Capitulo 9
Segunda parada do ônibus da noite.
Eu não havia conseguido dormir... Minhas músicas me faziam companhia.
As luzes se acenderam...
As pessoas começaram a se levantar, embora grande parte delas ainda permanecesse dormindo.
A moça ao meu lado continuava dormindo.
Soltei o cinto de segurança e me levantei. Olhei por cima dos bancos à minha frente, e minhas companheiras de viagem ainda dormiam.
Ao me virar novamente para ao lado, vi Alexsandra. Ela já não estava mais dormindo... Seus olhos estavam fixos em mim.
— Iria me chamar, ou...?
— Iria te chamar, sim — sorri um pouco sem graça, principalmente pela forma como ela continuava me olhando fixamente.
Ela destravou o cinto, ainda com os olhos presos aos meus, colocou-se de pé rapidamente e me deu passagem. Passei muito próxima a ela e percebi o quanto era mais alta. Minha cabeça chegava mais ou menos à altura de seu queixo.
— Obrigada.
— Não há de quê! — disse, abrindo um meio sorriso antes de me dar uma piscadela.
Fui andando e parei na poltrona das minhas primas.
As duas dormiam profundamente.
Toquei no ombro de Mônica.
— Mônica, você vai descer? Parada do café.
— Não... Tô com muito sono. Quero dormir — respondeu, resmungando.
Afastei-me do corredor, pois Alexsandra e um cara estavam querendo passar. Olhei enquanto ela seguia pelo corredor.
Voltei minha atenção para Nágila.
— Nágila, você vai descer?
Ela abriu os olhos devagar e olhou para mim, ainda sonolenta.
— Muito sono. Vou ao banheiro.
— Vem... — estendi a mão para que ela segurasse e pudesse passar por cima da Mônica.
Saímos do ônibus e seguimos para a segunda parada da noite, Gral.
— Só vou ao banheiro. Não costumo tomar café de madrugada — disse-me Nágila.
Chegamos ao banheiro, que estava cheio de pessoas se arrumando, retocando a maquiagem e ajeitando os cabelos diante dos espelhos. Fui procurar um banheiro vazio e, principalmente, com papel higiênico.
— Está chovendo sem parar assim desde a última parada? — perguntou Nágila, do banheiro ao lado.
— Sim, mas o motorista está sendo bem cuidadoso.
— Ainda bem... Ciça, vou retornar ao ônibus. Você vai entrar na lanchonete ainda?
— Vou tomar um café. Como estou sem sono, não vou conseguir pregar os olhos por causa da pista molhada.
— Mas, tomando cafeína, não vai dormir mesmo.
Saí do banheiro.
Lavei as mãos e sequei com o papel-toalha. Nágila também saiu e ficou diante do espelho, tentando ajeitar o cabelo.
Olhei para o meu reflexo e percebi que meu cabelo estava se soltando do rabo de cavalo de cetim. Peguei um reparador de pontas, passei nos fios e comecei a escová-los.
Meu cabelo chegava até a cintura e, naquele momento, eu só queria deixá-lo novamente no lugar antes de voltar para o ônibus.
Na entrada da lanchonete do Gral, despedi-me da minha prima e peguei a ficha para entrar no estabelecimento.
Servi-me de um café bem quente, com leite também quente, e duas bolachas salgadas. Escolhi uma cadeira mais afastada, onde havia poucas pessoas e de onde eu conseguia enxergar nosso ônibus estacionado através das enormes janelas de vidro que davam para o estacionamento.
Aquela posição me deixava mais tranquila. Mesmo sentada dentro da lanchonete, eu conseguia acompanhar o movimento do lado de fora e, principalmente, manter os olhos no nosso ônibus.
Fiquei observando a televisão, que estava sintonizada em um canal de notícias da madrugada. A reportagem falava sobre uma tentativa de assalto a um carro na BR chegando no Rio de Janeiro.
Dei uma risada, balancei a cabeça e voltei a atenção para o meu café.
Era madrugada, eu estava viajando e, enquanto tentava espantar o sono, a televisão parecia fazer questão de me lembrar que o mundo continuava acontecendo lá fora.
Estava tão perdida em meus próprios pensamentos que não percebi a aproximação de Alexsandra. Quando me dei conta, ela já estava ao meu lado, apoiada com as duas mãos na cadeira e me olhando fixamente.
— Posso me sentar aqui com você?
