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A Promessa do Vale por Lady Texiana

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Palavras: 2869
Acessos: 141   |  Postado em: 22/08/2026

Capitulo 14 - O Jogo da Paixão

 

O eco abafado do motor da picape de Sarah foi consumido gradativamente pelo mar de silêncio suave que costumava tragar a pradaria após a meia-noite, quebrado apenas pelos barulhos dos animais noturnos que vagavam em busca de alimentos. Jane permaneceu na varanda por alguns segundos a mais, sentindo o vento frio da madrugada atravessar a flanela fina de sua camisa e arrepiar a pele da sua nuca. O ar trazia o cheiro característico do Vale do Loup: terra seca, grama esturricada pelo sol do verão e o aroma distante de arbustos e flores secas.

Girou a chave na fechadura e entrou. A casa de madeira rangeu sob seus passos familiares, um som ancestral que costumava lhe trazer algum conforto, mas que naquela noite soava apenas como a ressonância de uma solidão profunda. Jane puxou o ferrolho da porta, acendeu a luz amarelada e fraca da sala e caminhou até a cozinha em silêncio.

Sua cabeça ainda girava levemente. A conversa no diner, o confessar da sua maior culpa descarregado nos ouvidos de Sarah e as várias canecas de cerveja artesanal seguidas da bebida no bar de música ao vivo haviam drenado o resto de energia que lhe sobrava. As palavras de Sarah ecoavam em sua mente como um tambor constante e ritmado: "Você está destruída porque gostou... Parecem duas mulheres orgulhosas se digladiando por ressentimento e rejeição."

Jane soltou um suspiro pesado, balançando a cabeça em negação para espantar o pensamento.

- Absurdo dos absurdos - murmurou para si mesma em um sussurro quase inaudível.

Ligou o bico do fogão a gás. A chama azul refletiu-se por um instante no metal gasto da chaleira. Ela encheu o recipiente com água do filtro de barro, uma medida cautelosa, já que a água das torneiras andava fraca e turva após o corte do canal promovido pela White & Sovereign e a colocou sobre o fogo. Enquanto esperava a agua ferver, pegou sua caneca preferida, de cerâmica trincada no armário e um punhado de ervas secas de camomila. Suas mãos  tremiam ligeiramente. Não era de frio; era o residual de adrenalina que parecia nunca abandonar seu corpo desde que Stephanie White pisara em Nebraska.

Foi no exato momento em que a água começava a chiar no fundo da chaleira que Jane notou algo errado. Ela desligou o bico do fogão.

Uma luz forte e cortante atravessou as frestas das cortinas de linho cru da janela da cozinha. Não era o farol amarelado da picape de Sarah voltando por ter esquecido algo, nem a luz difusa da caminhonete que Hank usava na lida do rancho. Era um feixe duplo amarelado, denso e agressivo, projetado pelas lâmpadas de um carro de luxo.

Os faróis varreram o pátio de cascalho, iluminando a fachada do rancho com uma clareza incômoda, até que o som de um motor potente e aveludado parou a poucos metros dos degraus da varanda.

Jane congelou ao lado do fogão. Seu coração deu um salto violento contra as costelas, o pulso acelerando instantaneamente. Ela caminhou até a janela da sala, afastando a cortina levemente com dois dedos, o corpo teso como uma mola prestes a disparar.

O Cadillac verde de luxo estava estacionado meio torto no meio do pátio, com uma das rodas dianteiras quase invadindo o canteiro de lavandas. As luzes do carro se apagaram, mergulhando a cena de volta na escuridão parcial iluminada apenas pela lâmpada amarela da varanda. A porta do motorista se abriu com um estalo suave.

Primeiro, viu as pernas. Calças jeans escuras, terminando em sapatos de salto baixo que definitivamente não pareciam adequados ao solo irregular de um rancho. Depois, a figura esguia de Stephanie White emergiu da penumbra.

A executiva de Chicago parecia desmontada. A blusa de seda preta estava desalinhada nos ombros, os cabelos loiros perfeitamente moldados antes agora caíam em mechas desordenadas ao redor do rosto pálido, e seus passos na terra eram incertos. Ao dar o primeiro passo em direção à varanda, Stephanie cambaleou para o lado, precisando apoiar a mão no capô aquecido do próprio carro para não perder o equilíbrio. O consumo excessivo de uísque puro na mesa escura do bar ficava evidente na maneira como ela inclinava o corpo e na lentidão calculada dos seus movimentos.

