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EM BUSCA DE JUSTIÇA por Luhpereira

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Palavras: 1287
Acessos: 14   |  Postado em: 02/09/2026

Capitulo 10

As luzes se acenderam.

Pelo vão entre as poltronas, consegui enxergar melhor o homem. Era branco, tinha um bigode grosso e carregava um fuzil enorme nas mãos.

Ele caminhava lentamente pelo corredor, observando cada passageiro.

E sorria.

Senti minhas mãos começarem a tremer.

A chuva continuava caindo lá fora, mas, naquele momento, eu já não conseguia ouvir mais nada além das batidas aceleradas do meu próprio coração.

Pela primeira vez naquela viagem, tive medo de não chegar ao meu destino.

— Atenção, meu colega aqui vai passar pelo corredor. Se houver reação de alguém, vou meter chumbo grosso! Nenhum engraçadinho tente ousar a bancar o herói da noite — disse o cara de bigode, que não tinha a menor preocupação em esconder o rosto. Ao contrário do segundo, que entrou em meu campo de visão, estava utilizando uma máscara que só deixava à vista seus olhos e sua boca.

— Por que um bandido não esconderia o rosto em um assalto?

— Descuido, uso de substância ou excesso de confiança, o que é péssimo para nós! — disse Alexsandra.

— Faz sentido. — Ouvi e peguei meu celular.

— Quem for entregando o celular ou qualquer outro aparelho de comunicação, vai vindo na minha direção. E, detalhe: vou revistar, e tem mais gente revistando lá embaixo... Sim, vocês vão descer deste ônibus.

— Oh, não, meu Deus! Tenha piedade de nós, moço! - Fechei os olhos e escutei...

Tenha calma, Cecília. Eles só querem dinheiro. Aliás, dinheiro que eu nem tenho.

Tentei controlar a respiração, mas parecia que o ar não chegava aos meus pulmões. Minhas mãos estavam frias e eu sentia meu coração bater tão forte que tive medo de que alguém pudesse ouvi-lo. Engoli em seco e permaneci imóvel, tentando não chamar atenção.

— Levanta, vem!

O cara de máscara olhou fixamente nos olhos de Alexsandra. Ela lentamente se colocou de pé. Mesmo estando naquela situação, ela exalava uma aura de arrogância e superioridade que me deixou até preocupada, pensando se o assaltante também estava fazendo a mesma leitura corporal. Ela colocou o aparelho celular na bolsa e, olhando fixamente nos olhos do cara, seguiu na direção indicada.

— Sua vez!

Me chamou o cara. Levantei meio desajeitada. Senti minhas pernas pesadas e, por alguns segundos, tive a impressão de que elas não conseguiriam me sustentar. Entreguei, com dó no coração, meu aparelho celular. Ele me empurrou.

— Vai, anda.

Segui tentando controlar meu nervosismo e me aproximei do cara de bigode, que acompanhava Alexsandra descer. Eu vi suas feições e o sorriso que deu ao olhar para o fundo do ônibus e encontrar o olhar do outro assaltante. Essa troca de olhares me causou um frio na espinha.

— Anda, vai, mulher! Anda logo! — disse ele, me olhando.

Passei rapidamente por ele e fui descendo a escadaria. A cada degrau, eu tentava manter os olhos baixos, mas não conseguia deixar de observar o que acontecia ao meu redor.

Meu corpo inteiro parecia estar em alerta. 

Foi quando caiu a minha ficha: eles tinham total controle da situação.

Me colocaram atrás de Alexsandra, que estudava atentamente a situação, olhando de forma atenta e calculada em todas as direções.

— Acha que tem quantos deles? — perguntei a ela, após o cara que me colocou na fila se afastar.

— Até agora, já contei vinte deles. E isso, somado às armas que estão à vista, soma um poder de quarenta. - Me respondeu ela em sussurro.

Um cara que revistava as pessoas da nossa fileira se aproximava de nós.

— Desgraçado! — ouvi Alexsandra dizer, baixinho, ao ver um cara revistando sua ficante, que estava visivelmente muito abalada.

Abaixei a cabeça. Começaram a revistar Nágila, depois Mônica, Alexsandra e, por fim, chegaram até mim.

