Algo que se perdeu e encontrou?
Capitulo XV - Eu Quero Apenas Estar Com Voce
Capítulo XV
''Eu Quero Apenas Estar Com Você'' ¹
Rochedo, Paraná – Brasil.
Casa Da Família Almeida Bacchi.
Meio Da Tarde De Sábado.
Agosto 18, 2018.
Louise
Não dá para acreditar que a semana já esvaiu-se, porém não tenho do que reclamar. Cada dia deixado para trás foi intenso e maravilhoso ao lado dos amores da minha vida. Almoçamos todos os dias juntas, com Mel sempre fazendo companhia a nós. Cada dia que passo ao lado de Ash e de Mel dá-me a certeza de que o caminho que estou trilhando é o que quero para o resto da minha vida.
Não há um dia em que eu não esteja com Ashanti e, praticamente, noite sim, noite não, ela passa em casa, com Mel, para dar um oi aos meus pais, sempre com uma desculpa para isso: pegar uma fruta para Mel, ou a pequena quer ver o gato, e por aí vai.
Aos poucos, ela quer fazer-se presente.
Papai, sempre na dele, trata Ash e Mel com muita atenção e carinho. Mas mamãe parece incomodada com a frequente presença da doutora — como ela se refere, às vezes, ao meu amor — em nossa casa e não deixa de perguntar como está meu relacionamento com Douglas, mesmo eu já tendo deixado claro a ela que eu e Doug não temos mais nada.
Enfim, Ashanti descobriu o que incomoda tanto Adrieli: Fayed, que é Deputado Federal, foi escolhido pelo partido dele para disputar uma vaga ao Senado Federal. Segundo Dri, ele disse que há chances muito grandes de ser eleito. Assim, ele iria, é claro, morar em Brasília e pediu que Adrieli fosse com ele. Como as coisas entre eles parecem firmes, ela está querendo ir embora com ele. Mas, se isso acontecer, ela e Ashanti já estão conversando sobre o que fazer com a clínica. No entanto, elas vão esperar realmente se ele ganhar a eleição para decidirem o que fazer.
Falando em problemas, Maciel, bem, como sempre, é desagradável, irritante e até tenta, às vezes, flertar com Ash, achando que ninguém nota. Mas Ash, sempre educada, ignora-o olimpicamente.
Estou no meu quarto preparando as atividades para a próxima semana e olho para a aliança no meu dedo. A aliança do nosso compromisso, de quando ela me pediu em namoro.
Suspiro.
Preciso conversar com meus pais.
Tomada a decisão, deixo meu quarto e sigo para a cozinha, onde sei que eles estão agora, juntos, como acontece em todas as tardes de sábado.
. . . o O o . . .
O cheiro de café fresco e bolo de milho caseiro recende pela casa toda e, principalmente, pela cozinha. Digo um oi para mamãe e sento-me à mesa. Dona Maria pega alguma coisa no armário e sorri para mim ao virar-se. Ela traz algumas louças para colocar na mesa. O café de sábado à tarde é quase uma tradição da casa dos Almeida Bacchi, e neste sábado não está sendo diferente.
Porém, papai não está ali. Provavelmente está no quintal.
Enquanto mamãe vai colocando os pires e xícaras na mesa, eu brinco nervosamente com a linda aliança no dedo. O anel é de prata diamantada e ouro amarelo, com um pequeno diamante no centro; o nome de Ashanti e a data estão gravados no interior da aliança.
De cima do armário vem o som do rádio que está sempre ligado quando mamãe e papai estão por aqui. A música eu conheço, pois adoro as canções de Almir Sater...
''Nada é mais real
Que aprender maneira simples de viver
Tudo é tão normal
Se a gente não se cansa nunca de aprender
Sempre olhar
Como se fosse a primeira vez
Se espantar
Como criança a perguntar por quês?'' ¹
Do quintal surge Seu João, que sorri quando me vê, dá um beijo em minha face e logo senta-se na cabeceira da mesa, enquanto mamãe continua a arrumar as coisas sobre a mesa com seu jeito metódico já conhecido por todos nós.
