Capítulo XVII
''Vou Fazer Com Que Tudo Fique Bem,
Mas Não Agora''¹
Rochedo, Paraná – Brasil.
Manhã De Terça-Feira.
Agosto 28, 2018.
Louise
Dou poucos passos no pequeno corredor de nossa casa, mas ele parece estender-se infinitamente à minha frente. Cada passo que dou com minha sandália, para mim, ecoa como se martelos batessem no chão. Não quero que meus pais saibam que estou indo para o quarto de Maciel. Minhas mãos transpiram, apesar do clima ameno da manhã. Paro diante da porta do quarto, respiro fundo antes de erguer a mão e bater com os nós dos dedos na madeira.
— Já estou acordado — ouço sua voz rouca ecoar lá dentro. Ele deve estar pensando que é mamãe.
Giro a maçaneta e entro.
O quarto cheira a mofo e a mais alguma coisa que não consigo identificar, e nem sei se quero. Ele está sentado na cama, mais pálido do que eu jamais o vi, os olhos fundos, cercados por sombras escuras. Quando me vê, seu rosto se fecha.
— O que você quer no meu quarto?
Fecho a porta atrás de mim com um clique suave, não querendo fazer barulho.
— Precisamos conversar — respondo, mantendo o tom de voz o mais estável possível. — Ou pelo menos tentar, como nos velhos tempos da nossa infância.
Ele vira o rosto para a janela, onde a luz do sol da manhã infiltra-se por entre as folhas das árvores que ornamentam o nosso quintal.
— Não há nada para conversar. Você fez sua escolha, e ela embrulha meu estômago.
Aproximo-me da cama, meus passos ressoando no piso frio do quarto.
— E você fez a sua — digo, cruzando os braços para que ele não veja minhas mãos trêmulas. — Rejeitar sua única irmã só porque ela encontrou o amor, e esse amor a faz feliz.
Ele solta um som de escárnio, entre um riso zombeteiro e tossidas. Não sei se meu irmão está doente ou drogado. Uma imensa tristeza toma conta de mim.
— Felicidade? Você chama isso de felicidade? Viver nesse... — ele me encara, o rosto como uma máscara, antes de continuar — arranjo com uma mulher?
— Esse ''arranjo '', que você desdenha, será minha futura família — replico, sentindo um nó na garganta. — Uma família que inclui uma menininha que, no futuro, pode querer chamar você de tio.
Vejo-o estremecer visivelmente; seus dedos contraem-se no lençol, suas mãos parecendo garras.
— Jamais a chamarei de sobrinha. Nem sangue nosso ela tem...
— Você está sendo homofóbico e está deixando-me muito triste. Sua atitude está fazendo mal até para os nossos pais.
— Não estou fazendo nada para eles. Você, sim!
— Maciel, suas ações há muito tempo mostram como você está machucando os dois, e isso muito antes de eu envolver-me com Ashanti. E, mais do que o papai, é a mamãe que está sofrendo muito — afirmo entre dentes, sentindo-me exausta. — Eles são e sempre foram nosso porto seguro, e não deixarei você destruir os dois.
O silêncio que se segue é tão denso que posso ouvir o tique-taque do tempo passando. Quando ele finalmente fala, sua voz está irreconhecível. Não parece o rapaz que vi crescer, o garoto que fazia-me rir quando brincávamos juntos.
— Saia do meu quarto ou eu jogo você para fora.
Sem dizer mais nada, viro-lhe as costas e saio rapidamente, antes que ele veja algumas lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
. . . o O o . . .
Depois da tensa conversa com Maciel, chego à escola chateada, mas não posso deixar-me abater por causa de sua conduta. Principalmente hoje, quando teremos, na escola, a primeira de várias reuniões com os pais para falarmos sobre diversidade, depois do incidente com a Mel.
Não foi possível fazer a reunião rápida como pensamos, mas a demora de uma semana nos deu tempo para trabalhar o tema nas classes, envolvendo todos os alunos e professores. Até os funcionários da escola participaram, em alguns momentos, das atividades. Ashanti também participará antes de seguir para a clínica, pois hoje o encontro será com os pais da minha turma e da turma das crianças que envolveram-se no incidente com Melissa, ao defender o amiguinho que tem dois pais.
Porém, infelizmente, as crianças não estudam mais na nossa escola. Depois do acontecimento, os pais de Theo e Noah resolvem transferi-los para outra escola, o que é uma pena. Queríamos que eles participassem da reunião.
