Capítulo 43

Capitulo 43

de Sob as Sombras de Nova Esperança, por Dinha Lins

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Capítulo 43

"A raiva é um fogo que consome primeiro quem a carrega, antes de atingir quem está ao redor." - Autor Desconhecido

 

Enquanto Diana conversava com Dr. Mário no escritório de casa, Rico saiu batendo a porta e foi até os novos escritórios que haviam sido construídos para abrigar toda a parte administrativa e também funcional da fazenda. O local reunia não apenas a área administrativa, mas também estábulos, a veterinária e ambientes para maquinários agrícolas

Rico caminhava rápido, falando sozinho, reclamando da presença de Dr. Mário na fazenda e, principalmente, porque Diana o recebeu sozinha. Ele queria estar presente, queria ser parte daquilo.

- Ele destruiu nossa família! Expulsou mamãe, humilhou papai... e agora Diana se senta frente a frente com ele, como se fosse possível esquecer tudo isso. Nossa avó aparece e logo em seguida esse homem, não consigo entender como a Diana quer agir... Ela prometeu não me deixar de lado, e na primeira oportunidade me joga pra escanteio. Isso é errado! Está errado! - Ele murmurava durante todo o caminho.

Ao chegar nos escritórios, esbarrou em Liz, que estava com Jairo e Márcio. Eles conversavam sobre as análises de alguns cultivos que Liz havia começado, além de novos experimentos que ela desejava conduzir em áreas específicas da fazenda. Liz carregava alguns papéis nas mãos, que caíram ao chão com o impacto.

- Rico! - reclamou Liz, surpresa. - Você não vai pedir desculpas? Parece até que o mundo está acabando. Está acontecendo alguma coisa?

- O que está acontecendo é o de sempre, Liz! O de sempre! E desculpa ai... - Ele se virou para seguir o caminho.

Jairo e Márcio trocaram olhares e murmuraram baixinho:

- Ele é bem diferente de Diana... muito esquentadinho.

Rico ouviu e se virou com raiva:

- O que você disse?

- Que você está desculpado! - Liz respondeu rápido, tentando evitar confusão.

- Já não basta a Diana resolveu receber o Dr. Mário para uma conversa. Logo ele aqui... aquele...

- Rico! - Liz o interrompeu com medo que ele falasse demais.

- Mas o Dr. Mário é vizinho da fazenda... - Jairo disse olhando para os dois.

- Sim, sim... não é nada demais uma visita para conhecer. Até porque Diana ainda não é conhecida pelos vizinhos. - Liz completou, tentando remediar a situação.

Rico se virou com raiva e entrou em sua sala, batendo a porta com força. Liz deixou os papéis com Jairo e Márcio e foi atrás dele.

Quando abriu a porta, eles ainda ouviram Rico desabafar, a voz carregada de rancor:

- Como ela pôde? Como Diana pôde receber aquele homem aqui, no escritório, como se fosse alguém digno de confiança? Até pouco tempo atrás ela odiava o desgraçado...

Liz entrou, fechou a porta atrás de si.

Jairo e Márcio se entreolharam. Márcio, então pediu para Jairo ir até o galpão enquanto ele iria pegar o carro para eles irem até o local que Liz indicou. Quando o amigo saiu, ele se aproximou da porta para tentar ouvir a conversa.

Dentro da sala Liz encarava Rico.

- Rico, você precisa se acalmar.

- Me acalmar? Ela recebe o aquele homem aqui e eu que preciso me acalmar?

- Sim. Essa fúria, essa raiva descontrolada e descabida só vai te cegar!

Ele se virou, os olhos ardendo de fúria.

- Cegar? Eu estou vendo mais claro do que nunca, Liz!

- E o que você está vendo Ricardo?

- Estou vendo minha irmã me afastando novamente. Ela Sempre me da um jeito de me deixar de lado, como se eu não tivesse importância.

- De novo essa história? Vocês não tinham conversado e se acertado?

- Sim, então porque ela aceitou conversar com aquele homem sozinha e não me deixou ir junto?

- Talvez porque ele seja o avô da namorada dela? Você já pensou nisso?

- Namorada?

- Sim, Rico, namorada...

- Até isso? A Diana não me disse nada! Tá vendo?

Liz respirou fundo, encarando Rico com firmeza disse:

- Ela não teve oportunidade, até porque é recente...

Ele riu com ironia, balançando a cabeça.

- Namoro recente... engraçado você falar isso. Tão recente que você sabe, não é? Se bem que vocês sumiram juntas ontem a noite, ou melhor passaram a noite fora. Ela com a namorada e você Liz?

- Eu?

- Sim, onde você esteve? Ou melhor com quem passou a noite?

Liz estreitou os olhos, incomodada.

