Capítulo 20

Capítulo XX - Vamos Fechar Os Olhos E Fazer O Nosso Proprio Paraiso

de Impetuosas, por Omuwandiisi

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Capítulo XX
''Vamos Fechar Os Olhos E Fazer O Nosso Próprio Paraíso''¹



Rochedo, Paraná – Brasil.
Início Da Noite De Sexta-Feira.
Setembro 21, 2018.

Ashanti

Eu não era uma chef de cozinha, longe disso, mas gostava de cozinhar quase sempre. Cozinhar dava-me uma sensação de controle suave sobre o meu mundo particular, como se, entre panelas e aromas, eu pudesse organizar aquilo que lá fora insistia em ser caótico. Por isso, naquela noite, dispensei Benê sem culpa alguma e resolvi assumir o fogão. Era uma daquelas noites em que eu queria fazer tudo com as próprias mãos.
Tinha encomendado uma massa caseira de lasanha de uma pequena cantina do bairro, daquelas que ainda usam receitas antigas e orgulham-se da espessura perfeita da massa. Agora, espalhava os ingredientes sobre a bancada: tomates maduros, cebolas roxas, dentes de alho, azeite extravirgem, queijo fresco, parmesão ralado na hora. Tinha combinado com minhas meninas que faria uma lasanha especial para nós. Nada de receitas complicadas, mas tudo feito com muito carinho.
Resolvi preparar uma lasanha com molho vermelho e ervas finas. Como ervas, escolhi alecrim, tomilho, orégano e manjericão. Cada uma tinha um gosto, um aroma diferente, e eu gostava de pensar que aquele prato era uma forma de como eu penso em nós três. Cada camada carregava um pouco de cada uma de nós: eu seria o alecrim, aroma intenso, resinoso e mentolado; Louise seria o orégano, sabor marcante, levemente picante e Melissa seria o manjericão, mas marcante
Como eu sempre cozinhava com música, preparei uma playlist com alguns standards de jazz. A cozinha estava preenchida pela voz aveludada de Ella Fitzgerald, que cantava como se estivesse ali, encostada no balcão, observando-me trabalhar.
''Vamos nos apaixonar
Por que não nos apaixonamos?
Nossos corações são feitos para isso
Vamos dar uma chance
Por que ter medo para isso?
Vamos fechar os olhos e fazer o nosso próprio paraíso
Sabemos pouco a respeito, ainda assim podemos tentar
Fazer com que dê certo'' ¹
Havia algo de ritualístico naquele momento: a faca cortando os tomates, o aroma do azeite quente recebendo o alho, o vapor subindo lentamente. A fragrância do alho dourado no azeite já tomava a cozinha quando escutei a porta da frente ser aberta com mais barulho do que o necessário.
Mel, com certeza.
Ergui os olhos do fogão no exato momento em que adicionava o molho de tomate natural à panela. A distração foi suficiente para que um respingo traidor saltasse e manchasse de vermelho meu avental novo, estampado com pequenas flores do campo. E não foi só meu avental novo que sujou, no piso da cozinha vi que gotas do meu avental tinham escorrido para o chão.
— Droga! — Resmunguei, mais chateada do que irritada, olhando para a pequena sujeira feita.
— Deixa que eu limpo, amor — disse Louise, já adentrando a cozinha com aquele sorriso que sempre desarmava-me.
Ela ainda estava com o jaleco da escola, dobrado cuidadosamente sobre o braço. Alguns cachos escapavam do rabo de cavalo desleixado, emoldurando o rosto levemente cansado, mas bonito de um jeito que fazia minhas pernas bambearem. Seus olhos encontraram os meus e, antes que qualquer palavra fosse dita, seus lábios tocaram os meus em um beijo calmo, carregado de saudades. Aquelas saudades pequenas, do tipo que acumulam-se ao longo do dia.
— Boa noite, chef improvisada — murmurou contra minha boca. — Perdoe-me o atraso.
— Boa noite, professora exausta — respondi, sorrindo. — Problemas na escola?
Sorrindo, negou com a cabeça.
— Mamã, chegamos! — A voz de Mel ecoou pela sala, acompanhada pelo som inconfundível de mochilas sendo jogadas no chão e sapatos sendo retirados às pressas, jogados em qualquer canto, hábito que tanto eu quanto Louise tentávamos mudar em nossa mocinha.
Ouvi uma voz diferente vindo da sala.
