Dublin, Irlanda.
Mavie Smith acordava todos os dias antes do despertador. Não porque gostasse de acordar cedo, mas porque simplesmente não tinha tempo a perder — nem mesmo os poucos minutos que separavam o sono do primeiro alarme.
Às seis da manhã, o céu de Dublin ainda estava coberto por nuvens acinzentadas quando ela abriu os olhos, como fazia todos os dias, sem sobressalto, sem hesitação, como se o corpo já soubesse de cor o horário certo de despertar. Permaneceu alguns segundos deitada, olhando para o teto da suíte, ouvindo o silêncio absoluto da cobertura ao seu redor. Era um silêncio que ela havia aprendido a apreciar — o tipo de silêncio que só o dinheiro pode comprar, longe do barulho da cidade, longe de vizinhos, longe de qualquer coisa que não fosse escolhida por ela mesma.
Morava sozinha no último andar de um dos edifícios mais exclusivos de Dublin. Um lugar que custava uma fortuna e que, para Mavie, era simplesmente sua casa — nada mais, nada menos. A cobertura tinha tudo o que uma vida como a dela exigia: uma sala enorme com janelas de vidro do chão ao teto, por onde a cidade se espalhava lá embaixo como um mapa vivo; uma cozinha moderna que ela raramente usava para cozinhar de verdade; um escritório particular onde metade de suas decisões mais importantes eram tomadas às duas da manhã; um closet que ocupava quase metade de um dos quartos, organizado por cor e por estação; uma suíte com banheiro digno de um hotel cinco estrelas; e um terraço de onde era possível observar boa parte da cidade acordando devagar, luz por luz.
Tudo ali havia sido escolhido por ela. Tudo estava exatamente onde deveria estar. E Mavie gostava disso — gostava de controle, gostava de saber onde cada coisa estava, gostava de planejar os dias com antecedência, de prever cada movimento antes que ele acontecesse. Gostava, principalmente, de não depender de ninguém. Depender de alguém era abrir uma fresta, e Mavie havia aprendido cedo demais que frestas eram por onde as coisas mais dolorosas encontravam caminho para entrar.
Levantou-se e caminhou até as janelas, os pés descalços tocando o piso frio. Vestia uma camisola de seda preta, e seus longos cabelos ruivos caíam soltos pelas costas, ainda desalinhados do sono. A luz fraca da manhã, cinzenta e sem pressa, destacava seus olhos verdes-esmeralda quando ela encarou o próprio reflexo no vidro — um hábito quase involuntário, como se precisasse se confirmar todos os dias antes de vestir a versão de si mesma que o mundo esperava ver.
Vinte e nove anos. CEO da Smith Tecnologias. Bilionária. Herdeira de uma das famílias mais poderosas da Irlanda. Noiva de um dos empresários mais influentes do país.
Sua vida parecia perfeita. Era o que todos diziam, sempre com aquele tom de quem enuncia um fato indiscutível, como se a perfeição fosse algo que se pudesse medir em contas bancárias e sobrenomes. Mavie já havia parado de corrigir as pessoas há muito tempo.
Pegou o celular sobre o criado-mudo. Havia diversas mensagens esperando por ela, como sempre. A maioria relacionada ao trabalho — relatórios que precisavam de aprovação, uma reunião remarcada, um contrato que o jurídico queria revisar antes das nove. Duas mensagens eram de sua assistente. Uma, de sua mãe, que provavelmente só queria confirmar o jantar de domingo. E uma, de Alex.
Abriu primeiro a mensagem dele.
Alex: Bom dia. Não esquece que temos jantar hoje.
Mavie digitou, quase sem pensar, os dedos já acostumados com a resposta curta:
Mavie: Eu lembro.
Poucos segundos depois, a resposta chegou, como sempre chegava — rápida, gentil, sem pressa nenhuma de ser mais do que precisava ser.
Alex: Passo para te buscar às oito?
Mavie: Sim.
Ela bloqueou o celular e ficou parada por um instante, olhando para a tela escura como se ali houvesse alguma resposta que as palavras não tinham dado.
Alex. Seu noivo. Seu amigo. Seu companheiro de infância. O homem que a conhecia antes de ela se tornar a mulher que todos conheciam agora — antes dos títulos, antes dos jornais de negócios, antes do sobrenome pesar tanto quanto pesava.
Eles haviam crescido juntos. As famílias Smith e Carter eram próximas havia décadas, unidas por jantares de Natal, por férias de verão na mesma casa de praia, por décadas de negócios que se entrelaçavam como raízes antigas debaixo da terra. Alex nunca fora um estranho — nunca poderia ser. Ele conhecia os silêncios dela. Sabia quando ela estava irritada só pelo jeito como segurava o garfo à mesa. Sabia quando ela precisava ficar sozinha, e nunca insistia em ficar. Sabia quando ela estava trabalhando demais, mesmo quando Mavie jurava que estava tudo bem. E, talvez o pior de tudo — porque isso a expunha de um jeito que nada mais conseguia —, ele sabia que Mavie não era tão fria quanto fingia ser. Só nunca dissera isso em voz alta. Nunca a forçara a admitir.
Alex era sempre educado. Sempre polido. Sempre disponível quando ela precisava e ausente exatamente quando ela precisava de espaço. Nunca levantava a voz. Nunca a pressionava a sentir mais do que sentia. Nunca fazia cobranças desnecessárias, nunca exigia palavras que Mavie não tinha para dar. Era o tipo de homem que qualquer mulher em sã consciência desejaria ter ao lado — estável, leal, presente sem ser sufocante.
E Mavie desejava, com uma sinceridade que a incomodava, poder amá-lo.
Mas não amava. Não daquele jeito. Essa era a verdade que carregava em silêncio havia anos, guardada tão fundo quanto conseguia enterrar qualquer coisa. E quanto mais o tempo passava, quanto mais próxima ficava a data do casamento marcada numa planilha de eventos corporativos disfarçada de celebração, maior crescia a culpa que ela recusava-se a examinar de perto.
Às sete e meia, Mavie deixou a cobertura, impecável como sempre — terno bem cortado, cabelos presos, nada fora do lugar. Seu motorista já a esperava na garagem privativa, parado ao lado do carro com a pontualidade de quem trabalhava para ela havia anos e conhecia cada um de seus hábitos.
— Bom dia, senhorita Smith.
— Bom dia, James.
Ela entrou no carro e, antes mesmo de acomodar-se completamente no banco, já havia aberto o tablet. O trabalho começava sempre ali, entre o cheiro de couro do banco e o motor ainda ligando, antes mesmo de o carro sair da garagem.
Relatórios. Contratos. E-mails. Números que subiam e desciam em gráficos que só ela sabia ler com aquela velocidade. Mavie analisava tudo rapidamente, os olhos correndo pelas telas com a mesma disciplina fria que aplicava a tudo em sua vida. Não gostava de perder tempo — tempo era a única coisa que nem todo o dinheiro do mundo conseguia comprar de volta.
Às oito da manhã, entrou no prédio de vidro e aço da Smith Tecnologias, que se erguia no coração financeiro de Dublin como um símbolo do que sua família havia construído. Os funcionários a cumprimentavam conforme ela passava pelo saguão, uns com sorrisos sinceros, outros com o nervosismo de quem ainda não havia se acostumado à presença dela.
— Bom dia, senhorita Smith.
— Bom dia.
— Bom dia, Mavie.
Ela respondia educadamente a cada um, sem nunca desacelerar o passo. Em poucos minutos, já estava dentro do elevador privativo que levava direto ao último andar, observando o reflexo distorcido de si mesma nas portas de metal polido enquanto os números subiam.
Seu escritório ocupava praticamente toda a cobertura do prédio — moderno, sofisticado, silencioso, com uma vista que a maioria das pessoas jamais teria em toda a vida. Assim que entrou, sua assistente já a esperava com a agenda do dia em mãos, como um ritual repetido centenas de vezes.
— Bom dia.
— Bom dia. O que temos?
