Tamanho do texto
1.772 palavras103 leituras0 comentários

Por Lena

 

A tela do celular parecia vibrar com a intensidade daquelas palavras. Eu estava sentada no sofá da casa de Miu, cercada pelo silêncio atônito de Engfa, Lingling e Lookmhee, enquanto a imagem de Thai surgia naquela live inesperada. Não pude deixar de perceber que a Thai não estava montada como a influencer que o mundo conhecia. Ela parecia vulnerável e despida de qualquer artifício.

— Eu não fui uma boa parceira para a Lena. — Thai dizia, a voz embargada enquanto encarava a câmera. — Acho que hoje é importante que todos saibam que não é culpa de Lena se estamos separadas. A culpa é inteiramente minha. Eu não apenas a traí, como também quebrei a confiança dela. E, para ser ainda mais desonesta, fui eu quem planejou o vazamento daquele capítulo do livro. Eu achei que, se estivéssemos ligadas pelo sucesso da obra, o público nos veria como um pacote só... eu errei. Errei profundamente com uma mulher que não merecia.

As lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto sem que eu pudesse contê-las. Era o peso de um longo tempo marcado por mágoas se dissolvendo em uma confissão inesperada.

— Eu entendo que hoje vocês torçam por nós duas. Mas aquilo que vemos nas redes sociais não é uma verdade absoluta. Por mais que vocês nos achem um casal bonito, é preciso muito mais que beleza para uma união. Eu não cuidei de Lena. Eu não a respeitei, não a honrei como deveria, e principalmente, eu não zelei por seu amor quando o tive. Depois de tudo o que eu fiz, hoje o coração da Lena não me pertence e por mais que isso me doa, eu respeito e entendo. — Continuou Thai, olhando diretamente para a lente, como se nos visse através dela. — Eu tentei, de forma egoísta, reconquistá-la. Mas ela merece alguém que nunca a tenha feito duvidar de si mesma. Peço que apoiem o trabalho da Lena, que a respeitem. Ela merece o melhor.

Quando a live terminou, o silêncio na sala era denso. Eu sentia uma estranha necessidade de ver a pessoa que acabara de desarmar todas as bombas que plantou no meu caminho.

— Eu vou até a pousada onde ela está hospedada. — Anunciei, levantando-me, a voz firme apesar do rosto molhado. — Preciso falar com ela. Preciso que esse ciclo encerre de verdade.

Miu, que até então estava ao meu lado, apenas me observou. Seu olhar era de uma neutralidade cuidadosa, mas seus dedos se entrelaçaram com força sobre o próprio colo.

– Você entende, não é? – Segurei na mão de Miu, que me analisou.

– Devo ser honesta? 

– Por favor! – Respondi.

– Eu não gosto da ideia. Mas eu entendo. 

Mhee sussurrou, inclinando-se para Engfa e Ling, com um sorriso de canto que nem tentava esconder a ironia. 

— Olha para a Miu. Ela está morrendo de ciúmes, mas não quer admitir.

Engfa soltou um suspiro, o olhar analítico voltado para a confeiteira e, em seguida, para mim.

— Ela tem motivos para estar insegura, Mhee, mas não é um ciúme destrutivo. — Engfa argumentou, mantendo a voz baixa e ponderada. — A Lena só precisa desse último passo para ser dona totalmente da própria história. Ela quer o encerramento, não o recomeço. Ela sabe que, se colocar o que construíu com a Miu em risco agora, estaria jogando fora tudo o que a Thai tentou destruir.

Miu continuou em silêncio, mas eu podia sentir a tensão em cada músculo de seu corpo. Ela me olhou uma última vez, esperando que eu confirmasse, com apenas um gesto, que o meu destino não era com Thai, mas sim o seu lado. 

Eu estava pronta para sair, com a chave do carro na mão e a mente focada no desfecho daquele ciclo, quando a voz de Miu cortou o ar. Não foi um sussurro, nem uma súplica, mas uma afirmação carregada de uma autoridade que eu nunca tinha presenciado nela.

— Você não vai sozinha, Lena.

Travei no meio do caminho. Miu levantou-se, alisou a blusa com uma calma calculada e caminhou até mim. O brilho em seus olhos não era de insegurança ou de ciúme infantil, mas de uma mulher que sabia exatamente o seu lugar.

— Como eu disse… eu entendo a sua necessidade de fechar esse capítulo. — Continuou Miu, parando à minha frente e segurando minha mão, não como quem pede permissão, mas como quem reivindica um direito. — Mas eu sou a mulher que está construindo algo com você agora. Se você vai enterrar o passado, eu vou estar lá para garantir que ele fique enterrado de vez. Não é falta de confiança em você, é questão de posição. Eu não vou me esconder enquanto você resolve o que é nosso.

O silêncio que se seguiu foi quebrado por uma gargalhada genuína de Lookmhee.

— Nossa, vocês estão ouvindo isso? — Mhee começou a fazer graça, com os olhos brilhando de admiração. — Eu coloco toda a minha fé na Miu agora! Quando eu tiver a minha mulher, quero que ela seja exatamente assim: decidida, firme e dona do território.

— Primeiro arranja uma namorada, Mhee. — Ling disparou, rindo. — E boa sorte, considerando que ninguém consegue te levar a sério por cinco minutos com essa sua mania de palhaça.

