Mavie odiava admitir quando alguma coisa a surpreendia.
Surpresas significavam falta de controle, e ela havia passado a vida inteira construindo uma existência onde quase nada fugia às suas mãos. Cada decisão calculada. Cada variável prevista. Cada imprevisto, quando surgia, rapidamente domado e encaixado de volta no plano original.
Mas quando o avião pousou em São Luís, no Maranhão, ela precisou admitir, ainda que apenas para si mesma, que aquela cidade era completamente diferente de tudo o que conhecia.
Pela janela, observou as luzes espalhadas pela cidade enquanto o piloto iniciava os procedimentos de pouso — um aglomerado disperso e quente, tão distante da geometria organizada de Dublin que por um instante ela teve a sensação estranha de estar chegando a outro planeta, não apenas a outro país.
Ao seu lado, Alex fechou o notebook.
— Finalmente.
Mavie desviou os olhos da janela.
— Finalmente o quê?
Ele sorriu, esticando as pernas o quanto o espaço apertado permitia.
— Brasil.
Ela soltou um suspiro baixo, sem nenhum entusiasmo.
— Não me lembra.
Alex riu.
— Você continua achando que isso foi uma péssima ideia?
— Eu tenho certeza.
— Seu pai ficaria orgulhoso de ouvir isso.
Mavie lançou um olhar de esguelha para ele.
— Meu pai ficaria orgulhoso se eu dissesse que fecharíamos o contrato antes de voltarmos para Dublin.
— E nós vamos.
— Espero que sim.
O avião pousou suavemente, os pneus tocando a pista com um baque leve que percorreu toda a cabine.
Assim que chegaram ao aeroporto, uma equipe previamente contratada os aguardava — Mavie não gostava de perder tempo com detalhes logísticos, e por isso tudo já estava organizado com semanas de antecedência. Carros. Motoristas. Bagagens. Horários. Segurança. Tudo, ou quase tudo, pensado antes mesmo de ela sair de Dublin.
Depois de horas de viagem, Mavie só queria chegar ao resort, tomar um banho e dormir. Mas a viagem ainda estava longe de terminar.
São Luís ficou para trás rapidamente. O carro seguiu pela estrada enquanto o céu começava a escurecer em tons que Mavie jamais vira sobre Dublin — um laranja quase violento se dissolvendo devagar num azul profundo. Ela observava a paisagem através do vidro, incapaz de desviar os olhos por muito tempo.
Era diferente. Muito diferente. O verde parecia mais intenso do que ela estava acostumada a ver, quase agressivo em sua vitalidade, e o ar parecia mais quente mesmo através do ar-condicionado do carro, como se a umidade encontrasse alguma fresta para entrar.
Ela tirou o blazer e o deixou dobrado sobre o banco.
Alex percebeu.
— Está sentindo calor?
— Um pouco.
— Você vai se acostumar.
— Não tenho intenção de ficar tempo suficiente para isso.
— Mavie...
— O quê?
— Você poderia tentar aproveitar.
Ela arqueou uma sobrancelha, sem se virar para ele.
— Estou aqui por trabalho.
— Eu sei.
— Então vamos trabalhar.
Alex balançou a cabeça, divertido, sem nenhuma irritação real na voz.
— Você é impossível.
Mavie voltou a olhar pela janela, deixando as luzes esparsas da estrada desenharem riscos rápidos na retina.
Talvez fosse mesmo impossível.
Mas ser impossível era mais seguro do que ser vulnerável — e vulnerabilidade era um luxo que ela nunca havia se permitido, nem quando ainda era pequena o suficiente para que isso fosse perdoável.
Algumas horas depois, quando finalmente chegaram ao resort, Mavie estava preparada para encontrar apenas um lugar confortável, funcional, o tipo de hospedagem que os melhores resorts do mundo ofereciam sem surpreender ninguém.
Não esperava aquilo.
O carro atravessou os portões principais e entrou por uma estrada cercada de vegetação densa. Mavie imediatamente se endireitou no banco, a postura cansada da viagem cedendo lugar a uma atenção repentina.
As luzes externas iluminavam o caminho de maneira discreta, criando uma atmosfera sofisticada sem jamais violentar a beleza natural do lugar ao redor. Ao longe, estruturas elegantes começaram a surgir entre as árvores, uma silhueta após a outra, como se o próprio resort tivesse crescido ali, em vez de ter sido construído.
O lugar era enorme. E lindo. Muito mais luxuoso do que ela havia imaginado ao ler os relatórios preliminares em Dublin. Os prédios tinham uma arquitetura moderna, mas perfeitamente integrada à paisagem — nada parecia exagerado, nada gritava riqueza da forma vulgar que Mavie conhecia tão bem dos hotéis que frequentava normalmente.
Ali, o luxo estava nos detalhes. Na iluminação cuidadosamente calculada para não ofuscar as estrelas. Nos jardins impecavelmente cuidados. Nas piscinas que refletiam a noite como espelhos líquidos. Nos caminhos de pedra que serpenteavam entre as árvores. No silêncio — sobretudo no silêncio, que parecia fazer parte do projeto tanto quanto qualquer parede ou telhado.
Mavie olhou para Alex.
— Você sabia que era assim?
Ele sorriu.
— Mais ou menos.
— Isso não é "mais ou menos".
Alex olhou pela janela, a expressão suave.
— Eu disse que você iria gostar.
— Eu não disse que gostei.
— Seu rosto está dizendo.
Mavie voltou a olhar para frente, o queixo erguido.
— Meu rosto não diz nada.
— Conheço você há trinta anos.
— Então deveria saber que meu rosto não diz nada.
Alex riu, um som baixo e genuíno.
O carro parou diante da entrada principal. Um funcionário abriu a porta com um gesto cortês, e Mavie saiu primeiro, o ar quente e úmido tocando sua pele imediatamente, tão diferente do frio seco de Dublin que por um instante ela sentiu quase uma vertigem.
Ergueu os olhos.
O céu estava completamente escuro, mas de um jeito diferente do que ela conhecia — mais profundo, mais denso, sem a poluição luminosa que sempre lavava o céu noturno da cidade a um cinza baço. E, pela primeira vez naquela viagem, Mavie não pensou em contratos. Não pensou em reuniões. Não pensou em Dublin.
Pensou apenas na beleza daquele lugar.
Havia ali uma tranquilidade que não existia na cidade onde vivia — o som distante da natureza substituindo buzinas, telefones, o zumbido constante do trânsito que ela nem percebia mais como ruído.
— Impressionante — Alex comentou, ao lado dela.
Mavie não respondeu.
Porque estava olhando para o céu, e as estrelas pareciam muito mais próximas do que jamais estiveram.
A recepção era ainda mais bonita por dentro. Grandes portas de vidro permitiam que a luz do ambiente se espalhasse suavemente pelo jardim externo, borrando a fronteira entre dentro e fora. O espaço era amplo, elegante e sofisticado — sofás claros, plantas naturais, madeira escura, pedra bruta e enormes janelas que permitiam observar parte da paisagem mesmo durante a noite.
Mavie passou os olhos pelo ambiente, avaliando cada detalhe com o mesmo olhar crítico que aplicava a qualquer investimento.
— Isso definitivamente não parece um resort comum.
Alex colocou as mãos nos bolsos, satisfeito.
— Não é.
Um funcionário se aproximou para recebê-los.
— Boa noite. Sejam muito bem-vindos.
— Boa noite — Alex respondeu.
Mavie apenas assentiu, ainda absorvendo o ambiente ao redor.
Enquanto os funcionários cuidavam das malas e dos procedimentos de entrada, ela observava tudo com atenção quase clínica. Não havia excesso de funcionários correndo de um lado para o outro, nenhum daquele caos disfarçado de eficiência que ela via tantas vezes em hotéis igualmente caros. Não havia barulho. Tudo parecia funcionar perfeitamente, silenciosamente, como uma engrenagem bem lubrificada.