A sala de aula que preparamos para o encontro está quase cheia neste momento, porém nem todos os pais comparecem. Depois da fala da diretora, explicando o motivo da reunião e a apresentação de todos os presentes, a palavra é passada para mim. Helena, a professora da outra turma, não quis conduzir a reunião, dizendo-se muito tímida para falar com tantas pessoas — que, na verdade, nem são tantas assim.
Pais e mães sentam-se nas cadeiras, com as carteiras à frente de cada um, dispostas em semicírculo. Alguns murmuram entre si, outros cruzam os braços com expressões fechadas, mas todos parecem curiosos. Sobre a mesa à minha frente, arrumo minhas anotações, respirando fundo. Sei que a pauta da reunião mexerá com opiniões, e é justamente por isso que preciso conduzi-la com cuidado.
Arrumo minhas anotações sobre a mesa. Alinho papéis que não precisam ser alinhados. É só para ocupar as mãos.
Sinto o olhar de Ashanti antes mesmo de encará-la.
Quando olho, ela está sentada discretamente na lateral da sala, próxima à parede. Os braços cruzados, mas não em defesa; em contenção. Os olhos percorrem o ambiente com atenção analítica, quase como se estivesse em seu consultório observando pacientes antes de um diagnóstico. Mas quando seus olhos encontram os meus… não há análise alguma.
Só presença e amor demonstrado; só cuidado. Ela sorri e é tudo do que eu preciso. Sua presença sustenta-me.
Com voz serena, mas determinada, começo:
— Bom dia a todas e a todos — digo, sorrindo. — Obrigada por virem. Sei que cada um tem uma rotina corrida no dia a dia, mas acredito que o tema de hoje é fundamental para o crescimento de nossas alunas e alunos, de nossas filhas e filhos. E de nós também.
Um pequeno burburinho começa, mas cessa aos poucos. Continuo:
— Hoje quero conversar com vocês sobre diversidade. Na última semana, trabalhamos esse tema em sala de aula com as crianças. Fizemos rodas de conversa, lemos histórias que mostram diferentes tipos de famílias, culturas e modos de viver. Usamos, para isso, um livro chamado ''Tudo Bem Ser Diferente '', de Todd Parr, escritor que sofreu bullying na infância por não conseguir acompanhar os colegas de classe. Com bom humor e desenhos multicoloridos, ele trabalha vários temas, inclusive famílias com pessoas do mesmo sexo.
Uma das mães — em seu crachá está escrito Sônia — ergue a mão.
— Professora, ouvi meu filho comentar que vocês falaram sobre famílias com duas mães e dois pais. Isso é mesmo necessário para crianças tão pequenas?
Respiro fundo para manter o tom calmo.
— Sim, dona Sônia. Falamos sobre diferentes formações familiares porque essas famílias existem. Alguns alunos da própria turma têm lares que não seguem o modelo tradicional. E, quando uma criança vê sua realidade representada, ela sente-se acolhida, menos isolada. Isso é essencial para o desenvolvimento emocional dela.
Um pai, à minha esquerda no semicírculo, pigarreia.
— Mas não acha que isso pode confundir os outros? Meu filho chegou em casa perguntando se ele também poderia ter dois pais.
Alguns pais riem, outros balançam a cabeça. Mantenho-me serena enquanto olho para sua identificação.
— Senhor Cláudio, perguntar é algo saudável — afirmo. — As crianças estão, a todo o tempo, tentando entender o mundo. Explicar que existem famílias diferentes não muda quem elas são, apenas amplia o entendimento delas sobre a sociedade da qual fazem parte. O que queremos é ensinar respeito e empatia.
Faço uma pausa para olhar cada um nos olhos, medindo suas reações.
— Quando ensinamos sobre diversidade, não estamos dizendo que uma forma de viver é melhor que outra, que isso é errado ou que aquilo é o certo. Estamos mostrando que todas as pessoas merecem respeito, independentemente de sua cor, religião, origem ou configuração familiar.
Camila, uma mãe mais jovem, levanta a mão timidamente.
— Professora Louise, eu gostei muito dessa iniciativa. Minha filha é adotada, e às vezes ela sente que sua história é estranha comparada à dos coleguinhas. Em casa, nós nunca escondemos que ela é adotada e sempre a amamos como se tivesse nascido de uma de nós. Na semana passada, ela chegou em casa sorrindo, dizendo que, na roda de conversa, entendeu que toda família é especial. Eu agradeço.
