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Até o sol encontrar você por TabitaLima07

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Palavras: 4259
Acessos: 131   |  Postado em: 16/08/2026

Capitulo 4

Valentina

Às nove em ponto eu já estava na casa da Theo, dessa vez não fiquei parada dentro do carro criando coragem para entrar, o que considerando os últimos dias já é alguma coisa.

Marta abriu a porta antes mesmo de eu tocar a campainha.

- Bom dia querida. – Disse com um sorriso.

- Bom dia.

- Ela ainda está terminando uma ligação. – Diz me dando espaço para entrar.

Eu sorri.

- Imaginei.

Marta ri como quem já está acostumada.

- Café?

- Chá, se não for dar trabalho.

- Aqui nada dá trabalho querida, só a dona da casa.

Ri antes de conseguir controlar, Marta ri junto.

- Não deixe ela saber que disse isso.

- Meu sigilo profissional é impecável. – Sorri.

Passei pela sala indo direto para o escritório, a porta estava aberta, nós primeiro dias aquilo ainda me parecia estranho, pelo pouco que eu já conhecia da Theo, uma porta aberta era mais do que uma simples porta aberta.

Significava que ela tinha entrado ali, talvez por pouco tempo ou só para pegar alguma coisa, mas tinha entrado.

Eu gostava de pensar que aquilo é um começo, não que fosse da minha conta, o que definitivamente não era.

Coloquei minha bolsa sobre a poltrona e liguei o notebook, eu já tinha organizado quase toda a estante esquerda, havia separado alguns livros por gênero, identificado algumas primeiras edições, catalogado correspondências pessoais e criado uma pilha apenas com cadernos de anotações de Helena.

Os cadernos estavam me deixando curiosa, não porque eu tivesse lido algo que não deveria, mas porque pelo que pude perceber Helena escrevia em todo lugar até mesmo nas margens dos livros.

Às vezes uma frase solta ou uma lista de coisas para comprar que terminava com uma observação sobre algum autor ou música.

Era impossível passar tantos dias naquele cômodo sem começar a conhecer um pouco melhor a mulher que viveu ali.

E quanto mais eu conhecia Helena, mais difícil era compreender Theo, não porque fossem completamente diferentes, pelo contrário, algumas coisas eram obvias de mais.

A organização, a inteligência, o humor escondido em frases secas, a forma de como anotar tudo, mas Helena parecia ter vivido de portas abertas já Theo vivia trancado tudo, até a si mesma.

- Você começou sem mim.

A voz veio da porta, olhei para trás e encontrei Theo encostada no batente da porta segurando duas canecas. O cabelo estava solto, essa foi a primeira coisa que reparei, a segunda foi que aquilo não deveria ter chamado tanto minha atenção.

- Seu horário era as 9:00 – Respondi. – O meu também.

Ela entrou e colocou uma das canecas ao meu lado.

- Chá.

Olhai para a caneca, depois para ela.

- Você fez chá?

- Marta fez.

- Ah.

- Esta decepcionada?

- Um pouco.

Ela sorriu.

- Bebe antes que esfrie.

Peguei a caneca, reconheci só pelo cheiro, camomila com mel, exatamente como eu tinha pedido para Marta no dia anterior, olhei para Theo outra vez.

- Você lembrou.

Ela levou o próprio café à boca.

- Do que?

- Do chá.

- Foi a Marta.

-Claro.

- Você está insinuando alguma coisa?

- Jamais.

O canto da boca dela levantou, era estranho como eu já começava a reconhecer os sorrisos e Theo tinha vários, o educado que usava sempre que atendia alguém, o irônico, o sorriso curto que aparecia quando queria rir e não queria admitir e havia um raro o sorriso inteiro, esse eu tinha visto apenas duas vezes e ele era o que eu mais gostava, até mais do que eu deveria.

- O que está fazendo hoje? – Ela perguntou.

- Cartas e cadernos.

Ela ficou um pouco mais séria.

- Cartas?

