Capítulo 19

Capitulo XIX - E Eu Faco Qualquer Coisa Para Te-La Em Meu Mundo

de Impetuosas, por Omuwandiisi

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Capítulo XIX
''E Eu Faço Qualquer Coisa
Para Tê-La Em Meu Mundo'' ²


Rochedo, Paraná – Brasil.
Manhã De Sexta-Feira.
Setembro 7, 2018.

Louise

Desligo a televisão e fico pensativa, sentada no sofá. Ainda repercute a facada no deputado federal Bolsonaro, candidato à presidência da República, que o fere no abdômen quando está em Juiz de Fora, Minas Gerais, em campanha para as eleições deste ano. Um tal de Adélio Bispo está sendo acusado de desferir a tal facada no candidato. Para mim, é uma história muito estranha, essa da facada.
Toda essa história, na verdade, está muito nebulosa.
Levanto-me e vou até a grande janela envidraçada que mostra toda a frente da casa de Ashanti; quer dizer, nossa casa, como ela faz sempre questão de lembrar-me. Dou mais uma olhada na rua, mas nem meus pais nem os pais dela chegaram ainda. É feriado nacional, e os pais de Ashanti vêm visitá-la, mesmo com o médico pessoal do pai dela tendo dito que a viagem não é aconselhável, devido aos problemas que ele teve no mês passado. Ainda assim, ele insiste em visitar a filha depois de tudo o que aconteceu com ela.
Aproveito o momento e convido meus pais também.
Meu amor adora a ideia, pois é uma forma de aproximarmos nossas famílias, apesar de tudo o que Maciel fez, das dores que ele ocasionou em nós e em meus pais, principalmente em mamãe. Ela está desolada.
O céu está belissimamente azul e límpido. Sorrio e dirijo-me para a cozinha.
O aroma do filé ao molho Madeira está delicioso. Ashanti escolhe fazer o filé por ser um prato tradicional, simples, prático e rápido de preparar. Afinal, Benê a está ajudando, o que torna o almoço ainda mais ágil.
Mel desenha em um canto da mesa que Ashanti deixa para ela, para que não bagunce o que eu arrumo — por sinal, deixo tudo bem ajeitado sobre a mesa — antes de ir para a sala ver se havia alguma notícia nova sobre o tal ''atentado''.
Paro ao lado de Mel e observo o que ela pinta. É o desenho de uma rosa, toda vermelha.
— Está lindo, querida.
Ela olha para mim e dá aquele lindo sorriso que me faz derreter por completo. Falta um dentinho na frente, o que deixa seu sorriso ainda mais apaixonante.
— Acho que quero ser pintora — diz, levantando a folha e observando o que faz.
— Filha, não se esqueça de que já, já vamos almoçar e você tem que guardar tudo isso, certo?
— Tá bom, mamã!
Deixo minha pequena — sim, ela é minha também — e vou até minha amada. Abraço-a e beijo sua face demoradamente. Ela vira-se em minha direção e beija meus lábios, ternamente.
— O cheiro está um pecado.
— Eu sei. Sou uma boa chef de cozinha.
— Convencida. Você não acha, Benê?
— A doutora Ashanti cozinha muito bem, com certeza. Mas não sabe fazer bolo.
Ashanti sorri com a observação de Benê.
— Não mesmo. Detesto o cheiro de ovo. Dá-me ânsia. Toda vez que sinto o cheiro de algo que tem ovos, tenho vontade de vomi...
— Que horror, amor!
— Alguma novidade? — Ashanti questiona.
— Está tudo muito confuso, amor. Essa facada está bem esquisita.
— Em casa, depois da aparição desse infeliz, minha família ficou toda dividida — reclama Benê, virando-se para nos encarar. — Sabe aquela passagem da Bíblia? ''O pai está dividido contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra sua nora, e a nora contra sua sogra. ''¹... Pois é o que acontece em minha casa — encerra ela, voltando-se para o que faz no fogão.
— É o que eu sinto também lá na clínica, ouvindo as meninas que trabalham conosco. Adrieli está furiosa com Amin. O partido dele apoia esse energúmeno.
— Na escola, também. Está todo mundo brigando.
— Prevejo caos na nossa vida. Pode escrever, dona Louise. Caos — desabafa Benê, levando para a mesa o que termina no fogão.
— Será que seus pais vêm? — Pergunta meu amor, para encerrar aquele assunto que só nos causa desconforto.
— Não sei, querida. Convidar, eu convidei. Vamos esperar.
Ela olha-me e sorri, deixando um beijo em meus lábios.
— Amor, pega uma travessa de vidro para mim?
Assinto e vou até o armário para pegar a vasilha. Enquanto a procuro, vem-me à mente a minha conversa com meus pais no dia de ontem, um dia que começou com uma noite deliciosa...