Por um instante, fiquei sem saber o que responder. Meus olhos foram para as mãos dela. No pulso, usava um relógio preto, de estilo esportivo. Sua jaqueta preta estava enrolada ate os cotovelos. Ela tinha poucos pelos nos braços, todos escuros.
Levantei os olhos novamente e, por cima de seu ombro, procurei pelas amigas. Não avistei nenhuma delas.
— Sim, pode se sentar.
Disse isso enquanto tentava organizar minhas pequenas coisas sobre a mesa. Meu celular, a carteira, a garrafa de água e a bandeja com o café e as bolachas ocupavam praticamente todo o espaço.
Ela se sentou e, logo em seguida, levantou o braço para chamar uma garçonete, que rapidamente veio até a mesa. Observei enquanto ela fazia seu pedido.
— Água sem gás.
— Café sem açúcar.
— Três barras de cereal, zero açúcar.
Ela ainda falou a marca das barras, mas não prestei muita atenção. Eu nem conhecia.
A garçonete se retirou.
Alexsandra voltou a me olhar fixamente.
— Gosta de tomar café de madrugada? — perguntou.
— Estou sem sono — respondi, desviando os olhos para o meu café.
— Mas me fala mais sobre você, Cecília! O que gosta de fazer? Hobbies? Gênero musical? Observei que, desde que saímos de Curitiba, você não se separou dos fones de ouvido.
Olhei para ela enquanto colocava uma mecha de cabelo atrás da orelha, e ela acompanhou meu movimento com os olhos.
— Ah... Eu gosto de viajar, quando dá certo... Gosto de ouvir música, dançar, ler livros de diversos gêneros... e amo estar com a minha família ou com o meu cachorro.
Ela abriu um sorriso.
A garçonete chegou e colocou os pedidos dela sobre a mesa de forma delicada. Antes de se afastar, abriu um sorriso bastante simpático para Alexsandra, que correspondeu.
— Mais alguma coisa? — perguntou a moça, cujo crachá indicava o nome Bruna.
— Por enquanto, nada. — respondeu Alexsandra, educadamente.
— Se precisar de alguma coisa... — disse a garçonete, pegando o guardanapo que estava entre nós sobre a mesa. Com uma caneta, anotou um número de telefone e estendeu o papel para Alexsandra. — Me liga se precisar de qualquer coisa.
Ela sorriu, deu uma piscadinha para Alexsandra e saiu, balançando o quadril mais do que o necessário.
Acompanhei a garçonete com os olhos até ela se afastar. Depois, olhei para Alexsandra.
Ela percebeu.
— O quê? — perguntou, segurando um sorriso.
— Nada.
Ela ergueu uma sobrancelha, divertida.
— Cecília...
— Eu não falei nada.
— Mas seu olhar falou.
Revirei os olhos, tentando disfarçar.
Ela soltou uma risada baixa.
— E quais são os seus hobbies? — questionei.
— Viajar, conhecer lugares e culturas diferentes, muito embora seja algo que dificilmente eu consiga fazer... Gosto de pegar a estrada de moto ou de carro, fazer trilha, acampar, navegar, praia de vez em quando e gosto bastante de mergulhar. Águas frias ou geladas me relaxam.
— E músicas? — perguntei.
— Meu gosto musical é eclético. Gosto basicamente de vários estilos musicais. Consigo ouvir samba, rock, funk, música clássica, sertanejo e eletrônica com a mesma facilidade... Tenho um pouco de dificuldade com forró e sertanejo universitário, não vou negar.
— Não te julgo. Ouvir algumas músicas atualmente está sendo difícil... Mas e dançar?
Ela sorriu abertamente e se recostou na cadeira.
— Não tenho esse talento. Até vou a baladas e tento improvisar ouvindo música eletrônica, mas sou muito desengonçada para dançar.
Ela voltou a se apoiar na mesa e fixou os olhos nos meus.
— Você falou em família... E namoro? Ou já é casada?
A pergunta me pegou de surpresa. Comecei a rir, quase sem controle. Alexsandra me olhava com um semblante confuso, tentando entender o motivo da minha reação.
— O que eu disse?
— Desculpa, mesmo! — tentei me recompor, ainda rindo. — Eu não sou casada!
Ela sorriu de leve.
— Namora?
— Também não. Neste momento, tenho outras prioridades — respondi, sustentando seu olhar.
Porém, meus olhos desviaram-se para trás dela. Avistei a moça que havia subido com Alexsandra no ônibus. Ela caminhava em nossa direção.
— Acho que a sua namorada está vindo!
— O quê? — perguntou, olhando para mim sem entender.
