Capitulo 6
Após terminarmos o café com dona Iraci, seguimos para a comunidade do Morro do Alemão. Teríamos um fim de semana mais tranquilo, sem nenhum trabalho programado. Eu pretendia aproveitar esse tempo para estudar e ajudar minha amiga Rebeca a dar uma geral na casa de sua avó.
— Finalmente em casa. Está cada vez mais difícil morar aqui no morro! Eu amo viver neste lugar, porém nem táxi e muito menos Uber aceitam subir até aqui. E, até agora, estou sem trabalho, enquanto minha avó está ficando cada vez mais idosa.
— É... Eu vejo ela trazendo as compras nos braços e fico com muita dó. Até nós acabamos cansando também.
— Foi assim a vida toda. Meu maior sonho é mudar a vida dela.
— Espero poder ajudá-las de alguma forma. Vocês têm sido uma verdadeira família para mim.
— Você já nos ajuda. Só de estar ao nosso lado.
— Vocês duas têm uma linda relação. Eu acho isso muito bonito.
— Amiga, um dia você também vai poder estar ao lado da sua família. Em um futuro próximo, você bem poderia trazer sua mãe e sua irmã para morar aqui, não é?
Respirei fundo por alguns instantes antes de responder.
— Acho bem difícil minha mãe querer vir morar aqui. Ela jamais iria querer sair da terra que foi dos meus avós, bisavós e dos nossos antepassados. Lá tem histórias que atravessam gerações. Cada pedaço da terra guarda uma lembrança de nossa família.
— É uma relação milenar de pertencimento e identidade. É linda essa forma de vocês viverem em uma comunidade no interior.
— Temos nossas crenças e nossa cultura. Às vezes sinto muita falta disso.
— Eu imagino. A vida na cidade grande é bem diferente.
Minha amiga caminhou em direção à cozinha enquanto eu a acompanhava.
— Vou passar um café para nós... — disse ela.
Nesse instante, meu estômago roncou, arrancando uma risada de nós duas.
— Pensando bem... a gente nem almoçou, né? O que acha de fazermos alguma coisa para comer?
— Tipo o quê? — perguntei, seguindo-a até a cozinha simples, de tijolos aparentes, sem revestimento, com poucos eletrodomésticos, uma grande mesa de granito e uma geladeira Electrolux cinza.
— Posso ir comprar uma cerveja, e você faz um macarrão com carne moída. — Ela sorriu. — O seu macarrão é melhor que o meu. Sem falar que eu só sei fazer macarrão com salsicha.
— Sem vergonha! Sempre me empurrando para a cozinha... Mas tudo bem.
— Não é por maldade. É que sou péssima na cozinha.
Sorri, balançando a cabeça.
— Vai lá! — disse, pegando uma panela grande no armário e colocando água para esquentar.
— Traga alguma coisa doce. Estou com vontade de comer um docinho.
— Vou ver as opções que a dona Aparecida tem. Já estou indo. Até daqui a pouco.
Fiquei sozinha na cozinha. Peguei um copo no armário, enchi-o com água e fui até a mesa. Puxei a cadeira e me sentei.
Fiquei olhando para a água no copo. Aos poucos, fui tomada por uma imensa vontade de estar com a minha família. Naquele silêncio, senti ainda mais a falta deles e desejei, mais do que nunca, poder estar reunida ao lado de quem eu amava. Porém, eu sabia que, enquanto não provasse a minha inocência e demonstrasse que não tinha nenhum envolvimento com a situação que me levou à prisão, jamais conseguiria voltar a viver na minha cidade de origem.
Levantei-me e fui até a janela observar o conjunto de casas. Enquanto contemplava a paisagem, pensava em quais seriam os meus próximos passos para conseguir chegar ao Complexo da Maré e me aproximar de um dos criminosos.
Meu plano era tentar me aproximar de Vicente Montenegro, conhecido como Sombra. Entre os quatro chefes da organização criminosa, ele era considerado o menos violento. Ainda assim, continuava sendo um criminoso. Aproximar-me dele significava entrar em um mundo do qual talvez eu nunca mais conseguisse sair. Eu tinha medo, e seria mentira dizer o contrário. Mas aquele era o único caminho que eu enxergava para encontrar respostas, provar a minha inocência e recuperar a vida que me havia sido tirada.
