Capitulo 1
Theodora
São quatro e vinte da manhã quando finalmente desisto de tentar dormir, continuo deitada por mais alguns minutos, encarando o teto no escuro do quarto e tentando me convencer de que se talvez eu permanecer imóvel por tempo suficiente o sono volte.
Como se em algum momento dessa noite ele tivesse aparecido, passei a noite fechando os olhos, abrindo, virando de um lado para o outro, puxando a coberta, tirando a mesma. Meu corpo esta cansado, pesado, implorando por algumas horas de descanso, mas minha cabeça continua funcionando como se o dia anterior nunca tivesse acabado.
Penso na reunião das 9:00, do contrato que preciso revisar, na ligação que não posso esquecer de fazer, no relatório que deixei pela metade na mesa da sala, qualquer coisa serve, qualquer pensamento que me impeça de pensar no que realmente me mantem acordada.
Olho mais uma vez para o relógio e solto o ar de vagar, não adianta insistir, quanto mais tento dormir mais o silêncio parece crescer ao meu redor. Afasto o lençol, levanto e procuro os chinelos com os pés.
A casa esta completamente escura, não acendo a luz do corredor, já conheço o caminho até a cozinha e prefiro não ver por onde preciso passar. Ainda assim meus olhos encontram a porta fechada no fim do corredor, desvio antes que qualquer lembrança consiga se formar.
Na cozinha, após colocar a cafeteira para funcionar, me encontro na bancada enquanto espero ouvindo o barulho finalmente quebrando o silêncio, trazendo um alivio quase imediato, pequeno, mas suficiente.
Pego o celular, tenho três novos e-mails, dois são propagandas que apago sem abrir o terceiro foi enviado por um dos diretores as 3:07 da manhã, leio duas vezes, não porque o assunto seja difícil, mas porque minha atenção parece escapar entre uma frase e outra.
Respondo com um simples "Pode deixar", é impressionante quantas vezes escrevo isso em um dia, quanto mais trabalho me entregam, menos espaço sobra para qualquer outra coisa.
O café fica pronto, encho minha maior xicara até a borda e caminho até a varanda, o vento frio da madrugada toca meu rosto assim que abro a porta de vidro, mas não volto para buscar um casaco. A cidade ainda dorme, algumas janelas permanecem acesas nos prédios ao redor, fico me perguntando o que os mantem acordados também, será que alguém é como eu, que simplesmente desistiu (não consegue) dormir. Tomo um gole do café e me apoio no parapeito, o céu começa a mudar de vagar, primeiro perde o preto profundo para um tom azulado quase sem cor e depois uma faixa clara que surge entre os prédios, vejo o nascer do sol quase todas as manhãs.
Se alguém soubesse disso pensaria que gosto do amanhecer, mas ninguém saber e não faço questão de explicar.
Quando era criança, as noites de tempestades me assustavam, sempre corria para o quarto da minha mãe e me enfiav* em baixo das cobertas sem pedir licença, ela nunca reclamava. Ela só levantava, fazia chocolate quente e me levava até a varanda, nós ficávamos ali até o céu clarear. Ela dizia que toda noite parece eterna, mas nenhuma noite consegue vencer o sol, por muito tempo acreditei nisso. Mas agora eu sei que algumas noites parecem não acabar nem depois que o sol aparece.
Fecho os olhos e afasto as lembranças, antes que elas venham com tudo, não hoje, olho para o relógio e vejo que já são 5:10, entro e vou direto para o notebook que abandonei na sala ontem e termino o relatório que deixei pela metade, respondo os e-mails, reviso as cláusulas do contrato e organizo a apresentação da reunião, acabo tudo em uma hora.
As 6:40 estou na frente do espelho, vestindo uma calça escura com uma camisa branca, prendo o cabelo e tento cobrir as olheiras com corretivo, a mulher refletida ali parece organizada, séria e perfeitamente capaz de enfrentar mais um dia, é o suficiente, não preciso estar bem somente parecer que estou.
Antes de sair pego minha bolsa e o notebook e passo novamente pelo corredor, que está claro agora, mantenho os olhos à frente evitando a porta que continua fechada, como deve permanecer.
- Você chegou antes de mim outra vez.
Ergo os olhos do computador e encontro Heitor parado na porta da minha sala, segurando um copo de café e usando a gravata mais torta que já vi na vida.
- Você chegou atrasado outra vez.
Ele olha para o relógio
- São 8:10.
- A reunião começa às 8:30.
- Exatamente, cheguei 20 minutos antes.
- Chegar antes não apaga o seu histórico.
Heitor leva a mão ao peito fingindo estar ofendido.
- Bom dia para você também chefinha.
Volto minha atenção ao documento aberto na tela, ele entra sem ser convidado e se joga na cadeira de frente para minha mesa.
- Você dormiu aqui?
- Não.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- Porque eu fui embora ontem quase dez da noite e você ainda estava aqui, hoje cheguei e você já está trabalhando, existem poucas explicações possíveis.
- Talvez você seja excessivamente curioso.
- Também considerei a possibilidade de você ser um robô, mas robôs costumam ser simpáticos.
Seguro o sorriso antes que ele apareça.
- Você não tem nada para fazer?
- Tenho, estou evitando.
- Ao menos é honesto.
Ele toma um gole do café e continua me observando, sinto seu olhar, mais continuo lendo.
Heitor é uma das poucas pessoas que ainda tenta, não sei se admiro sua persistência ou se me irrito com ela, provavelmente os dois.
- Você este bem? – Ele pergunta.
A pergunta vem mais baixa, sem brincadeira.