— Reunião com o conselho às nove. Reunião com o financeiro às onze. Almoço com investidores ao meio-dia e meia. Videoconferência com Londres às três. Jurídico às cinco.
Mavie analisou a agenda com um único olhar rápido, calculando prioridades quase automaticamente.
— Cancele o almoço.
— São investidores importantes.
— Remarque.
— Para quando?
— Semana que vem.
Sua assistente respirou fundo, já acostumada a esse tipo de resposta.
— Vou tentar.
Mavie assentiu, já se afastando em direção à própria sala.
— E depois das cinco?
— Seu pai pediu que você passasse na sala dele.
Ela parou por um segundo, fechando os olhos brevemente antes de responder.
— Claro.
Seu pai sempre tinha alguma coisa. Sempre.
A manhã passou em um ritmo que só quem vivia daquele jeito conseguiria suportar sem se cansar. Mavie participou da reunião do conselho com a mesma firmeza de sempre, corrigiu uma projeção financeira que o time havia calculado errado, recusou uma proposta que considerava arriscada demais para a empresa e aprovou dois novos contratos depois de uma revisão minuciosa que deixou o departamento jurídico visivelmente aliviado.
Às duas da tarde, ainda estava trabalhando, um sanduíche intocado sobre a mesa. Às quatro, continuava diante da tela, os olhos já um pouco cansados, mas a postura tão ereta quanto pela manhã. Às seis, o celular vibrou com uma mensagem de Alex.
Alex: Ainda no escritório?
Ela respondeu sem tirar os olhos da tela:
Mavie: Sim.
Alex: Você vai jantar comigo ou pretende jantar com os relatórios?
Mavie sorriu discretamente, sozinha naquela sala enorme, um gesto que ninguém além dela veria.
Mavie: Muito engraçado.
Alex: Oito horas. Não esquece.
Mavie: Eu lembro, Alex.
Ela guardou o celular no bolso do blazer e voltou ao trabalho, mas o sorriso demorou um pouco mais para desaparecer do rosto do que ela gostaria de admitir. Alex conseguia fazê-la sorrir — era uma das poucas pessoas no mundo que ainda conseguia, sem esforço, sem cobrança, apenas existindo do jeito que existia. Talvez fosse justamente por isso que ela se sentisse ainda pior quando pensava no que faltava entre eles.
Às sete da noite, Mavie entrou na sala do pai, esperando encontrá-lo sozinho como de costume. Em vez disso, deparou-se com Richard Smith acompanhado de Alex, os dois já sentados, papéis espalhados sobre a mesa de mogno escuro.
Ela parou na porta, surpresa.
— O que ele está fazendo aqui?
Alex sorriu, recostado na cadeira com aquela tranquilidade que parecia nunca abandoná-lo.
— Boa noite para você também.
— Boa noite — ela respondeu, entrando e fechando a porta atrás de si.
Mavie sentou-se na cadeira ao lado dele, cruzando as pernas, os olhos já correndo pela mesa em busca de pistas sobre o motivo daquela reunião não anunciada. Richard empurrou uma pasta em sua direção, o gesto tão calculado quanto tudo o que ele fazia.
— Precisamos conversar sobre uma parceria.
Mavie abriu a pasta.
Carter Hotels & Resorts.
Ela conhecia a empresa muito bem — impossível não conhecer, considerando anos de jantares em que os negócios da família Carter eram discutidos como parte da sobremesa. Era uma das maiores empresas hoteleiras da Irlanda, e nos últimos anos vinha expandindo seus negócios internacionalmente com uma agressividade que impressionava até os concorrentes mais experientes.
Alex se inclinou para frente, os cotovelos apoiados na mesa.
— Estamos negociando uma parceria com um resort brasileiro.
Mavie passou os olhos pelos documentos, franzindo levemente a testa.
— Brasil?
— Maranhão — respondeu Alex, como se aquilo explicasse tudo.
Ela continuou lendo, absorvendo números, projeções, um contrato preliminar já bastante avançado.
— E por que eu estou vendo isso?
— Porque a Smith Tecnologias fará parte do projeto.
Mavie fechou a pasta com um gesto seco.
— Então você pode cuidar disso.
Richard ergueu os olhos, encarando a filha com aquela expressão que ela conhecia bem demais — a expressão de quem já havia decidido algo antes mesmo de entrar na sala.
— Você vai ao Brasil.
Mavie ficou em silêncio por um instante, processando a frase como se esperasse encontrar nela algum espaço para negociação. Então soltou uma pequena risada, sem humor nenhum.
— Não.
— Não foi uma pergunta.
— Pai, minha agenda está lotada.
— Remarque.
— Tenho reuniões importantes.
— Delegue.
— Tenho contratos.
— Sua equipe pode cuidar.
— Tenho uma apresentação para investidores.
Richard a encarou sem piscar, o tom de voz tão calmo quanto sempre, o que só tornava tudo mais irritante.
— Você é a CEO. Justamente por isso precisa estar presente.
Mavie cruzou os braços, a mandíbula tensa.
— Alex pode fazer a negociação sozinho.
— Posso — respondeu Alex, calmamente, sem se alterar.
Richard olhou para ele antes de voltar os olhos para a filha.
— Mas a presença da Mavie é importante para fechar esse tipo de acordo. Os proprietários querem ver comprometimento das duas empresas, não apenas de uma.
Ela voltou a olhar para os documentos, buscando qualquer detalhe que pudesse usar como argumento.
— Quantos dias?
— Uma semana.
Mavie fechou os olhos por um instante, respirando fundo.
— Uma semana?
— Talvez um pouco mais, dependendo de como as negociações avançarem.
— Impossível.
Richard permaneceu firme, absolutamente imóvel atrás da própria mesa.
— Você embarca na sexta-feira.
Mavie levantou os olhos, incrédula.
— Você já decidiu tudo.
— Sim.
— Sem sequer perguntar se eu posso.
— Eu sei que você pode, Mavie. Você sempre pode. É só uma questão de você querer.
Ela soltou o ar lentamente, os dedos apertando a borda da pasta sobre o colo.
— Eu não quero ir.
Richard respondeu sem hesitar, sem nenhuma emoção visível na voz.
— Eu sei.
O silêncio tomou conta da sala por um momento longo demais. Alex observava os dois em silêncio, como sempre fazia quando pai e filha entravam naquele tipo de embate silencioso — nenhum grito, nenhuma discussão aberta, apenas duas vontades de ferro colidindo sem ceder.
Então ele falou, a voz suave, quase gentil:
— Mavie, se você realmente não puder ir, eu posso ir sozinho. Cuido de tudo.
Ela olhou para ele, e por um segundo algo em seu peito se apertou de um jeito que não soube explicar — um aperto seco, quase físico, como se alguém tivesse fechado a mão em torno de alguma coisa frágil demais para ser tocada com tanta delicadeza. Ele não estava tentando convencê-la. Não estava defendendo o pai dela. Não estava fazendo nenhum tipo de pressão. Apenas estava oferecendo uma saída, como sempre fazia, pronto para carregar sozinho um peso que não era só dele, sem nenhuma expectativa de reconhecimento, sem nenhuma cobrança escondida atrás da gentileza.
E aquilo doía mais do que se ele tivesse insistido, mais do que qualquer discussão poderia doer. Doía porque não havia nada ali para revidar, nenhuma injustiça para apontar, nenhum motivo legítimo para a raiva que ela às vezes desejava sentir só para ter algum lugar onde colocar a própria culpa.
Porque Alex era bom. Bom demais. Mavie não tinha nenhuma razão racional, nenhum motivo concreto, para não amá-lo com a intensidade que ele merecia.
E, mesmo assim, não conseguia.
— Não — ela respondeu finalmente, a voz mais baixa do que pretendia. — Eu vou.
Alex assentiu, sem nenhum traço de surpresa ou vitória no rosto.
— Tudo bem.
Richard fechou a pasta sobre a mesa, dando o assunto por encerrado.
— Ótimo.
Mavie se levantou, ajeitando o blazer.