— Parece que nossa menina trouxe mesmo a convidada — sussurrei para Louise, que já afastava-se em busca do pano de chão.
— Sim, querida, trouxe — respondeu, retornando da área de serviço com o rodinho em uma mão e o pano na outra, agachando-se para limpar o pequeno desastre no chão.
Sem parar de mexer o molho, fiquei de olho na entrada da cozinha. Meu coração acelerou de um jeito bobo.
— É aquela que você acha que... — comecei a falar, baixando a voz.
Louise, já em pé, tocou meus lábios com o indicador, interrompendo-me.
— Querida... — murmurou, com um meio sorriso. Assentiu em seguida, antes de voltar à área de serviço. — Mas calma. Vamos com jeitinho — disse, já de volta, parando à minha frente.
Respirei fundo. Claro, sempre com jeitinho.
— Mamã! Mãe Ash! — Mel apareceu na porta da cozinha parecendo um pequeno furacão, um sorriso imenso estampado no rosto, linda em cada centímetro de sua postura confiante.
As pontas dos cachos estavam agora tingidas de um vermelho-rubi vibrante, algo que ela tinha negociado comigo e com Louise durante semanas. Então, Mel se moveu para o lado, revelando uma garota, toda tímida, atrás de si.
— Essa é a Clarinha.
Clara tinha mais ou menos a mesma estatura de Melissa. Acho que a mesma idade, também. Usava tranças loiras cuidadosamente tecidas e uma camiseta multicolorida das Meninas Superpoderosas, formando algo parecido com um arco-íris vibrante. Ela ergueu a mão em um aceno hesitante.
— Boa noite, dona Ashanti — disse, sorrindo, com uma voz suave, mas parecendo-me firme para a idade. — Obrigada por me receberem.
Meu coração derreteu como manteiga no fogão quente.
Adiantei-me, limpando as mãos no guardanapo de pano antes de estender minha mão para ela.
— Clara, querida, é um prazer finalmente conhecer você. Mel não parou de falar sobre você nos últimos dias.
Seu aperto de mão foi firme.
— Mãe! — Mel protestou de imediato, o rosto ficando tão vermelho quanto as pontas do cabelo.
Clara levou a mão à boca, tentando esconder um pequeno sorriso.
— Eu só falei um pouco — Mel murmurou, cruzando os braços.
— Um pouco que dava um livro inteiro — Louise comentou, surgindo atrás de nós.
— Louise, você também! — Mel reclamou, enquanto todas nós ríamos.
— Fiquem à vontade, meninas — falei às duas, apontando para a mesa e tentando suavizar o clima, mas sabia que Mel não estava zangada conosco. — A lasanha já está quase pronta.
— Está com um cheiro incrível — comentou Clara, os olhos brilhando, enquanto Mel sentava-se.
— Ashanti leva isso muito a sério — disse Louise. — Cozinhar é o jeito dela dizer ''eu amo vocês''.
Clara olhou-me com atenção, como se guardasse aquela informação com cuidado.
— Vamos, Clara, sente-se também — Louise indicou a mesa. — Ashanti prometeu uma lasanha especial. Espero que esse cheiro não seja de queijo queimado.
— Louise! — Protestei, atirando o pano de prato na direção dela.
O pano passou raspando e caiu sobre a pia. Louise corou, arrancando risadas de todas nós.
— Estou brincando, amor — disse, envolvendo-me em um abraço rápido.
— Então, vamos comer — Mel anunciou, batendo palminhas como se fosse um bebê.
Clara, sentada ao seu lado, riu do gesto da amiga. Então, as duas começaram a conversar baixinho, cochichos cheios de risadinhas que faziam Louise lançar-me olhares cúmplices.
Fui buscar a lasanha no forno, que já estava desligado havia algum tempo, e Louise foi buscar uma garrafa de vinho. Na mesa, já estava uma garrafa de suco de uva para as meninas. Enquanto servíamos os pratos, Clara observava tudo com curiosidade atenta.
— Você gosta de cozinhar sempre assim? — Perguntou ela, de repente.
— Gosto quando posso — respondi. — Principalmente quando é para pessoas que eu amo.
Mel segurou minha mão por um segundo.
— Mamã faz a melhor lasanha do mundo — declarou, com orgulho.
— Melhor que a da cantina da esquina — completou Louise.
— Isso é muita responsabilidade — Clara disse, sorrindo.
— Então coma com cuidado — respondi, piscando.
E, enquanto o jantar começava, percebi que aquela mesa tinha espaço para mais histórias, mais afetos e, talvez, algumas descobertas.