— Mãe... Pai... — começo, os dedos tremendo levemente ao redor da xícara que ainda está vazia. — Preciso falar com vocês sobre algo importante.
Mamãe, que tinha retornado ao armário para pegar outra louça, vira-se imediatamente, os olhos estreitados naquele radar maternal que nunca falha e que, às vezes, é mais que questionador.
— Você está grávida?
— Maria! — Papai chama-lhe a atenção, pausando o ato de colocar o café em sua xícara. — Deixa a menina falar. De onde você tirou essa maluquice? — Finaliza, severo.
Mamãe fica em pé à frente da mesa, segurando uma travessa de porcelana, demonstrando não ter gostado da maneira como papai lhe fala.
Uma secura toma minha garganta, fazendo-me pigarrear. Sinto o coração bater como um tambor em meu peito.
— Continue, filha — diz papai, sorridente. — O que você quer nos contar?
— É sobre... a Ashanti.
— O que tem a doutora? — Indaga mamãe, ainda na mesma posição.
Um silêncio pesado cai sobre a cozinha. Desvio meu olhar para a porta, como se buscasse no quintal um pouco de oxigênio que sinto faltar. Lá fora, o vento suave balança as folhas da mangueira, criando sombras dançantes no chão de ladrilhos da varanda.
— O que tem ela, querida? — Papai pergunta, levando lentamente sua xícara à boca. Ele a segura com firmeza e sopra sobre o líquido quente. É possível ver o vapor subindo à sua frente. — Ela está com algum problema?
Respiro fundo, sentindo uma corrente elétrica percorrer todo o meu corpo, como se queimasse minha pele, fazendo meu coração galopar mais rápido. Sinto que ele está prestes a explodir com o segredo que vou contar.
Decido ser direta.
— Nós estamos... nos envolvendo. Romanticamente.
A travessa que mamãe segura cai no chão com um tilintar agudo, não despedaçando-se em vários pedaços por milagre. Em seguida, após pegar e colocar a vasilha sobre a mesa, ela senta-se; as mãos trêmulas pousadas na mesa. Vejo seu peito subir e descer, respirando descompassadamente.
— O QUÊ? — A voz estridente de Maciel ecoa da porta da cozinha, onde ele para com uma garrafa de cerveja na mão. — Você está brincando com a gente, né?
Ele dá um passo, entrando na cozinha. Eu não sabia que ele estava em casa. Papai ergue a mão em um gesto pacificador, e ele estaca.
— Calma, Maciel!
Em todo momento, os olhos de papai não deixam de observar-me.
— Louise, você quer dizer que... — papai começa e silencia, pousando sua xícara na mesa.
— Que eu a amo, pai.
As palavras saem como uma revelação, como se estivessem presas há muito, muito tempo dentro de mim.
— E ela me ama — concluo.
Dona Maria cobre a boca com as mãos, os olhos arregalados, quase saltando das órbitas.
— Minha filha... isso é pecado! O que a vizinhança vai dizer? O padre Francisco...
— Maria — papai intervém, com uma voz surpreendentemente suave e calma. — Deixa ela explicar.
Sinto minhas pernas tremerem, mas continuo, agora com uma determinação que nem eu mesma sabia ter.
Efeito Ashanti!
— Mãe, agora eu sei que passei a vida inteira fingindo ser quem não sou. Quando eu era adolescente, via-me olhando demais para as atrizes na TV e no cinema e de menos para os atores, mesmo os mais famosos, os ditos mais lindos e charmosos. Cheguei ao cúmulo de forçar-me a beijar garotos nos bailes da escola só para não levantar suspeitas...
Uma lágrima escapa-me.
— Eu estava escondendo-me de mim mesma, mãe — continuo. — Acho até que, inconscientemente, estava usando o Douglas para isso. Até conhecer Ashanti.
