Capítulo 18

Capitulo XVIII - Sem Cor, Desbotado E Desgastado

de Impetuosas, por Omuwandiisi

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Capítulo XVIII

''Sem Cor, Desbotado E Desgastado''¹

 

 

 

Rochedo, Paraná – Brasil.

Manhã De Sexta-Feira.

Agosto 31, 2018.

 

Ashanti

 

Faço força para abrir meus olhos, mas não consigo. Não sei como, mas sinto uma escuridão como se eu estivesse em um lugar apertado, opressor. Desisto de abrir meus olhos. Concentro-me em escutar, já que não consigo abrir meus olhos.

Ouço sons.

Está ventando, chovendo também.

Uma música está ecoando, distante, pelo quarto... em minha mente?

Eu conheço a canção...

''Difícil dizer ou reconhecer um sinal

Para me ver através de um sinal de alerta

Primeiro o trovão satisfeito, se o passado não mentir

então a tempestade]

O futuro [despedaçado] você e eu, somos levados pelo vento

[na tempestade]

[Em uma vida]

[Em uma vida]

 

E enquanto a chuva cai [começamos de novo] pesada em meu coração

Enquanto a tempestade se aproxima

[acredite na luz, em você]

para que a luz brilhe em você

Sem cor, desbotado e desgastado

Destruído na tempestade'' ¹

Neste momento, uma grande explosão faz-me abrir os olhos. Mais explosões e luzes.

Então, percebo por uma porta aberta a tempestade que cai lá fora, seja onde for este lugar. Não são explosões e luzes, mas raios e trovões. O vento forte e a chuva grotesca açoitam a janela fechada. Com esforço, consigo levantar-me e sentar, colocando minhas pernas para fora da cama. Apoiando meus pés no chão frio para levantar deste colchão malcheiroso, percebo que estou descalça.

Mais relâmpagos e trovões. A chuva é incessante; o vento, parecendo um furacão, uiva. Os lampejos que entram pela porta aberta mostram-me que estou com jaleco branco. Estranho, pois hoje eu não vou trabalhar. Levanto-me da cama e vou até a porta.

Preciso fechá-la.

Ao aproximar-me da porta, vejo o caos que está envolvendo toda aquela paisagem. O vento forte e a chuva torrencial dobram as árvores que se retorcem ensandecidas, loucas. Uma enxurrada vermelha, enlameada, passa velozmente na frente da porta, levando tudo, arrastando galhos com folhas, madeira seca e outras coisas que não consigo identificar. Mais à frente, vejo uma ponte que deve ligar esse lugar a uma estrada que atravessa uma floresta. A estrada, mal consigo ver; está tudo embaçado.

Luzes aproximam-se da ponte. Como se fossem luzes de um carro, lanternas, não sei.

Mais raios e trovões. Um dos raios atinge uma árvore na beira da estrada, estraçalhando-a. Decido fechar a porta, afinal, não faço a mínima ideia de onde estou.

Cadê Louise? Mel?

Meu corpo pesa, meu coração palpita desabaladamente.

Porém, tenho a sensação de que não estou sozinha. Há algo dentro do quarto que não consigo ver, mas sinto sua presença. Algo mal, maligno. Já não sei mais se devo fechar a porta. Não quero olhar para trás, pois sinto que, fosse o que fosse, está esperando eu virar-me para atacar, destroçar-me. É um sentimento que não consigo explicar. Crio coragem e, aproveitando a luz de um relâmpago, viro-me. Com a explosão do trovão, que se segue ao relâmpago, vejo alguém com capuz no fundo do quarto, próximo da janela. Seus olhos — se é que são olhos — são duas brasas incandescentes brilhando no fundo do capuz. Tento gritar, mas minha voz está morta no fundo de minha garganta. Quando tudo volta a ficar na penumbra, decido sair correndo dali. Decido enfrentar a chuva, o vento, os raios e os trovões.

Viro-me e salto pela porta aberta em direção ao caos lá fora. Assim que meus pés tocam a enxurrada, sou lavada de lama. Minha roupa branca fica toda vermelha. Corro insanamente em direção à ponte, sendo açoitada pelo vento e pelos pingos grossos da chuva. Já no meio do caminho entre a ponte e aquele quarto — cabana, sei lá onde eu estava — viro-me e vejo aquela figura logo atrás de mim, como se tivesse materializado ali, do nada. A água do rio já está quase passando por cima da ponte.

