• Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Cadastro
  • Publicar história
Logo
Login
Cadastrar
  • Home
  • Histórias
    • Recentes
    • Finalizadas
    • Top Listas - Rankings
    • Desafios
    • Degustações
  • Comunidade
    • Autores
    • Membros
  • Promoções
  • Sobre o Lettera
    • Regras do site
    • Ajuda
    • Quem Somos
    • Revista Léssica
    • Wallpapers
    • Notícias
  • Como doar
  • Loja
  • Livros
  • Finalizadas
  • Contato
  • Home
  • Histórias
  • A Promessa do Vale
  • Capitulo 16 - A Luz da Manhã

Info

Membros ativos: 9633
Membros inativos: 1626
Histórias: 1990
Capítulos: 21,230
Palavras: 53,757,165
Autores: 818
Comentários: 109,701
Comentaristas: 2617
Membro recente: Deméter

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Notícias

  • O e-book do Desafio das Imagens do Lettera — Maio de 2026 chegou!
    Em 25/06/2026
  • Desafio das Imagens 2026
    Em 23/04/2026

Categorias

  • Romances (888)
  • Contos (477)
  • Poemas (237)
  • Cronicas (233)
  • Desafios (182)
  • Degustações (28)
  • Desafio das imagens 2026 (7)
  • Natal (7)
  • Resenhas (1)

Recentes

  • Os quatro compassos do amor: O ritmo do recomeço
    Os quatro compassos do amor: O ritmo do recomeço
    Por priskelly
  • Confidente
    Confidente
    Por ThaisBispo

Redes Sociais

  • Página do Lettera

  • Grupo do Lettera

  • Site Schwinden

Finalizadas

  • Sentimentos
    Sentimentos Conflitantes
    Por Paloma Lacerda
  • Última
    Última Noite de Amor
    Por Vandinha

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Categorias

  • Romances (888)
  • Contos (477)
  • Poemas (237)
  • Cronicas (233)
  • Desafios (182)
  • Degustações (28)
  • Desafio das imagens 2026 (7)
  • Natal (7)
  • Resenhas (1)

A Promessa do Vale por Lady Texiana

Ver comentários: 2

Ver lista de capítulos

Palavras: 5088
Acessos: 147   |  Postado em: 28/08/2026

Capitulo 16 - A Luz da Manhã

 

O silêncio que se seguiu às batidas de Hank foi interrompido apenas pelo som do tecido da colcha contra a pele nua de Stephanie enquanto ela sentava na cama, calmamente, passado o susto inicial de acordar em um lugar estranho. No centro do quarto, a luz acinzentada do amanhecer acentuava a palidez de Jane. Cada músculo do corpo da rancheira estava retesado, como a corda de um arco esticada ao limite. O eco dos passos do capataz na madeira da varanda parecia ressoar diretamente dentro de seu crânio, ritmado, implacável, trazendo consigo todo o peso do mundo real que elas haviam tentado esquecer durante as horas de paixão.

- Fique aqui. - Jane sussurrou. A voz saiu mais seca do que pretendia, desprovida de qualquer vestígio da entrega visceral que marcara a noite anterior.

Sem esperar por uma resposta de Stephanie, Jane virou-se sobre os calcanhares e deixou o quarto. A porta de madeira pesada foi fechada com um movimento ágil e preciso, o trinco encaixando-se com um clique suave, deixando para trás o aroma de sex*, perfume caro e alfazema.

Na penumbra do corredor, o chão de madeira estava gelado sob os pés descalços de Jane. Ela não parou para calçar as botas nem para ajeitar a regata branca amassada que vestira às pressas; a urgência de afastar Hank daquela varanda sobrepunha-se a qualquer noção de conforto. Cada passo dado pela casa silenciosa parecia um ato em uma corda bamba.

Ao se aproximar da porta da frente, Jane parou por um segundo, fechou os olhos e puxou o ar frio que entrava pela janela aberta da cozinha e repercutia na sala. Ela precisava remontar a armadura. A Jane implacável, a produtora rural durona do Vale do Loup tinha que reassumir o controle antes que a maçaneta girasse. Ela limpou a garganta, assumiu uma postura rígida e destravou a porta.

O ar úmido e frio do amanhecer atingiu o rosto de Jane assim que ela abriu a porta apenas o suficiente para passar metade do corpo, mantendo a fresta reduzida.

