Valentina
Eu cheguei cinco minutos antes das oito, Theo abriu a porta antes mesmo de eu tocar a campainha.
— Você estava me esperando na porta?
Ela abriu espaço para eu entrar.
— Não.
— Claro.
— Eu ouvi seu carro.
— Daqui de dentro?
— Você faz muitas perguntas.
Sorri e entreguei a garrafa de vinho.
— Trouxe isso.
Theo olhou o rótulo.
— Finalmente alguma contribuição útil.
— Eu posso ir embora.
— Você acabou de chegar.
— E já fui insultada.
— Você sobrevive.
Entrei, a casa parecia diferente sem caixas espalhadas, sem notebook aberto no escritório, sem o trabalho servindo de desculpa para eu estar ali e aquilo me deixou estranhamente consciente do jantar, afinal era um jantar, na casa dela, sem acervo, sem contrato, sem qualquer motivo profissional.
Só nós duas.
Theo fechou a porta.
— Marta deixou tudo pronto e foi embora.
— Você dispensou a Marta?
— Ela tem vida.
— Suspeito.
— Por quê?
— Porque você também poderia ter me chamado para jantar com ela aqui.
Theo me olhou.
— Talvez eu não quisesse.
Meu coração acelerou de um jeito absolutamente inconveniente.
— Ah. - Só consegui dizer isso.
Theo sorriu como se tivesse percebido, claro que percebeu.
— Vem.
Segui até a cozinha, a mesa não estava arrumada como em um jantar sofisticado. Havia pratos sobre a bancada, duas taças e uma travessa coberta e isso me deixou mais tranquila.
— Você cozinhou?
— Não exagera.
— Então Marta fez.
— Sim.
— Ainda existe esperança.
— Você é muito abusada para alguém que está na minha casa comendo minha comida.
— Sua?
— Minha casa.
Comecei a rir.
— Você precisa de argumentos novos.
— Esse continua funcionando.
Theo abriu o vinho e observei as mãos dela por um instante, foi inevitável lembrar daquelas mesmas mãos na minha cintura, daquele quase beijo, dos poucos centímetros que tinham faltado.
Desviei o olhar, não queria passar a noite inteira pensando nisso. Principalmente porque tinha outra coisa ocupando minha cabeça, minha mãe, Helena, as fotografias.
Theo não fazia ideia e eu não sabia se deveria contar.
— Você está quieta — Theo disse.
— Estou escolhendo se elogio ou critico o vinho.
— Você trouxe o vinho.
— Posso ter feito uma escolha ruim.
— Então a culpa continua sua.
Ela entregou minha taça e nossos dedos se tocaram, rápido, mas nenhuma de nós fingia mais não perceber.
Tomei um gole.
— Bom.
— Aceitável.
— Você é impossível de agradar.
— Não é verdade.
— O que te agrada?
Theo me olhou, a pergunta tinha saído sem intenção ou talvez não.
Ela apoiou a própria taça na bancada.
— Algumas coisas.
— Muito esclarecedor.
— Você perguntou de forma vaga.
— Então seja específica.
O olhar dela mudou, desceu até minha boca por um segundo e depois voltou.
— Talvez eu seja mais tarde.
Minha barriga virou, peguei a taça para ter o que fazer com as mãos.
— Você está muito convencida hoje.
— Você veio.
— Foi você que convidou.
— E você aceitou.
— Está contabilizando pontos?
— Sempre.
Sorri, ela também.
Aquilo estava ficando impossível e eu gostava.
Jantamos na cozinha, falamos de coisas simples com o trabalho, Becca, Heitor, que eu ainda não conhecia e já achava engraçado pelas histórias.
Theo contou sobre uma reunião em que ele tentou fazer uma apresentação sem perceber que havia colocado a versão errada do arquivo.
Eu ri tanto que precisei deixar a taça sobre a mesa.
— Não é tão engraçado.
— Ele apresentou o planejamento anual com uma foto de um cachorro na terceira página.
— Foi um erro técnico.
— Você está defendendo ele?
— Infelizmente é meu amigo.
— Você tem amigos.
Theo levou a mão ao peito.
— Chocante.
— Um pouco.
— Achou que eu mantinha pessoas trancadas no porão?
— Pensei na possibilidade.
Ela riu, o problema era esse a imagem que eu tinha construído dela no primeiro dia já não existia, Theo não era fria, podia ser grosseira as vezes, um tanto quanto impaciente, controladora ao extremo.
Mas também era engraçada, provocadora e muito mais cuidadosa do que gostava de admitir. Eu tinha visto como as pessoas falavam com ela pelo telefone, tinha visto as mensagens chegando o tempo inteiro, Theo tinha uma vida com amigos, muitos convites e mulheres, provavelmente muitas.
