Capítulo XVI
''Ao Seu Lado''¹
Rochedo, Paraná – Brasil.
Madrugada E Manhã De Segunda-Feira.
Agosto 20, 2018.
Ashanti
O toque estridente do celular explode em meu cérebro; na escuridão do quarto, meu olhar semicerrado perde-se no teto em meio a uma luz azul flutuante. Atordoada, ergo-me na cama, os olhos pesados de sono lutando para se ajustar ao brilho do relógio digital de mesa — rádio, despertador e carregador sem fio também — que marca 2:47 da madrugada. É nele que está meu celular, carregando.
Louise, ao meu lado, murmura algo ininteligível e vira-se, afundando o rosto no travesseiro.
Como médica, canso de receber chamadas noturnas, então não me apresso em atender.
— Alô? — Minha voz ainda carrega a aspereza do sono, mas uma pontada de preocupação já se instala em meu peito. Chamadas no meio da madrugada nunca trazem boas notícias.
— Ashanti... — a voz trêmula de minha mãe, do outro lado, faz meu coração pular uma batida, parar por quase um segundo. — É seu pai. Ele está no hospital.
O sangue parece gelar em minhas veias, parar de correr. Sento-me abruptamente na cama, pés no piso vitrificado gelado de meu quarto; os dedos da mão apertam o celular com força.
— O que aconteceu? Infarto? — Papai tem hipertensão arterial, mas cuida-se bastante.
— Não sei, filha... — responde ela em um fio de voz. Um silêncio pesado revela toda a sua preocupação. — Ele ainda está fazendo exames.
Sinto os músculos das minhas costas se tensionarem.
— Eu vou para aí, mamãe. Em qual hospital ele está? O Dr. Schmidt está com ele? — Galeano Schmidt é, além de amigo, o médico particular de mamãe e papai e os acompanha há décadas.
Outra pausa. Mais longa desta vez.
— Sim, Galeano está com ele, mas ele não sabe que estou ligando para você, filha. — A observação de mamãe não é novidade. Papai é muito, mas muito teimoso quando quer. — Ele disse que não era para avisar você, pois sabia que você viria correndo para cá e que não era preciso assustá-la, fazendo você viajar quilômetros. Na verdade, ele veio dirigindo o carro até aqui e só não veio sozinho porque bati o pé. — Mamãe dá um longo suspiro antes de continuar. — Filha, ele há uma semana reclama de dores no peito e chegou a ter um leve desmaio...
Suas últimas palavras atingem-me como um soco no estômago. Sinto o quarto girar. Com minha mão livre, agarro o lençol como âncora. Ao meu lado, Louise agora está completamente acordada, sentada na cama com os olhos cheios de preocupação.
— Mãe — engulo o nó na garganta antes de continuar —, vou para aí de qualquer maneira.
— Ele está sendo teimoso, filha, como sempre. Mas você conhece seu pai. Não venha ainda. Prometo que ligo assim que Galeano me der notícias. E como estão as coisas por aí? Mel está bem? E Louise, o seu novo amor?
Meus pais já sabiam de Louise. Contei a eles assim que meu coração entendeu que Louise será a mulher da minha vida.
Sinto Louise colocar sua mão suavemente em meu ombro, mas levanto-me abruptamente, caminhando até a janela. Olho para o céu em uma prece silenciosa.
A noite está estrelada, ironicamente bela.
— Por aqui, estamos todos bem. E Louise é maravilhosa, mãe. Vocês vão adorá-la. Mas diga ao papai que, de qualquer maneira, eu vou — digo por fim. — Ele pode ser teimoso o quanto quiser, mas eu ainda sou médica, independentemente da área em que atuo. E, mesmo ele não sendo meu paciente, não vai recusar acompanhamento por orgulho.
— Eu entendo você, querida, mas por enquanto não venha. Vamos esperar os exames, ok?
— Tudo bem, mamãe.
— Amamos você, filha. Dê um beijo na Melissa e um abraço em Louise. Tchau, querida.