Hank estava parado a poucos passos da entrada, a mão direita ainda meio erguida no ar, prestes a bater novamente. O velho capataz vestia seu casaco de lona gasta, o chapéu de feltro desbotado abaixado até a linha das sobrancelhas espessas e cinzentas. Seus olhos astutos, acostumados a decifrar o horizonte da pradaria, quando a mesma prenunciava uma nevasca no inverno ou uma seca no verão, fixaram-se imediatamente no rosto de Jane, descendo depois para a regata amassada, os cabelos castanhos desordenados e os pés descalços na madeira fria.

- Pela cara da senhora, parece que viu um fantasma, patroa - Hank disse, a voz rouca pelo cigarro de palha. Ele não se moveu, mas seu olhar desviou por um segundo, direcionando-se ostensivamente para o pátio.

Lá estava ele. O Cadillac verde de Stephanie, reluzente mesmo sob a camada de poeira da estrada e a névoa úmida que pairava no ar, prenunciando chuva. O veículo de luxo parecia uma espaçonave alienígena pousada no meio do pátio de terra batida do Rancho Brown, cortando dramaticamente o caminho que o trator John Deere costumava fazer do galpão principal em direção aos campos.

- Não tem fantasma nenhum aqui, Hank - Jane respondeu, a voz mantida em um tom baixo e firme, embora a rigidez de suas mandíbulas denunciasse a tensão. - O que você está fazendo aqui tão cedo? A checagem dos cercados do setor sul não era só às nove?

- O vento virou de madrugada, patroa. Previsão de chuva forte antes do meio-dia - o velho explicou lentamente, sem tirar os olhos do carro de Chicago. Ele tirou o chapéu, passou o antebraço pela testa suada e o colocou de volta, um gesto deliberado de quem não pretendia ser despachado com facilidade. - Vim pegar as correntes e o trator no galpão para reforçar os tapumes da vala. Mas quando cheguei aqui... dou de cara com isso aí. O carro daquela mulher de Chicago. Atravessado. Como se quem dirigia estivesse bêbado.

O silêncio pesou entre eles por um instante longo demais, Jane sabia o quanto o capataz havia se aproximado da verdade. O vento frio do vale fez a regata de Jane colar em seu peito, mas ela recusou-se a estremecer.

- Ela veio aqui ontem à noite - Jane disparou a desculpa improvisada, forçando as palavras a soarem banais, desprovidas de qualquer drama. - A diretoria da White & Sovereign queria apresentar uma contraproposta sobre os direitos de captação de água antes da reunião do sindicato. Nós... nós acabamos discutindo. A conversa se estendeu demais, ficou tarde, a estrada para a cidade fica perigosa com a névoa de madrugada... Eu disse que ela podia deixar o carro no pátio e eu a levei de volta para o hotel na cidade na minha pick-up.

Hank piscou devagar. Suas sobrancelhas franziram-se, os sulcos profundos de sua testa se acentuando sob a aba do chapéu. Ele olhou para os pés descalços de Jane, depois para a pick-up Ford azul da propriedade, que estava estacionada exatamente no mesmo lugar sob o telheiro, com a capota coberta por uma camada uniforme de orvalho intocado da noite inteira.

- A senhora levou ela pra cidade na pick-up? - Hank perguntou, o tom pontilhado por uma dúvida sutil, mas afiada. - Engraçado... pensei que a senhora tinha saído com Sarah Lee ontem... E eu conheço o barulho daquela descarga furada a dois quilômetros de distância. Se a senhora tivesse saído de madrugada, eu teria ouvido do alojamento.

Jane sentiu o sangue subir quente para as bochechas, mas sustentou o olhar do velho capataz com a severidade que aprendera com o pai quando precisava impor autoridade no rancho.

- Você não deve ter ouvido porque eu sai devagar, Hank - ela mentiu sem piscar, a voz cortante. - O fato é que a senhorita White deixou o carro aqui, a situação está sob controle e o assunto da White & Sovereign é comigo, e não tem nada decidido.

