Capitulo 8
Após quinze minutos, o ônibus finalmente começou a se movimentar.
Finalmente vou poder dar play nas minhas músicas...
Abri os olhos e observei as várias pessoas que ainda aguardavam seus ônibus, esperando seguir viagem para os mais diversos destinos... assim como nós. Enquanto deixávamos a rodoviária, fiquei olhando as ruas ainda movimentadas naquele horário. Pouco depois, cruzamos a linha do trem.
Respirei fundo e fechei os olhos novamente. O balanço do ônibus me ajudava a relaxar e, sem perceber, adormeci por quase duas horas e meia de viagem.
Acordei quando as luzes do ônibus se acenderam. A claridade repentina me fez despertar imediatamente. Abri os olhos e levei alguns segundos para entender o que havia acontecido.
Eu já não estava mais encostada na janela.
Estava apoiada no ombro da pessoa que ocupava a poltrona ao meu lado.
Para minha sorte, ela permanecia adormecida, com o rosto voltado para o corredor. Um boné preto escondia completamente sua face. Aproveitei aquele instante para observá-la discretamente.
Era uma mulher.
Vestia uma jaqueta de couro preta e uma camiseta da mesma cor. Sua pele era extremamente clara. Usava um discreto brinco de argola e um piercing um pouco acima da orelha. No pescoço, um colar delicado chamava a atenção: uma serpente enrolada em um cajado. Observei seus braços cruzados e percebi que seus ombros eram bem mais altos que os meus.
Era alta.
— Cecília, está acordada? — perguntou Nágila, da poltrona à frente, interrompendo minha curiosa análise sobre a moça sentada na poltrona ao meu lado.
— Sim.
— Vamos jantar? Acorda a Mônica!
— Vamos.
Comecei a retirar a coberta que estava sobre mim. Dobrei-a e a coloquei sobre o apoio das pernas. Tirei o cinto de segurança, dei uma rápida arrumada na roupa, já toda amassada pela viagem, e peguei minha bolsa.
Olhei novamente para o lado.
A moça continuava dormindo.
Droga... será que eu a acordo?
Desisti da ideia.
Não... vou tentar passar por cima das pernas dela.
Passei uma das pernas com cuidado, apoiando a mão no encosto da poltrona da frente para manter o equilíbrio. Quando fui passar a outra, a moça se mexeu de repente.
Assustada, tentei desviar.
Abri mais as pernas do que deveria para não esbarrar nela, mas perdi completamente o equilíbrio.
Em um segundo, senti meu corpo perder totalmente o controle.
No outro...
Caí de frente e sobre ela.
Por reflexo, apoiei as mãos em seus ombros para não cair com todo o peso do corpo. Meu rosto ficou a poucos centímetros do dela.
Por instinto, levantei o olhar.
Naquele mesmo instante, ela levou a mão até o boné, ajustou-o e o afastou do rosto. Abriu os olhos lentamente e piscando alguns vezes... me encarou, visivelmente sem entender por que havia uma desconhecida praticamente sobre ela.
Fiquei completamente sem reação.
Meu Deus... onde eu enfio a cara agora?
Mesmo diante do constrangimento da situação, não consegui desviar os olhos do rosto dela.
Tinha as sobrancelhas negras, da mesma cor dos cabelos. A pele era extremamente branca e os olhos, incrivelmente negros. O nariz era levemente empinado e delicado. Os lábios, de um tom naturalmente avermelhado, eram bem desenhados e carnudos.
Ela tinha uma beleza marcante e difícil de ignorar.
Seu olhar era frio, transmitia seriedade e revelava alguém extremamente observadora e calculista.
Ela também me analisava.
Seus olhos percorriam meu rosto com calma, como se tentassem entender quem eu era e como aquela situação havia acontecido. Suas mãos continuavam firmes em minha cintura para evitar que eu caísse totalmente sobre si. Mesmo com a minha camiseta e a jaqueta entre nós, senti um arrepio percorrer meu corpo ao sentir seus dedos me apertarem.
