Capitulo 7
Ângela Cecília
Sábado de madrugada. Virei de um lado para o outro na cama, mas não conseguia dormir. Uma inquietação apertava o meu coração. Olhei para o relógio na cabeceira da cama: marcava 2h15 da manhã. Ainda era madrugada.
Peguei o celular e comecei a fazer algumas pesquisas nas redes sociais. Tentava encontrar algum perfil de Alexsandra Musovic, mas não obtinha nenhum resultado. Ou ela não utilizava redes sociais, o que eu considerava quase impossível nos dias de hoje, ou usava alguma variação do próprio nome para não ser encontrada com tanta facilidade.
Respirei fundo e desisti da busca.
O que você espera fazendo isso, Cecília? Ela não acreditou na sua palavra. Por mais que nós tivéssemos nos encontrado naquela situação...
Virei-me para o outro lado e fiquei olhando pela janela do quarto. Aos poucos, fui sendo envolvida por um turbilhão de lembranças.
Flashback — Quase cinco anos atrás...
Estava em uma fila de quase cinquenta pessoas na rodoviária. Iria pegar um ônibus em Curitiba com destino a São Paulo. Esse seria o meu segundo ônibus naquele dia. Já havia enfrentado duas horas e trinta minutos de asfalto, além de mais três horas de estrada de terra.
Justamente naquela data, não havia uma linha de ônibus que saía de Curitiba, passava pelo meu município Paranaí e seguia até a capital paulista. Por isso, precisei fazer toda essa correria: viajar até Curitiba para, então, embarcar no ônibus da rodoviária que fazia outro percurso até São Paulo.
Eu estava indo participar do casamento da minha prima Larissa, que morava na capital paulista havia aproximadamente dez anos.
Infelizmente, por ser uma viagem longa e cara, da nossa família participaríamos apenas eu e minhas duas primas, Nágila e Mônica.
— Estou cansada. Só de pensar que ainda temos mais 400 km de estrada...
Olhei por cima do ombro. Minha prima Nágila não estava nada animada para enfrentar o terceiro trecho da viagem.
— Eu sou suspeita para falar. Adoro pegar a estrada e viajar, né?
— Credo, Cecília! À noite e com esse tempo querendo chover? Eu vou tomar um Dramin e dormir a viagem inteira.
— Eu gosto de viajar. Durante o dia, adoro observar as paisagens. À noite, gosto de colocar uma música, olhar pela janela e tentar enxergar o que a escuridão deixa ver. — respondi, sorrindo da cara dela.
— Qual é o número da poltrona de vocês? — perguntou Mônica, minha prima mais nova, logo atrás de Nágila.
— A minha é a 21. — respondeu Nágila.
Olhei para a minha passagem e franzi a testa.
— Peguei a 25.
— A minha é a 22. Vou sentar junto com a Nágila, e você vai ficar atrás de nós. — falou, animada.
— Tomara que não sente nenhum cara inconveniente ao meu lado. — disse, revirando os olhos.
— Qualquer coisa, você me avisa, que eu chamo o motorista. — disse Nágila, olhando para mim com carinho.
— Disse a mesma pessoa que já avisou que vai tomar Dramin e dormir a viagem inteira! — respondeu Mônica, fazendo todas nós cairmos na gargalhada.
— Qualquer coisa, eu vou gritar. Isso, sim!
— Melhor mesmo! — concordou Nágila.
Entregamos nossas malas médias a um dos motoristas, que organizava as bagagens no compartimento inferior do ônibus. Em seguida, voltamos para a fila de embarque. Após o motorista conferir nossas passagens e documentos de identificação, finalmente entramos no ônibus.
Ao subir naquele ônibus de dois andares, senti uma nítida divisão de classes. Logo na entrada, passei pela porta do primeiro piso, destinado aos passageiros do leito-cama, reservado àqueles que podiam pagar por um pouco mais de conforto. Nós seguimos pela escada até o segundo andar, onde ficavam as poltronas do semi-leito. Não era nenhum luxo, mas também estava longe de ser ruim. As poltronas reclinavam bem e ofereciam conforto suficiente para esticar as pernas durante a viagem.
O ônibus já estava quase cheio, pelo menos no andar superior. Havia um banheiro ao fundo, dois compartimentos com água refrigerada e algumas cobertas para os passageiros. A única coisa de que senti falta foram as cortinas entre as poltronas, que proporcionariam um pouco mais de privacidade durante a viagem.
Sentei-me na minha poltrona e percebi que, até aquele momento, ninguém havia ocupado o assento ao meu lado. Acomodei-me da melhor forma possível e apoiei as pernas no encosto da poltrona à minha frente.
