Por Narrador
O sol da tarde tingia o céu de um tom âmbar, quando Lena e Miu finalmente alcançaram o topo da colina, seguindo as indicações entusiastas de Lookmhee. O trajeto, embora sinuoso, valeu cada esforço assim que a visão do mirante se abriu diante delas.
Lena já conhecia o lugar, afinal de contas, já havia estado ali tantas vezes na companhia das suas prima e do seu tio Arthit. O pai de Mhee sempre foi um homem apaixonado pela natureza e sempre fez questão de ensinar as sobrinhas e a filha sobre a importância não apenas de cultivá-la, mas também de respeitá-la e admirá-la.
Contudo, para Miu aquela paisagem era sem dúvidas uma das mais belas supressas proporcionadas pelo vilarejo. Miu não pode deixar de pensar que aquele era o segredo mais bem guardado da família Lena. Lá embaixo, o mar estendia-se como um manto de seda líquida, com águas de um azul-turquesa tão cristalino que era possível ver o movimento dos corais no leito rochoso. A paisagem, típica da beleza serena e tropical da Tailândia, era emoldurada por falésias cobertas de uma vegetação exuberante e árvores frondosas que balançavam suavemente com a brisa salina.
— É indescritível... — Miu murmurou, os olhos brilhando diante da imensidão. — Parece que estamos em outro mundo.
Lena sorriu, observando o deslumbramento da confeiteira.
— É como um pequeno paraíso cultivado pelo tio Arthit. Ele cuida de cada centímetro disso aqui como se fosse um altar. E acredite, esse é literalmente, o refúgio especial da nossa caçula. Quando ela precisa respirar e se reconectar consigo mesma, é para cá que ela corre.
– Ao que parece cada uma de vocês tem um lugar especial para se refugir aqui.
– Eu sempre achei que crescer aqui seria como um privilégio. Estamos cercadas por um povo acolhedor, animado… Sempre tivemos muitos amigos por aqui, e também um lugar que esconde uma riqueza de belas paisagens que nos trás paz. – Lena respondeu sentindo uma sensação de tranquilidade invadir seu coração.
Miu caminhou até a beira da mureta de pedra, sentindo a brisa no rosto, e não pôde deixar de notar a dimensão daquela propriedade.
— Como sua família conseguiu ser proprietária de uma parte tão considerável das terras daqui? É impressionante.
Lena aproximou-se, apoiando-se ao lado dela, com o olhar perdido no horizonte.
— Meu avô chegou a este vilarejo logo após se casar, com quase nada nos bolsos. Na época ainda tinha poucos moradores, mas eles eram muito determinados e tinha uma visão muito clara do que queriam conquistar. Ele trabalhou incessantemente, conquistando cada lote de terra com trabalho, suor e paciência. Quando os filhos cresceram, ele dividiu a gestão de acordo com a vocação de cada um. A economia da nossa família se diversificou assim, permitindo que cada braço da árvore genealógica cuidasse do que amava, porque vovó acreditava que o progresso só era possível existir quando caminhava junto com a satisfação e amor.
Ela apontou para uma área mais baixa da propriedade, onde o verde se misturava com pequenas instalações bem planejadas.
— O tio Arthit, sempre teve um tino especial com criação, por isso ele se dedicou ajudar vovô com à criação dos peixes e suínos. Mas sempre fez isso com um respeito quase sagrado pelos ciclos naturais. Para ele, a natureza nunca foi apenas um recurso a ser extraído; ele nos ensinou que ela é sinônimo de beleza e uma riqueza que precisa ser honrada.
– Quanto ao pai de Engfa? – Miu questionou com curiosidade.
– Tio Tawan cuida dos negócios do cultivo de grãos. A especialidade é o arroz. Ele sempre nos ensinou que, se cuidarmos da terra, ela nos devolverá em dobro. E bem, como você já sabe, ficou sob a responsabilidade do papai, cuidar da doceiria. Mas embora cada um tenha ficado com uma atividade em especial, os três irmãos sempre se aconselham e buscam resolver os problemas juntos.
Miu observou a harmonia da paisagem abaixo, sentindo uma paz nova em seu coração. Naquele mirante, longe dos holofotes e das intrigas, o mundo parecia finalmente ter entrado em foco, e a história da família de Lena, tão conectada àquela terra, fazia com que ela se sentisse, pela primeira vez, parte de algo muito maior e profundamente real.
– Eu acho realmente algo encantador a união da sua família. Nunca experimentei algo assim. Minha família nunca foi grande, pois assim como eu, papai também era filho único. Mas deve ser reconfortante saber que sempre tem braços abertos para te acolher nos bons e maus momentos.
Ao perceber que Lena a olhava com um misto de carinho e admiração, Miu corou com timidez. Percebendo isso, a escritora levou a mão até o rosto de Miu, onde o acariciou com delicadeza.