Não precisei responder.
A moça, que ela chamava Gabi, chegou por trás dela, tocou em seu ombro e beijou seu rosto. Em seguida, olhou para mim por alguns segundos.
Não sei explicar, mas aquele olhar me deixou desconfortável.
— Amor, desceu do ônibus e não me chamou! O que está tomando? — perguntou, olhando para a xícara dela.
— Oi, Gabi. Pensei que estivesse dormindo.
Alexsandra então se virou para mim.
— Deixa eu te apresentar. Essa é a Cecília. Estamos dividindo a poltrona.
Gabriela me olhou e abriu um pequeno sorriso. Retribuí.
— Cecília, esta é a Gabriela.
— Prazer! — disse, estendendo a mão.
Ela retribuiu com um aperto de mão breve.
— Amor, vamos comigo ao banheiro? Não gosto de ir lá sozinha, e essas paradas nem sempre são seguras.
— Tudo bem, vamos lá... — disse Alexsandra, levantando-se. — Você não vai tomar nada?
— Não. Só vou pegar uma água e alguma barra de cereal... Vamos.
Gabriela passou o braço pelo pescoço da mais alta.
— A gente se vê no ônibus — disse Alexsandra, olhando para mim.
Ela abraçou Gabriela pela cintura, e as duas seguiram em direção ao banheiro.
Acompanhei-as com o olhar.
Não tenho preconceito, mas aquela moça me transmitiu uma sensação estranha. Não sabia explicar exatamente o que era. Talvez fosse apenas uma primeira impressão.
Na fila do caixa, fiquei olhando algumas barras de cereal e uns amendoins. Peguei alguns. Estava sem sono e sentia vontade de mastigar alguma coisa. Peguei mais algumas balas e, quando levantei os olhos, vi Alexsandra vindo de mãos dadas com a moça ao seu lado.
Era impossível não acompanhá-las com o olhar, não por serem duas mulheres juntas, mas porque ambas eram muito bonitas e chamavam a atenção. Desviei o olhar e também reconheci a garçonete Bruna, que havia dado seu número de celular para Alexsandra.
Quando saí da mesa onde estávamos, percebi que ela havia deixado o guardanapo sobre a mesa. Peguei-o e trouxe comigo, guardado no bolso da minha jaqueta jeans.
Parei de prestar atenção nelas, pois seria a próxima da fila.
No ônibus, arrumei-me de maneira confortável e me encostei ao vidro. Logo, Alexsandra ocupou seu lugar ao meu lado. Sorriu discretamente para mim e se acomodou, fechando os olhos com a cabeça voltada para o lado do corredor.
Passaram-se alguns minutos até que as luzes se apagassem e o ônibus voltasse a se movimentar.
— Acho que você esqueceu isso na mesa lá do café.
Coloquei o guardanapo em frente a ela.
Ela olhou para o papel e depois para mim.
— Não te ocorreu que eu deixei lá de propósito? — perguntou.
— Pensei que...
— Pensou errado. Pode ficar com ele — disse, sorrindo.
Amassei o guardanapo na frente dela e joguei-o em uma sacolinha que estava sendo usada para descartar as cascas das balas.
— Desculpa... É que você foi tão simpática com a garçonete que pensei...
— Deveria ter sido menos simpática com ela?
— Não, não é isso... É que, como você namora...
— Eu não tenho namorada! — cortou-me.
— Mas e a Gabriela?
— A gente apenas fica de vez em quando, mas não namoramos — respondeu, olhando fixamente nos meus olhos, embora a claridade fosse bem baixa, havendo a iluminação fraca de alguns varões de outros veículos.
— Coisas da cidade grande — murmurei, mais para mim do que para ela.
Ouvi um som de sorriso vindo de sua direção.
— Não está acostumada com relacionamentos entre mulheres ou em ficar sem compromisso?
— Acho que com as duas coisas — respondi com sinceridade.
— Não é muito comum, no seu meio, relacionamento afetivo entre mulheres?
— Quando eu estudava, tinha um casal na minha sala. Cidade pequena, você já pode imaginar como é, né?
— Nunca morei em cidade pequena — respondeu, sorrindo.
— Pois saiba que todo mundo cuida da vida de todo mundo. E ainda tem os julgamentos.
— Nossa, seria crucificada, então.
— Por ficar com mulheres?
Ela me olhou por alguns segundos.
— Por ficar com a minha prima!
Arregalei os olhos.
