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Até o sol encontrar você por TabitaLima07

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Palavras: 4639
Acessos: 130   |  Postado em: 13/08/2026

Notas iniciais:

 

Capitulo 3

Theodora

Acordo antes do despertador, mais uma noite que não durmo bem, olho para o relógio e vejo que são 8:07, demoro alguns segundos para entender.

Sento na cama rápido demais.

- Merda.

Meu despertador esta sobre o criado, desligado, nem lembro se cheguei a colocar para despertar.

Pego o celular e tem três chamadas perdidas, duas do Heitor e uma da minha assistente, dezenove mensagens, uma reunião que começa em nós de meia hora e Valentina chegando as 9:00.

Levanto da cama quase tropeçando no lençol, é estranho sentir pressa por um motivo tão simples, mais estranho ainda é perceber que minha preocupação não é com a reunião e sim com Valentina chegando e me encontrar com essa cara de quem acabou de acordar.

Entro no banheiro correndo e a mulher no espelho está um desastre, cabelo bagunçado, olhos inchados, a maquiagem da noite anterior parcialmente espalhada abaixo dos olhos.

- Ótimo.

Lavo o rosto, prendo o cabelo e pego o celular que começou a tocar, Heitor, atendo.

- Bom dia.

- Ela está viva.

- Que drama.

- Você perdeu uma reunião.

- Eu sei.

Silêncio, consegui imaginar a cara que ele estava fazendo do outro lado, me deu até vontade de rir.

- Você sabe? E esta calma assim?

- Acabei de ver. – Dou de ombros mesmo sabendo que ele não consegue me ver.

- Theo, são 8:15 e você não está enfiada nessa empresa.

- Sei que horas são. – Bufo, essa conversa repetida já está começando a me irritar.

- Você nunca perdeu uma reunião.

Coloco o celular no viva voz, jogo na cama e pego a primeira camiseta que encontro no armário.

- Parabéns, você acaba de presenciar um evento histórico.

- Você dormiu?

Paro, olho outra vez para o relógio e finalmente percebo que dormi, não oito horas, nem perto disso, mas apaguei depois que cheguei em casa e só acordei agora.

- Algumas horas.

- Algumas quantas?

- Aff, não faço relatório de sono Heitor.

- Você está estranha.

- Acabei de acordar e você já está me atormentando.

- Exatamente.

Reviro os olhos.

- Faz alguma coisa útil e cancela a reunião.

- Já cancelei, disse que estava resolvendo um assunto pessoal e por isso não poderia comparecer.

- Eu nunca tenho assunto pessoal.

- Exatamente, por isso achei que eles acreditariam.

- Muito engraçado.

Ele ri.

- Vai trabalhar de casa?

Olho para o corredor, para a porta do escritório que continua destrancada, lembro que Valentina chega as 9:00.

- Pela manhã.

- A editora?

- O acervo.

- Entendi, a editora então. – Ele fala rindo.

- Heitor.

- Só estou organizando corretamente as informações.

- Até mais tarde.

- Theo... – Desligo antes que ele continue, não estou com disposição e nem tempo para começar o meu dia sendo analisada por ele.

Tomo um banho correndo, coloco uma calça preta e a camiseta branca que já tinha separado, por um momento até penso em trocar por uma camisa, mas desisto, não sei porque estou assim, é minha casa. Valentina vem organizar livros e não me entrevistar para uma revista.

Na cozinha Marta já colocou o café na mesa.

- Bom dia – ela diz, com um sorriso que imediatamente me deixa irritada.

- O que?

- Nada.

- Você está sorrindo.

- A senhora dormiu.

Pego uma xícara.

- Vocês por acaso criaram um grupo para acompanhar meu sono?

- Não seria má ideia.

- Vou demitir todo mundo.

- Eu trabalho aqui há dezesseis anos, não acredito mais nessa ameaça. – Fala sorrindo.

Quase rio junto, pego o café e falo como quem não quer nada.

- A moça da editora disse que vem as 9:00.

- Eu sei.

- Quando chegar pode deixar entrar.

- A senhora vai estar aqui?

- Eu estou aqui.

Marta levanta as sobrancelhas.