Aquilo me assustou.
Rapidamente tentei me afastar e me colocar de pé no corredor.
— Moça, mil desculpas! Não foi minha intenção cair sobre você. Me desculpe mesmo. — falei completamente sem graça.
Ela continuou me olhando por alguns instantes.
Então abaixou lentamente o olhar, como se avaliasse se eu havia me machucado. Aquele gesto, por algum motivo, me deixou ainda mais constrangida.
— Não tem problema. Mas você está bem? Não se machucou? — perguntou ela, enquanto retirava o cinto de segurança.
Acompanhei seus movimentos e observei suas mãos. Tinha dedos longos, um anel no polegar e as unhas muito bem cuidadas, embora estivessem sem esmalte e curtinhas.
— Estou bem.
Ela se levantou calmamente e ficou de pé.
Meu Deus... ela é bem mais alta do que eu.
— Eu pensei que você estivesse dormindo e estava apenas tentando passar para o corredor. Foi por isso que tentei passar por cima de você.
Ela abriu um leve sorriso e balançou a cabeça de forma afirmativa.
Ainda bem... ela não ficou brava.
Por um instante, aquele sorriso transformou completamente seu rosto. Continuava séria, mas havia alguma coisa nele que transmitia tranquilidade.
— Vamos, Ciça? — chamou minha prima Mônica.
Ela havia parado no corredor e me observava conversando com a desconhecida. Percebi que, por minha causa, uma pequena fila já começava a se formar atrás de nós.
Fiquei ainda mais envergonhada.
— Vamos... — respondi.
Olhei mais uma vez para a moça, que permanecia ao meu lado.
— Até depois.
— Até... — respondeu ela.
Seguimos na mesma direção e percebi que ela vinha caminhando logo atrás de mim. Aquilo me deixou ainda mais sem graça.
Quando chegamos à escadaria do ônibus, os motoristas, muito simpáticos, ajudavam os passageiros a descer e avisavam que o piso estava escorregadio por causa da chuva.
— Restaurante no Graal... Preparem o bolso, porque lá tudo custa uma fortuna. — comentou Mônica, arrancando uma risada de Nágila.
Segui atrás das meninas, fechando a minha jaqueta. Não queria olhar para trás e dar de cara com a moça da poltrona ao meu lado.
Estou parecendo uma idiota...
A situação tinha me deixado profundamente constrangida.
Na fila para pegar a ficha e entrar no restaurante, não resisti e olhei discretamente por cima do ombro.
Ela não estava atrás de mim.
Ainda permanecia próxima ao ônibus. Ao seu lado havia mais três garotas. Todas eram bonitas, conversavam, sorriam e pareciam se divertir com alguma história. Mesmo assim, meus olhos foram direto para a moça da poltrona. Havia alguma coisa nela que prendia minha atenção. Talvez fosse a postura séria... talvez o jeito calmo... ou apenas a vergonha que eu ainda estava sentindo por ter caído em seu colo.
Tomara que não estejam comentando a vergonha que eu acabei de passar...
Desviei o olhar rapidamente.
Não, Cecília... para de pensar besteira. Elas nem devem estar falando de você.
Respirei fundo e voltei a acompanhar minhas primas até a entrada do restaurante.
— Três fichas, por favor. — pediu Nágila.
Pegamos as fichas e seguimos para o restaurante. O movimento era grande. O cheiro da comida misturava-se ao aroma do café recém-passado, e quase todas as mesas estavam ocupadas por viajantes aproveitando a parada antes de seguir estrada.
Peguei uma bandeja e comecei a me servir. Arroz, feijão, um pedaço de frango grelhado, salada e um pouco de legumes. Vi a Mônica colocando um enorme pedaço de lasanha no prato e comecei a rir.
— Não me julga! Viajar me dá fome. — disse ela, dando de ombros.