— Quando embarcamos?
Alex respondeu, também se levantando:
— Sexta-feira de manhã.
— Você também vai?
Ele pareceu genuinamente surpreso com a pergunta.
— Claro. Por que não iria?
Mavie franziu a testa.
— Você não tinha dito.
— A parceria é da Carter Hotels. Eu preciso estar lá, Mavie.
Richard completou, já se voltando para outros papéis sobre a mesa, como se aquele assunto já não merecesse mais sua atenção:
— Vocês dois vão representar as empresas juntos. Faz sentido.
Mavie assentiu, ainda processando a ideia de passar uma semana inteira do outro lado do Atlântico.
— Certo.
Alex sorriu, aquele sorriso tranquilo que sempre parecia capaz de suavizar qualquer coisa.
— Vai ser bom.
Ela pegou a bolsa, já caminhando em direção à porta.
— Para você, talvez.
Ele riu baixinho, seguindo atrás dela.
— Talvez para você também.
Mavie não respondeu. Só balançou a cabeça, incapaz de conter um princípio de sorriso que ainda insistia em aparecer quando estava com ele — mesmo irritada, mesmo contrariada, mesmo sabendo que aquela viagem não estava nos seus planos.
Naquela noite, Alex a acompanhou até sua cobertura, como fazia com frequência. Ele conhecia o apartamento tão bem quanto conhecia a própria casa — sabia onde ficava cada interruptor, sabia em qual gaveta encontrava as taças de vinho, sabia até o volume exato que a televisão costumava ficar.
Tirou o paletó e deixou sobre uma das poltronas da sala, afrouxando a gravata com um gesto cansado.
— Você está realmente irritada.
Mavie caminhou até a cozinha, abrindo a geladeira sem realmente procurar nada específico.
— Eu tinha uma agenda organizada para os próximos dois meses.
— Você sempre tem uma agenda organizada.
— Exatamente. E agora está tudo bagunçado.
Alex se aproximou, apoiando-se no balcão da cozinha, observando-a com aquela paciência que nunca parecia se esgotar.
— É apenas uma semana, Mavie.
— Uma semana é muito tempo quando você tem uma empresa inteira dependendo de você.
— Sua equipe é excelente. Você mesma treinou todos eles.
— Não é a mesma coisa.
— Você vai sobreviver.
Ela finalmente fechou a geladeira e olhou para ele, os braços cruzados.
— Você está gostando disso.
— Um pouco, confesso — ele admitiu, sem nenhum pingo de arrependimento na voz.
Mavie arqueou uma sobrancelha, desconfiada.
— Por quê?
— Porque você precisa sair de Dublin de vez em quando, Mavie. Você trabalha demais. Vive dentro deste apartamento, daquele escritório e do carro que liga um ao outro. O mundo é maior do que isso.
Ela cruzou os braços com mais força.
— Eu não preciso de mais nada além disso.
— Precisa.
— E você é especialista em quê, exatamente?
— Em conhecer você — ele respondeu, com uma simplicidade desarmante, os olhos azuis fixos nela sem nenhuma hesitação.
Ela ficou em silêncio por um instante, incapaz de rebater aquilo.
Alex sorriu, dando o assunto por encerrado, e se aproximou dela.
— Vou deixar você descansar. Amanhã ainda temos muito o que resolver antes de sexta.
Ele se inclinou e beijou sua testa, um gesto simples, quase automático depois de tantos anos.
Mavie fechou os olhos por um segundo. Aquele gesto tão pequeno, tão cotidiano, provocou nela uma culpa que odiava sentir — a culpa de quem recebe carinho verdadeiro e não sabe se está sendo justa ao aceitá-lo.
Alex nunca exigia nada. Nunca reclamava de nada. Nunca perguntava por que ela não dizia as palavras que ele, no fundo, merecia ouvir. Talvez porque, no fundo, já soubesse a resposta havia muito tempo, e tivesse decidido que aquilo era suficiente para ele.
Mais tarde, quando ficaram juntos naquela noite, Mavie percebeu novamente a mesma coisa que percebia sempre. Havia atração entre eles, inegável. Havia desejo, familiar e confortável, do tipo que já conhecia cada curva do outro sem precisar de surpresas. Havia carinho, do tipo que só anos de convivência conseguem construir, tijolo sobre tijolo, até formar algo que parecia sólido de longe.
Mas não havia amor. Não daquele jeito que os livros descreviam, que as músicas cantavam, que ela via — ou imaginava ver — nos olhos de outras pessoas apaixonadas, naquele brilho específico que ela nunca conseguira identificar no espelho quando olhava para si mesma ao lado dele.
E ela não sabia se aquilo, algum dia, mudaria. Ou se já havia decidido, muito tempo atrás, que não precisava mudar — que o suficiente já era suficiente, e que exigir mais do que isso seria uma forma de ingratidão que ela não podia se permitir.
Depois, enquanto Alex dormia tranquilo ao seu lado, a respiração pausada e regular, Mavie permaneceu acordada, os olhos abertos no escuro do quarto, o teto alto e indiferente acima dela. Saiu da cama sem fazer barulho e foi até a varanda, envolvendo o corpo num roupão fino contra o frio cortante da madrugada irlandesa.
Dublin brilhava abaixo dela, luzes espalhadas como um mapa de estrelas invertido, cada ponto de luz representando uma vida que ela nunca conheceria, um destino que não era o dela. A cidade parecia pequena daquela altura, quase administrável, do jeito que Mavie gostava que as coisas fossem — reduzida a um tamanho que cabia dentro do seu controle.
Ela abraçou o próprio corpo, o vento frio batendo no rosto, cortando através do tecido fino do roupão até a pele. Pensou em Alex. Pensou no casamento que se aproximava, marcado numa data que já constava até no calendário corporativo da empresa, entre uma reunião de acionistas e o fechamento do trimestre, como se fosse apenas mais um evento a ser gerenciado. Pensou no futuro que já parecia escrito antes mesmo de acontecer, cada capítulo decidido por outras mãos que não as suas, apesar de tudo o que ela julgava controlar.
Ele seria um marido perfeito. Ela sabia disso com uma certeza que doía. Seria fiel. Seria respeitoso. Seria presente, do jeito que sempre fora, em cada pequena coisa que importava.
E talvez fosse justamente isso que tornasse tudo tão injusto.
Alex merecia uma mulher que o amasse de verdade — não alguém que simplesmente aceitasse casar com ele porque era conveniente, porque fazia sentido nas planilhas, porque unia duas famílias poderosas num só sobrenome de peso ainda maior.
Mavie fechou os olhos, deixando o vento levar por um instante o peso daquele pensamento.
O casamento seria perfeito para as famílias. Smith Tecnologias. Carter Hotels. Duas empresas poderosas se tornando uma aliança ainda mais poderosa, inabalável, blindada contra qualquer crise de mercado.
Tudo fazia sentido.
Exceto o coração dela.
E talvez fosse exatamente por isso que Mavie preferisse, havia tanto tempo, simplesmente não pensar nele.
Os dias seguintes foram uma corrida contra o relógio.
Na terça-feira, Mavie reorganizou toda a sua agenda, delegando o que podia, adiando o que não podia ser delegado, revisando cada compromisso com uma minúcia quase obsessiva.
Na quarta-feira, terminou os contratos pendentes que insistia em não deixar para trás, trabalhando até tarde da noite sob a luz fria do escritório vazio.
Na quinta-feira, participou de reuniões que se estenderam além do horário previsto, cada uma delas mais uma peça sendo encaixada no quebra-cabeça que ela precisava resolver antes de sair do país por sete dias inteiros.
Naquela mesma noite, voltou para a cobertura depois das onze, exausta de um jeito que raramente admitia sentir. Sua mala estava aberta sobre a cama havia dois dias, preenchida aos poucos entre uma tarefa e outra.