Um sorriso aliviado surge em meu rosto, e posso ver o mesmo sorriso em Ashanti. A diretora e Helena mostram uma expressão menos tensa, percebendo que a reunião está sendo mais tranquila do que imaginávamos.
Por enquanto, é claro.
— É exatamente esse o objetivo, Camila. Queremos que cada criança se veja no conteúdo que apresentamos. Quando falamos de diversidade, também falamos de pessoas com deficiência, culturas indígenas e diferentes religiões. Não é sobre impor a visão de ninguém, mas ampliar os horizontes de todos.
Vejo dona Sônia cruzar os braços, demonstrando insatisfação.
— Mas e se algum pai não concordar com certos assuntos?
Assinto, observando a fisionomia dos presentes. Alguns sussurram com quem está ao lado.
— Essa é uma pergunta justa. É por isso que estamos aqui: para dialogar. A escola não quer substituir os valores das famílias. Quer apenas garantir que nenhum aluno sinta-se excluído ou desrespeitado. Se a criança aprende em casa um valor e, na escola, ouve que outras pessoas vivem de forma diferente, ela aprende que o mundo é plural. Isso não é uma ameaça, é uma oportunidade de aprender a conviver.
Um silêncio reflexivo toma conta da sala. Até aqueles que parecem mais resistentes consideram minhas palavras. Levanto-me e pego um cartaz colorido, o maior deles, que está sobre a mesa.
— As crianças produziram este mural juntas — explico. — Cada uma desenhou sua família, e depois colamos tudo lado a lado. Olhem como ficou bonito.
Primeiro mostro o cartaz de onde estou para que todos possam observá-lo. Nele, há desenhos de casas com avós criando netos, famílias grandes, famílias pequenas, pessoas de diferentes tons de pele, algumas com cães e gatos, outras com duas mães, dois pais ou apenas um responsável. Em seguida, passo o cartaz para uma mãe à minha direita, e ele segue de mão em mão, sendo observado com mais atenção por todos.
Os pais observam em silêncio, alguns sorrindo.
— Quando todas as crianças veem o cartaz pronto — conto, sentindo-me orgulhosa do trabalho que fizemos —, elas dizem que percebem que cada família é única e importante. Foi um dos momentos mais emocionantes do semestre — afirmo, olhando para o rosto dos presentes, mas detendo-me no de Ashanti.
Camila enxuga discretamente uma lágrima. A diretora e a professora Helena sorriem, satisfeitas. O pai que havia questionado mais cedo pigarreia, constrangido.
— Professora... — diz ele, coçando a nuca — acho que entendi seu ponto de vista. No fundo, o que a gente quer é que nossos filhos cresçam respeitando os outros, não é?
Sorrio.
— Exatamente. É sobre ensinar que o mundo é feito de diferenças, e que essas diferenças nos tornam mais ricos como sociedade.
A reunião termina mais tranquila do que começa. Muitos pais aproximam-se para agradecer; outros saem pensativos, levando consigo os cartazes que os filhos produziram para observar com calma em casa.
A diretora e Helena conversam um pouco comigo, dizem que gostaram de como conduzi a reunião e sugerem que eu também conduza as próximas. Digo que pensarei melhor e depois darei minha resposta.
As duas passam por Ashanti e a cumprimentam com acenos e sorrisos. Assim que saem, Ashanti levanta-se, aproxima-se e me abraça.
— Você foi maravilhosa, amor — diz, sorrindo, e beija meu rosto, aproveitando a sala vazia.
— Obrigada. Também acho — respondo, convicta.
Ashanti ajuda-me a recolher as coisas que estão sobre a mesa — antes de seguir para a clínica —, material que usarei se aceitar conduzir as próximas reuniões. Tenho a sensação de dever cumprido. Sei que ainda terei outras conversas desafiadoras no futuro, mas cada passo é importante. Se as crianças estão aprendendo a respeitar a diversidade, então já há esperança para um futuro mais justo.
Rochedo, Paraná – Brasil.
Final Da Tarde De Terça-Feira.
28 De Agosto De 2018.
Assim que saio da escola, resolvo passar no shopping e comprar alguns presentinhos para Mel, Ashanti e, é claro, para mim. Caminho lentamente, observando as vitrines ao acaso. Nas mãos, carrego algumas sacolas. Pretendo depois passar em casa, tomar um banho rápido e ir para a casa do meu amor.