Meu sangue fervia nas veias. O medo deu lugar à raiva. Não era justo estarmos passando por uma situação como aquela. Tínhamos tão pouco. Para comparecer ao casamento de uma prima que morava na capital, tivemos que juntar dinheiro e ir alguns representando a família. E agora aqueles cretinos queriam levar o pouco que tínhamos.

Seguiram nesse procedimento de revista por mais quinze minutos e, logo, o líder, o cara do bigode, falou que teríamos que seguir com ele e que qualquer oposição faria com que nos arrependêssemos.

Saímos da BR e, embaixo de uma forte chuva que não parava um minuto de cair, seguimos por uma estrada de terra. Notei que alguém ligou o ônibus. Iriam tirá-lo da estrada para não chamar atenção.

Andamos por aproximadamente vinte minutos.

Algumas pessoas caíam no chão devido ao terreno acidentado e irregular.

Um cara tentou reagir e levou um tapa no rosto, o que o fez cair no chão.

Não. Aquilo não podia estar acontecendo.

A situação estava se tornando um filme de terror sem fim.

— Temos que tentar alguma coisa... — disse um rapaz que estava caminhando ao lado de Alexsandra.

— Estou de acordo... — ouvi ela dizer a ele. — Mas temos que saber exatamente o momento.

— Vocês estão loucos? Esses caras não estão para brincadeira — disse outro rapaz que estava próximo deles.

Ouvi alguns gritos mandando todos pararem.

Havíamos chegado a um lugar onde se ouvia um forte som de queda d’água. Parecia ser uma cachoeira. A chuva estava tão forte que dificultava meus sentidos de localização. Eu já não sabia exatamente onde estávamos, nem para onde estávamos sendo levados.

Pelos meus cálculos, havíamos caminhado em torno de vinte quilômetros, que mais pareciam quarenta. Meus pés estavam cansados, minhas roupas completamente molhadas e meu corpo começava a sentir o peso daquela caminhada.

Em determinado momento, nos fizeram caminhar por dentro de um rio raso. A água não era suficiente para dificultar muito o caminhar, mas as pedras tornavam cada passo mais difícil. Algumas eram lisas e escorregadias, e eu precisava prestar atenção para não cair.

Éramos 67 pessoas, e os caras ficavam nos rodeando com as armas, acompanhando cada movimento nosso. Suas armas tinham lanternas acopladas aos canos, que permaneciam apontadas para nós. A cada vez que eu olhava para os lados, encontrava um deles nos observando.

Aquilo me fazia sentir que não havia para onde fugir.

— Todos vão entrar por aquela abertura ali. Quero duas filas por vez — gritou o líder do bando.

Ele apontava para uma abertura embaixo da cachoeira.

Olhei para o local indicado e senti um aperto no peito. A água caía com força, e eu não conseguia enxergar direito o que havia depois daquela abertura.

— Vamos ter que passar por baixo da cascata de água? — gritou Alexsandra.

— Não. Irão fazer o desvio pela água e passar pelas pedras. Andem logo, essa fila! — respondeu o líder.

Alexsandra me olhou por cima do ombro.

— Nem todas as pessoas vão conseguir passar pelas pedras.

— Por quê?

— Muitas mulheres não estão com sapatos adequados para caminhar sobre pedras lisas. Já foi difícil chegarem até aqui... Sorte que, entre os passageiros, não temos pessoas de idade avançada.

Enquanto ela falava, seus olhos percorriam o lugar. Ela não parecia estar apenas preocupada com as pessoas que teriam dificuldade para atravessar. Parecia estar observando tudo ao redor, como se tentasse encontrar alguma coisa que pudesse nos ajudar.

— Vocês duas, caladas aí! — disse um homem alto que se aproximou de nós.

Ele me empurrou para que eu continuasse caminhando. Nossa fila estava avançando.

Meu pé escorregou em uma das pedras e, por um instante, senti meu corpo perder o equilíbrio. Se não fosse Alexsandra me apoiar pelo braço, eu teria caído no chão.

Ela me segurou com força.

Olhei para ela, assustada.

Alexsandra apenas fez um gesto discreto com a cabeça, como se dissesse para eu continuar.

E continuamos.

 

Fim do capítulo


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