Ainda assim, havia sempre aquela parte que ela não mostrava e eu queria conhecê-la. Talvez esse fosse meu maior erro.
— E você? — ela perguntou.
— Eu o quê?
— Tem amigos.
— Tenho.
— Além da Becca.
— Alguns.
— Alguns quantos?
— Isso é interrogatório?
— Curiosidade.
— E desde quando curiosidade é justificativa suficiente?
— Desde que você apareceu na minha casa analisando tudo.
— Mania de editora.
— Pessoas.
— Também.
Ela sorriu.
— E como foi com a sua mãe?
A pergunta me pegou desprevenida.
— Como sabe?
— Você comentou da sua mãe.
— Ah.
Brinquei com o garfo.
— E?
Pensei nas fotografias.
— Estranho.
— Vocês não se dão bem?
— Não é isso.
— Parece.
— Minha mãe me ama.
— Isso não responde.
Levantei os olhos.
Theo estava séria.
Não parecia curiosidade vazia.
— Ela me ama muito — repeti. — Talvez esse tenha sido parte do problema.
Theo esperou.
— Desde pequena, minha mãe tinha tudo planejado para mim. Escola, faculdade, empresa. Quem eu seria.
— E você não queria.
— Por muito tempo eu nem sabia o que queria, só sabia o que ela queria.
Theo mexeu lentamente na taça.
— Por isso saiu de casa.
Fiquei surpresa.
— Como sabe que saí?
— Você falou que não mora com ela.
— Existem outras possibilidades.
— Você fala da sua casa como quem conquistou um território.
Fiquei olhando para ela.
— Você presta atenção demais.
Theo sorriu.
— Já ouvi isso antes.
— Eu precisava sair.
— Por quê?
Respirei, era difícil explicar sem parecer ingrata.
— Porque estava começando a achar que, se continuasse lá, um dia acordaria e seria exatamente a pessoa que ela tinha escolhido para mim.
Theo não disse nada.
— E eu não sabia se essa pessoa era eu.
— Você descobriu?
Pensei.
— Estou descobrindo.
— Gostou do que encontrou até agora?
A pergunta veio acompanhada de um sorriso e sorri também.
— Algumas coisas.
— Muito esclarecedor.
— Você perguntou de forma vaga.
Theo começou a rir.
— Ladra.
— Aprendo rápido.
Ficamos alguns segundos apenas nos olhando, a sensação voltou, aquela tensão que parecia surgir nos momentos mais simples.
Eu não sabia exatamente quando tinha começado, talvez no primeiro toque, talvez antes, só sabia que agora estava sempre ali.
Depois do jantar, levamos o vinho para a sala, Theo colocou música baixa e eu reconheci logo nas primeiras notas.
— Sua mãe gostava disso.
Ela virou.
— Como sabe?
— Tinha discos no escritório.
— Você realmente catalogou tudo.
— Literalmente meu trabalho.
Theo sentou no sofá e eu sentei na outra ponta, não tão longe mas também não tão perto.
— Ela gostava muito de música — disse.
— E você?
— Também.
— Piano.
Theo olhou na direção do instrumento.
— Não.
— Você acabou de admitir que sente falta.
— Em um momento de fraqueza.
— Podemos aproveitar outro.
— Nem tenta.
Levantei.
— Valentina.
Caminhei até o piano.
— O quê?
— Não.
— Eu nem fiz nada.
— Eu conheço essa cara.
— Conhece há algumas semanas.
— Foi suficiente.
Passei os dedos pela madeira.
— É bonito.
Theo permaneceu sentada.
— Minha mãe comprou quando eu tinha quinze anos.
— E você tocava aqui?
— Às vezes.
— Para ela?
A resposta demorou.
— Sim.
Olhei para Theo e pela primara vez ela não parecia querer fugir, mas alguma coisa tinha mudado em seu rosto.
— Não precisa tocar — falei.
— Obrigada pela autorização.
Sorri.
— Só estou dizendo.
Theo levantou e veio até mim.
— Você sempre recua exatamente quando acha que foi longe demais.
— Isso é uma crítica?
— Uma observação.
— E você sempre fica na defensiva quando alguém chega perto demais.
O silêncio caiu, talvez eu tivesse ido longe demais.
Theo parou ao meu lado.
— Estamos falando do piano?
Olhei para ela.
— Não sei.
Ela estava perto, mais perto do que precisava e meu coração começou a bater rápido.
— Você é perigosa, Editora.
Tentei sorrir.
— Por quê?
— Porque faz perguntas demais.
— Você não precisa responder.