Hank sustentou o olhar da patroa por vários segundos. O velho conhecia Jane desde que ela era uma garota que corria entre os fardos de feno com os joelhos ralados; vira-a crescer, vira-a assumir o fardo esmagador da dívida do pai e sabia exatamente quando ela estava encurralada. Ele percebeu a rigidez defensiva, o perfume estranho e floral que emanava dela - tão diferente do cheiro habitual de pinho e lavanda - e a leve marca vermelha na curva do pescoço da rancheira.

Contudo, Hank era um homem do campo antigo. Havia limites que um capataz não cruzava com os Brown, por mais estranha que a situação parecesse. Ele soltou um suspiro pesado e deu um passo para trás na varanda.

- Se a senhora tá dizendo... quem sou eu pra duvidar - o velho disse, a voz carregada de um desapontamento velado, mas aceitando a retirada. - Só acho bom tirar aquele trambolho verde dali antes que o pessoal da entrega de ração chegue. Se os vizinhos virem o carro da empresa que quer tomar a nossa água estacionado na sua porta logo ao amanhecer... as fofocas vão correr mais rápido que fogo em capim seco e a senhora vai acabar perdendo o pouco de apoio que ainda resta.

- Eu vou resolver isso - Jane respondeu, a mão apertando o batente da porta. - Vá preparar as correntes do trator. Se o tempo virar, precisamos arrumar os canais do setor norte antes da chuva descer o morro para o setor sul.

- Sim senhora - Hank respondeu. Ele ajustou o chapéu, deu meia-volta e desceu os degraus de madeira da varanda, seus passos pesados pisando com força na terra batida enquanto se dirigia ao galpão dos fundos, sem olhar para trás.

Jane esperou até que a figura curvada do capataz desaparecesse atrás da estrutura do celeiro principal. Só então ela relaxou, deixando o corpo reclinar-se contra a madeira pesada da porta. Suas mãos tremiam levemente. A vergonha de ter sido pega em uma mentira tão transparente por Hank misturava-se a uma onda sufocante de pânico prático: se o rumor de uma proximidade entre ela e a presidente da Holding ganhasse o vale, a pouca confiança que os pequenos produtores locais sobreviventes ao assédio da Holding ainda depositavam em sua liderança e resistência ruiria completamente.

Ela fechou a porta da frente, girou a chave e encostou a testa contra a madeira fria por alguns segundos, tentando reorganizar os pensamentos. O ar da casa parecia subitamente pesado demais, denso com as ramificações de uma noite de impulso irresponsável.

Com passos rápidos e silenciosos, Jane caminhou de volta pelo corredor. Ao chegar diante da porta de seu quarto, ela nem sequer bateu; apenas girou a maçaneta e entrou, fechando a madeira rapidamente atrás de si.

O quarto continuava imerso na penumbra cinzenta, mas a atmosfera mudara radicalmente.

Stephanie não estava mais na cama. A executiva estava de pé, parada no espaço estreito entre a lateral da cama de ferro e o armário de madeira maciça. Ela já havia conseguido vestir a calça jeans escura e a lingerie preta de renda sobressaia contra a pele alva do peito. No entanto, o dilema da manhã estava escancarado nas mãos de Stephanie: ela segurava a blusa de seda preta de grife, ou o que restava dela. Os botões delicados de madrepérola haviam sido arrancados durante a fúria da noite anterior, o tecido caríssimo estava rasgado perto da costura do ombro esquerdo e amassado de uma forma irrecuperável.

Stephanie olhou para Jane no momento em que a rancheira entrou. O rosto da executiva estava corado, os olhos azuis brilhantes divididos entre o embaraço pela situação e uma irritação fria, aristocrática, que tentava emergir para mascarar sua extrema vulnerabilidade.

- O que foi aquilo lá fora? - Stephanie perguntou, a voz baixa, mas carregada de uma nitidez cortante. - Quem era o homem gritando no seu pátio?

Jane não respondeu imediatamente. Ela caminhou até o centro do quarto, evitando olhar diretamente para o peito seminu de Stephanie ou para os trechos de pele que a lingerie não cobria. A velha timidez da rancheira - aquela camada de reserva que desmoronara completamente sob a embriaguez do desejo na noite anterior - estava de volta com força total, erguendo um muro invisível, porém intransponível, entre as duas.

- Era o Hank. Meu capataz - Jane disse, a voz baixa, mantendo o olhar fixo no chão enquanto recolhia a camisa de flanela que atirara no tapete horas antes. - Ele veio preparar o trator pra tempestade que está por chegar e deu de cara com o seu carro bloqueando a saída do galpão pelo pátio.

