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Por Miu

 

Dois dias depois

 

O crepúsculo na varanda, onde eu estava agora, parecia ecoar o mesmo tom alaranjado daquela tarde em que tudo mudou. Enquanto observava o horizonte, as memórias se sobrepuseram ao presente, transportando-me de volta àquele momento, dois dias atrás, quando o medo do futuro ainda me paralisava, mas a força de Lena me impelia a arriscar.

Eu me lembro claramente da luz âmbar filtrando pelas janelas da confeitaria, pouco antes de eu fechar as portas para o dia. 

 

Flashback on

Lena estava sentada em um dos bancos, com um livro que ela nem folheava, seus olhos — aqueles olhos que guardavam tantas tempestades e tantas estrelas — perdidos em mim, apenas em mim.

Eu já sabia que a vinda do editor de Lena, tinha trazido para seu coração não apenas preocupação, mas também angústia. Lena foi honesta quando me contou com detalhes sobre aquilo que ela considerava ser um problema. No entanto, embora fosse angustiante, ainda assim não posso deixar de confessar que eu já sabia que cedo ou tarde aquilo aconteceria, afinal de contas, diferente de Engfa e Mhee, Lena já não era mais aquela que passou sua infância e juventude morando no vilarejo. Lá fora existia um mundo e vozes que aclamavam por seu retorno. Agora ela era a Lena Lalina, escritora famosa que com sua escrita representava muitas mulheres, e que tinha obrigações a serem cumpridas. 

Agora seria preciso que nós duas soubéssemos lidar com aquela situação de forma adulta e prudente. Contudo, reconsiderar meus sentimentos por Lena, não era uma opção, e eu deixaria isso claro para a escritora, transmitindo a confiança de que aquilo que estávamos construindo não era tão frágil. 

O aroma de baunilha e farinha ainda flutuava no ar. Eu havia limpado minhas mãos no avental, o coração batendo tão forte que eu temia que ela pudesse ouvir através do balcão. Eu nunca fui mulher de grandes gestos, muito menos sabia usar palavras grandiosas, mas a maneira como ela me olhava, como se eu fosse a única verdade em meio ao caos da fama, quebrou todas as minhas defesas.

— Você tem medo de que eu me vá, não tem? — Ela me perguntou com uma delicadeza que me desarmou.

Eu me lembrei de caminhar até ela, o coração na garganta. Eu não tinha flores, não tinha promessas fáceis, apenas a honestidade crua de quem entende que o amor é uma decisão diária. 

— Eu não tenho medo de que você vá. — Eu respondi, inclinando-me para frente, sentindo o calor que emanava dela. — Tenho medo de não ser o suficiente para segurar você quando o mundo chamar seu nome. Mas eu quero ser o lugar para onde você sempre queira voltar.

E então, eu tomei fôlego, o ar faltando em meus pulmões enquanto eu segurava as mãos da escritora, mãos que criavam mundos, agora entregues às minhas mãos de confeiteira.

— Eu não quero ser apenas um capítulo da sua vida, Lena. Eu quero ser a sua casa. – Busquei no bolso do avental a mesma caixinha que guardava o anel que eu já vinha pretendendo oferecer a Lena antes da chegada de Thai ao vilarejo. – Você quer escrever o resto dessa história comigo, mesmo que seja difícil, mesmo que seja incerto? Você quer ser minha namorada, Lena Lalina? 

Flashback off

 

A lembrança de sua resposta enquanto um lindo sorriso iluminava seu rosto, ainda me trazia um calor reconfortante ao peito. O brilho intenso em seus olhos, o sorriso que iluminou todo o cômodo, a forma como ela se levantou e encurtou a distância, selando nossa promessa com um beijo que provou que todas as minhas incertezas tinham sido em vão.

Ali, na varanda, o presente me trouxe de volta. Aquela promessa que fiz na cozinha da confeitaria não era sobre posse; era sobre lealdade. O fato de ela precisar partir agora, mesmo que por um tempo, para resolver o seu legado profissional, não mudava o que tínhamos selado naquele dia. Se eu prometi ser a sua casa, eu seria. E uma casa não desmorona só porque o dia está lá fora, trabalhando. Ela espera, ela acolhe, e acima de tudo, ela permanece.