. . . o O o . . .

Enquanto servíamos a comida e o vinho — um Chianti Clássico encorpado para nós, suco de uva para as meninas —, observei Mel e Clara trocando olhares e sorrisos discretos entre garfadas, goles do suco e conversas. Não tinha como não notar a maneira como Mel inclinava-se levemente na direção da garota, para ouvi-la melhor ou, quem sabe, como se não conseguisse ficar muito longe da menina. Clara falava agora sobre um projeto na escola. A forma como Clara animava-se ao falar sobre seu projeto de robótica fazia Mel olhar como se ela tivesse inventado a lua. Apesar da juventude de Clara, ela demonstrava ser uma menina muito madura e esperta.
Era tão familiar que arrepiava.
— Então, Clara — Louise ergueu sua taça, os olhos brilhando, observando as meninas, nos lábios um sorriso matreiro. — Mel nos contou que você é a melhor da turma em matemática. Finalmente, alguém nessa mesa que entende de números.
Clara sorriu tímida, abaixando o olhar para o seu prato, suas faces ficando vermelhas.
— Mamãe Lou! — Mel interveio, revirando os olhos, mas seu tom era afetuoso. — Eu tirei nove em matemática no bimestre passado, lembra?
— Claro que lembramos, filha — intervi, servindo mais lasanha no prato das duas. — Mas seu talento sempre foi para as palavras, minha linda. Lembra daquela sua redação sobre amizade e respeito, que ganhou o concurso na sua escola?
— Eu não canso de ler aquela redação, dona Ashanti — disse Clara, olhando para mim e para Louise. — Realmente, Mel mereceu ganhar o primeiro lugar — completou, enchendo a boca com um bom pedaço de lasanha.
— Vocês duas, meninas, estão de parabéns — afirmou Louise. — Brindemos.
Todas nós pegamos nossos copos e taças e fizemos o brinde proposto por Louise.
A conversa fluiu fácil até todas estarem satisfeitas. Já não comíamos há algum tempo. A lasanha tinha praticamente desaparecido da travessa e o suco e o vinho já tinham terminado.
— Mamã, tem sobremesa?
— Claro, filha, encomendei uma torta de maçã. Você gosta de doce, Clara? — Perguntei à menina que tinha feito uma cara de assustada depois da pergunta da Mel.
— Gosto, dona Ashanti, mas acho que não cabe mais nada.
Rimos da observação da menina.
— Fraca! — Provocou Mel.
— Melissa — ralhou Louise. — Faz assim, Clara, pega só um pedacinho para experimentar. Essa torta que Ashanti comprou é deliciosa. Aqui, em casa, quase toda semana comemos uma.
— É verdade — confirmo.
— Então, só um pedacinho — aceita a menina.
Louise levantou-se, foi até a cozinha e voltou rapidamente com a deliciosa torta nas mãos. Os pratinhos e colheres já estavam na mesa. Louise deu bons pedaços para nós e, como tinha pedido Clara, um pedaço bem pequeno no pratinho dela.
— Se quiser mais, é só pedir, querida — afirmei, apontando para a torta que Louise tinha acabado de cobrir.
— Obrigada, dona Ashanti.
— Ei, sem o 'dona', lembra?
— Sim, senhora, quer dizer, Ashanti.
— Isso — confirmei, sorrindo para ela.
A conversa continuou a fluir deliciosamente. Louise acabou contando que, em um evento na escola, derrubou um bolo inteiro na diretora da escola, depois de tropeçar e quase ir ao chão, sujando todo o vestido da mulher.
— Espera, então você realmente derrubou todo o bolo no vestido da dona diretora da nossa escola? — Clara perguntou, os olhos arregalados.
— Sim — confirmou minha mulher, enquanto saboreava a torta de maçã do seu pratinho, quase vazio, por sinal.
— Benfeito para ela — disse Mel —, que é uma chata.
— Filha — foi minha vez de chamar sua atenção. — Independentemente de como ela for, não se pode desejar o mal a ninguém. Lembra da sua redação?
— Desculpa, mamãe — disse sincera.
— É que ela é chata mesmo — interveio Louise.
— Amor! — Apesar do meu protesto, todas rimos.
— Mas, no final, ela perdoou-me. Ela viu que não tive culpa do incidente, mas eu dei um novo vestido para ela, mesmo ela não querendo. Isso até nos aproximou mais.
— Amor, todas as coisas mais importantes na vida — afirmo, olhando para Louise, segurando meu olhar sobre o seu por um segundo a mais do que o necessário —, são aquelas que não saem exatamente como planejamos.
