Capítulo 7

Capitulo 7

de Até o sol encontrar você, por TabitaLima07

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Theodora

Passei o resto da tarde pensando em cancelar o café com a Valentina, não porque eu não quisesse ir, mas porque eu queria demais ir e esse era o problema.

Às seis e vinte eu já estava pronta, às seis e meia, troquei de blusa, às seis e quarenta, troquei de novo. Na terceira vez, parei diante do espelho e fiquei me olhando como uma idiota.

Era só um café.

Só isso.

Eu já tinha saído com mulheres muito mais vezes do que conseguia contar. Jantares, festas, noites inteiras, viagens improvisadas. Nunca tinha ficado quinze minutos decidindo entre uma camisa preta e uma branca.

— Ridículo.

Voltei para a preta, peguei minha bolsa e saí antes que encontrasse outra coisa para complicar.

Cheguei primeiro, claro, escolhi uma mesa perto da janela, pedi água e tentei não olhar para a porta a cada vez que alguém entrava.

Falhei nessa missão também.

Valentina apareceu às sete e cinco, linda como sempre usando jeans, uma blusa clara e o cabelo solto, simplesmente linda demais.

Ela me encontrou com os olhos e sorriu, aquele sorriso, o mesmo que tinha me perseguido mais vezes do que eu gostaria de admitir.

— Você chegou cedo.

— Você atrasou.

Ela se sentou.

— Cinco minutos.

— Continua sendo atraso.

— Eu estava começando a sentir falta disso.

Meu peito deu uma resposta que não combinava com a frase.

— De eu reclamar?

— De você fingir que não estava esperando.

— Eu não estava.

Ela me olhou por um segundo a mais.

— Claro.

O garçom veio, Valentina pediu chá e eu pedi café, até ai nenhuma surpresa.

Quando ele saiu, ficamos em silêncio, só que pela primeira vez, não havia uma caixa entre nós, nenhum livro para organizar, nenhuma desculpa profissional. Só nós duas e eu não sabia o que fazer com isso, mas ainda bem que Valentina parecia saber.

— Então?

— Então o quê?

— Você me chamou.

— Chamei.

— Por quê? – Ela perguntou direta como sempre.

Claro que seria, peguei o guardanapo e comecei a dobrar uma ponta.

— Porque eu quis.

Ela ficou em silêncio.

Olhei.

Valentina estava sorrindo.

— O quê?

— Nada.

— Você está fazendo aquela cara.

— Que cara?

— A de quem sabe alguma coisa que eu não sei.

— Só achei a resposta boa.

— Foi uma resposta normal.

— Para você, talvez não.

Revirei os olhos.

— Não começa.

Ela riu e a partir dai a tensão simplesmente sumiu ou mudou de forma. A conversa começou a fluir naturalmente, nada de assuntos importantes e talvez justamente por isso tenha sido tão fácil, falamos sobre livros ruins e filmes piores ainda e do fato de eu odiar finais abertos e Valentina defender que nem tudo precisa de resposta.

— Isso vindo de uma editora é preocupante.

— Às vezes o leitor também pode pensar.

— Eu pago para o autor pensar por mim.

— Isso explica seu gosto literário.

— Você voltou nesse assunto?

— Vou voltar até você admitir que está errada.

— Então vai durar bastante.

Ela sorriu.

— Não me parece ruim.

A frase ficou entre a gente e dessa vez nenhuma mudou de assunto rápido.

Nosso pedido chegou e Valentina tomou um gole do chá antes de voltar a falar.

— Está bom.

— Eu escolhi o lugar.

— Percebi.

— Como?

Ela abriu o cardápio e mostrou a página e nele havia uma lista enorme de chás.

— Você não pisaria num lugar desses por vontade própria.

Fiquei olhando.

— Eu posso gostar de chá.

— Você toma café às quatro da manhã.

— Uma coisa não exclui a outra.

— Você escolheu por minha causa.

— Está se achando demais.

Ela fechou o cardápio.

— Mas escolheu.

