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34 por Luciane Ribeiro

Ver comentários: 2

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Palavras: 2608
Acessos: 122   |  Postado em: 08/06/2026

O laboratório

 

Helena e eu nos recompomos e saímos do quarto.

Quando chegamos à área da piscina, ficamos encantadas com a paisagem.

Apesar de ser coberta, o teto de vidro permitia ver claramente o céu estrelado. À nossa frente, o mar se estendia como uma imensa faixa escura iluminada apenas pelo reflexo da lua.

A piscina tinha um fundo azul profundo, com uma flor dourada desenhada no centro.

- Até que enfim se juntaram a nós! - anunciou Aline.

- Demoramos um pouco para encontrar os biquínis - respondi.

Todas sorriram.

Daquele tipo de sorriso que deixava muito claro que ninguém acreditava na minha desculpa.

Troquei um olhar com Helena e tive certeza de que elas sabiam exatamente o que estávamos fazendo no quarto.

A confirmação veio logo em seguida.

- Parabéns - disse Karina, erguendo a taça. - Vocês passaram no segundo teste.

Olhei para Helena sem entender.

Ela parecia tão confusa quanto eu.

- Segundo teste? - perguntei.

Larissa se aproximou sorrindo.

- O segundo teste era vencer a própria libido para estar com as amigas, mesmo quando parece impossível.

Sabrina levantou a mão imediatamente.

- Eu continuo achando que esse é o teste mais difícil.

As outras caíram na gargalhada.

- Somos amigas - continuou Larissa. - Mas também somos uma família. E famílias precisam saber que podem contar umas com as outras.

Helena apertou minha mão.

Olhei para ela e sorri.

Talvez aquele lugar fosse exatamente isso.

 

Um lugar onde pessoas quebradas encontravam outras pessoas dispostas a caminhar ao seu lado.

As horas passaram regadas a muita conversa, risadas, conselhos e cerveja.

Acabamos nos recolhendo por volta das duas da manhã.

Assim que deitamos, o cansaço venceu qualquer tentativa de continuar acordadas.

Adormecemos quase instantaneamente.

Fomos despertadas algumas horas depois pelo som de um avião pousando.

Abri os olhos devagar e encontrei Helena ainda afundada no travesseiro ao meu lado.

- Bom dia, amor.

A voz dela saiu rouca de sono.

- Bom dia.

Helena levou uma das mãos ao rosto e soltou um gemido baixo.

- Acho que fui atropelada por um trem.

Ri.

- Dor de cabeça?

- Não. Mas parece que ainda estou bêbada.

- Bem-vinda ao maravilhoso mundo da ressaca.

Ela me lançou um olhar indignado.

- Isso é desumano.

- Você sobreviveu a uma seita religiosa ,a mim na adolescência e à Karina. Vai sobreviver a uma tequila também.

Helena puxou o lençol até o rosto.

- Não tenho tanta certeza.

O som dos motores do avião ainda ecoava ao longe. E o barulho de passos e vozes começou a se multiplicar pelos corredores.

__Quem será que chegou a essa hora da manhã?

- Considerando as pessoas que conhecemos ultimamente? Pode ser qualquer um.

Poucos segundos depois, meu celular vibrou sobre o criado-mudo.

Uma mensagem de Karina.

"Bom dia, meninas. Café da manhã em dez minutos. Passeio ao laboratório em uma hora. Arrumem-se. O dia está só começando."

A palavra laboratório expulsou completamente a ressaca e a preguiça que ameaçavam tomar conta de nós.

Tomamos banho e nos vestimos rapidamente.

Quando chegamos à cozinha, nos surpreendemos ao encontrar mais cinco mulheres sentadas à mesa.

- Bom dia, meninas.

- Bom dia, Helena. Vocês estão bem?

Helena puxou uma cadeira ao meu lado antes de responder.

- Sim. Estamos apenas com um pouco de ressaca.

- Bem-vindas ao clube - uma das desconhecidas respondeu, erguendo a xícara de café.

- Vocês nem beberam conosco ontem, Beatriz. Não admito que esteja de ressaca.

- Reclame com a Rainha. Nosso passeio foi muito bem-sucedido, então ela quis comemorar em um bar muito suspeito, mas com a cerveja mais gelada do Rio de Janeiro.

- Camila nem consegue falar.

- Deixe ela. Precisa de sorvete e um energético.

Camila levantou o polegar em aprovação.

- E eu de  um banho de piscina.

- Vamos entrar na água daqui a pouco. Antes, deixa eu apresentar as novatas.

Karina apontou para nós.

