Por Narrador
Naquele momento, o escritório de Engfa era para Lena, um refúgio de sobriedade, contrastando com a vivacidade do vilarejo lá fora. A escritora estava parada diante da janela de vidro, os olhos perdidos na paisagem verde lá fora, enquanto Engfa, com sua postura sempre calculada, observava a prima em um silêncio absoluto. A empresária era uma mulher observadora, e claro que ela tinha estranhado a visita repentina da prima. Ela também já tinha notado a inquietação de Lena há horas, o ritmo irregular da sua respiração, a forma como suas mãos não paravam quietas enquanto ela seguia girando na cadeira de giratória.
Impaciente, Engfa soltou uma caneta sobre a mesa com um clique seco, quebrando a atmosfera densa.
— Lena, chega. — A voz de Engfa soou firme, mas sem aspereza. — Você está aqui há quase uma hora encarando o nada e, conhecendo você como conheço, sei que estar presa em um ambiente de escritório é o seu pior pesadelo. Por que você está aqui, afinal? O que realmente está te prendendo a esse lugar?
Lena vacilou. Seus ombros caíram, e ela tentou ensaiar uma resposta sobre prazos ou burocracias, mas as palavras morreram na garganta. Ela não conseguia mentir para a prima mais velha.
Vendo a fragilidade da escritora, Engfa levantou-se da sua cadeira e, com um movimento preciso, puxou outra cadeira, posicionando-a exatamente à frente de Lena. Ela sentou-se, apoiando os cotovelos nos joelhos e inclinando o corpo levemente, um gesto que era um convite direto à vulnerabilidade.
— Lena, olhe para mim. — Engfa começou, o tom agora mais brando. — Você não precisa manter a guarda comigo. Pode falar tudo o que está entalado aí, sem filtros, sem pressa. Eu sou toda ouvidos.
A resistência de Lena finalmente se desfez. Ela se sentou, apoiando o rosto nas mãos, sentindo o peso das malas que nem tinham sido feitas ainda, mas que já esmagavam seu peito.
— Estou com medo, Engfa. — Confessou, a voz quase um sussurro. — A ideia de voltar para a cidade, de retomar aquela rotina, aquele ritmo de trabalho, de deixar tudo aqui... eu não estou segura. Eu sinto como se estivesse me preparando para viver em um lugar que não é mais meu.
Engfa, astuta, não perdeu tempo rodeando o óbvio.
— É a Miu? O medo da distância dela?
Lena assentiu lentamente, seus olhos encontrando os da prima.
— É ela, sim. Conversamos muito, ela tenta ser forte, demonstrar compreensão, e ela me passa essa confiança de que vamos fazer dar certo, mas eu... eu não sinto essa mesma segurança. Não comigo mesma. Você acha que estou sendo dramática?
Engfa inclinou a cabeça, mantendo o olhar fixo e acolhedor.
— Na verdade, eu não acho isso. Você está sendo bem moldada para ser honesta. Mas pensa comigo… Se a sua namorada tem sido compreensiva e demonstra que no fim tudo vai ficar bem, acho que você deve se perguntar o porquê exatamente de você está sentindo assim O que esse retorno está te tirando que dói tanto? Miu é mesmo o único ponto dessa questão? Acho que quando você descobrir a resposta, vai conseguir encontrar o caminho certo para resolver o problema.
Lena soltou um suspiro profundo, tentando organizar o caos em sua mente.
— Pela primeira vez em muito tempo, eu senti paz, Engfa. Não é apenas sobre a Miu, embora ela seja o centro de tudo agora. Mas eu acho que é este lugar. É ter minha família por perto, ter o silêncio, ter as memórias, ter o tempo que não é medido por relógios de editoras. Eu me sinto inteira aqui. E, ao mesmo tempo... eu me culpo por me sentir assim, porque escrever sempre foi meu maior sonho. É quem eu sou. Mas, de repente, o sonho parece ter ficado grande demais, pesado demais, e eu não sei mais se ele cabe na vida que eu quero construir.
Engfa ouviu cada palavra com a atenção de quem já havia vislumbrado aquele conflito de longe. O silêncio que ela manteve por um instante não era de julgamento, mas de uma compreensão profunda que só o tempo e o laço de sangue poderiam proporcionar.
— Eu nunca entendi, de verdade, por que você e a Ling escolheram se distanciar tanto. — Engfa admitiu, com um sorriso nostálgico, quase melancólico. — Sempre achei que este vilarejo, com todo o laço familiar e sua beleza simples, era o lugar onde nós deveríamos estar. Ter vocês longe sempre me deixou um vazio enorme, mas, ao mesmo tempo, eu nunca seria egoísta a ponto de impedir o voo de vocês. Eu celebro cada conquista, cada livro seu, cada palco da Ling, mas... — Ela fez uma pausa, olhando para as mãos de Lena. — Eu sempre achei que o lugar de vocês era aqui.