Não importo-me.

O instinto diz que é melhor enfrentar aquele turbilhão de água do que esperar aquela coisa aproximar-se de mim. Meus pés estão doendo, pois sinto que, enquanto corro, amasso com eles pedras, gravetos e outras coisas pontiagudas.

Assim que entro na ponte, as solas dos pés doem menos. Ofegante, obrigo-me a correr mais e mais. Mais raios, estrondos. Apavorada, olho para trás. Sem acreditar no que vejo, agora aquela coisa está na entrada da ponte, a poucos metros de mim. Paraliso quando aquilo, lentamente, começa a tirar o capuz. Aqueles olhos vermelhos começam a ter um rosto. Enquanto ele aproxima-se, um sorriso serrilhado de escárnio vai surgindo. Começo a recuar, de costas para o final da ponte. Olho rapidamente para trás e as luzes que eu tinha visto lá da porta parecem mais próximas. Algo me diz que eu preciso alcançá-las. Volto a encarar aquele troço. Então, em um gesto rápido, ajudado pelo vento insano que sopra, a coisa tira todo o capuz.

É Maciel.

Não consigo mover-me. Ele aproxima-se mais e mais. Então, um barulho ensurdecedor faz com que ele e eu olhemos rio acima. Uma tromba vermelha de água desce insanamente, arrastando tudo, e vai passar por cima da ponte, por cima de nós...

Por cima de mim, destruindo tudo...

Eu grito, grito, mas minha voz não sai, eu não consigo mais respirar...

E tudo fica escuro quando a muralha d'água passa por cima de mim.

 

. . . o O o . . .

 

Assustada, abro meus olhos.

Eu estava sonhando?

Minha respiração está ofegante. Eu estou desorientada, mas o ribombar da chuva no telhado faz-me pensar que eu estou em uma espécie de barracão, com teto de zinco, metal, não sei. Um ou outro trovão eu escuto, mas bem distante.

Minha cabeça dói.

Olho para o nada, pois estou em quase total escuridão. Forço-me a sentar, encostando minhas costas e meus braços em algo áspero e frio. Uma parede sem reboco. Abraço meu próprio corpo, sentindo frio. Onde está minha jaqueta?

Meu peito está molhado, mas eu sei que é de suor.

Eu estou, ainda, sonhando? Um sonho dentro de um sonho?

Uma réstia de luz passa por baixo da porta. Meus olhos vão, aos poucos, acostumando-se com o que cerca-me. Eu estou sobre um colchão ou colchonete. Não tem cama. É um quarto sem reboco e não tem janela. Ou talvez seja um escritório vazio.

Meus pés estão gelados; estou descalça.

— Ela gritou? — Ouço alguém dizer.

Eu gritei? Sonhando?

— Ainda bem. Achei que a porrada que você deu na cabeça dela tinha a matado. Eu disse que não queria violência — essa voz, eu conheço.

É de Maciel.

— Nós podíamos ganhar um pouco de dinheiro com essa doutorazinha. O que vocês acham? — Outra voz. Quantos estão lá fora? Onde eu estou?

Ainda estou sonhando? Será que estou em um ''looping''?

Então, de repente, flashes começam a romper em minha mente...

 

Tempo Pretérito...

 

O estacionamento do supermercado estava quase vazio nesta manhã de feriado municipal. É aniversário da cidade, mas não faço ideia de quantos anos a cidade está fazendo. Ajustei a minha jaqueta jeans enquanto empurrava o carrinho com uma mão e com a outra segurava o celular com a lista aberta de compras. Eu tinha prometido fazer um almoço especial: lasanha de quatro queijos ao molho branco, o prato que nós três amávamos.

— Massa para lasanha, creme de leite, queijo muçarela, provolone... — murmuro para mim mesma, passando os olhos pela lista quando, pela visão periférica, algo chama minha atenção.

Sem deixar de caminhar, olho em meu entorno. Do outro lado do estacionamento, perto de uma van branca sem identificação, Maciel conversa animadamente com dois homens. O que chama minha atenção é a maneira furtiva como um dos homens entrega um pacote marrom para o irmão de Louise. Maciel olha rapidamente para os lados antes de guardá-lo na mochila que ele traz às costas.

O que ele está fazendo?