Deus, ainda bem que estou com uma roupa confortável. Vestia uma legging, tênis, uma camiseta branca básica de manga comprida e uma jaqueta jeans clara. Meu cabelo estava alisado com progressiva. Era apenas a segunda vez que me submetia a esse procedimento. Até aquele momento, estava gostando do resultado, já que sempre tive certa dificuldade para cuidar e definir os meus cachos.
— Atenção, pessoal! Peço um instante da atenção de todos os presentes. Meu nome é Augusto, e o segundo motorista é Arnaldo. Seremos nós dois os responsáveis por conduzir vocês nesta viagem.
Não prestei muita atenção ao restante, porque o meu cinto de segurança não queria fechar. Depois de algumas tentativas, finalmente consegui ajustá-lo. Quando voltei a olhar para a frente, o motorista já explicava onde ficavam as saídas de emergência.
— A Expresso Penha agradece a escolha de todos por viajarem conosco. Em caso de qualquer emergência, basta acionar o botão localizado próximo à cabine dos motoristas, e teremos o maior prazer em atendê-los. Partiremos em aproximadamente dez minutos. A previsão de chegada à Rodoviária de São Paulo é entre três a quatro horas da madrugada, caso não haja imprevistos ou paradas prolongadas na estrada. Desejo a todos uma excelente viagem.
— Mais dez minutos... Mônica, vai lá pegar uma água para mim, por favor? Preciso tomar o meu remédio.
— Cecília, você também quer água? Estou indo pegar para nós. — Disse, levantando-se e seguindo para o fundo do ônibus.
— Traga uma para mim, por favor.
Logo que Mônica retornou com as garrafas de água, coloquei a minha no compartimento ao lado da poltrona e peguei uma coberta.
— Vou dormir, meninas. Nas paradas, me chamem. — disse Nágila.
— Tá... Vou assistir a uma série e aproveitar para carregar o celular. — respondeu Mônica.
— Tudo bem. Quem acordar nas paradas chama a outra.
Abri a coberta e ajeitei meu inseparável travesseiro de viagem. Sempre o levava comigo nas viagens mais longas. Virei-me para a janela e procurei uma posição confortável.
Tomara que ninguém sente ao meu lado. Ou, se sentar, que seja uma pessoa tranquila e que não seja tagarela.
Respirei fundo e fechei os olhos.
As luzes do ônibus pareciam não se apagar nunca...
...
Os dez minutos transcorreram lentamente, e as pessoas continuavam em conversas animadas pelo ônibus. Aos poucos, os sons foram diminuindo, e já não ouvia mais passos de passageiros entrando.
Consegui escutar uma pequena discussão próxima à escadaria. Algumas vozes pareciam exaltadas, mas, como estava longe, não consegui entender o motivo. Tentei ignorar e voltar a relaxar, procurando uma posição confortável.
Fechei os olhos novamente.
Ouvi passos pelo corredor.
Alguém parou ao lado da minha poltrona.
Continuei imóvel, fingindo dormir. Talvez a pessoa estivesse apenas conferindo o número do assento e procurasse outro lugar. Permaneci com a respiração tranquila, sem demonstrar que estava acordada.
Mas ela continuou ali.
Por alguns instantes, ouvi apenas o silêncio.
Então escutei o barulho de uma bagagem sendo colocada no compartimento acima da minha poltrona. O movimento foi cuidadoso, sem pressa. Logo depois, a pessoa se acomodou no assento ao meu lado.
Droga... teria companhia.
Não me virei. Continuei voltada para a janela, tentando não demonstrar curiosidade. Mesmo assim, meus sentidos estavam atentos.
Ouvi o som da poltrona sendo ajustada, o apoio para as pernas sendo levantado e, em seguida, o clique do cinto de segurança sendo fechado.
Depois disso, silêncio.
Nenhuma palavra.
Nenhum movimento brusco.
Apenas a presença de alguém ao meu lado.
Bom... pelo menos parece ser uma pessoa tranquila.
Foi quando percebi.
Um perfume amadeirado tomou conta discretamente do espaço entre nós. Era um aroma marcante, mas ao mesmo tempo elegante. Não era forte o suficiente para incomodar, apenas deixava uma presença no ar.
Pelo cheiro, percebi que vinha da própria pessoa.
O perfume havia surgido somente depois que ela entrou no ônibus e ocupou a poltrona ao meu lado.
Continuei de olhos fechados.
Ainda não sabia quem estava sentado ali.
Mas, por algum motivo, aquele detalhe ficou registrado na minha memória.
Fim do capítulo
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