- Só estou separando por datas e remetentes, não vou ler conteúdo pessoal sem necessidade.

- Certo.

- Se preferir posso colocar tudo em uma caixa e deixar para você.

- Eu não vou ler.

A resposta veio rápida e Theo percebeu, eu também.

- Então vou catalogar.

- Melhor.

Ela caminhou até a estante, passou os dedos pelas lombadas dos livros como se procurasse alguma coisa.

- Achou algo interessante?

- Depende do que você chama de interessante.

- Você é a editora, surpreenda-me.

Abri uma pasta.

- Sua mãe guardava praticamente tudo.

- Eu sei.

-Recibos de livrarias de quinze anos atrás.

- Isso parece com ela.

- Ingresso de shows.

Theo sorriu.

- Também.

- Uma lista de “livros que preciso obrigar minha filha a ler antes que ela fique completamente insuportável”.

Theo virou rápido.

- Está brincando.

Peguei a folha.

- Item um: Orgulho e Preconceito.

Ela estendeu a mão.

- Me dá isso.

Afastei.

- Item dois...

- Valentina.

- O Pequeno Príncipe.

- Eu vou te demitir.

- Item três...

Ela veio na minha direção, eu ri e dei a volta na escrivaninha.

- Cem Anos de Solidão.

- Você está abusando da confidencialidade.

- Isso é patrimônio histórico.

- Me dá.

- Tem uma anotação aqui.

Parei, ela também, olhei a folha.

“Se ela chegar aos trinta sem ler metade dessa lista, fracassei como mãe. ”

Theo ficou me olhando, depois soltou uma gargalhada, dessa vez de verdade. Abaixei a folha, era impossível não sorrir junto.

- Ela era dramática. – Disse.

- Acho que ela estava certa.

- Não começa.

- Quantos você leu?

Theo pensou.

- Dois.

- De quantos?

Olhei a lista.

- De vinte e sete.

Ela fez uma careta.

- Não é tão ruim.

-É péssimo.

- Eu trabalho.

- Pessoas que trabalham também leem.

- Eu leio contratos o dia todo.

- Isso não conta.

- Para o faturamento da empresa conta bastante.

Balancei a cabeça.

- Realmente um caso perdido.

Ela arrancou a folha da minha mão.

- Isso fica comigo.

- Tudo que te constrange fica com você?

- Exatamente.

Dobrou e colocou no bolso.

- Muito conveniente.

- A casa é minha.

- Essa frase de novo.

- Continua sendo verdade.

Voltamos ao trabalho, só que alguma coisa tinha mudado, talvez porque aquela tivesse sido a primeira vez que falamos de Helena sem parecer que estávamos pisando em ovos.

Theo continuou ali, não saiu nenhuma vez, não pegou o celular, só sentou na poltrona e abriu o notebook e por um tempo só trabalhamos juntas, ela no mundo dela e eu no meu. E aquilo começou a parecer estranhamente normal, foi quando encontrei a fotografia, estava dentro de um livro, pequena e antiga.

Duas meninas sentadas num banco, provavelmente adolescentes, uma delas era Helena, reconheci pelos olhos, a outra eu não conhecia, mas as duas estavam rindo, não para a câmera, mas uma para a outra.

Fiquei olhando por alguns segundos.

- Theo.

- Hum?

- Posso te mostrar uma coisa?

Ela fechou o notebook e veio até mim, lhe entreguei a fotografia e o rosto dela mudou.

- É minha mãe.

- Eu imaginei.

Theo aproximou a foto do rosto.

- Nuca vi essa.

- Sabe quem é a outra menina?

Ela demorou um pouco.

- Não.

Aquilo me chamou a atenção, pela expressão dela não era apenas uma amiga qualquer, tinha intimidade naquela fotografia, aquela coisa que não se cria para uma câmera.

- Deve ser algum da escola. – Theo disse.

- Talvez.

Ela virou a foto e no verso estava escrita uma data e uma frase...

“Até a gente conseguir. ”

Theo leu.

- Até conseguir o que?

