Capitulo 2
Valentina
Nunca gostei muito de entrar na casa das pessoas, acho que elas contam coisas de mais, algumas pessoas fazem questão de mostrar tudo, fotografias, lembranças de viagens, brinquedos espalhados, imãs de geladeira, sapatos esquecidos no caminho, já outras escondem.
Enquanto estacionava em frente à casa de Theodora Fontes, tive a impressão de que aquela escondia muito mais do que mostrava. Conferi o endereço três vezes, mesmo sabendo que estava certo, é uma casa grande, cercada por árvores e um jardim bem cuidado que dava a impressão que não havia uma única folha fora do lugar.
Olhei o relógio são 8:52, eu cheguei cedo, Becca ficaria emocionada. Peguei a pasta do banco do passageiro e meu celular vibrou antes que eu conseguisse sair.
Becca: Já chegou?
Eu: Sim.
A resposta veio imediatamente.
Becca: Tire uma foto para provar.
Revirei os olhos.
Eu: Estou trabalhando.
Becca: Você está parada dentro do carro criando coragem.
Olhei pela janela para a casa, infelizmente Becca me conhecia bem demais.
Eu: Até mais tarde.
Becca: Se ela for insuportável derrube café no tapete e fuja.
Só após essa mensagem que percebi, como Becca que haveria um ela talvez insuportável, se a informação é confidencial e não contei a ela.
Becca sendo Becca, nunca vou entender como ela consegue essas coisas.
Guardei o celular sem responder, respirei fundo e saí do carro.
A mulher que abriu a porta devia ter pouco mais de 50 anos, tinha um sorriso gentil e parecia surpresa em me ver ali tão cedo.
- Bom dia, você é da editora?
- Sim, sou Valentina.
- Pode entrar, a Dona Theo está terminando uma ligação.
Dona Theo, o jeito carinhoso como foi dito não parecia em nada com o alerta que Isadora me deu no dia anterior.
Entrei na casa e a primeira coisa que notei foi o silêncio, era um silêncio pesado, como aquele de quando não queremos incomodar ninguém. A sala era bonita, elegante, mas não parecia montada para impressionar visitas, havia livros sobre uma mesa lateral, uma manta dobrada no sofá e um piano preto lindo perto da janela.
Não tinha fotografias, nenhuma, casas costumam denunciar quem vive nelas, já está parecia esconder.
- Aceita café – Perguntou a mulher.
- Aceito, obrigada.
- Pode se sentar, ela já vem.
Coloquei a pasta sobre a mesa de centro mais continuei em pé, o piano chamou minha atenção, não porque eu soubesse tocar mesmo minha mãe me obrigando a ter aulas por anos, só aprendi a odiar a obrigação de ter que sentar diante dele.
Este piano parece não ser usado a muito tempo.
- Bom dia.
Me virei assim que escutei e parada na entrada da sala estava Theodora Fontes, por um segundo esqueci que deveria responder e só fiquei ali encarando, ela era mais nova do que eu esperava e muito mais bonita também, embora esteja tentando esconder um cansaço enorme, as olheiras mesmo que bem maquiadas ainda apareciam um pouco além dos olhos que por mais que atentos demonstravam uma tristeza que não consegui ignorar.
Finalmente sai do meu transe e decidi parecer no mínimo educada.
-Bom dia.
Ela se aproximou enquanto guardava o celular no bolso.
- Valentina?
- Sim, sou eu. – Falei estendendo a mão.
Ela apertou rapidamente.
- Esperava outra pessoa.
Não havia hostilidade na frase, só distância.
- A editora pretendia mandar outra equipe mas decidi assumir pessoalmente.
Os olhos azuis finalmente pararam em mim por mais de um segundo.
- Por que? – Perguntou direta.
- Porque o acervo de sua mãe pode conter manuscritos, anotações e documentos que precisam de avaliação editorial. – Tentei ser o mais profissional possível.
- Eu não pretendo publicar nada. – Respondeu
- Não disse que deveria.