- Isso não tem nada a ver com você. E eu não vou responder.

Rico se aproximou, a voz carregada de ciúmes.

- Desde que ficamos no rancho sete, eu notei que você vem se afastando de mim. O que eu fiz de errado com você?

Liz suspirou, vinha evitando essa conversa há algumas semanas.

- Nada, Rico. Absolutamente nada. Eu só quero que a nossa amizade continue sendo amizade.

Ele deu mais um passo em direção a ela, o olhar fixo.

- Você passou a noite com a médica?

Liz baixou a cabeça, sem responder. Rico se afastou alguns passos, nervoso.

- Responde Liz! Ou o silencio é a sua resposta? Eu te pedi uma chance, nós ficamos, eu sei que o que temos nunca foi sério, um namoro...

- Rico, não é nada disso. Eu apenas....

- Apenas o que Liz? Você nunca gostou de mulher!

- Rico!! - Liz levantou o rosto, firme. - Olha o que você está falando! Pelo amor de Deus!

- Eu não estou sendo homofóbico. - retrucou Rico, rápido. - Até porque eu tenho uma irmã lésbica. Mas você e eu... nós já ficamos outras vezes. Eu nunca te vi com nenhuma mulher. É só isso que eu estou dizendo.

Liz mordeu os lábios e respirou fundo tentando controlar a raiva que estava sentindo.

- Eu não vou responder a essa questão. E você não tem nada a ver com a minha vida.

- Como não? Era comigo que você estava! Não é possível que de uma hora para outra, o que você dizia sentir por mim tenha passado!

- Poxa Rico! Olha a maneira que você está falando! A gente nunca teve um compromisso. Eram ficadas, você nunca me levou a sério! Nós nunca tivemos nada sério, essa é a verdade!

Rico se aproximou de repente e a beijou. Liz o empurrou com força, o olhar cheio de indignação deu um tapa em seu rosto.

- Você perdeu o Juízo? Nunca mais faça isso comigo ou com qualquer outra mulher! - disse, com a voz firme e cortante. - Respeite a minha vontade, o meu corpo e o meu espaço.

Ela se virou para sair, mas Rico, tomado pelo arrependimento, murmurou:

- Liz... me desculpa.

Liz parou por um instante na porta, sem olhar para trás.

- Aprenda a se controlar, Rico. Ou vai perder todos que ainda se importam com você. E quanto a desculpar você, agora não. Espero que você repense suas atitudes que ultimamente vem deixando e muito a desejar.

Enquanto Liz deixava Rico sozinho, tomado pela culpa e pela raiva, o silêncio pesado ainda pairava no escritório principal. Diana e Dr. Mário permaneciam frente a frente, cercados por documentos que pareciam gritar verdades escondidas.

Dr. Mário se levantou, caminhando pelo espaço com passos lentos, como se cada linha que havia lido pesasse sobre seus ombros. Diana, sentada na poltrona, observava em silêncio. Um sorriso discreto escapou de seus lábios - não de alegria, mas de satisfação amarga. Pela primeira vez, percebia que havia conseguido abalar o homem que por anos fora a personificação de sua dor.

Ele se virou e a encarou. - Por que o sorriso, Diana?

- Eu fiz o senhor pensar, não foi? Está pensando que condenou um homem inocente... o meu pai.

Dr. Mário estreitou os olhos.

- Não estou convencido. Você pode muito...

- Eu não posso nada, Dr. Mário. - retrucou Diana, firme. - O que o senhor tem nas mãos é real. Meu pai foi preso, julgado e condenado em um processo cheio de falhas, com testemunhas compradas, com um júri parcial. Essa é a verdade. E eu vou provar, pode ter certeza.

Dr. Mário suspirou e voltou a se sentar diante dela. Baixou os olhos e, ao levantá-los, estavam marejados.

- Se isso for verdade, Diana... o assassino do meu filho...

- O seu filho não foi o único a ser assassinado, Dr. Mário. - disse Diana, com a voz firme. - O meu pai também foi morto na prisão. Um homem inocente foi assassinado a mando de alguém.

Ele a encarou, sério.

- Pergunte, Diana. Já imagino... mas quero ouvir da sua boca.

- Foi o senhor que mandou matar o meu pai?

Dr. Mário respirou fundo, e com a voz grave respondeu:

- Não. Por mais ódio que eu tivesse dele na época, eu não sou um assassino. O sangue do seu pai não corre em minhas mãos. Eu não mandei, nem sugeri que alguém fizesse isso.

Diana engoliu seco, hesitante.

- Eu vou acreditar no senhor.

O silêncio se instalou. Eles se encararam por longos minutos, os olhares pesados, como se cada um tentasse atravessar a alma do outro.