Tempo Pretérito...

Meu grito é abafado pela sua boca colada na minha, deixando que apenas ofegos escapem, sôfregos, enquanto um gostoso orgasmo faz todo o meu corpo vibrar e toma toda a minha alma. Lentamente, ela tira seus dedos de dentro de mim, afasta sua boca da minha e deita-se ao meu lado. Em nossa playlist dessa noite, tocando bem baixinho, Barbra Streisand canta ''Woman In Love''...
''Eu sou uma mulher apaixonada
E eu faço qualquer coisa
Para tê-la em meu mundo
E mantê-la lá dentro
É um direito que eu defendo
Muitas e muitas vezes
É o que eu faço'' ²
Aconchego-me em seu peito, enquanto ela faz carícias delicadas em minhas costas. O cheiro do sexo, o perfume dos lençóis e o aroma do suor dos nossos corpos misturam-se com a brisa noturna que entra pela janela aberta, trazendo a fragrância das flores do jardim que enfeitam a frente da casa de Ashanti.
— Amor, fica comigo para sempre...
Levanto-me de seu peito e a encaro. Nossos olhares cruzam-se, e tudo à minha volta deixa de existir. Não há mais música, quarto, mundo. Só há ela ali, e mais nada importa para mim. Seus olhos mostram todo o amor que ela sente por mim.
— Ashanti, eu amo você.
— Então, é um sim?
Assinto lentamente.
— Louise, eu também amo você — diz, sem desviar os olhos dos meus. Sorri, e uma lágrima rola por sua face. Apresso-me em enxugá-la com meus lábios, beijando-a em seguida.
— Sim, sim, sim — confirmo, enchendo seu rosto de beijos —, ficarei com você eternamente.
Volto a deitar-me em seu peito, e sua mão volta a me acariciar.
— Sei que, com a prisão do seu irmão, talvez seus pais coloquem algum empecilho, mas, tendo você aqui, comigo e com a Mel, isso é um passo importante para a nossa união.
— Tipo casamento?
— Sim, meu amor.
— Você está me pedindo em casamento? — Questiono, voltando a encará-la, com um largo sorriso.
— Ainda não, mas logo, logo, e com mais romantismo.
— Vou falar com eles amanhã, mas minha decisão já está tomada...

Casa Da Família Almeida Bacchi
Tarde De Quinta-Feira
Setembro 6, 2018.

