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Por narrador

 

Uma semana depois

 

O sol da manhã parecia brilhar com uma intensidade especial sobre o vilarejo, como se a própria natureza estivesse celebrando o grande dia. A confeitaria, agora expandida e transformada no elegante "Café da Miu", transbordava vida. O aroma de grãos torrados na hora misturava-se ao perfume doce das especiarias produzidas pela confeiteira, e o estabelecimento estava lotado. Clientes habituais e novos rostos ocupavam todas as mesas, elogiando a nova identidade visual que carregava, com orgulho, a assinatura de Miu.

Miu, com um avental impecável e um brilho de realização nos olhos, movia-se entre as mesas com uma agilidade contagiante. Sua família, ou melhor, sua nova família, estava lá em peso: Seus sogros, Sr. Jett e Sra Malee, estavam acompanhados pelos os tios de Lena, Sr. Tawan e Sr. Arthit, além de Engfa, que naquele tinha tinha abdicado do seu trabalho para prestigiar sua nova “cunhada”. A empresária que era conhecida por todos ali por sua simpatia, gentileza e beleza, parecia a anfitriã informal do evento, garantindo que ninguém ficasse sem atenção.

De repente, o movimento na porta de entrada atraiu a atenção de Miu. O sino tocou, mas, ao ver as figuras que atravessavam a porta, a respiração de Miu travou. Eram Lena e Lingling.

Miu sentiu as pernas vacilarem por um breve segundo antes de correr para encontrá-las. Seus olhos estavam arregalados, o choque evidente enquanto ela segurava as mãos de Lena, que para ela estava ainda mais linda.

— Lena? Mas... você me disse que tinha um compromisso inadiável na editora, e que não conseguiria vir de jeito nenhum! — Miu exclamou, a voz embargada pela emoção de estar diante da namorada após quase três meses distantes.

Lena sorriu, aquele sorriso que, para Miu, sempre seria a sua visão favorita no mundo. Ela acariciou o rosto da namorada com ternura.

— Eu disse isso para fazer uma surpresa, meu amor. Eu não poderia, em hipótese alguma, deixar de estar presente na sua maior conquista. Nada, absolutamente nada, é mais importante para mim do que o que você construiu aqui.

Sem se importar com os olhares dos clientes que as observavam, Miu envolveu Lena em um abraço apertado, um daqueles que parecem querer compensar cada segundo de distância dos últimos meses.

— Obrigada por estar aqui — Miu sussurrou no ombro dela. — Obrigada por tudo.

— Ei, não se esqueça de mim! — Lingling interrompeu, rindo e abrindo os braços com uma expressão dramática. — Eu também viajei horas para chegar aqui e exijo o meu abraço de cunhada preferida!

Miu riu, soltou Lena para abraçar Lingling, que aproveitou para inspecionar o local com um olhar de aprovação genuína.

— Parabéns, Miu! Está tudo impecável. Você tem noção do sucesso que está fazendo? Papai disse que o vilarejo inteiro só fala desse café.

Engfa aproximou-se. Abraços e demonstrações exageradas de afeto não era a linguagem de amor favorita da empresária. Ela deixava aquela arte para a prima mais nova. Mas naquele momento Engfa envolvendo as primas e a cunhada em um semicírculo que transbordava em afeto. 

– Ai! Desse jeito você vai me esmagar. O que deu em você, mulher? Pensei que abraços fosse coisa da Mhee. – Lingling provocou a prima.

– Cala a boca, pirralha. Só aceite que posso ser tão emocionada quanto aquela pestinha. – Respondeu a empresária arrancando risadas das outras.

Ela olhou para Lena com uma faísca de diversão nos olhos.

— Ainda bem que você chegou, Lena. Eu já não sabia mais como entreter minha nova cunhada e garantir que ela não desmaiasse de nervosismo por causa da sua ausência. 

Lena riu, lançando um olhar carregado de gratidão para a prima mais velha.

— Obrigada por ter cuidado tão bem dela por mim, Engfa. Eu sei que os últimos meses foram intensos.

Engfa, com sua habitual sinceridade astuta, apenas deu de ombros, deixando que seu olhar voltasse para Miu e Lena com um carinho raramente demonstrado.

— Não precisa agradecer. A felicidade de vocês é a minha também. É bom ver que as peças finalmente se encaixaram.

Lingling, notando a movimentação, olhou em volta e franziu a testa, sentindo falta de alguém.