Maciel dá um passo adiante, o rosto distorcido em uma máscara de raiva.
— E você acha que essa mulher rica, cheia de diplomas, vai mesmo se importar, apaixonar-se por uma pobre professora? Ela está brincando com você, Lou! — Vocifera Maciel. — E, pelo que vejo, esse Douglas não é de nada. Sempre achei ele um pouco afeminado, meio bichinha.
— Maciel, deixe-se a terminar ou saia daqui.
Agradeço papai com um meio sorriso.
— Desde o primeiro encontro, eu me encantei com ela e com sua filha, a pequena Melissa.
— Olha que merd*. Uma criança vivendo no meio dessa porcaria...
— CALE A BOCA, MACIEL! — Elevo a voz, agora em pé. — A Mel é uma criança inteligente, e eu tenho certeza de que ela já percebe que existe algo entre mim e a mãe dela. E ela me respeita muito. Ela gosta de mim.
Não quero, neste momento, revelar que Ashanti já foi casada com uma mulher e que Melissa já teve duas mães.
Um passo de cada vez.
— Isso só pode ser brincadeira — rosna ele, agora perto da mesa, ao lado de mamãe.
Assim que ele coloca a mão no ombro dela, ela começa a chorar silenciosamente, as lágrimas escorrendo por suas faces, onde algumas rugas já destacam-se.
— Mas... mas e as crianças da escola, filha? E seu emprego? — Ela soluça. — Vão te chamar de... de nomes horríveis!
Estou pronta para retrucar, mas é papai quem responde, levantando-se com dificuldade da cadeira.
— Minha filha — ele começa, colocando as mãos largas e calejadas em meu rosto —, você se lembra de um encontro na escola particular onde você estudava, quando tinha uns oito anos? Era uma homenagem ao Dia dos Pais, e aquele menino te chamou de “filha do mecânico pobre”.
Assinto, confusa. É uma cena que até hoje entristece-me quando, de vez em quando, volta à minha memória.
Já sinto as lágrimas escorrerem por minha face.
— E o que eu te disse naquele dia?
Engulo as lágrimas, lembrando-me quase palavra por palavra.
— Que... que o orgulho da família não está no que os outros pensam, mas em como a gente se trata dentro de casa — repito, sem ter certeza se usei exatamente as mesmas palavras.
Seu João sorri, os olhos úmidos.
— E isso não muda porque você ama uma mulher. Você ainda é minha filha corajosa, inteligente e espirituosa... — ele olha para mamãe. — Maria, nós a criamos para ser feliz, não para viver mentindo, escondendo-se.
Mamãe olha de mim para papai e de papai para mim. Em seu rosto trava-se uma guerra de emoções. Sei que ela está lutando consigo mesma. Ela nunca demonstrou qualquer opinião sobre a homossexualidade. Mas, se tem alguma opinião formada sobre o assunto, nunca a manifestou.
Lá fora, um pássaro começa a cantar insistentemente, empoleirado no pé de goiaba que fica em frente à janela da cozinha. Outro, bica uma goiaba amarelinha.
— E... a doutora Ashanti — ela finalmente pergunta, limpando as lágrimas com a ponta do avental — ela te faz bem mesmo?
Sinto um alívio imenso, uma esperança suave, e um pequeno sorriso rompe através das minhas lágrimas.
— Mãe — ergo a mão direita, mostrando-a para ela —, Ashanti deu-me um anel de compromisso...
Não consigo terminar a frase, pois Maciel dá um soco na mesa, fazendo as xícaras e os pires tremerem.
— ISSO É NOJENTO! DOENTIO! — Ele grita, o rosto vermelho de raiva. — Você vai arruinar nossa família!
Dou a volta na mesa para enfrentá-lo, mas papai avança e coloca-se entre nós dois.
— MACIEL, CHEGA! — Sua voz ecoa como um trovão, num tom raramente usado por ele. — Na minha casa, a gente respeita o amor, não importa de que forma ele venha.
