Capítulo 42
"A verdade raramente se revela inteira; ela se esconde em silêncios, em olhares e nas partes que escolhemos não contar." - Autor desconhecido
Diana ficou surpresa ao ver Dr. Mário Alcântara na sala. Eles já haviam se encontrado antes, em circunstâncias tensas, quando Diana estava passeando pela fazenda e o encontrou no local onde o corpo do Dr Otávio havia sido encontrado anos atrás. A lembrança daquele diálogo pesado voltou imediatamente à sua mente.
Mas agora, Diana sabia que ele não estava ali por confronto. Estava ali por Carol, sua neta, filha de Otávio. Carol já havia lhe dito que o avô queria conversar pessoalmente sobre as alegações de que Dário fora injustamente condenado pela morte de Otávio.
O clima pesou. Rico e Brito ficaram surpresos, desconfiados. Lavínia, por sua vez, reconheceu de imediato o homem das investigações que vinha conduzindo.
Rico tomou a frente, a voz carregada de raiva:
- O que o senhor está fazendo aqui?
Dr. Mário olhou para ele e sorriu, como se reconhecesse algo familiar.
- Você parece com seu pai, meu jovem. Apesar da sua aparente raiva, eu gostaria de falar com sua irmã. É com ela que tenho que acertar alguns pontos.
Rico retrucou, ríspido:
- Minha irmã não tem nada o que falar com o senhor.
Diana interveio, firme:
- Calma, Rico. - E voltou-se para Dr. Mário. - O que o senhor quer aqui?
- Diana, há semanas falei com Ana Carolina que gostaria de conversar com você. Acredito que ela tenha lhe falado sobre isso.
- Sim, ela me falou.
- Você não foi até a minha fazenda...
Rico não deixou ele terminar:
- Ela não perdeu nada naquela fazenda! Por que minha irmã iria até lá?
Dr. Mário ergueu a mão, pedindo calma.
- Jovem, calma! Como ela não foi, eu vim até ela. Podemos conversar em particular, Diana?
Diana respirou fundo, hesitante, mas assentiu.
- Me siga, por favor, Dr. Mário.
Rico ficou furioso. O sangue lhe subiu ao rosto ao perceber que Diana aceitava conversar sem sequer mencionar sua presença.
Brito, já cansado das crises do rapaz, explodiu:
- Pare com isso! Diana está envolvida com a neta dele. Conversar em particular com o Dr. Mário não quer dizer que ela esteja te deixando de lado. Quando você vai crescer? Deixar de ser mimado? Chega!
Rico rangeu os dentes, ainda mais tomado pela raiva. Sem dizer mais nada, saiu da casa esbravejando, atravessou o corredor e foi até os escritórios, batendo a porta com força.
O silêncio que ficou no ambiente era pesado. Lavínia ao lado de Brito apenas balançou a cabeça negativamente.
Diana conduziu Dr. Mário até o escritório. O mesmo espaço onde, há pouco tempo, estivera com Dona Iolanda. O ambiente parecia carregar ainda o peso das lágrimas da avó, e agora seria palco de mais uma conversa difícil.
Eles se sentaram frente a frente. O silêncio durou alguns minutos, como se ambos precisassem reunir forças para começar.
Diana encarava o homem com desconfiança. As lembranças eram amargas: o dia em que ele esteve ali ameaçando seu pai, e depois quando voltou para expulsar sua mãe e ela, ainda criança, da fazenda. Foram anos odiando aquele homem. Mas por amor a Ana Carolina, sua neta, ela iria ao menos tentar conversar e conviver com ele da melhor maneira possível.
Dr. Mário foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Obrigado por me receber, Diana. Sei que não é fácil para você me ver aqui.
Diana manteve o olhar firme.
- O senhor tem razão. Não é fácil. Mas eu sei que está aqui por Carol.
Ele assentiu, com um leve sorriso triste.
- Sim. Carol, minha neta, filha de Otávio. Ela me falou sobre..., sobre suas investigações... e sobre suas alegações de que Dário foi injustamente condenado pela morte do meu filho. Eu precisava ouvir isso de você, diretamente.
Diana respirou fundo, tentando controlar a raiva que ainda sentia.
- Eu não tenho alegações, Dr. Mário. Eu tenho convicção. Meu pai não matou Otávio.
Dr. Mário a observou em silêncio por alguns segundos, como se buscasse ler cada traço de sua expressão.
- Você fala com firmeza... como Dário falava. Lembro de você criança me enfrentando...
Diana estreitou os olhos.
- Não compare. O senhor sabe muito bem o que fez comigo e com minha mãe.
- Eu sei. - Mário suspirou. - E não estou aqui para negar o que fiz. Eu estava tomado pela dor, pela raiva... e pela pressão da família. Mas hoje, com o tempo, eu quero entender. Quero ouvir o que você tem a dizer.