— Amo vocês também. Tchau, mãe!
Quando encerro a ligação, minhas pernas falham. Deslizo pela parede até o chão, os ombros sacudindo em silêncio. Louise, em um instante, aparece ao meu lado, envolvendo-me em seus braços sem dizer uma palavra.
Ficamos assim por alguns momentos.
— Meu pai está no hospital, Ise — sussurro contra o ombro do meu amor. Sinto lágrimas nos olhos, mesmo não querendo chorar. — Está fazendo alguns exames...
Louise aperta-me com mais força, seus lábios pressionados contra meus pequenos cachos, beijando minha cabeça.
— Nós vamos superar isso — promete, com a voz firme. Minhas lágrimas agora molham seus ombros — juntas.
Ela levanta-se e me ajuda a sair do chão. Caminhamos até a cama, onde deito-me, suspirando enquanto ela me cobre. Antes de ir para o seu lado da cama, liga o rádio em uma FM qualquer, mas com o volume bem baixo.
Enquanto ela caminha para deitar-se ao meu lado, a voz de Sade invade a penumbra do quarto, preenchendo um vazio ensurdecedor...
''Quando você estiver do lado de fora, meu bem, e não puder entrar
Eu te mostrarei que você é muito melhor do que imagina
Quando você estiver perdida e sozinha e não puder voltar
Eu te encontrarei, querida, e te levarei para casa
E se você quiser chorar
Eu estarei aqui para secar suas lágrimas,
E logo, logo, você ficará bem'' ¹
Adormeço com os carinhos de Louise sem ouvir a música completa...
. . . o O o . . .
Acordo com o despertador do celular. Estou sozinha na cama. O quarto, pouco iluminado pela luz do sol matinal, está silenciosamente opressivo. Corro para o banheiro para uma ducha rápida. Tenho consultas agendadas para toda a manhã. Assim que termino meu banho, penso em ligar para mamãe, mas desisto e envio uma mensagem, rapidamente respondida por ela.
''Os primeiros exames não deram em nada. Aguardando Galeano para acompanhar novos exames, mas seu pai dormiu bem. Melhor que eu. Até roncou, coisa que ele afirma que jamais faz. 😊''
Respiro um pouco mais aliviada com as palavras dela.
''Qualquer coisa, avise-me, não importando a hora.'' digito e envio. Ela visualiza e responde com o emoji de joinha.
Vou até o closet e escolho um conjunto de terninho bege. Visto-me. Pronta, pego meu jaleco branco, bolsa, celular, chaves do carro e vou atrás dos amores da minha vida.
Já no final da escadaria, ouço as vozes de Mel e Louise, que estão na cozinha. Quando Louise dorme aqui, dispenso Benê de trabalhar de manhã, ficando a tarde para ela organizar a casa.
Nossa casa...
Paro na entrada da cozinha, observando a cena, e uma gratidão imensa invade todo o meu ser por ter Louise em minha vida.
— Ise — diz Mel, enquanto minha namorada amarra o tênis que ela calça. Minha pequena é capaz, mas sempre deixa um cadarço maior que o outro, e temos medo de que ela pise neles e caia —, por que a mamã não acordou ainda?
Louise sorri, embora o sorriso não alcance os olhos de minha pequena.
— O seu vovô está um pouquinho doente, lindinha, e ela não dormiu muito bem.
Mel franze a testa.
— Não quero que aconteça nada com o vovô. A gente vai para lá?
Seu desejo e pergunta inocente atingem-me incisivamente. Louise respira fundo.
— Claro que nós vamos, anjinho, assim que o vovô sarar — respondo, ao me aproximar delas.
— Mamã... — solta ela, pulando da cadeira e vindo abraçar minhas pernas. Louise levanta-se e me beija suavemente.
— Os meus dois amores, amores da minha vida, já estão prontos para irem para a escola?
— Eu tô, mamã...
— Eu também, querida. Já deixei minhas coisas e as da Melissa dentro do seu carro. Só vou pegar minha bolsa.