Mamãe levanta-se então, seu pequeno corpo trêmulo.
— Chega. Não quero ninguém brigando nesta casa.
Todos nos calamos. Voltamo-nos para ela, esperando seu julgamento.
— Eu... eu não entendo. Não entendo mesmo... nunca vi você com nenhuma menina — ela começa, as mãos torcendo o avental. — Mas, se ela te faz feliz... — seus olhos encontram os meus, cheios de dor e aceitação misturadas. — Então eu vou aprender a entender. Prometo me esforçar.
Maciel olha para meus pais como se eles tivessem enlouquecido.
— Vocês estão aceitando isso? — Ele cospe, recuando em direção à porta. — Então tá. Quero ver sua cara, Louise, quando essa brincadeira acabar e você voltar chorando. Mas, enquanto isso, quero ficar longe dessa nojeira toda!
Ele se dirige à porta da cozinha.
Ao passar por ela, bate-a com força contra a parede, fazendo com que uma foto da Sagrada Família, que mamãe mantém ali, trema e caia no chão.
Lá fora escutamos a garrafa de cerveja se espatifar contra alguma coisa.
Papai vai até onde a imagem caiu, pega-a e a pendura novamente no mesmo lugar. No silêncio pesado que se segue, afundo-me na cadeira. Minhas pernas finalmente cedem. Cubro o rosto com as mãos, os cotovelos apoiados na mesa.
Depois de alguns segundos, volto a olhar para meus pais.
Mamãe é a primeira a se mover. Ela vai até o fogão e pega a chaleira que estava sobre ele com mãos trêmulas.
— Vou fazer mais café — anuncia, como se fosse a coisa mais natural do mundo naquele momento. — E você, Louise, vai me contar tudo sobre você e a Ashanti. Tudo, filha. Preciso entender...
Eu apenas suspiro. Não vou recuar dessa conversa.
Papai coloca uma de suas mãos pesadas sobre meu ombro, apertando-o. Para mim, porém, seu toque parece mais suave do que nunca, porque demonstra todo o seu amor e respeito por mim.
— E depois a gente vai lá na casa da doutora conhecer essa história melhor — explica ele — porque quero compreender como tudo isso aconteceu tão rapidamente e perguntar a ela se posso chamar a Melissa de neta. Aquela criança já me roubou o coração só pela sua docilidade e educação.
Olho para Seu João e para mamãe, que o observa de onde está e assente para o marido, concordando com suas palavras. Vejo neles, naquele momento, a força que os une, a mesma força que usaram para criar-me e para me transformar em quem eu sou.
As lágrimas voltam, mas agora são doces como o bolo de milho ainda quente no centro da mesa.
— Eu amo vocês, pai. Mãe...
Dona Maria enxuga outra lágrima, mas desta vez há um pequeno sorriso em seus lábios, ou algo parecido.
— Também te amamos, filha. Agora me conta: essa menina Mel gosta de bolo de chocolate? Porque eu tenho uma receita que derrete na boca...
É... ela está tentando.
Enquanto o sol da tarde pinta a cozinha de dourado, sinto que nossas vidas criam raízes mais profundas e saudáveis. E, apesar das tempestades que ainda possam vir, as raízes que nos sustentam são mais fortes do que qualquer vento.
Manhã De Domingo
Agosto 19, 2018.
Acordo ouvindo o canto de pássaros, uma sinfonia.
Acho que estava sonhando, ou estou. Aos poucos, abro os olhos e tento me localizar. Não, não estou sonhando. Do quintal realmente vem um canto bonito de passarinhos.
Estou em meu quarto, meu mundo.
Suspiro, espreguiço-me e sento-me, apoiando os ombros no espaldar da cama. Olho para a janela entreaberta, através das grades que me dão um pouco de segurança quando a deixo assim durante algumas noites.