Ela gostava disso.
— Senhor Carter?
Alex olhou para o funcionário.
— Sim.
— A hospedagem de vocês está confirmada. A equipe já foi informada sobre a reunião de amanhã.
Mavie finalmente voltou a atenção para eles.
— Amanhã?
— Sim, senhora. O senhor Monteiro confirmou pessoalmente.
Alex respondeu:
— Perfeito.
Mavie olhou para o relógio. Quase dez da noite.
— Então amanhã começamos cedo.
Alex sorriu, sacudindo a cabeça.
— Você acabou de chegar ao Brasil e já está pensando em trabalho.
— É para isso que estamos aqui.
Ele não respondeu. Talvez porque soubesse, depois de tantos anos, que discutir com ela não adiantaria nada.
Depois de deixarem as malas nos quartos, Mavie tomou um banho rápido, deixando a água lavar o cansaço acumulado de horas de voo. Vestiu uma roupa confortável e saiu novamente. Não conseguia dormir — havia alguma coisa naquele lugar que despertava nela uma curiosidade que já não sentia havia muito tempo.
Encontrou Alex no corredor.
— Ainda acordado?
— Eu ia perguntar a mesma coisa.
— Quero conhecer o resort.
Ele sorriu, surpreso.
— Agora?
— Agora.
— Está quase onze horas.
— E?
— Nada.
Alex pegou o celular, guardando-o no bolso.
— Vamos.
Eles caminharam pelo resort em silêncio companheiro. As luzes eram baixas e elegantes, algumas áreas já fechadas para a noite, outras ainda funcionando discretamente. Dublin nunca ficava realmente silenciosa — sempre havia carros, pessoas, telefones, movimento constante, mesmo de madrugada. Ali não. E, estranhamente, Mavie não odiava aquilo.
Passou por uma piscina iluminada e parou, atraída pelo reflexo dourado da água. Tudo parecia cuidadosamente planejado, mas ao mesmo tempo havia algo profundamente natural naquilo, como se o design tivesse apenas emoldurado o que já existia, sem tentar sobrepor-se a ele.
Ela respirou fundo.
— É bonito.
Alex olhou para ela, um leve espanto no rosto.
— Você admitiu.
Mavie continuou caminhando, escondendo o princípio de sorriso.
— Não se acostume.
Ele riu.
Mais adiante, encontraram uma área externa de onde era possível observar parte da paisagem que se estendia além dos limites do resort. E foi ali que Mavie percebeu, pela primeira vez, os Lençóis Maranhenses.
Mesmo à noite, a paisagem tinha uma beleza difícil de explicar. As dunas pareciam sombras prateadas sob a luz da lua, ondulando suavemente até onde a vista alcançava, como se o deserto e o mar tivessem decidido, em algum momento distante, se misturar. O vento movimentava a areia lentamente, um sussurro quase imperceptível.
Mavie ficou em silêncio. Pela primeira vez naquele dia inteiro, não havia nenhuma necessidade de preencher aquele silêncio com palavras, com planos, com a próxima tarefa da lista.
Ela apenas observou.
Alex ficou ao lado dela, as mãos ainda nos bolsos.
— Bonito, não é?
Mavie demorou alguns segundos para responder.
— É.
— Você parece surpresa.
— Eu não sabia que seria assim.
— A maioria das pessoas não sabe.
Ela continuou olhando, incapaz de desviar os olhos. Era estranho. Havia viajado pelo mundo inteiro — conhecia hotéis cinco estrelas, restaurantes exclusivos, cidades famosas, lugares que apareciam nas capas de revistas de arquitetura e turismo de luxo. Mas aquela paisagem simples, sem nenhum arranha-céu, sem nenhuma marca de grife, conseguia prender sua atenção de um jeito que nenhum prédio jamais conseguira.
— Amanhã quero conhecer melhor — ela disse, quase sem perceber que havia falado em voz alta.
Alex sorriu.
— Achei que você só quisesse trabalhar.
Mavie lançou um olhar para ele.
— Quero trabalhar.
— Claro.
— E conhecer o lugar.
— Claro.
— Não faça essa cara.
— Que cara?
— Essa cara de quem acha que está descobrindo alguma coisa sobre mim.
Alex sorriu, os olhos brilhando de leve na escuridão.
— Talvez eu esteja.
Mavie revirou os olhos.
— Boa noite, Alex.
— Boa noite, Mavie.
Ela começou a caminhar em direção ao prédio principal. Mas, antes de entrar, olhou uma última vez para as dunas, prateadas e silenciosas sob a lua.
Não sabia explicar por quê. Só sabia que aquela paisagem ficaria em sua cabeça por mais tempo do que ela gostaria de admitir.
Na manhã seguinte, Mavie acordou cedo. Como sempre. Às seis da manhã, seu relógio biológico não se importava com fusos horários nem com a diferença de quatro horas entre Dublin e São Luís.
Depois de uma rápida rotina de exercícios no pequeno espaço de treino do quarto, tomou café e se preparou para a reunião, o cabelo preso, a postura já reajustada ao modo profissional que ela vestia com tanta facilidade quanto qualquer roupa.
Pouco depois das oito, ela e Alex encontraram os donos do resort.
Eduardo Monteiro os recebeu pessoalmente — um homem de pouco mais de cinquenta anos, elegante, simpático e seguro, com o tipo de aperto de mão que revelava décadas de negociações bem-sucedidas. Ao lado dele estava Carolina, sua esposa, com um sorriso caloroso que contrastava com a formalidade que Mavie esperava.
— Mavie Smith — Eduardo disse, apertando sua mão com firmeza. — Finalmente nos conhecemos pessoalmente.
— Senhor Monteiro.
— Pode me chamar de Eduardo.
Mavie assentiu, avaliando-o rapidamente, como fazia com todos os parceiros de negócio.
Carolina sorriu.
— E você deve ser Alex.
— Sim.
— É um prazer finalmente conhecê-lo.
Depois das apresentações, seguiram para uma sala reservada, e a reunião começou. Contratos. Valores. Tecnologia. Investimentos. Expansão. Mavie estava completamente em seu elemento — era ali, no mundo dos números, das estratégias e das cláusulas bem redigidas, que ela sempre se sentia mais segura, mais ela mesma, do jeito que nunca se permitia ser em nenhum outro contexto.
Depois de algumas horas de negociação produtiva, Eduardo decidiu apresentar o restante do resort. Mavie conheceu os restaurantes, as áreas de lazer, os espaços destinados aos hóspedes e até algumas áreas administrativas, tudo impecável, tudo funcionando com a mesma precisão silenciosa que havia notado na noite anterior.
— Como vocês conseguem manter tudo isso tão organizado? — Alex perguntou, genuinamente curioso.
Eduardo sorriu, como se a resposta fosse óbvia.
— Pessoas.
Mavie olhou para ele, sem entender completamente.
— Pessoas?
— O resort pode ser lindo, mas sem uma boa equipe não significa absolutamente nada.
A frase ficou ecoando na cabeça dela por mais tempo do que gostaria. Não sabia se concordava — talvez porque, no mundo dela, eficiência sempre viesse antes de qualquer outra coisa, número antes de nome, resultado antes de rosto.
Eduardo continuou, caminhando à frente deles pelos corredores:
— Temos funcionários que estão conosco há muitos anos. Alguns praticamente cresceram aqui, dentro do resort.
Mavie observou alguns deles trabalhando enquanto passavam. Todos pareciam conhecer suas funções perfeitamente, mas havia algo diferente ali, algo que ela não via com frequência nos escritórios impecáveis da Smith Tecnologias. Eles conversavam. Riam baixinho entre uma tarefa e outra. Cumprimentavam-se com um afeto que parecia genuíno, não performado para impressionar os visitantes.
Pareciam realmente gostar de estar ali.
Mavie não estava acostumada com aquilo.