— E a Mhee? Cadê a nossa pestinha favorita? Ela não vem?

Engfa verificou o relógio no pulso, mantendo o semblante sereno.

— Ela estava viajando. Foi fazer aquele curso de especialização de que tanto estava falando, lembra? Mas já deve estar chegando. Nos falamos horas atrás e ela me garantiu que já estava na estrada. 

– Mas ela viajou pouco depois que nós. Já não era para ter retornado a algumas semanas? – Lena estranhou.

– Você conhece a Mhee. Ela é péssima com planejamentos. Semanas atrás ligou dizendo que teve uns imprevistos na programação. Provavelmente perdeu dias fazendo compras, ou se perdeu em alguma boa lábia pelo caminho. – Respondeu a empresária sem demonstrar preocupação.

– Para ser bem sincera, a surpresa não é ela demorar em retornar, mas sim você não ir pessoalmente buscá-la depois de ter uma crise de preocupação. – Lingling voltou implicar com a mais velha. – Você está bem mesmo? – Ela disse levando a mão até a testa de Engfa que a olhou com repreensão.

– Você é mesmo uma graça, Ling. Vocês dizem que sou exagerada, mas o que seria de vocês sem minha racionalidade? Um puro desastre, garanto. 

Miu e Lena começaram a rir da pequena discussão que iniciou-se entre as duas prima. A confeiteira olhou para as três ali, reunidas em torno de si, e sentiu uma paz profunda. O café estava cheio, o futuro parecia promissor, e, finalmente, o nó da distância havia se desfeito, ainda que por hora. Ela não estava apenas inaugurando um negócio; ela estava vivendo o início de uma vida que ela mesma ajudou a escrever, ao lado das pessoas que, contra todas as expectativas, tornaram-se o seu verdadeiro lar.

 

Horas depois

 

O burburinho no salão diminuiu à medida que Miu, com um brilho de emoção nos olhos, posicionou-se ao lado do Sr. Jett, pai de Lena. Ela respirou fundo, segurando o microfone com mãos firmes, mas que denunciavam a palpitação de um coração transbordante.

— Eu não preparei palavras formais. — Começou Miu, sua voz ganhando força conforme olhava para os rostos que agora compunham o seu mundo. — Porque, na verdade, o que sinto hoje não cabe em um roteiro. Esta inauguração não é apenas sobre tijolos, doces, café ou a expansão de um negócio. É sobre o caminho que a vida me permitiu trilhar até aqui.

Ela voltou seu olhar para o Sr. Tawan, que a observava com aquele sorriso brincalhão e acolhedor de sempre.

— Sr. Tawan, muito obrigada. O senhor foi a primeira mão estendida, aquele que me trouxe ao vilarejo e, sem saber, me abriu as portas para uma vida que eu nem ousava sonhar.

Em seguida, sua atenção se voltou para os sogros, Sr. Jett e Sra. Malee.

— Sr. Jett, Sra. Malee, a confiança que vocês depositaram em mim, ao me entregarem a administração de um patrimônio tão importante para a família de vocês e, acima de tudo, um de seus bens mais preciosos... – Ela olhou sutilmente para a namorada. – Essa confiança é o maior presente que recebi. Prometo honrar esse legado.

Foi nesse momento, em meio à comoção, que Lookmhee irrompeu pela porta, um tanto alvoroçada pela correria da viagem, mas com o sorriso contagiante de quem não perderia aquele momento por nada. Ela abriu caminho entre os clientes, ganhando o espaço ao lado de Engfa, Lingling e do resto da família, observando Miu com um brilho de orgulho puro.

Miu sorriu ao ver a chegada da caçula, retomando o fio de seu agradecimento:

— E claro, preciso agradecer a cada uma de vocês. Engfa, Lookmhee, Lingling e Sr. Arthit... vocês me acolheram com uma proteção que eu nunca experimentei em toda minha vida. Vocês me ensinaram, na prática, o que é o significado de família.

Por fim, seus olhos encontraram os de Lena, que estava logo ali à frente, acompanhando cada palavra como se fosse o trecho mais bonito de um livro. Miu sentiu um calor suave irradiar em seu peito.