Ela observou as roupas já separadas sobre o edredom. Vestidos leves para o calor tropical que a esperava, tão diferentes de tudo que costumava usar em Dublin. Ternos para as reuniões formais. Sapatos organizados por ocasião. Itens pessoais dispostos com a mesma precisão que aplicava a tudo em sua vida.
Tudo organizado. Tudo planejado. Como sempre.
O celular vibrou sobre o criado-mudo. Uma mensagem de Alex.
Alex: Amanhã cedo.
Mavie respondeu, sentando-se na beira da cama:
Mavie: Eu sei.
Alex: Seu voo é às oito.
Mavie: Eu sei, Alex.
Alex: Só conferindo.
Ela sorriu, sozinha no quarto, o cansaço da semana pesando nos ombros. Mesmo longe, mesmo depois de uma semana inteira de trabalho intenso, ele ainda fazia aquilo. Cuidava dela. Sempre, de um jeito silencioso e constante que ela só percebia o valor quando parava para pensar a respeito — o que raramente fazia.
Na manhã seguinte, Mavie acordou às cinco, antes mesmo do despertador que havia programado, como se o corpo já soubesse que aquele não seria um dia comum.
Tomou um banho demorado, deixando a água quente relaxar os músculos tensos das últimas noites mal dormidas. Vestiu uma calça elegante e uma blusa clara, roupas confortáveis o suficiente para um voo longo, mas ainda impecáveis, do jeito que ela nunca permitia que fossem diferentes. Prendeu os cabelos ruivos num coque baixo. Pegou a bolsa, checou o passaporte pela terceira vez.
Antes de sair, parou no meio da sala e olhou ao redor, para a cobertura silenciosa que a esperaria vazia por uma semana inteira.
Aquele lugar era seu. Silencioso. Luxuoso. Perfeito, do jeito que ela sempre fizera questão de que fosse.
Mas, de repente, por uma fração de segundo que ela não soube explicar, aquele silêncio pareceu ainda mais vazio do que de costume.
Mavie afastou o pensamento com a mesma facilidade com que afastava qualquer coisa que não servisse a um propósito prático. Pegou o passaporte, trancou a porta e desceu.
No estacionamento, Alex já a esperava, encostado no carro com um café em cada mão, um sorriso tranquilo no rosto apesar do horário absurdo.
— Bom dia.
— Bom dia — ela respondeu, aceitando o café que ele estendia.
Ele pegou uma das malas, guardando no porta-malas com cuidado.
— Dormiu?
— Pouco.
— Eu sabia.
— Você sempre sabe de tudo?
— Sobre você? Quase tudo — ele respondeu, abrindo a porta do carona para ela com aquele gesto de sempre, tão automático que já nem parecia mais gentileza, apenas rotina.
Ela o encarou por um segundo antes de entrar no carro. Alex sorriu, contornando o veículo até o banco do motorista.
— Vamos?
Mavie assentiu, acomodando-se no banco e segurando o café entre as mãos como se aquele calor fosse a única âncora antes de uma semana de incertezas.
Os dois entraram no carro e seguiram pelas ruas ainda vazias de Dublin, o amanhecer pintando o céu de tons cinza-azulados. No caminho até o aeroporto, Alex falou sobre a reunião no Brasil, sobre os detalhes que havia conseguido levantar nos últimos dias.
— Os proprietários do resort parecem bastante interessados na parceria. Andei trocando alguns e-mails com o Eduardo Monteiro, o dono.
— Espero que sim. Não quero perder uma semana inteira à toa.
— O lugar é muito bonito, pelo que vi nas fotos.
Mavie olhou para ele, curiosa apesar de si mesma.
— Você já foi?
— Não.
— Então como sabe que é bonito?
— Pesquisei bastante nos últimos dias. Lençóis Maranhenses. Dunas brancas, lagoas de água doce que só existem por alguns meses do ano, quando chove o suficiente. Depois elas somem, como se nunca tivessem existido, até a próxima estação.
Ela balançou a cabeça, um princípio de sorriso nos lábios.
— Claro que pesquisou tudo isso.
Alex riu, os olhos fixos na estrada.
— Você também deveria pesquisar um pouco. Ajuda a criar expectativa.
— Eu vou trabalhar, Alex. Não estou indo de férias.
— Eu sei disso.
— Então não preciso conhecer pontos turísticos.
— Talvez você mude de ideia quando chegar lá.
Mavie olhou para ele, incrédula.
— Duvido muito.
Alex não respondeu. Apenas sorriu, como quem guarda um palpite só para si, sem nenhuma pressa de prová-lo certo.
O aeroporto estava movimentado, o burburinho característico das primeiras horas da manhã ecoando pelo saguão amplo. Eles passaram pelos procedimentos de embarque com a rapidez que só passageiros frequentes conseguem ter e seguiram para o portão, onde o avião já os esperava.
Quando Mavie entrou na aeronave, sentou-se perto da janela, como sempre fazia, precisando daquele contato visual com o mundo lá fora mesmo quando não tinha tempo de realmente olhar para ele. Alex ocupou o assento ao lado, ajeitando o próprio cinto antes mesmo que ela terminasse de se acomodar.
Ela abriu o notebook assim que teve permissão, os dedos já correndo pelo teclado.
Ele olhou para a tela, um sorriso resignado no rosto.
— Você vai trabalhar durante o voo inteiro?
— Sim.
— Claro que vai.
Mavie começou a revisar os documentos da parceria com o resort, linha por linha, cláusula por cláusula, absorvida naquele mundo de números e termos contratuais que sempre lhe trazia uma sensação estranha de segurança.
Alex permaneceu em silêncio por alguns minutos, observando a paisagem através da janela ao lado dela. Depois, virou-se novamente em sua direção.
— Está nervosa?
— Não.
— Ansiosa?
— Não.
— Curiosa, ao menos?
— Também não.
Alex sorriu, balançando a cabeça.
— Então você está exatamente como sempre.
Mavie fechou o notebook por um instante, olhando para ele com uma expressão que raramente permitia a si mesma mostrar — algo entre gratidão e cansaço.
— Alex.
— Sim?
Ela demorou alguns segundos para responder, escolhendo as palavras com o mesmo cuidado que aplicava a um contrato importante.
— Obrigada.
Ele pareceu genuinamente surpreso.
— Pelo que?
— Por sempre facilitar as coisas. Por nunca tornar nada mais difícil do que já é.
Ele sorriu, um sorriso simples e sincero.
— Sempre, Mavie. Você sabe disso.
Ela voltou a olhar pela janela, um nó estranho na garganta que preferiu não examinar de perto. O avião começou a se movimentar na pista, ganhando velocidade aos poucos. Pouco depois, deixou o solo, e Dublin foi ficando pequena abaixo deles, as luzes da cidade se transformando em pontos distantes, depois em nada além de nuvens.
Mavie observou a cidade desaparecer, o único lar que conhecia se dissolvendo atrás de uma cortina branca. Não sentia saudade. Não sentia medo. Não sentia nenhuma expectativa em particular.
Era apenas uma viagem de negócios. Era isso que repetia para si mesma, como um mantra silencioso, enquanto o avião ganhava altitude.
Uma semana. Uma parceria. Um resort. Brasil.
Depois voltaria para Dublin. Para sua empresa. Para sua cobertura silenciosa no último andar. Para Alex, e para a vida inteira que já havia planejado com tanta precisão, cada detalhe encaixado como as peças de um contrato bem redigido.
Mavie fechou os olhos, deixando o zumbido constante dos motores embalá-la aos poucos, o corpo cedendo ao cansaço da semana enquanto a mente ainda tentava, por hábito, organizar o que viria depois.
Não sabia — não tinha como saber, e talvez fosse melhor assim — que estava deixando Dublin sem imaginar que, quando voltasse, talvez já não fosse a mesma mulher que havia embarcado. Que em algum lugar adiante, entre dunas que ela ainda nem sabia que existiam, alguma coisa estava prestes a se mover fora do seu controle, sem pedir licença, sem consultar nenhuma agenda.
Porque algumas viagens não mudam o destino.
Mudam a pessoa que você era antes de embarcar.