Stephanie soltou um suspiro audível, cruzando os braços sobre o peito desnudo, fazendo a blusa rasgada pender inutilmente de seus dedos.

- E o que você disse a ele?

- Inventei uma desculpa ridícula - Jane murmurou, o tom amargo transparecendo. - Disse que você veio negociar de madrugada e que eu te levei pro hotel na minha pick-up. Ele não acreditou em uma única palavra. Hank conhece o barulho daquela caminhonete desde que eu nasci. Ele sabe que ninguém saiu daqui esta noite.

Stephanie congelou por um instante, a mandíbula tensionando-se. A ideia de que um capataz de uma fazenda em Nebraska soubesse ou apenas  desconfiasse que a presidente da White & Sovereign passara a noite no quarto de uma produtora falida, que estava na mira da Holding e que já estava custando alguns milhares de dólares de prejuízo, causou-lhe um arrepio visceral de preocupação. Se um boato daqueles chegasse aos ouvidos do conselho de administração em Chicago, os prejuízos para sua imagem seriam difíceis de administrar.

- Pelos céus... - Stephanie divagou, a voz caindo para um sussurro incrédulo enquanto olhava fixamente para o tecido rasgado em suas mãos e depois para a cama. Ela parecia subitamente incapaz de processar a bagunça ao seu redor, os dedos apertando o pano inútil. - Isso é um desastre. Essa blusa custou mil e oitocentos dólares em Nova York... E agora eu estou aqui no meio do nada, com a blusa rasgada e um capataz achando que... que nós...

A executiva interrompeu a própria fala, incapaz de verbalizar o que acontecera naquela cama. Sua mente analítica, habituada a controlar fusões milionárias e relatórios precisos, parecia colapsar diante da situação.

Jane observou a divagação exasperada de Stephanie por alguns segundos. A rancheira sentia a própria pele queimar de embaraço, mas a recusa de Stephanie em encarar o fato puramente físico do que fizeram juntas irritou-a. Sem dizer uma palavra, Jane virou-se para o grande armário de jatobá escuro que ocupava o canto do quarto.

Ela puxou a porta pesada, que rangeu de leve, e começou a vasculhar as prateleiras organizadas de forma estoica. Jane ignorou as camisas de trabalho mais grossas e pegou uma camiseta simples de algodão preto, de mangas curtas. Jane deu dois passos em direção a Stephanie e estendeu a camiseta preta para a executiva.

- Tome - Jane disse de forma seca, mantendo o braço esticado, os olhos intencionalmente desviados para a janela do quarto para não encarar os seios de Stephanie cobertos apenas pela renda. - Você não pode voltar para a cidade parecendo que foi atacada por um urso. Vista isso.

Stephanie olhou para a camiseta estendida, depois para o rosto de Jane. A recusa da rancheira em olhar nos seus olhos, a repentina distância física que Jane estabelecera - como se a noite anterior tivesse sido um erro lamentável que precisava ser limpo o mais rápido possível - atingiu a executiva como um tapa invisível novamente, mexendo com seu orgulho.

Com um gesto ríspido, Stephanie tomou a camiseta da mão de Jane, seus dedos roçando levemente a pele quente da rancheira. Jane recuou o braço instantaneamente, como se tivesse tocado em brasa quente.

Stephanie soltou a blusa de seda destruída sobre a colcha de retalhos e vestiu a camiseta de algodão preto sobre a cabeça. Stephanie ajeitou os cabelos loiros desordenados para fora da gola da camiseta, passando as mãos pelos fios em um esforço desesperado para recuperar um mínimo de compostura. O contraste da camiseta preta de Jane no corpo elegante e esguio de Stephanie era bizarro, mas estranhamente íntimo.

- Ficou... bom o suficiente - Jane murmurou, finalmente virando o rosto para encará-la, embora seu tom continuasse distante, formal, impregnado por aquela timidez de uma vida toda que agora parecia um escudo. - Suas coisas estão ali perto do sofá na sala. Seus sapatos estão no tapete.