Trocamos um rápido beijo e ela afasta-se em direção à sala. Pego na mãozinha da minha pequena e caminhamos em direção à porta de saída da casa.
Assim, partimos juntas para o nosso dia de trabalho.
. . . o O o . . .
Durante o caminho, conversamos somente amenidades. Percebo que Louise esforça-se para fazer com que eu esqueça um pouco o problema de saúde de papai. Mel, no banco de trás, não desgruda do Algodão. Já estamos quase próximas da escola quando, do nada, ela pergunta:
— Mamã, por que a gente fica doente? Eu não quero que o vovô vá embora, que nem a mamãe Alice...
Eu e Louise trocamos um rápido olhar. Ela dá um meio sorriso, deixando a resposta para mim. Sorrio, olhando, pelo retrovisor, para a minha pequena.
— Às vezes, as pessoas, mesmo se cuidando, têm alguns problemas de saúde e não entendem por que essas coisas acontecem, amor. Mas isso não significa que vão morrer. Fique tranquila, querida, nada vai acontecer com o vovô.
Mel parece ponderar minhas palavras enquanto estaciono o carro em frente à escola. Eu e Louise trocamos um carinho com as mãos. Ainda evitamos nos beijar em público, principalmente em frente ao local de trabalho dela.
— Promete ligar para mim se acontecer algo?
— Claro, meu amor. Ligo, sim.
Ela aperta minha mão e sai do carro. Abre a porta traseira da BMW, ajudando Melissa a sair; já com sua mochila, Mel aguarda na calçada. Observo-a pegar seu material, sua bolsa, o jaleco e, aproveitando que metade do corpo está dentro do carro, manda um beijo para mim, sussurrando ''eu amo você''. Respondo que também a amo. Ela fecha a porta do carro, pega Mel pela mãozinha e, juntas, seguem para a entrada da escola.
Observo as duas entrarem pelo portão. Vejo Melissa acenar em direção ao carro até que sua pequena figura desaparece entre as outras crianças, junto com Louise.
Coloco o carro em movimento e sigo em direção à clínica, tendo o Algodão como companhia.
Clínica Mater.
Manhã De Segunda-Feira.
Agosto 20, 2018.
O carro está estacionado, e já faz bons minutos que estou aqui dentro, olhos fechados, respirando pausadamente.
Meu pai é meu melhor amigo. Com ele, eu sempre posso falar tudo, sem medos ou receios. Desde sempre, faz-me entender que jamais preciso esconder-me de ninguém, de nada. Devo muito a ele. E à mamãe também. Os dois são tudo para mim. Juntos com Louise e Melissa, são meus pilares.
Preciso me mexer. A vida continua...
Pego minhas coisas, aciono o alarme do carro e sigo para a entrada exclusiva que temos, eu e Adriele, para chegar até nossos consultórios, pronta para enfrentar o dia. Na maioria das vezes, gosto de entrar pela entrada principal e cumprimentar todas as pacientes e nossas secretárias, mas hoje, com a notícia sobre papai, não estou me sentindo bem.
Encontro Adriele no corredor, na porta de sua sala.
— Bom dia, querida, tudo bem? Você não está com uma cara muito boa.
— É papai. Ele está internado, fazendo exames.
— Oh, meu bem. Algo grave?
— Mamãe está com ele. Galeano também. Estou esperando notícias.
— Galeano é um excelente profissional. Dará tudo certo — diz, abraçando-me. — Você deveria ter ficado em casa.
— Não conseguiria. E você? Ultimamente sinto você um pouco preocupada, distante. Algum problema?
— É Fayed.
— O deputado? O que tem ele?
— Está ficando sério... meio que eu estou gostando dele.
— Amiga, faça como eu. Louise já faz parte da minha vida. E, se você estiver gostando mesmo, dê uma chance a vocês dois.
— É o que estou querendo.
— Dra. Ashanti, bom dia! — Pietra nos interrompe. — Não sabia que já tinha chegado.