Mavie Smith acordava todos os dias antes do despertador. Não porque gostasse de acordar cedo, mas porque simplesmente não tinha tempo a perder — nem mesmo os poucos minutos que separavam o sono do primeiro alarme.
Às seis da manhã, o céu de Dublin ainda estava coberto por nuvens acinzentadas quando ela abriu os olhos, como fazia todos os dias, sem sobressalto, sem hesitação, como se o corpo já soubesse de cor o horário certo de despertar. Permaneceu alguns segundos deitada, olhando para o teto da suíte, ouvindo o silêncio absoluto da cobertura ao seu redor. Era um silêncio que ela havia aprendido a apreciar — o tipo de silêncio que só o dinheiro pode comprar, longe do barulho da cidade, longe de vizinhos, longe de qualquer coisa que não fosse escolhida por ela mesma.
Morava sozinha no último andar de um dos edifícios mais exclusivos de Dublin. Um lugar que custava uma fortuna e que, para Mavie, era simplesmente sua casa — nada mais, nada menos. A cobertura tinha tudo o que uma vida como a dela exigia: uma sala enorme com janelas de vidro do chão ao teto, por onde a cidade se espalhava lá embaixo como um mapa vivo; uma cozinha moderna que ela raramente usava para cozinhar de verdade; um escritório particular onde metade de suas decisões mais importantes eram tomadas às duas da manhã; um closet que ocupava quase metade de um dos quartos, organizado por cor e por estação; uma suíte com banheiro digno de um hotel cinco estrelas; e um terraço de onde era possível observar boa parte da cidade acordando devagar, luz por luz.
Tudo ali havia sido escolhido por ela. Tudo estava exatamente onde deveria estar. E Mavie gostava disso — gostava de controle, gostava de saber onde cada coisa estava, gostava de planejar os dias com antecedência, de prever cada movimento antes que ele acontecesse. Gostava, principalmente, de não depender de ninguém. Depender de alguém era abrir uma fresta, e Mavie havia aprendido cedo demais que frestas eram por onde as coisas mais dolorosas encontravam caminho para entrar.
Levantou-se e caminhou até as janelas, os pés descalços tocando o piso frio. Vestia uma camisola de seda preta, e seus longos cabelos ruivos caíam soltos pelas costas, ainda desalinhados do sono. A luz fraca da manhã, cinzenta e sem pressa, destacava seus olhos verdes-esmeralda quando ela encarou o próprio reflexo no vidro — um hábito quase involuntário, como se precisasse se confirmar todos os dias antes de vestir a versão de si mesma que o mundo esperava ver.
Vinte e nove anos. CEO da Smith Tecnologias. Bilionária. Herdeira de uma das famílias mais poderosas da Irlanda. Noiva de um dos empresários mais influentes do país.
Sua vida parecia perfeita. Era o que todos diziam, sempre com aquele tom de quem enuncia um fato indiscutível, como se a perfeição fosse algo que se pudesse medir em contas bancárias e sobrenomes. Mavie já havia parado de corrigir as pessoas há muito tempo.
Pegou o celular sobre o criado-mudo. Havia diversas mensagens esperando por ela, como sempre. A maioria relacionada ao trabalho — relatórios que precisavam de aprovação, uma reunião remarcada, um contrato que o jurídico queria revisar antes das nove. Duas mensagens eram de sua assistente. Uma, de sua mãe, que provavelmente só queria confirmar o jantar de domingo. E uma, de Alex.
Abriu primeiro a mensagem dele.
Alex: Bom dia. Não esquece que temos jantar hoje.
Mavie digitou, quase sem pensar, os dedos já acostumados com a resposta curta:
Mavie: Eu lembro.
Poucos segundos depois, a resposta chegou, como sempre chegava — rápida, gentil, sem pressa nenhuma de ser mais do que precisava ser.
Alex: Passo para te buscar às oito?
Mavie: Sim.
Ela bloqueou o celular e ficou parada por um instante, olhando para a tela escura como se ali houvesse alguma resposta que as palavras não tinham dado.
Alex. Seu noivo. Seu amigo. Seu companheiro de infância. O homem que a conhecia antes de ela se tornar a mulher que todos conheciam agora — antes dos títulos, antes dos jornais de negócios, antes do sobrenome pesar tanto quanto pesava.
Eles haviam crescido juntos. As famílias Smith e Carter eram próximas havia décadas, unidas por jantares de Natal, por férias de verão na mesma casa de praia, por décadas de negócios que se entrelaçavam como raízes antigas debaixo da terra. Alex nunca fora um estranho — nunca poderia ser. Ele conhecia os silêncios dela. Sabia quando ela estava irritada só pelo jeito como segurava o garfo à mesa. Sabia quando ela precisava ficar sozinha, e nunca insistia em ficar. Sabia quando ela estava trabalhando demais, mesmo quando Mavie jurava que estava tudo bem. E, talvez o pior de tudo — porque isso a expunha de um jeito que nada mais conseguia —, ele sabia que Mavie não era tão fria quanto fingia ser. Só nunca dissera isso em voz alta. Nunca a forçara a admitir.
Alex era sempre educado. Sempre polido. Sempre disponível quando ela precisava e ausente exatamente quando ela precisava de espaço. Nunca levantava a voz. Nunca a pressionava a sentir mais do que sentia. Nunca fazia cobranças desnecessárias, nunca exigia palavras que Mavie não tinha para dar. Era o tipo de homem que qualquer mulher em sã consciência desejaria ter ao lado — estável, leal, presente sem ser sufocante.
E Mavie desejava, com uma sinceridade que a incomodava, poder amá-lo.
Mas não amava. Não daquele jeito. Essa era a verdade que carregava em silêncio havia anos, guardada tão fundo quanto conseguia enterrar qualquer coisa. E quanto mais o tempo passava, quanto mais próxima ficava a data do casamento marcada numa planilha de eventos corporativos disfarçada de celebração, maior crescia a culpa que ela recusava-se a examinar de perto.
Às sete e meia, Mavie deixou a cobertura, impecável como sempre — terno bem cortado, cabelos presos, nada fora do lugar. Seu motorista já a esperava na garagem privativa, parado ao lado do carro com a pontualidade de quem trabalhava para ela havia anos e conhecia cada um de seus hábitos.
— Bom dia, senhorita Smith.
— Bom dia, James.
Ela entrou no carro e, antes mesmo de acomodar-se completamente no banco, já havia aberto o tablet. O trabalho começava sempre ali, entre o cheiro de couro do banco e o motor ainda ligando, antes mesmo de o carro sair da garagem.
Relatórios. Contratos. E-mails. Números que subiam e desciam em gráficos que só ela sabia ler com aquela velocidade. Mavie analisava tudo rapidamente, os olhos correndo pelas telas com a mesma disciplina fria que aplicava a tudo em sua vida. Não gostava de perder tempo — tempo era a única coisa que nem todo o dinheiro do mundo conseguia comprar de volta.
Às oito da manhã, entrou no prédio de vidro e aço da Smith Tecnologias, que se erguia no coração financeiro de Dublin como um símbolo do que sua família havia construído. Os funcionários a cumprimentavam conforme ela passava pelo saguão, uns com sorrisos sinceros, outros com o nervosismo de quem ainda não havia se acostumado à presença dela.
— Bom dia, senhorita Smith.
— Bom dia.
— Bom dia, Mavie.
Ela respondia educadamente a cada um, sem nunca desacelerar o passo. Em poucos minutos, já estava dentro do elevador privativo que levava direto ao último andar, observando o reflexo distorcido de si mesma nas portas de metal polido enquanto os números subiam.
Seu escritório ocupava praticamente toda a cobertura do prédio — moderno, sofisticado, silencioso, com uma vista que a maioria das pessoas jamais teria em toda a vida. Assim que entrou, sua assistente já a esperava com a agenda do dia em mãos, como um ritual repetido centenas de vezes.
— Bom dia.
— Bom dia. O que temos?