Antes que eu acelere meus passos e entre no supermercado, Maciel ergue o olhar e reconhece-me. Seus olhos estreitam-se por um segundo antes de dizer algo aos homens, que rapidamente entram na van e saem do estacionamento.

— Ashanti — Maciel cumprimenta com um sorriso forçado, aproximando-se. — Que coincidência.

Seguro o carrinho com mais força. Estou a meio caminho da entrada. Procuro, mas não vejo ninguém. Somente nós dois perdidos no estacionamento.

— Coincidência mesmo, Maciel. O que foi aquilo?

— Aquilo o quê? — Ele faz cara de inocente, mas seus dedos tamborilam nervosamente na lateral do carrinho de compras.

— O envelope ou pacote, Maciel. Eu vi. — Mantenho a voz baixa, mas firme. — Você está envolvido em algo ilegal?

Maciel ri, um som áspero e sem humor.

— Ah, então agora você é policial além de médica? O que eu faço não é da sua conta.

— Mesmo você não querendo, faço parte, agora, de sua família — respondo, os dentes cerrados. — E se você está fazendo algo que pode machucar Louise ou seus pais, é da minha conta.

Por um instante, ele parece hesitar. Então, seu rosto endurece.

— Você não faz parte de minha família. Nunca fará. Então, meta-se com sua vida e deixe a minha em paz.

Apesar da ameaça, não recuo.

— Se você está em apuros, podemos ajudar. Louise ficaria...

— Louise? — Maciel interrompe, os olhos faiscando de raiva. — Minha irmã está tão cega por você que nem vê mais a merda que o mundo é! Mas eu vejo. E eu faço o que preciso para sobreviver.

O tom de voz dele é cortante, raivoso, mas não deixo que me intimide.

— Traficando? Roubando? O que exatamente você chama de ''sobreviver'', Maciel?

Ele olha em volta, como se esperasse algo, antes de se inclinar para mais perto, o hálito carregado de um odor desagradável.

— Escuta aqui, doutora. Você não sabe nada da minha vida. Então, guarde seus julgamentos para quem tem tempo para eles.

Sustentei seu olhar. Ele não intimidou-me.

— Eu só quero entender o que está acontecendo. Por que tanta raiva? Se você está em perigo...

— O único perigo aqui é você — ele rosna, apontando um dedo acusador. — Você e essa fantasia de ''família sapatona'' perfeita que enfiou na cabeça da minha irmã.

Sinto o sangue ferver, a raiva crescer. Tenho vontade de socá-lo.

— Louise é feliz, está feliz. Isso incomoda tanto assim a você?

Maciel dá um passo atrás, puxando com força e empurrando o carrinho para longe; seu rosto, uma máscara de desprezo.

— Sabe de uma coisa? Você precisa espairecer a cabeça...

Antes que eu pudesse entender o que ele quer dizer, vejo a van branca frear do meu lado e Maciel dar-me um empurrão, jogando-me dentro dela. Braços fortes envolvem meu corpo e a última coisa que vejo é um homem levantar um cano, ou bastão, e eu apago assim que sinto uma dor lancinante na cabeça.

 

Tempo Presente...

 

Maciel e aqueles caras me sequestraram.

Estou me lembrando de tudo... Estacionamento do supermercado... Lista de compras... Meu Deus, e os meus amores? Louise, Melissa. Espero que elas estejam bem.

O som da tempestade torna-se uma constante dentro do quarto, do barracão — sei lá. Pingos, trovoadas, e minha respiração, entrecortada. Minha vida depende de minha fuga desse inferno, mas é como se o mundo inteiro tivesse encolhido até caber dentro deste quarto de paredes ásperas sob um teto de zinco, de lata.

Tudo cheira a ferrugem e medo.

No entanto, eu estou consciente e ciente. Agora não estou sonhando. Isso aqui é real. Desta vez, desde o apagão no furgão, estou realmente desperta, viva. Não irei entregar-me sem lutar. Eles não me pegaram, novamente, desprevenida.

Suspiro.

Minha cabeça lateja. Toco a nuca. O latejar é quase suportável. Olho para a minha mão. Sangue seco sob meus dedos. O corpo parece pesar como chumbo, mas obrigo-me a levantar. Tremula a claridade que passa pela fenda inferior da porta. Há alguém andando próximo dela.

— Socorro!

— Ela gritou. Acordou de novo — ouço uma voz grossa, quase sufocada pelo som da chuva no telhado.