Lá fora, as árvores estão coloridas com um verde brilhante que jamais notei, ou talvez seja apenas meu coração pintando o mundo com cores mais vivas. O sol matiza o chão do quarto com raios dourados que entram pela janela. O cheiro das árvores do quintal chega suave com a brisa.
E eu, agora de olhos fechados e ainda meio sonolenta, sorrio sozinha ao perceber que sou, provavelmente, a mulher mais feliz do planeta naquele exato momento.
Forço-me a sair do aconchego dos lençóis e da cama; pego uma toalha, minha nécessaire e caminho até o banheiro, onde um banho morno espera-me. Não gosto muito de banho frio, apesar de dizerem que é mais saudável tomá-los de vez em quando. Depois de fechar a porta, tirar a roupa e abrir o chuveiro, deixo a água escorrer pelo meu corpo, levando consigo os últimos vestígios de preocupação que ainda tentam se agarrar a mim.
Tudo está dando certo, penso com satisfação.
Quando saio, envolta em uma toalha e com os cabelos ainda pingando, corro rapidamente pelo pequeno corredor de volta ao quarto e fecho a porta. Um som insistente e conhecido corta o silêncio da minha morada noturna: é meu celular vibrando sobre a poltrona perto da janela. Apresso-me para atendê-lo antes que o toque acorde meus pais no quarto ao lado.
— Alô? — Digo, sem sequer olhar quem está ligando, segurando o aparelho entre o ombro e o ouvido enquanto tento secar-me com a outra mão.
Afinal, eu sei que é ela.
— Bom dia, dorminhoca.
Sorrio.
A voz de Ashanti, do outro lado da cidade, faz meu estômago dar uma cambalhota. Sua voz é suave, mas carregada daquela segurança que só ela tem.
— Bom dia! — Respondo, tentando não parecer tão animada, mas falhando miseravelmente.
— Já olhou pela janela? — Ela pergunta com aquela voz deliciosa, e eu posso imaginar um sorriso abrindo-se em seus lábios.
Aproximo-me da janela e olho para o quintal de casa. O chão de terra está manchado por desenhos de luz e sombra, formados pelo sol da manhã que trespassa galhos e folhas das árvores. Nunca deixo de me encantar com o belo quintal que temos.
— Está lindo hoje. Parece que o universo conspira para fazer tudo perfeito — respondo.
Ela ri baixinho.
— Ou talvez seja só o efeito do nosso amor, que incrivelmente cresce mais e mais a cada dia.
Sorrio e tenho certeza de que ela também. Há uma pequena pausa antes de ela continuar:
— Aliás... você tem planos para o almoço?
Meu coração acelera.
— Na verdade, eu preciso conversar com você, e seu convite vem em boa hora. Ontem contei aos meus pais sobre nós, o que acabou gerando uma pequena discussão entre mim e o Maciel. Seu João teve que enfrentá-lo, e isso fez minha mãe chorar um pouco com toda a situação.
Faço uma careta ao lembrar de ontem, mesmo sabendo que ela não pode me ver.
Ashanti solta um longo suspiro e faz uma pausa. Eu a imagino deitada em sua cama, com a cabeça apoiada naquele macio travesseiro que eu já conheço, segurando o celular com aquela expressão preocupada que percebo sempre que algo a inquieta.
— Nossa, querida... deve ter sido muito difícil. Como seus pais reagiram?
— Achei que seria uma tragédia. Meus pais são muito religiosos, principalmente mamãe. Papai aceitou bem, eu acho, mas Dona Maria parece um pouco relutante. Eles querem conversar com você, conhecer você melhor... e a Melissa também.
Sorrio ao imaginar Mel com meus pais, como netinha e avós.
— Amor... eu preciso te ver. Preciso de você.
O jeito como ela diz a última parte — mais baixo, quase hesitante — faz meu rosto esquentar.
— Neste momento, amor, eu também preciso muito de você — digo, mordendo o lábio para conter a excitação —, mas quero que meus pais conversem com você. Quero muito que vocês se entendam. Você vê algum problema nisso?