No início da tarde, Carolina apresentou algumas pessoas da equipe, mencionando nomes que Mavie mal registrava, absorta como estava em revisar mentalmente os pontos ainda pendentes do contrato. Até que Carolina disse um nome específico.
— Marcela.
Mavie continuou olhando para um documento em suas mãos, sem prestar muita atenção.
— Marcela é uma das nossas melhores funcionárias — Carolina explicou, com um orgulho visível na voz. — Ela conhece praticamente tudo por aqui.
— Ela trabalha na administração? — Alex perguntou.
— Na área de atendimento e turismo. Estuda Turismo também, na faculdade da cidade.
Mavie levantou os olhos por um instante, um gesto quase automático.
— Ela está aqui há quanto tempo?
— Alguns anos.
Eduardo sorriu, um brilho quase paternal no olhar.
— Você vai conhecê-la ainda hoje, imagino.
Mavie apenas assentiu, já baixando os olhos de volta para o documento.
Naquele momento, não deu importância nenhuma ao nome.
Marcela.
Era apenas mais uma funcionária. Mais uma pessoa que trabalhava naquele lugar, entre tantas outras. Nada além disso — ou foi o que ela pensou, sem saber que aquele nome guardaria, em poucas horas, um peso completamente diferente.
No fim da tarde, Mavie voltou para o quarto. Precisava responder alguns e-mails, tinha uma videoconferência marcada com Dublin e ainda precisava revisar uma proposta antes do fim do dia. Mas, quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu de um laranja quase líquido, ela fechou o notebook sem terminar.
Pela primeira vez em muito tempo, decidiu simplesmente sair.
Caminhou até uma das áreas externas, o céu em tons de laranja, rosa e dourado se espalhando acima dela como uma pintura ainda úmida. Mavie ficou parada, observando. Não pegou o celular. Não tirou fotos. Não fez absolutamente nada além de olhar.
Talvez o Brasil não fosse tão ruim, pensou, sem imaginar o quanto aquela frase estava prestes a se tornar ainda mais verdadeira do que ela poderia supor.
Depois de responder aos e-mails mais urgentes e participar da videoconferência com Dublin — uma ligação tensa sobre um fornecedor que havia atrasado uma entrega, resolvida com a frieza cirúrgica de sempre —, Mavie finalmente fechou o notebook.
Alex estava sentado no sofá da suíte, o celular nas mãos, a luz azulada da tela iluminando de leve seu rosto na penumbra do quarto. A acomodação era ampla e sofisticada: uma enorme cama ocupava o centro do ambiente, enquanto portas de vidro davam acesso a uma varanda privativa com vista para parte do resort, as luzes baixas do jardim tremeluzindo lá fora.
Mavie olhou para ele.
— Amanhã temos algum horário definido?
Alex ergueu os olhos do celular.
— Para quê?
— Para conhecer as dunas.
— Não.
Mavie cruzou os braços, uma pontada de impaciência atravessando o cansaço do dia.
— Como não?
— Ainda não escolhemos nenhum passeio.
Ela soltou um suspiro.
— Então vamos até a recepção.
Alex guardou o celular no bolso, olhando para ela com uma sobrancelha erguida.
— Agora?
— Alex.
Ele sorriu, cedendo, como sempre cedia.
— Está bem.
Os dois deixaram a suíte. O resort estava tranquilo àquela hora da noite — as luzes suaves iluminavam os caminhos externos, enquanto o som da natureza, grilos e algo que parecia o farfalhar distante de folhas, ocupava o silêncio que em Dublin nunca existia de verdade.
Já não era o mesmo estranhamento da primeira noite. Em vez de tentar se acostumar àquele silêncio, Mavie sentia agora que ele abria um pouco mais de espaço dentro do próprio peito — um espaço que ela normalmente mantinha bem fechado.
Quando chegaram à recepção, Alex se aproximou primeiro do balcão, os passos firmes e casuais de sempre.
— Boa noite.
Mavie caminhava ao lado dele.
Então parou.
Não de maneira perceptível — apenas diminuiu o passo por uma fração de segundo, quase nada, o tipo de hesitação que só ela mesma poderia notar em si.
A mulher atrás do balcão levantou os olhos.
E Mavie esqueceu completamente o que Alex acabava de dizer.
Foi rápido, e ao mesmo tempo pareceu se estender por um tempo impossível de medir. Ela tinha cabelos castanhos longos, soltos sobre os ombros, com aquele brilho saudável de quem passava os dias sob sol de verdade, não sob a luz artificial de um escritório. Pele morena, tocada por um bronzeado que parecia fazer parte dela, não um acessório temporário de férias. Era alta — quase da altura de Mavie, o que já era incomum — e havia nos ombros e nos braços a marca discreta de quem se movia com o corpo, não apenas com a mente.
Mas foram os olhos que prenderam Mavie por completo, que a fizeram esquecer, por um instante inteiro, onde estava e por que havia ido até ali.
Azuis. De um azul intenso, quase impossível, do tipo que Mavie jamais esperaria encontrar num rosto tão marcadamente brasileiro, tão distante de qualquer coisa que ela conhecia. Um azul que parecia guardar luz própria, mesmo sob a iluminação amena da recepção.
Por um segundo longo demais — longo o suficiente para que o coração de Mavie desse um solavanco que ela recusou-se a nomear —, ela apenas olhou.
— Boa noite — Marcela disse, sorrindo, um sorriso fácil, sem nenhum peso, sem nenhuma das camadas que Mavie estava acostumada a decifrar em cada gesto alheio. — Posso ajudar?
Alex respondeu imediatamente, sem perceber absolutamente nada:
— Sim. Gostaríamos de algumas informações sobre os passeios para amanhã.
Marcela voltou a atenção para ele, e Mavie sentiu, de um jeito completamente irracional, um lampejo de contrariedade por aqueles olhos azuis terem se desviado dela tão depressa.
— Claro. Vocês têm alguma preferência?
— Gostaríamos de conhecer as dunas.
Ela sorriu, um sorriso que parecia genuíno demais para ser apenas cortesia profissional.
— Então eu recomendo o passeio da tarde.
Mavie continuava em silêncio, um silêncio que já não era mais apenas discrição — era quase um esforço, uma tentativa deliberada de recompor o controle que havia escorregado entre os dedos sem aviso nenhum.
Marcela explicou, os gestos leves enquanto falava:
— O passeio começa no meio da tarde. Vocês conseguem conhecer as dunas e algumas lagoas e, no final, assistir ao pôr do sol.
Alex pareceu interessado, inclinando-se um pouco para frente.
— O pôr do sol é bonito?
Marcela sorriu, e dessa vez havia algo quase travesso no jeito como respondeu, como se soubesse de um segredo que só ela conhecia.
— É uma das coisas mais bonitas que vocês vão ver aqui.
Mavie desviou os olhos por um segundo, fingindo interesse em um folheto qualquer sobre o balcão, precisando desesperadamente de um lugar para pousar os olhos que não fosse aquele rosto.
Mas quando voltou a olhar, Marcela já estava olhando para ela.
Diretamente.
Sem pressa.
Os olhos azuis encontraram os verdes, e dessa vez não houve nenhum jeito de fingir que aquilo era coincidência. O mundo não parou — nada dramático, nada de cinema aconteceu ao redor delas, a recepção continuou exatamente como estava, o som baixo de um ventilador de teto, o cheiro leve de alguma flor que Mavie não sabia identificar. Mas alguma coisa dentro dela, alguma engrenagem interna que funcionava havia vinte e nove anos com uma precisão implacável, pareceu perder o ritmo por completo.
Foi como se o ar tivesse ficado, por um instante, mais difícil de respirar.
Mavie sentiu o próprio pulso na garganta, um detalhe absurdo, ridículo, que ela nunca antes havia percebido em si mesma diante de um estranho.
Marcela sorriu novamente — mais devagar, dessa vez, como se tivesse todo o tempo do mundo.