Ela sorri, pegando minha mão e dando um beijo em seu dorso.
As meninas ofereceram-se para lavar as louças e talheres usados no jantar. Não nos opusemos.
Depois de guardarmos o que sobrou da torta e da lasanha na geladeira, fomos para a varanda que ficava de frente para a nossa piscina e deitamos, juntinhas e apertadinhas, em uma cadeira espreguiçadeira de piscina.
— Mel está crescendo — murmurei, observando, de onde estava, a janela da cozinha onde Mel ensaboava as louças enquanto Clara enxugava. Seus ombros tão próximos que quase tocavam-se.
Suspirei e olhei para o céu. A noite já tinha chegado trazendo as estrelas brilhantes, a lua presente. Uma luz cruza o céu noturno, riscando os espaços negros entre as estrelas, deixando fragmentos brilhantes para trás até desaparecer, como por encanto. Uma estrela cadente. Meteoro, meteorito ou, quem sabe, lixo espacial.
Louise segurou minha mão, seus dedos entrelaçando-se naturalmente, gesto que era uma constante entre nós.
— Fez um pedido? — Ela também tinha visto a bola de fogo cruzando o céu.
— Fiz, independentemente de ser uma lenda ou não. E você? — Questiono, olhando para seus belos olhos brilhantes, beijando suavemente seus lábios.
— Também — responde, depois de prolongar o nosso beijo. — Uma das explicações para esse costume, que já tem milênios, é que a alma de um novo ser humano está chegando na terra.
— Sério?
— Li em algum lugar.
— Que mulher inteligente eu tenho — e nos beijamos de novo. Entreolhamo-nos assim que o beijo terminou e sorrimos.
— Você está bem com isso? — Indagou, olhando em direção à cozinha. Olhei, também. As duas, agora, estavam encostadas no balcão da cozinha, vendo os celulares e riam de alguma coisa.
— Eu não sei o que pensar ainda, meu amor. Semana passada, o Beto passou o final de semana conosco e ela passou grudada nele, lembra?
— Claro que lembro — respondeu, fechando a cara. — Aquele abusado pegou duas vezes na mão dela.
Ri da sua cara feia. Às vezes, acho que Louise é mais mãe coruja e protetora do que eu.
— Mel nos conhece muito bem e já conviveu com Alice e comigo. Ela confia e ama muito você. Ela sabe que, se precisar, pode conversar conosco.
— Ela é tão criança...
— Por isso mesmo, tudo pode não passar de coisas de crianças. Amor, vamos dar tempo ao tempo — argumento, encostando nossas testas. — Eu sei que você preocupa-se, mas vai dar tudo certo.
— Tenho medo dela sofrer — sussurra, seus dedos apertando os meus.
— Amor, olha para ela — disse, e Louise voltou a olhar para a cozinha. — Ela não tem medo de demonstrar carinho por Clara, nem teve medo de ser atenciosa, até demais, com o Beto. Sinto que ela não está escondendo quem é ou quem pretende ser, mas ainda é muito cedo. Vamos acompanhar com atenção.
Dentro de casa, Mel riu de algo que Clara disse tão alto, que o som chegou até os nossos ouvidos. Nossa filha era livre e isso fazia meu peito inchar de orgulho. Era um sentimento tão intenso que chegava a doer.
— O ciclo continua — Louise murmurou.
Inclinei minha cabeça no ombro de Louise, observando enquanto as meninas desapareciam na direção da sala, mãos dadas e risadas ecoando até elas sumirem da minha visão.
— E o ciclo continuará — concordei, levantando-me e puxando Louise comigo. — Agora vem, amor da minha vida. Acho que temos uma torta de maçã para terminar antes que essas duas devorem tudo.
Louise riu, sapeca, e começou a puxar-me, quase correndo, como uma criança levada.
Enquanto seguíamos de volta para dentro, o vento da noite carregou consigo o som de nossas risadas, misturando-se às das meninas, um quarteto perfeito de felicidade. A noite, perfumada pelo nosso jardim, testemunhava, silenciosamente, a felicidade que todas nós carregávamos em nossos corações.
O amor, quando cultivado com paciência e coragem, nunca termina. Apenas transforma-se, cresce e multiplica-se, como as gardênias que ainda floresciam no jardim, ano após ano, mais fortes e belas a cada primavera.