- Não sei.

Peguei o livro onde encontrei.

- Estava aqui.

Ela olhou a capa.

- Minha mãe amava esse livro;

- Você leu?

- Não.

- Claro que não.

Ela me deu um olhar irritado.

- Você está ficando muito confortável dentro da minha casa.

- É culpa do chá.

O sorriso voltou, mas Theo continuava olhando para a fotografia.

- Quer que eu separe?

- Sim, por favor.

Coloquei em um envelope com a identificação e não pensamos mais naquilo, pelo menos foi o que achei.

Só muito tempo depois eu entenderia que aquela fotografia era a primeira peça de uma história que nenhuma de nos sabia que existia. Naquele momento era apenas Helena, uma menina, uma desconhecida ao lado dela e uma promessa sem explicação.

Perto do meio-dia Theo fechou o notebook.

- Preciso ir.

- Almoço?

- Sim.

- Você anda se alimentando bastante desde que comecei a trabalhar aqui.

Ela me olhou.

- Isso foi uma crítica?

- Foi uma contestação.

- Eu sempre comi.

- Claro.

- Você por acaso acha que eu sobrevivo de café?

Olhei para a caneca que já era a sua terceira só no tempo que estávamos juntas.

- Não vou responder.

Ela pegou a bolsa sobre a poltrona.

- Você fica até quando?

- Umas cinco.

- Marta vai sair depois das três hoje.

- Tudo bem.

Theo parou.

- Você vai ficar aqui sozinha?

- Tenho quase trinta anos Theo, acho que não preciso de uma babá.

- Não foi o que eu perguntei.

- Eu trabalho sozinha todos os dias.

Ela pareceu pensar.

- Se precisar de alguma coisa me liga.

Pisquei.

- Vou sobreviver.

- Não estou dizendo que não vá.

- Então porque está com essa cara?

- Que cara?

- A de quem está pensando se deve cancelar o almoço porque a editora ficará sozinha numa casa cheia de livros.

Ela soltou o ar pelo nariz.

- Você se acha muito engraçada né.

- Um pouco.

Theo caminhou até a porta.

- Tem comida na cozinha.

- Eu trouxe o meu almoço.

Ela parou.

- Trouxe?

- Sim.

- O que?

Comecei a rir.

- Porque quer saber?

- Curiosidade.

- Salada.

A expressão dela foi de puro desgosto.

- Isso não é almoço.

- Lá vem.

- Marta fez lasanha.

- Não.

- Você nem provou.

- Trouxe comida.

- Salada não é comida.

- Com frango.

- Continua não sendo comida.

- Vai para seu almoço Theo.

Ela começou a andar.

- Vou pedir para Marta deixar a lasanha quente para você.

- Eu não vou comer.

- Não perguntei.

- Mandona.

- Editora.

Ouvi a risada dela pelo corredor e fiquei sorrindo sozinha, só percebi alguns segundos depois e decidi que era melhor voltar para os livros. Não adiantou, meus pensamentos insistem em ir atrás dela, no modo como entrou naquela manhã com as duas canecas na mão, na lista de Helena, na gargalhada, no cuidado escondido em uma ordem para que eu comesse lasanha.

Não era apenas curiosidade, eu já sabia disso, o problema estava em descobrir o que era, porque fazia pouco tempo, pouquíssimo, ainda assim já começava a esperar pela voz dela atravessando o corredor.

Já sabia quando ela estava irritada só pelo jeito que ela fechava o notebook e que sempre que dizia “estou bem” normalmente queria dizer o contrário.

E o pior disso tudo é que eu queria saber, saber se tinha dormido, se tinha comido, o porquê odiava romances, porque o piano na sala parecia abandonado, porque a casa parecia guardar versões da Theo que nem ela parecia conhecer mais. Ficava repetindo que esse interesse era somente profissional.

Peguei meu celular, vi que tinha uma mensagem da Becca.

Becca: Almoço?

