Capítulo 92 – As duas maneiras são válidas.
As meninas seguiram Samira até o fundo do ateliê.
Ali, descobriram outro espaço.
Uma sala grande, destinada à produção coletiva.
A parede do fundo era praticamente toda tomada por uma enorme janela, que deixava entrar a luz do jardim.
Rebeca parou por um instante.
Do outro lado do vidro, havia árvores, vasos e canteiros espalhados pelo espaço.
Dentro da sala, prateleiras ocupavam as paredes.
Estavam cheias de materiais artísticos diferentes.
Potes.
Papéis.
Pincéis.
Tintas.
Caixas.
Coisas que Rebeca não sabia identificar.
No centro havia uma imensa mesa de madeira maciça.
A superfície estava coberta de marcas de uso.
Manchas de tinta de várias cores.
Algumas antigas.
Outras aparentemente recentes.
As telas expostas nas paredes ao redor pareciam compartilhar da mesma história.
Nenhuma delas estava perfeitamente limpa.
Nenhuma parecia ter sido feita para decorar.
Eram trabalhos.
Alguns terminados.
Outros ainda em processo.
A maior parte dos lugares estava ocupada.
Havia pessoas de idades muito diferentes.
Algumas pareciam ter a idade de Rebeca e Janis.
Outras eram mais velhas.
Bem mais velhas.
Uma senhora que parecia ter a idade de dona Maria Helena trabalhava concentrada em uma folha diante dela.
Um garoto pintava alguma coisa em uma tela.
Duas mulheres conversavam enquanto misturavam cores.
Um rapaz limpava um pincel.
Ninguém parecia se importar com a diferença de idade.
Todos estavam ali fazendo a mesma coisa.
Criando.
Helba entrou na sala junto com as meninas e foi sentar-se junto com Ester.
Perto de uma das paredes, havia uma pequena mesa de plástico branca.
Ester estava sentada ali.
Diante dela, uma garrafa térmica e uma xícara de café.
Parecia perfeitamente confortável.
Rebeca a reconheceu imediatamente.
Abriu um pequeno sorriso e levantou a mão em um aceno.
Ester olhou para ela.
Por um instante, manteve a expressão séria.
Então mostrou a língua.
Rebeca arregalou os olhos.
Janis começou a rir.
— Ela fez isso mesmo?
— Fez — respondeu Rebeca, indignada.
— Meninas...
Samira apontou para dois bancos vazios.
— Aqueles são de vocês.
Rebeca e Janis se aproximaram.
Os bancos estavam lado a lado.
Rebeca sentou primeiro.
Janis sentou ao lado.
Ester levantou a xícara em um pequeno brinde.
— Boa sorte.
Rebeca fez uma careta para ela.
Samira colocou alguns materiais sobre a mesa.
— Podem deixar as mochilas ali.
As duas obedeceram.
Rebeca olhou novamente ao redor.
— Tem gente de todo tipo.
Samira sorriu.
— É a ideia.
Rebeca olhou para a senhora mais velha.
Depois para o garoto.
Depois para Janis.
— Acho que ela tem a idade da vó.
Rebeca sorriu.
Parecia gostar daquela informação.
Janis, porém, continuava em silêncio.
Passou os olhos pela mesa.
Pelas tintas.
Pelos trabalhos nas paredes.
Pelas pessoas.
Dessa vez, não parecia apenas curiosa.
Parecia estar tentando guardar tudo.
Como se tivesse medo de esquecer.
Samira percebeu.
Mas não comentou.
Apenas colocou dois recipientes vazios diante delas.
— Vamos começar.
Samira começou distribuindo os materiais que cada participante receberia por estar na oficina.
Cada um recebeu seu pequeno conjunto de materiais.
Janis examinou tudo com atenção.
Virou uma embalagem.
Leu um rótulo.
Então Samira começou a apresentar algumas possibilidades do guache.
Mostrou como o material se comportava, como as diferentes quantidades de água alteravam o resultado e como as camadas podiam ser construídas.
Não demorou muito.
Logo começaram as primeiras propostas.
Samira caminhou pela sala, espalhando objetos diferentes sobre as mesas.
Uma fruta aqui.
Uma pequena garrafa ali.
Um vaso.
Uma caixa.
Uma xícara.
Cada participante recebeu um objeto.
Quando chegou à mesa de Rebeca e Janis, colocou diante delas uma caneca vermelha.
Rebeca olhou para ela.
Janis também.
Samira voltou para a frente da sala.
— Vamos começar com uma natureza-morta.
Algumas pessoas já pegaram os pincéis.
— Quero que vocês façam o objeto que foi colocado na frente de vocês.
Apontou para as mesas.
— Durante todo o processo, vocês vão usar o guache.
Um garoto levantou a mão.
— Desde o esboço?
Samira assentiu.
— Sim.
Fez uma pausa.