 

O reflexo no espelho refletia uma versão de mim que eu mal reconhecia: um pouco mais confiante, mas ainda com aquele frio na barriga que só Lena era capaz de provocar. O jantar na casa dos pais de Lena deveria ser um marco, e eu me esforcei para escolher algo que fosse elegante, mas que não perdesse a simplicidade que me definia.

Quando Lena chegou para me buscar, seu sorriso foi o meu primeiro alívio. Ela estava radiante, e a forma como seus olhos brilharam ao me ver, me deu a certeza de que, não importa o que viesse a seguir, eu não estaria sozinha.

— Pronta? — Ela perguntou, estendendo a mão.

— Acho que sim. — Respondi, tentando controlar a respiração.

No entanto, ao chegarmos lá, o que encontrei não foi o jantar formal que eu imaginava, mas sim um ambiente vibrante e caloroso. A casa do Sr. Jett estava iluminada, com vozes ecoando por todos os cantos. Dessa vez, além de Engfa e Lookmhee, o restante da família estava lá: Ou seja, agora como namorada oficial de Lena, eu não teria que encarar apenas O Sr. Jett e a Sra. Malee, mas também o Sr. Tawan, o pai de Engfa, e Sr. Arthit, o pai de Mhee, que eu ainda não tinha tido a oportunidade de conhecer devido às suas constantes viagens.

Senti minhas bochechas arderem. Minha timidez natural aflorou imediatamente ao perceber que naquele instante minha chegada havia se transformado no centro daquelas atenções. Lena percebeu na hora minha instantânea insegurança, e sem hesitar, entrelaçou seus dedos nos meus, apertando com firmeza.

 

– Você não mencionou que seus tios estariam aqui. – Sussurrei apenas para Lena ouvir.

Posso jurar que por um momento Lena prendeu o riso, mas ela logo se recompôs e se concentrou em me passar tranquilidade. 

— Relaxa, Miu. — Ela sussurrou perto do meu ouvido. — Eles estão mais ansiosos do que você. Não é como se tio Tawan já não te conhecesse, é claro, mas segundo ele agora as coisas mudam completamente. 

A olhei sem entender. 

– O que isso quer dizer exatamente? – Tenho certeza que estava assustada com as possibilidades das respostas.

– Você está se comprometendo com a sobrinha preferida do tio Tawan. O que acha que isso quer dizer? – Lingling surgiu com um sorriso travesso. 

– Tio Jett, não é realmente um problema, Miu. Mas tio Tawan… Eu realmente não queria estar no seu lugar quando ele for interrogar sobre suas intenções com nossa pequena Lena. – Mhee surgiu logo ao lado da prima. 

Agora as duas me olhavam de braços cruzados. Não me era possível dizer qual das duas tinham uma áurea mais duvidosa. 

— Vocês duas querem parar de assustá-la? Desse jeito todo nosso esforço vai ter sido em vão. – Engfa segurou nos ombros das duas primas e as afastou de modo que ela pudesse ficar entre elas. – Olha só a nossa cunhada preferida. Agora é oficial! — A mais velha exclamou. 

– É claro que ela é a preferida. Nós só temos uma cunhada, Engfa. – Mhee debochou fazendo graça. 

— Acho que ela está quase desmaiando, Mhee. Precisamos de um  desfibrilador? — Ling completou, rindo.

Até Engfa, que eu considerava a mais ponderada, não se conteve e deu um sorriso de lado, entrando na onda das primas:

— Deixem a menina, ela só está processando o choque de ter entrado para essa família de malucos.

Arthit, o tio mais velho, deu um passo à frente com uma gravidade serena que impunha respeito. Pouco tempo em sua presença e já dava para perceber por sua postura que ele era a personificação da maturidade, muito diferente da energia frenética da filha.

— É um prazer finalmente conhecê-la, Miu. Meus irmão falaram muito bem sobre você. — Ele disse com um sorriso acolhedor. — Seja muito bem-vinda à nossa família. Não ligue para o barulho, você logo entenderá que é assim que demonstramos afeto uns pelos outros.

– Só não falamos mais do que a Lena. A cada frase concluída, pelo menos dez palavras que ela diz, é sobre você, Miu. – Disse o Sr. Tawan ao se aproximar. 