— Reunião com o conselho às nove. Reunião com o financeiro às onze. Almoço com investidores ao meio-dia e meia. Videoconferência com Londres às três. Jurídico às cinco.
Mavie analisou a agenda com um único olhar rápido, calculando prioridades quase automaticamente.
— Cancele o almoço.
— São investidores importantes.
— Remarque.
— Para quando?
— Semana que vem.
Sua assistente respirou fundo, já acostumada a esse tipo de resposta.
— Vou tentar.
Mavie assentiu, já se afastando em direção à própria sala.
— E depois das cinco?
— Seu pai pediu que você passasse na sala dele.
Ela parou por um segundo, fechando os olhos brevemente antes de responder.
— Claro.
Seu pai sempre tinha alguma coisa. Sempre.
A manhã passou em um ritmo que só quem vivia daquele jeito conseguiria suportar sem se cansar. Mavie participou da reunião do conselho com a mesma firmeza de sempre, corrigiu uma projeção financeira que o time havia calculado errado, recusou uma proposta que considerava arriscada demais para a empresa e aprovou dois novos contratos depois de uma revisão minuciosa que deixou o departamento jurídico visivelmente aliviado.
Às duas da tarde, ainda estava trabalhando, um sanduíche intocado sobre a mesa. Às quatro, continuava diante da tela, os olhos já um pouco cansados, mas a postura tão ereta quanto pela manhã. Às seis, o celular vibrou com uma mensagem de Alex.
Alex: Ainda no escritório?
Ela respondeu sem tirar os olhos da tela:
Mavie: Sim.
Alex: Você vai jantar comigo ou pretende jantar com os relatórios?
Mavie sorriu discretamente, sozinha naquela sala enorme, um gesto que ninguém além dela veria.
Mavie: Muito engraçado.
Alex: Oito horas. Não esquece.
Mavie: Eu lembro, Alex.
Ela guardou o celular no bolso do blazer e voltou ao trabalho, mas o sorriso demorou um pouco mais para desaparecer do rosto do que ela gostaria de admitir. Alex conseguia fazê-la sorrir — era uma das poucas pessoas no mundo que ainda conseguia, sem esforço, sem cobrança, apenas existindo do jeito que existia. Talvez fosse justamente por isso que ela se sentisse ainda pior quando pensava no que faltava entre eles.
Às sete da noite, Mavie entrou na sala do pai, esperando encontrá-lo sozinho como de costume. Em vez disso, deparou-se com Richard Smith acompanhado de Alex, os dois já sentados, papéis espalhados sobre a mesa de mogno escuro.
Ela parou na porta, surpresa.
— O que ele está fazendo aqui?
Alex sorriu, recostado na cadeira com aquela tranquilidade que parecia nunca abandoná-lo.
— Boa noite para você também.
— Boa noite — ela respondeu, entrando e fechando a porta atrás de si.
Mavie sentou-se na cadeira ao lado dele, cruzando as pernas, os olhos já correndo pela mesa em busca de pistas sobre o motivo daquela reunião não anunciada. Richard empurrou uma pasta em sua direção, o gesto tão calculado quanto tudo o que ele fazia.
— Precisamos conversar sobre uma parceria.
Mavie abriu a pasta.
Carter Hotels & Resorts.
Ela conhecia a empresa muito bem — impossível não conhecer, considerando anos de jantares em que os negócios da família Carter eram discutidos como parte da sobremesa. Era uma das maiores empresas hoteleiras da Irlanda, e nos últimos anos vinha expandindo seus negócios internacionalmente com uma agressividade que impressionava até os concorrentes mais experientes.
Alex se inclinou para frente, os cotovelos apoiados na mesa.
— Estamos negociando uma parceria com um resort brasileiro.
Mavie passou os olhos pelos documentos, franzindo levemente a testa.
— Brasil?
— Maranhão — respondeu Alex, como se aquilo explicasse tudo.
Ela continuou lendo, absorvendo números, projeções, um contrato preliminar já bastante avançado.
— E por que eu estou vendo isso?
— Porque a Smith Tecnologias fará parte do projeto.
Mavie fechou a pasta com um gesto seco.
— Então você pode cuidar disso.
Richard ergueu os olhos, encarando a filha com aquela expressão que ela conhecia bem demais — a expressão de quem já havia decidido algo antes mesmo de entrar na sala.
— Você vai ao Brasil.
Mavie ficou em silêncio por um instante, processando a frase como se esperasse encontrar nela algum espaço para negociação. Então soltou uma pequena risada, sem humor nenhum.
— Não.
— Não foi uma pergunta.
— Pai, minha agenda está lotada.
— Remarque.
— Tenho reuniões importantes.
— Delegue.
— Tenho contratos.
— Sua equipe pode cuidar.
— Tenho uma apresentação para investidores.
Richard a encarou sem piscar, o tom de voz tão calmo quanto sempre, o que só tornava tudo mais irritante.
— Você é a CEO. Justamente por isso precisa estar presente.
Mavie cruzou os braços, a mandíbula tensa.
— Alex pode fazer a negociação sozinho.
— Posso — respondeu Alex, calmamente, sem se alterar.
Richard olhou para ele antes de voltar os olhos para a filha.
— Mas a presença da Mavie é importante para fechar esse tipo de acordo. Os proprietários querem ver comprometimento das duas empresas, não apenas de uma.
Ela voltou a olhar para os documentos, buscando qualquer detalhe que pudesse usar como argumento.
— Quantos dias?
— Uma semana.
Mavie fechou os olhos por um instante, respirando fundo.
— Uma semana?
— Talvez um pouco mais, dependendo de como as negociações avançarem.
— Impossível.
Richard permaneceu firme, absolutamente imóvel atrás da própria mesa.
— Você embarca na sexta-feira.
Mavie levantou os olhos, incrédula.
— Você já decidiu tudo.
— Sim.
— Sem sequer perguntar se eu posso.
— Eu sei que você pode, Mavie. Você sempre pode. É só uma questão de você querer.
Ela soltou o ar lentamente, os dedos apertando a borda da pasta sobre o colo.
— Eu não quero ir.
Richard respondeu sem hesitar, sem nenhuma emoção visível na voz.
— Eu sei.
O silêncio tomou conta da sala por um momento longo demais. Alex observava os dois em silêncio, como sempre fazia quando pai e filha entravam naquele tipo de embate silencioso — nenhum grito, nenhuma discussão aberta, apenas duas vontades de ferro colidindo sem ceder.
Então ele falou, a voz suave, quase gentil:
— Mavie, se você realmente não puder ir, eu posso ir sozinho. Cuido de tudo.
Ela olhou para ele, e por um segundo algo em seu peito se apertou de um jeito que não soube explicar — um aperto seco, quase físico, como se alguém tivesse fechado a mão em torno de alguma coisa frágil demais para ser tocada com tanta delicadeza. Ele não estava tentando convencê-la. Não estava defendendo o pai dela. Não estava fazendo nenhum tipo de pressão. Apenas estava oferecendo uma saída, como sempre fazia, pronto para carregar sozinho um peso que não era só dele, sem nenhuma expectativa de reconhecimento, sem nenhuma cobrança escondida atrás da gentileza.
E aquilo doía mais do que se ele tivesse insistido, mais do que qualquer discussão poderia doer. Doía porque não havia nada ali para revidar, nenhuma injustiça para apontar, nenhum motivo legítimo para a raiva que ela às vezes desejava sentir só para ter algum lugar onde colocar a própria culpa.
Porque Alex era bom. Bom demais. Mavie não tinha nenhuma razão racional, nenhum motivo concreto, para não amá-lo com a intensidade que ele merecia.
E, mesmo assim, não conseguia.
— Não — ela respondeu finalmente, a voz mais baixa do que pretendia. — Eu vou.
Alex assentiu, sem nenhum traço de surpresa ou vitória no rosto.
— Tudo bem.
Richard fechou a pasta sobre a mesa, dando o assunto por encerrado.
— Ótimo.
Mavie se levantou, ajeitando o blazer.
— Quando embarcamos?