— E daí? — Responde outra. — Acordar não vai adiantar nada. Maciel foi pegar o carro. Já está vindo.

— Sem nomes...

— Cara, ela reconheceu o Maciel. Vamos ter de dar um fim nisso.

— Que merda, cara...

Dar um fim...

A frase atinge-me como um soco no estômago. Eles vão me matar.

Maciel seria capaz?

Lembro-me do rosto dele no estacionamento, do modo como desviava seus olhos dos meus enquanto nos falávamos, mas sua expressão, sua postura, era de quem carregava dentro de si uma bomba prestes a explodir.

Sim, ele é capaz de matar agora e eu estou aqui, com eles.

Sozinha.

Caminho até a porta tentando escutar mais alguma coisa, mas eles silenciaram. Apoio minhas mãos na madeira, encostando minha testa ali.

Fecho os olhos, respirando fundo. O cheiro de mofo e óleo queimado misturado com o cheiro de mato que a chuva traz faz-me querer vomitar.

Sinto lágrimas nos olhos ao lembrar de um momento da semana que passou, quando voltei tarde da clínica: Louise lia um livro para Mel deitada em seu colo. As duas no sofá imenso que temos na nossa sala de visitas.

Eu preciso voltar, por elas.

Pense, Ashanti, pense...

Afasto-me da porta e sento-me no colchonete, apoiando minhas costas na parede.

Pense, Ashanti, pense...

A porta, então, range e abre-se. Alguém, com capuz, entra e para na minha frente. Não consigo enxergar seu rosto. Às suas costas, ainda fora do quarto, visualizo duas pessoas, mas não entram.

— Boa noite, doutora. Estava sonhando? — É Maciel. Sua voz tem um tom de ironia, quase debochada.

Eu nada digo. Logo, ele acende uma lanterna e joga a luz direto em meu rosto.

— Você tinha de estar na hora errada, no lugar errado, não é? — Ele dá um passo, aproximando-se mais. Tensiono meu corpo, mas estou pronta para pular em cima dele. Preparo-me para socá-lo se for preciso.

— Você vai destruir vidas — murmuro. — Pense bem. Pense nos seus pais. Ainda dá tempo para você tomar uma decisão que pode salvar a todos. Entregue-se.

— E o que você acha que a polícia vai fazer, doutora? — Ele ri, amargo. — Me colocar em um hotel cinco estrelas?

— Por que está fazendo isso?

— Dinheiro, doutora, dinheiro. Quem tem dinheiro vive bem, quem não tem, morre na pobreza. Veja meus pais: aquilo é vida? Eu só me adaptei ao sistema.

Ele tira o capuz e inclina-se, os olhos brilhando demoniacamente sob a luz da lanterna.

— Mas você, você quis brincar de heroína. Agora vai ser notícia de rodapé.

— Vão encontrar-me — murmuro entre dentes —, e você vai pagar bem caro por tudo que está fazendo.

Ele solta uma risada assustadora.

— Quem, doutora, a professorinha? Minha irmã idealista que acredita que amor e ética mudam o mundo? Ela não vai nem saber onde cavaremos sua cova.

Antes que eu possa fazer alguma coisa, ele afasta-se rapidamente e fecha a porta com um estrondo. A escuridão envolve-me novamente. Tremo, mas é de raiva. Porém, um único pensamento arde dentro de mim:

Louise, estou viva, meu amor, e esperando por você.

 

Narradora

 

O limpador de para-brisa luta contra a chuva e o vento. A estrada de terra transforma-se em um rio barrento e lamacento com a enxurrada batendo forte nos pneus quando a viatura passa por uma baixada, jogando barro para cima, enlameando todo o carro.

No banco de trás, Louise agarra-se com força no banco à sua frente, os nós dos dedos brancos, o cinto de segurança machucando o peito. O relógio no painel marca 03h17.

Na frente, um policial dirige o carro freneticamente. O delegado, no banco do passageiro, tenta contato pelo rádio.

— Central, aqui é Alfa-3. Confirme a última triangulação do carro da doutora Ashanti, câmbio.

Um chiado preenche o interior do carro antes de uma voz metálica responder:

— Confirmado. Sinal captado próximo à represa velha. É uma chácara abandonada. Fotos do Google Maps mostram uma casa e um galpão, onde, talvez, esteja a vítima. Cuidado. Possivelmente, a ponte que leva até as construções pode estar sob as águas do rio.