— E a você, Lena Lalina. Obrigada por ter acreditado em mim quando nem eu mesma conseguia enxergar o potencial do meu próprio sonho. Desde o primeiro momento que nos encontramos, você me ensinou muitas coisas, não apenas com suas histórias sobre chocolate, mas sobre bondade, persistência, paciência, sobre zelo por memórias, e sobretudo sobre o amor.  Você me mostrou que a ambição é apenas um detalhe quando se tem alguém ao lado que segura a sua mão nos momentos de dúvida.

Miu deu um passo à frente, olhando diretamente para a namorada, sua voz quase um sussurro que, graças ao microfone, alcançou todos os presentes que àquela altura estavam emocionadas como se assistissem a um episódio final de uma novela:

— Eu aprendi que, na vida, podemos construir muitos lugares, podemos gerir muitos sonhos... mas, no fim das contas, a gente só se sente em casa quando encontra o lugar onde o coração decide descansar. Obrigada por ser o meu lugar de descanso e por me permitir escrever essa história ao seu lado. Este café é a nossa conquista, mas você... você é a minha maior inspiração.

Um aplauso caloroso e genuíno varreu o ambiente. Sr. Jett colocou a mão no ombro de Miu, com um orgulho paternal evidente, enquanto Lena, visivelmente emocionada, não precisou de palavras para dizer o quanto aquela declaração — sutil e poderosa — tinha selado aquele momento como o início definitivo de tudo o que ainda estava por vir.

 

O movimento dentro da confeitaria estava frenético, mas carregado de uma energia radiante. Lena e Lingling, vestiram aventais que quase não combinavam com a elegância natural de ambas, divertiam-se servindo as mesas, enquanto Miu regia o salão com um sorriso de quem finalmente encontrara seu ritmo. 

Próximo ao balcão, observando o caos organizado, Lookmhee se aproximou de Engfa, que mantinha uma postura serena, mas com olhos que captavam cada movimento ao redor.

Engfa não precisou de muito esforço. Bastou um olhar para notar a rigidez nos ombros da prima mais nova, uma tensão que não pertencia ao clima festivo daquele dia. Com aquele poder de percepção que sempre desarmava qualquer um, Engfa inclinou a cabeça e lançou a pergunta, direta como uma flecha:

— Mhee, o que você aprontou?

Lookmhee sentiu um frio na barriga. Durante todas as horas de estrada, ela tinha ensaiado mil discursos, mas ao encarar o olhar clínico de Engfa, todas as palavras fugiram. Ela sabia que, uma vez que revelasse a verdade, não haveria caminho de volta. Tinha que apostar na benevolência da prima, rezando para que a astúcia de Engfa fosse usada a seu favor e não contra ela.

— Eu... eu preciso falar com você. A sós! — Mhee conseguiu dizer, com um sorriso nervoso que tremia nos cantos da boca.

Engfa arqueou a sobrancelha, o sorriso desaparecendo. Ela percebeu, pela profundidade daquele nervosismo da mais nova, que o assunto transcendia as habituais travessuras de Lookmhee. Sem dizer nada, Engfa apenas acenou para a área externa, seguindo em direção ao jardim lateral, onde o som das conversas dos clientes se tornava apenas um murmúrio distante.

Assim que a porta se fechou, Engfa cruzou os braços sobre o peito e fixou o olhar em Mhee, num silêncio que pesava toneladas.

— Diga de uma vez. O que aconteceu?

Mhee estremeceu. Engfa, quando queria, podia ser gélida, e aquele momento era um teste de resistência. Ela respirou fundo, tentando conter o turbilhão interno, e encarou a prima de frente.

— Eu preciso da sua ajuda, Engfa.

— Ajuda com o quê? — A voz da mais velha saiu curta.

Mhee engoliu em seco, mas foi quase firme quando respondeu:

— Não é com o quê. É com quem.

Engfa franziu a testa, a confusão misturada a um crescente estado de alerta. 

— Como assim, "quem"? Não entendi nada.

Mhee suspirou, decidida a pular no abismo. 

— Um emprego. Eu preciso que você dê uma oportunidade de trabalho para uma pessoa. É uma mulher... e-eu a trouxe comigo dessa viagem.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Os olhos de Engfa se estreitaram, uma expressão de pura incredulidade tomando conta de seu rosto, rapidamente substituída por uma autoridade reprimida.

— Uma mulher? Você a trouxe com você? — O tom de Engfa subiu, carregado de uma repressão que fez Mhee dar um passo atrás. — O que isso significa exatamente, Lookmhee Punyapat? Você fugiu com uma mulher, é isso? 

