Capítulo 3

Capítulo 3 — Duas desconhecidas

de O Destino, por Leoa da Estrela

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Megan continuou pela estrada durante alguns minutos, mas a imagem daquela mulher não saía de sua cabeça.
Não era a primeira vez que alguém atravessava seu caminho de maneira imprudente.
Também não seria a primeira vez que discutia com alguém por causa disso.
Mas havia alguma coisa diferente.
Talvez fosse o olhar.
Megan não sabia explicar.
Quando Sarah levantara os olhos para ela no meio daquela rua, por apenas alguns segundos, sentira uma coisa estranha no peito.
Uma sensação rápida.
Familiar.
Como se aqueles olhos já tivessem procurado pelos seus alguma vez.
Megan balançou a cabeça.
— Você está cansada demais, Ghost.
Acelerou.
Não queria pensar naquela mulher.
Tinha coisas mais importantes para fazer.
O cemitério ainda estava a alguns minutos dali.

Sarah, por outro lado, conseguiu alcançar o autocarro.
Entrou praticamente sem fôlego e ouviu o motorista reclamar:
— Da próxima vez, saia de casa cinco minutos mais cedo.
— Eu vou tentar.
— Você disse isso ontem.
Sarah sorriu sem graça e passou pela catraca.
Sentou-se perto da janela.
Só então percebeu que estava tremendo.
Fechou os olhos e respirou fundo.
Por pouco.
Muito pouco.
Ela poderia ter sido atropelada.
— Que mulher maluca...
A lembrança da motociclista voltou imediatamente.
Aquela voz.
A maneira como ela falava.
O olhar por trás da viseira.
Sarah abriu os olhos.
Por algum motivo, aquela desconhecida havia deixado uma sensação estranha.
Não era exatamente medo.
Era outra coisa.
Uma espécie de reconhecimento que ela não conseguia explicar.
Sarah levou a mão ao peito.
— Eu nunca vi aquela mulher na vida.
Disse aquilo em voz baixa, como se precisasse convencer a si mesma.
O autocarro seguiu seu caminho.
E Sarah deixou a imagem daquela motociclista para trás.
Ou pelo menos tentou.

O resto da manhã passou lentamente.
Sarah chegou ao escritório alguns minutos atrasada, recebeu um olhar nada satisfeito do chefe e mergulhou imediatamente no trabalho.
Planilhas.
Documentos.
Telefonemas.
Números.
Era tudo exatamente como deveria ser.
E Sarah gostava disso.
A rotina fazia com que as coisas parecessem seguras.
Previsíveis.
Controláveis.
Quando chegou a hora do almoço, Juliana apareceu ao lado de sua mesa.
— Você está estranha.
Sarah levantou os olhos do computador.
— Eu?
— Você.
— Estou trabalhando.
— Não. Você está olhando para essa mesma planilha há uns cinco minutos.
Sarah olhou para a tela.
Realmente estava.
— Estou cansada.
Juliana cruzou os braços.
— Isso tem alguma coisa a ver com o quase atropelamento que você me contou por mensagem?
Sarah soltou um suspiro.
— Talvez.
— Como assim, talvez?
— Eu quase fui atropelada por uma moto.
— Sarah!
— Eu estou bem.
— Quem estava dirigindo?
Sarah fez uma pequena careta.
— Uma mulher.
— Bonita?
Sarah abriu a boca para responder.
Parou.
Não sabia por que aquela pergunta a deixara desconfortável.
— Eu... não reparei.
Juliana arqueou uma sobrancelha.
— Sei.
— Sério.
— E como ela era?
Sarah olhou novamente para a tela.
— Não sei.
Mas sabia.
Sabia que ela tinha cabelos cacheados.
Sabia que seus olhos eram verdes.
Sabia que usava um colete escuro.
E sabia que havia alguma coisa naquele olhar.
Só não sabia dizer o quê.
— Esquece isso — respondeu.
Juliana deu de ombros.
— Tudo bem. Mas você me deve aquele chá amanhã.
— Eu lembro.
— Prometido?
— Prometido.
Juliana sorriu e voltou para sua mesa.
Sarah respirou fundo.
Olhou para o relógio.
Ainda faltavam algumas horas.
Depois do trabalho, faria aquilo que fazia todas as terças-feiras.
Passaria na florista.
Compraria as flores.
E iria visitar o pai.
Como sempre.