Penso seriamente em atender ao pedido que Ashanti fez há alguns dias e mudar-me para sua casa, independentemente das opiniões das pessoas. Afinal, sou bem grandinha para tomar minhas decisões e assumir suas consequências. Sorrio ao imaginar que poderei dormir e acordar com meu amor todos os dias.
Passo em frente a um café. Do outro lado, uma música sai pelas portas de outra loja de roupas de praia.
''Como diabos nós fomos terminar desse jeito?
Por que nós não fomos capazes de ver os sinais que perdemos
E tentar "virar o jogo"?''
Paro para observar um biquíni branco e penso em Ashanti dentro dele. Delicio-me com a cena e tento encontrar o preço para comprá-lo.
— Louise?
Viro-me ao ouvir meu nome; a voz me é familiar.
— Douglas — digo, surpresa, e caminho até a mesa onde ele está sentado.
Faz tempo que não o vejo. Ao aproximar-me, ele me recebe com um abraço, impossível de corresponder, já que minhas mãos estão ocupadas com as sacolas.
— Nossa, querida, quanto tempo não vejo você. Você não ligou mais.
— Minha vida está muito corrida com as duas escolas. Você sabe como é.
— Antes, nós nos falávamos mais, mesmo assim.
— Você também não me ligou mais — devolvo, tentando aliviar um pouco a minha culpa.
Depois que Ashanti entrou na minha vida, esqueci-me completamente dele.
— Quer tomar um café? Sei que você gosta de cappuccino.
Penso em não aceitar, mas acredito que o destino arma um bom momento para termos uma conversa e decido não desperdiçar a oportunidade.
— Um cappuccino seria ótimo — peço, ao sentar-me e colocar as sacolas no chão, enquanto observo Doug ir até o caixa fazer o pedido.
— Você está muito bonita — diz, ao sentar-se novamente à minha frente. — Mudou o corte de cabelo?
— Não fiz nada de especial no cabelo. Só acertei as pontas — respondo, sincera. Ele não precisa saber que fiz isso para agradar minha mulher.
Ou precisa?
Aguardo a garçonete deixar o cappuccino à minha frente antes de continuar. Dou um gole na bebida, que está muito saborosa, e observo Douglas me olhar com atenção. Ele sorri enquanto brinca com a xícara.
— Preciso contar uma coisa — afirmo.
''Bem, eu espero que já que estamos aqui
Que nós poderíamos terminar dizendo
Coisas que nós sempre precisamos dizer''
Decido ser direta, seguindo o conselho da canção.
— Sobre? — Questiona ele, enquanto afasta a xícara, já vazia.
Termino minha bebida antes que esfrie e afasto a xícara, agora também vazia.
— Estou saindo com alguém.
— Como assim, saindo com alguém...? — Diz, confuso. — Alguém, tipo... quem? Achei que nós... ou achava... — ele está completamente perdido.
— Douglas, você sabe que não tínhamos nada sério.
— Não tínhamos?
— Nunca tivemos. Sério que você achava que, algum dia, poderíamos ser um casal?
Ele olha-me atônito, balançando a cabeça. Passa as mãos pelo rosto, que está vermelho, não sei se pela pressão das mãos ou pela raiva. De repente, olha para mim — ou para além de mim — e sorri, mas, dessa vez, seu sorriso parece sarcástico, como se duvidasse do que digo.
— Eu nunca vi você com homem nenhum, além de mim.
— E quem disse que estou saindo com um homem?
Ele pisca várias vezes assim que faço a revelação. Sua boca fica aberta, o queixo quase encostando no peito. Sorrio diante da expressão dele.
— Não estou saindo com um homem — repito, devagar, vendo-o digerir a frase. — Estou namorando uma mulher. A Ashanti.
O som das xícaras sendo recolhidas ao redor parece distanciar-se, junto com as vozes que misturam-se à música ambiente. Vejo algo mudar em seu rosto: a confusão, a princípio, dá lugar a uma mistura de surpresa e, talvez, uma pontada de dor que ele tenta esconder com um sorriso nervoso.
— Ah, a doutora... — é tudo o que ele consegue dizer no primeiro momento. Depois ri, um riso curto, deslocado, que jamais vi em seu rosto. — Está me dizendo que você e a Ashanti têm um namorico? Sério?
— É sério. E não é só um namorico qualquer — afirmo, convicta, sem motivo para evasivas. — Eu a desejo desde que a conheci. E a Mel, a filha dela, faz parte disso tudo. Com Ashanti, aprendi a conhecer-me, a ouvi-me. Conversamos muito, queremos dividir tudo, viver uma vida. Nós nos amamos, Douglas.