— Bom dia, Pietra. Já tenho paciente?
— Sim. Chegou há uns cinco, dez minutos.
— Quem?
— Paciente nova. Grávida de seis meses.
— Então, pode chamá-la. Já irei atendê-la.
— Ok!
Assim que ela afasta-se, eu e Adriele caminhamos para os nossos consultórios.
— Que tenhamos um belo dia — ela diz de sua porta. Sorrio para ela, assentindo, antes de fechar a minha sala.
O ar da sala está frio, mas não gelado, sem aquela sensação congelante de que a grande maioria não gosta. Porém, isso é o de menos. Estou muito preocupada com meu pai. Respiro fundo e preparo-me, encarando minha primeira paciente.
. . . o O o . . .
Termino meu último atendimento da manhã e organizo-me para almoçar. Adriele me convidou. Ela irá almoçar com Fayed, que, segundo ela, prometeu fazer uma surpresa — da qual ela não faz a mínima ideia.
Mal junto minhas coisas quando o celular vibra sobre a mesa. É Louise.
— Oi, amor!
— Querida, você ainda está na clínica? — Pergunta, mas percebo um certo nervosismo em sua voz.
— Indo almoçar. Aconteceu algo?
— Aconteceu um... incidente com Mel agora há pouco, no momento em que ela estava esperando por mim para irmos embora.
Meu coração falha uma batida.
— Ela se machucou? — Pergunto, apoiando-me na mesa.
— Não, amor, nada disso. Mas quero que você venha, agora, aqui na escola. Você pode? Estou na sala da direção.
— Já estou saindo.
Encerro a ligação, mal despedindo-me dela. Encontro Dri no corredor, pronta para sair, mas desculpo-me por não acompanhá-la, explicando o motivo, e parto imediatamente para a escola.
Faço o percurso em menos de dez minutos e enfio o carro em qualquer vaga para estacioná-lo, saindo apressada em direção à entrada da escola.
Caminho diretamente para a sala da diretora, onde entro depois de ser anunciada por sua secretária. Assim que adentro a sala, vejo Mel, com os olhos vermelhos de choro, sentada no colo de Louise.
— Mamã... — ela corre para mim, soluçando, enquanto abraça minhas pernas.
Louise levanta-se e vem em minha direção, passando a mão na cabeça do meu anjinho, consolando-a, e colocando a outra mão em meu ombro, apertando-o levemente, com carinho.
— O que aconteceu, meu amor?
É a diretora quem responde, com uma expressão constrangida:
— Algumas crianças começaram a dizer que... bem, que um amiguinho dela não era ''normal''. Que não podia ter dois pais. Ela foi defendê-lo. Houve alguns empurrões, e Melissa acabou sendo derrubada por uma das crianças.
Sinto uma onda de fúria tão intensa que, por um momento, vejo manchas brancas em minha visão, mas Mel precisa de mim agora.
— Você está machucada, querida? — Pergunto, ajoelhando-me para fitá-la nos olhos, olhando seus bracinhos em busca de arranhões.
— Não, mamã.
— Por que você foi empurrada? Você tentou bater em alguém?
— Não, mamã — responde ela, com os olhos arregalados —, não bati em ninguém. Só disse algumas coisas...
— O que você disse, amor? — Pergunto, enxugando algumas lágrimas com as pontas dos dedos, que teimam em escorrer por seu rosto.
— Eu disse que a família dele é de amor, como você e a Lou, e que o amor nunca é errado, como você sempre diz...
Nesse momento, Louise ajoelha-se, abraçando a mim e Melissa. Minha pequena fica entre nós duas, mostrando como aquele elo jamais se quebra.
— Você está absolutamente certa, anjinho — ouço Louise dizer, com orgulho.
Indignada, levanto-me e observo a diretora, que nos olha um pouco espantada com a cena e, provavelmente, com o que ouviu da boca de Melissa.