- Essas são Helena e Atena.

Beatriz abriu um sorriso.

- Muito prazer, meninas. Sou Beatriz e essa meio morta é minha esposa, Camila.

- O prazer é nosso. E podem me chamar apenas de Eve.

_Prazer, Eve.

- Não se esqueçam de nós.

Karina revirou os olhos.

- Calma. Já ia apresentar vocês também.

Apontou para as outras mulheres à mesa.

- Aquelas duas são Raissa e Júlia.

As duas acenaram em cumprimento.

- E a quietona ali é Leona.

Leona ergueu a xícara de café em nossa direção.

- Cuja esposa vocês e eu vamos encontrar daqui a pouco.

Aline bufou dramaticamente.

- Onde aquela mulher está? Por que não veio com vocês? Será que vou ter que buscá-la pessoalmente?

- Não se estresse, Aline. A Rainha precisa reinar - respondeu Beatriz. - Ela ficou dias longe da ilha. Deve ter uma montanha de problemas para resolver.

Leona apoiou o queixo na mão.

- Eu que o diga. Nem eu consegui vê-la ainda.

Suspirou profundamente.

- Não devia ter me casado com a Rainha Púrpura.

As outras caíram na risada.

- Até parece que você se arrepende de verdade, Leo - disse Júlia. - Você ama aquela mulher mais do que ama a própria paz.

- Certo. Certo. Você me pegou.

Leona sorriu.

- Amo mesmo.

Apontou o dedo para todas nós.

- Quando encontrarem aquela criatura, avisem que ela tem esposa e que seria muito gentil aparecer em casa de vez em quando.

- Pode deixar comigo - respondeu Karina, levantando-se. - Agora vamos, meninas. O laboratório nos espera.

Clarissa apontou para ela imediatamente.

- E lembrem-se de voltar antes das três. Ou vou decolar sem vocês!

Karina levou a mão ao peito.

- Nossa, amor. Você iria embora sem mim?

- Karina, minha deusa celta...

Clarissa nem tentou esconder o sorriso.

- Temos uma festa e nossas crianças nos esperando. E eu te conheço o suficiente para saber que, se eu não fizer ameaças, você vai esquecer que o mundo existe assim que colocar os olhos em um microscópio.

- Isso é uma acusação gravíssima.

- É uma descrição extremamente precisa.

As mulheres ao redor da mesa concordaram na mesma hora.

- Verdade.

- Completamente.

- Já aconteceu mais de uma vez.

Karina revirou os olhos.

- Estou cercada por traidoras.

- Está cercada por testemunhas - corrigiu Leona antes de tomar outro gole de café.

_Vejo vocês antes das Três! Podem acreditar.

Ela deu um beijo em Clarissa ,em seguida nos levou até a garagem.

Entramos no carro e Karina assumiu o volante. Seguimos por uma longa estrada na encosta e depois atravessamos o centro da cidade.

A ilha era belíssima.

Milhares de turistas se amontoavam para tirar fotos em cada atração turística e aproveitavam as inúmeras opções de lazer que aquele lugar oferecia.

Helena e eu certamente voltaríamos ali algum dia.

Era o cenário perfeito para uma segunda lua de mel.

A paisagem começou a mudar quando Karina entrou em uma rua de paralelepípedos afastada, quase escondida das vias principais.

No alto da colina eu conseguia ver uma grande construção pintada em um tom de roxo escuro.

Os muros altos eram parcialmente escondidos por uma cerca-viva perfeitamente aparada.

Pouco depois chegamos a um enorme portão de madeira escura.

Karina apenas aguardou.

Seu celular tocou.

Ela atendeu e disse apenas:

- Sim. Teremos cerveja artesanal hoje.

Achei estranho, mas imaginei que estivesse falando com Clarissa ou com alguém que havia permanecido no Refúgio.

Logo em seguida o portão começou a se abrir.

Karina avançou devagar pelo caminho de paralelepípedos cercado por árvores.

As câmeras espalhadas pela propriedade e a grande casa roxa, agora muito mais próxima, me fizeram acreditar que aquele era o laboratório.

Mas eu estava completamente enganada.

Karina passou pela construção sem diminuir a velocidade e continuou dirigindo até chegar a uma casa elegante, com janelas de madeira e uma varanda extremamente acolhedora.

Ela estacionou na garagem, desligou o carro e nos pediu para acompanhá-la.

Confesso que fiquei um pouco frustrada.

Depois de toda a expectativa, não imaginei que o laboratório fosse ser apenas um cômodo adaptado com alguns microscópios e equipamentos de pesquisa.