— Recebido — confirma o delegado, encerrando a comunicação.

Louise não tira os olhos da frente, tentando equilibrar-se por entre os solavancos do carro. Atrás, outras viaturas seguem a principal do delegado.

O farol da SUV policial mal ilumina o breu que se abre à frente deles. A chuva não dá trégua; os raios e trovões também não.

Por favor, esteja viva, meu amor, pede mentalmente Louise, repetidas vezes, como um mantra.

— Como a senhorita conhece o deputado Amin Fayed? — Indaga, de repente, o delegado.

— Eu não o conheço. Quer dizer, conheço-o de vista, mas ele e Adrieli, a amiga de Ashanti, são muito íntimos. Por quê?

— Porque, senhorita, não gosto quando a política envolve-se na minha delegacia — responde, olhando para trás e mirando, com uma carranca, a assustada professora.

— Quando soube que tinham sequestrado Ashanti, não sabia o que fazer e, por impulso, procurei-a pedindo ajuda. Foi ideia dela ligar para a seguradora e descobrir que a BMW tem um rastreador. E, preocupada com a amiga, ligou para Amin pedindo ajuda. Então, minha única preocupação, delegado, é salvar Ashanti, pouco me importa como — acaba elevando a voz com raiva e preocupação.

Ele olha para ela

— Tudo bem, senhorita, faremos de tudo para salvar sua amiga.

— Ela não é minha amiga, é minha mulher — diz com orgulho, encarando-o.

— Claro, perdoe-me — afirma o delegado, parecendo sincero, e volta-se para a frente, segurando-se no painel do carro devido aos solavancos.

Ela ainda não acreditava que Maciel estava envolvido. A lembrança da ligação de Douglas ainda estava viva em sua memória...

 

Tempo Pretérito...

 

Louise foi até a sala dos professores pegar uma atividade que queria aplicar com as crianças e acabou esquecendo-a no armário. Deixa a classe com a auxiliar de sala, podendo, assim, sair com tranquilidade. Logo que entra na sala, seu celular começa a vibrar no bolso traseiro de sua calça jeans, pois ele está no modo silencioso; afinal, ela está dentro da sala de aula. Pega o celular, achando que é Ashanti, mas ao ver o nome de Douglas no visor, decide não atender. No entanto, um sexto sentido a faz mudar de ideia antes de guardá-lo de volta no bolso da calça jeans.

— Oi, Douglas!

— Onde você está? Está na escola? Em casa? — Indaga ele, parecendo muito nervoso.

— Estou na escola. O que aconteceu?

— Não sei como dizer... — O silêncio de Douglas faz seu corpo todo arrepiar. Seu peito aperta. Não sabe o que está acontecendo, mas seu corpo todo entra em alerta.

— Douglas, o que está acontecendo? — Pergunta, aflita.

— Louise, eu estava no supermercado, agora há pouco, e acho que vi o Maciel sequestrando alguém...

— Que merda você está falando, Doug? Como assim, sequestrando... você ficou louco?

— Acho que era Ashanti...

Seu mundo para. Sua vista fica turva. Um zumbido agudo cresce em seus ouvidos, em sua mente, sua cabeça. A sala começa a rodopiar. Ela apoia-se na mesa e deixa seu corpo cair em uma cadeira enquanto ele narra o que tinha visto no estacionamento do supermercado, de manhãzinha. Ele conta que viu Maciel empurrar Ashanti para dentro de uma van e que entrou logo a seguir. Depois, Maciel sai rapidamente da van, vai até a BMW de Ashanti, entra no carro e arranca com ele, seguindo a van que sai do estacionamento.

Desesperada, Louise deixa a escola e corre, usando toda a potência que seu fusca pode dar, até a clínica em busca de Ashanti, ainda sem acreditar nas palavras de Douglas. Mas, na clínica, não encontra a doutora. É quando pede a ajuda de Adrieli.

 

Tempo Presente...

 

Louise desperta de seus pensamentos com a voz metálica do rádio da viatura.

— O que foi, delegado?

— Estava me comunicando com os outros carros. Estamos nos preparando.

— Quanto tempo até a represa?

Ela vê o delegado olhar para o policial que dirige, e é ele quem responde à pergunta dela:

— Dez minutos, professora. Mas esse temporal pode atrasar.

Desesperada, olha para frente. Enxerga pouco. Não sabe se o para-brisas está embaçado ou são suas lágrimas que enchem seus olhos.

