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A Promessa do Vale por Lady Texiana

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Palavras: 4303
Acessos: 122   |  Postado em: 31/08/2026

Capitulo 17 - Decisões Tomadas

 

A chuva desabava sobre o asfalto que cortava o Vale do Loup, golpeando o para-brisa do Cadillac verde com uma fúria inexorável. Os limpadores de para-brisa trabalhavam na velocidade máxima, emitindo um barulho frenético a cada varredura, mas a visibilidade permanecia reduzida a escassos metros da névoa e água acumulada.

Dentro do carro, o silêncio era interrompido apenas pelo ronco constante do motor e pelo som abafado dos pneus cortando as poças de agua acumuladas na pista. Stephanie White mantinha as duas mãos firmemente presas ao volante de couro macio. Seus nós dos dedos estavam brancos pela força com que segurava o volante. A postura era ereta, rígida, cada músculo de suas costas tensionado, a estrada escorregadia testando sua habilidade na direção. Mas, sob a fachada de controle absoluto que aperfeiçoara ao longo de anos no mundo dos negócios de Chicago, o interior de seu peito abrigava um tumulto desordenado de raiva, humilhação e uma incômoda culpa pela vulnerabilidade demonstrada.

A camiseta de algodão preto de Jane, simples, macia e que cheira a um sabão de lavanda misturado ao cheiro da própria pele da rancheira, roçava suavemente contra seu peito a cada movimento do volante. Aquele pedaço de pano era um lembrete físico constante das horas apaixonadas da noite anterior. Um troféu amargo.

Enquanto descia a estrada sinuosa em direção à Grand Island, Stephanie tentava focar sua mente na análise dos números da fusão, nas projeções de ativos e nos relatórios de impacto ambiental da White & Sovereign. Contudo, sua mente teimava em traí-la, projetando com clareza milimétrica as imagens daquela manhã na cozinha decorada em tons de azul escuro sobre fundo branco do Rancho Brown.

Lembrou-se da luz cinzenta e fria vazando pela janela, do cheiro de café forte passado no coador de pano e, acima de tudo, do olhar de Jane. Um olhar carregado de uma timidez obstinada, encoberto por uma armadura de orgulho e resignação que Stephanie simplesmente não conseguia perfurar. A rancheira preferira se esquivar, recuar para trás de suas trincheiras e desculpas sobre dívidas e terras, a admitir por um único segundo que a entrega da noite anterior fora algo mais do que um momento motivado puramente pelo álcool.

Inacreditável, Stephanie pensou, soltando um suspiro amargo que embaçou ligeiramente o vidro do motorista. Uma mulher capaz de encarar tempestades e dívidas altas, mas que se esconde feito uma covarde quando confrontada com o próprio desejo.

Contudo, entre as ondas de irritação e orgulho ferido que queimavam seu peito, uma imagem diferente insistia em emergir na memória da executiva: a visão física de Jane na luz do amanhecer.

Quando estivera no quarto e, posteriormente, quando a observara de pé ao lado da mesa de fórmica azul da cozinha, Stephanie notara detalhes que a penumbra da noite anterior e a atmosfera carregada de álcool haviam mascarado. Jane estava visivelmente mais magra. As olheiras fundas e escuras sob os olhos castanhos da rancheira não eram apenas fruto de uma noite mal dormida; eram marcas profundas de meses, talvez anos, carregando nos ombros o peso de uma propriedade a um passo da falência total, o assédio predatório de uma holding poderosa e o peso da honra familiar que ela insistia em manter.

A lembrança daquela fragilidade física disfarçada de altivez provocou em Stephanie uma pontada estranha no estômago. Uma mistura desconfortável de culpa e de um sentimento possessivo que a irritou ainda mais. Jane estava se destruindo. Estava se esgotando até os ossos para manter de pé um punhado de terra e uma casa de madeira antiga que o tempo e os novos ares econômicos pareciam determinados a engolir.

O Cadillac cruzou o limite urbano da cidade sob a tempestade implacável. As ruas estavam desertas, com a água correndo em enxurradas pelas sarjetas. Os estabelecimentos comerciais mantinham as portas fechadas ou protegidas por toldos pesados.

Stephanie não reduziu a velocidade até avistar o edifício de alvenaria e tijolos à vista no centro da cidade, que a White & Sovereign havia alugado e transformado temporariamente no QG das operações da Holding no vale, no seu QG.