Por fim, Dr. Mário falou:

- Eu não estou cem por cento convencido... mas essa desconfiança já basta. Eu vou investigar mais a fundo. Quero descobrir a verdade, custe o que custar.

Diana manteve o olhar firme, sem responder. Apenas observava o homem que, pela primeira vez, parecia disposto a enfrentar um passado que ele pensava já estar resolvido.

Ele se levantou, guardou os papéis, entregou a Diana e caminhou até a porta do escritório em silêncio.

O silêncio entre eles foi natural, na sala estavam Brito, Lavínia e Mariana, esperavam pelo desfecho da conversa. Diana o acompanhou até a varanda.

Dr. Mário desceu as escada e entrou em seu carro, mas antes de partir, olhou novamente para Diana. Seus olhos marejados encontraram os dela, e ele fez um gesto breve, quase imperceptível, de reconhecimento.

Diana permaneceu imóvel, observando o carro se afastar pela estrada da fazenda. O coração batia forte: pela primeira vez, sentia que a verdade estava prestes a emergir das sombras.

Diana voltou à sala e encontrou Brito, Lavínia e Mariana à sua espera. O ambiente ainda carregava o peso da conversa com Dr. Mário.

- Onde está o Rico? - perguntou, olhando em volta.

Brito suspirou, já cansado das explosões do rapaz.

- Saiu bravo, reclamando de tudo.

Diana balançou a cabeça, como quem já previa o que viria.

- Depois eu converso com ele. Já sei que virão questionamentos...

Lavínia se adiantou, firme:

- Deixa o Rico pra lá. Fala logo o que o Dr. Mário queria com você.

Diana respirou fundo e fez um gesto para que todos a acompanhassem até o escritório. Ao chegarem, ela se sentou e começou a explicar.

- Ele veio por causa da Carol. Queria ouvir de mim sobre as investigações, sobre a condenação do meu pai. Eu mostrei algumas provas, inconsistências no processo, depoimentos contraditórios... e pela primeira vez eu vi dúvida nos olhos dele.

Lavínia arqueou as sobrancelhas.

- Você mostrou todas as provas?

- Não. - respondeu Diana, firme. - Apenas algumas.

Ela abriu a pasta e mostrou os papéis que havia entregado a Dr. Mário. Lavínia sorriu, Brito assentiu com satisfação, e Mariana não conteve uma gargalhada.

- Você foi muito esperta, Diana!

Diana fechou a pasta com decisão.

- Eu não iria entregar o ouro ao bandido. Dr. Mário ainda tem algumas contas a acertar comigo.

O silêncio tomou conta por alguns segundos, mas dessa vez não era pesado - era cúmplice. Todos sabiam que Diana estava jogando com estratégia, e que a verdade, pouco a pouco, começava a se revelar.

Enquanto todos estavam no escritório, Márcio observava de longe a saída de Dr. Mário da fazenda. Se afastou alguns passos e ligou para alguém.

- Oi... eu sei, calma. Tenho algumas novidades.

Do outro lado da linha, o silêncio foi quebrado por um questionamento ríspido:

- Que novidades eram tão importantes para ele ligar naquele horário, sem combinar nada?

- O Dr. Mário estava aqui na fazenda conversando com a Dona Diana. Sim, isso mesmo que o senhor ouviu. E tem mais: o irmão dela não gostou nem um pouco disso. Estava bastante bravo, deu pra ouvir algumas coisas... falou que ela odiava ele pelo passado.

- Passado? Tem certeza disso? - a voz soou firme.

- Sim, senhor. E tem mais... ela e a Dra. Ana Carolina estão namorando.

Houve uma pausa, seguida de uma ordem seca:

- Assim que puder, venha me encontrar pessoalmente.

- Sim, senhor!

Márcio desligou o telefone rapidamente, mas ao virar viu Liz se aproximando.

- Márcio? Cadê o Jairo?

Ele engoliu seco, nervoso, sem saber direito o que responder.

- Eu... eu precisei atender o telefone. Ele foi pro galpão e eu vou... vou ver as máquinas que a doutora pediu.

Liz o observou com desconfiança, mas não insistiu.

- Vá ajudar o Jairo. Logo mais à tarde nós vamos para o campo.

Nesse momento, o celular de Liz tocou. Ao ver o nome na tela, ela sorriu: era Alice.

- Pode ir, Márcio.

Ele saiu apressado, quase aliviado.

Liz atendeu o celular sorrindo.

- Oi, Alice...

Do outro lado, a voz veio doce e provocadora:

- Oi, marrentinha linda.

Liz riu, meio sem jeito.

- Estava pensando em você e resolvi ligar. Vai que minha marrentinha estivesse pensando em mim também...

- Você não perde tempo, né? Vai mesmo continuar me chamando de marrentinha?