— Você acabou de acordar e já está pensando em comida. — respondeu Nágila, rindo.
— E você acordou pensando em café.
Nós três caímos na risada.
— Vamos sentar nesta mesa. — falei, já me acomodando em uma que, por sorte, estava desocupada.
— Essa mesa é perfeita. Os motoristas estão ali. Quando eles voltarem para o ônibus, a gente vai atrás.
— Está com medo de perder o ônibus, hein? — brincou Nágila.
— Quem era a moça com quem você estava falando no corredor? — perguntou Mônica, enquanto saboreava sua deliciosa lasanha.
— Não sei...
— Como não sabe? Vocês estavam fazendo um verdadeiro trânsito no corredor do ônibus.
— Ela é a pessoa que sentou na poltrona ao meu lado. Só isso.
— Aquela? — perguntou Mônica, indicando discretamente a direção com os olhos.
Olhei para onde ela apontava.
Lá estava ela.
Segurava uma xícara de café ou talvez de chá. Ao seu lado, estava sentada uma moça de pele clara, cabelos bem lisos, castanhos e compridos, que permanecia muito próxima dela e dizia alguma coisa ao seu ouvido. Havia ainda outra garota de pele muito branca e cabelos escuros, além de duas loiras. As quatro conversavam animadamente.
Antes que eu pudesse desviar o olhar, os olhos da moça encontraram os meus.
Mesmo à distância, ela fez um leve aceno com a cabeça e ergueu a xícara em um cumprimento silencioso.
Retribuí o cumprimento quase por reflexo. Sorri de um jeito tímido e voltei imediatamente a atenção para as minhas primas, torcendo para que ela não percebesse o quanto eu ainda estava sem graça.
— Sim... acho que são um grupo de amigas viajando. Sei lá.
— Estranho... eu não vi nenhuma delas lá em cima no ônibus. — comentou Mônica.
— Talvez estivessem sentadas mais ao fundo. — respondeu Nágila.
Mônica, balançando a cabeça em negativa .
— Não... eu vi quando ela entrou. Foi a última passageira a embarcar e entrou sozinha.
O celular de Nágila começou a tocar. Ela olhou para a tela e sorriu.
— Vou atender. É a Larissa.
Ela conversou rapidamente ao telefone e, antes de desligar, combinou que, assim que entrássemos em São Paulo, avisaríamos para que ela fosse nos buscar na rodoviária.
Ficamos conversando e aproveitando nosso jantar por mais um tempo, até que vimos nossos motoristas seguirem até o caixa. Logo, alguns conhecidos do ônibus também começaram a se dirigir para lá.
— Vão pedir mais alguma coisa, meninas?
— Estou satisfeita. — respondeu Nágila.
— Eu bem que queria... porém, meu dinheiro não dá conta dos meus querer. — Mônica nos fez cair na gargalhada, fazendo com que algumas pessoas das mesas próximas nos olhassem com cara de reprovação.
— Então vamos lá... não quero ter que passar por cima da mulher que sentou ao meu lado de novo.
— Ainda bem que ela é uma mulher, né? Uma mulher sentada na poltrona do outro lado do meu corredor está passando apuro.
— Por quê?
Seguindo entre as mesas, fui guiando as duas até chegarmos a uma fila com menos pessoas no caixa.
— Sentou um cara com ela. Não está nada confortável.
— Deveria ter aquelas cortinas de privacidade neste ônibus. Pelo preço que a gente paga, é um absurdo.
— Absurdo é a turma do andar de baixo usar o banheiro do nosso andar.
— Por que será que não tem um banheiro específico para o andar de leitos? — Nágila.
— Espaço. Por ficarem basicamente deitados, acredito que perdem um determinado espaço. Deve ser alguma coisa nesse sentido. — Disse e voltei minha atenção para a frente.
Após passarmos pelo caixa, ainda tivemos tempo de ir ao banheiro e, em seguida, seguimos para a fila de entrega da ficha de saída.