. . . o O o . . .

Depois de termos namorado bastante em frente à piscina, sem pressa, como tudo o que realmente importava para nós e acolhidas por aquele céu lindíssimo, resolvemos entrar para dormirmos, ou não, afinal, como dizem, a noite é uma criança, e eu desejava fazer amor com minha mulher e queria uma noite longa e cheia de possibilidades.
Passamos pela cozinha, impecavelmente limpa, apesar de no ar ainda haver um pequeno cheiro de manjericão, provavelmente vindo do pano sujo de molho vermelho que Louise deixou na área de serviço. Não posso esquecer de lavá-lo amanhã.
A torta de maça, a deixamos de lado.
Subimos as escadas de mãos dadas e, ao passarmos em frente ao quarto de Mel, ouvimos risadinhas abafadas pela porta fechada, denunciando aquelas duas espertinhas que ainda estavam acordadas. Eu e Louise trocamos olhares cúmplices.
— Devemos dar boa noite?
— Por que não? — Respondi, já batendo com os nós dos dedos na porta do quarto. Louise abriu a porta assim que ouvimos um abafado ''pode entrar''. As duas estavam deitadas na cama, sorrisos nos rostos, celulares na mão; na grande televisão do quarto estava passando um videoclipe de Ed Sheeran, ''Shape Of You''...
''Estou apaixonado pelo seu corpo
Como ímãs, nossa atração nos faz ir e voltar
Mesmo que meu coração esteja se apaixonando também
Estou apaixonado pelo seu corpo
Na noite passada, você estava no meu quarto.
E agora meus lençóis têm o seu cheiro
Todos os dias descobrimos algo novo
Estou apaixonado pelo seu corpo'' ²
Suspirei. Espero que elas gostem da música pelo seu ritmo e não por sua letra.
— Meninas, viemos dar boa noite.
— Boa noite, mamã. Boa noite, Lou!
— Boa noite, dona Ashanti, dona Louise.
— Boa noite para vocês, também — disse Louise, sorrindo para as duas. — E Clara, sem os 'donas', lembra?
Clara assentiu, ficando com as maçãs do rosto mais vermelhas do que já estavam.
— E não durmam muito tarde, certo, filha?
— Sim, mamã!
— E juízo — Louise chamou a atenção delas, fazendo uma cara séria.
Fechei a porta do quarto das duas antes de escutar qualquer uma resposta e caminhamos para o nosso.