— Esse é o problema.
— Qual?
Theo virou o corpo na minha direção.
— Às vezes eu quero.
Minha respiração prendeu, o tom tinha mudado, não era provocação ao menos não completamente.
— Theo...
Ela estendeu a mão e dessa vez tocou meu rosto de verdade, os dedos passaram devagar por uma mecha de cabelo perto da minha bochecha.
Não havia etiqueta, não havia livro caindo, nenhuma desculpa só a vontade de me tocar.
Fechei os olhos por um segundo e quando abri, ela ainda estava ali.
— Se você fizer isso de novo... — falei.
— O quê?
— Vai precisar terminar.
Os olhos dela escureceram.
— Tem certeza?
Não tinha ou tinha, não sei, talvez as duas coisas. No fim só assenti e foi tudo que ela precisou.
O beijou veio devagar, como se ainda houvesse tempo para desistir, não desisti. Minha mão encontrou a camisa dela antes que eu percebesse e a puxei para mais perto, o beijo mudou, a hesitação desapareceu.
Era diferente do que eu tinha imaginado e eu tinha imaginado mais vezes do que admitiria.
Theo tinha gosto de vinho e uma forma irritante de fazer até um beijo parecer uma provocação, a mão dela deslizou até minha cintura, a mesma mão no mesmo lugar. Meu corpo reconheceu imediatamente.
Quando me puxou para mais perto, esqueci completamente o que pretendia fazer com aquela noite, esqueci minha mãe, as fotografias, Helena, tudo porque só o que existia era ela nada mais importava.
Quando nos afastamos, eu ainda segurava sua camisa, Theo encostou a testa na minha e respirava tão rápido quanto eu.
— Isso respondeu sua pergunta? — murmurou.
Eu ri, ainda sem recuperar direito o fôlego.
— Qual?
— O que me agrada.
— Convencida até agora?
— Principalmente agora.
Empurrei seu ombro.
— Idiota.
Theo riu e me beijou outra vez, sem hesitação, sem pergunta eu a queria e agora sabia exatamente o quanto.
Não passamos dos beijos naquela noite, não por falta de vontade. Depois do segundo beijo, voltamos para o sofá, muito mais perto, minha perna encostava na dela, a mão de Theo estava sobre a minha.
Era estranho como aquilo parecia mais íntimo do que o beijo, ela passou o polegar sobre meus dedos.
— Isso complica um pouco as coisas.
— Um pouco?
— Estou tentando ser otimista.
— Eu achei que você fosse boa com decisões.
— Empresariais.
— E essas?
Theo olhou para mim.
— Não faço ideia.
Aquilo me surpreendeu, ela sempre parecia saber sobre tudo, onde ir, o que falar e ver Theo admitir que não sabia o que fazer me deixou mais mexida do que deveria.
— Não precisamos decidir hoje.
— Você fala isso com muita tranquilidade.
— Estou fingindo.
Ela riu.
— Pelo menos é honesta.
— Às vezes.
Ficamos em silêncio por um tempo, eu queria ficar mas sabia que, se ficasse muito mais, talvez acabasse acontecendo exatamente o que estávamos tentando não apressar ou talvez eu não quisesse impedir, essa era outra questão.
Olhei o relógio e era quase meia-noite.
— Preciso ir.
Theo não tentou me convencer do contrário, mas senti seus dedos apertarem os meus antes de soltar.
— Eu levo você.
— Estou de carro.
— Até a porta.
— Ah.
Ela sorriu.
— Não se emociona.
Peguei a bolsa, na entrada, Theo devolveu minha garrafa de vinho vazia.
— Um presente lindo.
— Pode usar de decoração.
— Excelente.
Fiquei diante dela, agora parecia estranho simplesmente ir.
— Então...
— Você é péssima em despedida.
— Descobri recentemente.
Theo encostou no batente.
— Chegou bem?
— Eu ainda nem saí.
— Estou economizando mensagem.
Sorri.
— Eu aviso.
— Não precisa.
— Você vai esperar.
— Convencida.
— Aprendi com você.
Antes de abrir a porta, voltei, beijei Theo uma última vez, um beijo curto, só porque queria, porque finalmente podia.
Quando me afastei, ela parecia surpresa.
— Boa noite.
— Boa noite, Valentina.
Saí antes que mudasse de ideia e ficasse, no carro, levei alguns segundos para ligar, fiquei sorrindo sozinha, passei os dedos pela boca e sorri de novo e então lembrei da minha mãe, da fotografia, de Helena e o sorriso foi desaparecendo aos poucos.
Eu tinha beijado Theo sem contar que, algumas horas antes, descobrira que nossas mães tinham um passado que nenhuma de nós conhecia.