Engfa levantou-se e caminhou até a janela, observando o movimento lá fora, onde a vida seguia seu curso orgânico, longe da pressa das metrópoles.
— Sabe, o vovô sempre dizia que as curvas da vida são traiçoeiras e, no fim, sempre nos trazem de volta para onde o nosso coração fincou raízes. Por isso, não se culpe. Você não está tendo dificuldade em ir embora apenas por causa da Miu, ou de um momento de exaustão. Antes você vinha nos visitar por poucos dias, mas dessa vez você passou mais de um mês aqui, e se reconectou com o povo, com os ritmos da nossa terra, se envolveu com os negócio tio Jett, o que diga-se de passagem, sempre foi o sonho do vovô. Enfim, você redescobriu a sua identidade fora da capa dos seus livros, Lena. É natural que o seu espírito agora rejeite qualquer lugar que não ofereça essa mesma conexão.
Lena sentiu uma lágrima solitária escorrer, mas não a enxugou. A validade que Engfa dava ao seu sentimento era o que ela precisava para finalmente aceitar sua própria angústia.
— Eu não queria ter que escolher. — Lena confessou, a voz trêmula, mas carregada de uma determinação dolorosa. — Por que o sucesso precisa ter um preço tão alto? Por que minha paz interior e minha paixão por escrever têm que estar em lados opostos como um abismo? Eu queria que elas coexistissem, Engfa. Eu seria a mulher mais feliz do mundo se pudesse carregar a minha história e o meu trabalho para dentro dessa mesma vida que estou construindo aqui. Mas o mercado não quer a "Lena em paz". Ele quer a "Lena que produz", a "Lena que está presente nos eventos", a "Lena que vive sob a luz dos holofotes".
Ela olhou para Engfa, com um brilho de desafio surgindo em meio à tristeza.
— Talvez o problema não seja o meu trabalho, mas a forma como eu permiti que ele me definisse. Eu não quero abandonar o que escrevo, mas estou começando a sentir que, se eu não mudar a forma como vivo, vou acabar me tornando apenas uma personagem da minha própria editora, e não a autora da minha existência.
Entendendo o dilema da prima, Engfa pensou um pouco a respeito sobre o assunto.
O brilho que surgiu nos olhos de Engfa não foi apenas de inteligência; foi o vislumbre de uma libertação. Ela observou Lena por alguns segundos, deixando a ideia fermentar no ar, até que um sorriso astuto, típico de quem sempre tinha um plano na manga, desenhou-se em seu rosto.
— Lena, e se você não tiver que escolher? — A voz de Engfa saiu baixa, mas com uma certeza que fez a escritora travar.
Lena franziu a testa, a confusão nublando seu olhar.
— Do que você está falando? Eu tenho um contrato, tenho obrigações, tenho prazos que dependem de uma estrutura que só existe na cidade. Como não escolher?
Engfa levantou-se, a animação tornando seus movimentos mais leves. Ela caminhou até o computador e começou a gesticular, como se estivesse desenhando o futuro no espaço vazio entre elas.
— Você já ouviu falar de como os autores independentes estão mudando o mercado? — Ela disparou. — Pense comigo: a tecnologia hoje permite que o autor seja o dono de cada centímetro da sua obra. Eles cuidam da curadoria, da plataforma de publicação, do marketing direto com o leitor. Você não precisaria mais de uma editora que dita onde você mora ou quantos eventos você precisa participar para "manter a marca".
Lena ficou estática, processando cada palavra. Como ela nunca havia pensando naquela possibilidade? Contudo, uma insegurança repentina bateu em seguida.
— Mas ser independente não seria um passo atrás na carreira? Depois de tudo o que eu construí?
— Pelo contrário!
Engfa riu, contagiante. Ela gostava da ideia de quem sabe ter a prima de volta ao seu lado. Não é que ela fosse egoista ou coisa assim. Ela só era protetora demais com as três primas, embora não gostasse de admitir isso para elas, especialmente para Mhee, que costumava cultivar em sua personalidade um certo convencimento exagerado.
— Você não é uma iniciante, Lena. Você é um fenômeno de vendas. O seu público segue você, não o selo da editora. Sendo independente, você manteria o controle total. Você poderia trabalhar aqui no vilarejo, na varanda do tio Jett, na confeitaria, do mirante do tio Arthit enquanto olha para o mar… Você poderia trabalhar onde quisesse, e só viajaria para os eventos que você mesma produzisse, nos seus termos, no seu ritmo. Você seria a dona do seu tempo e da sua paz.
O coração de Lena começou a bater em um ritmo diferente, menos apertado, mais esperançoso. O peso que ela sentia nos ombros parecia começar a flutuar. Ela se levantou num salto, aproximando-se da mesa de Engfa, que já estava abrindo várias abas no navegador.
— Você está dizendo que eu poderia romper essas amarras e continuar sendo quem eu sou?