Com minha pequena mais calma, sentamo-nos nas cadeiras que estão em frente à mesa da diretora, com Mel no colo de Louise.
— Filha — peço —, conte o que aconteceu...
Tempo Pretérito...
Melissa
Dou mais uma mordida na pera que o Pedrinho me dá. Ele sempre me dá algo na hora do recreio. A minha lancheira quase sempre volta com o que eu trago.
Ele está do meu lado, o Pedrinho, comendo uma pera também. Ele parece um anjinho das histórias da Mônica: cabelos loiros encaracolados e imensos olhos azuis. Acho ele muito bonitinho. Estamos sentados em um dos bancos enquanto assistimos nossos amiguinhos brincarem no balanço, um dos brinquedos do mini parquinho que temos na escola.
Eu converso com todo mundo, mas considero meus amigos o Pedrinho, o Jefferson, a Clara e a Raissa.
Ah, gosto muito também do Theo e do Noah. Eles têm dois pais, como eu tive duas mães, quando mamãe Alice ainda não tinha ido para o céu. Mas eu vou voltar a ter agora, com a Louise, porque eu quero ela como minha nova mamãe. É um segredo que eles só contaram para mim. Eles não têm vergonha, mas os papais deles ensinam o quanto é perigoso sofrerem bullying por causa disso.
Eu sempre sei cuidar de mim.
— A minha casa é bonita — ouço Pedrinho dizer. — Tem piscina...
— Que legal — falo, sem comentários.
A minha casa também tem piscina e é muito bonita, mas eu não preciso dizer para ninguém.
— Você quer ir brincar comigo na minha casa? Eu já pedi para os meus pais e eles deixaram.
Clara está balançando Raissa, enquanto Jefferson tenta impedir o balanço de ir mais alto. Às vezes, o Jeff faz coisas bobas, idiotices. Clara dá uma bronca nele, e ele fica zangado, cruzando os braços, de cara feia.
— Eu vou falar com minha mamã. Se ela deixar, eu vou.
— Vai ser divertido — ele diz, dando um beijo em meu rosto e saindo correndo em direção ao balanço.
Ele conversa com Clara e ela deixa que ele balance a Raissa. Clarinha fala algo para o Jeff, mas ele sai correndo e vai brincar com outros meninos. Clara corre atrás dele. Jeff é tão alto quanto Clara, mas não é tão rápido, e ele chega primeiro onde estão Noah, Theo e outras crianças. Mas ela não fica entre eles. Sai correndo e vem em minha direção.
Clara é a menina mais inteligente que conheço; na verdade, é a mais esperta da sala.
Ela senta-se ao meu lado e ajeita seus óculos de grau. Seus fios loiros estão grudados na testa, molhados de suor por causa da corrida.
— Você quer uma maçã?
Ela assente, abrindo a mão. Pego a maçã da minha lancheira e dou a ela. Ela dá uma grande mordida, quase comendo meia fruta.
— Docinha — ela diz, mastigando o pedaço grande que mordeu. — Que folgado o Pedrinho.
— Por quê?
— Ele é quem deveria balançar a Raissa, não ela empurrar o balanço para ele.
— Acho que não tem nada a ver. Assim, todo mundo se diverte um pouco de cada vez.
Mais duas mordidas e a maçã se vai. Clara ajeita os óculos, vai até uma das lixeiras recicláveis do pátio e joga o resto da maçã no recipiente marrom. Depois, corre em direção ao balanço, tira o Pedro e faz a Raissa sentar de novo, balançando-a.
Decido ir brincar com eles.
Levanto-me, jogo o resto da minha fruta no mesmo lugar que a Clarinha jogou e me aproximo deles.
— Quer balançar um pouco?
Assinto, e Raissa sai do balanço. Agora sou empurrada por Clarinha.
No grupinho onde está o Jefferson, começa um empurra-empurra, e vejo que Noah e Theo estão sendo acuados pelos outros. Quando penso em sair do balanço, Clara passa correndo por mim em direção aos meninos. Eu e Raissa corremos também. Pedrinho corre ao nosso lado.