Do lado de fora, no pátio de estacionamento dos ônibus e carros, observei um Prisma preto estacionado. Havia um homem encostado nele, fumando um cigarro e olhando concentrado para o nosso ônibus... Aquilo me chamou a atenção e olhei para a placa.
Como se fosse possível saber de onde é um carro pela placa. Sério, tenho sérias críticas a essas placas atuais!
Ainda estava garoando, porém não estava chovendo como na hora em que havíamos chegado. Fomos seguindo em direção ao nosso ônibus.
— Cuidado, senhoritas. Esse piso está extremamente escorregadio. — Disse o motorista, pegando gentilmente na mão de Nágila e ajudando-a a subir. Em seguida, fez o mesmo com Mônica e comigo.
No corredor do ônibus, Mônica nos fez parar ainda para pegar garrafas de água.
— Deveria ter pego alguma coisa para mastigar. — disse Mônica.
— Comprei bala e chiclete... — disse.
— Maravilha. Vai dividir.
— Anda, Mônica... Daqui a pouco tem gente atrás de nós. — disse uma impaciente Nágila.
Finalmente sentada na minha poltrona, me ajeitei da forma mais confortável possível e coloquei meus fones. Porém, só daria play quando o ônibus desse a partida.
Olhei pelo vidro. As gotículas de água da chuva atingiam o vidro e escorriam. Observei que o homem que fumava continuava olhando para o nosso ônibus.
Parei de prestar atenção quando percebi que a moça da poltrona ao meu lado vinha pelo corredor. A moça que, minutos atrás, falava ao seu pé do ouvido vinha à sua frente.
O que me chamou a atenção foi que elas andavam de mãos dadas: ela vinha atrás, enquanto a moça da frente mantinha o braço para trás, guiando-a.
Não pararam nas nossas poltronas. Seguiram direto para o fundo, e achei estranho.
Será que ela mudou de poltrona? E que intimidade toda era aquela? Tá, eu sou meio ogra com as minhas amigas.
Tentei me concentrar no vidro...
Gotículas escorrendo pelo vidro...
Os minutos não passavam...
A moça da poltrona ao lado sentou-se novamente ao meu lado. Pelo vidro, a vi se ajeitando na poltrona e apertando o cinto. A outra moça, que havia passado junto com ela, estava parada ao seu lado e se sentou no braço da poltrona, dando passagem às outras pessoas pelo corredor.
— Que azar o nosso, hein! Não ter mais voo para o Rio... Queria tanto chegar cedo em casa, relaxar na minha banheira e ter um jantar maravilhoso. — Disse a outra, com uma voz manhosa.
Consegui reconhecer seu sotaque.
Carioca. Com certeza.
— Deveríamos ter comprado as passagens antes, mas vamos aproveitar essa viagem e tentar descansar... Estou há duas noites sem dormir.
A moça da poltrona ao lado tinha uma voz grave e rouca. Falava mais pausadamente, e eu não conseguia identificar seu sotaque.
— Te dei a opção de dormir, você não quis...
As duas riram juntas.
Achei aquela conversa estranha.
— Cecília?
Mônica me chamou do banco da frente, fazendo-me virar para olhá-la. Ela estava de joelhos em sua poltrona e também lançou um olhar em direção às moças, mas logo voltou sua atenção para mim.
Lancei um olhar de poucos amigos para ela, deixando claro que não era hora de ficar conversando na frente de desconhecidos.
— A bala.
Peguei minha bolsa e procurei as balas. Por sorte, as duas continuaram conversando até que o motorista surgiu para fazer a contagem dos passageiros.
Ao constatar que havia uma passageira do andar de baixo, pediu gentilmente que ela retornasse ao seu andar.
— Já vou descer... — disse ela. — Que pena não ter mais lugar lá embaixo para você. Aqui parece tão desconfortável. Esse banco ao menos se inclina?
— Não completamente, mas vou sobreviver até a madrugada.