- Você está muito observadora hoje.

- Sempre fui.

- Então talvez devesse observar menos.

Ela dá uma risadinha e sai da cozinha, olho para o relógio, 8:43 tenho dezessete minutos. Abro o notebook, tem e-mails suficientes para ocupar uma pessoa durante o resto do dia, começo a responder, consigo responder três antes da campainha tocar.

Olho o relógio, 8:58, claro que Valentina chega cedo, provavelmente só para provar que consegue.

Escuto Marta abrindo a porta, não levanto, continuo olhando para a tela como se ainda conseguisse prestar atenção em alguma coisa que esta escrita.

Ouço as duas conversando mas não consigo entender o que dizem, tento terminar o e-mail que estava respondendo, leio a mesma frase duas vezes, desisto, fecho o notebook.

Ridículo, estou na minha casa, é normal receber uma pessoa que está trabalhando na minha casa.

Levanto, vou para a sala e entro assim que Valentina esta tirando o casaco, ela usa uma blusa preta e os cabelos presos em um rabo de cavalo, segura uma caixa pequena cheia de materiais.

Ela me olha, por um segundo, os olhos descem para minha camiseta.

- Bom dia.

- Bom dia. – Respondo.

Ela parece segurar um sorriso.

- O que?

- Nada.

- Você está encarando.

- Você também.

Cruzo os braços.

- Você chegou cedo.

Ela olha para o relógio.

- Dois minutos. – Levanta os ombros como quem diz que não é nada.

- Continua sendo cedo.

- Isso vindo da pessoa que ontem parecia acreditar que dormir era opcional?

- Você chegou para trabalhar ou para fiscalizar minha rotina?

- Trabalhar. – Diz levantando a caixa. – Trouxe etiquetas.

- Fascinante. – Reviro os olhos.

- Algumas pessoas se emocionam com flores eu gosto de papelaria.

- Isso explica muita coisa.

- Você me conhece a um dia.

- Foi suficiente para algumas conclusões.

- Posso dizer o mesmo. – Ela da um sorrisinho de lado, como se estivesse me desafiando.

Marta corta o clima que se instalou aparecendo com uma bandeja com café.

- Café? – pergunta ela sorrindo para Valentina.

- Eu aceito.

- Não toma café em casa? – Pergunto.

Ela me olha sem entender.

- Por que?

- Porque ontem também tomou café aqui.

- E?

- Só perguntei. – Dou de ombros.

- Tomei chá.

- Então aceita café depois do chá.

- Às vezes.

- Estranho.

- Você toma café no meio da madrugada, não sei se tem autoridade para avaliar os hábitos de bebida de alguém.

Fico olhando para ela.

- Como sabe que tomo café de madrugada?

Ela apontou para a xícara que esqueci sobre a mesa da sala.

- Ontem tinha uma igual na varanda, hoje tem outra aqui, simples dedução. – Ela fala dando de ombros como se não fosse nada demais.

Marta olha para mim, não gosto nada da expressão satisfeita que vejo no seu rosto.

- Pode deixar o café no escritório – Digo

- Claro.

Valentina acompanha Marta pelo corredor e vou atrás, quando chegamos à porta ela está aberta, Valentina para e olha para mim.

- Você deixou aberta.

- Percebi.

- Ontem estava trancada.

- Também percebi.

Ela não fala mais nada, ainda bem, ela entra e entro logo depois. Pela primeira vez o ambiente parece diferente, não porque alguma coisa tenha mudado, mas porque agora tem alguém andando por ali sem medo.

Valentina coloca a caixa sobre a escrivaninha, abre o notebook e começa a retirar etiquetas, canetas e marcadores.

- Você vai ficar? – Pergunta.

- Por enquanto.

- Achei que tivesse uma reunião, uma empresa para comandar.

- Tenho.

- Tem certeza que ela vai funcionar sem você por algumas horas?

- Espero que sim, seria preocupante descobrir que construí tudo errado.

Ela sorri.

- Você está menos insuportável esta manhã.

- Talvez eu tenha dormido. – Dou de ombros.

- Então deveria experimentar dormir mais vezes.