Quando chegamos, já há um bate-boca entre alguns meninos e a Clarinha, que está ao lado do Theo, enquanto ele protege Noah atrás de si.
— Vocês são babacas! — Grita Clara.
Algumas crianças gritam mais alto que ela.
— Babaca é você, sua quatro-olhos, defendendo esses filhos de bichinhas!
Mais gritos, mais algazarra. Eles não ajudam em nada. Só querem incentivar uma briga.
Sinto uma coisa estranha crescer no peito. Não gosto disso. Não é certo.
— Cala a boca, seu bobão — digo, apontando o dedo para ele. — Você deve ser um menino mal-amado e não sabe o que é amor de verdade. Na sua família não deve ter amor, diferente da família do Theo e do Noah, que sabem o que é amor de verdade. Você, grandão bobo, deve ser mal-amado e é muito mal-educado.
Agora um monte de vaias surge em uníssono, com Clarinha vaiando mais alto que os outros.
— Quem você pensa que é para apontar o dedo para mim? — O grandão diz, fechando a mão.
Ele levanta o punho.
Meu coração bate forte. Acho que ele vai me bater.
— Ei, por que você não vai embora... — tenta dizer algo o Pedrinho.
— O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI? — Ouvimos a voz forte do seu Cláudio, um dos inspetores que cuidam dos alunos na hora do recreio. Ele vem andando rápido, com cara de bravo. — Parou! Não quero saber o que está acontecendo. Todo mundo de volta para os brinquedos, vamos!
As crianças vão se dispersando aos poucos, ainda murmurando. O menino grandão passa por mim, esbarrando no meu ombro de propósito.
— Eu falei, todo mundo! Vocês também. Agora!
Então, cada um começa a ir para um lado. Jeff e Raissa voltam para o balanço, seguidos por Pedrinho. Clara e eu ficamos com Theo e Noah. Eu seguro a mão do Theo. Ele está tremendo.
— Tá tudo bem — digo baixinho. — Sua família é bonita.
Ele não fala nada, mas aperta minha mão de volta. Então, eles correm para brincar com outras crianças e eu e Clarinha seguimos para onde estão nossos amiguinhos.
Clara fica com Jeff e Raissa.
Eu e o Pedrinho vamos nos sentar em outro banco.
Não dá tempo nem de tentar entender o que aconteceu, porque o sinal do recreio soa alto, avisando a todos que precisamos voltar para as salas de aula.
Tempo Presente...
— Aí, mamã, enquanto eu espero a professora Louise para ir embora, o menino grandão esbarra em mim de propósito, e eu caio sentada. O seu Cláudio vê e traz nós dois para a sala da diretora.
— Eu já conversei com a mãe do menino, e ele recebeu uma advertência. E prometeu que não vai mais importunar a sua filha.
— A senhora só vai fazer isso?
Ela nos olha, meio desconcertada.
— Então, Beatriz, como vamos resolver essa história?
— Ora, Louise, tudo não passa de um mal-entendido por causa de uma bobagem. Melissa nem machucada está...
— Então quer dizer que Melissa ter defendido o amiguinho que estava sofrendo bullying por ser filho de dois pais é um mal-entendido? Uma bobagem? — Questiona Louise, insatisfeita com a postura da diretora.
— Não posso admitir essa sua postura, diretora, em um ambiente onde casos de bullying, com o agravante da homofobia, sejam normalizados.
— Ninguém está normalizando nada, doutora, mas podemos resolver tudo sem causar mais problemas...
— Podemos procurar os pais do menino para que eles processem a escola — digo, encarando Louise, como se a diretora não estivesse presente, ouvindo nossa conversa. — O que você acha?
Vejo um pequeno sorriso surgir em seus lábios, concordando com a minha provocação.
— Doutora Ashanti...
— Ou podemos procurar o namorado de Adriele, que é deputado — insisto na provocação, mesmo não sabendo qual é a opinião de Fayed sobre o tema.