A raiva, um fogo denso e visceral, subiu pelo peito de Jane como uma onda de calor sufocante.

Como aquela mulher ousava? Como Stephanie White, após bloquear o suprimento de água daquelas terras, após chantagear e ameaçar a sobrevivência do legado dos Brown, após o fiasco daquela noite naquele estacionamento em Grand Island, tinha a audácia de perseguia-la até a sua própria casa, ainda por cima meio bêbada e no meio da madrugada?

Jane não esperou que a visitante subisse os degraus. A vergonha de ter revelado seus sentimentos a Sarah poucas horas antes transformou-se em uma fúria cega e defensiva. Ela marchou até a porta principal, girou o trinco com violência e a escancarou bem no momento em que Stephanie estendia a mão trêmula para bater no eucalipto da madeira.

A mão de Stephanie ficou suspensa no ar por um segundo. A iluminação da varanda incidia diretamente sobre o rosto da executiva, revelando olhos azuis profundamente injetados, pupilas dilatadas e uma expressão que oscilava perigosamente entre a arrogância ferida e o desespero absoluto. O cheiro marcante de uísque e o perfume caro e amadeirado exalavam de sua pele, invadindo a varanda.

- O que você pensa que está fazendo aqui? - a voz de Jane saiu rasgada, baixa e perigosa. - Ficou maluca, Stephanie?

Stephanie piscou lentamente, tentando focar a imagem ligeiramente duplicada da rancheira à sua frente. Um sorriso amargo e torto surgiu em seus lábios bem desenhados.

- Ora, ora... - disse a executiva, a voz arrastada, aveludada e pesada pelo álcool. - A senhora do rancho resolveu me atender. Que honra, Jane. - Disse, em um meio deboche.

- Vá embora - Jane deu um passo à frente, bloqueando o batente da porta com o próprio corpo, os ombros firmes e rígidos contra o batente. - Você está bêbada. Pegue esse seu carro ridículo e volte para o seu hotel antes que eu chame o xerife ou tire você daqui à força.

- Chamar o xerife? - Stephanie deu uma risada curta, sem alegria, dando um passo cambaleante para cima no primeiro degrau da varanda. A proximidade fez Jane dar um meio passo involuntário para trás. - Vai chamar a polícia para mim, Jane? Por quê? O que eu fiz?  Porque eu estou no seu pátio? Ou porque eu vi aquela mocinha sem graça... a sua amiguinha te trazer até a porta?

Jane franziu o cenho, tomada por uma perplexidade momentânea que se misturou à raiva.

- Do que você está falando?

- Não se faça de dissimulada! - Stephanie elevou o tom de voz, os olhos azuis faiscando na penumbra. O descontrole era tão estranho à figura corporativa e impecável da executiva que Jane por um segundo quase não a reconheceu. - Eu vi você no bar, Jane! Eu estava lá! Vi o jeito como você olhava para ela... vi o jeito como ela tocava no seu braço naquele balcão imundo! E depois...  vi vocês saindo juntas, abraçadinhas na porta como se o mundo fosse de vocês!

Jane arregalou os olhos, boquiaberta diante do que estava ouvindo.

- Você... você estava me espionando? Você me seguiu desde a cidade?

- Eu não estava te espionando! - Stephanie esbravejou, tropeçando no segundo degrau e segurando no corrimão de madeira com força para não cair. A respiração dela vinha curta e quente. - Eu estava tentando respirar! Estava tentando apagar a porcaria da imagem daquele... aquela insanidade da minha cabeça! E onde você estava? Se divertindo. Rindo. Com a motorista daquela picape caindo aos pedaços! Quem é ela, Jane? Quem é aquela mulher para ter o direito de se agarrar em você daquele jeito?

A raiva de Jane transformou-se em um choque absoluto. Ela piscou várias vezes, tentando processar o absurdo da situação. A mulher mais poderosa do setor imobiliário rural do Meio-Oeste, a representante fria de um fundo de investimentos milionário, estava na varanda da sua casa, no meio do nada no Nebraska, cheirando a uísque e exigindo explicações sobre com quem ela saía.

- Você ficou completamente louca - Jane disse, a voz vacilando entre o espanto e a indignação. - Quem é a Sarah não é da sua conta! Você não tem direito a nada aqui! Não tem direito sobre este rancho, não tem direito sobre a minha vida e muito menos sobre com quem eu tomo a porr* de uma cerveja!