— A senhora gostaria?
Mavie demorou um segundo a mais do que deveria para processar a pergunta, a mente correndo atrás das palavras que normalmente vinham fáceis, automáticas, prontas.
— Eu...
Ela limpou a garganta, um gesto pequeno que odiou ter feito na frente de alguém.
— S-sim.
A gagueira durou menos de um segundo, mas foi suficiente para que Mavie sentisse uma onda de calor subir pelo pescoço, algo que não tinha absolutamente nada a ver com o clima tropical do Maranhão.
Marcela esperou educadamente, sem nenhuma pressa, os olhos ainda fixos nela com uma atenção que parecia curiosa, quase divertida, como se tivesse percebido exatamente o efeito que causara e decidido, com uma delicadeza quase cruel, não desviar o olhar primeiro.
Mavie sentiu o rosto esquentar levemente.
Aquilo era absurdo.
Ela era Mavie Smith. Presidia salas de reunião cheias de homens duas vezes mais velhos sem que a voz tremesse. Fechava contratos bilionários sem pestanejar. E ali estava ela, gaguejando diante de uma recepcionista de resort por causa de um par de olhos azuis.
— Sim — repetiu, dessa vez com a voz mais firme, quase normal. — Parece interessante.
Marcela sorriu, um sorriso lento que chegou primeiro aos olhos antes de alcançar os lábios.
— Tenho certeza de que vão gostar.
Alex continuava observando algumas informações expostas no balcão, folheando um panfleto sobre passeios de barco, completamente alheio a tudo o que acabara de acontecer entre as duas mulheres à sua frente. Não viu o breve silêncio que se estendera por segundos demais. Não percebeu o olhar de Mavie, nem a hesitação minúscula em sua voz, nem o modo como ela parecia, pela primeira vez em muito tempo, ligeiramente fora de si mesma.
Para ele, era apenas mais uma conversa comum, mais um detalhe logístico resolvido antes de dormir.
Marcela pegou uma folha e começou a anotar, a caligrafia rápida e inclinada.
— O passeio sai às duas e meia da tarde. Recomendo que estejam aqui na recepção por volta das duas.
— Perfeito — Alex respondeu.
— Vocês precisam levar água, protetor solar e roupas confortáveis. E, se quiserem entrar nas lagoas, roupa de banho.
Alex assentiu.
— Certo.
Marcela entregou a folha para ele, mas foi para Mavie que dirigiu o olhar por um instante a mais, um instante quase imperceptível, exceto para quem estivesse prestando atenção o suficiente para senti-lo na pele.
— Ah, e uma dica.
Alex sorriu.
— Qual?
— Não fiquem olhando o celular o tempo todo.
— Por quê?
Marcela olhou rapidamente para Mavie, um olhar breve, quase cúmplice, como se soubesse exatamente para quem aquela frase realmente se destinava.
— Porque vale a pena ver tudo com os próprios olhos.
Mavie permaneceu imóvel. Por algum motivo, aquela frase simples pareceu carregar um peso muito maior do que deveria, e ficou ecoando em sua cabeça muito depois de terem saído dali.
Alex agradeceu, guardando a folha no bolso.
— Muito obrigado.
— Disponha.
Mavie finalmente conseguiu falar, a voz quase recuperada de todo o equilíbrio de sempre.
— Obrigada.
Marcela voltou os olhos para ela — e, pela terceira vez naquela conversa que não deveria ter durado mais do que dois minutos, Mavie sentiu o mesmo solavanco no peito.
— Por nada.
Aquela troca durou apenas alguns segundos. Mas Mavie demorou para desviar o olhar, e teve a nítida sensação, ao finalmente conseguir fazê-lo, de estar deixando alguma coisa importante para trás.
— Boa noite — Marcela disse, a voz suave.
Alex respondeu:
— Boa noite.
Mavie apenas assentiu, incapaz, naquele instante, de confiar completamente na própria voz.
Os dois começaram a caminhar pelo corredor de volta à suíte. Alex passou o braço ao redor da cintura de Mavie naturalmente, um gesto tão repetido ao longo dos anos que já havia se tornado quase invisível.
Ela não afastou. Nunca afastava. Aquele era o relacionamento deles — natural, conhecido, seguro, como um par de sapatos usado tantas vezes que já não machucava em lugar nenhum.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, Mavie sentiu aquele braço em volta dela como um peso levemente estranho, fora de lugar, como uma roupa que de repente já não servia tão bem quanto antes.
Quando chegaram à suíte, Alex fechou a porta atrás dos dois.
— Acho que você vai gostar do passeio.
Mavie deixou a bolsa sobre uma mesa, as mãos ainda um pouco trêmulas de um jeito que ela esperava que não fosse visível.
— Talvez.
— Marcela parecia conhecer bastante o lugar.
Mavie olhou para ele, o nome atravessando-a como uma corrente elétrica pequena.
— Marcela?
— A funcionária da recepção.
Ela tentou parecer indiferente, ajeitando um cacho de cabelo que não precisava de ajuste nenhum.
— Ah.
Alex caminhou até o minibar, servindo-se de um copo de água.
— Ela explicou bem.
— Sim.
— Você está estranha.
Mavie rapidamente se virou para ele.
— Não estou.
— Está cansada, então.
— Sim — ela agarrou-se à desculpa com um alívio que não soube explicar. — Estou cansada.
Alex sorriu, sem desconfiar de nada.
— Eu sabia.
Ele se aproximou e beijou sua testa, o gesto tão familiar quanto sempre.
— Vamos dormir. Amanhã teremos outro dia inteiro.
Mavie assentiu.
— Boa noite.
— Boa noite, Mavie.
Mais tarde, Alex adormeceu ao lado dela, a respiração se tornando lenta e regular em poucos minutos, como tantas outras noites ao longo de tantos anos.
Mavie, porém, demorou para dormir. Ficou olhando para o teto, o quarto banhado pela luz azulada que entrava fraca pelas cortinas semiabertas. Tentou pensar no trabalho. Na reunião do dia seguinte. Nos contratos ainda pendentes de revisão. No passeio marcado para a tarde.
Mas, sem querer, sua mente voltava, repetidas vezes, para a recepção.
Para uma mulher desconhecida.
Marcela.
Mavie fechou os olhos, irritada consigo mesma.
Era ridículo. Ela nem conhecia aquela mulher. Não sabia nada sobre ela — de onde vinha, quantos anos tinha, se era casada, se estava interessada em alguém, se aquele sorriso significava alguma coisa ou era apenas educação profissional bem treinada.
Nada.
Ainda assim, conseguia lembrar perfeitamente da cor de seus olhos.
Azuis. Intensos. Do tipo que pareciam guardar luz própria mesmo na escuridão.
Mavie virou-se para o outro lado da cama. Alex dormia tranquilamente, o rosto relaxado, em paz, do jeito que só quem confia completamente em alguém consegue dormir. Ela olhou para ele por alguns segundos, um aperto estranho no peito que não conseguiu nomear.
Depois fechou os olhos novamente.
Precisava dormir. No dia seguinte teria uma reunião. Depois, um passeio. E, provavelmente, nunca mais veria aquela funcionária além de um cumprimento educado de despedida, no fim daquela semana que já parecia, de algum jeito inexplicável, mais curta do que deveria.
Era apenas uma mulher da recepção. Uma desconhecida. Não significava absolutamente nada.
Foi isso que Mavie repetiu para si mesma, como uma sentença que precisava ser repetida várias vezes para começar a soar verdadeira.
Mas, quando finalmente adormeceu, o último pensamento que teve não foi sobre Dublin.
Nem sobre a Smith Tecnologias.
Nem sobre Alex.
Foi sobre olhos azuis, e sobre a sensação estranha e nova de ter, por um instante, perdido completamente o controle sobre a própria respiração.
E Mavie Smith odiava, mais do que qualquer outra coisa, não ter controle sobre os próprios pensamentos.