- Marrentinha, lindinha... posso elencar vários nomes, sabia?

- Essa cantada, você deve usar com todas.

- Claro que não! Por quem me tomas, Liz? - Alice respondeu, divertida. - Quando a gente encontra alguém que faz a noite valer a pena, mesmo que seja dormir de conchinha e nada mais...

Liz mordeu o lábio, tentando disfarçar o rubor.

- Você fala desse jeito e eu fico sem graça.

- Sem graça nada. Por quê? - Alice insistiu, em tom de flerte. - Eu quero te ver de novo, dormir de conchinha de novo. Quem sabe a marrentinha até deixa eu beijar ela de novo também....

Liz lembra do beijo forçado por Rico, mas, balança a cabeça para não pensar mais nisso.

- Lindinha? Marrentinha? Ta ai ainda?

Liz respirou fundo, o coração acelerado.

- Eu também pensei em você... mas não sei se consigo repetir tão cedo. A fazenda está uma loucura.

Alice suspirou, mas manteve o tom leve.

- Então vamos fazer assim: você me avisa quando tiver um tempo. Eu não vou deixar você escapar, Liz. E qualquer coisa, peço pra Carol falar com a Diana para te liberar....

- Você é terrível. Nada de falar com a Carol....

- Terrível não... determinada. Sim, claro que vou falar com a Carol, tenho que usar meu poder de melhor amiga da namorada da sua patroa. - Alice brincou.

Liz sorriu, encantada.

- Como eu disse, terrível.... Lindamente terrível Dra Alice. O que diriam suas conquistas, ao saber que você que você ligou apenas algumas horas depois de tomar café da manhã....

- Olha só... estamos melhorando... Eu não sei o que elas diriam, mas, eu digo que passar a noite com você, tomar café da manhã foi é pouco, eu quero mais Liz. E não estou brincando...

- Alice... - Liz sussurra - Assim, vou acreditar que sou realmente especia, sabia?

- Acredite! Você é especial, uma marrentinha bem especial. Mas agora preciso ir, me chamaram para atender um caso urgente.

- Tudo bem. Se cuida.

- Você também. E não esquece: eu quero repetir nossa noite.

Liz desligou ainda sorrindo, sentindo-se leve, como se tivesse respirado um ar diferente em meio ao peso da fazenda.

Liz seguiu para a casa grande e foi direto à cozinha. Encontrou Tita arrumando algumas coisas, mas o semblante dela não era de animação - havia preocupação em seus olhos.

- Essa fazenda está movimentada demais... - murmurou Tita, quase em tom de alerta. - O Dr. Mário esteve aqui, conversou bastante com a Diana.

Liz, que bebia água, engasgou-se ao ouvir o nome. - O quê? O Dr. Mário... aqui?

Tita assentiu, séria. - Eu lembro bem da última vez que ele apareceu. Não foi coisa boa. E mesmo sem ter certeza, eu sinto... sinto que há uma verdade escondida. Essa menina, Diana... ela carrega algo que me faz lembrar Dário e Sandra.

Liz ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo aquelas palavras. Depois, sem perder tempo, seguiu direto para o escritório. Bateu à porta e entrou.

Lá estavam Diana, Brito, Lavínia e Mariana, ainda reunidos. - A Tita me falou que o Dr. Mário esteve aqui.

Diana a encarou e respondeu com calma: - É verdade. Eu acabei mostrando a ele algumas coisas...

Liz cruzou os braços, intrigada. - O dia nem terminou e você já teve três grandes surpresas.

Brito franziu a testa. - Três? Como assim?

Liz enumerou, olhando para cada um deles: - Primeiro, o encontro com a irmã da Dona Sandra onde tomamos o café da manhã, ao chegar aqui a visita da sua avó e em terceiro o Dr Mário ,

Brito se inclinou para frente.

- Ela, a sua tia reconheceu você, Diana?

- Não. - respondeu Diana. - Mas o nome e o sobrenome... deve ter levantado alguma suspeita para ela.

- Entendi... devemos nos preocupar? - Brito perguntou, sério.

- Não. Mais tarde, à noite, eu falo com minha mãe. Preciso de algumas informações sobre a família dela. Lavinia você pode já dá uma procura nisso também?

- Claro! Só me passa as informações.

Mariana se levantou, tentando quebrar o clima pesado.

- Bem, vamos almoçar? A manhã foi movimentada, mas os trabalhos não param aqui na fazenda, não é?

Todos se entreolharam, e por um instante o peso das revelações deu lugar à rotina inevitável. Mas no ar, pairava a certeza de que aquele almoço não seria apenas mais uma refeição - seria o momento em que cada um digeria, em silêncio, as verdades que começavam a se revelar.

 

 

 

Fim do capítulo

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