- Você e Heitor se dariam muito bem.

- Quem é Heitor?

- Um intrometido.

- Então provavelmente sim. – Sorri.

Sento na poltrona próxima à janela e abro o notebook, vejo Valentina começar pelas estantes da esquerda e durante alguns minutos ficamos em silêncio, cada uma em sua tarefa. Mas não é aquele silêncio que parece me esmagar todas as vezes que estou sozinha naquela casa, não, agora o silêncio vez ou outra é quebrado por barulho de páginas, de teclas, pela caixa de etiquetas sendo aberta e Valentina vez ou outra tão distraída que começa a cantarolar alguma música que não consigo reconhecer.

- Você está cantando? – Pergunto.

Ela olha para mim com as bochechas vermelha.

- Não.

- Está sim. – sorrio.

- Não percebi.

- Que música é essa?

Ela pensa.

- Acho que Def Human.

- Você acha?

- Costumo ouvir música quando estou trabalhando e acaba ficando na cabeça.

- Você trabalha ouvindo música?

- Pessoas normais trabalham ouvindo música.

- Pessoas normais não precisam catalogar livros.

- Pessoas normais também leem livros.

- Não tantos.

Ela vira para a estante outra vez.

- Sua mãe tinha bom gosto.

Minha mão para sabre o teclado, é por pouco tempo mas Valentina percebe, ela não olha só continua trabalhando.

- Em livros – acrescenta. – Pelo menos.

Respiro.

- Ela gostava de ler.

- Isso está bem claro.

- Demais.

- Não existe demais quando se trata de livros.

- Você diz isso porque trabalha com eles.

- Trabalho com eles porque penso assim.

Não respondo, continuo no e-mail que ficou pela metade, alguns minutos depois ela solta um som baixo, não exatamente uma reclamação, estava mais para um suspiro feliz. Levanto os olhos e vejo Valentina segurando um livro com as duas mãos e sorrindo, não um sorriso educado que costuma usar quando fala comigo, mas um sorriso de verdade, aberto, quase infantil.

- O que foi?

Ela me olha como se nem lembrasse que estou aqui.

- Desculpa.

- Pelo que?

- Nada é só que... – Ela se atrapalha, olha para o livro novamente.

- Sua mãe tinha a primeira edição desse livro.

- E isso significa?

Ela vira a capa para mim como se o título significasse algo para mim, mas não diz nada.

- Significa que passei anos procurando uma.

- Para quê?

Ela me olha como se eu tivesse batido no gatinho dela.

- Para ter.

- Excelente justificativa. – Reviro os olhos.

- Você realmente não gosta de livros.

- Eu leio.

- E acabou de perguntar para que alguém quer uma primeira edição.

- A história é a mesma.

Valentina segura o livro contra o peito.

- Isso é quase ofensivo.

- É papel.

- Não é só papel.

- Continua sendo o mesmo texto.

- Não é a mesma história.

- Literalmente é.

Ela fecha os olhos por um instante.

- Não acredito que Helena Fontes criou você.

A frase me pega desprevenida, fico olhando para ela, Valentina percebe.

- Desculpa.

- Por quê?

 - Eu não deveria...

- Minha mãe diria a mesma coisa.

O sorriso volta, menor.

- Então acho que ia gostar dela.

Minha garganta aperta, volto o olhara para o notebook.

- Todo mundo gostava.

Ela não responde e agradeço por isso. Depois de alguns minutos noto que ela ainda está com o livro nas mãos.

- Você pode ler se quiser.

Ela vira rapidamente.

- O que?

- O livro.

- Estou trabalhando.

- Você esta olhando para ele como se tivesse encontrado um tesouro enterrado.

- É quase isso.

- Leva.

Ela me encara.

- Não posso levar nada daqui.

- Estou autorizando.

- Não.

- Por quê?

- Porque pertence ao acervo.

- O acervo é meu.

A frase saiu antes que eu pense, o rosto dela muda um pouco, não de julgamento, talvez tristeza?

- Era da sua mãe.

O silêncio cai, seguro o notebook com mais força.

- Agora é meu.

-Ainda assim não vou levar.

- Você é sempre tão teimosa?