Minha amiga retornou pouco tempo depois. Terminei de preparar o macarrão e, após almoçarmos, guardei uma porção para dona Iraci. Pouco depois, ela telefonou informando que não retornaria naquela noite. Haveria um evento de premiação e sua amiga iria participar, e uma de suas amigas, que estaria de plantão, pediu que ela a substituísse durante a noite. Assim, dona Iraci passaria a madrugada trabalhando.
Depois disso, fui limpar a cozinha, enquanto minha amiga aproveitou o restante da tarde para lavar as roupas.
Alexsandra Musovic
Em casa, finalmente em casa... Meu refúgio e o lugar onde recupero minhas energias. Embora o meu trabalho não me estresse, as burocracias de dirigir um hospital, essas sim, conseguem me deixar exausta.
— Alex, que bom que chegou, filha! — disse Francisca, uma antiga funcionária que esteve ao lado da minha família durante toda a minha vida. Desde a minha infância, ela sempre esteve presente e, atualmente, aos 75 anos, continuava sendo a governanta da casa. Devo a ela muitas das minhas melhores lembranças de infância. — Acabei de tirar uma magnífica torta de banana do forno. Desta vez, ela está sem açúcar. Finalmente encontrei uma receita sem açúcar, e você não vai me dizer que não poderá comer desta vez.
— Você e essa sua mania de querer me fazer comer, não é, Francisca? — respondi, seguindo-a em direção à cozinha.
— Mas desta vez você vai gostar. Sente-se aí! Eu mesma vou te servir. — Toda empolgada, ela abriu o forno, enquanto os outros funcionários que estavam na cozinha acabaram ficando sem graça com a minha presença repentina.
— Fiquem à vontade. Só vim provar a torta da dona Francisca. — disse, sentando-me e procurando transmitir um tom menos autoritário aos meus funcionários.
— Eles não caem nessa. Você vive com esse humor ácido, e ainda bem. Do contrário, eu é que iria sofrer aqui nesta casa. — disse ela, sorrindo para os colegas de trabalho.
Logo, Francisca colocou sobre a mesa uma forma ainda quente com uma deliciosa torta de banana.
— Igual à que você fazia quando eu era criança.
— Não está exatamente igual, porque fiz algumas mudanças. Agora ela está mais saudável. — respondeu, sorrindo para mim.
Depois de comer dois pedaços de torta e tomar um café passado no coador, subi para o meu quarto, tomei um banho gelado e rápido e, em seguida, fui treinar. Fiz aproximadamente uma hora de exercícios, alternando musculação e bicicleta ergométrica. Para finalizar, nadei por quinze minutos na piscina. Cansada, deitei-me na espreguiçadeira e a exaustão acabou me vencendo.
— Alex... Alex...
Acordei sentindo alguém tocar meu braço. Olhei por cima do ombro e vi Francisca.
— A Bárbara já ligou várias vezes. Disse que você passaria na casa dela às 17h15, e já são 18h30.
— Droga! — exclamei, abrindo os olhos e fazendo um esforço para me levantar. — Temos um evento para comparecer hoje. Obrigada, Francisca. Ah, e hoje não vou jantar em casa. Provavelmente vou dormir na casa da Bárbara.
— Tudo bem... Se cuide, minha menina.
Francisca sempre me tratou com um carinho quase maternal. Esse gesto tão simples sempre tocava a minha alma. Levantei-me, dei um pequeno abraço nela e beijei sua testa.
— Vá descansar e aproveite este fim de semana para você. — disse ela.
Segui para o meu quarto. Precisava me arrumar para enfrentar uma Bárbara muito brava.
Tomei um banho gelado. Mesmo sendo quase 19 horas, o Rio de Janeiro continuava com seu calor intenso. Sequei e escovei os cabelos. Vesti uma calça preta de alfaiataria e uma regata de seda branca. Resolvi levar um trench coat, porque geralmente ficávamos em ambientes climatizados e muito frios.
Fiz uma maquiagem básica e escolhi alguns acessórios discretos. Gosto de manter uma postura séria e preservar minha elegância sem parecer vulgar. Calcei um sapato sem salto. Até porque, com meus 1,80 metro de altura, minha própria estatura já transmitia uma aura de autoridade.