Em silêncio, ele baixa a cabeça. Olha para a xícara vazia, os dedos girando a colherinha como se aquilo pudesse trazer alguma resposta do fundo.
— Eu... — começa — eu pensei que a gente tinha uma coisa... algo que poderia... — suspira — Sua mãe achava que formávamos um belo casal. Ela gosta de mim... — afirma, voltando a olhar-me. — Nossa, Louise... uma mulher?
E ali está o velho preconceito, exposto.
Respiro fundo. Não quero magoá-lo, mas não posso apagar a minha verdade para preservar um conforto que sempre foi mais da imaginação dele e da minha mãe do que da minha realidade.
— Doug, nós éramos dois corpos que se encontravam — explico, procurando as palavras sem crueldade. — Tínhamos momentos. Tivemos bons momentos. Mas eu nunca me vi casando com você, nunca imaginei filhos nossos, nunca foi isso para mim. Pode doer ouvir, eu sei. Mas fingir que é diferente é mentir para nós dois, principalmente para mim.
Douglas, que até então evita encarar-me, levanta a cabeça e fita-me demoradamente. Seus olhos parecem úmidos. E acho que, pela primeira vez, o homem que sempre foi meu amigo parece perdido, sem palavras. Percebo que o que ele sente por mim vai além da atração: agora entendo que ele tinha uma expectativa de futuro que eu jamais alimentei, e que, com minhas palavras, a realidade o atinge com força.
— E se eu não conseguir seguir em frente? — Sua voz sai baixa, quase quebrada. — Eu tinha uma esperança, uma imagem de futuro... e se eu ficar preso a essa ideia de... nós?
Mesmo sem querer, sinto uma pontada de compaixão. Estico a mão para pousá-la sobre a dele, tentando oferecer algum conforto naquele momento quase confessional, mas ele a recolhe.
Suspiro, entrelaçando as mãos.
— Quer saber? — Digo, séria. — Seria estranho se você não sentisse nada. Mas ficar preso a algo que, para mim, nunca existiu, vai te machucar mais do que me machuca. E eu não quero te ver sofrer, Doug. Eu, como amiga, importo-me demais com você para isso.
Ele sorri de canto, um sorriso frágil, como se tentasse parecer forte.
— Fácil para você dizer. Você tem um amor. Você tem essa tal de doutora Ashanti.
— Tenho — confirmo. — E quero que você saiba que não deixarei de valorizar o que tivemos, principalmente a sua amizade. Você me ajudou em muitos momentos em que eu não estava bem, e eu agradeço por isso. Mas amar alguém não significa possuir essa pessoa. Amar também é desejar que ela seja feliz, mesmo que essa felicidade não envolva você.
Douglas cruza os braços, como se enfrentasse algo invisível sobre a mesa, assumindo uma postura mais defensiva.
— E se eu sentir ciúmes? — Questiona, franco. — E se a imagem de vocês duas juntas incomodar-me?
— Então, Douglas, seja honesto com você mesmo — afirmo. — Sinta o ciúme, mas pergunte-se de onde ele vem. Às vezes, o ciúme não é sobre a pessoa amada, mas sobre aquilo que não temos. Use esse sentimento para se conhecer, para entender-me, para aceitar-me. E, se eu puder ajudar, eu ajudo. Mas não vou esconder que sou feliz, e não vou desculpar-me por isso.
Ele fica em silêncio e desvia o olhar, encarando a vitrine do outro lado, talvez observando nosso reflexo, as luzes que projetam-se no vidro ou as pessoas que passam entre nós e a loja. Aos poucos, sua respiração volta a um ritmo mais normal, e sua postura torna-se menos tensa.
— Você acha que eu consigo ver você feliz com outra pessoa, com uma mulher, e não doer? — A pergunta sai quase em um sussurro.
— Não sei, Doug — respondo com a sinceridade que nos guia até esse momento da conversa. — Talvez você consiga, talvez não. Quem sabe daqui a um mês, daqui a um ano. Mas o que sei é que a dor amacia quando nós permitimos que ela exista e, ao mesmo tempo, nos abrimos para outras possibilidades. Você pode conhecer novas garotas, ter novos encontros e até apaixonar-se de novo, ou não. Acredite em você, como eu acredito, e, de repente, seu futuro pode ser tão bonito de uma forma que você nem imagina agora.