Stephanie deu um passo à frente, cruzando a distância que as separava. Ela parou a menos de um metro de Jane, os olhos azuis cravados no rosto da rancheira, buscando desesperadamente qualquer vestígio da paixão avassaladora, do domínio absoluto ou da vulnerabilidade rasgada que Jane demonstrara poucas horas atrás.

- É isso então? - Stephanie perguntou, a voz baixinha, mas carregada de uma tensão perigosa. - Você vai simplesmente fingir que nada aconteceu? Vai se fechar nessa sua concha orgulhosa e me despachar pelos fundos antes que o seu capataz volte?

Jane apertou a mandíbula. O tom provocativo de Stephanie ameaçava quebrar a frágil barreira de estabilidade que ela tentava manter.

- Não estou fingindo nada, Stephanie - Jane respondeu, a voz descendo para um tom rouco e baixo. - Apenas estou encarando a realidade pela manhã. O álcool no sangue passou. A luz do dia chegou. O seu carro continua bloqueando meu trator e a sua empresa continua tentando me privar da minha terra. Nada do que aconteceu neste quarto muda um único centavo da dívida que tenho ou um único litro de água daquele rio que você tem bloqueado.

As palavras de Jane caíram sobre o quarto como pedras pesadas. Stephanie sentiu um aperto doloroso no peito, uma mistura de orgulho ferido e uma decepção profunda que ela se recusava a admitir. A executiva sustentou o olhar de Jane por mais um segundo antes de soltar um riso curto e amargo, balançando a cabeça.

- Você é inacreditável, Jane Brown - Stephanie disse, a voz fria como o vento que batia contra o vidro da janela. - Absolutamente inacreditável.

Sem esperar por uma resposta, Stephanie caminhou até a porta do quarto, girou a tranca e saiu para o corredor escuro. Jane fechou os olhos por um segundo, pressionou os olhos com os dedos e seguiu a executiva com passos lentos.

Quando Jane chegou à sala de estar, Stephanie já havia recolhido seus sapatos de salto baixo do tapete e os calçara com gestos rápidos e impacientes. A manta do sofá antigo continuava amassada, a luz acinzentada da manhã entrando pelas janelas e revelando pequenas partículas de poeira dançando no ar - o cenário exato onde o incêndio da noite anterior começara.

- Você quer um café antes de ir? - Jane perguntou da entrada do corredor para a cozinha. A pergunta saiu de sua boca de forma quase automática, fruto de um hábito de hospitalidade rural tão entranhado na sua criação que nem mesmo o caos emocional conseguira apagar. - A estrada para a cidade é longa, e o tempo vai fechar antes que você chegue ao hotel.

Stephanie parou perto da porta de saída. Ela virou-se devagar, encarando Jane. A oferta parecia tão absurdamente cotidiana diante do abismo que se abrira entre elas que a executiva esteve a ponto de recusar de forma ríspida. No entanto, a exaustão física, a ressaca pesada do uísque e uma curiosidade estranha, uma relutância quase inconsciente em cruzar aquela porta imediatamente para prolongar o contato entre as duas, a fizeram hesitar.

- Café preto. Sem açúcar - Stephanie falou.

Jane assentiu com um breve movimento de cabeça e caminhou em direção à cozinha, localizada nos fundos da casa. Stephanie a seguiu, os saltos de seus sapatos batendo no chão de madeira.

A cozinha do Rancho Brown era o coração da casa, preservada exatamente como fora construída muito tempo antes. As paredes eram revestidas por painéis de madeira envernizada, desgastada pelo tempo. Sobre o fogão a lenha de ferro fundido repousava uma grande chaleira de cobre polido. O cheiro ambiente era uma mistura aconchegante de lenha queimada, canela e o aroma impregnado de décadas de refeições fartas.

Jane não disse nada. Caminhou até a bancada de fórmica, pegou uma lata antiga contendo pó de café moído e acendeu o queimador do fogão a gás sob um bule com água do filtro. Seus movimentos eram precisos, mecânicos, refletindo uma rotina executada milhares de vezes, mas a rigidez em seus ombros revelava que cada centímetro de sua atenção estava focado na presença da mulher atrás de si.

Stephanie permaneceu de pé perto da mesa retangular de fórmica que ocupava o centro do cômodo. Ela cruzou os braços, o tecido da camiseta preta de Jane ajustado sobre seu corpo, enquanto seus olhos azuis começaram a varrer o ambiente, absorvendo os detalhes da vida privada da mulher que até então ela só conhecera em situações de confronto ou sob a luz da lua.