Ela continuou me olhando, já tinha trabalhado com autores difíceis, famílias possessivas e pessoas que acreditam que pagar por um serviço lhes dá o direito de tratar qualquer um como funcionário particular, por mais que Theodora escolha cada palavra para demonstrar que não sou bem-vinda em momento algum foi grossa comigo.
- Quero apenas que tudo seja organizado.
- É exatamente isso que falei – Respondi.
- Sem retirar qualquer objeto da casa. – Acrescentou.
- Tudo bem.
- Nenhum documento pode ser copiado ou fotografado sem a minha autorização.
- Isso já está no contrato.
- Prefiro deixar claro pessoalmente.
Assenti.
- E eu quero deixar claro que confidencialidade faz parte do meu trabalho.
Os lábios dela se apertaram um pouco.
- Não insinuei o contrário.
- Ainda bem.
A mulher que me atendeu voltou com meu café deixando-o sobre a mesa, seu nome era Marta, descobri quando Theo a agradeceu.
- Marta, você pode deixar, obrigada.
- Qualquer coisa vou estar na cozinha. – Respondeu se retirando.
O silêncio ficou desconfortável entre nós, Theodora não se sentou, nem eu, mas não estava ali para uma competição desconfortável de encaradas.
- Podemos começar? Perguntei.
- Você ainda não tomou o café.
Olhei para a xicara.
- Posso tomar depois.
- Pedi para Marta preparar.
- Então vou tomar. – Me sentei, ela permaneceu em pé por mais alguns segundos, como se não soubesse como agir comigo ali no meio da sua sala.
Peguei a xicara, o café estava forte, mas bom.
- Está bom? – Perguntou.
Me surpreendi com a pergunta.
- Esta sim, obrigada.
Ela assentiu e voltou sua atenção para o celular que novamente estava em sua mão, a tela acesa com várias notificações.
- Você precisa atender? – Perguntei.
- Não.
Mesmo assim virou a tela para baixo na mesa, acho que para tentar de alguma forma ignorar as notificações.
Abri a pasta.
- Antes de olhar o acervo, preciso saber exatamente o que você espera que seja feito, você que apenas uma organização básica, catalogação completa ou separação por importância?
- Tudo.
- Tudo não é uma categoria.
Ela ergueu os olhos do celular que tentava ignorar.
- Quero os livros organizados, os documentos separados e tudo que não tiver valor descartado.
- Valor financeiro?
- Valor de qualquer tipo.
- E quem vai decidir o que tem valor ou não?
- Você.
Fechei a pasta e olhei para ela.
- Não posso decidir sozinha o que possa ter valor ou não para você.
- É por isso que estou contratando uma profissional.
- Posso avaliar o valor editorial, histórico ou material, mas não posso avaliar o valor afetivo.
O olhar dela endureceu.
- Não existe valor afetivo. – A frase saiu rápida de mais, nos duas percebemos e nos encaramos.
Ela desviou primeiro, pegou o celular que finalmente havia parado de receber notificações.
- Posso ver o acervo. Perguntei diminuindo um pouco o tom.
Ela se levantou, dessa vez sem sequer me olhar.
- Venha.
Seguimos por um corredor, estava caminhando atrás dela, tentando não observar demais, mas era difícil não olhar tanto para os detalhes que passavam por mim, como pelo jeito que ela andava naquele corredor, rápido demais, como se ficar parada fosse perigoso.
Paramos diante da única porta fechada naquele corredor, Theodora tirou a chave do bolso, ela ficou imóvel por alguns segundos com a chave na mão, talvez outra pessoa não percebesse, mas eu percebi o leve tremor em sua mão, ela colocou a chave na fechadura, mas não girou.
- Precisa de ajuda? – Perguntei.
Ela me olhou e a resposta veio fria.
- Para abrir uma porta?
- Para qualquer coisa. – Respondi.
O maxilar dela se contraiu na mesma hora.
- Eu não preciso da sua ajuda.
- Certo.
Ela virou de volta para a porta e abriu, a primeira coisa que percebi foi o cheiro de madeira e papel que ficaram muito tempo fechados.