Surpresas significavam falta de controle, e ela havia passado a vida inteira construindo uma existência onde quase nada fugia às suas mãos. Cada decisão calculada. Cada variável prevista. Cada imprevisto, quando surgia, rapidamente domado e encaixado de volta no plano original.
Mas quando o avião pousou em São Luís, no Maranhão, ela precisou admitir, ainda que apenas para si mesma, que aquela cidade era completamente diferente de tudo o que conhecia.
Pela janela, observou as luzes espalhadas pela cidade enquanto o piloto iniciava os procedimentos de pouso — um aglomerado disperso e quente, tão distante da geometria organizada de Dublin que por um instante ela teve a sensação estranha de estar chegando a outro planeta, não apenas a outro país.
Ao seu lado, Alex fechou o notebook.
— Finalmente.
Mavie desviou os olhos da janela.
— Finalmente o quê?
Ele sorriu, esticando as pernas o quanto o espaço apertado permitia.
— Brasil.
Ela soltou um suspiro baixo, sem nenhum entusiasmo.
— Não me lembra.
Alex riu.
— Você continua achando que isso foi uma péssima ideia?
— Eu tenho certeza.
— Seu pai ficaria orgulhoso de ouvir isso.
Mavie lançou um olhar de esguelha para ele.
— Meu pai ficaria orgulhoso se eu dissesse que fecharíamos o contrato antes de voltarmos para Dublin.
— E nós vamos.
— Espero que sim.
O avião pousou suavemente, os pneus tocando a pista com um baque leve que percorreu toda a cabine.
Assim que chegaram ao aeroporto, uma equipe previamente contratada os aguardava — Mavie não gostava de perder tempo com detalhes logísticos, e por isso tudo já estava organizado com semanas de antecedência. Carros. Motoristas. Bagagens. Horários. Segurança. Tudo, ou quase tudo, pensado antes mesmo de ela sair de Dublin.
Depois de horas de viagem, Mavie só queria chegar ao resort, tomar um banho e dormir. Mas a viagem ainda estava longe de terminar.
São Luís ficou para trás rapidamente. O carro seguiu pela estrada enquanto o céu começava a escurecer em tons que Mavie jamais vira sobre Dublin — um laranja quase violento se dissolvendo devagar num azul profundo. Ela observava a paisagem através do vidro, incapaz de desviar os olhos por muito tempo.
Era diferente. Muito diferente. O verde parecia mais intenso do que ela estava acostumada a ver, quase agressivo em sua vitalidade, e o ar parecia mais quente mesmo através do ar-condicionado do carro, como se a umidade encontrasse alguma fresta para entrar.
Ela tirou o blazer e o deixou dobrado sobre o banco.
Alex percebeu.
— Está sentindo calor?
— Um pouco.
— Você vai se acostumar.
— Não tenho intenção de ficar tempo suficiente para isso.
— Mavie...
— O quê?
— Você poderia tentar aproveitar.
Ela arqueou uma sobrancelha, sem se virar para ele.
— Estou aqui por trabalho.
— Eu sei.
— Então vamos trabalhar.
Alex balançou a cabeça, divertido, sem nenhuma irritação real na voz.
— Você é impossível.
Mavie voltou a olhar pela janela, deixando as luzes esparsas da estrada desenharem riscos rápidos na retina.
Talvez fosse mesmo impossível.
Mas ser impossível era mais seguro do que ser vulnerável — e vulnerabilidade era um luxo que ela nunca havia se permitido, nem quando ainda era pequena o suficiente para que isso fosse perdoável.
Algumas horas depois, quando finalmente chegaram ao resort, Mavie estava preparada para encontrar apenas um lugar confortável, funcional, o tipo de hospedagem que os melhores resorts do mundo ofereciam sem surpreender ninguém.
Não esperava aquilo.
O carro atravessou os portões principais e entrou por uma estrada cercada de vegetação densa. Mavie imediatamente se endireitou no banco, a postura cansada da viagem cedendo lugar a uma atenção repentina.
As luzes externas iluminavam o caminho de maneira discreta, criando uma atmosfera sofisticada sem jamais violentar a beleza natural do lugar ao redor. Ao longe, estruturas elegantes começaram a surgir entre as árvores, uma silhueta após a outra, como se o próprio resort tivesse crescido ali, em vez de ter sido construído.
O lugar era enorme. E lindo. Muito mais luxuoso do que ela havia imaginado ao ler os relatórios preliminares em Dublin. Os prédios tinham uma arquitetura moderna, mas perfeitamente integrada à paisagem — nada parecia exagerado, nada gritava riqueza da forma vulgar que Mavie conhecia tão bem dos hotéis que frequentava normalmente.
Ali, o luxo estava nos detalhes. Na iluminação cuidadosamente calculada para não ofuscar as estrelas. Nos jardins impecavelmente cuidados. Nas piscinas que refletiam a noite como espelhos líquidos. Nos caminhos de pedra que serpenteavam entre as árvores. No silêncio — sobretudo no silêncio, que parecia fazer parte do projeto tanto quanto qualquer parede ou telhado.
Mavie olhou para Alex.
— Você sabia que era assim?
Ele sorriu.
— Mais ou menos.
— Isso não é "mais ou menos".
Alex olhou pela janela, a expressão suave.
— Eu disse que você iria gostar.
— Eu não disse que gostei.
— Seu rosto está dizendo.
Mavie voltou a olhar para frente, o queixo erguido.
— Meu rosto não diz nada.
— Conheço você há trinta anos.
— Então deveria saber que meu rosto não diz nada.
Alex riu, um som baixo e genuíno.
O carro parou diante da entrada principal. Um funcionário abriu a porta com um gesto cortês, e Mavie saiu primeiro, o ar quente e úmido tocando sua pele imediatamente, tão diferente do frio seco de Dublin que por um instante ela sentiu quase uma vertigem.
Ergueu os olhos.
O céu estava completamente escuro, mas de um jeito diferente do que ela conhecia — mais profundo, mais denso, sem a poluição luminosa que sempre lavava o céu noturno da cidade a um cinza baço. E, pela primeira vez naquela viagem, Mavie não pensou em contratos. Não pensou em reuniões. Não pensou em Dublin.
Pensou apenas na beleza daquele lugar.
Havia ali uma tranquilidade que não existia na cidade onde vivia — o som distante da natureza substituindo buzinas, telefones, o zumbido constante do trânsito que ela nem percebia mais como ruído.
— Impressionante — Alex comentou, ao lado dela.
Mavie não respondeu.
Porque estava olhando para o céu, e as estrelas pareciam muito mais próximas do que jamais estiveram.
A recepção era ainda mais bonita por dentro. Grandes portas de vidro permitiam que a luz do ambiente se espalhasse suavemente pelo jardim externo, borrando a fronteira entre dentro e fora. O espaço era amplo, elegante e sofisticado — sofás claros, plantas naturais, madeira escura, pedra bruta e enormes janelas que permitiam observar parte da paisagem mesmo durante a noite.
Mavie passou os olhos pelo ambiente, avaliando cada detalhe com o mesmo olhar crítico que aplicava a qualquer investimento.
— Isso definitivamente não parece um resort comum.
Alex colocou as mãos nos bolsos, satisfeito.
— Não é.
Um funcionário se aproximou para recebê-los.
— Boa noite. Sejam muito bem-vindos.
— Boa noite — Alex respondeu.
Mavie apenas assentiu, ainda absorvendo o ambiente ao redor.
Enquanto os funcionários cuidavam das malas e dos procedimentos de entrada, ela observava tudo com atenção quase clínica. Não havia excesso de funcionários correndo de um lado para o outro, nenhum daquele caos disfarçado de eficiência que ela via tantas vezes em hotéis igualmente caros. Não havia barulho. Tudo parecia funcionar perfeitamente, silenciosamente, como uma engrenagem bem lubrificada.
Ela gostava disso.