Ela estacionou o carro de qualquer jeito em frente à entrada principal, ocupando duas vagas e deixando a traseira do veículo ligeiramente atravessada, algo que refletia perfeitamente seu estado de espírito. Desligou o motor, pegou sua bolsa de couro no banco do passageiro e abriu a porta.

A chuva forte a atingiu instantaneamente, ensopando a camiseta preta de Jane e colando os fios loiros de seu cabelo ao pescoço e ao rosto. Stephanie ignorou o frio da água e caminhou a passos largos e firmes em direção à porta do prédio.

Quando as portas automáticas se abriram, a diferença de temperatura do saguão atingiu-a com um golpe gelado. Stephanie cruzou o hall sem hesitar. Os sapatos de salto baixo, estalavam contra o piso.

Os funcionários, os que haviam vindo num primeiro momento, mais os que ela convocara posteriormente, congelaram em suas posições ao verem a presidente da holding passar. A cena era inédita. Stephanie White, conhecida no circuito financeiro de Chicago por ser habitualmente impecável, terninhos sob medida de alfaiataria italiana, cabelos perfeitamente alinhados e uma aura de elegância intocável, acabara de entrar no prédio ensopada pela chuva, vestindo uma camiseta de algodão preto, sem maquiagem e com os cabelos caindo em mechas molhadas e desalinhadas sobre os ombros.

Contudo, apesar da vestimenta bizarra para os padrões, não havia nada de desleixado ou vulnerável na forma como Stephanie se movia. Seus olhos azuis faiscavam com uma autoridade tão fria e cortante que ninguém ousou fazer uma pergunta ou emitir um murmúrio. A atmosfera ao redor dela parecia carregar a mesma carga elétrica da tempestade do lado de fora.

- Reunião de emergência na sala do conselho. Agora - Stephanie disparou ao passar pela mesa da secretária, sem sequer diminuir o ritmo dos passos. - Quero o Vance e o Pendleton e os analistas de risco na sala em três minutos.

A secretária arregalou os olhos, engoliu em seco e imediatamente agarrou o telefone interno, espalhando a ordem.

Três minutos depois, a sala de reuniões estava ocupada, exatamente como Stephanie queria. Vance e Pndleton e os analistas de risco estavam sentados em silêncio absoluto, ajeitando papéis e cadernos com mãos visivelmente nervosas.

Stephanie permanecia de pé na cabeceira da mesa. Ela recusara-se a ir até o banheiro para se enxaguar ou secar os cabelos; apenas jogara a bolsa de couro sobre a mesa e mantinha as mãos apoiadas no encosto de uma cadeira, encarando a equipe com um olhar frio.

- O desempenho de vocês nesta região tem sido uma piada patética - Stephanie começou, a voz caindo no recinto como uma lâmina cortante. Não houve tom introdutório; houve um ataque direto.

- Estamos empacados há dois meses e meio em um processo de aquisição de direitos de água que deveria ter sido concluído em duas semanas. O conselho em Chicago está cobrando resoluções e o que eu recebo de vocês são planilhas medíocres e justificativas sobre a resistência da população local.

O chefe da equipe de análise de risco, um homem de meia-idade e terno impecável chamado Marv, limpou a garganta, ajeitando os óculos no nariz com evidente desconforto.

- Senhorita White... a situação no vale é complexa - Marv tentou argumentar, medindo as palavras. - A associação dos produtores rurais locais criou um bloco rígido de resistência. Aquela produtora do Rancho Brown, tem mantido os pequenos fazendeiros unidos, porque a resistência dela faz com que tenham coragem de nos enfrentar. Nós tentamos as vias legais normais para a execução das dívidas bancárias hipotecadas que compramos, mas...

- Eu não pago executivos para me explicarem a complexidade de produtores rurais, senhor Marv. Eu pago vocês para resolverem problemas - Stephanie interrompeu, a voz cortante, erguendo o queixo. - E nós vamos resolver isso de forma definitiva.

Ela deu dois passos ao redor da mesa, capturando a atenção de todos na sala.

- Eu vou promover uma reunião oficial com todos os criadores e produtores do vale daqui a exatamente cinco dias. Na prefeitura do condado - Stephanie anunciou, enfatizando cada palavra. - Todos eles. Não quero ausências. Quero que a equipe de relações públicas emita os convites e as notificações formais hoje antes do final do expediente. O assunto da pauta será o leilão final das dívidas hipotecárias e a reestruturação da outorga dos direitos de água do rio.

Um murmúrio discreto correu pela mesa. Cinco dias era um prazo terrivelmente curto para organizar uma assembleia com uma comunidade rural hostil.