— Está bem... Até depois, meu amor.
Disse a outra, aproximando-se e dando um selinho nos lábios da moça sentada ao meu lado.
Fiquei chocada.
Chocada mesmo.
Não sabia para onde olhar. Passei a rolar a tela do celular, fingindo estar completamente concentrada nele, embora tivesse acompanhado tudo.
Elas eram um casal?
Lésbicas?
Não que eu tivesse algum problema com isso. Não tinha.
Então por que aquilo estava me incomodando tanto?
Aquela cena me deixou deveras desconfortável.
Tá... Eu respeito. Mas eu estava praticamente ao lado delas, e não era tão comum assim presenciar uma demonstração de carinho daquele jeito em um espaço público entre duas mulheres.
— Já te falei sobre isso, Gabi. — Disse a moça ao meu lado.
Gabi sorriu e saiu pelo corredor, rebol*ndo sem qualquer preocupação.
Alguns passageiros acompanharam seus passos com os olhos. Inclusive a própria mulher sentada ao meu lado.
Gabi tinha uma beleza impossível de ignorar. Era o tipo de mulher que chamava atenção sem precisar fazer esforço.
Eu não acreditava que estava presenciando uma cena daquelas.
Talvez eu estivesse sendo injusta.
Talvez estivesse simplesmente irritada.
Ou talvez estivesse apenas tentando entender por que aquilo tinha me incomodado tanto.
Ainda estava olhando para Gabi quando ela virou o rosto e percebeu que eu a encarava.
Meu Deus.
Ela me pegou no flagra.
Desviei os olhos, mas já era tarde demais.
— Tudo bem? — perguntou ela, depois de estudar meu rosto por alguns segundos, com um tom de voz levemente irônico.
— Sim... Por que não estaria? — respondi rápido demais.
Ela continuou me analisando por alguns instantes.
Eu, sem saber o que fazer, virei o rosto para a janela.
Finalmente, o motorista ligou o motor, e o ônibus começou a se movimentar lentamente.
Por alguns segundos, fiquei quieta, acompanhando as gotas de chuva deslizando pelo vidro.
Até que ouvi a voz ao meu lado.
— Acredito que ainda não nos apresentamos...
Virei o rosto.
— O quê?
— Embora você tenha praticamente caído sobre mim, ainda não sei o seu nome.
Olhei para ela, um pouco sem graça. Por alguns segundos, não soube exatamente o que dizer.
Ela estendeu a mão em um cumprimento mais formal.
— Me chamo Alexsandra Musovic.
— Angela Cecília. Prazer.
Toquei sua mão.
Era maior que a minha e dedos longos e seguros.
O aperto era firme, mas sem ser bruto.
O toque durou poucos segundos, porém foi suficiente para me deixar estranhamente alerta. Um arrepio percorreu meu corpo, como uma pequena descarga elétrica.
Soltei sua mão depressa e voltei os olhos para a frente, tentando demonstrar naturalidade.
Espero que ela não tenha percebido.
— Viajando em família? — perguntou ela, parecendo não ter notado minha reação involuntária ao nosso cumprimento.
— Sim, com as minhas primas.
Parei por um instante e a encarei.
— E você?
Tive vontade de perguntar: Viajando com sua namorada?
Mas, quando nossos olhos se encontraram, não tive a ousadia de invadir tanto a sua privacidade.
— Com um grupo de amigas.
A resposta foi simples.
Curta demais.
E, por algum motivo, fiquei querendo saber mais.
— Chovendo assim, essa viagem poderá ser um pouco mais longa... — disse.
Meus olhos desceram até o seu colar. A luz fraca do ônibus bateu no pingente e produziu um pequeno reflexo.
— Sim. Embora não seja muito seguro viajar de madrugada com a pista molhada, a chuva, de algum modo, me relaxa.
As luzes se apagaram, e o ônibus começou a ganhar velocidade.