— Senhor Carter?
Alex olhou para o funcionário.
— Sim.
— A hospedagem de vocês está confirmada. A equipe já foi informada sobre a reunião de amanhã.
Mavie finalmente voltou a atenção para eles.
— Amanhã?
— Sim, senhora. O senhor Monteiro confirmou pessoalmente.
Alex respondeu:
— Perfeito.
Mavie olhou para o relógio. Quase dez da noite.
— Então amanhã começamos cedo.
Alex sorriu, sacudindo a cabeça.
— Você acabou de chegar ao Brasil e já está pensando em trabalho.
— É para isso que estamos aqui.
Ele não respondeu. Talvez porque soubesse, depois de tantos anos, que discutir com ela não adiantaria nada.
Depois de deixarem as malas nos quartos, Mavie tomou um banho rápido, deixando a água lavar o cansaço acumulado de horas de voo. Vestiu uma roupa confortável e saiu novamente. Não conseguia dormir — havia alguma coisa naquele lugar que despertava nela uma curiosidade que já não sentia havia muito tempo.
Encontrou Alex no corredor.
— Ainda acordado?
— Eu ia perguntar a mesma coisa.
— Quero conhecer o resort.
Ele sorriu, surpreso.
— Agora?
— Agora.
— Está quase onze horas.
— E?
— Nada.
Alex pegou o celular, guardando-o no bolso.
— Vamos.
Eles caminharam pelo resort em silêncio companheiro. As luzes eram baixas e elegantes, algumas áreas já fechadas para a noite, outras ainda funcionando discretamente. Dublin nunca ficava realmente silenciosa — sempre havia carros, pessoas, telefones, movimento constante, mesmo de madrugada. Ali não. E, estranhamente, Mavie não odiava aquilo.
Passou por uma piscina iluminada e parou, atraída pelo reflexo dourado da água. Tudo parecia cuidadosamente planejado, mas ao mesmo tempo havia algo profundamente natural naquilo, como se o design tivesse apenas emoldurado o que já existia, sem tentar sobrepor-se a ele.
Ela respirou fundo.
— É bonito.
Alex olhou para ela, um leve espanto no rosto.
— Você admitiu.
Mavie continuou caminhando, escondendo o princípio de sorriso.
— Não se acostume.
Ele riu.
Mais adiante, encontraram uma área externa de onde era possível observar parte da paisagem que se estendia além dos limites do resort. E foi ali que Mavie percebeu, pela primeira vez, os Lençóis Maranhenses.
Mesmo à noite, a paisagem tinha uma beleza difícil de explicar. As dunas pareciam sombras prateadas sob a luz da lua, ondulando suavemente até onde a vista alcançava, como se o deserto e o mar tivessem decidido, em algum momento distante, se misturar. O vento movimentava a areia lentamente, um sussurro quase imperceptível.
Mavie ficou em silêncio. Pela primeira vez naquele dia inteiro, não havia nenhuma necessidade de preencher aquele silêncio com palavras, com planos, com a próxima tarefa da lista.
Ela apenas observou.
Alex ficou ao lado dela, as mãos ainda nos bolsos.
— Bonito, não é?
Mavie demorou alguns segundos para responder.
— É.
— Você parece surpresa.
— Eu não sabia que seria assim.
— A maioria das pessoas não sabe.
Ela continuou olhando, incapaz de desviar os olhos. Era estranho. Havia viajado pelo mundo inteiro — conhecia hotéis cinco estrelas, restaurantes exclusivos, cidades famosas, lugares que apareciam nas capas de revistas de arquitetura e turismo de luxo. Mas aquela paisagem simples, sem nenhum arranha-céu, sem nenhuma marca de grife, conseguia prender sua atenção de um jeito que nenhum prédio jamais conseguira.
— Amanhã quero conhecer melhor — ela disse, quase sem perceber que havia falado em voz alta.
Alex sorriu.
— Achei que você só quisesse trabalhar.
Mavie lançou um olhar para ele.
— Quero trabalhar.
— Claro.
— E conhecer o lugar.
— Claro.
— Não faça essa cara.
— Que cara?
— Essa cara de quem acha que está descobrindo alguma coisa sobre mim.
Alex sorriu, os olhos brilhando de leve na escuridão.
— Talvez eu esteja.
Mavie revirou os olhos.
— Boa noite, Alex.
— Boa noite, Mavie.
Ela começou a caminhar em direção ao prédio principal. Mas, antes de entrar, olhou uma última vez para as dunas, prateadas e silenciosas sob a lua.
Não sabia explicar por quê. Só sabia que aquela paisagem ficaria em sua cabeça por mais tempo do que ela gostaria de admitir.
Na manhã seguinte, Mavie acordou cedo. Como sempre. Às seis da manhã, seu relógio biológico não se importava com fusos horários nem com a diferença de quatro horas entre Dublin e São Luís.
Depois de uma rápida rotina de exercícios no pequeno espaço de treino do quarto, tomou café e se preparou para a reunião, o cabelo preso, a postura já reajustada ao modo profissional que ela vestia com tanta facilidade quanto qualquer roupa.
Pouco depois das oito, ela e Alex encontraram os donos do resort.
Eduardo Monteiro os recebeu pessoalmente — um homem de pouco mais de cinquenta anos, elegante, simpático e seguro, com o tipo de aperto de mão que revelava décadas de negociações bem-sucedidas. Ao lado dele estava Carolina, sua esposa, com um sorriso caloroso que contrastava com a formalidade que Mavie esperava.
— Mavie Smith — Eduardo disse, apertando sua mão com firmeza. — Finalmente nos conhecemos pessoalmente.
— Senhor Monteiro.
— Pode me chamar de Eduardo.
Mavie assentiu, avaliando-o rapidamente, como fazia com todos os parceiros de negócio.
Carolina sorriu.
— E você deve ser Alex.
— Sim.
— É um prazer finalmente conhecê-lo.
Depois das apresentações, seguiram para uma sala reservada, e a reunião começou. Contratos. Valores. Tecnologia. Investimentos. Expansão. Mavie estava completamente em seu elemento — era ali, no mundo dos números, das estratégias e das cláusulas bem redigidas, que ela sempre se sentia mais segura, mais ela mesma, do jeito que nunca se permitia ser em nenhum outro contexto.
Depois de algumas horas de negociação produtiva, Eduardo decidiu apresentar o restante do resort. Mavie conheceu os restaurantes, as áreas de lazer, os espaços destinados aos hóspedes e até algumas áreas administrativas, tudo impecável, tudo funcionando com a mesma precisão silenciosa que havia notado na noite anterior.
— Como vocês conseguem manter tudo isso tão organizado? — Alex perguntou, genuinamente curioso.
Eduardo sorriu, como se a resposta fosse óbvia.
— Pessoas.
Mavie olhou para ele, sem entender completamente.
— Pessoas?
— O resort pode ser lindo, mas sem uma boa equipe não significa absolutamente nada.
A frase ficou ecoando na cabeça dela por mais tempo do que gostaria. Não sabia se concordava — talvez porque, no mundo dela, eficiência sempre viesse antes de qualquer outra coisa, número antes de nome, resultado antes de rosto.
Eduardo continuou, caminhando à frente deles pelos corredores:
— Temos funcionários que estão conosco há muitos anos. Alguns praticamente cresceram aqui, dentro do resort.
Mavie observou alguns deles trabalhando enquanto passavam. Todos pareciam conhecer suas funções perfeitamente, mas havia algo diferente ali, algo que ela não via com frequência nos escritórios impecáveis da Smith Tecnologias. Eles conversavam. Riam baixinho entre uma tarefa e outra. Cumprimentavam-se com um afeto que parecia genuíno, não performado para impressionar os visitantes.
Pareciam realmente gostar de estar ali.
Mavie não estava acostumada com aquilo.