- Mas, Srta. White - interveio outro analista, um homem de ar severo -, se colocarmos todos eles em uma mesma sala em tão pouco tempo, a reação pode ser violenta do ponto de vista político. A liderança dos Brown ainda tem peso moral na região. Se aquela rancheira teimosa rejeitar a proposta em público, o restante dos produtores vai se fechar completamente e o leilão vai virar uma batalha judicial prolongada.

- Jane Brown não vai ter margem para rejeitar nada se fizermos o trabalho correto antes - Stephanie respondeu rapidamente, e o tom de sua voz mudou imperceptivelmente, embora ninguém na sala tenha percebido a razão.

Ela virou-se diretamente para Vance.

- Vance, eu quero que você e sua equipe revisem o projeto original da Holding de captação e canalização da água do vale do Rancho Brown. Quero a revisão completa nas minhas mãos em vinte e quatro horas.

Vance franziu a testa, confuso.

- Revisar o projeto original? O projeto atual já foi aprovado pelos acionistas e pelo conselho de administração em Chicago. Ele prevê a compra e a desapropriação total do Rancho Brown para a construção da represa principal de retenção e...

- Então vocês vão encontrar uma maneira legal de modificar essa estrutura sem prejudicar a margem de retorno dos acionistas - Stephanie ordenou, batendo as palmas das mãos na mesa de madeira com força suficiente para fazer os copos de água tremerem.

A sala ficou em silêncio absoluto. Os executivos se olhavam, incrédulos.

- Modificar o projeto? - Pendleton gaguejou. - Senhorita White, a área do Rancho Brown é o ponto geográfico perfeito para o reservatório. Se desviarmos o canal principal para preservar as terras produtivas daquela fazenda, os custos de infraestrutura vão subir entre doze e quinze por cento. O conselho nunca aprovará uma redução dessas na margem de lucro por razões meramente logísticas.

Stephanie aproximou-se do homem, inclinando-se ligeiramente sobre a mesa. Seus olhos azuis brilhavam com uma determinação fria e implacável.

- O conselho de administração aprovará o que eu apresentar a eles como a única solução viável para evitar um litígio judicial de cinco anos no tribunal estadual - ela disse, a voz baixa e ríspida. - Encontre os desvios técnicos necessários. Mapeie outras terras produtivas ou áreas de pastagem degradada mais ao norte que possam ser desapropriadas ou arrendadas para compensar a capacidade de armazenamento de água. Reestruture as possibilidades de uso futuro das cláusulas da dívida hipotecária do Rancho Brown para que elas possam ser convertidas em um contrato de arrendamento de longo prazo com amortização facilitada.

Pendleton piscou, surpreso pela precisão e pelo direcionamento específico do pedido.

- A senhora quer... poupar a propriedade dos Brown? Dar margem de manobra financeira para que a rancheira mantenha a posse da terra?

- Eu quero garantir que o projeto seja executado sem transformar o nome da White & Sovereign em um escândalo de desapropriação truculenta na imprensa regional, daqui até Chicago - Stephanie corrigiu imediatamente, a voz dura, erguendo-se para esconder o verdadeiro motivo que a guiava. - Jane Brown é uma figura obstinada e desesperada. Pessoas desesperadas cometem erros irracionais que custam caro para os meus acionistas. Se oferecermos a ela uma saída técnica que salve a terra e garanta a outorga da água para a Holding, ela não terá escolha a não ser assinar o acordo.

A justificativa era fria e pragmática do ponto de vista estritamente corporativo, mas Pendleton, experiente em dinâmicas de poder, percebeu que a presidente da holding estava disposta a queimar uma parcela considerável de sua própria margem de lucro e arriscar sua reputação perante o conselho de Chicago por uma única propriedade. O que ele não sabia, era que não era pela propriedade, mas por uma única mulher.

- Vocês têm vinte e quatro horas - Stephanie concluiu, ajeitando a postura e pegando sua bolsa de couro na mesa. - Se a proposta ajustada não estiver na minha mesa até sexta-feira de manhã, eu substituo toda a equipe jurídica e financeira. Estão dispensados.

Sem esperar pela reação da equipe, Stephanie virou-se sobre os calcanhares e caminhou em direção à porta da sala de reuniões. Os executivos permaneceram sentados em choque, observando a figura esguia da presidente da holding desaparecer pelo corredor, vestindo a camiseta preta ensopada e pisando com uma autoridade que ninguém ali ousaria questionar.