— Claro que não, querida. Convide-os, por favor. Quero muito conversar com eles e mostrar o quanto eu amo e respeito você... e a eles também. Mas preferia que seu irmão não viesse, não com Mel por aqui.
— Sua decisão de conversar com eles me deixa muito feliz. Vou falar com meus pais sobre o convite. E quanto ao Maciel, fique tranquila: ele saiu ontem batendo a porta e tenho certeza de que ainda não voltou.
— Você quer que eu faça algo especial?
— Não precisa. Meus pais são pessoas simples, você deve ter notado. Eles comem de tudo, e o que você fizer eles vão apreciar.
— Que tal fricassê de frango e lagarto ao molho madeira com legumes?
Fico boquiaberta.
— Nossa... e você vai fazer tudo isso?
— Duvida dos meus dotes culinários?
— Claro que não, amor. Mas isso não parece um almoço simples.
— Mas será, eu prometo.
— Combinado, linda! — Respondo, sorrindo.
Quando desligo, sinto meu rosto quente e o coração batendo forte. Olho para o espelho. Meus olhos brilham, minha pele parece diferente, e eu mal posso esperar pelo encontro de meus pais com Ashanti e Mel.
Este é um domingo que promete. E o sol iluminando o dia parece ser a prova de que terei um almoço para aproveitar com as pessoas que mais amo no mundo.
O melhor dia de todos, desejo ardentemente.
Casa De Ashanti
Tarde De Domingo
Agosto 19, 2018.
Papai para o seu Volkswagen Voyage em frente à casa de Ashanti.
Seu jardim esmerado — estilo americano — repleto de belas plantas e banhado pelo sol da tarde, faz com que folhas e flores, filtradas pela luz, desenhem sombras delicadas no chão da entrada da casa.
Meu coração bate tão forte que quase consigo ouvi-lo.
No banco da frente, papai desliga o motor com um movimento tranquilo, mas seus dedos tamborilam no volante por um segundo a mais do que o normal. No retrovisor, seus olhos — tão parecidos com os da filha — encontram os meus.
— Pronta, filha?
A pergunta é simples, mas carregada de camadas.
Engulo em seco, sentindo as palmas das mãos úmidas.
— Tão pronta quanto posso estar.
No banco da frente, mamãe ajusta a correntinha de ouro, que traz na ponta uma pequena imagem de sua santa de devoção: Santa Maria Goretti. Foi um presente de Seu João, e ela jamais a tira.
Percebo que seus dedos tremem levemente.
Sem dizer uma palavra, ela se vira em minha direção, pega minha mão e a aperta com carinho.
— ''Sede fortes e corajosos. Não temais, nem vos atemorizeis diante deles, porque o Senhor, vosso Deus, é quem vai convosco; não vos deixará, nem vos desamparará. '' ²
A citação inesperada me faz soltar uma risada nervosa. Assinto, aceitando suas palavras e tentando quebrar um pouco da tensão que pesa dentro do carro.
Saímos os três quase ao mesmo tempo.
Antes mesmo que possamos chegar à porta, ela abre-se.
Ashanti está ali, sorridente, usando um vestido simples de linho azul que valoriza sua pele negra e faz seus olhos parecerem ainda mais profundos. Apesar de parecer novo, não é; ela já o usou em uma das vezes em que me recebeu. É um vestido que sei que ela usa apenas em casa, quando está completamente à vontade.
— João, Maria — cumprimenta ela, com uma determinação que eu nunca tinha ouvido em sua voz, mas sem deixar de sorrir.
Faz uma pequena pausa antes de completar:
— Entrem, por favor.
Meus pais assentem e entram primeiro.
Ela permanece parada, esperando por mim.
Ao passar por ela, nossos corpos se roçam e sinto o calor de sua pele mesmo através do tecido. Ela cheira a jasmim; está perfumada com o Flora Gorgeous Jasmine, da Gucci, perfume que começou a usar com mais frequência depois que eu disse que gostava do seu cheiro.