O cômodo era maior do que eu esperava, tinha estantes ocupando quase todas as paredes repletas de livros, muitas caixas empilhadas próxima a mesa, papeis empilhados em pequenas pilhas e livros espalhados sobre a escrivaninha.
Tudo parecia ter sido deixado exatamente como estava.
- Há quanto tempo ninguém entra aqui – Perguntei a primeira coisa que veio a minha cabeça.
- Não sei.
Olhei para ela.
- Você não entrou?
- Isso é importante para o trabalho?
- É importante saber se a organização anterior foi alterada. – Respondi, mesmo que no fundo isso não mudasse nada o meu trabalho, somente minha curiosidade.
- Não entrei. – Foi tudo que ela respondeu.
Não tinha frieza na resposta só uma verdade que parecia custar mais do que ela queria demonstrar.
Entrei no cômodo, mas Theodora não me acompanhou, permanecendo na porta, fui passando os olhos pelas estantes, não tinha ideia de quantos livros tinha ali, mas eram muitos.
- É um acervo grande, mas não deve levar mais do que algumas semanas.
- Quantas? – Perguntou ainda do lado de fora.
- Três, talvez quatro, depende da quantidade de documentos.
- Quero que termine o mais rápido possível.
- Rapidez e cuidado nem sempre combinam.
- Contrate mais pessoas.
- Mais pessoas dentro de um acervo pessoal aumentam o risco de erros. – E eu odiava trabalhar com mais pessoas.
- Então trabalhe mais horas.
Virei-me para ela e levantei a sobrancelha.
- Esse é o tipo de coisa que você fala para todo mundo?
Ela franziu a testa.
- Como?
- “Trabalhe mais horas”. – Repeti o que ela disse.
- Se uma coisa precisa ser feita... – Cortei ela bem aí.
- Ela precisa ser feita direito, não de qualquer maneira e nem no tempo que você decidiu na sua cabeça sem saber o real tempo que um trabalho desse tamanho pode levar.
O silêncio entre nós voltou a ficar pesado.
Ela cruzou o braço.
- Você sempre discute com clientes?
- Só com os que tentam fazer meu trabalho por mim.
Por um momento achei que ela mandaria Marta me acompanhar até a porta, em vez disso, Theodora soltou uma respiração curta pelo nariz, quase uma risada.
- Três semanas. – Disse.
- Provavelmente.
- Começando hoje.
- Eu não trouxe todo o material necessário.
- Pode mandar buscar.
- Tenho outros trabalhos na editora.
- Então não devia ter assumido este.
- Talvez não.
Ela arqueou uma sobrancelha.
- Quer desistir?
Olhei ao redor, todos aqueles livros, aquelas caixas, para a caneca cheia de canetas sobre a escrivaninha, para o jeito que ela continuava ali parada na porta sem coragem de entrar.
- Não. – Respondi.
- Ótimo.
- Mas você vai precisar facilitar.
- Facilitar como?
- Respondendo perguntas sem agir como se cada uma fosse uma invasão.
- Depende da pergunta.
- E parando de descontar em mim algo que eu não fiz.
A máscara dela caiu, não completamente, mas o suficiente.
- Você não sabe nada sobre mim.
- Exatamente e você também não sabe nada sobre mim, mesmo assim, decidiu que precisava deixar claro que não confia no meu trabalho antes mesmo de eu abrir uma caixa.
- Não é pessoal.
- Ser tratada mal costuma ser pessoal para que está recebendo.
Ela cruzou os braços.
- Eu não a tratei mal.
- Ainda não decidiu se quer que eu faça o meu trabalho ou que eu vá embora.
- Se eu quisesse que você fosse embora, você já teria ido.
- Isso não torna sua companhia agradável.
Dessa vez eu vi, um pequeno movimento no canto da boca, ela segurou o riso, mais não rápido o suficiente.
- Marta vai gostar de você. – Disse.
- Ela também discute com você?
- O tempo todo.
- Então provavelmente nós daremos bem.