— Eu estou dizendo que você pode ser a autora da sua própria liberdade. — Engfa respondeu, com os olhos brilhando. — Vem, senta aqui. Vamos mapear isso. Vamos ver plataformas, custos de logística, como funciona o gerenciamento de direitos autorais... Se a gente estruturar um plano, quando você for falar com a diretoria sobre seu contrato, você não vai como alguém que precisa pedir demissão, mas como alguém que está decidindo o seu próprio rumo.
Lena sentou-se na cadeira ao lado da prima, o entusiasmo substituindo o desespero. Juntas, elas mergulharam na tela, o brilho do monitor iluminando os rostos concentrados. Enquanto pesquisavam sobre o modelo editorial moderno, Lena percebeu que a solução para o seu dilema não estava em abrir mão de um sonho, mas em reescrevê-lo, assim como ela havia feito com o último capítulo do seu livro. Ela sentiu, pela primeira vez em anos, que a história que estava prestes a começar não era apenas um livro, mas a sua vida, e ela finalmente estava com a caneta firme nas mãos.
Mais tarde
Por Lena
Ainda sentia a adrenalina pulsando em minhas veias enquanto explicava cada detalhe para Lingling. Espalhei as anotações sobre a escrivaninha do meu quarto, mostrando os fluxos de trabalho, as plataformas de autopublicação e como a independência não apenas preservaria meu nome, mas ampliaria meu alcance. À medida que eu falava, via o rosto de Ling se iluminar.
— Meu Deus, Lena... — Ela disse, soltando uma risada incrédula enquanto balançava a cabeça. — A Engfa é mesmo a mais inteligente de nós quatro. Como a gente não pensou nisso antes? É uma alternativa tão óbvia, tão lucrativa e, acima de tudo, tão libertadora. Você vai ser dona de cada vírgula do que escreve, sem ter um editor ditando seu endereço.
Ela me olhou fixamente, o tom de voz tornando-se subitamente sério, mas carinhoso.
— Você está convicta? Você aabe que isso vai mudar a dinâmica da sua vida inteira, não é? Sem o contrato tradicional, a responsabilidade é toda sua. Você não teria que ter uma equipe para te ajudar nas partes mais burocráticas?
Respirei fundo, sentindo uma paz que há muito tempo não me visitava.
— Estou convicta, Ling. Algumas coisas ainda precisam serem estudadas, mas pela primeira vez em anos, não sinto que estou correndo contra o tempo ou contra alguém. Estou em paz com essa decisão. Eu quero construir algo aqui, e a liberdade de ser uma autora independente é a chave que eu precisava para não precisar fazer uma escolha.
Aproximei-me dela, baixando o tom de voz com um gesto de cumplicidade.
— Mas, por favor, não comenta nada com a Miu. Nem uma palavra, ouviu bem? Quero que isso seja uma surpresa. Quero chegar nela, depois que eu resolver tudo com o Yen e com a editora, e mostrar que não vou precisar me despedir de verdade. Quero que ela veja que a "casa" que prometemos construir é um projeto real.
Ling sorriu, e vi o brilho genuíno de quem via a própria irmã finalmente florescer.
— Prometo segredo absoluto. Fico tão feliz em te ver assim, Lena... tão leve. Vou sentir um vazio enorme lá na nossa casa, vou sentir falta da nossa rotina, mesmo você sendo uma chata, mas entendo que o seu caminho mudou. E, quer saber? Eu pretendo voltar para cá com muito mais frequência agora. Não vou aguentar ficar longe de vocês por tanto tempo.
Ela hesitou por um momento, olhando para o vazio, antes de completar:
— E... se você puder não comentar com a Engfa ou com a Mhee agora, eu agradeço. Mas preciso te contar uma coisa. Esses dias aqui, respirando esse ar, revivendo as memórias... algo mudou em mim também. Eu senti falta disso. Falta de ser apenas a Ling, e não a "atriz famosa". Senti falta de estar perto de vocês, como quando éramos crianças. Eu sentia falta do papai, da mamãe, dos tios… Mas das nossas primas é algo ainda mais forte, e eu nem sabia que era possível sentir tanto assim.
Olhei para ela, notando a vulnerabilidade rara em sua expressão.
— Você está pensando em mudar também, não está?
Lingling deu de ombros, com um sorriso enigmático, mas doce.
— Ainda não é o momento de tomar uma decisão definitiva, mas não descarto a possibilidade para o futuro. As coisas na cidade parecem ter perdido o brilho, e aqui... aqui eu me sinto viva. Por hora, me comprometo a estar aqui pelo menos duas vezes por mês. Não vou deixar que a distância nos roube mais tempo do que já roubou.
Ouvi-la dizer aquilo foi como sentir um nó se desfazendo no peito. Não era apenas o meu destino que estava se transformando; era como se a nossa família, silenciosamente, estivesse voltando para o seu verdadeiro centro de gravidade. Eu estava indo embora de uma vida que não me servia mais, mas, ao mesmo tempo, estava voltando para casa de um jeito que eu nunca imaginei ser possível.
Fim do capítulo

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