Dez minutos parecem uma eternidade.

 

Ashanti

 

A porta é aberta com violência. Alguém entra, mas não é Maciel. Esse que vem em minha direção usa boné e é mais alto que o irmão de Louise. Da porta aberta, vejo a van em que fui sequestrada. E, como suspeitava, estou dentro de uma espécie de galpão, que também está aberto. De onde estou sentada, é possível ver a chuva forte que invade o galpão, soprada e arrastada pelo vento forte.

— Acabou o tempo, doutora — diz, enquanto agarra meu braço, puxando-me do colchonete.

Eu finjo fraqueza, o corpo mole. Deixo a cabeça meio caída, como se estivesse desorientada, mas observo tudo ao meu redor enquanto ele me puxa. Sinto que sua mão segura frouxamente meu braço.

Do lado da van, com a porta lateral aberta, estão Maciel e o outro bandido, meio gordinho.

Um relâmpago ilumina todo o terreno lá fora. Por segundos, vejo as árvores que se dobram devido à força da chuva e do vento. Vejo o rio e suas águas turbulentas. Porém, dessa vez eu não estou sonhando.

Aproximamo-nos da van. A poucos metros, as portas do galpão estão escancaradas.

Um trovão ribomba. As luzes do teto piscam e logo se apagam.

É o meu momento.

Assim que as luzes acendem-se, aproveito a distração do cara que puxa-me, giro o braço com toda a força que posso e empurro o capanga para cima dos outros dois. Surpresos, os três vão ao chão. O bandido que está do lado de Maciel, o gordinho, puxa algo da cintura, mas eu já estou correndo porta afora.

— Pega ela! — O grito ecoa.

Corro, tropeçando na lama, com o vento e a chuva batendo forte no rosto. Não olho para trás. Sigo em frente, com toda a coragem que tenho, em direção à ponte. O mundo ao meu redor é um caos de água e escuridão que é interrompido, de vez em quando, pelos relâmpagos que riscam o céu negro. Pode ser o desejo imenso de ser salva, mas dá a impressão de ver luzes na estrada escura que desemboca na ponte à minha frente.

Seria o socorro? Louise?

Luzes surgem às minhas costas. Olho rapidamente. É a van. Eles estão atrás de mim. Trovões ensurdecedores ribombam no alto. Continuo a correr sem olhar para trás.

A chuva faz com que minha roupa pese como chumbo.

A ponte surge à minha frente. É de madeira. Sem pensar na sua fragilidade, entro nela correndo sobre as tábuas escorregadias, o madeirame rangendo sob a força da correnteza do rio.

Corro desenfreadamente em direção às luzes que aproximam-se no meio da estrada que abre-se por entre a floresta, sentindo o madeirame ceder.

A cada passo, tenho medo de afundar, de tudo a enxurrada levar. A ponte treme, dá um solavanco. Olho para trás. A van entrou na ponte e vem em minha direção.

Desequilibro-me e caio. À minha frente, faróis aproximam-se.

Desespero-me.

 

Narradora

 

— Lá! — Grita o policial que dirige a viatura. — Tem luz adiante!

— Um carro está passando pela ponte — afirma o delegado.

Louise não consegue enxergar nada, além de dois pontos luminosos. Talvez por estar muito ansiosa ou nervosa.

O policial acelera, o carro segue derrapando na lama. A chuva parece estar mais fraca. O farol ilumina poucos metros à frente. Então, Louise vê. É alguém que levanta-se e começa a correr em direção à viatura. Louise, mesmo sem enxergar com clareza, tem certeza de que é ela.

Ashanti.

Seu coração diz isso.

O carro que segue a doutora sai da ponte e, como o carro que leva Louise, derrapa na estrada enlameada. A van para. O motor ruge, mas o carro dos bandidos não consegue sair do lugar.

Está atolado.

Louise, desesperada, sai da viatura antes que ela pare totalmente, enfrentando a chuva. Apesar de não estar muito forte, ela já se sente toda ensopada logo nos primeiros passos.

— Professora, espere! — Ouve o delegado gritar, mas ela já corre em direção a Ashanti, o coração disparado, batendo forte no peito.

Os raios e trovões continuam, mas seguem mais distantes. Aproveitando as luzes dos relâmpagos e os faróis da viatura à sua retaguarda, segue em frente, em meio à lama e à enxurrada.