Peguei o notebook dentro da bolsa e coloquei sobre a mesa, Theodora finalmente entrou no cômodo, apenas dois passos, olhou rapidamente ao redor e desviou quando o celular começou a tocar, atendeu no mesmo instante.
- Oi. – A voz mudou, ficou leve, quase alegre.
- Claro que vou, que horas?
Silêncio.
- Não, não tenho nada a noite. – Ela riu de alguma coisa que a outra pessoa disse, uma risada bonita, tão diferente da mulher que me recebeu que por um instante tive dificuldade de ligar as duas em uma só.
- Você sabe que nunca recuso um bom jantar.
Terminou a ligação e guardou o celular.
- Problema? – Perguntei.
- Não.
- Você parece outra pessoa no celular.
Os olhos dela voltaram para mim.
- Você sempre analisa todo mundo assim?
- Só pessoas.
- Deve ser cansativo.
- Muito.
Ela olhou para meu notebook aberto.
- O que vai fazer primeiro?
- Um levantamento, quantidade de livros, tipos de documentos, estado de conservação e a organização que sua mãe usava.
Assim que disse a palavra mãe seu rosto mudou, foi mínimo, mais mesmo assim eu notei.
- Não precisa explicar cada passo. – Disse.
- Você perguntou.
- Posso ficar aqui?
A pergunta me pegou de surpresa, porque tudo que ela demonstrou até agora foi não querer estar aqui.
- A casa é sua.
- Não foi o que perguntei.
Olhei para a mesa.
- Pode, mas vou precisar me movimentar e fazer perguntas.
- Faça.
- E talvez eu toque em coisas que você não queira.
- Se houver algo que não possa tocar eu aviso.
- Certo.
Comecei pelas estantes, anotei as categorias mais evidentes, a quantidade aproximada de volumes e o estado de conservação. Theodora permaneceu o tempo todo na janela, grudada naquele celular como um bote salva-vidas.
A cada poucos minutos o celular vibrava e ela respondia imediatamente. Às vezes era o telefone em cima da mesa que tocava e ela saia atendia e voltava, era como se não pudesse ficar parada nem por dois segundos.
- Você sempre trabalha assim?
- Assim como?
- Como se todas as pessoas do mundo precisassem falar com você ao mesmo tempo.
- É meu trabalho.
- Seu trabalho parece barulhento.
- Eu gosto.
A resposta veio rápida, olhei para ela.
- Do trabalho ou do barulho?
Ela não respondeu, invés disso apontou para o livro que eu segurava.
- Esse não.
- Não o que?
- Não precisa catalogar.
Olhei para a capa, era uma edição antiga de um romance que eu adorava.
- Por que?
- Porque não.
- Essa justificativa vai dificultar bastante meu relatório.
Ela veio até mim e pegou o livro da minha mão, o movimento foi rápido demais.
- Esse fica comigo.
Apertei os lábios.
- Tudo bem.
Ela segurava o livro contra o corpo, não parecia perceber.
- Você leu? – Perguntei.
- Não.
- É bom.
- Não gosto de romances.
- Talvez porque nunca tenha lido um bom.
- Ou talvez eu tenha coisas melhores para fazer.
- Como responder mensagens enquanto está conversando com alguém?
Os olhos dela se estreitaram.
- Você sempre fala tudo que pensa?
- Não, se falasse teria sido demitida no primeiro mês.
- Isso é você se controlando?
- Bastante.
Ela soltou uma risada curta, dessa vez não tentou esconder, eu sorri junto.
- Então você sabe sorrir.
- Nunca disse que não sabia.
- Sua reputação me deixou em dúvida.
Ela colocou o livro sobre uma mesa lateral.
- Preciso sair em uma hora.
- Consigo terminar o levantamento inicial até lá.
- Marta pode acompanhá-la depois.
- E você?
- Tenho um almoço.
- Achei que tinha um jantar.
- Tenho os dois.
- Dia cheio.
- Todos são.
- Imagino.