Não respondi e nem precisava, o sorriso dela já dizia que tinha entendido. Conversamos por quase duas horas e eu olhei o celular somente três vezes, quando percebi, guardei dentro da bolsa e é claro que Valentina notou mas não comentou.

Perto das nove, saímos a rua estava mais fria do que eu esperava, Valentina cruzou os braços.

— Você trouxe casaco?

— No carro.

— Claro.

— Quer? – Ofereci o meu.

— Não.

— Está tremendo.

— Não estou.

Tirei o meu mesmo assim.

— Theo...

Coloquei sobre os ombros dela.

— Não começa.

Ela segurou o tecido.

— Você sempre resolve tudo assim?

— Assim como?

— Sem perguntar.

— Eu perguntei e você disse não mesmo estando tremendo.

Ela olhou para mim.

— Você presta atenção demais.

A frase me atingiu porque era verdade, eu prestava atenção de mais nela, no jeito como ela tomava chá, como comia, no horário que chegava, no momento em que ficava quieta depois de falar com a mãe, no sorriso, principalmente no sorriso.

— Você também — respondi.

Valentina ficou séria.

— Eu sei.

Andamos alguns passos em silêncio, chegamos perto do carro dela e ela parou me olhando antes de falar.

— Foi bom.

— Foi.

— Estranho.

— Por quê?

— Porque não tinha livro para organizar.

Sorri.

— Sobrevivemos.

— Por pouco.

Ficamos ali mais uma vez perto demais, o vento mexeu no cabelo dela, Valentina afastou uma mecha do rosto, eu tive vontade de fazer isso.

Pensei em fazer tantas vezes nessas duas horas, mas não fiz.

— Boa noite, Theo.

— Boa noite, Editora.

Ela abriu a porta.

Antes de entrar, virou.

— Você vai mandar mensagem perguntando se eu cheguei?

— Não.

— Então boa noite.

Entrou no carro, esperei ela sair e cinco minutos depois, meu celular vibrou.

Valentina: Cheguei bem.

Sorri.

Eu: Eu não perguntei.

Valentina: Ia perguntar.

Eu: Convencida.

Valentina: Você gosta.

Parei, olhei para a mensagem e meu coração bateu um pouco mais forte.

Eu: Boa noite, Valentina.

Dessa vez usei o nome dela e ela demorou para responder.

Valentina: Boa noite, Theo.

Guardei o celular, talvez eu gostasse mesmo.

Nos dias seguintes, não voltamos à rotina antiga, criamos outra, não combinamos só aconteceu.

Na quarta, Valentina me mandou uma foto de um livro com uma capa horrível.

Valentina: Isso deveria ser crime.

Eu: Finalmente concordamos em algo. – Respondi.

Na sexta, mandei uma mensagem às nove da noite.

Eu: Café?

Valentina: Chá. – Ela respondeu.

Eu: Egoísta.

No domingo, ela me mandou uma foto do almoço queimado.

Valentina: Eu tentei.

Eu: Liga para emergência.

Valentina: Odeio você.

Eu: Mentira.

Ela não respondeu e cinco minutos depois:

Valentina: Talvez.

Fiquei olhando para aquele talvez tempo demais, as coisas estavam mudando e eu sabia. Não sabia onde iam dar mas sabia que já não era apenas vontade de encontrar alguém para não ficar sozinha. Quando eu queria companhia, tinha muitas opções, Valentina era diferente, eu queria ela, as conversas, as provocações, a forma como me olhava.

Aquilo começou a me assustar, mais ainda não o suficiente para parar seja lá o que isso seja.

 

Valentina

Minha mãe ligou três vezes no sábado, na quarta vez, eu atendi.

— Oi.

— Você não vem amanhã?

— Ainda não decidi.

— Valentina.

— Mãe.

— É um almoço.

— Na sua casa, com pessoas da empresa.

— Pessoas que você conhece.

— Esse é exatamente o problema.

Ela respirou do outro lado.

— Não quero falar de negócios.

— Então por que eles estarão lá?

— Porque minha vida não para porque você decidiu sair dela.

A frase doeu mais do que deveria.

— Eu não saí da sua vida.

— Às vezes parece.

Fechei os olhos, era injusto, talvez para nós duas.

— Eu precisava sair de casa.

— Eu sei.

— Não parece.

— Eu entendi tarde.

Isso me fez ficar em silêncio, minha mãe raramente admitia erro.

— O que você quer? — perguntei.

— Almoça comigo.

— Só nós duas?

Ela demorou.

— Sim.

— Sem reunião escondida?

— Sem reunião.

— Sem falar de empresa?

Outra pausa.

— Vou tentar.

Quase ri.

Era provavelmente o melhor que conseguiria.

— Tudo bem.

— Amanhã?

— Amanhã.

— Uma hora.

— Eu chego uma e quinze.

— Valentina...

Desliguei sorrindo, era infantil, mas algumas pequenas rebeldias ainda me davam prazer.

O almoço foi estranho, não ruim, só estranho. Eu não entrava naquela casa havia algum tempo e cada cômodo tinha lembranças demais de uma versão minha que eu tinha passado anos tentando abandonar.

Minha mãe me recebeu na sala impecável como sempre, Cecília D'Niss nunca parecia despreparada para nada.

— Você cortou o cabelo.

— Faz três meses.

— Está bonito.

— Obrigada.

Ela me abraçou um pouco rígida e eu também, sentamos, a mesa estava arrumada para duas pessoas e aquilo me surpreendeu.

— Você realmente não chamou ninguém.

Ela me deu um olhar seco.

— Eu sei cumprir promessas.

— Algumas.

— Vamos começar assim?

Sorri.

— Não.

Começamos a comer e nos primeiros minutos falamos de coisas seguras, meu trabalho, um livro que tinha acabado de editar, uma viagem dela.

Até que ela perguntou:

— Você está saindo com alguém?

Quase engasguei.

— Por quê?

— Porque você sorriu para o celular três vezes desde que chegou.

Olhei para o aparelho, Theo tinha mandado uma foto de um pão de queijo e só isso já foi suficiente para me fazer sorri.

— Uma amiga.

A palavra saiu e soou errada, minha mãe percebeu.

— Amiga?

— Alguém que conheci.

— No trabalho?

— Sim.

— Nome?

— Você vai fazer uma investigação?

— Talvez.

— Então não vou contar.

Cecília sorriu.

— Você está diferente.

— Diferente como?

Ela me observou.

— Mais leve.

Aquilo me deixou desconfortável, não porque estivesse errada e sim porque talvez estivesse certa.

— Deve ser o trabalho.

— Talvez.

Ela não insistiu mas sei que guardou a informação, minha mãe sempre guardava tudo.

Depois do almoço, caminhamos até a sala e foi quando vi ali sobre uma mesa lateral, um livro antigo. A capa chamou minha atenção, não pelo livro e sim porque tinha algo entre as páginas, uma fotografia, só um pedaço.

Parei.

— O que foi?

— Nada.

Aproximei e antes que eu pudesse tocar, minha mãe pegou o livro.

Rápido.

— Esse é velho.

Ela fechou, rápido demais.

— Posso ver?

— Não tem nada interessante.

— Eu não perguntei se tinha.

Nossos olhos se encontraram, por alguns segundos, Cecília pareceu outra pessoa, assustada e minha mãe nunca parecia assustada.

— Valentina.

— O quê?

— Não começa.

Aquilo me irritou.

— Você que começou escondendo.

— Não estou escondendo nada.

— Então me mostra.

Ela colocou o livro sobre a mesa.

— É uma fotografia antiga.

— De quem?

— Pessoas que você não conhece.

— Você conhece?

— Sim.

— Quem?

Minha mãe respirou.

— Uma amiga.

Fiquei parada, uma amiga, a palavra bateu em algum lugar. Pensei nas fotografias do acervo da Helena, na menina chamada Cecília.

Não, seria absurdo, existe milhares de pessoas que se chamavam Cecília.

— Qual o nome dela?

Minha mãe me olhou.

— Por que essa curiosidade?

— Só perguntei.

— Helena.

Meu corpo inteiro ficou imóvel.

— Helena?

— Sim.

O silêncio veio antes que eu conseguisse pensar.

Minha mãe continuou:

— Foi uma amiga de muitos anos atrás.

Não consegui responder imediatamente, Helena, minha mãe, a fotografia e Theo. Tudo passou pela minha cabeça ao mesmo tempo.

— Helena Fontes?

O rosto de Cecília perdeu a cor, só um pouco, mas suficiente para que eu percebesse.

— Onde ouviu esse nome?

Meu coração acelerou.

— Mãe.

— Onde, Valentina?

— No trabalho.

Ela ficou em silêncio.

— Você conhecia Helena Fontes?

Cecília pegou o livro e segurou contra o corpo.

— Conhecia.

— Por que nunca falou dela?

— Porque existem partes da nossa vida que não contamos para os filhos.

— Ela morreu há poucos meses.

Minha mãe fechou os olhos por um segundo.

— Eu sei.

Ali, foi ali que entendi, não era apenas alguém que ela conheceu tinha dor, muita dor.

— Você sabia?

Ela assentiu.

— Foi ao funeral?

— Não.

A resposta veio rápida demais.

— Mãe...

— Não quero falar sobre isso.

— Eu trabalho na casa da filha dela.

Cecília ficou completamente imóvel.

— O quê?

Só então percebi o que tinha dito, merda.

— Trabalhei.

— Com quem?

Eu devia ter pensado antes de ter falado, não pensei.

— Theo.

O nome saiu e minha mãe soltou o livro sobre a mesa.

— Theodora?

— Você conhece ela também?

Cecília não respondeu e aquilo foi resposta suficiente, a história tinha acabado de mudar.

Saí da casa da minha mãe com mais perguntas do que respostas, ela se recusou a continuar, disse que não era o momento que explicaria depois, o que, vindo dela, significava talvez nunca.

Entrei no carro, peguei o celular e Theo tinha mandado outra mensagem.

Theo: Você sobreviveu ao almoço?

Olhei para a tela, eu podia contar, mas contar o quê?

Que minha mãe conhecia a mãe dela?

Que existiam fotografias?

Que Cecília tinha reagido ao nome de Theodora como se alguém tivesse arrancado uma porta que ela mantinha fechada havia anos?

Não, ainda não.

Eu precisava entender primeiro.

Eu: Por pouco.

Ela respondeu:

Theo: Então precisa de recompensa.

Sorri, apesar de tudo.

Eu: Qual?

Theo: Jantar.

Fiquei olhando a mensagem e meu coração fez duas coisas ao mesmo tempo, acelerou pela Theo e pesou pela Helena.

Eu: Hoje?

Theo: Hoje.

Pensei na minha mãe, nas fotos, na história que não conhecia e por fim pensei na Theo, no nosso quase beijo, nos cafés, na falta que já sentia quando passávamos dois dias sem nos ver e eu não queria misturar as duas coisas.

Ainda.

Eu: Onde?

A resposta veio rápido.

Theo: Minha casa.

Parei, a casa, o acervo, Helena, talvez eu devesse dizer não.

Eu: Que horas?

Theo: Oito.

Eu: Levo vinho.

Theo: Finalmente uma boa decisão.

Sorri, mas antes de ligar o carro, olhei uma última vez para a casa onde cresci. Minha mãe conhecia Helena Fontes e Theo não sabia, eu não sabia e de repente, o passado parecia muito mais perto do que deveria.

Naquela noite, eu iria jantar com Theo e pela primeira vez desde que a conheci, eu levaria comigo uma coisa que ela não sabia.

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

2
S

Socorro

25/08/2026 às 04:38

 Mistério ..... Adorando 

Essas implicações gostosas dessas duas ..

volta logo ....

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