Olhei pra minha marmita dentro da bolsa, depois para a porta onde Marta acabou de entrar com uma bandeja com um prato de lasanha.

- A Dona Theo mandou. – Disse sorrindo.

Fechei os olhos e sacudi a cabeça.

- Claro que ela mandou.

- Quer que eu leve?

Olhei para a lasanha, suspirei.

- Pode deixar.

Marta sorriu.

- Eu sabia.

- Não conte para ela.

- Meu sigilo profissional é impecável.

Comecei a rir, ótimo, agora até a Marta está usando minhas frases. Comi a lasanha que por sinal estava maravilhosa.

Não mandei mensagem para Theo, mas pensei em mandar e talvez isso fosse pior.

 

Theodora

- Você está me ouvindo?

Ultimamente todo mundo parecia me fazer essa pergunta, olhei para Heitor do outro lado da mesa.

- Estou.

- Então responde.

- O quê?

Ele largou o garfo de forma irritado.

- Impressionante.

- Desculpa, o que você me perguntou?

- Se vai viajar com a gente no fim do mês.

- Para onde? – Perguntei erguendo a sobrancelha sem entender nada.

- Eu não acredito Theo.

Sorri.

- Agora estou ouvindo.

Ele me analisou por um tempo.

- Você anda mais distraída que o normal.

- Tenho trabalho. – Nem eu acreditava mais nessa desculpa.

- Nem vem.

- Mais é verdade.

- Eu conheço bem sua cara de trabalho e não é essa.

- Tenho uma cara específica agora? – Sorri.

- Você tem umas cinco caras diferente.

- Fascinante.

- O que está me intrigando é que essa aí não é nenhuma delas.

Voltei a comer ignorando sua última frase, o restaurante era barulhento e estava cheio, Patrícia e mais dois amigos estavam com a gente, eles discutiam sobre uma viagem para o litoral que, aparentemente, eu tinha prometido fazer semanas antes, mais não lembrava disso.

- Você vai – Patrícia disse.

- Pelo jeito vocês já decidiram.

- Você disse que iria.

- Então eu vou.

- Sem inventar reunião de última hora.

- Quando fiz isso? – Fiz minha melhor cara de indignada.

Todos me olharam.

- Certo, não respondam.

Rimos na hora, pois com toda certeza isso não era uma coisa difícil de acontecer.

Gostava daquilo, sempre gostei, das pessoas e seus barulhos, dos jantares que se prolongavam, das conversas que mudavam rápido, não era mentira quando dizia que gostava de estar cercada de pessoas.

O que ninguém entendia é que estar cercada de pessoas não quer dizer que eu deixava alguém se aproximar de verdade, era diferente, com pessoas ao redor o silêncio nunca ficava insuportável.

Eu podia rir, beber, ouvir os problemas que não eram os meus, dar conselho que eu mesma jamais seguiria e no fim voltar para casa cansada o bastante para quem sabe conseguir dormir e isso funcionava, quase sempre.

- E a mulher? – Patrícia perguntou.

Olhei para ela sem entender.

- Que mulher?

- Ah não.

Heitor começou a rir.

- Não faz isso.

- O quê?

- Essa cara de inocente.

- De quem vocês estão falando?

- Da editora – Ele respondeu.

Meu garfo parou no meio do caminho até minha boca.

- Como Patrícia sabe da editora?

- Eu contei.

- Por quê?

- Porque somos amigos e conversamos. – Deu de ombro.

- Sobre a minha vida?

- Sobre sua irritação.

Patrícia apoiou o queixo na mão e me olhou.

- E então?

- Então nada.

- Bonita?

Revirei os olhos.

- Vocês têm doze anos?

- Isso é um sim – Heitor disse.

- É só uma pessoa trabalhando na minha casa.

- E que aparentemente ocupa vinte por cento das suas conversas agora.

- Porque ela está mexendo nas coisas da minha mãe.

O clima na mesa mudou por meio segundo e eu odiava quando isso acontecia, aquela mudança no olhar, a pena chegando antes que alguém conseguisse esconder.