– Tio! – Lena repreendeu o mais velho, que sorriu com divertimento. 

Foi impossível não perceber como os papéis estavam invertidos ali. Enquanto o pai de Engfa claramente compartilhava do mesmo espírito de humor que a sobrinha Mhee, ficava por conta do pai da mais nova as mesmas características de Engfa. Por sua vez, o pai de Lingling e da minha namorada, era o equilíbrio entre os dois, embora tivesse características de humor semelhantes ao do seu irmão do meio. 

Foi então que comecei a observar a dinâmica entre os três irmãos. Era fascinante. Tawan, era a alma da festa, o mais brincalhão e expansivo, rindo alto e contagiando todos. Arthit, por outro lado, era a voz calma e séria, quase como uma contradição ao que eu estava costumada até agora.

Percebi, enquanto conversávamos, que a família de Lena era um mosaico complexo de personalidades. Eu, a confeiteira tímida, estava ali, sentindo-me, aos poucos, parte daquele quebra-cabeça. Não era apenas um jantar para oficializar um namoro; era o começo de uma integração onde, pela primeira vez na minha vida, o meu lugar estava sendo desenhado não por mim mesma, mas por um coletivo que me recebia de braços abertos.

 

 

Enquanto a conversa fluía entre risadas e travessuras, senti a mão de Lena nunca soltar a minha, o que obviamente não passava despercebido sob os olhares de todos, especialmente de Lingling, Engfa e Mhee. 

Aquela pequena pressão constante era o meu âncora em meio àquele turbilhão de personalidades vibrantes. Sr. Jett, aproximou-se com duas taças de vinho, oferecendo-me um sorriso que carregava o mesmo conforto que via nos olhos da filha.

— Miu, não se deixe intimidar por esses dois. — Ele disse, gesticulando levemente em direção a Tawan, Arthit  

Minha sogra aproximou sem conseguir esconder a animação que sentia.

— O Jett é quem mantém o equilíbrio aqui, mas, acredite, eles três são piores quando não há convidados. 

Tawan soltou uma gargalhada alta, dando um tapinha nas costas do irmão.

— Ora, cunhada, não entregue o jogo tão cedo! Deixe que a moça descubra por conta própria que o Arthit é quem escreve as regras e eu sou quem as quebra. – Disse o pai de Engfa, sem nenhum constrangimento. 

Arthit apenas arqueou a sobrancelha, mantendo aquele seu ar impassível e elegante, mas pude ver um lampejo de humor em seus olhos escuros. Era fascinante observar como a genética e a convivência os moldava tão igual moldavam suas filhas. No fim das contas, todos ali possuíam o mesmo sangue, mas com essências que se completavam como peças de um relógio antigo.

A dinâmica mudou quando Lookmhee, incapaz de ficar quieta por mais de cinco minutos, decidiu intervir no assunto.

— Tio, já que a Miu está aqui, você deveria contar aquela história de quando você e o pai da Lena tentaram criar um sistema de irrigação que acabou inundando a sala de jantar da vovó!

O pânico na cara de Sr. Tawan foi imediato, enquanto o Sr. Jett revirou os olhos com uma resignação divertida. 

– Aquilo foi um completo caos. Mas eu avisei desde o início que não iria dar certo. – Disse o pai de Mhee parecendo visualizar a cena em sua memória. – Acho que minha filha é desajuizada porque enquanto estive fora a trabalho, ela passou uma temporada sob os cuidados de Tawan. Os dois se parecem tanto quando o assunto 3 aprontar.

– Você diz isso, mas Engfa me deu o desgosto de herdar esse teu jeito sisudo.

– Ainda bem que eu tive duas, assim cada uma parece com um de vocês para não ter briga. – Disse meu sogro. 

A sala explodiu em risadas. Eu me peguei rindo também, de uma forma que não fazia há anos. O medo de não ser "suficiente" para a família da mulher que eu amava começou a se dissipar, substituído por um sentimento raro: pertencimento.

Lena inclinou-se em minha direção, sussurrando perto do meu ouvido:

— Você está se saindo melhor do que o esperado. Tio Tawan você já conhecia, e ele já te adorava. Mas agora acho que você acabou de conquistar o tio Arthit, também. 