No início da tarde, Carolina apresentou algumas pessoas da equipe, mencionando nomes que Mavie mal registrava, absorta como estava em revisar mentalmente os pontos ainda pendentes do contrato. Até que Carolina disse um nome específico.
— Marcela.
Mavie continuou olhando para um documento em suas mãos, sem prestar muita atenção.
— Marcela é uma das nossas melhores funcionárias — Carolina explicou, com um orgulho visível na voz. — Ela conhece praticamente tudo por aqui.
— Ela trabalha na administração? — Alex perguntou.
— Na área de atendimento e turismo. Estuda Turismo também, na faculdade da cidade.
Mavie levantou os olhos por um instante, um gesto quase automático.
— Ela está aqui há quanto tempo?
— Alguns anos.
Eduardo sorriu, um brilho quase paternal no olhar.
— Você vai conhecê-la ainda hoje, imagino.
Mavie apenas assentiu, já baixando os olhos de volta para o documento.
Naquele momento, não deu importância nenhuma ao nome.
Marcela.
Era apenas mais uma funcionária. Mais uma pessoa que trabalhava naquele lugar, entre tantas outras. Nada além disso — ou foi o que ela pensou, sem saber que aquele nome guardaria, em poucas horas, um peso completamente diferente.
No fim da tarde, Mavie voltou para o quarto. Precisava responder alguns e-mails, tinha uma videoconferência marcada com Dublin e ainda precisava revisar uma proposta antes do fim do dia. Mas, quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu de um laranja quase líquido, ela fechou o notebook sem terminar.
Pela primeira vez em muito tempo, decidiu simplesmente sair.
Caminhou até uma das áreas externas, o céu em tons de laranja, rosa e dourado se espalhando acima dela como uma pintura ainda úmida. Mavie ficou parada, observando. Não pegou o celular. Não tirou fotos. Não fez absolutamente nada além de olhar.
Talvez o Brasil não fosse tão ruim, pensou, sem imaginar o quanto aquela frase estava prestes a se tornar ainda mais verdadeira do que ela poderia supor.
Depois de responder aos e-mails mais urgentes e participar da videoconferência com Dublin — uma ligação tensa sobre um fornecedor que havia atrasado uma entrega, resolvida com a frieza cirúrgica de sempre —, Mavie finalmente fechou o notebook.
Alex estava sentado no sofá da suíte, o celular nas mãos, a luz azulada da tela iluminando de leve seu rosto na penumbra do quarto. A acomodação era ampla e sofisticada: uma enorme cama ocupava o centro do ambiente, enquanto portas de vidro davam acesso a uma varanda privativa com vista para parte do resort, as luzes baixas do jardim tremeluzindo lá fora.
Mavie olhou para ele.
— Amanhã temos algum horário definido?
Alex ergueu os olhos do celular.
— Para quê?
— Para conhecer as dunas.
— Não.
Mavie cruzou os braços, uma pontada de impaciência atravessando o cansaço do dia.
— Como não?
— Ainda não escolhemos nenhum passeio.
Ela soltou um suspiro.
— Então vamos até a recepção.
Alex guardou o celular no bolso, olhando para ela com uma sobrancelha erguida.
— Agora?
— Alex.
Ele sorriu, cedendo, como sempre cedia.
— Está bem.
Os dois deixaram a suíte. O resort estava tranquilo àquela hora da noite — as luzes suaves iluminavam os caminhos externos, enquanto o som da natureza, grilos e algo que parecia o farfalhar distante de folhas, ocupava o silêncio que em Dublin nunca existia de verdade.
Já não era o mesmo estranhamento da primeira noite. Em vez de tentar se acostumar àquele silêncio, Mavie sentia agora que ele abria um pouco mais de espaço dentro do próprio peito — um espaço que ela normalmente mantinha bem fechado.
Quando chegaram à recepção, Alex se aproximou primeiro do balcão, os passos firmes e casuais de sempre.
— Boa noite.
Mavie caminhava ao lado dele.
Então parou.
Não de maneira perceptível — apenas diminuiu o passo por uma fração de segundo, quase nada, o tipo de hesitação que só ela mesma poderia notar em si.
A mulher atrás do balcão levantou os olhos.
E Mavie esqueceu completamente o que Alex acabava de dizer.
Foi rápido, e ao mesmo tempo pareceu se estender por um tempo impossível de medir. Ela tinha cabelos castanhos longos, soltos sobre os ombros, com aquele brilho saudável de quem passava os dias sob sol de verdade, não sob a luz artificial de um escritório. Pele morena, tocada por um bronzeado que parecia fazer parte dela, não um acessório temporário de férias. Era alta — quase da altura de Mavie, o que já era incomum — e havia nos ombros e nos braços a marca discreta de quem se movia com o corpo, não apenas com a mente.
Mas foram os olhos que prenderam Mavie por completo, que a fizeram esquecer, por um instante inteiro, onde estava e por que havia ido até ali.
Azuis. De um azul intenso, quase impossível, do tipo que Mavie jamais esperaria encontrar num rosto tão marcadamente brasileiro, tão distante de qualquer coisa que ela conhecia. Um azul que parecia guardar luz própria, mesmo sob a iluminação amena da recepção.
Por um segundo longo demais — longo o suficiente para que o coração de Mavie desse um solavanco que ela recusou-se a nomear —, ela apenas olhou.
— Boa noite — Marcela disse, sorrindo, um sorriso fácil, sem nenhum peso, sem nenhuma das camadas que Mavie estava acostumada a decifrar em cada gesto alheio. — Posso ajudar?
Alex respondeu imediatamente, sem perceber absolutamente nada:
— Sim. Gostaríamos de algumas informações sobre os passeios para amanhã.
Marcela voltou a atenção para ele, e Mavie sentiu, de um jeito completamente irracional, um lampejo de contrariedade por aqueles olhos azuis terem se desviado dela tão depressa.
— Claro. Vocês têm alguma preferência?
— Gostaríamos de conhecer as dunas.
Ela sorriu, um sorriso que parecia genuíno demais para ser apenas cortesia profissional.
— Então eu recomendo o passeio da tarde.
Mavie continuava em silêncio, um silêncio que já não era mais apenas discrição — era quase um esforço, uma tentativa deliberada de recompor o controle que havia escorregado entre os dedos sem aviso nenhum.
Marcela explicou, os gestos leves enquanto falava:
— O passeio começa no meio da tarde. Vocês conseguem conhecer as dunas e algumas lagoas e, no final, assistir ao pôr do sol.
Alex pareceu interessado, inclinando-se um pouco para frente.
— O pôr do sol é bonito?
Marcela sorriu, e dessa vez havia algo quase travesso no jeito como respondeu, como se soubesse de um segredo que só ela conhecia.
— É uma das coisas mais bonitas que vocês vão ver aqui.
Mavie desviou os olhos por um segundo, fingindo interesse em um folheto qualquer sobre o balcão, precisando desesperadamente de um lugar para pousar os olhos que não fosse aquele rosto.
Mas quando voltou a olhar, Marcela já estava olhando para ela.
Diretamente.
Sem pressa.
Os olhos azuis encontraram os verdes, e dessa vez não houve nenhum jeito de fingir que aquilo era coincidência. O mundo não parou — nada dramático, nada de cinema aconteceu ao redor delas, a recepção continuou exatamente como estava, o som baixo de um ventilador de teto, o cheiro leve de alguma flor que Mavie não sabia identificar. Mas alguma coisa dentro dela, alguma engrenagem interna que funcionava havia vinte e nove anos com uma precisão implacável, pareceu perder o ritmo por completo.
Foi como se o ar tivesse ficado, por um instante, mais difícil de respirar.
Mavie sentiu o próprio pulso na garganta, um detalhe absurdo, ridículo, que ela nunca antes havia percebido em si mesma diante de um estranho.
Marcela sorriu novamente — mais devagar, dessa vez, como se tivesse todo o tempo do mundo.
— A senhora gostaria?
