Megan ainda não conseguia entender por que aquela mulher parecia tão familiar.
Estava acostumada a guardar rostos na memória. Anos de viagens haviam lhe ensinado a reconhecer pessoas rapidamente: quem era confiável, quem queria apenas uma carona, quem estava procurando companhia e quem deveria ser evitado.
Mas Sarah Sullivan era diferente.
Megan não sabia absolutamente nada sobre ela.
E, ainda assim, alguma coisa dentro dela insistia em dizer que sabia.
— Você vem sempre aqui? — perguntou Megan.
Sarah olhou para a sepultura ao lado.
— Todas as terças.
Megan acompanhou o olhar dela.
— Seu pai?
Sarah assentiu.
— Sim.
Megan voltou os olhos para a lápide diante de si.
— O meu também.
Por alguns segundos, nenhuma das duas disse mais nada.
O silêncio do cemitério parecia amplificar tudo.
O vento balançava suavemente as folhas das árvores, algumas flores recém-colocadas se moviam sobre as sepulturas e, ao longe, ouvia-se apenas o som abafado da cidade.
Sarah aproximou-se da sepultura do pai.
Colocou a coroa de flores no chão e ajoelhou-se.
Megan observou.
Não sabia por que continuava ali.
Já havia passado horas naquele cemitério.
Tinha ido até ali para falar com o pai, contar-lhe sobre os anos que passara viajando, sobre os países que conhecera e sobre tudo o que havia acontecido desde a última vez que estivera diante daquela lápide.
Mas agora sua atenção estava presa à mulher ao lado.
Sarah retirou algumas flores secas e folhas que haviam caído sobre a sepultura.
Fazia aquilo com cuidado.
Como se estivesse arrumando a cama de alguém que ainda estivesse vivo.
— Você cuida dele toda semana? — perguntou Megan.
— Sim.
— Não perde nenhuma terça?
Sarah sorriu.
— Nunca.
Megan ficou olhando para ela.
— Mesmo depois de tantos anos?
Sarah parou por um instante.
— Principalmente depois de tantos anos.
A resposta atingiu Megan de uma maneira que ela não esperava.
Ela desviou o olhar.
— É bonito.
— O quê?
— Não esquecer.
Sarah olhou para ela.
Havia alguma coisa triste naquela frase.
— Você também não esqueceu o seu.
Megan encarou a própria lápide.
— Não.
Passou os dedos pelo colete.
— Eu só fiquei longe.
Sarah percebeu a mudança no rosto dela.
Pela primeira vez desde que se encontraram naquela manhã, não viu a motociclista arrogante.
Viu uma mulher cansada.
Muito cansada.
— Você estava fora do país?
Megan assentiu.
— Por muitos anos.
— Viajando?
— Sempre.
— Sozinha?
— Quase sempre.
Sarah sorriu de leve.
— Deve ter sido interessante.
— Foi.
Megan respirou fundo.
— Também foi solitário.
Sarah não respondeu.
Talvez porque soubesse exatamente como era sentir falta de alguém.
Talvez porque aquela frase tivesse despertado uma lembrança que ela não conseguia alcançar.
Olhou novamente para Megan.
Os olhos verdes.
Os cabelos cacheados.
O jeito como ela inclinava a cabeça quando estava pensando.
O sorriso de canto.
Sarah franziu a testa.
Por um instante, uma imagem surgiu em sua mente.
Uma estrada.
Uma menina.
Uma risada.
E uma voz.
“Sári...”
Sarah piscou.
A lembrança desapareceu.
— Está tudo bem? — perguntou Megan.
— Sim.
Sarah passou a mão pelo rosto.
— Acho que estou cansada.
Megan continuou observando-a.
Ela também sentia alguma coisa.
Mas não conseguia explicar.
Era como olhar para uma fotografia antiga da qual alguém tivesse apagado os rostos.
Você sabia que conhecia aquela cena.
Só não sabia de onde.
— Qual é o seu nome? — perguntou Megan.
Sarah levantou os olhos.
— Você não sabe?
— Ainda não.
— Depois de quase me matar duas vezes, acho que o mínimo que você deveria saber.
Megan soltou uma risada.
— Uma vez.
— Duas.
— Uma.
— Duas.
— Está bem. Uma e meia.
Sarah riu.
Foi a primeira vez que Megan ouviu aquela risada.
E alguma coisa dentro dela parou.
Por um segundo.
Não sabia explicar.
Aquela risada...
Conhecia aquela risada.
Megan ficou séria.
— O quê?
Sarah percebeu que ela a encarava.
— Nada.
— Você está me olhando estranho.
— É que...
Megan hesitou.
— Você me lembra alguém.
Sarah sentiu o coração acelerar.
— Quem?
Megan desviou os olhos.
— Não sei.
E era verdade.
Não sabia.
Ainda.
Sarah ficou em silêncio.
Depois voltou a organizar as flores.
— Meu nome é Sarah.
Megan repetiu mentalmente.
Sarah.
O nome não lhe dizia nada.
Mas o coração dizia.
— Sarah...