Alex respondeu, também se levantando:
— Sexta-feira de manhã.
— Você também vai?
Ele pareceu genuinamente surpreso com a pergunta.
— Claro. Por que não iria?
Mavie franziu a testa.
— Você não tinha dito.
— A parceria é da Carter Hotels. Eu preciso estar lá, Mavie.
Richard completou, já se voltando para outros papéis sobre a mesa, como se aquele assunto já não merecesse mais sua atenção:
— Vocês dois vão representar as empresas juntos. Faz sentido.
Mavie assentiu, ainda processando a ideia de passar uma semana inteira do outro lado do Atlântico.
— Certo.
Alex sorriu, aquele sorriso tranquilo que sempre parecia capaz de suavizar qualquer coisa.
— Vai ser bom.
Ela pegou a bolsa, já caminhando em direção à porta.
— Para você, talvez.
Ele riu baixinho, seguindo atrás dela.
— Talvez para você também.
Mavie não respondeu. Só balançou a cabeça, incapaz de conter um princípio de sorriso que ainda insistia em aparecer quando estava com ele — mesmo irritada, mesmo contrariada, mesmo sabendo que aquela viagem não estava nos seus planos.
Naquela noite, Alex a acompanhou até sua cobertura, como fazia com frequência. Ele conhecia o apartamento tão bem quanto conhecia a própria casa — sabia onde ficava cada interruptor, sabia em qual gaveta encontrava as taças de vinho, sabia até o volume exato que a televisão costumava ficar.
Tirou o paletó e deixou sobre uma das poltronas da sala, afrouxando a gravata com um gesto cansado.
— Você está realmente irritada.
Mavie caminhou até a cozinha, abrindo a geladeira sem realmente procurar nada específico.
— Eu tinha uma agenda organizada para os próximos dois meses.
— Você sempre tem uma agenda organizada.
— Exatamente. E agora está tudo bagunçado.
Alex se aproximou, apoiando-se no balcão da cozinha, observando-a com aquela paciência que nunca parecia se esgotar.
— É apenas uma semana, Mavie.
— Uma semana é muito tempo quando você tem uma empresa inteira dependendo de você.
— Sua equipe é excelente. Você mesma treinou todos eles.
— Não é a mesma coisa.
— Você vai sobreviver.
Ela finalmente fechou a geladeira e olhou para ele, os braços cruzados.
— Você está gostando disso.
— Um pouco, confesso — ele admitiu, sem nenhum pingo de arrependimento na voz.
Mavie arqueou uma sobrancelha, desconfiada.
— Por quê?
— Porque você precisa sair de Dublin de vez em quando, Mavie. Você trabalha demais. Vive dentro deste apartamento, daquele escritório e do carro que liga um ao outro. O mundo é maior do que isso.
Ela cruzou os braços com mais força.
— Eu não preciso de mais nada além disso.
— Precisa.
— E você é especialista em quê, exatamente?
— Em conhecer você — ele respondeu, com uma simplicidade desarmante, os olhos azuis fixos nela sem nenhuma hesitação.
Ela ficou em silêncio por um instante, incapaz de rebater aquilo.
Alex sorriu, dando o assunto por encerrado, e se aproximou dela.
— Vou deixar você descansar. Amanhã ainda temos muito o que resolver antes de sexta.
Ele se inclinou e beijou sua testa, um gesto simples, quase automático depois de tantos anos.
Mavie fechou os olhos por um segundo. Aquele gesto tão pequeno, tão cotidiano, provocou nela uma culpa que odiava sentir — a culpa de quem recebe carinho verdadeiro e não sabe se está sendo justa ao aceitá-lo.
Alex nunca exigia nada. Nunca reclamava de nada. Nunca perguntava por que ela não dizia as palavras que ele, no fundo, merecia ouvir. Talvez porque, no fundo, já soubesse a resposta havia muito tempo, e tivesse decidido que aquilo era suficiente para ele.
Mais tarde, quando ficaram juntos naquela noite, Mavie percebeu novamente a mesma coisa que percebia sempre. Havia atração entre eles, inegável. Havia desejo, familiar e confortável, do tipo que já conhecia cada curva do outro sem precisar de surpresas. Havia carinho, do tipo que só anos de convivência conseguem construir, tijolo sobre tijolo, até formar algo que parecia sólido de longe.
Mas não havia amor. Não daquele jeito que os livros descreviam, que as músicas cantavam, que ela via — ou imaginava ver — nos olhos de outras pessoas apaixonadas, naquele brilho específico que ela nunca conseguira identificar no espelho quando olhava para si mesma ao lado dele.
E ela não sabia se aquilo, algum dia, mudaria. Ou se já havia decidido, muito tempo atrás, que não precisava mudar — que o suficiente já era suficiente, e que exigir mais do que isso seria uma forma de ingratidão que ela não podia se permitir.
Depois, enquanto Alex dormia tranquilo ao seu lado, a respiração pausada e regular, Mavie permaneceu acordada, os olhos abertos no escuro do quarto, o teto alto e indiferente acima dela. Saiu da cama sem fazer barulho e foi até a varanda, envolvendo o corpo num roupão fino contra o frio cortante da madrugada irlandesa.
Dublin brilhava abaixo dela, luzes espalhadas como um mapa de estrelas invertido, cada ponto de luz representando uma vida que ela nunca conheceria, um destino que não era o dela. A cidade parecia pequena daquela altura, quase administrável, do jeito que Mavie gostava que as coisas fossem — reduzida a um tamanho que cabia dentro do seu controle.
Ela abraçou o próprio corpo, o vento frio batendo no rosto, cortando através do tecido fino do roupão até a pele. Pensou em Alex. Pensou no casamento que se aproximava, marcado numa data que já constava até no calendário corporativo da empresa, entre uma reunião de acionistas e o fechamento do trimestre, como se fosse apenas mais um evento a ser gerenciado. Pensou no futuro que já parecia escrito antes mesmo de acontecer, cada capítulo decidido por outras mãos que não as suas, apesar de tudo o que ela julgava controlar.
Ele seria um marido perfeito. Ela sabia disso com uma certeza que doía. Seria fiel. Seria respeitoso. Seria presente, do jeito que sempre fora, em cada pequena coisa que importava.
E talvez fosse justamente isso que tornasse tudo tão injusto.
Alex merecia uma mulher que o amasse de verdade — não alguém que simplesmente aceitasse casar com ele porque era conveniente, porque fazia sentido nas planilhas, porque unia duas famílias poderosas num só sobrenome de peso ainda maior.
Mavie fechou os olhos, deixando o vento levar por um instante o peso daquele pensamento.
O casamento seria perfeito para as famílias. Smith Tecnologias. Carter Hotels. Duas empresas poderosas se tornando uma aliança ainda mais poderosa, inabalável, blindada contra qualquer crise de mercado.
Tudo fazia sentido.
Exceto o coração dela.
E talvez fosse exatamente por isso que Mavie preferisse, havia tanto tempo, simplesmente não pensar nele.
Os dias seguintes foram uma corrida contra o relógio.
Na terça-feira, Mavie reorganizou toda a sua agenda, delegando o que podia, adiando o que não podia ser delegado, revisando cada compromisso com uma minúcia quase obsessiva.
Na quarta-feira, terminou os contratos pendentes que insistia em não deixar para trás, trabalhando até tarde da noite sob a luz fria do escritório vazio.
Na quinta-feira, participou de reuniões que se estenderam além do horário previsto, cada uma delas mais uma peça sendo encaixada no quebra-cabeça que ela precisava resolver antes de sair do país por sete dias inteiros.
Naquela mesma noite, voltou para a cobertura depois das onze, exausta de um jeito que raramente admitia sentir. Sua mala estava aberta sobre a cama havia dois dias, preenchida aos poucos entre uma tarefa e outra.
Ela observou as roupas já separadas sobre o edredom. Vestidos leves para o calor tropical que a esperava, tão diferentes de tudo que costumava usar em Dublin. Ternos para as reuniões formais. Sapatos organizados por ocasião. Itens pessoais dispostos com a mesma precisão que aplicava a tudo em sua vida.