Com pouca claridade, ela provavelmente não conseguiu perceber minha expressão. Antes que eu pudesse responder, aproximou-se do meu lado e falou bem perto da minha orelha.
— Te choquei?
O calor da respiração dela alcançou meu pescoço.
Imediatamente, os pelos se arrepiaram e uma corrente elétrica percorreu todo o meu corpo. Afastei-me dela por reflexo.
— Não. Você é livre para viver seu livre-arbítrio.
Ela voltou a se acomodar em sua poltrona, como se não tivesse acabado de provocar aquela reação em mim.
— Sim, eu sou... Você é uma graça.
— Está se divertindo, né?
Ela sorriu.
— Não faz ideia do quanto.
Ficamos em silêncio.
O ônibus seguia viagem, e a chuva continuava a cair de forma abundante sobre a pista, deixando a estrada ainda mais perigosa. A água dificultava minha visão através do vidro.
Já estávamos bem afastados da última parada e havíamos entrado em uma área cercada por plantações de pinus. Eu conseguia ver apenas seus vultos na escuridão e, vez ou outra, as luzes dos faróis de alguns veículos que ultrapassavam o ônibus.
O movimento na estrada havia diminuído consideravelmente.
Lá fora, era quase tudo escuridão.
Olhei novamente para o reflexo no vidro.
Por alguns segundos, fiquei apenas observando a chuva escorrer pela janela.
Eu deveria estar pensando na estrada, no horário, na chuva ou em como ainda faltava muito para chegarmos.
Mas, por algum motivo, minha cabeça insistia em voltar para a conversa que acabáramos de ter.
De repente, o ônibus freou bruscamente.
O impacto fez com que os passageiros que estavam acordados se segurassem como podiam, enquanto os que dormiam fossem lançados para a frente. Eu mesma senti minha cabeça bater contra o banco da frente.
Por alguns segundos, ninguém pareceu entender o que havia acontecido.
Olhei pelo vidro. A chuva continuava caindo intensamente, deixando a estrada praticamente invisível. Lá fora, era apenas escuridão.
— Você está bem? Não se machucou? — perguntou Alexsandra.
Antes mesmo que eu respondesse, ela passou as mãos pelos meus cabelos e segurou delicadamente meu rosto, fazendo-me virar para ela.
Fiquei sem reação diante daquela preocupação.
— Estou bem... E você?
— Estou bem.
Ela retirou as mãos de mim e soltou o cinto de segurança.
Foi então que ouvimos um passageiro gritar:
— Acho que caiu uma barreira na estrada! Tem árvores na pista!
— Meu Deus! E agora?
O caos tomou conta do ônibus.
As pessoas começaram a perguntar o que estava acontecendo. Algumas se levantaram, outras tentavam enxergar pela janela. Então ouvimos tiros.
Meu corpo inteiro gelou.
Uma discussão começou no andar de baixo. Gritos se misturavam ao barulho da chuva e ao movimento desesperado dos passageiros.
— Todos e todas, abaixem a cabeça! — gritou Alexsandra.
Sua voz se destacou em meio ao caos.
— Cecília, o que está acontecendo? — perguntou Mônica, assustada.
— Eu não sei... Mas fica de cabeça baixa.
— Deus do céu... — ouvi Nágila murmurar.
Alguns gritos vieram do andar inferior.
Então alguém começou a subir a escada.
O ônibus ficou em silêncio por alguns segundos.
Um homem apareceu no corredor.
— Senhoras e senhores, isso aqui é um assalto! Rendemos os motoristas de vocês e ninguém sai deste ônibus. Quem reagir vai levar bala!
Algumas pessoas começaram a chorar, enquanto outras soltaram pequenos gritos de desespero.
O homem ergueu a arma.
— Quem falar ou gritar vai levar uma bala na testa!
— Que droga... — murmurou Alexsandra ao meu lado.
Olhei para ela.
— E agora?
Ela se aproximou um pouco e falou baixo:
— Vamos tentar não reagir.
As luzes se acenderam.
Pelo vão entre as poltronas, consegui enxergar melhor o homem. Era branco, tinha um bigode grosso e carregava um fuzil enorme nas mãos.
Ele caminhava lentamente pelo corredor, observando cada passageiro.
E sorria.
Senti minhas mãos começarem a tremer.
A chuva continuava caindo lá fora, mas, naquele momento, eu já não conseguia ouvir mais nada além das batidas aceleradas do meu próprio coração.
Pela primeira vez naquela viagem, tive medo de não chegar ao meu destino.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Sem comentários
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook: