Por Miu
Dois meses depois
Dois meses havia se passado desde que me despedi de Lena. Olho para o calendário na parede da confeitaria e percebo como o tempo, que antes parecia arrastar-se na ansiedade da espera, agora corria de forma curiosa. A rotina da cidade engoliu Lena de volta, é verdade, mas ainda assim sua ausência embora sentida, não machucava como achei que machucaria. Isso porque ela esteve tão presente em todos os meus dias, de uma forma que eu nunca imaginei ser possível.
Todas as manhãs, antes de começar o preparo dos doces, meu primeiro ritual é ver as notícias. Lá está ela, em estúdios de TV, em podcasts, ou em fotos e vídeos de eventos em que compareceu. O que me fascinava não era a fama, que sempre me causou um certo receio, mas o brilho nos olhos dela. Quando Lena falava sobre seu novo projeto que estava prestes a ser lançado, sobre o quanto tem aprendido ao reescrever sua trajetória profissional, ela parece estar iluminada por dentro. É uma energia diferente, vibrante.
Sempre que um entrevistador insiste em tocar nas antigas polêmicas, naqueles dias sombrios que quase nos custaram tudo, eu seguro a respiração, mas ela não vacila. Lena responde tudo com uma coerência e uma calma que me fazem admirá-la ainda mais. Ela não se defende mais com raiva; ela responde com a autoridade de quem finalmente é dona da própria história.
Nossas noites são reservadas para as chamadas de vídeo. A distância física é real, a saudade é um aperto constante no peito, mas nossas conversas tornaram-se o nosso porto. É na tela do celular que rimos, planejamos e dividimos o cansaço do dia. O nosso relacionamento não apenas tem sobrevivido aos quilômetros; ele tem ganhado camadas de confiança que eu não sabia que podiam ser construídas tão rápido.
Enquanto ela trilhava seu caminho na cidade, aqui no vilarejo, eu vinha transformado o meu próprio mundo. As obras na confeitaria estão a todo vapor para uma nova reinauguração. O cheiro do açúcar agora se misturava com as receitas de pão fresco e o aroma intenso dos grãos de café de alta qualidade que passei semanas selecionando. Tudo ainda estava em fase de teste, mas a expansão não era apenas física; era a concretização do sonho que antes eu mal ousava sussurrar.
Enquanto Lena auxiliava e opinava de longe, o Sr. Jett, tornou-se o meu maior aliado naquele desafio. Quando apresentei o projeto final que levava a marca, a nova identidade visual, o cardápio que une a minha tradição com a sofisticação de um café especializado, ele não apenas aprovou. Ele sorriu… Era aquele sorriso que Lena havia herdado, e em seguida me deu total autonomia para seguir com o plano de expandir os negócios da confeitaria que agora dava lugar a um café tradicional tailandês.
— Miu. — Ele me disse, com a seriedade de um homem de negócios que reconhece um talento. — Este espaço é tão seu quanto é meu. Você tem liberdade total para criar, gerir e transformar. Confio nas suas mãos tanto quanto confio nas minhas próprias filhas.
Aquele "sinal verde" foi a validação que eu precisava. A confeitaria agora caminha para ser algo maior, um lugar com alma, onde cada xícara servida carrega uma promessa. Eu não estava mais apenas esperando por aquela que faz meu coração bater mais forte; eu estava construindo um lugar para onde ela irá voltar e sentir orgulho do que encontraria, e a cada tijolo colocado, a cada xícara testada, sinto que estamos cada vez mais perto de me sentir realizada.
O som de batidas ritmadas na porta me tirou da concentração com os detalhes finais do menu do café. Estranhei, pois não esperava visitas naquela manhã sábado. Ao girar a maçaneta, o rosto familiar e elegante de Engfa surgiu, trazendo consigo uma energia que parecia iluminar a sala.
— Bom dia, futura dona do melhor café do vilarejo! — Ela disse, entrando com um sorriso cúmplice. — Vim garantir que você não assista ao lançamento do livro da Lena sozinha.
Não pude evitar um sorriso largo. Nos últimos dois meses, Engfa e Lookmhee tornaram-se presenças constantes e vitais na minha vida. Elas não apenas me acolheram como uma nova amiga, mas sim como "cunhada". As duas assumiram um papel de protetoras que eu jamais havia experimentado em toda minha vida. Em cada gesto, em cada convite para um jantar ou apenas em uma visita para checar como eu estava, elas me mostravam o que era o cuidado genuíno. Pela primeira vez, eu não estava sobrevivendo em um ambiente tóxico. Eu fazia parte de algo maior. Eu estava experimentando o calor de uma família de verdade.
— Engfa, você é um anjo. — Respondi, guiando-a até a sala. — Mas onde está a pestinha? A Mhee não viria com você?
Engfa soltou um suspiro divertido enquanto tirava uma garrafa de vinho da bolsa.
— Aquela pestinha deveria ter voltado de viagem ontem a noite, depois do encerramento do curso, mas a figura me ligou hoje cedo com a desculpa de sempre… um imprevisto clássico. Disse que o retorno vai atrasar e pouco mais do que era esperado. Acho que ela encontrou uma desculpa muito boa para não encarar a gente hoje.
Sentamos confortavelmente enquanto o vinho respirava nas taças. A expectativa pela live de lançamento deixava o ar denso, mas de uma forma doce. Quando a transmissão finalmente começou, o impacto foi imediato. O cenário era impecável, montado no coração de uma das maiores livrarias daquela cidade, e lá estava ela. Lena surgiu no palco, os cabelos impecáveis, um sorriso que parecia guardar o sol, acenando para a multidão de fãs que gritava seu nome. Ela estava radiante.
— Meu Deus... — Sussurrei, sem conseguir desviar o olhar, sentindo meu coração acelerar como se fosse a primeira vez.
Engfa, ao meu lado, deu uma cotovelada carinhosa, rindo da minha expressão.
— Miu, por favor! Você está praticamente babando na tela. É a minha prima, mas confesso que esse efeito que ela causa em você é, no mínimo, impressionante. Eu me sinto uma vela aqui.
Ri alto, sentindo o rosto esquentar, mas não tentei esconder meu encantamento.
— Não consigo evitar, Engfa. É como se, toda vez que eu a vejo, meu coração decidisse bater por conta própria, ignorando qualquer lógica. Parece sempre a primeira vez.
Engfa suavizou o olhar, deixando a provocação de lado por um momento. Ela pousou a mão sobre a minha, com uma sinceridade que me tocou profundamente.
— Sabe, Miu... eu fico genuinamente feliz que a Lena tenha encontrado você. Eu conheço a minha prima, sei o peso que ela carregava e a solidão que ela disfarçava com o trabalho. Ver vocês duas juntas me dá uma certeza que eu não tinha antes. Vocês vão ser muito felizes. O que vocês têm é raro, e eu estou aqui para garantir que ninguém atrapalhe.
Ficamos ali, em silêncio compartilhado, assistindo a Lena brilhar no palco da livraria, com o vinho na mão e a certeza reconfortante de que, apesar da distância, nos pertencíamos.
– Então… confessa pra mim. Você já conhece o final do livro, não é?
– Acredita que não? Lena me mostrou o piloto, mas ela não me deixou ler o capítulo depois de finalizado. Ela disse que seria uma surpresa.
A expressão no rosto da empresária denunciou que sua curiosidade foi aguçada.
O silêncio na sala tornou-se absoluto. Engfa largou a taça sobre a mesa de centro, e eu me inclinei para frente, quase sem respirar, enquanto Lena ajustava o microfone parecendo familiarizada com os flashs em sua direção naquele espaço sofisticado. A luz do estúdio parecia incidir sobre ela de uma forma quase divina, realçando a serenidade que agora acompanhava cada gesto seu.
— Para este livro… — A voz de Lena ecoou, firme e emocionada — Eu precisei entender que nem todas as histórias precisam de um final trágico para serem inesquecíveis. Às vezes, a coragem não está em partir, mas em decidir ficar. Queria ler para vocês um trecho do capítulo final, que escrevi com o coração na mão. É um trecho em que existe muito de mim, assim como acredito que muitas de vocês também vão se identificarem como suas próprias histórias.
Ela folheou o exemplar, encontrou a marcação e começou a ler. Sua voz preencheu o ambiente, e cada palavra parecia um espelho que reconheci como sendo da nossa própria trajetória:
"Dizem que o acaso é apenas um nome que damos às coincidências que não conseguimos explicar, mas para nós, o encontro não foi obra do destino, foi obra da urgência em recomeçar. Nós nos conhecemos quando o mundo de uma era barulhento demais, e o mundo da outra era silêncio de menos. Uma fugia da própria sombra que era projetada por uma perfeição inexistente, a outra tentava construir um alicerce sobre as cinzas de perdas que ainda doíam.