O farol do outro carro ilumina Ashanti que corre em sua direção.

A chuva bate em sua face e, mesmo sem muita violência, ofusca sua visão.

De repente, ela ouve uma voz, um grito.

Forte, chegando até ela trazido pelo vento.

— Louise...

Ela para.

O tempo parece suspenso.

— Ashanti! — Grita, a plenos pulmões e com toda a força que tem no momento.

Uma silhueta surge cambaleante, encharcada, a roupa tingida de barro, vermelho.

É ela, o seu amor.

Louise corre.

As duas encontram-se no meio da estrada. Um abraço desesperado envolve as duas, como se um corpo fosse a fortaleza do outro, como se a junção dos dois corpos formasse uma redoma que as protegeria de tudo, de todos.

— Meu amor... — sussurra Louise, chorando. — Eu achei que...

— Eles estão vindo... — Ashanti arfa. — Maciel...

Um rugido as interrompe. É o furgão que surge à frente delas, os faróis como olhos de uma fera.

Louise joga-se com Ashanti para o lado quando o veículo avança, passando por elas e indo em direção ao carro da polícia. De repente, a van desgoverna-se, escorrega na lama, capota na beirada da estrada, passando ao lado da viatura, explodindo em fogo e fumaça.

Louise e Ashanti levantam-se rapidamente e veem o delegado e o policial com armas em punho. Outras viaturas começam a chegar e vão parando no meio da estrada.

Por alguns segundos, o som é apenas o da chuva, já quase um chuvisco, e do vento que já tornou-se quase uma brisa.

Um corpo está estirado no meio da estrada.

É Maciel.

No capotamento, seu corpo foi atirado para o meio da estrada.

— Vocês acham que acabou? — Um grito desvairado soa na beira da estrada. Um dos bandidos, o mais alto, cambaleia em direção a elas, arrastando uma perna; o rosto, uma máscara de sangue, deformado pelos estilhaços do para-brisa da van que tinha capotado. Na mão, uma pistola.

Louise, sem pensar nas consequências, coloca-se à frente de Ashanti.

— Larga essa arma! — É o delegado que grita às costas do criminoso. — Você não tem saída!

Porém, ignorando a fala do delegado, ele ergue a pistola, apontando-a para Louise, que protege Ashanti.

Dessa vez, é Ashanti que puxa Louise de lado, levando as duas ao chão. De costas, no chão, Louise vê um clarão.

No chão, Ashanti escuta um disparo. No entanto, ela não sente nada. O som ecoa por segundos intermináveis, depois o silêncio. As duas levantam-se rapidamente a tempo de ver o sequestrador cair de joelhos e, lentamente, tombar para a frente, enfiando o rosto na lama.

Inerte.

Morto.

Na frente delas, o delegado segura sua Beretta 9mm enquanto aproxima-se do corpo caído, chutando para longe a arma do bandido. Outros policiais caminham em direção a Maciel que, agora, move-se aos poucos.

Aliviada, Ashanti desaba nos braços de Louise.

Choram sem palavra alguma, o calor do abraço vencendo o vento frio e a tempestade que se finda.

 

. . . o O o . . .

 

O helicóptero da polícia pousa ao longe, em frente ao barracão, do outro lado do rio. A tempestade se foi. O céu, agora, inacreditavelmente, está limpo e estrelado. Uma lua imensa ilumina a madrugada que, neste momento, está menos escura devido, também, às luzes das viaturas da polícia. Uma ambulância tinha chegado há alguns minutos. Nela, Ashanti, envolta em uma manta térmica, observava tudo em silêncio. Louise está ao seu lado, o rosto exausto, os olhos ainda marejados.

O furgão dos sequestradores queimou completamente. Nele, um dos bandidos jaz morto, consumido pelas chamas.

— Vai precisar ir para o hospital — diz o socorrista, que cuida de Ashanti. — Você, possivelmente, teve uma concussão e alguns ferimentos leves, mas vai ficar bem.

Ashanti assente, enquanto passa a mão na nuca, que está dolorida.

Louise segura a mão dela.

— Eu fiquei com medo de perder você.

— Você jamais me perderá — responde Ashanti, baixinho. — Acho que terei pesadelos eternos.

Ficam em silêncio, observando a lua brilhando no céu, com sua luz prateada refletida nas poças d’água da estrada.