A sala está impecável, com almofadas arrumadas meticulosamente no sofá, e um buquê de rosas vermelhas na mesa de centro perfuma o ambiente com sua fragrância. Todos os cheiros misturados deixam o lugar muito aromático.
— ISE!
Mel irrompe da cozinha como um pequeno furacão, seus pés descalços batendo no chão de madeira, enquanto Algodão é puxado pela orelha. Seus poucos dreads estão perfeitamente alinhados, e ela tem farinha no nariz.
Sem cerimônia, ela joga-se nos meus braços e, surpresa, mas emocionada, eu a pego no colo.
— Opa, minha pequena — rio, segurando-a com firmeza, enquanto ela já aponta para a estante atrás de mim.
— Olha, Ise, eu coloquei os livros em ordem alfabética pra mamãe!
Ashanti, parada no centro da sala, observa a cena com uma expressão que alterna entre surpresa e ternura, sem abandonar o sorriso.
Olho para meus pais e vejo que eles analisam cada detalhe da sala, observando as fotos de Ashanti e Mel em alguns porta-retratos. A sala é bem organizada, com móveis discretos, mas que claramente parecem caros. Talvez estejam pensando em como nossa casa é pequena.
— Pessoal, vamos sentar — diz Ashanti, apontando para os sofás.
Em um movimento rápido, jogando o corpinho para frente antes que eu possa impedir, Mel pula do meu colo e corre para uma poltrona, sentando-se agarrada a Algodão.
— Ise, a sua mamãe está mais calma hoje...
A observação é tão genuína que até mamãe, ainda rígida, não consegue evitar um pequeno sorriso. Melissa, sem dúvida, conquistará meus pais. E talvez, só talvez, ela seja a ponte que unirá Ashanti e eu a eles.
— Melissa — intervém Ashanti, em tom de advertência, embora seus olhos estejam cheios de afeto.
— Tudo bem, doutora — apressa-se em dizer mamãe. — Sim, querida, hoje eu estou mais calma e contente por ser convidada para almoçar com vocês.
— Mas vocês não são convidados, né, mamã? São da família! — Declara Mel, como se explicasse o óbvio.
Então ela se volta para mim:
— Ise, você não contou pra eles que logo, logo, a gente vai ser tudo família?
Meu coração erra uma batida. Meus pais nos olham, surpresos. Essa foi uma conversa que eu e Ashanti tivemos dias atrás. Mel estava conosco, mas achei que ela não tinha escutado.
Ashanti cora levemente.
Papai ri, uma risada calorosa que ecoa pela sala.
— Pois é, doutora — ele diz, olhando para Ashanti com uma expressão mais leve, diferente de mamãe, que permanece mais séria, com as mãos cruzadas sobre o colo —, parece que sua filha já decidiu por todos nós.
Ashanti baixa os olhos por um instante, mas vejo o canto de seus lábios se curvar em um sorriso que ela não consegue esconder. Quando levanta o olhar novamente, seus olhos estão brilhando.
— Sim — murmura ela, com uma voz mais suave, mas firme, encarando meus pais. — Mel é muito sincera.
Mamãe, que havia voltado ao silêncio, cruza os braços. Eu conheço aquele gesto: é sua postura de ''conversa séria ''.
— Então... — ela começa, primeiro olhando para lugar nenhum, limpando imaginariamente uma poeira na manga da blusa com a ponta dos dedos, e depois encara Ashanti — você e minha filha...
O ar na sala parece ficar mais pesado. Até Mel, normalmente tagarela, fica quieta. Seus olhos grandes alternam entre os adultos, como se soubesse que algo importante está acontecendo.
Ashanti não hesita. Endireita os ombros e sustenta o olhar da minha mãe sem vacilar.
— Sim, Dona Maria. Eu e sua filha.
Ela faz uma pequena pausa, e eu vejo suas mãos se apertarem levemente.
— Eu amo a Louise. E quero fazer isso direito. Com a sua bênção e a do Seu João, se possível.