— Com H.
Megan sorriu.
— Sarah com H.
— Isso.
— Eu sou Megan.
Sarah levantou os olhos.
— Megan...
Dessa vez foi ela quem parou.
Aquele nome.
Por que aquele nome parecia tão familiar?
— Megan o quê?
— Dean.
Sarah ficou imóvel.
Por um instante, o mundo pareceu parar.
Dean.
Ela olhou para a lápide ao lado.
Dean.
Depois para Megan.
O sobrenome.
O colete.
Os olhos.
A voz.
Não.
Não podia ser.
Sarah sentiu um arrepio percorrer os braços.
— Você disse... Megan Dean?
— Sim.
Megan percebeu a mudança repentina na expressão dela.
— Por quê?
Sarah abriu a boca.
Não conseguiu responder.
Aquela lembrança antiga voltou mais uma vez.
Dessa vez, mais forte.
Uma menina de cabelos cacheados.
Uma moto.
Um sorriso.
Uma mão segurando a sua.
E uma voz dizendo:
“Eu volto para você.”
Sarah fechou os olhos.
Não.
Aquilo não podia estar acontecendo.
Quando abriu novamente, Megan continuava diante dela.
Trinta anos.
Olhos verdes.
O mesmo sorriso.
A mesma maneira de inclinar a cabeça.
Mas isso era impossível.
Aquela garota tinha ido embora.
E nunca tinha voltado.
— Sarah?
Megan tocou de leve em seu braço.
Sarah afastou-se quase imediatamente.
— Eu preciso ir.
— O quê?
— Preciso ir.
Pegou a bolsa.
Megan ficou confusa.
— Eu fiz alguma coisa?
Sarah não respondeu.
Caminhou alguns passos.
Parou.
Olhou para trás.
Megan continuava ali.
Ao lado da sepultura.
O vento mexia seus cabelos.
Sarah sentiu os olhos encherem de lágrimas.
— Não pode ser você...
Megan ouviu.
— O quê?
Sarah balançou a cabeça.
— Nada.
E foi embora.
Megan permaneceu parada.
Não entendia o que acabara de acontecer.
Olhou para a sepultura do pai.
Depois para o caminho por onde Sarah desaparecera.
E, pela primeira vez em muitos anos, sentiu medo de uma lembrança.
Uma lembrança que ainda não conseguia alcançar.
— Quem é você, Sarah?
A resposta estava muito mais perto do que Megan imaginava.
E, naquela tarde, o passado começaria finalmente a revelar aquilo que as duas haviam passado anos tentando esquecer.
Estava acostumada a guardar rostos na memória. Anos de viagens haviam lhe ensinado a reconhecer pessoas rapidamente: quem era confiável, quem queria apenas uma carona, quem estava procurando companhia e quem deveria ser evitado.
Mas Sarah Sullivan era diferente.
Megan não sabia absolutamente nada sobre ela.
E, ainda assim, alguma coisa dentro dela insistia em dizer que sabia.
— Você vem sempre aqui? — perguntou Megan.
Sarah olhou para a sepultura ao lado.
— Todas as terças.
Megan acompanhou o olhar dela.
— Seu pai?
Sarah assentiu.
— Sim.
Megan voltou os olhos para a lápide diante de si.
— O meu também.
Por alguns segundos, nenhuma das duas disse mais nada.
O silêncio do cemitério parecia amplificar tudo.
O vento balançava suavemente as folhas das árvores, algumas flores recém-colocadas se moviam sobre as sepulturas e, ao longe, ouvia-se apenas o som abafado da cidade.
Sarah aproximou-se da sepultura do pai.
Colocou a coroa de flores no chão e ajoelhou-se.
Megan observou.
Não sabia por que continuava ali.
Já havia passado horas naquele cemitério.
Tinha ido até ali para falar com o pai, contar-lhe sobre os anos que passara viajando, sobre os países que conhecera e sobre tudo o que havia acontecido desde a última vez que estivera diante daquela lápide.
Mas agora sua atenção estava presa à mulher ao lado.
Sarah retirou algumas flores secas e folhas que haviam caído sobre a sepultura.
Fazia aquilo com cuidado.
Como se estivesse arrumando a cama de alguém que ainda estivesse vivo.
— Você cuida dele toda semana? — perguntou Megan.
— Sim.
— Não perde nenhuma terça?
Sarah sorriu.
— Nunca.
Megan ficou olhando para ela.
— Mesmo depois de tantos anos?
Sarah parou por um instante.
— Principalmente depois de tantos anos.
A resposta atingiu Megan de uma maneira que ela não esperava.
Ela desviou o olhar.
— É bonito.
— O quê?
— Não esquecer.
Sarah olhou para ela.
Havia alguma coisa triste naquela frase.
— Você também não esqueceu o seu.
Megan encarou a própria lápide.
— Não.
Passou os dedos pelo colete.
— Eu só fiquei longe.
Sarah percebeu a mudança no rosto dela.
Pela primeira vez desde que se encontraram naquela manhã, não viu a motociclista arrogante.