Entro na cozinha da casa de meus pais com Mel de mãos dadas comigo. Ashanti teve uma urgência para atender e não pode buscar Melissa. O parto de sua paciente adiantou-se, e ela foi ao hospital para o procedimento. Não tinha como buscar nossa pequena nem prever a hora de terminar a cirurgia, e ela sempre prioriza a paciente e o bebê.
A mesa do almoço já foi retirada. Papai organiza algumas frutas na fruteira, e minha mãe guarda alguns pratos.
— Você não avisou que viria almoçar — diz mamãe, olhando-me com desaprovação. — Na verdade, ultimamente você nem parece morar mais aqui.
— Maria, por favor, temos visita. A pequena Mel está aqui. Não é momento para essas bobagens.
— Bobagens? — Ela o repreende.
— Não venho almoçar, papai. Passo aqui para conversar com vocês.
— Ise, posso comer uma manga?
— Claro, linda, mas cuidado para não sujar o uniforme.
— Eu corto para ela — diz papai, já pegando uma manga madura, enquanto Melissa senta-se ao seu lado.
Pego um guardanapo de pano e amarro como um babador, para que ela não manche a camiseta do uniforme. A pequena olha para mim e sorri.
— Você já foi ver seu irmão? — Mamãe pergunta. Papai olha para ela e balança a cabeça.
— Por favor, Maria — ele pede, olhando para nós, enquanto corta a manga em um prato, facilitando para Melissa.
O ar na cozinha fica pesado, denso, quase palpável.
— Não, mãe, não fui e não vou — digo, apoiando as mãos no espaldar de uma cadeira, tentando controlar a tensão. Não consigo acreditar que ela finja que o que ele fez não exige punição severa. — O que traz-me aqui é outro assunto. Para mim, Maciel é passado.
— Ele é seu irmão...
— Ele tentou matar a Ashanti — digo entre dentes, quase em um sussurro, para que Melissa não escute. Olho para ela, mas está distraída, lambuzando-se com os pedaços dourados da manga.
— Olha, eu vou lá fora, no quintal, com a Mel, ver se o gato está por lá...
— Posso, Ise? — Ela pergunta empolgada, com filetes de suco escorrendo pelos lábios.
— Não, querida — respondo com carinho. — Já, já vamos embora. Outro dia, tudo bem?
Ela assente e volta a pegar mais pedaços da manga.
— Tem certeza, meu bem? — Papai questiona.
— Sim, papai. O que vou falar, quero que você escute também. É importante.
— Sei que o que ele faz é grave, filha. Mas todos merecem uma segunda chance — mamãe explica-se.
Não respondo. Apenas a encaro.
Ela olha para papai, que sorri para a pequena, e depois para Melissa, que já termina a fruta.
Suspira, resignada.
— O que você tem para falar? — Pergunta, finalmente, após um silêncio torturante.
— Vou mudar-me definitivamente para a casa de Ashanti.
Assim que termino de falar, caminho até Melissa e acaricio seus cabelos, enquanto encaro meus pais. Mel agora se ocupa do caroço da manga. Ainda bem que coloquei o guardanapo nela.
— Você tem certeza disso, filha?
— Sim, papai. Ashanti fez o convite, e eu aceitei — respondo, sem parar de acariciar os cabelos de Melissa. — Vou morar com elas.
Minha mãe olha-me como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo. Talvez, para ela, seja mesmo. Seu olhar julgador é resposta suficiente. Seus lábios tremem. Não quero que ela chore, mas é a minha decisão, goste ela ou não. Sem dizer nada, ela sai da cozinha.
Sinto meus olhos encherem-se de lágrimas. Mel, alheia a tudo, limpa o rostinho com o guardanapo. Papai levanta-se e abraça-me.
— Vou falar com ela — assinto, enquanto ele beija minha testa. — Tenho certeza de que vocês serão felizes.
— Desculpe, papai. Sei que este momento é muito difícil para vocês dois, para você, principalmente. Maciel na cadeia, vocês sozinhos... mas eu preciso seguir minha vida. Estou sendo egoísta? Devo me sentir culpada?
— Claro que não, filha. Você pode contar comigo, sempre — diz ele, com suavidade. — Se existe um culpado aqui, é Maciel e suas decisões erradas. Nem sua mãe podemos culpar. Ela apenas tenta defender e acreditar que ele age assim porque se sente incompreendido. No fundo, acho que ela sabe que ele merece o que está enfrentando, mas não quer admitir.
Afasto-me do abraço e enxugo os olhos com a ponta dos dedos.
— Amanhã, os pais de Ashanti vêm visitá-la. Gostaria que vocês fossem almoçar conosco.
— Vou conversar com Maria e fazer o possível para que ela compreenda sua decisão, mas não posso prometer nossa presença. Não posso deixá-la sozinha. Você sabe...
— Sei, pai. E compreendo. Obrigada por ser tão compreensivo.
Ele sorri, e nos abraçamos novamente.
Saio de seus braços e vou até Mel, retirando o guardanapo de seu pescoço. Mesmo assim, sua camiseta está manchada de amarelo. Ao passar por papai, ele beija a mim e a Melissa.
Triste, mas decidida, caminho para fora da cozinha — e talvez, para sempre, para fora da casa dos meus pais.

Tempo Presente...