- Sim.

- Ótimo.

- Obrigada.

Volto ao trabalho, mas percebo que ela coloca o livro separado sobre a mesa e de vez em quando olha para ele. Por algum motivo sorrio para a cena.

Meu celular toca me trazendo de volta, Heitor de novo, reviro os olhos mais atendo.

- O que?

- Bom dia para você também.

- Já nos falamos hoje e estou ocupada.

- Trabalhando?

Olho para Valentina que agora está catalogando outra prateleira.

- Sim.

- De verdade?

- O que você quer?

- Confirmar o almoço.

- Que almoço?

- O que você me convidou ontem.

Fecho os olhos, verdade, tinha me esquecido.

- Meio-dia?

- Uma.

- Estarei lá. – respondo.

- Vai mesmo?

- Porque iria marcar se não fosse?

- Porque você marca as coisas para impedir que sua agenda tenha espaço.

A frase me irrita.

- Até a uma Heitor. – Desligo.

- Ele é o intrometido? – Valentina pergunta.

- É.

- Gostei dele.

- Você ouviu uma ligação de trinta segundos, como pode saber que gosta dele?

- Foi o suficiente para algumas conclusões.

Ela repete exatamente o que eu disse mais cedo, olho para ela, ela sorri.

- Você fez isso de propósito.

- Fiz o quê? – Se faz de inocente.

- Usou minha frase de mais cedo.

- Coincidência. – Sorri.

- Péssima mentirosa.

- Estou descobrindo que você também gosta de analisar pessoas.

- Só as irritantes.

- Então deve passar muito tempo pensando em si mesma.

Ela me encara por dois segundos e depois ri, acabo rindo junto, é rápido mas estranho, muito estranho porque estou no escritório da minha mãe rindo. A culpa aparece quase que imediatamente, como se rir aqui fosse errado, meu sorriso desaparece e Valentina percebe e mais uma vez não pergunta só volta ao trabalho como se nada tivesse acontecido e eu também volto ao meu.

Pouco depois do meio-dia fecho o notebook ela ainda está catalogando os livros.

- Preciso sair. – Aviso.

- Tudo bem.

- Marta vai estar em casa.

- Eu sei.

Pego a bolsa mas paro diante da porta, Valentina agora está concentrada em uma caixa de livros.

- Você vai almoçar? – a pergunta sai antes que eu pense.

Ela olhou para mim pela primeira vez desde que começamos esse diálogo.

- Provavelmente.

- Provavelmente não é resposta.

- Isso vindo de você?

- Eu almoço.

Ela arqueia uma sobrancelha.

- Ontem enquanto estava aqui a Marta perguntou três vezes se você queria comer alguma coisa e você recusou as três.

- Você presta atenção demais.

- Mania de editora. – Da de ombros.

- Achei que fosse pessoas.

- Também.

 Pego o celular e falo sem olhar para ela.

- Tem comida na cozinha.

- Não vou comer sua comida.

- Marta faz comida para um batalhão, se ninguém comer ela vai acabar culpando a mim.

- Isso parece problema seu.

- É, estou terceirizando. – Sorrio.

Ela ri.

- Vai se atrasar.

Olho para o relógio.

- Merda.

Caminho rápido pelo corredor.

- Theo. – Escuto ela me chamando, paro.

Valentina aparece na porta.

- O quê?

- Sua bolsa.

Olho para a minha mão, estou segurando o celular e as chaves, acabei deixando a bolsa na poltrona, ela me entregou.

- Obrigada.

- Disponha.

Pego a bolsa.

- E coma alguma coisa.

Ela cruza os braços.

- Vai embora.

Saio ouvindo sua risada atrás de mim, no carro percebo que mais uma vez estou sorrindo, paro imediatamente, não porque é proibido mas porque não consigo entender o porquê de tantos sorrisos.

- Você está atrasada. – Heitor diz olhando teatralmente para o relógio.

- Sete minutos – Respondo sentando na sua frente.

- Sobrevive.

- Essa frase pertence a mim.

O restaurante está cheio, melhor assim.

- Pedi água.

- Ótimo.

- E a comida.

- Não pedi comida.