Viu uma mulher cansada.
Muito cansada.
— Você estava fora do país?
Megan assentiu.
— Por muitos anos.
— Viajando?
— Sempre.
— Sozinha?
— Quase sempre.
Sarah sorriu de leve.
— Deve ter sido interessante.
— Foi.
Megan respirou fundo.
— Também foi solitário.
Sarah não respondeu.
Talvez porque soubesse exatamente como era sentir falta de alguém.
Talvez porque aquela frase tivesse despertado uma lembrança que ela não conseguia alcançar.
Olhou novamente para Megan.
Os olhos verdes.
Os cabelos cacheados.
O jeito como ela inclinava a cabeça quando estava pensando.
O sorriso de canto.
Sarah franziu a testa.
Por um instante, uma imagem surgiu em sua mente.
Uma estrada.
Uma menina.
Uma risada.
E uma voz.
“Sári...”
Sarah piscou.
A lembrança desapareceu.
— Está tudo bem? — perguntou Megan.
— Sim.
Sarah passou a mão pelo rosto.
— Acho que estou cansada.
Megan continuou observando-a.
Ela também sentia alguma coisa.
Mas não conseguia explicar.
Era como olhar para uma fotografia antiga da qual alguém tivesse apagado os rostos.
Você sabia que conhecia aquela cena.
Só não sabia de onde.
— Qual é o seu nome? — perguntou Megan.
Sarah levantou os olhos.
— Você não sabe?
— Ainda não.
— Depois de quase me matar duas vezes, acho que o mínimo que você deveria saber.
Megan soltou uma risada.
— Uma vez.
— Duas.
— Uma.
— Duas.
— Está bem. Uma e meia.
Sarah riu.
Foi a primeira vez que Megan ouviu aquela risada.
E alguma coisa dentro dela parou.
Por um segundo.
Não sabia explicar.
Aquela risada...
Conhecia aquela risada.
Megan ficou séria.
— O quê?
Sarah percebeu que ela a encarava.
— Nada.
— Você está me olhando estranho.
— É que...
Megan hesitou.
— Você me lembra alguém.
Sarah sentiu o coração acelerar.
— Quem?
Megan desviou os olhos.
— Não sei.
E era verdade.
Não sabia.
Ainda.
Sarah ficou em silêncio.
Depois voltou a organizar as flores.
— Meu nome é Sarah.
Megan repetiu mentalmente.
Sarah.
O nome não lhe dizia nada.
Mas o coração dizia.
— Sarah...
— Com H.
Megan sorriu.
— Sarah com H.
— Isso.
— Eu sou Megan.
Sarah levantou os olhos.
— Megan...
Dessa vez foi ela quem parou.
Aquele nome.
Por que aquele nome parecia tão familiar?
— Megan o quê?
— Dean.
Sarah ficou imóvel.
Por um instante, o mundo pareceu parar.
Dean.
Ela olhou para a lápide ao lado.
Dean.
Depois para Megan.
O sobrenome.
O colete.
Os olhos.
A voz.
Não.
Não podia ser.
Sarah sentiu um arrepio percorrer os braços.
— Você disse... Megan Dean?
— Sim.
Megan percebeu a mudança repentina na expressão dela.
— Por quê?
Sarah abriu a boca.
Não conseguiu responder.
Aquela lembrança antiga voltou mais uma vez.
Dessa vez, mais forte.
Uma menina de cabelos cacheados.
Uma moto.
Um sorriso.
Uma mão segurando a sua.
E uma voz dizendo:
“Eu volto para você.”
Sarah fechou os olhos.
Não.
Aquilo não podia estar acontecendo.
Quando abriu novamente, Megan continuava diante dela.
Trinta anos.
Olhos verdes.
O mesmo sorriso.
A mesma maneira de inclinar a cabeça.
Mas isso era impossível.
Aquela garota tinha ido embora.
E nunca tinha voltado.
— Sarah?
Megan tocou de leve em seu braço.
Sarah afastou-se quase imediatamente.
— Eu preciso ir.
— O quê?
— Preciso ir.
Pegou a bolsa.
Megan ficou confusa.
— Eu fiz alguma coisa?
Sarah não respondeu.
Caminhou alguns passos.
Parou.
Olhou para trás.
Megan continuava ali.
Ao lado da sepultura.
O vento mexia seus cabelos.
Sarah sentiu os olhos encherem de lágrimas.
— Não pode ser você...
Megan ouviu.
— O quê?
Sarah balançou a cabeça.
— Nada.
E foi embora.
Megan permaneceu parada.
Não entendia o que acabara de acontecer.
Olhou para a sepultura do pai.
Depois para o caminho por onde Sarah desaparecera.
E, pela primeira vez em muitos anos, sentiu medo de uma lembrança.
Uma lembrança que ainda não conseguia alcançar.
— Quem é você, Sarah?
A resposta estava muito mais perto do que Megan imaginava.
E, naquela tarde, o passado começaria finalmente a revelar aquilo que as duas haviam passado anos tentando esquecer.
Fim do capítulo

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