— Amor, tudo bem? — A doce voz de Ashanti me traz de volta à realidade. — Você está olhando para o armário há um tempão. A vasilha está bem aí, na sua frente. Algum problema?
— Nada, querida. Só tendo alguns flashbacks — respondo, pegando a travessa que ela pede e entregando-a. — Não sei se meus pais vêm.
— Amor, não se preocupe. Tudo vai dar certo — ela afirma, pegando a vasilha e beijando meus lábios. — Você leva aquelas taças para a mesa?
Assinto, pego as taças e sigo para a sala onde o almoço será servido.
O aroma da comida mistura-se ao perfume discreto das flores que vêm das árvores do imenso quintal. Eu e Mel colhemos algumas delas, que agora enfeitam o centro da mesa.
Na sala, ajeito as taças, conferindo se tudo está bem organizado. Olho para a grande janela e suspiro. A luz do meio-dia entra pelas abas abertas, dourando o piso de porcelanato e desenhando sombras suaves pelos cantos.
Mesmo com a familiaridade do lugar, meu coração acelera. Estou preocupada.
Dias se passaram desde a prisão de Maciel, e agora estamos prestes a enfrentar algo igualmente delicado: o encontro com os pais de Ashanti — que ainda não conheço — e com a minha família. Isso, claro, se meus pais vierem.
Meu amor entra na sala e deixa uma garrafa de vinho sobre a mesa. Ela se move com calma, mas percebo, nos pequenos detalhes — a forma como ajeita os talheres, os guardanapos dobrados de maneira meticulosa, a maneira como olha em direção à porta de entrada — que a ansiedade não a abandona por completo. Assim como eu ela também está tensa.
Caminho até ela e toco sua mão. Ela vira-se e sorri, tentando disfarçar, mas seus olhos revelam tudo o que o corpo esconde.
— Eles vêm apenas nos visitar — diz ela, com a voz suave, mas firme —, então nada precisa ser perfeito, você não acha?
— Claro que acho, querida — respondo, respirando fundo. — Gostaria muito que meus pais viessem. Será que seus pais vão gostar de mim?
Ashanti solta uma risada curta, quase nervosa, e aperta minha mão.
— Eles não precisam gostar. Basta eu e a Mel — afirma, abraçando-me e beijando-me com ardor.
— Doutora Ashanti, a portaria ligou. Eles chegaram, e pedi para deixá-los entrar — ouço Benê dizer, interrompendo nosso momento.
— Obrigada, Benê.
Benê assente e volta para a cozinha.
A casa não fica longe da portaria, então logo os pais dela estarão ali. Os braços de Ashanti envolvem-me em um abraço afetuoso, demonstrando todo o seu amor e o quanto está pronta para caminhar ao meu lado.
O som da campainha nos traz à realidade. Meu estômago se contrai, e minhas mãos começam a suar. De mãos dadas, vamos abrir a porta. Porém, Mel vem correndo atrás de nós e nos ultrapassa.
É ela quem abre a porta.
Primeiro, os pais de Ashanti aparecem, sorrindo, com aquele ar sereno que sempre imaginei ao ver as fotos que ela me mostrava. Mas o que me surpreende é quem surge logo atrás deles: meus pais.
Eles entram no hall sem sequer olhar direito para nós. Mas, neste momento, o que importa é que estão aqui.
Mel abraça os avós primeiro e depois vai até meus pais, abraçando-os também. Está com aquele sorriso doce que parece ignorar a tensão que sinto pairar sobre nós como uma nuvem. Só então noto que ela segura uma folha na mão.
— Olhem só, fiz um desenho para todo mundo — diz ela, estendendo o papel colorido. — São duas casas de mãos dadas, sob o sol.
— Está muito bonito, meu anjo — afirma o pai de Ashanti, pegando Mel no colo.
Meus pais trocam olhares curtos, quase desconfortáveis. Caminho até eles.
— Obrigada, mãe, pai. Estou muito feliz em vê-los aqui — digo, emocionada, abraçando-os. Eles retribuem o abraço. Afasto-me e observo Ashanti abraçada com seus pais. Mel sorri entre eles, depois se solta e caminha até nós.
— Seu João, dona Maria, que bom que vocês vieram — diz Ashanti, abraçando cada um. — Vocês não fazem ideia de como estão fazendo Louise e a mim felizes.
Ela segura minha mão e se volta para seus pais.
— Pai, mãe, esta é Louise, a mulher que amo muito, muito mesmo. Louise, estes são meus pais, Arthur e Maria.
Aproximo-me enquanto o pai dela coloca a neta no chão. Cumprimentamo-nos com beijos e abraços apertados. Eles estão sorridentes e parecem felizes em me conhecer.
— Você é muito linda, Louise. Eu queria muito conhecê-la.
— Queríamos — diz seu Arthur, sorridente. — E o interessante é que conhecemos seus pais primeiro, não é, João?
— Como dizem, nada acontece por acaso — responde papai, já menos tenso.
Acho.
— E temos o mesmo nome, querida — diz a mãe de Ashanti, caminhando em direção à minha e segurando suas mãos. — Sabe o que significa o nosso nome?
— Não, não sei.
— ''Senhora soberana '' — informa minha futura sogra.
Minha mãe sorri timidamente.
— Ou ''a vidente '' — acrescenta meu amor.
— Mamã, tô com fome — interrompe Mel, com sua vozinha.
— Então, vamos ''matar o que está nos matando '' — diz Ashanti, pegando a mãozinha de Mel e seguindo para a sala onde o almoço será servido.