Stephanie aproximou-se lentamente de uma das paredes, atraída por uma imagem em tons de sépia, uma fotografia antiga que parecia contar a história daquele pedaço de terra. A foto de Jane Catherine e Judith Brown com Ruth a seus pés.

Stephanie inclinou-se ligeiramente para frente, os olhos fixos na imagem da menininha. Havia algo na postura daquela criança, na maneira reta como sustentava os ombros mesmo tão pequena, a expressão solene no rosto, que lembrava muito a Jane na cozinha, fazendo o café.

- Suas antepassadas, as pioneiras de que me falou - Stephanie disse, a voz quebrando o silêncio pesado da cozinha. Ela apontou para a garotinha na foto. - Essa garotinha é a sua bisavó, da qual me falou.

Jane parou o movimento de despejar a água fervente sobre o coador de pano. Ela virou o rosto de lado, olhando para Stephanie pelo canto do olho enquanto o vapor do café subia, preenchendo o ar com um aroma denso e reconfortante, surpresa por ela lembrar da história.

- É. São elas - Jane respondeu, a voz mantida em uma cadência neutra. - As mulheres que são o motivo de eu não desistir...

Stephanie deslizou os dedos delicados pela borda da moldura de madeira, seu olhar subindo da menininha para a mulher alta, com o cinturão com os colts.

- E essa mulher dos colts? - Stephanie perguntou, a curiosidade genuína sobrepondo-se por um instante à frieza peculiar. - Qual o nome dela mesmo? Judith ou Jane Catherine?

Jane terminou de passar o café, colocou o coador de lado e pegou duas canecas de cerâmica de cima da prateleira. Ela caminhou até a mesa, depositando uma das canecas fumegantes diante de Stephanie antes de responder.

- Essa é a lendária batedora Jane Catherine, a Kitty - Jane explicou, o tom de voz suavizando-se imperceptivelmente ao pronunciar o nome. - Meu nome é em homenagem a ela. A mulher que veio para este vale, quando não havia nada aqui além de capim alto, bisões e tempestades de neve que matavam uma criação inteira em uma única noite e que junto com Judith transformou esta terra no que você vê hoje.

Stephanie pegou a caneca de cerâmica entre as mãos, sentindo o calor do líquido perfurar o frio que parecia ter se instalado em seus ossos desde que acordara. Ela deu um pequeno gole no café forte e amargo, sem desviar os olhos da fotografia.

- Jane Catherine... - Stephanie repetiu o nome devagar, pensativa. - E Judith. E a criança, sua bisavó.

Jane encostou a cintura contra a borda da bancada, segurando sua própria caneca com as duas mãos. Ela olhou para a foto, os olhos castanhos demonstrando um respeito ancestral, quase religioso.

- Sim - Jane disse, a voz rouca. - É a história delas que me mantém de pé, quando tudo o mais tenta me derrubar.

Jane deu um gole longo no café antes de continuar, sua voz ganhando uma firmeza antiga.

- Cada um dos meus antepassados aprenderam o valor da terra com elas. E eu aprendi com meu pai. As gerações de mulheres e homens que sangraram nesta terra para garantir que ninguém - ninguém - pudesse vir de fora e dizer o que nós podemos ou não fazer com a nossa água.

Stephanie permaneceu em silêncio por um longo momento. Ela olhou da fotografia para Jane. A rancheira de pé em sua cozinha simples, vestindo jeans gasto e regata de algodão, trazia em cada linha de seu rosto, na postura ereta de seus ombros e na aspereza de suas mãos a mesma herança indomável das mulheres da foto. Para Stephanie, criada em uma elite urbana de Chicago onde o valor das coisas era medido por portfólios de ações, contratos milionários, aquela conexão com a terra era algo completamente desconhecido, mas, ao mesmo tempo, dotado de uma força e de uma nobreza assustadoras.

A executiva deu mais um gole no café. O líquido quente começava a espantar a ressaca de sua cabeça, mas a clareza que trazia consigo apenas tornava a situação presente mais complexa.

Stephanie colocou a caneca de cerâmica sobre a mesa com um estalo suave. Ela girou ligeiramente o corpo para encarar Jane de frente.