– Eu realmente gosto quando você fala um pouco mais sobre você, sobre sua família… Gosto de sentir que você se sente bem em falar comigo sobre qualquer coisa. Quero ser para você o mesmo encontro de apoio que você é para mim.
As duas sorriram sentindo aquela chama da paixão aquecer seus corações.
Miu segurou a mão de Lena que estava em seu rosto e a beijou.
– Venha, vamos nos sentar.
O sol começou a declinar no horizonte, tingindo as águas do mar de tons alaranjados e violetas, enquanto o silêncio confortável entre Lena e Miu era preenchido apenas pelo canto das aves marinhas e o balanço suave das árvores. Ali, naquele mirante que parecia suspenso entre o céu e o oceano, a intimidade entre elas atingiu um nível novo; não era apenas a paixão física, mas a descoberta silenciosa de quem eram, um desejo genuíno de desbravar os pensamentos da outra.
— Miu, me conta mais sobre você. — Lena sussurrou, acariciando com a ponta dos dedos as costas da mão da confeiteira. — Sobre seus sonhos, o que você sempre quis para a sua vida antes de tudo isso acontecer?
Miu sorriu, um brilho nostálgico iluminando seu olhar. Ela falou sobre os anos de formação em gastronomia, sobre as madrugadas estudando técnicas e a vontade pulsante de ter um negócio que carregasse sua assinatura.
— Eu sempre soube que queria algo próprio. — Confessou Miu. — Mas, sabe, antes do meu pai falecer e de eu me mudar para o vilarejo, eu tinha um plano bem específico. Eu queria abrir um café. Um daqueles lugares aconchegantes, onde o aroma do grão moído na hora convida as pessoas a pararem o tempo.
Lena franziu o cenho, curiosa, observando a habilidade com que Miu manuseava ingredientes.
— Você tem um dom nato. Suas mãos produzem qualquer receita com uma precisão cirúrgica, tanto o salgado quanto o doce. Por que se limitar apenas à confeitaria?
Miu deu de ombros, tímida.
— Acho que o destino apenas me direcionou para o que era necessário aqui.
Lena ficou pensativa por um longo momento, observando o reflexo do sol no mar. De repente, seus olhos brilharam com uma ideia.
— Miu, por que você não realiza esse sonho agora? O que te impede?
Miu arregalou os olhos, surpresa com a rapidez da proposta.
— Do que está falando?
— Assim como era meu avô, meu pai também tem uma visão de negócios muito ampla. Como sócia, se você montar um projeto sólido, algo que realmente agregue valor, ele vai ouvir. Ele entende de expansão. Você não precisa apenas seguir o que já existe, você pode transformar em algo ainda melhor.
Miu hesitou, sentindo o peso daquela sugestão.
— Isso mudaria muitas coisas. Quero dizer… Você não ficaria brava? É o legado do seu avô, Lena. Transformar a confeitaria em um café, mudar a identidade... não seria um desrespeito ao que foi construído aqui?
Lena negou prontamente, apertando a mão de Miu com firmeza.
— Pelo contrário. Meu avô sempre me ensinou que o horizonte é imenso demais para mantermos os olhos fixos em um só ponto. Sempre podemos fazer novas descobertas. Além disso, você não estaria desconstruindo nada, mas sim, agregando ainda mais valor a uma memória que nem o tempo é capaz de apagar. Vovô nos deixou muito mais do que negócios sólidos. Ele nos deixou histórias, experiências, ensinamentos… Miu, Ele conquistou tudo o que temos trabalhando duro, sim, mas ele nunca teve uma mente limitada. As pessoas costumam ficar surpresos em ver que nossa família tem muitas atividades econômicas em desenvolvimento, mas a explicação é bem simples… Vovô diversificava as atividades não só para fugir da rotina, mas porque sabia que, para oferecer o melhor ao cliente, era preciso inovar.
Ela olhou para Miu com um sorriso encorajador.
— Ele não construiu um império para que nós vivêssemos como prisioneiras da tradição. Expandir o cardápio, criar uma marca que seja sua dentro desse espaço que hoje é nosso... isso não é desrespeito, Miu. É evolução. Você estaria agregando algo novo, algo que é a sua cara, o seu sonho. Eu adoraria ver a sua identidade impressa em cada xícara de café servida naquele lugar.
Miu olhou para Lena, sentindo o medo da mudança ser substituído por uma centelha de esperança alimentada por aquela que ela estava aprendendo amar. Pela primeira vez, ela percebeu que não estava apenas encontrando um amor ali, mas também alguém que acreditava em sua capacidade de construir o próprio futuro, honrando o passado sem se tornar refém dele.
Miu teve certeza, que ali estava sendo construindo com Lena, a dinâmica de um cuidado mútuo entre as duas.
O crepúsculo já começava a abraçar o horizonte quando a silhueta de Lookmhee surgiu no caminho do mirante, caminhando apressada e com um semblante que misturava urgência e constrangimento, afinal de contas, a mais nova não queria atrapalhar o momento que ela mesma tinha idealizado para as duas,.