Mavie demorou um segundo a mais do que deveria para processar a pergunta, a mente correndo atrás das palavras que normalmente vinham fáceis, automáticas, prontas.
— Eu...
Ela limpou a garganta, um gesto pequeno que odiou ter feito na frente de alguém.
— S-sim.
A gagueira durou menos de um segundo, mas foi suficiente para que Mavie sentisse uma onda de calor subir pelo pescoço, algo que não tinha absolutamente nada a ver com o clima tropical do Maranhão.
Marcela esperou educadamente, sem nenhuma pressa, os olhos ainda fixos nela com uma atenção que parecia curiosa, quase divertida, como se tivesse percebido exatamente o efeito que causara e decidido, com uma delicadeza quase cruel, não desviar o olhar primeiro.
Mavie sentiu o rosto esquentar levemente.
Aquilo era absurdo.
Ela era Mavie Smith. Presidia salas de reunião cheias de homens duas vezes mais velhos sem que a voz tremesse. Fechava contratos bilionários sem pestanejar. E ali estava ela, gaguejando diante de uma recepcionista de resort por causa de um par de olhos azuis.
— Sim — repetiu, dessa vez com a voz mais firme, quase normal. — Parece interessante.
Marcela sorriu, um sorriso lento que chegou primeiro aos olhos antes de alcançar os lábios.
— Tenho certeza de que vão gostar.
Alex continuava observando algumas informações expostas no balcão, folheando um panfleto sobre passeios de barco, completamente alheio a tudo o que acabara de acontecer entre as duas mulheres à sua frente. Não viu o breve silêncio que se estendera por segundos demais. Não percebeu o olhar de Mavie, nem a hesitação minúscula em sua voz, nem o modo como ela parecia, pela primeira vez em muito tempo, ligeiramente fora de si mesma.
Para ele, era apenas mais uma conversa comum, mais um detalhe logístico resolvido antes de dormir.
Marcela pegou uma folha e começou a anotar, a caligrafia rápida e inclinada.
— O passeio sai às duas e meia da tarde. Recomendo que estejam aqui na recepção por volta das duas.
— Perfeito — Alex respondeu.
— Vocês precisam levar água, protetor solar e roupas confortáveis. E, se quiserem entrar nas lagoas, roupa de banho.
Alex assentiu.
— Certo.
Marcela entregou a folha para ele, mas foi para Mavie que dirigiu o olhar por um instante a mais, um instante quase imperceptível, exceto para quem estivesse prestando atenção o suficiente para senti-lo na pele.
— Ah, e uma dica.
Alex sorriu.
— Qual?
— Não fiquem olhando o celular o tempo todo.
— Por quê?
Marcela olhou rapidamente para Mavie, um olhar breve, quase cúmplice, como se soubesse exatamente para quem aquela frase realmente se destinava.
— Porque vale a pena ver tudo com os próprios olhos.
Mavie permaneceu imóvel. Por algum motivo, aquela frase simples pareceu carregar um peso muito maior do que deveria, e ficou ecoando em sua cabeça muito depois de terem saído dali.
Alex agradeceu, guardando a folha no bolso.
— Muito obrigado.
— Disponha.
Mavie finalmente conseguiu falar, a voz quase recuperada de todo o equilíbrio de sempre.
— Obrigada.
Marcela voltou os olhos para ela — e, pela terceira vez naquela conversa que não deveria ter durado mais do que dois minutos, Mavie sentiu o mesmo solavanco no peito.
— Por nada.
Aquela troca durou apenas alguns segundos. Mas Mavie demorou para desviar o olhar, e teve a nítida sensação, ao finalmente conseguir fazê-lo, de estar deixando alguma coisa importante para trás.
— Boa noite — Marcela disse, a voz suave.
Alex respondeu:
— Boa noite.
Mavie apenas assentiu, incapaz, naquele instante, de confiar completamente na própria voz.
Os dois começaram a caminhar pelo corredor de volta à suíte. Alex passou o braço ao redor da cintura de Mavie naturalmente, um gesto tão repetido ao longo dos anos que já havia se tornado quase invisível.
Ela não afastou. Nunca afastava. Aquele era o relacionamento deles — natural, conhecido, seguro, como um par de sapatos usado tantas vezes que já não machucava em lugar nenhum.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, Mavie sentiu aquele braço em volta dela como um peso levemente estranho, fora de lugar, como uma roupa que de repente já não servia tão bem quanto antes.
Quando chegaram à suíte, Alex fechou a porta atrás dos dois.
— Acho que você vai gostar do passeio.
Mavie deixou a bolsa sobre uma mesa, as mãos ainda um pouco trêmulas de um jeito que ela esperava que não fosse visível.
— Talvez.
— Marcela parecia conhecer bastante o lugar.
Mavie olhou para ele, o nome atravessando-a como uma corrente elétrica pequena.
— Marcela?
— A funcionária da recepção.
Ela tentou parecer indiferente, ajeitando um cacho de cabelo que não precisava de ajuste nenhum.
— Ah.
Alex caminhou até o minibar, servindo-se de um copo de água.
— Ela explicou bem.
— Sim.
— Você está estranha.
Mavie rapidamente se virou para ele.
— Não estou.
— Está cansada, então.
— Sim — ela agarrou-se à desculpa com um alívio que não soube explicar. — Estou cansada.
Alex sorriu, sem desconfiar de nada.
— Eu sabia.
Ele se aproximou e beijou sua testa, o gesto tão familiar quanto sempre.
— Vamos dormir. Amanhã teremos outro dia inteiro.
Mavie assentiu.
— Boa noite.
— Boa noite, Mavie.
Mais tarde, Alex adormeceu ao lado dela, a respiração se tornando lenta e regular em poucos minutos, como tantas outras noites ao longo de tantos anos.
Mavie, porém, demorou para dormir. Ficou olhando para o teto, o quarto banhado pela luz azulada que entrava fraca pelas cortinas semiabertas. Tentou pensar no trabalho. Na reunião do dia seguinte. Nos contratos ainda pendentes de revisão. No passeio marcado para a tarde.
Mas, sem querer, sua mente voltava, repetidas vezes, para a recepção.
Para uma mulher desconhecida.
Marcela.
Mavie fechou os olhos, irritada consigo mesma.
Era ridículo. Ela nem conhecia aquela mulher. Não sabia nada sobre ela — de onde vinha, quantos anos tinha, se era casada, se estava interessada em alguém, se aquele sorriso significava alguma coisa ou era apenas educação profissional bem treinada.
Nada.
Ainda assim, conseguia lembrar perfeitamente da cor de seus olhos.
Azuis. Intensos. Do tipo que pareciam guardar luz própria mesmo na escuridão.
Mavie virou-se para o outro lado da cama. Alex dormia tranquilamente, o rosto relaxado, em paz, do jeito que só quem confia completamente em alguém consegue dormir. Ela olhou para ele por alguns segundos, um aperto estranho no peito que não conseguiu nomear.
Depois fechou os olhos novamente.
Precisava dormir. No dia seguinte teria uma reunião. Depois, um passeio. E, provavelmente, nunca mais veria aquela funcionária além de um cumprimento educado de despedida, no fim daquela semana que já parecia, de algum jeito inexplicável, mais curta do que deveria.
Era apenas uma mulher da recepção. Uma desconhecida. Não significava absolutamente nada.
Foi isso que Mavie repetiu para si mesma, como uma sentença que precisava ser repetida várias vezes para começar a soar verdadeira.
Mas, quando finalmente adormeceu, o último pensamento que teve não foi sobre Dublin.
Nem sobre a Smith Tecnologias.
Nem sobre Alex.
Foi sobre olhos azuis, e sobre a sensação estranha e nova de ter, por um instante, perdido completamente o controle sobre a própria respiração.
E Mavie Smith odiava, mais do que qualquer outra coisa, não ter controle sobre os próprios pensamentos.
Fim do capítulo

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