Às quinze horas, Sarah desligou o computador.
Pegou a bolsa e saiu do escritório.
O céu estava começando a mudar de cor quando chegou à florista.
O sino da porta tocou assim que entrou.
— Boa tarde, Sarah.
— Boa tarde.
A florista já sabia o que ela procurava.
— A mesma coisa de sempre?
Sarah sorriu.
— Quase.
Caminhou entre os vasos, observando as flores.
Escolheu rosas brancas.
Depois algumas margaridas.
Por fim, acrescentou hortênsias e lavanda.
— Hoje está caprichada — comentou a florista.
Sarah olhou para a coroa.
— Ele merece.
Pagou e saiu.
O cemitério ficava a poucos minutos dali.
Sarah caminhou com as flores nos braços.
Conhecia aquele caminho tão bem que poderia fazê-lo de olhos fechados.
Passava por ele todas as semanas.
Mesmo assim, naquela tarde havia alguma coisa diferente.
Talvez fosse apenas a sensação estranha que carregava desde a manhã.
Talvez fosse o cansaço.
Talvez fosse o destino.
Sarah não acreditava muito em destino.
Pelo menos costumava não acreditar.
Chegou ao portão do cemitério e entrou.
O lugar estava tranquilo.
Algumas pessoas caminhavam entre as lápides.
Outras deixavam flores.
Sarah seguiu pelo caminho que conhecia tão bem.
Até que parou.
Franziu a testa.
Havia alguém sentado junto à sepultura ao lado da do pai.
Uma mulher.
De costas.
Sarah reconheceu imediatamente o colete.
O coração bateu mais rápido.
— Não pode ser...
Aproximou-se alguns passos.
Era ela.
A mulher da moto.
A mesma que quase a atropelara naquela manhã.
Sarah segurou a coroa de flores com mais força.
Talvez fosse melhor simplesmente ir embora.
Mas então percebeu que a mulher parecia estar dormindo.
Sentada no chão.
Encostada na lápide.
Sarah ficou alguns segundos observando.
Havia algo estranho naquela cena.
Ela nunca vira ninguém visitar aquela sepultura.
Na verdade, nem se lembrava da última vez que alguém havia deixado flores ali.
Aproximou-se mais.
Leu o nome gravado na pedra.
Dean.
Sarah sentiu um arrepio.
Não sabia por quê.
Talvez porque aquele sobrenome despertasse uma lembrança antiga.
Uma lembrança tão distante que ela não conseguia alcançá-la.
Olhou novamente para a mulher.
— Quem é você?
A pergunta saiu quase como um sussurro.
A mulher se mexeu.
Sarah deu um passo para trás.
Megan abriu os olhos lentamente.
Por alguns segundos, pareceu não saber onde estava.
Então viu Sarah.
E reconheceu imediatamente a mulher da manhã.
— Você...
Sarah ergueu uma sobrancelha.
— Eu o quê?
Megan se levantou devagar.
— Você é a maluca que quase entrou na frente da minha moto.
Sarah apertou os lábios.
— E você é a maluca que quase me atropelou.
Megan soltou uma risada curta.
— Então estamos quites.
— Não estamos.
— Não?
— Você ainda me deve um pedido de desculpas.
Megan olhou para ela.
Depois para as flores.
Depois para a sepultura.
— Eu acho que já pedi desculpas.
— Não pediu.
— Então pronto. Desculpa.
Sarah cruzou os braços.
— Isso foi péssimo.
— Posso tentar de novo.
Megan respirou fundo.
— Desculpa por quase ter te atropelado.
Sarah ficou em silêncio.
— Melhor.
Megan sorriu.
— Viu? Eu consigo ser educada.
— Às vezes.
As duas ficaram em silêncio.
Um silêncio estranho.
Não desconfortável.
Apenas... familiar.
Megan olhou para Sarah por mais tempo do que deveria.
Alguma coisa dentro dela voltou a apertar.
Aquela sensação.
A mesma da estrada.
A mesma que sentira quando aqueles olhos encontraram os seus.
Ela não sabia o motivo.
Sarah também não.
Mas, naquele momento, nenhuma das duas percebeu que o passado acabara de colocar as duas novamente frente a frente.
E que aquela desconhecida estava prestes a deixar de ser desconhecida.

Fim do capítulo

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