Mas a diretora não precisa saber disso.
— Louise, acredito que podemos esclarecer toda essa situação de uma forma melhor — adianta a diretora, assustada com as minhas ameaças.
— Por exemplo?
— Doutora, podemos marcar uma reunião com os pais de todos os envolvidos.
— E conosco também — acrescento.
— Sim, claro, com todos os envolvidos — aceita Beatriz. — Avisarei à professora Louise a data do encontro.
— Para amanhã.
— Doutora, eu dirijo a escola...
— Diretora Beatriz — interrompe Louise —, sejamos razoáveis. Quanto mais rápido resolvermos isso, melhor para todo mundo, principalmente para as crianças envolvidas nessa história toda.
A diretora solta um suspiro, exasperada, mas assente com a cabeça, concordando.
— Entrarei em contato com os pais e marcarei para amanhã de manhã o encontro.
Levantamo-nos as três juntas, como se tivéssemos combinado, encerrando a pequena reunião. Despedimo-nos rapidamente da diretora e deixamos sua sala e a escola para trás.
No caminho para o carro, com Melissa entre nós duas, segurando a mão de cada uma, viro-me para encarar meu amor, e sorrimos juntas, sentindo a força da nossa conexão.
— Espero que você não se prejudique e seja mandada embora.
— Processamos a escola — ela responde rápido, e damos uma gostosa gargalhada.
— Vamos resolver isso, juntas, meu amor — proponho.
— Como está seu pai?
Respiro fundo.
— Teimoso, orgulhoso, mas vivo — olho-a com admiração. — E nós também estamos, vivas.
Louise sorri.
— Vamos passar por tudo isso juntas, minha linda doutora.
Mel começa a balançar nossos braços, cantarolando uma música sem sentido, e tenho a certeza de que nenhuma tempestade será forte o suficiente para abalar as estruturas do que estamos construindo.
Clínica Mater.
Tarde De Segunda-Feira.
Agosto 20, 2018.
Após o almoço, deixamos nossa pequena — sim, já a considero como de Louise também — com Benê e partimos para a nossa tarde de trabalho: eu para o consultório e Louise para a outra escola.
Penso ainda em papai e no incidente com Mel na escola, enquanto preparo uma vacina quadrivalente para a gripe — que protege contra mais cepas do que a versão trivalente do SUS — para a próxima paciente que atenderei. Levanto os olhos assim que batem à porta e ela é entreaberta.
— Dra. Ashanti? — A voz suave de uma das enfermeiras que trabalham conosco faz com que eu a olhe atentamente. — A pequena Sofia está pronta para a vacina, mas está um pouco nervosa.
Respiro fundo, deixando minhas próprias dores de lado, enquanto observo a menininha e sua mãe entrarem no consultório. Assim que a porta se fecha, sorrio ao ver a menina de cinco anos escondida atrás da mãe, segurando a ponta da longa trança que enfeita seus cabelos.
— Olá, princesa Sofia! — Digo, ajoelhando-me até ficar na altura da criança. — Que bom que você veio recarregar o seu superpoder hoje.
Sofia franze o nariz:
— Superpoder?
— Claro! — Puxo o estojo de vacinas com uma pose dramática. — A vacina é uma proteção a mais para uma super-heroína. Vai fazer seu escudo contra vilões microscópicos ficar mais forte que o da Mulher Maravilha!
A menina ri, mas ainda aperta a trança, agora contra o peito.
— É verdade, filha. A doutora tem razão.
— Dói?
— Quase nada. Você, que é forte, nem vai sentir. Mas sabe o que ajuda? — Quase cochicho, aproximando-me mais dela. — Se você disser para mim as doze cores de uma caixinha de lápis enquanto eu aplico a vacina. Você lembra de todas?
Ela assente e começa a falar os nomes das cores. Enquanto Sofia debate-se entre ''vermelho'' e ''laranja'' como favoritas, levanto a manga do vestidinho que ela usa e aplico a vacina com mão firme. A mãe da criança arregala os olhos. A menina mal se mexe.