- Eu pedi.

- Por quê?

- Você não almoçou ontem.

Olho para ele.

- Vocês realmente têm um grupo, não é possível.

- Quem?

- Você e Marta.

- Ainda não, mas é uma boa ideia.

- Não autorizo.

- Agora vou criar só para te irritar.

O Garçom chega com a água, Heitor espera até ele sair.

- Então?

- Então o que?

- Como está indo?

- O almoço? – Levanto a sobrancelha.

- Theo.

- O Acervo está sendo organizado.

- E a editora?

- Está organizando o acervo.

- Para, você sabe exatamente o que quero saber.

Pego a água.

- É irritante.

- Você já disse isso.

- Continua sendo.

- E?

- Nada.

Ele sorri, odeio quando ele sorri desse jeito como se já tivesse todas as respostas.

- Para de sorrir.

- Não estou fazendo nada.

- Está.

- Você parece mais leve. – Fala me olhando como se me analisasse.

Minha mão parou no copo.

- Eu dormi. – Dei de ombros.

- Eu sei.

- Como?

- Você não atendeu minha ligação as sete da manhã.

- Isso não significa nada.

- Para você significa tudo.

O garçom chega com a comida antes que eu precise responder, olho para o prato.

- Pedi peixe – Heitor diz.

- Eu sei o que é peixe.

- Às vezes gosto de explicar coisas.

- Percebi.

Começo a comer e percebo que estou com mais fome do que imaginava.

- Você vai na festa da Amanda hoje? – Ele pergunta.

- Vou.

- Claro que vai.

- Algum problema?

- Nenhum.

- Então porque falou assim?

- Porque você está trabalhando de casa, almoçando comigo, vai para a empresa a tarde e para uma festa a noite.

- É uma terça normal.

- Exatamente.

- Você queria que eu ficasse em casa chorando?

Ele fica sério.

- Não.

- Então?

- Nada.

- Não começa.

- Não comecei.

- Heitor.

Ele pousa os talheres e me encara.

- Eu não quero que você fique sozinha, você sabe disso.

- Então deveria estar feliz que tenho planos para hoje.

- Você pode estar cercada de gente e continuar sozinha.

Olho para ele.

- Virou filosofo agora?

- Não, desculpa.

Ele volta a comer e eu também, não quero falar sobre isso, não tem motivo, estou bem, eu saio, trabalho, vejo pessoas, tenho amigos, transo sempre que quero, vou a festas, dou risada e a vida continua, não igual a antes afinal vida nenhuma continua igual porque a minha teria que continuar?

- A editora disse alguma coisa sobre a sua mãe? – Heitor pergunta.

A pergunta vem sem aviso, meu coração da uma leve parada.

- Não.

- Você contou alguma coisa?

- Não tem nada para contar.

Ele concorda lentamente.

- Certo.

- Não começa com essa cara.

- Que cara?

- Essa cara de “eu sei que você não está bem”.

- Eu nunca disse isso.

- Não precisa.

Ele fica em silêncio me encarando.

- Estou bem Heitor.

A frase sai perfeita, praticada, convincente. Ele me olha por um instante, espero que diga que sabe que é mentira, que não acredita , para eu parar de fingir mas invés disso ele simplesmente assente.

- Eu sei.

E por algum motivo isso dói mais.

Passo o dia na empresa entre reuniões, algumas ligações e duas crises que deveriam ter sido resolvidas sem que chegassem até mim, mais chegaram mesmo assim. Às seis Patrícia entra na minha sala.

- Você vem com a gente?

- Onde?

- Festa da Amanda.

- Claro.

- Vamos sair daqui a pouco, vou pedir um carro.

- Tenho meu carro.

- Theo vamos beber.

- E?

- Você pretende dirigir depois de beber? – Pergunta com a mão na cintura.

- Não.

Ela cruza os braços, não acreditando muito na minha resposta.

- Então você vem com a gente.

- Vocês vão cantar no caminho?

- Provavelmente.

- Vou no meu carro.

- Você é impossível.

- Você trabalha comigo a quatro anos e só descobriu isso agora?