O silêncio voltou a se instalar na cozinha, uma atmosfera impregnada por uma expectativa não dita. Stephanie manteve seus olhos azuis cravados no rosto de Jane. Ela estava parada ali, vestindo a camiseta preta da rancheira, o corpo ainda guardando a memória física dos toques, das mordidas e da entrega avassaladora da noite anterior.

Ela esperava.

Stephanie esperava por um sinal. Um único gesto. Um aceno de cabeça, uma mudança no tom de voz, um passo à frente da parte de Jane que reconhecesse o que havia acontecido entre elas no quarto. Não um pedido de desculpas, não uma declaração romântica brega, Stephanie era pragmática demais para isso, mas uma confirmação de que a paixão incandescente que as destruíra e reconstruíra naquelas poucas horas não fora um mero delírio de bêbadas ou um acidente de percurso de uma única noitada inconsequente.

Contudo, Jane permaneceu imóvel, em silêncio.

A rancheira segurava sua caneca de café com as duas mãos, o olhar fixo em um ponto indeterminado da parede. Sua expressão era uma máscara insondável. A timidez, o orgulho ferido, e a culpa de ter se entregado com tanta paixão justamente à mulher que representava a ameaça contra tudo que ela tinha, ergueram uma muralha fria ao redor de Jane. Ela recusou-se a cruzar o olhar com Stephanie, recusou-se a dar o passo que a executiva silenciosamente esperava.

Para Jane, admitir a importância daquela noite na luz da manhã significava capitular. Significava entregar a única defesa que lhe restava contra o poder devastador que Stephanie exercia sobre seus sentidos.

À medida que os segundos se arrastavam na cozinha silenciosa, a esperança velada nos olhos de Stephanie começou a se transformar em algo diferente. A névoa de vulnerabilidade dissipou-se, substituída por uma onda rápida e incandescente de exasperação e orgulho ferido. A grande presidente da White & Sovereign, a mulher que nunca implorava por atenção em lugar nenhum do mundo, percebeu exatamente o jogo de esquiva que Jane estava jogando.

Stephanie soltou um suspiro profundo, alto e exasperado, um som que cortou a atmosfera da cozinha como uma lâmina.

- Chega - Stephanie disse, a voz recuperando instantaneamente a sua frieza, polida e implacável.

Ela deixou a caneca de café pela metade sobre a mesa, ajustou a camiseta preta de Jane com um gesto rápido e deu dois passos firmes em direção à porta de saída da cozinha para o corredor.

Jane piscou, pega de surpresa pela mudança abrupta de tom, e deu um passo atrás dela.

- Stephanie, espere... - Jane começou, a voz vacilando por um milissegundo.

- Não precisa se dar ao trabalho de me acompanhar até a porta, Srta. Brown - Stephanie cortou-a sem sequer olhar para trás, caminhando a passos largos pela sala de estar em direção à entrada principal da casa. - Eu já tomei tempo demais da sua preciosa rotina de fazendeira orgulhosa.

Jane a seguiu pela sala, observando a executiva mover-se com uma elegância natural, mesmo vestindo uma camiseta simples e jeans amassado. Stephanie pegou sua bolsa de couro preta de grife que estava sobre uma cadeira perto da entrada, jogou a alça sobre o ombro e segurou a maçaneta da porta da frente.

Antes de girar a tranca, Stephanie parou. Ela fechou os olhos por um breve instante, puxou o ar pela boca entreaberta e virou-se sobre os calcanhares para encarar Jane.

As duas mulheres estavam agora a poucos metros de distância, no mesmo hall de entrada onde a tempestade de beijos e agressividade possessiva começara na noite anterior. Mas a luz cinzenta da manhã revelava cada detalhe com uma clareza impiedosa.

Stephanie sustentou o olhar de Jane com uma intensidade feroz. Seus olhos azuis, desprovidos de qualquer vestígio de paixão da noite anterior, brilhavam com um desafio incandescente. A postura da executiva era dominadora.

- Não pense por um único segundo que você venceu esse jogo, Jane - Stephanie disse, a voz baixa, aveludada, mas carregada de uma promessa perigosa que fez os pelos dos braços de Jane se arrepiarem. - Não pense que pode me usar para queimar suas frustrações na escuridão do seu quarto e depois me descartar como se eu fosse um detalhe inconveniente na luz do dia.