Diana cruzou os braços, ainda desconfiada.
- E por que agora?
- Porque Carol acredita em você. - Ele respondeu sem hesitar. - E eu confio nela. Se ela vê verdade no que você diz, eu preciso ao menos escutar.
O silêncio voltou a se instalar por alguns instantes. Diana sentia o coração pesado, mas também sabia que aquela era uma oportunidade única.
- Então vamos conversar. - disse, firme. - Mas saiba que eu não esqueci nada do que aconteceu.
Dr. Mário inclinou a cabeça, respeitoso.
- Eu não espero que esqueça. Só espero que me permita ouvir.
O silêncio seguiu tenso por alguns instantes até que Dr. Mário disse: - Fale, Diana. Suas convicções, como você mesma disse... estou aqui para ouvir.
Diana fechou os olhos, respirou fundo e respondeu: - Antes de falar, gostaria de saber se o senhor nunca pensou no que fez comigo e com minha mãe?
Dr. Mário baixou a cabeça, olhou para ela e disse:
- Eu não me orgulho do que fiz. Como já disse, não vou negar ou mentir. Realmente não me orgulho. Durante alguns anos me perguntei o que aconteceu com vocês duas. Sua mãe estava grávida quando saíram de Nova Esperança...
- Saímos não, fomos expulsos pelo senhor! - retrucou Diana, brava, sem conseguir conter-se.
- Sim... Eu deveria ter agido de outra maneira. Mas, como disse, a raiva, a dor, o desejo de vingança contra sua família me fizeram agir... me fizeram agir como um canalha.
- Continue... - disse Diana, firme.
- Eu imaginava que a família do seu pai ou até mesmo a da sua mãe fosse dar guarida a vocês duas. Apenas semanas depois é que soube que não foi como havia imaginado. Todos viraram as costas para vocês.
- O senhor tem ideia do que passamos?
- Não. Não tenho, Diana. A única coisa que posso fazer é pedir perdão por isso. Mas confesso: mudaria a forma como fiz, não agiria daquele jeito. Porém, não deixaria vocês aqui. Me perdoe pela franqueza, mas é algo que não mudaria.
- Então seu perdão...
- O meu pedido de perdão é por ter jogado você e sua mãe na rua da maneira que fiz. Apenas isso.
- Um perdão seletivo, então?
- Não, Diana. Apenas maneiras diferentes de ver a mesma situação. Não sou o monstro que você pensa. Mas tenho certeza de que você não vai acreditar nisso, depois de todos esses anos e das situações que passou ao sair daqui.
Diana respirou fundo, encarando-o com firmeza.
- O senhor está falando a verdade agora.
Dr. Mário inclinou a cabeça.
- Então não vamos perder mais tempo. Por que deveria acreditar que seu pai não matou o meu filho?
Diana se ajeitou na cadeira, o olhar firme e carregado de convicção.
- Porque a investigação foi falha. Testemunhas foram compradas, versões manipuladas. Pessoas que tinham motivos para odiar meu pai se aproveitaram da tragédia para incriminá-lo. Não havia provas sólidas, apenas conveniências.
Dr. Mário estreitou os olhos, atento.
- Quem teria interesse em incriminar Dário?
Diana não respondeu. Não queria entregar o ouro ao inimigo.
- Até agora o que você falou, parece muito mais uma tentativa desesperada de uma filha que deseja provar a inocência do pai. Provas Diana, eu quero provas! Não esqueça de que vivenciei tudo. Todas as provas levaram até o seu pai, eu não comprei ou me aproveitei de algo para incriminar o seu pai.
Diana olhava para Dr Mario com raiva.
- Se não acredita em nada do que falei, porque veio até aqui?
- Não é questão de acreditar Diana! Cheguei a duvidar que seu pai tinha matado o meu filho? Sim. Eles eram melhores amigos, Otávio em nenhum momento falou sobre alguma discussão com seu pai. Mas, essa dúvida passou com as provas colhidas, com a arma encontrada aqui nessa fazenda, com as digitais do seu pai. Pela raiva que sua família nutre pela minha há anos e anos. Então para que eu deixe de acreditar na verdade que me for apresentada, quero provas e não devaneios de uma menina que busca a inocência do pai, numa fantasia juvenil.
- Fantasia juvenil? Não é fantasia Dra Mário. É a verdade!
- Como disse antes, prove.
Diana então pegou alguns papeis e jogou no colo do dr Mário, alguns documentos que Lavínia havia achado, inconsistências processuais, furos em depoimentos.
Dr. Mário folheava os documentos lentamente, cada linha parecia pesar sobre seus ombros. O silêncio era cortado apenas pelo som das páginas sendo viradas.
- Inconsistências processuais... - murmurou, franzindo o cenho. - Depoimentos contraditórios... testemunhas que mudaram versões...