Sorri, tentando mudar o clima.

- Além de insuportável.

Adiantou, o clima voltou, mas Heitor percebeu, claro que percebeu, mas não falou nada.

- Disse a mulher igualmente insuportável. – Disse ele.

- Lembra que eu pago seu salário.

- Não paga o meu – Patrícia disse.

- Posso começar.

Ela riu e o assunto mudou, e era isso, um sorriso, uma piada e ninguém que olhasse fundo demais.

Peguei meu celular, nenhuma mensagem, não que estivesse esperando alguma. Mesmo assim abri a conversa com Marta e a última informação era que ela tinha deixado a lasanha no escritório e eu quase perguntei se Valentina tinha comido, não perguntei, só voltei a guardar o celular.

 - De novo – Heitor comentou.

- O que?

- Nada.

- Você está me irritando.

- Também gosto de você.

Depois do almoço voltei para a empresa onde tive uma reunião atrás da outra e duas horas depois e Valentina ainda não tinha atravessado meu pensamento nenhuma vez, ou era isso que eu dizia a mim mesma.

Tudo me lembrava ela, bastava entrar em alguma sala e encontrar um livro que lá vinha ela novamente, uma capa parecida com o livro que ela abraçou aquele dia e mais uma vez estava eu aqui repassando aquela cena e imediatamente abria um sorriso, ridículo, tão ridículo que fiquei irritada no meio de uma reunião.

- Algum problema? – Perguntou um dos diretores.

- Nenhum.

Sentei e a reunião continuou, alguns minutos depois percebi que estava sorrindo de novo, dessa vez sem motivo nenhum ou com um motivo bem especifico mais que me negava a admitir.

Cheguei em casa um pouco depois das seis, bem mais cedo que o normal.

Marta estava saindo.

- Boa noite.

- Valentina já foi?

A pergunta veio rápido demais, Marta me olhou e eu já sabia oq eu viria.

- O que foi?

- Nada.

- Para de sorrir.

- Não estou sorrindo.

- Está sim.

Ela pegou a bolsa.

- Ela foi embora a uns quarenta minutos atrás.

- Certo.

- Comeu a lasanha toda.

Olhei para ela.

- Eu não perguntei. – Mais queria ter perguntado.

- Eu sei.

- Boa noite Marta.

- Boa noite Theo.

A casa parecia quieta demais, eu queria gostar, depois de um dia cercada de pessoas e barulho o silêncio deveria ser bom, não era.

Fui até o escritório, a porta estava aberta, olhei tudo ao redor notando as novas modificações.

Tinha novas etiquetas nas estantes, caixas organizadas, uma pilha de cadernos catalogados e a cadeira que Valentina sempre ocupava vazia.

Parei por alguns segundos e percebi o quanto era estranho estar ali sem ela, nesses últimos dias eu tinha me acostumado a sempre entrar e encontra-la ali, com o cabelo preso, uma caneta na boca e alguma música tocando baixo.

E tê-la ali sempre vinha com perguntas demais, opiniões que ninguém pediu e agora não tinha ninguém, apenas um cômodo cheio de coisas da minha mãe.

A fotografia que encontramos esta manhã estava dentro de um envelope transparente sobre a mesa, peguei e olhei novamente. Minha mãe parecia tão jovem, tão feliz.

Olhei para a garota com ela na foto e não fazia ideia de quem era, li novamente a frase na parte de trás.

“Até a gente conseguir. ”

O que será que isso significava?

Coloquei a fotografia de volta e meu olhar caiu em outra coisa, um papel amarelo perto do notebook que Valentina tinha deixado carregando.

“A lasanha estava ótima, mas minha salada também estava, não se acostume. – V. “

Ri sozinha, peguei o celular, abri o contato dela e fiquei olhando. Afinal não tinha motivos para mandar mensagem, nenhum, mas ainda assim escrevi:

“Minha mãe tinha razão sobre uma coisa. “ Apaguei, o que diabos era isso? Tentei novamente.