Douglas assente devagar, pensativo. Um sorriso triste, mas mais verdadeiro agora, surge em seus lábios.
— Sabe o que eu desejo? — Diz, finalmente. — Desejo que você seja feliz. Mesmo que isso signifique que eu precise reaprender a conhecer-me e aprender a viver, por enquanto, só. Quero não ser aquela lembrança que, em algum momento, entristeça você. Quero ser alguém de quem você possa lembrar com carinho; não quero sentir-me culpado por as coisas não terem dado certo entre nós.
Fico surpresa com a serenidade e a maturidade em suas palavras; há tristeza, sim, mas também um brilho de dignidade, como um orgulho ferido que começa a se recompor.
— Isso já é um começo — afirmo, pegando sua mão. Desta vez, ele não recua. É um gesto fraterno, e acredito que ele o entende assim. — E eu garanto que nós — eu, você, a vida — vamos encontrar um jeito. Pode ser que nunca mais nos encontremos ou, talvez, possamos nos tornar cúmplices em outras histórias. Nada se ganha se transformarmos este momento em amargura.
Aquela possibilidade de mantermos contato — até mesmo o afeto — o transforma. Vejo seus ombros relaxarem.
— E a Ashanti? — Questiona, curioso, apesar de tudo.
— Ela sabe de você. Sabe do meu passado. Não escondi nada dela, assim como ela também não escondeu nada de mim — respondo. — E ela me ama. Nós nos amamos. Amo a pequena Mel. Ninguém precisa competir com memórias, Doug.
Douglas ri, um sorriso que agrada-me. Sinto-me quase aliviada.
— Acho que a doutora tem sorte — murmura. — E acho que eu também tenho sorte, porque tive a chance de conhecer você.
Nesse instante, ambos rimos; sorrisos que aliviam, ainda que um pouco, o peso desse encontro. A música que vem da loja de roupas volta a preencher o espaço...
''Algum dia, de alguma forma
Vou fazer com que tudo fique bem, mas não agora
Eu sei que você está se perguntando quando
(Você é a única que sabe disso)
Algum dia, de alguma forma
Vou fazer com que tudo fique bem, mas não agora
Eu sei que você está se perguntando quando
(Você é a única que sabe disso)
Eu sei que você está se perguntando quando
(Você é a única que sabe disso)
Eu sei que você está se perguntando quando'' ¹
As pessoas ao redor continuam passando, como se nada tivesse acontecido — ou como se tudo estivesse sempre acontecendo.
A vida segue seu movimento.
— Promete que um dia você vai me chamar para tomar um café com vocês duas? — Indaga, em tom leve, como quem pede um fio de continuidade para a nossa amizade.
— Vou combinar com a Ashanti — afirmo. — E garanto que você será sempre bem-vindo, como amigo, à nossa casa.
Levanto-me. Já não há mais nada a dizer. Ele acompanha-me, sorrindo, agora, sem ironia.
— Posso dar um abraço?
— Claro, Douglas. E nunca se esqueça: ''Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida. '' ²
O abraço é rápido, mas afetuoso.
Deixamos o café em direções diferentes. Ao caminhar até o elevador e seguir para o estacionamento do shopping, sinto a leveza que vem depois de dizer a verdade. Penso em Ashanti esperando-me, nas risadas de Mel; penso nos dias comuns que tornam-se extraordinários pela presença de quem amo.
Olho para trás e vejo Douglas na escada rolante, subindo para o piso superior, já conversando com uma mulher.
Sorrio enquanto a porta do elevador fecha-se.
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¹ Someday [Algum Dia] - Nickelback: 3.23
Single By Nickelback From The Album ''The Long Road'' - 2003
Compositores: Chad Robert Kroeger/Michael Douglas Henry 'Mike' Kroeger/Ryan Anthony Peake/Ryan 'Vik' Vikedal
Letra De Someday © Warner-Tamerlane Publishing Corp., Arm Your Dillo Publishing Inc., Black Diesel Music Inc., Ladekiv Music Inc., Zero-G Music Inc., Black Diesel Music, Inc., Zero G Music Inc.
Link Discogs:
https://www.discogs.com/release/447191-Nickelback-Someday
Link Wikipedia:
https://en.wikipedia.org/wiki/Someday_(Nickelback_song)
Link YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=W7ZX38RARNw&list=RDW7ZX38RARNw&start_radio=1
² Provérbios 4:23
Fim do capítulo

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