Ela olhou para mim como se quisesse saber se tinha julgamento na minha voz, não tinha, eu conhecia pessoas que ocupavam cada minuto do seu dia, algumas gostavam de produtividade, outras só não queria ter tempo de pensar. Theodora parecia pertencer ao segundo grupo, não disse nada, continuei trabalhando, quase uma hora depois desliguei o notebook.
- Terminei por hoje.
- Já?
- Hoje foi apenas uma avaliação.
Ela olhou o relógio.
- Achei que ficaria até Marta voltar.
- Você disse que sairia em uma hora.
- Não disse que você precisava sair junto.
- Tenho outros trabalhos.
- Amanhã?
- Às 9:00.
- Estarei na empresa.
- Marta pode me deixar entrar?
- Pode.
- Certo. – Essa conversa monossilábica já estava me dando dor de cabeça, guardei as minhas coisas e sai, quando chegamos a sala ela parou, pegou sua bolsa e olhou para mim.
- Valentina. – Chamou.
Olhei para ela.
- Sobre o que você disse...
Esperei ela continuar, parecida procurar as palavras certas.
- Eu não costumo tratar mal as pessoas.
- Ou talvez ninguém tenha o costume de dizer quando você trata.
Ela me encarou.
- Você vai dizer?
- Se acontecer comigo, vou.
Um pequeno sorriso apareceu.
- Imaginei.
- Até amanhã Theoroda.
- Theo. – Ela disse.
- Como?
- Todo mundo me chama de Theo.
- Está me autorizando?
- Estou evitando que você se canse usando esse nome enorme o dia todo.
- É um nome bonito.
Ela desviou os olhos para a bolsa.
- Até amanhã Valentina.
Sai da casa com um sorriso no rosto e caminhei até o carro, só quando sentei que percebi que estava sorrindo. Parei imediatamente, não tinha motivos para sorrir, Theodora era mandando, desconfiada e tinha a capacidade impressionante de transformar qualquer pergunta em uma provocação.
Mas também tinha os olhos cansados, uma risada que parecida escapar sem permissão e mãos que tremiam diante de uma porta que ela fingia não ter medo de abrir.
Meu celular vibrou me trazendo de volta.
Becca: Sobreviveu?
Eu: Sim.
Becca: Ela é horrível?
Pensei um pouco antes de responder.
Eu: Não sei.
Becca: Isso parece perigoso.
Guardei o celular, ela tinha razão.
Theoroda
- Você está me ouvindo?
Voltei os olhos para Heitor.
Estávamos sentados em uma mesa próximo a janela de um restaurante lotado, ele falava já tinha um tempo, mas sinceramente eu só tinha escutado metade.
- Estou.
- O que eu disse?
- Alguma coisa sobre o novo contrato.
- Eu estava falando da minha mãe.
- Ela assinou um contrato?
Heitor largou os talheres e me encarou.
- Meu Deus você realmente não escutou nada do que eu disse.
- Desculpa.
A palavra saiu antes que eu pudesse evitar, ele me observou por alguns segundos.
- Tudo bem?
Sorri, era automático.
- Tudo ótimo.
- Theo.
- Só estou com muita coisa na cabeça.
- A editora?
Peguei a taça de água.
- Claro que não.
- Você respondeu rápido demais.
- Ela começou hoje, é normal pensar no trabalho.
- Você não pensa no trabalho, você pensa em como controlar o trabalho.
- E isso é diferente?
- Muito.
Ignorei, o restaurante estava cheio, pessoas falavam alto, brindavam e tiravam fotos de tudo. Eu gostava daquele barulho, não precisava participar de nenhuma conversa por inteira, bastava sorrir e responder quando meu nome era chamado.
Heitor continuou comendo.
- Como foi? – Perguntou.
- O almoço?
- A editora.
- Irritante.
- Isso não é bem uma resposta.
- Ela discute demais.
- Então você gostou.
- Porque eu gostaria de alguém que discute comigo?
- Porque quase todo mundo morre de medo de fazer exatamente isso, e ela parece não ter.
- Pois deveria.
Ele ri.
- Agora tenho certeza que gostou.