“Marta disse que você terminou a estante. “ Muito profissional, enviei.

A resposta veio menos de um minuto depois.

Valentina: Duas estantes, respeita eu trabalho.

Sorri e respondi:

Eu: Impressionante.

Valentina: Também achei.

Eu: E comeu a minha comida.

Demorou alguns segundos

Valentina: sua?

Eu: Minha casa, minha comida.

Valentina: Então foi você que fez?

Olhei para a mensagem.

Eu: Claro.

A resposta veio quase que imediatamente.

Valentina: Mentir é muito feio.

Ri, sentei na cadeira da escrivaninha e continuei digitando.

Eu: Estava boa?

Valentina: Muito.

Eu: Sabia que ia gostar.

Valentina: Não fica convencida, amanhã volto para a minha salada.

Eu: Amanhã a Marta vai fazer escondidinho.

Os três pontinhos apareceram, sumiram e voltaram a aparecer.

Valentina: Você está tentando me subornar?

Pensei, talvez estivesse, só não sabia para quê.

Eu: Só estou evitando que você morra de tristeza comendo folhas.

A resposta demorou mais.

Valentina: Boa noite Theo.

Fiquei olhando, tinha alguma coisa diferente naquele boa noite ou talvez eu quisesse que tivesse.

Eu: Boa noite editora.

Bloquei o celular, dois minutos depois desbloqueei de novo, nenhuma resposta.

Ridículo, levantei e fui para a sala, meu celular tocou e atendi na hora.

- Oi.

- Milagre, atendeu no primeiro toque. – Heitor disse.

- O que você quer?

- Bar?

Olhei para o relógio.

- Hoje?

- Sim Theo, é assim que normalmente os convites funcionam.

Na hora pensei na casa vazia e respondi:

- Me manda o endereço.

- Sabia. – Comemorou.

- Não começa.

- Te espero em vinte minutos.

Desliguei e fui tomar um banho, me arrumei e quando estava saindo de casa estava sorrindo, e não era totalmente falso e talvez essa fosse a parte mais estranha.

O bar estava lotado, demorei um pouco mais encontrei Heitor, Patrícia e mais algumas pessoas numa mesa grande no fundo. Recebi abraços de todo mundo e uma bebida. Tinha duas histórias sendo contadas ao mesmo tempo e em poucos minutos estava rindo.

Gostava de estar com eles, isso nunca foi uma mentira, durante muito tempo pensei que minha solidão significava que as pessoas ao meu redor não eram suficientes e não era isso, talvez ninguém fosse capaz de preencher um espaço que eu mesma mantinha fechado.

Pedi outra bebida, em algum momento uma mulher sentou ao meu lado, Sofia, eu lembrava dela. Já tínhamos ficado algumas vezes, ela era bonita e divertida e o melhor de tudo não tinha expectativas de nada além.

Exatamente o tipo de relação que eu sabia manter.

- Sumida – Ela disse.

- Trabalhando muito.

- Sempre né.

- Você gosta de reclamar.

- Gosto de você.

Sorri, era tão simples quando alguém dizia aquilo sem peso, gostar podia significar uma noite, um jantar, uma mensagem quando dessa vontade, nada que pudesse realmente ser perdido.

Ela apoiou a mão na minha coxa.

- Vai fazer alguma coisa depois?

Antes, provavelmente nem pensaria para responder, mas dessa vez não.

Meu celular vibrou sobre a mesa, Valentina, uma foto.

Abri e era a capa de um livro, o mesmo que eu tinha criticado de manhã.

Valentina: Comecei. Vou provar que você estava errada.

Meu sorriso veio antes que pudesse impedir.

Eu: Você tem hobbies muito ruins.

Valentina: E você péssimo gosto literário.

Eu: Bom encontro com seu livro.

Valentina: Boa festa.

Parei.

Eu: Como sabe que estou em uma festa?

Demorou mais a resposta veio.

Valentina: Você sempre está em algum lugar barulhento quando responde à noite.