***

A milhas dali, no coração do Rancho Brown, a tempestade caía com a mesma violência devastadora sobre os campos abertos do Vale do Loup.

Jane Brown estava de pé na beira do canal de irrigação do setor norte da propriedade. O vento gelado do oeste açoitava seu rosto, fazendo sua camisa de flanela molhada grudar contra a pele e os cabelos castanhos ensopados se colarem à sua testa. A chuva caía tão densa que era quase impossível enxergar a linha dos carvalhos a quinhentos metros de distância.

Apesar da seca severa que assolara o vale nos últimos meses ter sido uma maldição para as pastagens, aquela tempestade súbita e torrencial trazia um perigo imediato diferente. Se os canais de drenagem e irrigação - antigos, construídos de madeira e terra batida na época de sua avó - não fossem reforçados e desobstruídos a tempo, a enxurrada que descia do morro ao norte destruiria as poucas áreas de drenagem e inundaria os reservatórios com lama e detritos, inutilizando a água para o gado.

Jane segurava uma pá pesada de cabo de madeira, enfiando a lâmina de ferro na terra encharcada para erguer uma pequena barreira de retenção ao lado da calha principal do canal. Cada movimento de seu corpo era um esforço doloroso. Suas costas queimavam pelo cansaço e as preocupações nas últimas semanas fazia suas forças esgotarem-se muito mais rápido do que o habitual.

A poucos metros de distância, a figura curvada de Hank trabalhava com um machado e algumas tábuas de pinho, tentando reforçar as estacas de sustentação do pequeno açude. O velho capataz vestia seu casaco de lona pesada, completamente ensopado, a água escorrendo pela aba de seu chapéu de feltro desbotado.

Nenhum dos dois dizia uma palavra. O som ensurdecedor da chuva e do vento, somado ao ruído da água barrenta correndo com força pelo canal, tornava qualquer tentativa de conversa inútil. Mas o silêncio entre eles também era alimentado pela tensão que permanecera desde o amanhecer, quando Hank vira a executiva de Chicago e seu carro de luxo no pátio da fazenda.

Jane enfiou a pá na terra com força, erguendo mais uma porção de lama pesada para a borda do canal. Seus braços tremiam. A exaustão física, no entanto, não era suficiente para afastar os pensamentos que ocupavam sua mente.

A imagem de Stephanie na cozinha recusava-se a deixá-la.

Jane conseguia sentir novamente o calor da pele da executiva, o perfume de luxo misturado ao cheiro da tempestade e o olhar incandescente, desafiador e ferido com que Stephanie a encarara antes de cruzar a porta da frente. As palavras de Stephanie ressoavam dentro de seu crânio com a mesma força do trovão que retumbava no céu: "Isso aqui não acabou, Jane. Nem perto disso."

A rancheira apertou os dentes, sentindo uma onda de raiva e vergonha subir pelo pescoço. Raiva por ter sido tão fraca na noite anterior, por ter permitido que a solidão, o desespero e o álcool derrubassem suas defesas até o ponto de se entregar à mulher que representava a destruição de seu legado. E vergonha por saber que, na luz crua da manhã, não tivera a coragem de encarar Stephanie de frente, preferindo se esconder atrás de sua timidez e de suas frases prontas sobre obrigações e terras.

Ela acha que sou uma covarde, Jane pensou amargamente, desferindo mais um golpe furioso com a pá na margem do canal. Acha que eu a usei e a descartei pelos fundos. Mas o que ela esperava que eu fizesse? Que caísse nos braços dela e entregasse o rancho em um estalar de dedos?

Contudo, sob a raiva defensiva, Jane sabia que a presença de Stephanie instalara um incêndio em sua vida que o tempo e a chuva jamais conseguiriam apagar. A memória do toque de Stephanie, daquela intensidade possessiva e da vulnerabilidade velada sob a postura aristocrática da executiva, marcara a mente e a pele de Jane de uma forma que a rancheira temia nunca mais conseguir apagar.

- Patroa! - A voz rouca de Hank cortou o ruído da tempestade, ressoando à esquerda de Jane. - A prancha de contenção da curva do canal tá cedendo! A água vai estourar a borda e levar a terra para baixo!