— Desde o esboço.
Janis e Rebeca se entreolharam.
Rebeca arregalou os olhos.
Janis respondeu com um pequeno sorriso.
Rebeca se inclinou discretamente na direção dela.
— Eu tô ferrada.
Janis soltou uma risada.
— Você está mesmo.
— Obrigada pelo apoio.
— De nada.
Rebeca olhou novamente para a caneca.
Depois para o pincel.
Voltou os olhos para Janis.
Inclinou-se um pouco na direção dela.
— Faz pra mim?
Janis abriu a boca para responder.
Não teve tempo.
— Nada disso.
A voz de Helba veio de trás.
Rebeca se virou.
Helba estava parada ao lado dela.
A repreensão havia sido feita com o máximo de discrição que Helba era capaz de reunir.
— Trate de pegar o pincel e comece a trabalhar.
Rebeca soltou um muxoxo.
— Agora.
Rebeca olhou para a caneca novamente.
Depois para o pincel.
Pegou-o.
Com evidente falta de entusiasmo, começou a misturar as tintas.
Helba se afastou.
Rebeca continuou resmungando baixinho enquanto preparava as cores.
Janis riu.
— Não tem graça.
— Tem sim.
— Você não está ajudando.
— Estou.
Rebeca lançou um olhar desconfiado.
— Como?
— Estou deixando você fazer sozinha.
Rebeca bufou.
Mas começou a trabalhar.
Primeiro, observou a caneca.
Depois olhou para o espaço ao redor dela.
Tentou entender as formas.
A posição.
A luz.
Misturou mais tinta.
Começou o esboço diretamente com o guache.
Ao lado, Janis trabalhava em silêncio.
Sem pressa.
Ela observava a caneca, misturava uma cor, voltava para o objeto e fazia outra pequena marca.
Parava.
Observava novamente.
E continuava.
Ester acompanhava tudo de longe.
Helba também.
Nenhuma das duas interferia.
Rebeca, aos poucos, foi esquecendo que havia alguém observando.
A caneca deixou de ser apenas uma caneca.
Virou um problema que ela precisava resolver.
Janis, ao lado, parecia estar se divertindo.
E, sem perceber, Rebeca começou a sorrir também.
A oficina mal havia começado.
Mas as duas já estavam exatamente onde precisavam estar.
Samira caminhava pela sala.
Parava de vez em quando diante de um trabalho.
Observava.
Fazia uma pequena sugestão.
Seguia adiante.
Não havia pressa.
Ela parecia mais interessada em acompanhar o processo do que em descobrir quem faria o trabalho mais bonito.
Quando chegou à mesa de Janis e Rebeca, parou.
Olhou primeiro para Rebeca.
Depois para Janis.
Observou as duas pinturas por alguns segundos.
— Posso dar uma sugestão?
Janis levantou os olhos.
— Claro.
Samira apontou para o desenho da caneca.
— Sua xícara está muito boa.
Janis sorriu discretamente.
— Mas podemos fazer uma pequena correção para deixar ainda melhor.
Apontou para a borda.
— Por causa da posição em que a xícara está, você está vendo uma oval estreita.
Janis olhou para o próprio trabalho.
— Certo...
— Mas, nas bordas, ela continua seguindo a forma circular.
Janis inclinou a cabeça.
Olhou para a caneca.
Depois para a pintura.
Foi então que percebeu.
As bordas da oval que havia feito terminavam em pequenas pontas.
Ela havia desenhado a forma como se fosse uma elipse achatada, mas deixado as extremidades excessivamente estreitas.
— Ah...
Samira pegou o pincel.
— Posso?
Janis assentiu.
Samira fez uma pequena correção em um dos lados.
A pincelada foi simples.
Cuidadosa.
A nova borda se aproximou muito mais da forma que estava diante delas.
Samira devolveu o pincel.
— Agora tenta fazer o outro lado.
Janis olhou para o trabalho.
Depois para a caneca.
Pegou o pincel.
Com cuidado, refez a outra borda.
Parou.
Olhou novamente.
— Legal.
Samira sorriu.
— É só observar.
Janis olhou para a caneca.
Depois para o próprio trabalho.
Havia alguma coisa diferente agora.
Não na pintura.
Na maneira como ela estava olhando para o objeto.
Como se, pela primeira vez, tivesse percebido que desenhar não era apenas saber fazer uma linha bonita.
Era entender o que estava vendo.
Samira seguiu para o próximo participante.
Janis continuou trabalhando.
E, dessa vez, antes de fazer qualquer nova marca, olhou duas vezes para a caneca.
Samira deu alguns passos na direção da mesa seguinte.
Então ouviu:
— Pelo menos a pintura da Janis parece uma caneca.
Ela parou.
Olhou para trás.
Rebeca estava encarando o próprio trabalho.
Muito séria.
Como se estivesse analisando uma obra de arte em uma exposição.