— Lena! — Ela chamou, ainda um pouco ofegante pela subida. — A Ling me ligou. Disse que você precisa ir para casa agora mesmo. Temos uma visita inesperada nos esperando na sala.
Lena trocou um olhar preocupado com Miu. O clima de paz que haviam construído nas últimas horas pareceu evaporar com a menção de algo que interrompia aquele momento de conexão.
Ao chegarem à residência, a surpresa foi imediata: sentado com uma postura impecável em uma das poltronas, sob o olhar atento e receptivo de sua família, estava Yen. Embora fosse um bom homem e amigo de Lena, o editor ainda assim parecia deslocado na rusticidade acolhedora do vilarejo, sua presença carregada de burocracia e expectativas corporativas.
Após as apresentações formais e um pedido silencioso de Lena para que todos os deixassem a sós, a tensão na sala tornou-se quase palpável.
Bastou analisar um pouco a amiga, Yen logo soube que não estava errado quando deduziu que algo havia mudado na escritora. Ele já havia percebido aquilo antes mesmo, durante o pouco contato que tiveram por ligações.
— Lena, sua ausência prolongada tornou-se insustentável para a diretoria. — Ele disse, mantendo um tom de voz equilibrado, mas implacavelmente profissional. — Você precisa retornar à cidade imediatamente. Há uma reunião agendada para tratar das repercussões das últimas polêmicas, alinhar a agenda de marketing para o lançamento do livro e, mais importante, discutir as cláusulas para a renovação do seu contrato.
As palavras de Yen caíram como gotas de chumbo sobre Lena. A ficha começou a cair, e a realidade profissional, que ela manteve à distância nos últimos dias, chocou-se violentamente contra a vida que sem ao menos perceber, estava construindo no vilarejo. O dilema, antes hipotético, agora era real e urgente: voltar para a cidade significava mergulhar novamente em um ambiente onde seu nome era mercadoria, e pior, significava um distanciamento físico e emocional agora não apenas de sua família, mas também de Miu, o porto seguro que ela acabará de encontrar.
– Sobre o vazamento daquele último capítulo, o vocês fizeram a respeito? Antes de pensarem em qualquer lucro com meu trabalho, deveriam traçar melhor um plano de gestão para a editor.
Yen, observou a escritora. Ele a conhecia suficiente para ter certeza que Lena certamente em algum momento diria algo como aquilo. No entanto, aquele tom carregado parecia esconder algo a mais.
– Sobre isso não se preocupe. Já nos encarregamos de cuidar do que era necessário a respeito da funcionária envolvida. Mas é quanto a você, existe algo que queira compartilhar comigo que eu ainda não esteja sabendo?
Lena pensou um pouco a respeito. Ela não tinha receio de falar sobre seu relacionamento com Miu. Ela sabia que ia enfrentar uma discussão com a diretora por ter se recusado aceitar aquela encenação ridícula que eles haviam programado visando extrair mais da sua história com Thai. Mas sua vida era particular e não pertencia a editora. Contudo, ainda assim, por hora ela preferiu não mencionar a confeiteira para Yen.
– Não! Nada!
– Hum! Tudo bem. Mas saiba que pode falar sobre qualquer coisa comigo. Você sabe que para mim, você não é apenas a Lena Lalina, mais uma escritora da editora. Você é uma amiga.
Lena nada respondeu, apenas sorriu ocultando a preocupação trazida pela a visita de Yen.
Yen despediu-se pouco depois, confirmando que passaria a noite na pousada do vilarejo e que esperava por ela na manhã seguinte para tratar dos detalhes da partida. Assim que ele saiu, o silêncio na casa tornou-se opressor.
Lingling, que observava a irmã pelo vão da porta, aproximou-se ao notar que Lena parecia estar em um estado de transe, o olhar perdido em um ponto fixo da parede.
— Lena, respire. — Ling sussurrou, colocando as mãos sobre os ombros da irmã. — Não se desespere. O que você está sentindo agora é apenas um choque momentâneo, mas a sua vida não precisa ser dividida dessa forma. Você não precisa lidar com pressão assim.
— E se eu perder tudo aqui, Ling? — Lena respondeu, a voz embargada. — Se eu for, como vai ficar o que a Miu e eu começamos agora? Como vou manter essa paz se o meu cotidiano voltar a ser o caos?
— Você é uma mulher inteligente, Lena. — Ling disse, com a voz firme e reconfortante. — Cumpra seus compromissos, resolva essa questão com a editora, mas não tome decisões precipitadas baseadas no medo e nem se deixe levar por pressão alguma. Você e a Miu, vão encontrar um jeito. O amor de vocês não é uma flor que morre por causa de um endereço diferente, e nós estamos aqui para garantir que você não precise escolher entre sua carreira e sua felicidade. As coisas vão se ajeitar, você só precisa dar o primeiro passo.
Fim do capítulo

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