Jane ergueu a cabeça, enxugando a água da chuva dos olhos com o antebraço encharcado. Ela olhou na direção que Hank indicava. A cerca de dez metros dali, onde o canal fazia uma curva acentuada para direcionar o fluxo de água para os reservatórios inferiores, uma grande prancha de madeira maciça estava sendo deslocada pela força da enxurrada barrenta, cujo solo seco pelos meses sem chuva adequada, ao invés de absorver a agua, a dispersava sobre o solo com mais rapidez. Se a prancha caísse, o barranco cederia, provocando um deslizamento de terra que entupiria o reservatório principal.

- Eu vou segurar a extremidade enquanto você prega o reforço! - Jane gritou de volta.

Sem esperar pela resposta de Hank, Jane largou a pá na lama e correu pela margem escorregadia do canal. A terra estava completamente lisa, transformada em uma maça viscosa que tornava cada passo um risco constante de queda.

Ela chegou ao ponto crítico da curva. A água barrenta subia rápido, batendo contra a madeira com uma pressão impressionante. Jane agachou-se na borda instável do barranco, enfiou as mãos por baixo da extremidade da prancha de madeira encharcada e puxou-a com toda a força do seu corpo, tentando alinhá-la novamente contra a estaca de sustentação.

Seus músculos protestaram com uma dor aguda. A falta de sono e o cansaço acumulado cobraram seu preço naquele instante exato. A força da correnteza empurrou a madeira contra as mãos de Jane.

A terra sob as botas de Jane simplesmente cedeu.

O barranco de lama desmoronou com um som abafado. Jane perdeu o apoio dos pés e escorregou ruidosamente para dentro da calha do canal.

Ao cair, o peso do seu corpo e o impacto contra a parede de pedras e madeira do canal concentraram-se sobre seu braço direito, que estava estendido para tentar amortecer a queda. Um estalo seco e doloroso ressoou sob o barulho da água, seguido imediatamente por uma pontada de dor lancinante que subiu pelo ombro de Jane, fazendo o mundo girar em tons de cinza e branco diante de seus olhos.

Jane soltou um grito rasgado de dor, afundando por um segundo na água fria e barrenta antes de conseguir firmar o pé esquerdo no fundo do canal e erguer a cabeça para respirar. Seu braço direito pendia inútil ao lado do corpo, a dor no ombro e no cotovelo era tão intensa que a fez vomitar o café que tomara de manhã.

- Jane! Menina! - O grito de Hank ressoou desesperado.

O velho capataz largou o machado e correu pela margem com uma agilidade surpreendente para a sua idade. Ele deslizou cuidadosamente pela borda do barranco, enfiando os braços por baixo dos ombros de Jane e puxou-a com força para fora da correnteza barrenta, arrastando-a até a parte alta da grama encharcada.

Jane deitou-se de costas na grama molhada, a chuva caindo diretamente sobre seu rosto empalidecido. Sua respiração vinha em arrancos curtos e entrecortados. A dor em seu braço direito era uma onda contínua e pulsante que parecia paralisar todo o seu corpo.

Hank ajoelhou-se ao lado dela, o rosto coberto de lama e preocupação. Seus olhos examinaram a posição do braço da patroa.

- Não mexa esse braço, patroa. Não mexa - Hank disse, a voz rouca tremendo ligeiramente enquanto tirava o próprio lenço de pescoço para apoiar a articulação de Jane. - É uma luxação feia no ombro. Acho que o osso deslocou da junta. Nós precisamos ir para o médico da cidade agora mesmo.

- Não... - Jane murmurou, os dentes cravados no lábio inferior até sangrar, tentando se erguer com o braço esquerdo. - O canal... Hank, o canal... se a água estourar...

- Que se dane o canal, Jane! - O velho capataz gritou, a autoridade de quem a vira crescer sobrepondo-se à hierarquia do rancho. - A senhora tá quase desmaiando de dor! A fazenda não vale nada se a senhora se matar trabalhando nesse estado! Acabou por hoje. Nós vamos pro hospital.

Jane tentou protestar novamente, mas uma nova onda de dor intensa subiu pelo ombro, fazendo sua visão escurecer por alguns segundos. Ela fechou os olhos, derrotada pela exaustão e pela dor física, e permitiu que Hank a ajudasse a se levantar devagar.

O velho capataz amparou-a com cuidado, guiando seus passos lentos e trôpegos de volta pela estrada de terra lamacenta até o pátio principal, onde a caminhonete Ford azul estava estacionada.

As horas seguintes passaram como um borrão de dor, febre e uma angústia silenciosa para Jane Brown.