. . . o O o . . .

Louise guardava nossas escovas de dentes enquanto eu enxugava meu rosto que tinha acabado de lavar com um sabonete hidratante. Estávamos já há algum tempo em silêncio, um silêncio confortável, cúmplice, desses silêncios que só existem quando duas pessoas se conhecem o suficiente bastante para não precisar preencher cada minuto, cada espaço, com palavras.
— Ela gosta da Clarinha — disse Louise de repente, quebrando o silêncio com suavidade.
— Parece que sim — respondi, olhando-me no espelho. — E acho que ela olha diferente para Clara, diferente da maneira que olhava para o amigo que trouxe antes. E acho que não é pouco.
Louise sorriu de lado, apoiando as mãos no balcão do banheiro.
— Eu sei. Reconheço aquele brilho nos olhos.
Virei-me para ela, cruzando os braços.
— Reconhece?
— Reconheço porque a mamã dela já teve — provocou, em tom baixo, sorrindo.
— Ainda tenho — respondi, sem hesitar.
Poucos segundos depois, seu sorriso dissolveu-se, seu rosto ficou mais sério, mas contemplativo. Aproximei-me dela, apoiei os quadris no balcão e a abracei, observando-a com atenção. Havia uma espécie de tensão, talvez cansaço, em seus ombros, algo que não parecia ser apenas do dia na escola, tensão que eu já havia notado na mesa, durante o jantar.
— Você ficou um pouco pensativa durante o jantar — comentei. — É porque seu irmão não aceitou que nós pagássemos um advogado para ele?
— Não é nada com Maciel. Já que ele não quis nossa ajuda, mesmo depois de tudo o que ele fez com você, não posso fazer nada. Sinto pelos meus pais.
— Tínhamos que fazer nossa parte. Eu também sinto pelo João e pela Maria, mas não podemos fazer mais nada. Nem sei se quero — ela assente, enquanto envolve meu pescoço com seus braços. — Se não foi o problema com seu irmão, o que a deixou pensativa?
— Ver a Mel assim, crescendo, sentindo, descobrindo, deixa-me feliz e assustada ao mesmo tempo — admitiu.
Aconcheguei-a em meus braços, apertando-a com carinho.
— Assustada com o quê, meu bem?
Louise respirou fundo antes de responder.
— Com as pessoas. Com a forma como elas ainda insistem em combater o que não entendem, pelo menos a maioria delas.
Apertei-a ainda mais.
— Eu sei — disse, fazendo carinho em suas costas. — Mas quando eu olho para ela, olho para nós, sinto que estamos construindo algo forte aqui, perene.
Ela assentiu, mas seus olhos estavam marejados.
— Às vezes, eu tenho medo de não ser forte o bastante quando ela precisar — confessou. — Medo de não saber protegê-la de tudo.
Toquei seus lábios levemente com os meus.
— Amor, ninguém consegue proteger alguém de tudo, mas podemos ensiná-la a atravessar os seus maus momentos.
Ela olhou-me longamente, como se estivesse buscando palavras.
— Você sempre sabe como dizer essas coisas — murmurou.
— Não sei se sei — respondi com sinceridade. — Só digo o que sinto.
Encostei minha testa na dela. Ficamos assim por alguns segundos, respirando juntas, compartilhando aquele momento doce de cumplicidade e compreensão, mas eu sentia o cansaço chegar, aquele tipo de cansaço que só aparece depois de um dia longo e cheio de altos e baixos. E sabia que ela sentia o mesmo que eu.
— Obrigada pela lasanha — ela disse, quase em um sussurro. — Não só pela comida, mas por tudo o que ela representa.
— Família? — Perguntei.
— Casa — corrigiu.
Sorri, sentindo um nó formar-se na garganta.
— Às vezes, eu penso no quanto demoramos para chegar até aqui — falei. — Em algumas coisas que deixamos para trás.
Louise passou o polegar pelo meu maxilar.
— Mas chegamos, e juntas — disse. — E isso é o que importa, é o que realmente importa.
Beijei-a devagar, sem pressa, uma forma de reafirmar nosso pacto pela vida. Beijei-a com um beijo que não pedia nada, apenas presença.
— Vamos para a cama? — Sugeri. — Quero assistir aquele filme antigo de que você gosta tanto, que tem aquela artista de quem você disse que tinha um crush nela.
— Piper Perabo? — Perguntou, já sorrindo.
— Essa mesma.
Apagamos as luzes do quarto e deixamos apenas o abajur aceso, deixando o quarto com uma iluminação aconchegante. Louise colocou o DVD para rodar, e logo as imagens preencheram a tela na nossa frente. Acomodamo-nos na cama, braços enlaçados, enquanto os créditos do filme 'Imagine Me & You' avançavam na tela. Ombro a ombro, uma das pernas dela sobre a minha.
— Elas vão crescer rápido demais — Louise comentou, ainda preocupada com as meninas.
— Mas hoje não, hoje elas ainda são nossas crianças — respondi.
— E eu sou de você — ela disse, beijando-me com paixão.
Fechei os olhos, amando o beijo, sentindo o ritmo tranquilo do nosso amor construído em detalhes pequenos, em jantares simples, em conversas honestas.
Ali, naquele beijo compartilhado, eu sabia que o nosso amor jamais seria destruído.