Não tinha mentido, mas também não tinha contado e isso começou a pesar.
Theodora
Eu beijei Valentina e aparentemente, isso destruiu qualquer possibilidade de dormir naquela noite. Fiquei na sala depois que ela foi embora, a música ainda tocava, duas taças permaneciam sobre a mesa. Quase senti falta antes mesmo de a porta fechar.
Não era bom, mas também era muito bom.
Meu celular vibrou.
Valentina: Cheguei bem.
Respondi imediatamente.
Eu: Ótimo. – Apaguei, parecia seco.
Eu: Sabia que chegaria. – Apaguei de novo.
Eu: Bom. Apaguei outra vez, meu Deus qual é a dificuldade.
Larguei o celular e ele vibrou de novo.
Valentina: Está escrevendo e apagando há dois minutos.
Fechei os olhos.
Eu: Odeio esse recurso.
Valentina: Eu sei.
Eu: Como?
Valentina: Porque você está demorando demais para responder.
Sorri.
Eu: Boa noite, Editora.
Valentina: Boa noite, Empresária.
Parei.
Eu: Empresária?
Valentina: Você começou com Editora.
Eu: O meu é melhor.
Valentina: Dorme, Theo.
Olhei para a última mensagem, a resposta saiu antes que eu pudesse pensar.
Eu: Vou tentar. - Enviei.
Fiquei encarando, eu nunca dizia isso, normalmente respondia alguma piada, desviava, mentia, nunca a verdade.
Os três pontinhos apareceram.
Valentina: Tenta mesmo.
Só isso, nenhuma pergunta, nenhum conselho, nenhuma pena.
Levantei e fui apagando as luzes no caminho, passei pelo escritório da minha mãe a porta estava aberta, parei, pela primeira vez a lembrança doía sem me esmagar.
Talvez porque aquela noite tivesse espaço para outra coisa também, entrei e a fotografia de Helena e Cecília ainda estava sobre a mesa.
Peguei, passei meu dedo pela inscrição no verso, Cecília, quem será que ela era, minha mãe nunca tinha falado nela. Olhei para a menina sorrindo ao lado dela.
Havia uma história ali e eu não sabia qual, mas, pela primeira vez, quis descobrir. Não naquela noite, porque naquela noite eu queria pensar em outra coisa.
Em Valentina, no beijo mais gostoso que já tive na vida, na forma como ela segurou minha camisa como se tivesse querendo me fundir a ela e não me deixar fugir, como se eu fosse louca o suficiente para fugir.
Sorri sozinha e depois lembrei de uma coisa, Valentina tinha dito que a mãe dela se chamava Cecília, olhei de novo para a fotografia.
Por um segundo, uma ideia idiota atravessou minha cabeça, coincidência, obvio que era.
Quantas Cecílias existiam? - Muitas.
Guardei a foto e fui para o quarto, me deitei e mais uma vez pensei no beijo e foi assim que adormeci, não trabalhando até a exaustão ou em festas e muito menos com alguém ocupando o outro lado da cama, foi pensando nela e quando acordei algumas horas depois, uma coisa me assustou mais do que o beijo.
Eu tinha dormido de verdade, uma noite toda e não algumas horas.
ValentinaA mensagem da minha mãe chegou às oito da manhã.
Mãe: Precisamos conversar sobre Helena.
Meu estômago afundou, li outra vez. O beijo ainda estava na minha cabeça, a felicidade boba da noite anterior ainda existia e agora dividia espaço com algo muito menos simples.
Eu: Hoje não consigo.
A resposta veio imediatamente.
Mãe: Não é uma conversa que devemos adiar.
Quase ri, minha mãe falando sobre não adiar conversas, a ironia tinha mesmo um senso de humor.
Eu: Depois do trabalho.
Ela não respondeu, levantei, fiz meu chá e tentei pensar no original que precisava revisar.
Não consegui, peguei o celular e abri a conversa com Theo, nenhuma mensagem nova.
Tive vontade de escrever, mas não escrevi. A noite anterior já tinha mudado tudo. Talvez fosse hora de entender o restante antes de deixar mudar ainda mais.
Só que meu celular vibrou, Theo.
Theo: Café hoje?
Meu coração venceu meu bom senso em menos de um segundo, sorri, depois olhei a mensagem da minha mãe, Helena, Theo, o passado e alguma coisa que estava começando agora.
Pela primeira vez, senti medo de que as duas histórias estivessem muito mais próximas do que eu gostaria e eu ainda não fazia ideia de que o sobrenome que Theo não conhecia seria justamente o que colocaria tudo a perder.
Fim do capítulo

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