No hospital, o clínico geral de plantão diagnosticou uma luxação grave no ombro direito, acompanhada de um estiramento muscular doloroso na região da clavícula. O procedimento de colocar o osso de volta no lugar fora uma experiência torturante que fizera Jane cravar as unhas da mão esquerda na maca de metal até quase sangrar.

O médico prescreveu analgésicos fortes, repouso absoluto por alguns dias e imobilizou o braço direito de Jane em uma tipoia que mantinha o braço firme contra seu peito.

Contudo, a ordem de repouso absoluto era uma piada de mau gosto para a rancheira.

De volta à casa do Rancho Brown, Jane passou dois dias inteiros deitada na cama de ferro de seu quarto, encarando as tábuas do teto de madeira. O silêncio da casa, quebrado apenas pelo tique-taque do relógio da sala e pelo pingar constante da chuva que finalmente começava a diminuir lá fora, era um tormento pior do que a dor física em seu ombro. Hank aparecia 03 vezes por dia para trazer as refeições para a patroa.

Imobilizada, sem poder trabalhar nos campos ou manejar as ferramentas do rancho, a mente de Jane ficou completamente desprotegida. E, sem o trabalho pesado para anestesiar seus pensamentos, Stephanie White ocupou cada segundo de suas horas de vigília.

Jane pensava em Stephanie constantemente.

Lembrava-se do tom imperioso da voz da executiva, do toque firme de seus dedos em seu peito, e da promessa feita no hall de entrada: "Eu vou marcar uma reunião oficial daqui a 05 dias... e depois disso, você e eu vamos terminar esta conversa."

A ideia de enfrentar Stephanie na reunião pública na prefeitura do condado, diante de todos os produtores rurais do vale e dos executivos da Holding, causava em Jane uma mistura de pânico e um desejo sombrio e inconfessável de rever aquela mulher, de confrontá-la. 

Ela sabia que Stephanie usaria toda a sua inteligência e poder para encurralá-la. Mas sabia também que, por baixo daquela armadura de executiva implacável, havia uma conexão viva, incandescente e perigosa que nenhuma das duas conseguia destruir.

Na cidade, a trinta milhas dali, Stephanie White vivia sua própria versão daquele tormento silencioso.

Na suíte do hotel, Stephanie passara as últimas noites mergulhada em relatórios jurídicos, planilhas de investimento e durante os dias, em reuniões intermináveis por telefone, com os executivos em Chicago.

A alteração do projeto da Holding que ela exigira fora recebida com enorme resistência interna. O conselho de administração questionara os custos adicionais para contornar a propriedade dos Brown e manter as terras produtivas da fazenda intactas. 

Stephanie tivera que usar todo o seu capital político, sua reputação e sua capacidade de persuasão para forçar a aprovação da nova proposta, inventando justificativas sobre "mitigação de riscos de imagem da Holding perante o público" e "evitar batalhas judiciais prolongadas na Corte do Estado".

Ela estava disposta a abrir mão de parcelas significativas do lucro da holding. Estava disposta a arriscar sua posição de prestígio no topo do mundo corporativo. E tudo por Jane Brown.

À noite, sozinha no quarto de hotel silencioso, cercada dos relatórios, Stephanie não conseguia dormir. Ela caminhava de um lado para o outro no carpete, segurando um copo de uísque que mal tocava. Seus olhos voltavam-se repetidamente para a janela que dava para a estrada norte, em direção ao vale e depois para os papeis espalhados sobre a cama.

A exasperação de Stephanie com a recusa de Jane em aceitar o que acontecera entre elas era um fogo constante em seu peito. Mas, ao mesmo tempo, a memória da fragilidade física da rancheira, do rosto pálido, do corpo visivelmente mais magro sob a regata e do olhar cansado de quem carregava o mundo nas costas, não a deixava em paz. 

Stephanie pegava o telefone várias vezes, tentada a ligar para o rancho sob o pretexto de checar os preparativos para a reunião, apenas para desligar o aparelho antes que a chamada completasse. O orgulho de executiva e o medo de transparecer sua fraqueza a mantinham prisioneira do silêncio.

As duas mulheres, separadas pela distância e divididas por um abismo de classe, poder e obrigações, permaneciam presas uma à outra por um fio invisível e inquebrável de pensamentos e desejos.

 

Fim do capítulo


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Comentários para 17 - Capitulo 17 - Decisões Tomadas:
HelOliveira
HelOliveira

Em: 01/09/2026

Então Stephanie encontrou uma saída.....já ansiosa para essa reunião, mas algo mês diz que ainda vem muitas divergências pela frente 

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