."
Helena bateu as duas mãos na bancada.
Heloísa continuava olhando para a tela.
Mas agora seus olhos tinham endurecido completamente.
- Lótus.
- Sim, senhora.
- Faça cópias de tudo.
- Cópias realizadas.
- Crie backups externos.
- Processo concluído.
Ela cruzou os braços.
- Isso deixou de ser apenas um caso de negligência científica.
Ninguém respondeu.
Porque todas já tinham chegado à mesma conclusão.
Heloísa continuou:
- Houve conspiração.
- Houve experimentação ilegal em uma criança.
- Houve tentativa de ocultação.
Ela fez uma pausa.
Os olhos fixos na última mensagem.
- E aparentemente houve uma tentativa de homicídio.
Nesse momento a porta se abriu.
Karina voltou para a sala.
Os olhos vermelhos.
O rosto ainda marcado pelo choro.
- O que aconteceu?
Ninguém respondeu imediatamente.
Heloísa apenas apontou para a tela.
Karina começou a ler.
E, conforme avançava pelos e-mails, sua expressão foi mudando.
Choque.
Incredulidade.
Raiva.
Até parar na última mensagem.
"Ela deve ser eliminada."
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 19/06/2026
Laura é um monstro maior do que eu imaginava....e tentaram mata a Eve....
Agora o problema ta amor ainda...mas descoberto....já quero ver o povo começando a pagar por tudo isso
Luciane Ribeiro
Em: 22/06/2026
Autora da história
Você não viu nada ainda kkkkk Laura faz Doutor Danilo ficar no chinelo quando se trata de falta de ética e humanidade.
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