Diana se inclinou para frente, firme:
- Isso não é fantasia, Dr. Mário. É a prova de que meu pai foi condenado por conveniência, não por justiça.
Ele ergueu os olhos para ela, sério.
- Quem lhe deu acesso a isso?
- Lavínia. - respondeu sem hesitar. - Ela está investigando há semanas. E cada vez que encontramos um detalhe, fica mais claro que tudo foi manipulado.
Dr. Mário respirou fundo, apoiando os papéis sobre a mesa.
- Se isso for verdade... então não apenas Dário foi injustiçado, mas eu também fui enganado.
- O senhor foi cúmplice. - retrucou Diana, dura. - Mesmo que não tenha comprado testemunhas, aceitou o que lhe entregaram sem questionar.
Ele fechou os olhos por um instante, como se buscasse forças.
- Apenas esses papeis não provam que seu pai não matou o meu filho. Essas inconsistências, elas podem ser fabricadas por você, não é mesmo?
- Quem tem o hábito de sumir ou forjar documentos, não sou eu Dr Mário.
- Do que você está falando Diana?
- Meu pai e o Dr Otávio eram sócios, onde estão esses documentos? Restou apenas documentos que diziam que havia uma dívida do meu pai. Não acha isso estranho?
- Eu nunca forjei documento algum. Esses documentos que você está falando, estavam no meu escritório lá na fazenda, no cofre guardado por Otávio.
- Conveniente, não?
Dr Mário olhou para Diana, ele não poderia negar que simpatizava com a jovem.
- Não é conveniência Diana, é a verdade, apenas isso. Você pode me acusar de ter sido um canalha com você e sua mãe ao expulsa-las destas terras. Pode até me odiar, mas, uma coisa que eu nunca fui é mentiroso. Os documentos estavam guardados no cofre do Otávio.
Diana respirou fundo. Sempre odiou aquele homem que estava a sua frente. Planejou inúmeras vinganças, dezenas de vezes sonhou com o momento em que atiraria na cara dele a inocência de seu pai. E agora estava namorando a neta dele, recebendo-o em sua casa...
- Diana? DIANA!
- O que?
- Me desculpe! Mas, você...
- Não... o que o senhor perguntou?
- O que mais você tem Diana? Eu gostaria de ver e... E talvez você tenha razão. Eu estava cego pela dor. Pela raiva e se há falhas, eu quero ver todas. Quero entender tudo o que aconteceu. Se fui manipulado....
Diana manteve o olhar firme.
- Então olhe bem, Dr. Mário. Porque a verdade está aqui. E não vai ficar escondida por muito mais tempo. E outra coisa, não é SE houve manipulação, eu tenho certeza que houve manipulação.
- Por quem e porque? - Dr Mário perguntou.
- Isso eu vou descobrir. Pode ter certeza, vou provar a inocência do meu pai e colocar quem matou o seu filho na cadeia. E quando descobrir quem fez isso, ele também vai pagar pela morte do meu pai.
Dr. Mário folheava os documentos, mas seus olhos não se fixavam apenas nas linhas. Ele levantou o olhar e encarou Diana, com uma expressão desconfiada.
- Você está me mostrando parte da história... mas não toda. - disse, pausadamente. - Está escondendo algo, não está?
Diana manteve o silêncio por alguns segundos, depois respondeu com firmeza:
- Eu não tenho obrigação de lhe entregar nada, estou fazendo isso por Ana Carolina
- Não... - ele concordou, pensativo. - Mas é curioso. Você fala com tanta convicção, e ainda assim guarda as informações importantes. Isso me faz pensar que há algo maior por trás.
Diana cruzou os braços, firme.
- Há coisas que não posso dizer agora. Não confio no senhor o suficiente.
Dr. Mário respirou fundo, apoiando os papéis sobre a mesa.
- Justo. Também não confio em você. Mas saiba que eu reconheço quando alguém está segurando cartas. E você está.
- Talvez. - retrucou Diana. - Mas não é por medo. É por estratégia.
Ele a observou em silêncio, como se tentasse decifrar cada gesto.
- Então você pretende me usar, é isso?
- Pretendo usar a verdade. - respondeu Diana, firme. - Se o senhor realmente quer saber, terá que esperar.
Dr. Mário inclinou-se para frente, a voz mais baixa, quase um sussurro:
- Eu já fui enganado uma vez, ao que parece ou você acredita. Não quero ser enganado de novo.
Diana manteve o olhar fixo nele.
- Então prove que não está aqui apenas como o homem que expulsou minha mãe e me deixou na rua. Prove que pode ser diferente.
O silêncio voltou a pesar no escritório. Dr. Mário recostou-se na cadeira, pensativo, e pela primeira vez parecia mais vulnerável do que imponente.
Fim do capítulo

jake
31/08/2026 às 08:13
Eita oque será que vem por aí????
Melhoras autora.