— Sabe o que é estranho? — Diz Ashanti. — Quando eu estava presa lá dentro, achei que a tempestade ia me engolir. Agora, apesar do caos, parece que ela limpou tudo.

Louise sorri, encostando a testa na dela.

— A tempestade sempre passa. A gente é que esquece como é o som do silêncio depois dela.

Ashanti inspira profundamente, expirando o ar lentamente. Depois de tudo, sabe que pode respirar sem medo. O som da floresta volta a reviver. Os pássaros começam a cantar nos galhos molhados. Até as cigarras se fazem presentes.

O mundo volta a existir.

Louise beija-lhe a testa.

— Vamos para o hospital e depois para casa.

Ashanti concorda, mas levanta-se, de repente, apoiada por Louise. O delegado aproxima-se, trazendo Maciel algemado, que é segurado pelo braço por um policial.

— Ele insistiu em falar com vocês — diz o delegado.

— O que você quer? — Questiona Louise, ríspida; no rosto, uma carranca de ódio.

— Eu sinto muito... não imaginava que tudo fosse tomar esse rumo...

— Não imaginava? Ashanti quase morreu. Tem uma pancada na cabeça. Apontaram uma arma para nós. O seu amigo iria nos matar... MATAR — vocifera a professora.

Maciel abaixa a cabeça, derrotado.

Nada aconteceu como ele havia planejado, mas ele quer explicar-se, se é que tem alguma explicação para tudo o que ele fez para a doutora. Afinal, ele estava com os outros dois bandidos e é cúmplice de tudo o que tinha acontecido ali. E ele sabe que será punido. A morte dos dois parceiros criminosos afetou-o de uma maneira que ele achava que não afetaria. E ainda tem a prisão, que ele sabe que será o seu destino.

— Delegado, não sou perito, mas acho que sei por que a van pegou fogo e explodiu — diz o policial que dirigia a viatura em que estavam Louise e o delegado, aproximando-se.

Todos olham para ele, ansiosos, esperando sua revelação.

Menos Maciel.

— Acho que eles tinham galões de combustível dentro da van. Gasolina ou algo do tipo.

— Para que eles queriam gasolina? — Indaga Louise.

De repente, a professora sente a bílis subir pela garganta só de imaginar o que eles iriam fazer, o que eles iriam queimar. Sem pensar, desfere um soco na cara do irmão. Como ele nem o policial esperavam pela ação intempestiva dela, Maciel cai na lama.

O policial não consegue segurá-lo, nem faz força para isso, mas tem que ajudar o enlameado a levantar-se. No momento em que fica em pé, leva outro soco, agora de Ashanti, caindo no barro novamente.

— Chega! — Grita o delegado. — Levem-no embora logo daqui.

Outros policiais aproximam-se e levam Maciel para a viatura, que logo arranca pela estrada barrenta.

— Preciso de seu testemunho, doutora.

— Ela precisa descansar, ser medicada...

— Tudo bem, amor — diz Ashanti, beijando a face de Louise. — Amanhã, delegado, assim que sair do hospital, passo na delegacia — afirma, abraçando a professora.

O delegado assente e afasta-se.

— Vamos? — Pede o médico, que faz parte da ambulância que socorria a doutora.

Ashanti olha o horizonte.

As luzes piscantes da viatura que leva Maciel diminui ao longe. Na beira da estrada, a fumaça da van queimada ainda dissipa-se em rolos, espalhando-se para o céu. No chão, a poucos metros delas, jaz o corpo do sequestrador morto, esperando pela perícia.

Olha para Louise e a beija.

Ajudada pela professora, entra na ambulância. Sentam-se lado a lado, enquanto a porta é fechada. Abraçada a Louise, Ashanti pensa em Mel, no sorriso da filha; pensa nas manhãs de café que as três terão entre sorrisos e sabores.

Sim, ainda há vida.

Há luz.

 

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¹ In A Lifetime [Em Uma Vida] - Clannad & Bono - 3:04

Single By Clannad From The Album ''Macalla'' - 1985

Compositores: Ciaran Marion Brennan/Paul Hugh Brennan.

Letra De In A Lifetime © Clannad Music Ltd.

Link Discogs:

https://www.discogs.com/release/1412361-Clannad-In-A-Lifetime

Link Wikipedia:

https://en.wikipedia.org/wiki/In_a_Lifetime

Link YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=vtIT939w1-o

 

Fim do capítulo

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