Foi exatamente isso que pensei.

E não poderia estar mais errada.

Karina nos conduziu até uma porta nos fundos da casa.

Parou diante dela e ergueu a mão como se fosse empurrá-la.

Mas não tocou em nada.

Apenas esperou.

Segundos depois a porta se abriu sozinha.

A partir daquele instante tive a sensação de estar entrando em um filme de ficção científica.

Atrás daquela porta existia um laboratório luxuoso e extremamente moderno.

O espaço era dividido em duas grandes áreas.

TI.

E DHC.

Desenvolvimento Humano e Científico.

Fileiras de equipamentos ocupavam boa parte do ambiente.

Monitores exibiam gráficos e dados em tempo real.

Alguns aparelhos eu sequer consegui identificar.

- Vocês precisam de um babador? - perguntou Karina, divertindo-se com nossas expressões.

- Eu acho que sim. Minha nossa... isso é incrível!

Helena observava tudo com os olhos brilhando.

- Esses equipamentos são de última geração. Alguns deles ainda estão em fase de desenvolvimento, pelo que sei.

Karina sorriu.

- Está certíssima, Helena. Para grande parte da comunidade científica eles ainda vão demorar para chegar ao mercado.

Ela fez um gesto abrangendo todo o laboratório.

- Mas para nós, eles já fazem parte do dia a dia.

Ao passarmos pela porta, vimos uma mulher de costas observando uma grande tela.

Nela eram exibidos dados médicos de todas as mulheres do Refúgio, incluindo os meus e os de Helena. Também mostrava a localização de cada uma pela ilha.

- Bom dia, Rainha! - anunciou Karina.

A mulher sorriu.

A ordem que veio em seguida claramente não era para nós.

- Lotus, feche o Portal de Ambra.

A tela desapareceu imediatamente.

Então ela se virou.

E abriu um sorriso caloroso.

- Vocês nunca mais vão me chamar pelo meu nome, não é?

- Claro que não, Majestade - respondeu Karina.

Heloísa balançou a cabeça em resignação.

- Sejam bem-vindas, doutora Helena Heyes e doutora Atena Evelyn.

Ela se aproximou e apertou nossas mãos.

- Meu nome é Heloísa. Sou uma das proprietárias e guardiã deste pequeno parque de diversões científico da Karina.

- Pequeno? - Karina protestou. - Ela está sendo modesta. Heloísa também é dona da Ilha de Rizzos. A mulher que praticamente mantém tudo isso funcionando.

- Karina, pare. Elas vão acreditar em você.

- Mas eu estou falando a verdade.

 Heloisa soltou uma gargalhada.

- Ela não gosta quando lembramos que metade da ilha para quando ela tira férias.

- Exagerada...

As duas riram e se abraçaram.

_Bom te ver ruiva.

_Digo o mesmo rainha.

_Se divertiram ontem á noite?

_Até demais. Tenho uma mensagem de sua esposa .

_Que medo! Qual?

_É melhor você lembrar que tem esposa e ir logo pra casa.

_Irei .Estou cheia de saudades dela e das meninas.

Foi naquele instante que percebi algo.

Eram mulheres brilhantes, influentes e absurdamente competentes.

Mas ali não existia hierarquia ou qualquer coisa do tipo.

Existia confiança .

Parceria.

E o tipo de amizade que só nasce depois de atravessar muitas guerras juntas.

-Karina me pediu que mostrasse a vocês o grande motivo da reconstrução deste laboratório.

Meu interesse despertou imediatamente.

- O que é?

Heloísa trocou um olhar rápido com Karina.

- Um projeto iniciado há quase quarenta anos.Ela também apresentou sua indicação para que vocês integrem a Dália Negra.

_É um tipo de clube?

_É muito mais que isso _Disse Karina.

_Sobre isso falaremos quando e se forem realmente aprovadas .

Aquilo bastou para capturar completamente minha atenção.

Seguimos as duas por um corredor até chegarmos a uma sala ampla.

No centro havia apenas algumas poltronas voltadas para uma enorme tela.

- Sentem-se.

Olhei para Helena.

Ela parecia tão curiosa quanto eu.

- Vamos assistir a um filme?

- Sim - respondeu Heloísa.

Ela pegou um controle e ligou a televisão.

A tela permaneceu escura por alguns segundos.

-  Precisam ver pra entender exatamente o que ele faz.

Franzi a testa.

Na tela apareceu primeiro uma cena comum.

Uma festa de batizado.

Pessoas sorrindo.

Crianças correndo.

Música.

Comida.

Famílias reunidas.

Tudo parecia feliz e absolutamente normal.