Depois cruzou os braços.
Fez um pequeno bico.
— O meu parece uma batata com uma asa de caneca.
Janis olhou para a pintura.
Depois para Rebeca.
Precisou morder o lábio para não rir.
Samira se aproximou novamente.
Olhou novamente para o trabalho de Rebeca.
Dessa vez, não examinou a forma.
Observou as cores.
— Gostei muito da maneira como você trabalhou as cores.
Rebeca continuou olhando para a pintura.
O elogio ajudou.
Mas não o suficiente para acabar com o bico.
Samira apontou para o papel.
— Olhando para sua pintura...
Fez uma pequena pausa.
— Eu diria que você é uma menina de personalidade forte.
Rebeca ergueu os olhos.
— Que tem muita energia...
Janis parou de pintar.
Samira continuou:
— E é um pouco rebelde também.
Janis olhou para a pintura de Rebeca.
Depois para Samira.
Então perguntou, completamente séria:
— Você tem algum tipo de clarividência com papel e tinta?
Samira sorriu.
— Não.
Pegou o próprio pincel.
— Mas é possível saber muita coisa sobre uma pessoa observando o trabalho dela.
Rebeca fez um bico ainda maior.
— Eu não sou rebelde.
Janis, Ester e Helba olharam para ela.
Rebeca tentou sustentar a própria afirmação.
— Eu não sou.
Janis ergueu uma sobrancelha.
Helba sorriu de canto.
Ester continuou tomando café.
Rebeca olhou para as três.
Depois para a própria pintura.
Tentou manter a expressão séria.
Não conseguiu.
Um pequeno sorriso começou a aparecer.
— Tá...
Fez uma pausa.
— Talvez eu seja um pouco rebelde.
Janis riu.
— Um pouco?
Rebeca apontou o pincel para ela.
— Não exagera.
Samira sorriu.
— Está vendo?
— O quê?
— Personalidade forte.
Rebeca bufou.
Mas estava sorrindo.
E voltou a olhar para a caneca.
Dessa vez, sem chamar sua pintura de batata.
Samira deixou Rebeca terminar de observar a própria pintura.
Então se afastou por alguns instantes.
Foi até uma das estantes.
Pegou dois livros.
Voltou para a mesa e os colocou diante das meninas.
— Posso mostrar uma coisa para vocês?
Janis e Rebeca olharam para ela.
Samira abriu o primeiro livro.
— Esse é Tom Wesselmann.
Virou algumas páginas.
As imagens mostravam objetos cotidianos transformados em pinturas.
— Ele olhava para coisas que estavam ao redor dele e transformava aquilo em arte.
Janis se aproximou um pouco.
Observou as imagens.
Samira fechou o livro e abriu o segundo.
— E esta é Yayoi Kusama.
As páginas seguintes mostravam trabalhos muito diferentes.
Formas repetidas.
Cores.
Padrões.
Superfícies tomadas por elementos que pareciam não ter fim.
Rebeca ficou olhando.
Samira apontou para uma das imagens.
— Ela encontrou maneiras de pegar formas, cores e ideias e transformar tudo isso em uma linguagem própria.
Janis olhou novamente para o trabalho de Wesselmann.
Depois para o de Kusama.
Rebeca fez o mesmo.
Samira fechou os dois livros.
— Nenhum deles precisava pintar o mundo exatamente como ele era.
Apontou para a caneca.
— Eles podiam começar olhando para uma coisa simples.
Depois apontou para as pinturas das meninas.
— E decidir o que fazer com aquilo.
Janis olhou para a própria caneca.
Estava mais próxima do objeto.
As proporções ainda não eram perfeitas.
Mas ela reconhecia o que havia pintado.
Rebeca olhou para a sua.
A caneca ainda parecia...
Bem.
Talvez uma batata.
Mas agora havia alguma coisa nela que Rebeca gostava.
As cores.
A maneira como havia misturado os tons.
A força das pinceladas.
Samira percebeu o olhar das duas.
— Vocês fizeram a mesma coisa.
Rebeca franziu a testa.
— Mas ficou diferente.
— É justamente esse o ponto.
Samira sorriu.
— Vocês olharam para a mesma caneca.
Apontou para Janis.
— Você tentou entender o que estava vendo.
Depois apontou para Rebeca.
— E você parece ter decidido como queria que aquilo fosse.
Rebeca ficou em silêncio.
Janis também.
Samira guardou os livros.
— As duas maneiras são válidas.
E voltou para o restante da sala.
Rebeca olhou para a própria pintura.
Depois para Janis.
— Então a minha não está errada?
Janis sorriu.
— Acho que não.
Rebeca olhou novamente para a caneca.
— Ela continua parecendo uma batata.
Janis riu.
— Uma batata artística.
Rebeca sorriu.
E voltou ao trabalho.
Fim do capítulo

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