. . . o O o . . .

O almoço começa em silêncio, interrompido apenas pelo som dos talheres e pela respiração contida de cada um. A mesa é grande. Nossos pais, em casais, ficam em lados opostos. Na cabeceira está Mel; eu me sento ao lado do meu pai, e Ashanti ao lado de sua mãe, mas ficamos frente a frente. Benê, quase arrastada para sentar-se conosco, observa tudo em silêncio.
O tempo passa lentamente. Sinto cada segundo como uma eternidade.
Meu pai, sempre o primeiro a tentar quebrar o gelo quando almoçávamos ou jantávamos em família em casa, toma a iniciativa:
— Estamos felizes por finalmente conhecê-los. Ashanti nos contou que você não estava bem, Arthur.
— Foi um mal-estar qualquer, João. Nada sério.
— Não foi bem assim. Ele ficou internado e precisou fazer exames — interfere a mãe de Ashanti, bufando.
— Mas você está melhor, não está? — Pergunto.
— Pronto para outra — responde Arthur, rindo.
— Há um tempo, também não me senti bem, e sua filha me atendeu — comenta papai, olhando com carinho para minha mulher. — Eu estava em casa, sabe? Ela fez alguns exames rápidos e recomendou que eu procurasse um cardiologista. Fui, e deu tudo certo, embora agora eu tome remédio para pressão. Sou muito grato a ela.
Arthur olha para a filha, como se pedisse explicações.
— Usei o esfigmomanômetro, papai, e verifiquei que a pressão estava alterada. O importante é que João foi atrás de saber o que estava acontecendo, aceitando minha orientação. Então, foi a iniciativa dele de procurar um especialista que o ajudou.
— Maria, você não está comendo muito — observa a mãe de Ashanti, apontando para o prato da minha mãe.
— As circunstâncias não são as melhores — resmunga ela, sem olhar para ninguém.
Respiro fundo e olho para Ashanti. ''Precisamos atravessar este momento juntas'' sinto que é o que ela diz com seu pequeno sorriso.
Mamãe mexe com o garfo o pouco de comida que está em seu prato.
Mel, toda sorridente, limpa o seu sem perceber a tensão que se instala na mesa.
— Vamos começar devagar, querida — sugere a mãe de Ashanti, sorrindo gentilmente para a minha. — Que tal você dizer o que tanto a aflige, sem pressa?
Mamãe apenas assente, em silêncio. A postura da mãe de Ashanti é firme, segura. Eu sinto isso. Sua presença transmite uma compreensão profunda, que contrasta com o peso que meus pais carregam desde os últimos acontecimentos.
Sei que, depois da minha atitude de me mudar para cá, minha mãe julgará cada palavra, cada gesto, por causa da escolha que fiz, mas eu preciso falar.
— Mãe, este é um bom momento para conversarmos, mas com calma. Por que não diz o que você quer dizer?
Olho para Ashanti, à minha frente. Ela assente, sorrindo, e segura minha mão sobre a mesa; um gesto que mostra a todos que estamos juntas, firmes, prontas para enfrentar o que vier.
Volto-me para minha mãe. Suas mãos tremem levemente. Seus ombros curvados parecem carregar um peso imenso.
— Nunca pensei que meu filho iria parar atrás das grades — faz uma pausa, pousando os talheres no prato, as mãos ainda trêmulas sobre a mesa —, e também nunca imaginei ver minha filha viver assim, sob o julgamento dos outros. Às vezes, sinto que estou sozinha...
Sinto um nó na garganta. Aquela frase revela muito mais do que a prisão de Maciel ou minhas escolhas; é a confissão de medos, frustrações e expectativas quebradas.