Então as imagens mudaram.

O sorriso desapareceu.

As pessoas começaram a adoecer.

Feridas surgiram pela pele.

Algumas gritavam.

Outras caíam no chão.

A carne parecia se desfazer lentamente, como se tivesse sido exposta a ácido.

Meu estômago revirou.

Helena também ficou tensa ao meu lado.

Heloísa pausou a gravação.

O silêncio na sala tornou-se pesado.

- O homem que vocês conhecem como Danilo Resquier acreditava que o progresso científico justificava qualquer coisa.

Ninguém respondeu.

- Na época, a família Rizzos começou a se tornar um problema para ele.

A imagem congelada na tela mostrava uma mulher tentando segurar uma criança doente nos braços.

- Martinez seu patriarca tentou proteger a família Guma ,cujos membros começaram a ser utilizados como cobaias devido a uma enzima rara em dna.

Heloísa respirou fundo.

- Então Danilo decidiu transformar uma celebração em uma execução.

Senti um arrepio percorrer minhas costas.

Heloísa deixou a imagem congelada na tela por alguns segundos antes de desligá-la.

O silêncio que ficou na sala era pesado demais para ser quebrado por qualquer uma de nós.

Foi Karina quem voltou a falar.

- O nome daquele vírus era Eros.

Franzi a testa.

- Vocês deram nome a uma arma biológica?

- Não fomos nós que demos - respondeu Heloísa. - Foi Danilo.

Karina caminhou até a tela.

Novos gráficos começaram a aparecer.

Estruturas moleculares.

Sequências genéticas.

Mapas celulares.

Helena imediatamente se inclinou para frente.

Eu conhecia aquele olhar.

Era o olhar que surgia quando alguma coisa capturava completamente sua atenção.

- O Eros não era apenas um vírus letal - continuou Karina. - A verdadeira inovação estava na forma como ele escolhia suas vítimas.

- Escolhia? - perguntei.

- Sim.

Karina ampliou uma sequência genética na tela.

- O Eros foi programado para reconhecer marcadores genéticos específicos presentes apenas na linhagem da família Rizzos.

Meu coração acelerou.

- Está dizendo que ele sabia quem deveria matar?

- Exatamente.

A tela mudou novamente.

- Pessoas sem aqueles marcadores podiam entrar em contato com o vírus e permanecer completamente saudáveis.

- Enquanto os membros da família...

- Eram condenados.

Helena não desviava os olhos da tela.

Nem sequer piscava.

Karina continuou.

- Em teoria, o Eros analisava proteínas específicas produzidas pelo DNA dos hospedeiros. Quando encontrava a combinação correta, iniciava o processo infeccioso.

- E quando não encontrava? - perguntou Helena.

- Permanecia inativo.

Vi algo mudar no rosto dela.

Uma pequena faísca.

Quase imperceptível.

Karina continuou explicando.

- Durante décadas acreditamos que aquilo era impossível. Hoje sabemos que Danilo estava décadas à frente do restante da comunidade científica.

Helena se levantou tão rápido que quase derrubou a cadeira.

- Karina... você tem a estrutura completa?

As duas mulheres trocaram um olhar.

- Temos.

- O código genético original?

- Temos.

- Todos os relatórios?

- Também.

Eu conhecia aquela expressão.

Conhecia muito bem.

Era a mesma que aparecia toda vez que Helena enxergava uma solução onde ninguém mais conseguia.

- Helena? - chamei.

Ela virou para mim.

Os olhos brilhavam.

Não de medo.

Não de fascínio.

De esperança.

- Eve...

Ela apontou para a tela.

- Se Danilo conseguiu programar um vírus para atacar apenas pessoas com determinadas características genéticas...

Meu coração disparou.

- Então talvez eu consiga fazer o contrário.

A sala inteira ficou em silêncio.

Helena voltou a encarar os dados.

- Talvez eu consiga reprogramar o 34.

- Como? - perguntou Heloísa.

- Fazendo ele ignorar células saudáveis.

 

Ela deu mais um passo em direção à tela.

 

- E atacar apenas as células contaminadas pelo Archer 1.

 

Fim do capítulo


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Comentários para 42 - O laboratório :
Mmila
Mmila

Em: 09/06/2026

Eita, família completa.

Helana, gênio!

Novas possibilidades.

 


Luciane Ribeiro

Luciane Ribeiro Em: 22/06/2026 Autora da história
Nossa futura vencedora do Nobel!Será?kkkkkkk


Responder

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HelOliveira
HelOliveira

Em: 08/06/2026

Helena é demais.....

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