Ao me olhar no espelho, gostei do que vi. Faltavam apenas o meu relógio, o anel de formatura que ganhei da minha mãe — que uso todos os dias — e um colar que também foi um presente dela. Considero essas joias verdadeiros amuletos, uma forma de manter viva a ligação entre nós e de lembrar que, além da profissão que compartilhamos, existe um vínculo de amor que jamais será desfeito.
Restaurante Cipriani - (Copacabana Palace)
Premiação
— Amor, falei tanto sobre o horário e você simplesmente pegou no sono? — Bárbara estava ao meu lado desde o momento em que passei em seu apartamento para buscá-la. Para completar o pacote, sua mãe também estava conosco, e as duas não paravam de falar. Minha noite não seria nada fácil, não havia interrompê-las, porque estava sem energia para uma discussão.
Apenas olhei para Bárbara, deixando claro que aquele assunto estava encerrado. Ela se aproximou ainda mais de mim.
— Te amo!
— Eu também.
Ela sorriu.
Peguei sua mão e a conduzi até a mesa que um garçom me indicou logo após me apresentar. Dei graças a Deus quando percebi que Beatriz havia sido acomodada em outra mesa.
— Finalmente chegaram, hein! — disse minha amiga de infância, da universidade, do trabalho e da vida.
— Chama mesmo a atenção dela, Jordana. Ela perdeu a hora porque estava dormindo!
Jordana fez uma expressão de espanto e, logo em seguida, começou a rir da minha cara.
— Cansada? Muita correria?
— Bastante.
— Imagino... E à noite não deixam você dormir, né? — provocou ela, olhando para Bárbara, que não se deixou abalar.
— Não mesmo. Somos um casal muito feliz! — respondeu, dando-me um beijo na bochecha.
Enquanto aguardávamos o início da cerimônia, o salão do Ristorante Hotel Cipriani estava elegantemente iluminado. O brilho dos lustres refletia nas taças de cristal espalhadas pelas mesas, enquanto uma música suave preenchia o ambiente. Entre médicos, empresários, pesquisadores e autoridades, era possível sentir o clima de celebração e reconhecimento por tantas histórias de dedicação à saúde.
A noite marcada por diversas premiações e, inclusive, eu mesma fui chamada ao palco para receber o prêmio de reconhecimento concedido ao nosso hospital pela excelência em gestão e inovação em tecnologia hospitalar.
Levantei-me sob os aplausos do público e caminhei até a frente. Recebi um certificado em mãos da presidente da comissão organizadora e agradeci com um sorriso discreto.
— Este reconhecimento não pertence apenas a mim. Ele representa o trabalho de uma equipe extraordinária, formada por profissionais que, todos os dias, dedicam suas vidas ao cuidado com o próximo. Recebo este prêmio em nome de cada colaborador do nosso hospital, porque são eles que tornam possível oferecer uma assistência cada vez mais humana, inovadora e de excelência. Obrigada.
Os aplausos ecoaram pelo salão.
Enquanto segurava o certificado, meus dedos tocaram, quase por instinto, o anel de formatura que minha mãe havia me dado. Naquele instante, senti um nó se formar na garganta. Pensei em todas as noites de estudo, nos desafios enfrentados, nas decisões difíceis e nas inúmeras responsabilidades que vieram depois de assumir a direção do hospital.
Meu olhar percorreu o salão por alguns segundos. Sorri discretamente.
Aquele prêmio não representava apenas o meu trabalho. Representava o legado dos meus pais, o esforço de toda uma equipe e a certeza de que eu estava conseguindo honrar a história que eles construíram com tanta dedicação. Se minha mãe estivesse ali, eu sabia que estaria orgulhosa.
Voltei para a mesa sob novos aplausos. Bárbara segurou minha mão por alguns instantes, enquanto Jordana levantou discretamente a taça em minha direção.
— Parabéns, Alex! Esta noite merece comemorações. - disse ela, sorrindo.
Sorri de volta. Pela primeira vez em muitos dias, senti que todo o cansaço havia valido a pena.
Fim do capítulo
Aproveitando a madrugada de sexta para sábado, aproveitei a noite tranquila para escrever mais um capítulo, tomar algumas taças de vinho e publicar mais uma parte da história.
Boa noite!
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Luhpereira Em: 01/08/2026 Autora da história
Aaaah, fico muito feliz que você esteja gostando!
Sobre o reencontro... Prometo que tudo acontece no momento certo.
E essa "lista negra" ... ela ainda pode aumentar!
Obrigada por acompanhar a história!