A pergunta veio carregada de tantas interpretações que Mhee, por um segundo, ficou paralisada. Então, a realidade do mal-entendido atingiu seu cérebro, e um riso nervoso e estridente escapou de seus lábios. Ela começou a rir de desespero, cobrindo o rosto com as mãos. Aquilo estava se tornando o cenário mais embaraçoso de sua vida, e ela mal começara a explicar.

— Não! — Mhee tentava falar entre as risadas nervosas. — Engfa, pelo amor de Deus, não é nada disso que você está pensando! Você entendeu tudo completamente errado!

– Então explique-se agora mesmo. O que você quer que pense depois de ouvir isso? – Ordenou a mais velha pronta para repreender qualquer insanidade da prima. 

 

 

O trajeto até a casa de Mhee foi percorrido em um silêncio carregado. Engfa, sempre analítica, parecia estar processando cada sílaba que a prima havia despejado poucos minutos atrás. Ela ainda não sabia bem se o que sentia era ceticismo ou preocupação, mas o passo decidido em direção à porta de entrada mostrava que, pelo menos, a curiosidade já havia vencido a desconfiança.

Ao chegarem, Mhee não esperou o carro esfriar. Ela quase tropeçou na pressa de alcançar a prima, que já estava com a mão na maçaneta, pronta para invadir sua casa sem qualquer cerimônia.

— Engfa, espera! — Mhee tocou o braço da mais velha com delicadeza, o pânico estampado no rosto. — Por favor, seja gentil. Se você chegar com esse seu jeito... de "Engfa Waraha" que faz todo mundo tremer, ela vai pegar as malas e sair correndo com medo. E como eu vou julgá-la? Até eu tenho medo de você as vezes. – a mais nova encolheu os ombros diante do olhar gélido da prima. – Promete que vai ser educada?

Engfa parou, analisando Mhee. O olhar da mais velha vasculhou o rosto da prima, buscando um rastro de dúvida, antes de soltar a pergunta que a atormentava desde a conversa que tiveram pouco tempo atrás:

— Você está apaixonada por ela, Mhee?

Mais uma risada nervosa escapou de Mhee, mas desta vez, logo em seguida, ela se recompôs. Havia uma segurança genuína em sua expressão agora.

— Não! De verdade, não é isso. Eu só... eu só quero ajudá-la a ter uma chance de recomeçar. É humano, Engfa.

— Humano? — Engfa franziu o cenho, impaciente. — Você trouxe uma desconhecida para dentro da sua casa só porque a viu ser demitida e chama isso de humano? Você é uma desmiolada, Mhee. Você não conhece a história dela. O mundo é um lugar perigoso para quem é ingênuo.

Mhee baixou o olhar, evitando o contato visual direto. Ela sabia que estava caminhando em terreno minado, mas tinha uma última carta na manga. Bem, aquilo sempre funcionava, então deveria funcionar também agora. 

— Você sabe que o nosso senso de justiça não é apenas uma palavra, é quem nós somos. — Mhee murmurou, escolhendo as palavras como quem pisa em ovos. — Eu tenho sorte, Engfa. Eu não cresci com uma mãe, mas sempre tive o Tawan, o tio Jett, você Lena, a Ling... Eu sempre tive uma rede que me segurou e fez de me a mulher que sou hoje. A moça que está lá dentro... ela não tem ninguém. Cresceu em um orfanato. Ela pode se dar o luxo de errar, de perder o emprego e terá uma família para onde voltar. Para pessoas como ela, o mundo não dá segundas chances. 

Engfa respirou fundo, o semblante amansando instantaneamente. Ela detestava quando o assunto da orfandade de Mhee vinha à tona, trazendo consigo a sombra da ausência de sua mãe. O golpe emocional foi certeiro; a frieza de Engfa evaporou, substituída por aquela melancolia protetora que ela guardava apenas para as primas.

— Está bem! — Engfa cedeu, a voz muito mais baixa. — Não vou assustá-la. Mas entenda, Mhee: se você quer que eu coloque o nome da nossa família em jogo e ofereça um emprego a essa moça, eu preciso saber quem é essa pessoa. É justo que eu a conheça.

Mhee suspirou, sentindo o peso sair de seus ombros. Ela deu um sorriso grato e, com a mão tremendo ligeiramente, abriu a porta para que pudessem entrar. O desafio havia apenas começado, mas, pelo menos, a primeira barreira de gelo da prima mais velha havia sido rompida.