Tudo organizado. Tudo planejado. Como sempre.
O celular vibrou sobre o criado-mudo. Uma mensagem de Alex.
Alex: Amanhã cedo.
Mavie respondeu, sentando-se na beira da cama:
Mavie: Eu sei.
Alex: Seu voo é às oito.
Mavie: Eu sei, Alex.
Alex: Só conferindo.
Ela sorriu, sozinha no quarto, o cansaço da semana pesando nos ombros. Mesmo longe, mesmo depois de uma semana inteira de trabalho intenso, ele ainda fazia aquilo. Cuidava dela. Sempre, de um jeito silencioso e constante que ela só percebia o valor quando parava para pensar a respeito — o que raramente fazia.
Na manhã seguinte, Mavie acordou às cinco, antes mesmo do despertador que havia programado, como se o corpo já soubesse que aquele não seria um dia comum.
Tomou um banho demorado, deixando a água quente relaxar os músculos tensos das últimas noites mal dormidas. Vestiu uma calça elegante e uma blusa clara, roupas confortáveis o suficiente para um voo longo, mas ainda impecáveis, do jeito que ela nunca permitia que fossem diferentes. Prendeu os cabelos ruivos num coque baixo. Pegou a bolsa, checou o passaporte pela terceira vez.
Antes de sair, parou no meio da sala e olhou ao redor, para a cobertura silenciosa que a esperaria vazia por uma semana inteira.
Aquele lugar era seu. Silencioso. Luxuoso. Perfeito, do jeito que ela sempre fizera questão de que fosse.
Mas, de repente, por uma fração de segundo que ela não soube explicar, aquele silêncio pareceu ainda mais vazio do que de costume.
Mavie afastou o pensamento com a mesma facilidade com que afastava qualquer coisa que não servisse a um propósito prático. Pegou o passaporte, trancou a porta e desceu.
No estacionamento, Alex já a esperava, encostado no carro com um café em cada mão, um sorriso tranquilo no rosto apesar do horário absurdo.
— Bom dia.
— Bom dia — ela respondeu, aceitando o café que ele estendia.
Ele pegou uma das malas, guardando no porta-malas com cuidado.
— Dormiu?
— Pouco.
— Eu sabia.
— Você sempre sabe de tudo?
— Sobre você? Quase tudo — ele respondeu, abrindo a porta do carona para ela com aquele gesto de sempre, tão automático que já nem parecia mais gentileza, apenas rotina.
Ela o encarou por um segundo antes de entrar no carro. Alex sorriu, contornando o veículo até o banco do motorista.
— Vamos?
Mavie assentiu, acomodando-se no banco e segurando o café entre as mãos como se aquele calor fosse a única âncora antes de uma semana de incertezas.
Os dois entraram no carro e seguiram pelas ruas ainda vazias de Dublin, o amanhecer pintando o céu de tons cinza-azulados. No caminho até o aeroporto, Alex falou sobre a reunião no Brasil, sobre os detalhes que havia conseguido levantar nos últimos dias.
— Os proprietários do resort parecem bastante interessados na parceria. Andei trocando alguns e-mails com o Eduardo Monteiro, o dono.
— Espero que sim. Não quero perder uma semana inteira à toa.
— O lugar é muito bonito, pelo que vi nas fotos.
Mavie olhou para ele, curiosa apesar de si mesma.
— Você já foi?
— Não.
— Então como sabe que é bonito?
— Pesquisei bastante nos últimos dias. Lençóis Maranhenses. Dunas brancas, lagoas de água doce que só existem por alguns meses do ano, quando chove o suficiente. Depois elas somem, como se nunca tivessem existido, até a próxima estação.
Ela balançou a cabeça, um princípio de sorriso nos lábios.
— Claro que pesquisou tudo isso.
Alex riu, os olhos fixos na estrada.
— Você também deveria pesquisar um pouco. Ajuda a criar expectativa.
— Eu vou trabalhar, Alex. Não estou indo de férias.
— Eu sei disso.
— Então não preciso conhecer pontos turísticos.
— Talvez você mude de ideia quando chegar lá.
Mavie olhou para ele, incrédula.
— Duvido muito.
Alex não respondeu. Apenas sorriu, como quem guarda um palpite só para si, sem nenhuma pressa de prová-lo certo.
O aeroporto estava movimentado, o burburinho característico das primeiras horas da manhã ecoando pelo saguão amplo. Eles passaram pelos procedimentos de embarque com a rapidez que só passageiros frequentes conseguem ter e seguiram para o portão, onde o avião já os esperava.
Quando Mavie entrou na aeronave, sentou-se perto da janela, como sempre fazia, precisando daquele contato visual com o mundo lá fora mesmo quando não tinha tempo de realmente olhar para ele. Alex ocupou o assento ao lado, ajeitando o próprio cinto antes mesmo que ela terminasse de se acomodar.
Ela abriu o notebook assim que teve permissão, os dedos já correndo pelo teclado.
Ele olhou para a tela, um sorriso resignado no rosto.
— Você vai trabalhar durante o voo inteiro?
— Sim.
— Claro que vai.
Mavie começou a revisar os documentos da parceria com o resort, linha por linha, cláusula por cláusula, absorvida naquele mundo de números e termos contratuais que sempre lhe trazia uma sensação estranha de segurança.
Alex permaneceu em silêncio por alguns minutos, observando a paisagem através da janela ao lado dela. Depois, virou-se novamente em sua direção.
— Está nervosa?
— Não.
— Ansiosa?
— Não.
— Curiosa, ao menos?
— Também não.
Alex sorriu, balançando a cabeça.
— Então você está exatamente como sempre.
Mavie fechou o notebook por um instante, olhando para ele com uma expressão que raramente permitia a si mesma mostrar — algo entre gratidão e cansaço.
— Alex.
— Sim?
Ela demorou alguns segundos para responder, escolhendo as palavras com o mesmo cuidado que aplicava a um contrato importante.
— Obrigada.
Ele pareceu genuinamente surpreso.
— Pelo que?
— Por sempre facilitar as coisas. Por nunca tornar nada mais difícil do que já é.
Ele sorriu, um sorriso simples e sincero.
— Sempre, Mavie. Você sabe disso.
Ela voltou a olhar pela janela, um nó estranho na garganta que preferiu não examinar de perto. O avião começou a se movimentar na pista, ganhando velocidade aos poucos. Pouco depois, deixou o solo, e Dublin foi ficando pequena abaixo deles, as luzes da cidade se transformando em pontos distantes, depois em nada além de nuvens.
Mavie observou a cidade desaparecer, o único lar que conhecia se dissolvendo atrás de uma cortina branca. Não sentia saudade. Não sentia medo. Não sentia nenhuma expectativa em particular.
Era apenas uma viagem de negócios. Era isso que repetia para si mesma, como um mantra silencioso, enquanto o avião ganhava altitude.
Uma semana. Uma parceria. Um resort. Brasil.
Depois voltaria para Dublin. Para sua empresa. Para sua cobertura silenciosa no último andar. Para Alex, e para a vida inteira que já havia planejado com tanta precisão, cada detalhe encaixado como as peças de um contrato bem redigido.
Mavie fechou os olhos, deixando o zumbido constante dos motores embalá-la aos poucos, o corpo cedendo ao cansaço da semana enquanto a mente ainda tentava, por hábito, organizar o que viria depois.
Não sabia — não tinha como saber, e talvez fosse melhor assim — que estava deixando Dublin sem imaginar que, quando voltasse, talvez já não fosse a mesma mulher que havia embarcado. Que em algum lugar adiante, entre dunas que ela ainda nem sabia que existiam, alguma coisa estava prestes a se mover fora do seu controle, sem pedir licença, sem consultar nenhuma agenda.
Porque algumas viagens não mudam o destino.
Mudam a pessoa que você era antes de embarcar.
Fim do capítulo

Comentários