— Você acha? — Perguntei, sentindo um calor bom subir pelo rosto.

— Tenho certeza! — Ela respondeu, beijando discretamente a ponta dos meus dedos. — Eles não recebem qualquer pessoa, Miu. Eles te acolheram tanto quanto eu escolhi você.

Naquele instante, enquanto Tawan contava uma história engraçada sobre a juventude e Engfa tentava, sem sucesso, manter a ordem entre Ling e Mhee, percebi que, apesar da minha natureza reservada, eu havia encontrado o lugar exato onde desejava estar. O futuro pareciam agora degraus naturais de uma escada que eu começava a subir ao lado de Lena. Eu não precisava mais ter medo do "mundo chamar o nome dela", pois, naquela noite, entre histórias de inundações caseiras e risadas, entendi que o mundo da Lena agora também era o meu.

 

 

O jantar finalmente caminhou para o seu fim, embalado por um café forte e pela promessa de que aquelas histórias seriam apenas as primeiras a serem contadas dentre muitas ocasiões em que estaríamos todos juntos. 

A saída da casa do Sr. Jett e Sra. Malee, foi uma sequência de abraços calorosos, conselhos bem-humorados do Sr. Tawan e um aceno de cabeça respeitoso e cúmplice do Sr. Arthit, que me deixou com a sensação de ter recebido uma "bênção" oficial daquela dinastia.

O caminho até a minha casa foi percorrido em um silêncio muito diferente daquele que eu costumava ter quando estava só. Era um silêncio preenchido, onde a presença de Lena no banco do motorista parecia ocupar todo o espaço do carro. O ar da noite, fresco e carregado com o cheiro da terra úmida, entrava pela janela aberta, serenando os batimentos do meu coração que ainda estavam agitados pela emoção.

Quando Lena estacionou diante da minha porta, ela não desligou o motor de imediato. Ela ficou ali, observando o reflexo das luzes do painel no meu rosto, com aquele olhar que me despia de qualquer insegurança.

— Você foi incrível. — Ela disse, a voz num tom baixo e aveludado. — Vi o jeito que o tio Arthit te olhava. Ele definitivamente te adorou, Miu. Na verdade, você conquistou toda minha família. Obrigada por isso. 

– Você está me agradecendo por ter sobrevivido? — Brinquei, soltando um suspiro longo que carregava todo o nervosismo acumulado das últimas horas. 

– Não! Na verdade, eu estou te agradecendo por fazer o que nenhuma outra fez. Você se importa com o que é importante para mim. Você tentou, sabe? Quero dizer… Você tentou conhecê-los, você tentou fazer parte do meu mundo. 

Meu coração bateu mais forte diante da intensidade com o qual aquelas palavras foram ditas.

— Você tem uma família intensa, Lena. Mas... é uma intensidade boa. É estranho, mas por um momento lá dentro, eu me senti apenas... em casa.

Lena se inclinou, soltando o cinto de segurança e encurtando o espaço entre nós. Ela colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, um gesto que sempre me fazia sentir como se o resto do mundo tivesse parado de girar.

— É bom que se sinta assim, porque pretendo tornar isso uma realidade muito tempo. Você é a minha Miu. A mulher que tem mãos de ouro, e que por algum motivo que ainda tento entender, decidiu colocar o seu caminho ao lado do meu. — Ela sussurrou, a mão repousando suavemente em meu rosto. — Eu sei que as coisas são recentes entre nós, mas eu queria que você soubesse que, esse foi o melhor ritmo que já dancei. 

Senti uma pontada de saudade antecipada, mas, desta vez, não havia desespero. Havia a confiança de quem sabe que o vínculo que criamos naquele último mês, era mais forte do que qualquer escritório ou contrato.

— Eu vou estar sempre aqui. — Respondi, segurando a mão dela contra a minha bochecha. — Você vai resolver o que precisa ser resolvido, Lena. E, quando você voltar, eu vou estar aqui.

Lena sorriu, um sorriso pequeno e sincero, e selou aquela promessa com um beijo demorado, calmo, carregado de sentimentos.

Fim do capítulo

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