O silêncio na sala tornou-se quase audível, preenchido apenas pelo tique-taque ritmado de um relógio na parede. Engfa, geralmente dona de uma postura inabalável e capaz de comandar ambientes com um simples erguer de sobrancelha, encontrava-se em um estado que ela própria definiria como inédito: paralisada.

Lookmhee surgiu do corredor, a mão pousada protetoramente, mas com um toque leve, nas costas da mulher que a acompanhava. Charlotte Austin era alta, quase da mesma estatura de Engfa, mas sua linguagem corporal gritava por invisibilidade. Ela mantinha os ombros contraídos e a cabeça baixa, como se o simples ato de ocupar aquele espaço fosse uma transgressão.

Quando os olhares finalmente se encontraram — ou melhor, quando Engfa conseguiu capturar a essência daquela figura — o tempo pareceu sofrer um hiato.

Engfa tentou analisar a mulher como quem decifra um enigma complexo. Ela buscou falhas, calculou riscos, procurou a lógica por trás daquele pedido de emprego atípico. No entanto, tudo o que encontrou ao atingir os olhos de Charlotte foi um abismo. Havia uma tristeza tão antiga e profunda naquelas íris que o coração de Engfa sofreu um choque elétrico, uma reação física inesperada que a fez perder momentaneamente o fôlego.

— Engfa, essa é a Charlotte Austin. A amiga de quem te falei. Charlotte, essa é minha prima, Engfa Waraha. — Lookmhee apresentou-as, com a voz carregada de uma esperança quase infantil.

Charlotte reagiu como se o próprio ar ao redor tivesse ficado rarefeito. Ela juntou as mãos em um gesto de reverência, um cumprimento tradicional, humilde, mas não teve coragem de erguer a cabeça para sustentar o olhar penetrante da empresária. Ela parecia um animal ferido diante de uma predadora, embora Engfa, naquele exato segundo, estivesse sentindo qualquer coisa, menos vontade de atacar.

Engfa permaneceu imóvel. A lucidez que ela tanto prezava — a sua capacidade de ver o mundo como um tabuleiro de xadrez — estava se desfazendo. Onde deveria haver apenas análise técnica sobre uma possível nova funcionária, havia agora uma curiosidade avassaladora, uma pulsação estranha que começou a martelar em suas têmporas.

A timidez de Charlotte não era apenas um traço de personalidade; era um escudo. E, para alguém como Engfa, que passara a vida inteira cercada de pessoas que usavam a arrogância como armadura, encontrar alguém que se escondia de si mesma era fascinante.

Sem conseguir proferir uma palavra, Engfa apenas observou. Ela notou o modo como os dedos de Charlotte se entrelaçavam com força, como se ela estivesse tentando se segurar para não desaparecer. O instinto de proteção, que Engfa pensava ser exclusivo para suas primas, surgiu de repente, como uma faísca em um campo seco, mudando completamente a temperatura daquela conversa. A "situação incomum" da qual Lookmhee a havia tirado rapidamente se transformou no maior mistério que Engfa já tivera a oportunidade de resolver.

 

Por Lena 

O silêncio do jardim da mamãe era o nosso único companheiro, pontuado apenas pelo farfalhar das folhas ao sabor da brisa noturna. Estávamos deitadas no gramado, o orvalho começando a umedecer nossas roupas, mas eu não me importava com nada. O céu acima de nós era um manto de veludo cravejado pelo o iluminar das estrelas, mas, para mim, o brilho real estava ao meu lado.

Miu suspirou, virando-se para me encarar. Seus olhos, que sempre pareciam refletir a doçura de tudo o que ela tocava, estavam carregados de uma vulnerabilidade que me desarmava.

— Você não faz ideia de como eu estava com saudades, Lena. — Ela murmurou, a voz suave como um segredo. — Eu fiquei contando os dias, cada chamada de vídeo parecia um suspiro curto demais. Estou tão, tão feliz por você ter voltado para este dia.

Ela se aproximou, sua mão encontrando a minha, os dedos entrelaçados com uma firmeza que me ancorava.

— Eu amo você! — Miu continuou, uma declaração que, embora direta, carregava o peso de tudo o que superamos. — Amo a forma como você enxerga o mundo, a forma como me faz sentir completa. Amar você é a decisão mais fácil que eu já tomei.