Jane tentou abrir a boca para responder, para erguer suas defesas habituais, mas as palavras travaram em sua garganta diante da força do olhar da executiva.

Stephanie deu um passo à frente, reduzindo a distância entre elas até que o perfume caro amadeirado - misturado ao aroma de café e ao cheiro do próprio algodão de Jane - voltasse a invadir os sentidos da rancheira.

- Eu vou marcar uma reunião oficial daqui a 05 dias na prefeitura do condado sobre o leilão das dívidas e a outorga da água para os produtores daqui, que ainda mantém suas propriedades - Stephanie continuou, cada palavra pronunciada com uma precisão cirúrgica. Ela ergueu um indicador e apontou para o peito de Jane, tocando de leve o tecido de sua regata. - E depois disso... você e eu vamos terminar esta conversa. Porque isso aqui, que aconteceu nesta casa... - Disse, fazendo um gesto ao redor.

Stephanie fez uma pausa deliberada, seus olhos descendo por um milissegundo para os lábios de Jane antes de voltarem a cravarem-se em seus olhos castanhos.

- Isso aqui não acabou, Jane. Nem perto disso. Eu vou fazer você olhar nos meus olhos e dizer exatamente o que sente, sem álcool e sem desculpas para você se esconder e fugir de mim da forma como está fugindo agora.

Sem esperar por uma única palavra de resposta, Stephanie virou-se com uma fluidez impecável, girou a tranca e abriu a porta da frente da casa do Rancho Brown.

O ar frio e úmido invadiu o hall de entrada, trazendo consigo o cheiro da terra molhada e o rumor distante do vento nas copas dos carvalhos centenários. Stephanie desceu os degraus de madeira da varanda com passos firmes e decididos, os saltos de seus sapatos batendo no chão com firmeza.

Jane deu dois passos até a soleira da porta, parando sob o telheiro da varanda. Ela observou em silêncio enquanto Stephanie caminhava pelo pátio de terra batida. A executiva abriu a porta do Cadillac verde, entrou no veículo de luxo e fechou a porta com um baque abafado e pesado.

O motor do Cadillac ganhou vida com um ronco suave e potente, o escapamento soltando uma nuvem discreta de fumaça branca no ar da manhã. Com uma manobra rápida e precisa - que quase raspou nos canteiros de flores ressequidas -, Stephanie girou o volante, alinhou o carro na estrada interna do rancho e acelerou.

O veículo de luxo cortou o pátio, passou pelo portão principal da fazenda e ganhou a estrada de terra que levava em direção ao asfalto, levantando uma cortina baixa de poeira atrás de si.

Jane permaneceu parada na varanda por um longo tempo, com os braços cruzados sobre o peito, o vento que soprava emaranhando seus cabelos castanhos. Ela olhou para a estrada vazia até que o ponto verde do Cadillac desaparecesse completamente no horizonte acinzentado do Vale do Loup.

No céu, as nuvens escuras e carregadas continuavam a se acumular, vindas do oeste, cobrindo o sol e trazendo a certeza absoluta de que a tempestade prometida não tardaria a cair sobre aquela terra.

 

Fim do capítulo


Comentar este capítulo:
[Faça o login para poder comentar]
  • Capítulo anterior
  • Próximo capítulo

Comentários para 16 - Capitulo 16 - A Luz da Manhã:
HelOliveira
HelOliveira

Em: 28/08/2026

Jane para de orgulho e mostra para Stephanie do que vc é capaz, encontre uma alternativa....

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Duduka
Duduka

Em: 28/08/2026

Stephanie já deixou claro que não vai desistir de Jane..... Adorando a história. 

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Informar violação das regras

Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:

Logo

Lettera é um projeto de Cristiane Schwinden

E-mail: contato@projetolettera.com.br

Todas as histórias deste site e os comentários dos leitores sao de inteira responsabilidade de seus autores.

Sua conta

  • Login
  • Esqueci a senha
  • Cadastre-se
  • Logout

Navegue

  • Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Ranking
  • Autores
  • Membros
  • Promoções
  • Regras
  • Ajuda
  • Quem Somos
  • Como doar
  • Loja / Livros
  • Notícias
  • Fale Conosco
© Desenvolvido por Cristiane Schwinden - Porttal Web