— Gosta de ouvir a chuva? — perguntei, sentindo-me mais à vontade depois que as luzes se apagaram.
— Sim... Chuva, mar, natureza no geral. E você?
Afastei um pouco a cortina e mostrei a janela.
— Confesso que, às vezes, tenho medo. Mas a natureza me encanta com esses espetáculos.
As gotas batiam contra o vidro e escorriam lentamente.
— Já observou as nuvens carregadas se movimentando quando vai chover?
— Não com tanta atenção. Por quê?
— É magnífico. Nessas horas, parece que a gente percebe o quanto é pequeno diante de tudo isso.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— E também percebe o quanto a gente interfere nisso tudo.
— Pois é... E, a longo prazo, podemos causar danos irreversíveis. - Disse ela.
— Alguns já estamos causando.
— Já. — Ela sorriu de leve. — Mas tem uma coisa engraçada nisso tudo. A Mãe Natureza vai sobreviver e se regenerar sem a gente. A questão é... será que nós vamos sobreviver com tamanha exploração dos recursos naturais?
— Seremos extintos. - Disse. — Ou pode ser que os super-ricos já tenham um plano de fuga e, aqui, fiquem apenas os trabalhadores.
Ri baixinho.
Ela também sorriu.
— Gosta de ciência? - perguntou ela.
— Gosto de pensar sobre o meio em que vivemos.
— Vou considerar isso um sim.
Sorri.
— Não reconheço seu sotaque.
Ela soltou uma risadinha.
— Estive muito tempo fora do meu estado e passei bastante tempo falando outros idiomas. Talvez seja isso. Mas sou carioca.
— Nossa, sério? Então você conhece outros países? Gosta de viajar?
— Já estive em alguns. E adoro viajar. Mas e você?
— Eu o quê?
— Seu sotaque. É de qual estado?
— Sou do Paraná. De um pequeno município do interior. Acho que você já identificou isso.
— Identifiquei.
Ouvi uma mulher se mexer na poltrona do outro lado do corredor.
— Acho que estou falando alto demais. — Baixei a voz.
Ela sorriu.
— Mas, para falar a verdade, eu não estava conseguindo identificar se era do Rio Grande do Sul, Paraná ou interior de São Paulo. Santa Catarina eu sabia que não era.
— Por quê?
— Estou vindo de lá. O sotaque é completamente diferente.
Sorri.
Continuamos conversando por mais alguns minutos sobre sotaques, viagens e as diferenças entre os lugares que conhecíamos. A conversa era simples, mas havia alguma coisa agradável naquele momento.
Até que ela bocejou.
— Cecília?
— Oi?
— Não quero te deixar falando sozinha e começar a roncar ao seu lado... Estou com as pálpebras pesadas. Vou pegar no sono.
— Tudo bem. Pode dormir.
Ela ajeitou a cabeça no encosto.
— Só me chame na próxima parada de uma forma mais sutil. Sem cair sobre mim dessa vez.
Sorri, um pouco constrangida.
— Desculpa!
— Relaxa. Acontece o tempo todo.
— As pessoas caírem no seu colo durante as viagens?
— Sim...
Fiquei esperando que ela completasse a frase.
Mas o silêncio se prolongou.
Foi então que percebi que ela já havia dormido.
Me ajeitei melhor na poltrona.
Coloquei um chiclete na boca e dei play na minha música.
A viagem seria longa ao som de “One of Us”, de Joan Osborne.
Enquanto a música começava, fiquei observando a pista molhada através da janela. A chuva continuava caindo, e as gotas deslizavam pelo vidro, acompanhando o movimento do ônibus.
Fui deixando a viagem acontecer ao som de uma das minhas músicas favoritas.
Por alguns minutos, esqueci o cansaço, a estrada e até o fato de que tinha uma desconhecida dormindo ao meu lado.
Ou talvez não fosse mais tão desconhecida assim.
Fim do capítulo
Aproveitando a sexta-feira, a chuva calma e uma boa música.
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