— Ah, é? E você, Lingling? — Mhee rebateu, já partindo para o ataque brincalhão. — Pelo menos eu não passo o dia todo fingindo ser uma atriz dramática na vida real enquanto sou um desastre emocional nas conquistas.

O início daquele pequeno embate entre as duas fez com que Engfa revirasse os olhos, suspirando com aquele tédio típico de quem, como a mais velha, carregava o peso da paciência da família.

Ignorando completamente as outras duas que seguiam disputando quem era mais louca, Engfa se aproximou de nós, deixando as primas discutindo ao fundo.

— A Miu está coberta de razão. — Engfa declarou, com seu tom sério. — É o mais inteligente a se fazer. Ir juntas não é apenas um ato de união, é uma demonstração de realidade para a Thai. Ela precisa ver, com os próprios olhos, que a Lena não está mais vagando pelo passado, mas que ela tem uma mulher ao lado. Isso encerra de uma vez por todas qualquer dúvida ou esperança que ela ainda tiver.

Senti um calor subir pelo meu peito ao observar Miu. Esse lado atrevido, protetor e decidido era novo para mim, e Deus, como aquilo era atraente. Eu sorri, deixando que a surpresa desse lugar a uma admiração profunda.

— Você tem razão! — Eu disse, estendendo a mão para Miu. — Na verdade, não consigo imaginar uma forma melhor de encerrar isso. Vamos juntas!

Miu entrelaçou seus dedos aos meus, sua firmeza renovando minha coragem. Enquanto caminhávamos para a porta, deixando para trás o festival de insultos engraçados entre Ling e Mhee. Percebi que aquela não era apenas uma ida a uma pousada. Era a nossa primeira caminhada como um casal que não pede licença para existir.

Saí dali com o coração aquecido, sabendo que, embora o caminho fosse em direção ao passado, cada passo meu era movido pela vontade de finalmente estar livre para o nosso presente.

 

Por narrador

 

Miu manteve-se à distância, em um canto estratégico da recepção da pousada. Ela observava tudo com o silêncio atento de quem conhecia o valor do que estava protegendo. No centro do saguão, a tensão entre Lena e Thai era uma presença física.

Quando Thai avistou a escritora, o impacto foi imediato. A influencer, que ainda trazia nos olhos o cansaço emocional da live, sentiu o peito contrair-se sob o peso da culpa e da vergonha.

— Lena... não era preciso você ter vindo até aqui. — Thai murmurou, mantendo uma distância respeitosa, as mãos nervosamente entrelaçadas.

— Era preciso, sim. — A voz de Lena saiu firme, embora carregada de uma melancolia mansa. — É preciso de muita coragem para fazer o que você. Embora você tenha errado no passado. Eu vim agradecer  pelo que você fez hoje.

Thai baixou o olhar, balançando a cabeça em negativa.

— Eu não fiz mais do que a minha obrigação. Eu errei com você de formas que nem consigo mensurar o estrago. O mínimo que eu podia fazer era não deixar que o estrago fosse ainda maior.

As duas trocavam olhares repletos de um passado que, finalmente, começava a se desintegrar. Havia tristeza ali, a marca inevitável de um afeto que um dia foi o mundo de ambas, mas, acima de tudo, havia o reconhecimento da exaustão.

— Apesar de tudo, apesar de todos os erros... o que importa, no fim das contas, é que dessa vez você foi verdadeira. — Lena disse, aproximando-se um pouco mais. — Esse arrependimento que você mostrou... ele é real. E isso vale muito. Tenho certeza que você aprendeu muito.

Thai sentiu as lágrimas ameaçarem o controle que tanto tentava manter.

— Eu sinto tanto, Lena. Sinto muito por ter demorado tanto para enxergar o que sinto, e por ter percebido o que você significava apenas quando já era tarde demais.

Lena suspirou, o semblante suavizando-se.

— Nós terminamos da forma errada, é verdade. Mas houve um tempo em que fomos felizes, em que nos amamos. Eu prefiro guardar esses momentos sem o peso do rancor. É a única forma de seguir em frente.

Thai então desviou o olhar para o canto, onde Miu permanecia imóvel, vigiando a cena com uma elegância serena. Ela compreendeu a mensagem sem que uma palavra fosse dita.

— Espero que desta vez... — A voz de Thai falhou. — Você tenha encontrado alguém que saiba valorizar a mulher incrível que você é.

— Eu estou feliz, Thai. — Lena respondeu, com um sorriso curto que não deixou dúvidas. — E, do fundo do meu coração, eu desejo que você encontre a sua felicidade, assim como eu encontrei a minha.

O silêncio que se seguiu foi preenchido por um consenso mútuo. Thai deu um passo hesitante, a insegurança ainda presente no gesto.

— Posso... posso te abraçar? Uma última vez?

Lena, após um breve segundo, assentiu com a cabeça. O abraço foi lento, um contato que começou carregado de hesitação, mas que terminou como um suspiro de alívio. Ali, entre o perfume da pousada e o ruído distante da rua, o perdão não foi dito; ele foi sentido. Era o fim de um longo inverno, e a libertação definitiva de duas histórias que, enfim, poderiam seguir caminhos paralelos, sem que uma precisasse apagar a existência da outra.


Fim do capítulo

Publicidade
Conversa

Comentários

0
Este capítulo ainda não recebeu comentários.
Informar violação das regras