Fiquei olhando para a tela, ela tinha percebido.

Sofia tocou meu braço me trazendo de volta.

- Tudo bem?

Bloqueei o celular.

- Tudo.

- Quem era?

- Ninguém.

A palavra me incomodou assim que saiu da minha boca, Valentina não era ninguém, mas também não sabia o que era.

- Vamos? – Sofia perguntou.

Olhei para ela, depois para meu celular e no final para as pessoas ao redor. Não queria ir para casa sozinha, mas também não queria sair dali com Sofia só para não ficar sozinha.

- Hoje não.

Ela deu de ombros.

- Outro dia quem sabe.

- Talvez.

Ela beijou meu rosto e voltou para a mesa que estava, Heitor me olhava.

- Nem fala.

- Não falei nada.

- Sua cara falou tudo.

- Vai à merd*.

 Ele riu e eu voltei para a minha bebida, mas alguma coisa tinha mudado, não naquela noite, mas em mim. Eu estava começando a perceber que meus pensamentos em Valentina já não se restringiam a quando ela estava na minha casa, pensava quando via um livro, quando alguém falava de comida, quando ouvia uma piada que sabia o que ela comentário sobre, ou quando simplesmente me via pegando o celular sem saber exatamente o porquê, mas no fundo sabia que eu queria contar o que estava acontecendo para ela.

Pequenas coisas idiotas, coisas que não precisava contar a ninguém e isso não parecia nada de mais, e se fosse ser completamente sincera comigo mesma, fazia dias que já não parecia.

O problema é que eu não tinha intenção nenhuma de descobrir o que aquilo realmente era, ainda.

 

Valentina

Não consegui ler mais do que três páginas depois da última mensagem da Theo, o livro estava aberto no meu colo e minha cabeça estava em outro lugar.

Boa festa

Eu tinha escrito sem pensar ou talvez pensado demais, não sei exatamente quando comecei a reparar nos horários dela, quando percebi que a noite sempre havia música ou vozes no fundo dos seus áudios.

Que algumas mensagens chegavam de restaurantes, outras de bares.

Theo sempre parecia ter alguém por perto, só nunca parecia realmente estar com alguém.

Peguei o celular, abri novamente nossa conversa.

Boa noite editora.

Sorri, era bobo eu sei, absolutamente bobo, mas tinha alguma coisa naquele apelido, algo familiar. Como se aos poucos, eu tivesse deixado de ser apenas a pessoa contratada para organizar o acervo da mãe dela.

Fechei a conversa e voltei para o livro, li uma página e na metade da página seguinte pensei:

Será que ela vai dormir quando chegar em casa?

Fechei o livro.

- Meu Deus Valentina. – Falei sozinha.

Eu não tinha responsabilidade nenhuma sobre o sono da Theo, nem sua alimentação e muito mesmo o número de festas que ela frequentava, ainda assim eu queria saber, queria que estivesse dormindo, que comesse bem, que conseguisse entrar no escritório da sua própria casa sem precisar sempre dar uma leve parada na porta como se hesitasse todas as vezes.

Queria ver aquele sorriso inteiro dela todos os dias e não fazia ideia de quando todas essas vontades tinham começado e talvez fosse exatamente esse o problema, afinal alguns sentimentos não chegam fazendo barulho, eles simplesmente começam a ocupar espaço e quando você percebe já estão ali.

Fim do capítulo

Notas finais:

Vou tentar lançar um capitulo extra amanhã, não prometo mais tentarei.


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Comentários para 4 - Capitulo 4:
Socorro
Socorro

Em: 16/08/2026

Eita eita ... aos pouquinhos vai evoluindo kkk


TabitaLima07

TabitaLima07 Em: 16/08/2026 Autora da história
De pouquinho em pouquinho a gente chega lá. kkk


Responder

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Raf31a
Raf31a

Em: 16/08/2026

Será que Helena teve um amor proibido na juventude?


TabitaLima07

TabitaLima07 Em: 16/08/2026 Autora da história
Será? kkk


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