Eu sorri, sentindo uma paz absoluta. Aproximei-me, afastando uma mecha de cabelo de seu rosto, e sussurrei:

— Então, meu amor, você não tem mais motivos para morrer de saudades.

Ela piscou, confusa, o cenho franzindo em uma dúvida adorável.

— Como assim? O que você quer dizer com isso?

Meu sorriso se alargou, impossível de conter.

— Eu terminei tudo o que tinha agendado no trabalho. Agora eu voltei para ficar definitivamente ao seu lado.

Miu ficou estática, o corpo paralisando ao meu lado.

— O quê? Mas... e o seu trabalho? E a editora? Lena, você tem uma vida, uma carreira na cidade!

— Justamente! Eu só tenho uma vida para vivê-la. Meu lugar é aqui ao seu lado, ao lado da minha família, meu lugar é onde eu encontrei a paz. Por isso eu não renovei meu contrato, Miu. — revelei, sentindo o peso daquela decisão finalmente se transformar em liberdade. — A Engfa me ajudou a ver que eu não precisava daquele sistema opressor. A partir de agora, sou uma autora independente. Vou administrar cada página, cada evento, cada parceria daqui mesmo, do meu escritório, da minha casa. O meu trabalho não vai mais me afastar de você, Miu. Ele vai se fundir à vida que estamos construindo aqui.

O choque no rosto de Miu deu lugar a um brilho puro de euforia. Ela não esperou nem mais um segundo, envolvendo-me em seus braços com uma urgência que me tirou o fôlego. O beijo que se seguiu não era apenas uma resposta; era uma promessa, um reencontro que não teria mais hora para terminar.

Naquela noite, sob o infinito das estrelas, eu entendi que o meu melhor livro não estava nas estantes, mas no agora e na felicidade Miu me proporcionava.

“O papel em branco, que antes me encarava com a expectativa de prazos e métricas de mercado, hoje parece ter mudado de cor. Não é mais apenas uma tela para preencher com ficção; tornou-se um espelho. E, ao olhar para esse espelho, eu vejo alguém que eu quase esqueci que existia: uma mulher que não precisa mais carregar o peso do mundo para sentir que é digna de ser amada.

Dizem que o amor verdadeiro é uma calmaria, uma espécie de destino final onde, finalmente, podemos soltar a bagagem. Mas, para mim, o amor que encontrei em Miu, foi mais do que isso. Foi um terremoto. Foi o desmoronamento necessário de todas as paredes que eu construí ao meu redor, tijolo a tijolo, durante anos de uma vida vivida.

Eu passei tanto tempo acreditando que o amor era uma negociação fadada ao fracasso, a mentira, a desilusão… Mas quando Miu chegou, ela não me pediu que eu fosse a "escritora de sucesso". Ela me pediu apenas que eu fosse a Lena Lalina. Aquela que tem medo, que vacila, que gosta de ver as estrelas e que, no fundo, só queria um lugar para descansar e chamar de lar.

Viver esse amor é sentir uma magia que não tem nada a ver com o sobrenatural, mas com o extraordinário cotidiano. É a forma como ela me olha enquanto preparo um café ou lhe conto uma história curiosa; é a maneira como nossas mãos se encontram, como se houvesse uma bússola invisível guiando cada toque. É mágico perceber que, ao lado dela, o silêncio não precisa ser preenchido por palavras inteligentes, nem o tempo precisa ser cronometrado.

A liberdade que eu encontrei não veio da quebra do meu contrato com a editora, embora isso tenha sido o passo decisivo. A minha verdadeira libertação veio da coragem de dizer "não" a tudo aquilo que me pedia para ser menos do que eu sou. Miu foi o espelho que me mostrou que minha história não era um rascunho, mas uma obra que merecia um final diferente. Um final que fosse nosso.

Se hoje eu olho para o futuro e não sinto aquele aperto frio no estômago, é porque entendi que o amor verdadeiro não nos prende; ele nos dá o chão necessário para que possamos voar sem medo da queda. Eu finalmente entendi que não estava escrevendo sobre o amor; eu estava me preparando para ele.

E, pela primeira vez na vida, não sinto pressa. Porque quando você encontra alguém que é, simultaneamente, o seu destino e a sua casa, você descobre que o lugar mais bonito onde se pode estar é exatamente aqui: no agora, de mãos dadas, reescrevendo a nossa própria existência.”

 

Fim!

Fim do capítulo

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