Revirei os olhos.
- Ela parece ser competente.
- Ela é bonita?
- Não reparei.
Heitor ergueu uma sobrancelha.
- Você reparou.
Pensei em Valentina parada na minha sala, cabelos ruivos preso de qualquer jeito, camisa clara, olhos verdes, lindos demais para alguém tão irritante.
- Não é relevante.
- Então ela é bonita.
Mudei de assunto.
- VocÊ tem algum assunto importante?
- Tenho, sobre a minha mãe, mais você não estava ouvindo.
- Fale de novo.
Ele me contou sobre uma viajem que ela estava planejando, dessa vez, fiz um esforço para prestar atenção, perguntei sobre a data, o destino e se ela viajaria sozinha.
Consegui acompanhar a conversa durante alguns minutos, até que a imagem de Valentina segurando o livro veio a minha mente.
“Talvez nunca tenha lido um bom. ”
Sorri sem perceber.
- O que foi? – Heitor perguntou.
- Nada.
- Você sorriu.
- Pessoas sorriem Heitor.
- Pessoas sorriem, você não, e ainda mais olhando para uma salada.
- Talvez seja uma boa salada.
Ele se recostou na cadeira.
- Estou começando a gostar dessa editora.
- Você nem a conhece.
- Exatamente, e já conseguiu fazer você pensar em outra coisa durante um almoço.
- Eu penso em muitas coisas e não disse que estava pensando nela.
- Trabalho não conta e nem te faz sorrir, nem precisou dizer.
Um casal que eu conhecia passou por nós e parou para me cumprimentar, levantei, abracei os dois, perguntei sobre os filhos e ouvi sobre uma viagem recente.
Sorri, ri de uma história qualquer, prometi que marcaríamos um jantar, quando foram embora Heitor ainda estava me olhando do mesmo jeito.
- O que?
- Nada.
- Você está fazendo aquela cara.
- Que cara?
- A de quem acha que me conhece.
- Eu conheço.
- Então deveria saber que odeio ser analisada.
- Você não odeia, só tem medo de que alguém acerte.
Peguei a taça de vinho e tomei um gole.
- Você está tão sentimental hoje.
- E você esta distraída.
Terminei meu almoço e voltei para a empresa, passei a tarde em reuniões, resolvi problemas, aprovei uma campanha e respondi dezenas de e-mails.
Estava bem, perfeitamente bem, ninguém perceberia qualquer coisa de diferente, eu brincava com diretores, respondi provocações e até aceitei tomar café com parte da equipe no fim da tarde.
- É bom ver você assim. – Patrícia comentou.
- Assim como?
- Saindo da sala.
Todos riram, eu também.
- Às vezes lembro que existe outras pessoas neste prédio.
- Um grande avanço – Disse Heitor.
Joguei um guardanapo nele, as pessoas ao redor da mesa riram mais uma vez. Era simples, eu sabia o que dizer, como sorri e quando tocar o braço de alguém para demonstrar interesse.
Ninguém ali imaginava que, no meio da conversa sobre uma série, lembrei da forma como Valentina tinha me enfrentado na minha própria casa.
“Posso respeitar sua dor sem aceitar que desconte em mim. ”
Ninguém falava comigo dessa forma, algumas pessoas aceitavam que eu estava bem outras percebiam que não estava e passavam a me tratar como se eu pudesse quebrar.
Valentina não tinha feito nenhuma das duas coisas, ela enxergou por baixo da máscara e mesmo assim continuou discutindo comigo. Isso deveria me irritar, irritava, mais não tanto assim.
Meu celular vibrou com uma mensagem de Marta.
Marta: A senhorita Valentina deixou esta pasta, disse que precisará dela amanhã.
Junto a mensagem tinha uma foto da pasta em cima da mesa.
Eu: Guarde no escritório.
A resposta veio rápida.
Marta: No escritório da sua mãe?
Fiquei olhando a tela, a palavra mãe sempre aperta alguma coisa dentro de mim.
Eu: Deixa na sala eu mesmo guardo.