Ela sai da minha sala balançando a cabeça em negação e rindo, fecho meu notebook bem na hora que meu celular vibra, olho no reflexo, é uma mensagem de Marta.

Marta: Sua editora ainda está aqui.

Franzo a testa.

Eu: Ela não é minha.

A resposta vem imediatamente.

Marta: Claro.

Fecho a conversa, dois minutos depois abro novamente, digito.

Eu: Ela almoçou? – Fico olhando para a mensagem, não envio.

Apago, isso é ridículo, Marta é perfeitamente capaz de alimentar uma pessoa sem minha supervisão, coloco a celular na bolsa e saio.

Amanda alugou o salão de um hotel para celebrar seus 35 anos como se estivesse celebrando sua própria coroação, com luzes demais, pessoas de mais e flores, muitas flores.

- Finalmente. – Ela diz assim que me vê.

Abraça-me forte.

- Feliz aniversário.

- Achei que fosse desistir ou inventar uma reunião qualquer.

- Eu sempre venho. – dou um pequeno sorriso.

- Nem sempre.

- Hoje eu vim.

Ela segura meu rosto entre as mãos.

- Você está linda.

- E você está bêbada.

- Um pouco. – Ela sorri.

Sorrio com ela que sai me puxando para perto das outras pessoas, em poucos minutos já estou com uma taça na mão, não demora muito para a primeira acabar e uma nova aparecer, converso, danço.

Uma mulher que conheço de algum lugar mais não sei de onde encontra em mim enquanto fala, sorrio sem nem saber do que, ela se chama Clara ou Carla não consigo lembra. Pergunta se estou solteira.

- Depende da intenção. – É o que respondo.

Ela ri, o jogo é fácil, sempre foi. Ela toca meu braço, aproxima o rosto e eu já sei onde exatamente essa noite pode terminar se eu quiser.

Não preciso perguntar nada e nem explicar, muito menos quem sou quando estou acordada às quatro da manhã, só preciso sorrir.

- Você é muito diferente do que dizem. – Ela comenta.

- E o que dizem?

- Que você é difícil.

- Talvez você ainda não me conheça o suficiente.

- Então o que acha de resolvermos isso?

Ela sorri, eu também, mas por algum motivo me lembro de outra pessoa dizendo praticamente a mesma coisa.

Você não sabe nada sobre mim.

E depois:

Exatamente.

Valentina vem como uma bola de demolição em forma de lembrança, tomo um gole da bebida para ganhar tempo.

- Tudo bem? – Clara ou Carla pergunta.

- Perfeito. – Sorrio.

A resposta sai de forma automática, ela acredita, afinal todo mundo acredita. Mais tarde estou dançando entre Patrícia e Amanda quando Heitor aparece com duas bebidas, dou risada.

- Você está bêbado.

- Você também.

- Ainda não.

- Uma tragédia. – ri.

Ele me entrega uma taça.

- Você está se divertindo?

Olho ao redor, pessoas dançando, música, risadas, nada do silêncio que me espera em casa.

- Muito.

- Então porque olha o celular a cada cinco minutos?

Olho para a minha mão e estou realmente segurando o celular.

- Trabalho.

- Às onze da noite?

- A empresa não fecha as seis.

- Claro.

Bloqueio a tela do celular.

- Feliz?

- Bastante.

Volto para a pista, não verifico o celular pelos próximos 20 minutos, quando finalmente faço tem uma mensagem, não de Valentina mais da Marta.

Marta: A senhora Valentina terminou as seis, disse que volta amanhã as nove.

Só isso, olha a hora que foi enviada, 18:12 e só chegou agora, não faço ideia do porquê Marta achou necessário me avisar e muito menos do porque estou relendo, guardo o celular finalmente e volto para a festa.

Clara ou Carla, preciso descobrir logo, aparece de novo e uma hora depois estamos nos beijando em algum canto menos movimentado do salão, ela é bonita, beija bem e mesmo assim ainda existe aquela sensação, a mesma de sempre, a de que meu corpo está ali mas eu não estou.

Mais ela não percebe, se afasta um pouco, sorrindo e pergunta:

- Sua casa ou a minha?