O primeiro encontro não teve música ao fundo ou luzes suaves; não teve um jantar romântico a luz de velas, tão pouco aquele clima leve de quem vive uma doce paixão. Teve apenas a honestidade crua de duas mulheres que, por um instante, permitiram-se ser vulneráveis em sua existência. E, a partir dali, o desafio não foi a falta de amor, foi a abundância de medos. Nós fomos testadas por dilemas que pareciam intransponíveis: carreiras que exigiam cidades opostas, expectativas que pesavam como correntes e, principalmente, o medo terrível de que o que nós tínhamos fosse apenas um refúgio passageiro, e não um porto definitivo.
Havia mil motivos para desistirmos. Havia a distância, a pressão do tempo, a insegurança de quem não sabia se teria fôlego para manter aquela chama acesa. Cada uma de nós tínhamos um abismo particular para cruzar.
Mas, quando a poeira das incertezas baixou, percebemos a verdade mais simples e, ainda assim, a mais difícil de sustentar: o amor não é aquilo que sobra quando tudo dá certo; é aquilo que permanece quando tudo insiste em dar errado. Entendemos que, embora o mundo nos desse todas as razões para seguirmos caminhos distintos, nenhum desses caminhos teria sentido se não fosse compartilhado.
E, então, sem grandes alardes, apenas com a certeza que brota após a tempestade, nos escolhemos. Não escolhemos a facilidade, nem a segurança de um roteiro previsível. Escolhemos o risco. Escolhemos a complexidade de crescermos juntas, mesmo que isso significasse reescrever todas as regras que nos foram impostas. Nós decidimos ficar. Porque, afinal, não importa o tamanho da montanha ou a força do vento; o único lugar onde nossos corações finalmente descansavam era ali, exatamente no encontro uma da outra.
Dizem que o amor é um destino, mas eu descobri que ele é, acima de tudo, um ritmo único para cada um de nós. Há quem viva em um staccato frenético, uma sucessão de paixões breves e estridentes que mal deixam tempo para a respiração. Mas o nosso amor... o nosso foi como um ritmo em câmara lenta, composta no silêncio entre duas pessoas que aprenderam a ouvir a batida do coração alheio antes de entenderem a sua própria.
Amar não é a ausência de medo; é a decisão de caminhar através dele, de mãos dadas, mesmo quando o horizonte parece envolto em névoa. Nós enfrentamos o caos, as dúvidas que nos assombravam como fantasmas de velhas expectativas, e os abismos que tentaram nos separar em nome de uma normalidade que nunca nos serviu. Escolhemos o compasso do agora.
Aprendi que o ritmo do amor não é ditado pelo mundo lá fora, com suas pressas e seus julgamentos. Ele é ditado pela paciência de quem sabe que o que é verdadeiro não precisa de pressa para se provar. Amar é, no fim das contas, a arte de se tornar 'casa' para alguém, sendo o lugar onde a outra alma pode finalmente repousar, sem armaduras, sem pretextos, apenas existindo na sua forma mais pura. Se amar é um desafio, que seja o nosso. Se é um risco, que seja o único que vale a pena correr."
Quando Lena fechou o livro, houve uma pausa dramática antes que os aplausos na livraria explodissem, mas para mim, o silêncio que ficou na sala era a única coisa que importava. Senti uma lágrima quente escorrer pelo meu rosto.
Engfa, ao meu lado, limpou o canto dos olhos com uma elegância contida e me deu um sorriso cúmplice.
— Ela não está apenas lendo um livro, Miu. — Engfa murmurou, a voz embargada de orgulho. — Ela está escrevendo uma carta de amor pública para você.
Eu não conseguia dizer nada. Apenas olhei para a tela, vendo Lena sorrir timidamente para o público. Aquela mulher, que havia transformado seu próprio caos em poesia, tinha encontrado, através de mim, o ritmo que a vida sempre tentou lhe negar. E, pela primeira vez, eu entendi perfeitamente o que significava ser a "casa" de alguém. Eu era o repouso dela, assim como ela era o meu lar.
Fim do capítulo

Dolly Loca
02/09/2026 às 11:01
Que capítulo incrível!!! Deu para sentir o amor delas em cada linha