Olho para Ashanti, que me sorri com ternura, e uma onda de gratidão me invade.
— Não precisamos ficar sozinhos em nenhum momento das nossas vidas, Maria — afirma Ashanti, com serenidade, olhando para minha mãe. — Nem nos isolarmos. Podemos construir tudo com o nosso amor. Há espaço para isso, e você, nem o João, precisam ficar de fora ou se sentirem isolados.
Minha mãe, ainda rígida, respira fundo e fala com dureza:
— Essa confusão começou quando vocês resolveram desafiar tudo. A família, a igreja... e agora isso com o Maciel. O nome da gente sendo arrastado na rua.
— Não exagere, Maria — intervém papai, com a voz baixa, mas firme. — — As meninas não têm culpa de nada. E Maciel, você sabe, há muito tempo vem mostrando uma personalidade conturbada; ele era desrespeitoso conosco, malcriado. Brigando por nada.
Respiro fundo, tentando não deixar a raiva ou a frustração me dominar. Preciso de alguns segundos, mas encontro a coragem de falar:
— Mãe, o nome da gente não se arrasta para buraco algum quando o amor nos envolve, seja de que forma for. O amor só nos faz bem, eleva-nos. E Maciel, bem, ele cometeu um erro grave. Um, não, vários. O sequestro foi a gota d'água.
Olho para Melissa. Ela come sem parecer nos ouvir. Sabe o que aconteceu com a mãe e que meu irmão foi o responsável, mas evitamos falar sobre ''Maciel'' na frente dela.
O silêncio que se segue é denso, mas diferente. Mamãe não retruca. Apenas nos observa com atenção. O pouco que digo parece alcançar algo que nenhum discurso conseguiria.
A mãe de Ashanti intervém, serena:
— O amor entre Ashanti e Louise não é uma desonra. Nós também demoramos a entender, mas ver a felicidade da nossa filha nos ensinou mais do que qualquer julgamento da sociedade.
O pai de Ashanti, até então em silêncio, completa:
— Este não é um momento de apontar culpados. É de cuidar de quem precisa. Penso que o filho de vocês precisa de apoio — e vocês também — apesar do que ele fez com nossa filha ter sido gravíssimo.
As palavras de Arthur são como um raio de sol depois de uma tempestade. Mamãe suspira profundamente, e lágrimas surgem em seus olhos. Papai permanece sereno.
— Arthur tem razão, querida... vamos cuidar de todos — quase sussurra, segurando a mão de mamãe.
Sinto a tensão nos meus ombros ceder, ainda que aos poucos.
Ashanti aperta minha mão, e percebo que a força que nos une agora não vem apenas de nós, mas da possibilidade de união entre nossas famílias.
Mel, nesse momento, parece perceber algo, mesmo sem compreender completamente.
O pai de Ashanti sugere, com calma:
— Que tal, Louise, visitar o rapaz amanhã? Levar algo para ele? Mostrar que não está sozinho?
A ideia não ressoa em mim como talvez ele espere. Sei que Maciel precisa de apoio, mesmo diante dos erros. Mas ainda não me sinto preparada.
— Não sei se consigo, Arthur.
— Seria bom... muito bom — diz mamãe, com a voz embargada.
— Tenho orado muito pelo filho de vocês — manifesta-se Benê, olhando para meus pais, mostrando que não está alheia ao que ocorre ao seu redor.
Ashanti aperta minha mão e, com um leve sorriso, diz:
— Talvez devamos tentar, amor.
Mamãe nos sorri. Papai segura sua mão, um gesto simples que lembra-me por que tudo isso importa: amor, cuidado e laços que resistem, mesmo nas maiores dificuldades.