Por alguns minutos considero, não quero voltar sozinha para casa, mas também não quero acordar ao lado dela então dou um sorriso de lado e respondo:

- Hoje não.

Ela parece um tanto quanto surpresa.

- Tudo bem.

- Desculpa.

- Não precisa pedir desculpas.

Ela beija meu rosto.

- Outro dia. – Sorri e se afasta.

Talvez, provavelmente não, decido que já passou da hora de ir embora, quando estou saindo Heitor está perto da saída.

- Sozinha?

- Isso é um interrogatório?

- Só curiosidade.

- Está se tornando um péssimo habito seu.

Ele não responde só me dá um beijo na testa e se afasta.

- Me manda mensagem quando chegar.

- Não tenho quinze anos.

- E eu não me importo.

Entro no carro que pedi pelo aplicativo, amanhã mando alguém buscar o meu. A cidade passa pela janela, olho para o celular, nenhuma mensagem nova.

Abro o contato de Valentina, não tem nenhuma conversa além da que tivemos noite passada.

Boa noite, obrigada Theo.

Não sei porque abri, fecho e já estou quase chegando em casa. Quando chego já passou da meia-noite, a casa está silenciosa como sempre, mas não completamente, tem alguma coisa diferente é quando reparo em uma pequena pilha de livros sobre a mesa da sala.

Provavelmente Marta trouxe do escritório, me aproximo e vejo uma etiqueta amarela sobre eles.

Não mexa, em avaliação – V.

Seguro o papel, a letra dela é bonita, rio sozinha.

- Mandona.

Deixo a etiqueta no lugar e vou até a cozinha em cima da bancada tem um prato que Marta deixou com comida, ela sempre deixa, como um pouco em pé mesmo. Só percebo o quanto comi quando termino metade do prato, nunca comi tanto, geralmente como um pouco só para Marta não ficar chateada. Não sei se comi tanto porque realmente estava com fome ou se foi porque Valentina tenha me perguntado sobre o almoço mais cedo, reviro os olhos para mim mesma e vou me arrumar para deitar.

Assim que deito na cama já deito preparada para uma noite virando na cama, mas por algum motivo idiota a primeira e última coisa que penso antes de finalmente dormir não é na minha mãe, mas sim Valentina abraçando um livro antigo e sorrindo como se tivesse encontrado um tesouro perdido.

 

Valentina

 

Acordo no meio da madrugada com sede, pego o celular e vejo que são 2:48 da manhã, levanto e vou para a cozinha e no caminho um pensamento me pega:

Será que ela dormiu?

Balanço a cabeça, deixa de ser ridícula, Theo provavelmente ainda deve estar em alguma festa, reunião ou qualquer coisa que pessoas como ela façam em uma terça-feira, se ela está dormindo ou não, não é problema meu.

Bebo minha água e volto para a cama, o celular continua na minha mão, abro a conversa com Becca, ela me mandou quatro mensagens enquanto eu estava trabalhando a última:

Becca: Você desapareceu, a empresaria te matou?

Eu: Viva.

Três pontinhos aparecem quase que imediatamente, meu Deus essa mulher não dorme?

Becca: É 2:50.

Eu: Percebi.

Becca: Pensando na cliente difícil?

Olho para a mensagem por um tempo antes de responder.

Eu: Estava com sede.

Becca: E resolveu me avisar que estava viva a essa hora por caridade?

Eu: Dorme Becca.

Ela envia um emoji rindo, bloqueio o celular e fecho os olhos tentando voltar a dormir mas a imagem de Theo de camiseta branca, cabelo preso de qualquer jeito, discutindo comigo sobre a primeira edição como se estivesse ofendida pessoalmente pela existência delas e depois a vejo segurando um livro contra o peito e falando “esse fica comigo” e penso na mudança quase imperceptível no rosto dela quando falei da mãe, no celular que nunca para, nos almoços, jantares, reuniões, ela nunca está sozinha.

Mas mesmo assim nunca vi ninguém parecer tão sozinha dentro da própria casa, viro para o lado e repito duas vezes, não é problema meu, quando vou repetir uma terceira sei que já não acredito mais nisso.

Fim do capítulo


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