— Doeu muito? — Pergunto, e ela balança a cabecinha, com os olhinhos agora úmidos.
— Nossa, nem chorou! Como a senhora faz?
Limpo o local da picada com algodão e coloco um adesivo de ursinho, dando um beijinho em seu bracinho.
— Quase todas as crianças têm medo de agulhas, mãe, mas, com paciência e carinho, algumas colaboram. E, claro, precisamos falar a ''língua'' delas.
A mãe concorda e segue com a filhinha, de mãos dadas, para a saída do consultório. Antes de a porta fechar-se, Sofia acena e me dá um sorriso desdentado.
Mal sento-me, e o celular vibra sobre a mesa. É Louise.
''Amor, sairei mais cedo da escola. A reunião pedagógica foi cancelada. Passarei no supermercado e comprarei algo para preparar um jantar. Quer alguma coisa especial? ''
Soam batidas na porta, e Pietra entra.
''Quero algo com muito queijo, pode ser? '', respondo rapidamente.
''Claro, amor. Que tal macarrão aos quatro queijos? ''
— Doutora, a próxima paciente... Oh, quer que eu...? — Pergunta Pietra, parada à minha frente.
— Pode chamar, Pietra.
Ela assente e sai, deixando a porta entreaberta.
''Perfeito! '', digito, encerrando as mensagens.
Deixo o celular na mesa e abro um sorriso, já esperando pelo jantar da noite.
. . . o O o . . .
Já estou dentro do condomínio e acabo de entrar na rua de casa. Uma paciente se atrasa, e acabo deixando a clínica depois das seis horas. As estrelas já caminham pelo céu, e uma tímida lua tenta iluminar a escuridão.
Entro com a BMW na garagem e paro ao lado do fusca de Louise. Pego minhas coisas, aciono o alarme do carro e subo uma pequena escada que, depois de um hall, dá direto na sala. Para minha surpresa, ela não está vazia: Louise e Mel, segurando um cartaz escrito ''MELHOR MÉDICA DO MUNDO! '' em letras tortas e cheias de glitter, esperam-me.
— Vocês duas... — não consigo terminar a frase, pois Mel, abandonando o cartaz com Louise, já escala minhas pernas, mais ágil que um esquilo, forçando-me a pegá-la no colo.
— A Ise deixou eu escrever para você, mamã... enquanto ela fazia uma comida cheirosa... cheia de macarrão... — fala Mel aos tropeços, enchendo meu rosto de beijos.
Louise, já ao nosso lado, limpa algo em meu rosto, provavelmente deixado pelas mãozinhas de Mel, ainda cheias de tinta e glitter. Abraço-a, respirando o cheiro de lápis de cor e o perfume de Louise.
— Vocês duas vão tomar banho enquanto eu termino de ajeitar os pratos na cozinha.
— Isso é uma ordem?
— Sim. E andem rápido, senão vai esfriar — completa ela, com as mãos na cintura.
— Obrigada — sussurro em seu ouvido enquanto beijo sua face cheirosa.
Em resposta, Louise pega minha mão e a aperta com carinho. O dia foi longo, mas ali, entre minhas duas âncoras, posso respirar eternamente.
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¹ By Your Side [Ao Seu Lado] - Sade: 4.34
Single By Sade From The Album ''Lovers Rock'' - 2000
Compositores: Helen Folasade 'Sade' Adu/Paul Spencer Denman/Andrew Paul Hale/Stuart Colin Matthewman
Letra De By Your Side © Angel Music Ltd. - Sony Music Entertainment (UK) Ltd.
Link Discogs:
https://www.discogs.com/release/458384-Sade-By-Your-Side
Link Wikipedia:
https://en.wikipedia.org/wiki/By_Your_Side_(Sade_song)
Link YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=C8QJmI_V3j4
Fim do capítulo

HelOliveira
12/08/2026 às 08:18
Muito linda a relação que elas estão construindo...