. . . o O o . . .

Enquanto recolhemos os pratos e talheres para levar à cozinha, percebo algo que emociona-me profundamente: minha mãe, agora mais suave, toca o ombro de Ashanti e conversa rapidamente com ela. Logo, trocam um abraço breve, mas caloroso.
É um gesto simples, quase silencioso, mas carregado de significado.
Sem saber o que dizem uma à outra, sinto que ali existe um pedido de perdão, e também um reconhecimento. Ou talvez seja apenas o que eu mais desejo.
Minha garganta aperta-se, e eu não consigo conter uma lágrima, que logo faço questão de enxugar. Mamãe afasta-se em direção à cozinha e Ashanti olha-me.
Caminho até ela e seguro sua mão, sentindo sua força. Juntas, vamos para a cozinha.
Percebo que, neste momento, algo realmente muda. Não é o fim das dificuldades, nem das feridas — principalmente as deixadas pelo meu irmão —, mas é um começo. Um começo de reconciliação, de empatia e de esperança.
Na cozinha, todos ajudam, até Mel. Rapidamente lavamos, enxugamos e guardamos tudo. Todos interagem, inclusive mamãe. Com tudo em ordem, seguimos para a sala.
Melissa pega suas canetinhas e folhas novamente, senta-se no tapete felpudo e volta a desenhar, pintar.
Sentadas ali, em meio a tantas emoções, com Mel e nossos pais entre nós, consigo finalmente respirar fundo. A tarde segue tranquila, e a luz suave do sol lança sombras delicadas das árvores do quintal.
Todos falam. Todos são ouvidos. A sala se torna um espaço silencioso de reconciliação.
— Obrigada por virem — digo, olhando para nossos pais —, por estarem aqui, mesmo que tudo ainda pareça difícil.
A mãe de Ashanti sorri, e Arthur segura sua mão. Mamãe olha para papai, e ambos assentem. Todos, enfim, parecem permitir-se acreditar que o futuro é possível.
Mel, como se percebesse a mudança, levanta-se e declara:
— Agora somos todos uma família grande!
Rimos, alguns com lágrimas nos olhos.
Há leveza na sala, uma leveza que carrega o peso do passado, mas que também anuncia um futuro possível, cheio de cuidado e afeto.
Nesse momento, Ashanti aproxima-se e sussurra em meu ouvido:
— Não importa quantas barreiras ainda precisemos atravessar, nós vamos superar todas.
E, enquanto a tarde se aprofunda, ali, entre olhares, gestos e palavras sinceras, a esperança caminha conosco; caminha firme, suave e acolhedora.
Sei que, finalmente, estamos aprendendo a nos acolher. E que a redenção, mesmo tardia, sempre chega quando há amor suficiente para recebê-la.
_________________________________________________________________________
¹ Lucas 12:53
² Woman In Love [Mulher Apaixonada] - Barbra Streisand - 3:49
Single By Barbra Streisand From The Album ''Guilty'' – 1980
Songwriters: Barry Alan Crompton Gibb/Robin Hugh Gibb
Link Discogs:
https://www.discogs.com/release/539484-Barbra-Streisand-Woman-In-Love
Link Wikipedia:
https://en.wikipedia.org/wiki/Woman_in_Love
Link YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=H6Mg1oPhPug&list=RDH6Mg1oPhPug&start_radio=1
Copyright © – CBS Inc. Published By – Stigwood Music, Inc.

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

1
H

HelOliveira

11/09/2026 às 22:17

Obrigada pelo carinho e por compartilhar essa aventura com a gente...
Já criou espectativas para a próxima

Até o próximo
O

Omuwandiisi 12/09/2026 às 09:24

Olá, HelOliveira, como está? Espero que bem!!!

Manhã chuvosa por aqui!
A gratidão é minha por você, carinhosamente, dedicar um tempo seu para dar atenção às minhas carentes palavras.
Bom saber que você acompanhará minha outra história.
Espero não tardar com ela.
Até mais!!!
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