Bloqueei o aparelho.
- Está tudo bem? – Perguntou Patrícia.
Sorri.
- Claro.
O sorriso funcionou, sempre funcionava.
A noite chegou junto com o jantar que tinha combinado, era aniversario de uma amiga distante, cercada por pessoas que conhecia o suficiente para manter uma conversa e pouco o bastante para não precisar dizer a verdade.
O lugar estava cheio, perfeito, aceitei o vinho que me ofereceram, dancei uma música e permiti que Lara se aproximasse.
- Achei que estivesse me evitando. – Ela disse tocando no meu braço.
- Eu estava trabalhando.
- Você sempre está.
- É uma qualidade.
- Depende de pra quem você perguntar.
Ela sorriu e se aproximou mais, eu queria aquele jogo, sabia exatamente o que fazer, onde tocar e o que dizer para parecer completamente interessada.
Laura passou a mão pelo meu braço.
- Vai desaparecer de novo?
- Provavelmente.
- Pelo menos é honesta.
- Tento ser.
Não era exatamente verdade, eu era honesta sobre coisas que não importavam, o restante escondia tão bem que as vezes até mesmo eu acreditava nas minhas mentiras.
Laura disse alguma coisa sobre uma viagem, respondi, ela riu.
Olhei para seu rosto e sem qualquer motivo, pensei em olhos verdes me encarando dentro do escritório da minha mãe.
“Então você sabe rir. ”
Afastei o pensamento.
- Vamos pegar outra bebida? – Sugeri.
- Claro.
Passei o resto da noite cercada de pessoas, conversei, dancei, ri e aceitei todos os convites que pudessem adiar minha volta para casa naquela noite.
Ninguém percebeu nada, todos ali achavam que eu estava ótima, forte, bonita, divertida. Eu gostava quando eles acreditavam, o problema é que no fundo eu esperava que alguém não acreditasse, que alguém insistisse. Nunca acontecia.
Cheguei em casa já passava da meia-noite, Marca já tinha ido dormir, a pasta de Valentina estava em cima da mesa, parei de frente para ela, era só uma pasta e mesmo assim a presença daquele simples objeto deixava claro que ela voltaria amanhã.
Peguei a pasta, caminhei pelo corredor e parei na frente da porta do escritório, não precisava entra, podia deixar a pasta em qualquer lugar, mas girei a chave, acendi a luz, o cômodo continua exatamente como de manhã, exceto pelo notebook que não esta mais em cima da mesa e por algumas etiquetas deixadas nas estantes.
Entrei poucos passos, coloquei a pasta sobre a escrivaninha, meus olhos encontraram o livro que tirei das mãos de Valentina hoje e peguei.
Minha mãe gostava daquele livro, eu nunca tinha lido porque achava que romances eram uma perda de tempo, abri a primeira pagina e a letra da minha mãe estava na primeira página.
“ Algumas pessoas entram na nossa vida como se sempre tivessem sabido o caminho. ”
Fechei o livro imediatamente.
Meu celular vibrou com uma nova mensagem, número desconhecido.
Desconhecido: Desculpe o horário, Valentina aqui, percebi agora que deixei minha pasta ai, posso pegar amanhã cedo?
Fiquei olhando o nome, salvei o contato, Valentina sem sobrenome.
Eu: Está no escritório, amanhã você pega.
Apaguei, a frase parecia fria demais, escrevi novamente.
Eu: Esta guardada, amanhã você pega. – Enviei.
A resposta chegou alguns minutos depois.
- Obrigada, boa noite Theo.
Li a mensagem duas vezes, não havia nada demais, nenhuma intimidade, nenhum motivo para continuar olhando, mesmo assim meus depois ficaram parados sobre a tela.
Respondi:
Eu: Boa noite.
Bloqueei o telefone, deixei o livro sobre a mesa e saí do escrito.
Pela primeira vez em meses não tranquei a porta.
Fim do capítulo
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TabitaLima07 Em: 13/08/2026 Autora da história
Fico muito feliz que esteja gostando. ?