''FINIS OPERIS''

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¹ Let's Fall In Love [Vamos Nos Apaixonar] - Ella Fitzgerald - 3:04
Track By Ella Fitzgerald From The Album ''Sings Sweet Songs For Swingers'' - 1959
Written-By – Hyman 'Harold Arlen' Arluck/Theodore L. 'Ted' Koehler
℗ 1958 Verve Label Group, a Division of UMG Recordings, Inc.
Phonographic Copyright ℗ – Island Records Inc. Record Company – BBC Enterprises Ltd.
Link Discogs:
https://www.discogs.com/release/19026454-Ella-Fitzgerald-Sings-Sweet-Songs-For-Swingers
Link Wikipedia:
https://en.wikipedia.org/wiki/Ella_Fitzgerald_Sings_Sweet_Songs_for_Swingers
Link YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=fF6x1ta9j1w&list=RDfF6x1ta9j1w&start_radio=1
² Shape O You [A Sua Forma] - Ed Sheeran - 3:54
Track By Ed Sheeran From The Single ''Shape Of You'' - 2017
Compositores: Kevin Jerome 'She'kspere' Briggs/Kandi L. Burruss/Tameka Dianne Cottle-Harris/Steven 'Steve Mac' Mccutcheon/John 'Johnny' Mcdaid/Edward Christopher 'Ed' Sheeran
Letra De Shape Of You © Sony/Atv Music Publishing Llc, Kobalt Music Publishing Ltd., Universal Music Publishing Group, Warner Chappell Music, Inc, Spirit Music Group, Bmg Rights Management.
Link Discogs:
https://www.discogs.com/release/9617090-Ed-Sheeran-Shape-Of-You
Link Wikipedia:
https://en.wikipedia.org/wiki/Shape_of_You
Link YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=_dK2tDK9grQ&list=RD_dK2tDK9grQ&start_radio=1

Fim do capítulo

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