- Eu tenho tudo a ver com isso! - Stephanie esbravejou, dando o último passo e subindo na varanda, ficando a poucos centímetros de Jane. A diferença de altura era de 05 centímetros entre as duas, e a intensidade no olhar da executiva era sufocante. - Você me empurrou naquela noite! Me rejeitou. Você me tratou como se eu fosse indesejável, como se o que aconteceu entre nós no estacionamento e no restaurante fosse uma sujeira! Você fugiu de mim, Jane! E depois eu encontro você sorrindo e se derretendo nos braços de outra pessoa?

- Ela é minha amiga de infância, sua demente! - Jane disparou, perdendo finalmente o controle do volume da voz. - E mesmo que fosse minha amante, mesmo que fosse qualquer outra pessoa no mundo, isso não seria da sua conta! Quem você pensa que é? Você veio até a minha terra, cortou a água do meu canal, condenou a mim à ruína financeira e agora acha que tem algum direito de sentir... de sentir ciúmes?!

A palavra "ciúmes" ecoou na varanda como um tiro.

Stephanie estancou. Por um milissegundo, a armadura de raiva de Stephanie pareceu trincar, revelando uma dor crua e vulnerável no fundo daqueles olhos claros. Mas o álcool e o orgulho ferido rapidamente cobriram a fresta.

- Ciúmes? - Stephanie soltou uma risada ríspida, envenenada. - Não seja ridícula, Brown. Você acha que eu teria ciúmes de uma rancheira e de uma garota provinciana em uma picape caindo aos pedaços? Eu sou a presidente de operações da White & Sovereign! Eu controlo infraestruturas gigantescas em três estados! Você não passa de uma produtora rural falida que não consegue pagar a própria conta de luz!

- Então saia da minha varanda! - Jane berrou, apontando o dedo na direção do pátio. - Saia da minha propriedade agora, Stephanie! Se você der mais um passo em direção a esta porta, eu juro por Deus que tiro você daqui pelo pescoço!

Em vez de recuar, Stephanie fez exatamente o oposto. Com um movimento rápido e desajeitado, impulsionado pela teimosia alcoólica, a executiva projetou o corpo para a frente, empurrando o ombro de Jane com a intenção de passar pela porta aberta.

- Eu não vou embora! - disse Stephanie, entrando na sala de estar da casa dos Brown. - Nós vamos conversar sobre isso agora! Sobre a água, sobre a dívida do seu rancho e sobre o que você fez comigo!

- Fora da minha casa! - Jane girou nos calcanhares, agarrando o braço de Stephanie com força.

Jane puxou a executiva para a luz amarela e fraca da lâmpada da sala. O ambiente simples e bem arrumado, os móveis de madeira maciça desgastados pelo tempo, o sofá coberto por uma manta quadriculada tecida a mão, as fotos antigas da família na parede, aquele ambiente familiar e aconchegante contrastava com a presença elegante e desarranjada de Stephanie White.

Stephanie libertou o braço com um solavanco, perdendo o equilíbrio momentaneamente e colidindo as costas contra a quina da estante de madeira. Ela praguejou em baixo tom, levando a mão à cintura, mas manteve os olhos fixos em Jane, ardendo em desdém e desejo não resolvido.

- É por isso, não é? - Stephanie provocou, apontando para as paredes da casa. - É por causa desse orgulho estúpido pela terra? Você prefere ver tudo isso secar, prefere perder até o último centavo do que sentar comigo e negociar como uma mulher adulta?

- Negociar? - Jane riu, uma risada seca e amarga, dando dois passos lentos na direção de Stephanie, encurralando a executiva contra a estante. - Você chama o que fez de negociação? Você me chantageou! Você usou a água do vale como moeda de troca porque sabia que eu estava no limite! E quando viu que não podia me comprar com os seus contratos, tentou me comprar na calçada daquele seu prédio!

- Eu não tentei te comprar! - Stephanie gritou, a voz embargada, os olhos marejando repentinamente de uma raiva fria e desesperada. - Eu quis você, sua idiota! Eu quis você desde o primeiro segundo em que te vi, aqui, neste rancho, com essa sua postura de durona, com esse olhar de quem carrega o mundo nas costas! Eu não precisei de estratégia nenhuma naquela noite! Tudo o que eu fiz... o vinho, as conversas, o toque... foi a primeira coisa real e não calculada que eu fiz em anos nesta minha droga de vida!