Papai, em silêncio, acompanha tudo.
Mamãe fica imóvel por um momento que parece durar uma eternidade. Então, lentamente, seus ombros relaxam e ela descruza os braços. Levanta-se e dá um passo à frente, parando no meio da sala. É evidente que está inquieta.
— Eu... ainda não entendo tudo — admite, com uma serenidade que me surpreende. — Sou uma mulher que recebeu outros ensinamentos, onde sempre o normal era o homem e a mulher como casal, assim como o João também. Mas, se você faz minha filha feliz — seus olhos encontram os meus por um instante —, então vamos aprender juntas.
Ashanti, que se levanta enquanto mamãe fala, segura as mãos dela e sorri.
Finalmente consigo respirar fundo.
Percebo então que estou segurando meu próprio pulso com tanta força que deixo marcas.
— Maria, apesar de tudo ser muito recente, não duvide: o que eu sinto pela Louise é amor verdadeiro. Eu jamais faria algo para magoá-la ou para deixar vocês dois tristes. Eu e a Mel queremos ela em nossa vida.
Mel, agora em pé entre elas — sempre a quebra-gelo perfeita — puxa a barra do vestido da minha mãe.
— Você vai experimentar o bolo de chocolate que eu ajudei a fazer? Eu quebrei três ovos sozinha! Só caiu um pouco de casca na massa, mas a mamãe tirou!
A descrição cômica faz até mamãe rir, um som genuíno e verdadeiro que eu sempre adoro ouvir.
— Claro, minha filha — ela responde.
E a escolha da palavra ''filha'' não passa despercebida por nenhum de nós.
Enquanto todos seguem para a cozinha — com Mel puxando as mãos dos meus pais e tagarelando sobre como decorou o bolo com um ''M'' de Melissa — eu fico para trás por um instante.
Ashanti percebe e se volta para mim.
Sem dizer uma palavra, suas mãos encontram as minhas, nossos dedos se entrelaçando naturalmente. Seu toque é firme e reconfortante.
— Eles estão tentando... principalmente mamãe — sussurro, olhando na direção da cozinha, de onde ouço a voz animada de Mel explicando algo para meus pais.
Ashanti aproxima-se mais, seu perfume envolvendo-me.
— É mais do que eu esperava — admite em um sopro, antes de pressionar um beijo leve em minha têmpora.
Na cozinha, Mel grita:
— Mamã, vem cá me ajudar a cortar o bolo!
— O bolo é para depois do almoço, Melissa! — Ela responde, enquanto caminhamos em direção à cozinha.
É um começo. Com arestas, um pouco hesitante, mas real.
Quando entro na cozinha e vejo meus pais sentados à mesa, com Mel equilibrando-se precariamente em uma cadeira para alcançar as xícaras dentro do armário, enquanto eles observam tudo atentamente, percebo que, de alguma forma, tudo dará certo.
Ashanti aperta minha mão uma última vez e a solta antes de se juntar a eles.
Eu sigo atrás, sentindo que todas as partes da minha vida finalmente começam a se encaixar.
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¹ Maneira Simples - Almir Sater: 3:45
Single By Almir Sater From The Album ''7 Sinais'' - 2007
Compositores: Almir Eduardo Melke Sater/Paulo Simões.
Letra De Maneira Simples © Galeão Produções Artísticas Musicais e Comerciais Ltda./Novodisc Mídia Digital Da Amazônia Ltda./The Orchard, Sony Music Entertainment.
Link Discogs:
https://www.discogs.com/release/17883391-Almir-Sater-7-Sinais
Link Wikipedia:
https://pt.wikipedia.org/wiki/7_Sinais
Link YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=J-lGUlln9L0
² Deuteronômio 31:6
Fim do capítulo
''Nil sapientiae odiosius acumine nimio.''
Sêneca
FOR NOW, THAT'S IT!
Tenham uma boa leitura e comentem à vontade.
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