Jane parou a poucos centímetros do corpo de Stephanie. As palavras da executiva atingiram-na no peito com a força de um impacto físico. O silêncio que se seguiu na sala era tão denso que o único som audível era a respiração descontrolada e entrecortada das duas mulheres.

- Você está mentindo - sussurrou Jane, embora sua própria voz traísse a incerteza que a corroía por dentro. - Você é uma manipuladora, Stephanie. Você faz isso para vencer a qualquer custo.

- Minto? - Stephanie deu um passo à frente, colando o peito ao de Jane. O calor que emanava do corpo da executiva era avassalador, impregnado pelo aroma de álcool e a fragrância de seu perfume. - Então olhe para mim, Jane. Olhe para mim e diga que eu estou mentindo. Diga que você não sentiu nada quando eu te beijei. Diga que você não me queria tanto quanto eu queria você.

- Eu odeio você - Jane rosnou, os dentes cerrados, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo, lutando contra o tremor que ameaçava tomar conta de seus braços. - Odeio o que você representa. Odeio o que você está fazendo com o meu rancho, odeio o jeito como você olha para mim como se eu fosse algo que você pudesse comprar para ostentar no catálogo da sua Holding...

- Odeia? - Stephanie baixou o queixo, o rosto a poucos milímetros do rosto de Jane, a respiração quente tocando os lábios da rancheira. - Então por que você não me coloca para fora? Por que seu corpo tremendo, Jane? Por que você está me olhando como se quisesse me devorar e não me matar?

- Cala a porr* da boca - Jane pediu, a voz falhando perigosamente.

- Me obrigue - provocou Stephanie, com uma ousadia suicida potencializada pelo álcool no sangue, os olhos fixos na boca de Jane. - Me obrigue a calar a boca, Jane. E negue o que está sentindo. Diga que foi a sua amiga que te fez sentir isso hoje. Diga que é ela quem você quer e não a mim. Seja honesta consi...

Stephanie não concluiu a frase.

A provocação foi a gota final sobre uma barreira prestes a romper.

A razão de Jane, já fragilizada pelo cansaço, pelas bebidas e pelo estresse acumulado de semanas de preocupação financeira, desmoronou por completo. A raiva, o ciúme meio distorcido, meio incompreendido, o ressentimento e uma atração física violenta e reprimida fundiram-se em um único impulso incontrolável.

Jane avançou. Suas mãos agarraram a gola da blusa de seda de Stephanie com força, puxando a executiva para a frente enquanto a prensava com força contra a parede de madeira da sala. Um gemido abafado de surpresa escapou da garganta de Stephanie quando suas costas se chocaram contra as tábuas, mas antes que ela pudesse articular qualquer palavra, a boca de Jane tomou a sua em um beijo quente.

Não havia doçura ou hesitação. Foi um choque de dentes, carne e ressentimento acumulado.

O gosto de uísque caro e cerveja barata misturados, a quentura da língua de Stephanie respondendo imediatamente com uma fome desesperada, o som das respirações entrecortadas preenchendo a sala escura, Stephanie soltou um suspiro sufocado contra os lábios de Jane, suas mãos subindo rapidamente pelas costas da rancheira, enfiando os dedos pelos cabelos castanhos de Jane e puxando-a para mais perto, como se tentasse fundir seus corpos.

Jane prensou o quadril contra o de Stephanie, sentindo a maciez e a entrega imediata da mulher que considerava sua pior inimiga. Seus dedos apertaram a seda da blusa, rasgando levemente uma das costuras no ombro enquanto a puxava com mais força. O beijo aprofundou-se, selvagem e desalinhado, movido pela raiva de semanas de silêncio, pelo orgulho ferido e por um desejo insaciável que nenhuma das duas conseguia mais mascarar sob a fachada da guerra comercial travada por ambas.

O mundo lá fora, a seca no Vale do Loup, o canal de irrigação fechado e as dívidas do Rancho Brown, desapareceu por completo na semiescuridão daquela sala, consumido pelo fogo crescente de desejo daquelas duas mulheres engalfinhadas no limiar entre o ódio e a paixão.

 

Fim do capítulo


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Comentários para 14 - Capitulo 14 - O Jogo da Paixão:
HelOliveira
HelOliveira

Em: 23/08/2026

Uauuu muito bom....agora já quero ver o depois 

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