Deixo o mouse sobre a mesa.
- Estou trabalhando.
- Não foi isso que perguntei.
- Mas é a resposta que tenho.
Heitor respira fundo, por um segundo penso que ele vai insistir, ele me conhece a tempo suficiente para saber que não deveria, mas também me conhece o bastante para insistir mesmo assim.
- A Patrícia pediu para confirmar o almoço.
Franzo a testa.
- Que almoço?
- O aniversário dela, aquele sobre qual ela falou durante a semana inteira.
Procuro a lembrança entre reuniões, planilhas e contratos, mas não encontro.
- Hoje?
- Não Theo, o aniversário dela do ano que vem, claro que é hoje.
- Tenho uma ligação as duas.
- O almoço é ao meio-dia.
- Preciso preparar a ligação.
- Você já preparou e aposto que revisou tudo umas cinco vezes.
Não respondo, ele arqueia uma sobrancelha.
- Sabia.
- Tenho trabalho.
- Você sempre tem trabalho.
- Ainda bem, seria preocupante comandar uma empresa sem ter o que fazer.
Heitor se levanta, pega o próprio café e caminha até a porta.
- Vou dizer que você vai tentar aparecer.
- Não precisa mentir por mim.
- Você poderia tentar não me obrigar.
Ele sai ante que eu responda.
As 8:30 conduzo a reunião sem precisar consultar as anotações, conheço cada número, cada risco e cada cláusula do contrato. Quando um dos diretores tenta transferir para outro setor a responsabilidade por um atraso, apresento os e-mails que comprovam onde o processo realmente parou. Não levanto a voz, não preciso, as pessoas se ajeitam nas cadeiras quando falo, evitam interromper, esperam que eu termine antes de apresentar uma justificativa.
No fim da reunião todos saem com tarefas e prazos definidos, mas Heitor permanece na sala.
- Às vezes você me assusta.
Recolho os papeis espalhados pela mesa.
- Porque eu me preparo?
- Porque parece que você nunca se cansa.
Alinho as folhas e coloco tudo dentro da pasta.
- Todo mundo se cansa.
- Você só não admite.
- Admitir mudaria alguma coisa?
Ele não responde, passo por ele e sigo para minha sala. O corredor está cheio, pessoas conversam ao telefone, carregam documentos, reclamam de prazos, o movimento me faz bem. Não há espaço para silêncio em um lugar onde todos precisam de alguma coisa.
Na minha mesa encontro mensagens, contratos e mais problemas, perfeito.
Pouco antes do meio-dia, Patrícia aparece à porta usando um vestido azul e segurando uma caixa de bombons.
- Você vai, não vai?
Levo alguns segundos para entender do que ela esta falando.
- Ao almoço – ela acrescenta – é meu aniversário.
- Eu sei.
Sei desde que Heitor me contou, mas ela não precisa saber disso.
Ela sorri, esperançosa.
- Então?
Olho para a tela do computador.
- Preciso terminar isso.
- Você pode terminar depois.
- Tenho uma ligação as duas.
- Voltaremos antes disso.
A resposta se forma automaticamente.
- Já almocei.
Patrícia olha para o relógio na parede, ainda falta alguns minutos para o meio-dia, por um instante nenhuma de nos fala, o sorriso dela diminui.
- Certo.
Ela coloca a caixa de bombons sobre a mesa.
- Separei alguns para você.
- Obrigada.
Patrícia sai, permaneço imóvel até os passos dela desaparecerem pelo corredor e depois puxo a caixa para perto do teclado. Dentro a um bombom embrulhado em papel dourado, deixo- o ao lado do computador e continuo trabalhando.
Às 19:00 quase todo o escritório este vazio, Heitor aparece novamente, agora sem a gravata e com o paletó dobrado sobre o braço.
- Vamos embora.
- Você pode ir.
- Eu sei, estou convidando você.
- Ainda não terminei.
- Você nunca termina.
Continuo digitando.
- Boa noite Heitor.
Ele não sai.
- Patrícia ficou chateada.
- Amanhã falo com ela.
- Ela não queria falar com você Theo, queria que você estivesse lá.
Interrompo o que estou fazendo, a irritação surge rápida, completamente injusta, não contra ele, nem com Patrícia mais sim contra aquela insistência das pessoas em exigir uma presença que já não sei oferecer.
- Eu não podia.
- Você não quis.
- Qual é a diferença?
Ele solta uma risada sem humor.
- Para quem está esperando por você, muita.
A frase permanece entre nós, volto os olhos para o computador.
- Boa noite.
Heitor fica em silêncio por alguns segundos.
- Boa noite, Theo.
Ouço quando as luzes do corredor são apagadas, uma depois da outra, logo restam apenas o som do ar-condicionado e o ruído das teclas sob meus dedos.
Respiro melhor, ali sozinha, ninguém pergunta se estou bem.
Chego em casa depois das 22:00, tiro o sapato na entrada e ligo a TV antes mesmo de tirar o casaco. O som preenche a sala, não me importo com o que está passando, algumas pessoas riem diante de uma plateia, enquanto um apresentador conta uma história que não consigo acompanhar, aumento o volume.
Na cozinha, abro a geladeira, há uma garrafa de água, alguns potes fechados e uma fruta começando a escurecer, fecho a porta, não estou com fome. Pego o notebook e me sento no sofá, trabalho por quase uma hora antes de perceber que estou lendo o mesmo parágrafo pela terceira vez, fecho o computador e apoio a cabeça no encosto.
Na televisão a plateia ri novamente, observo sem escutar, o silêncio continua ali, escondido por trás das vozes.
Meu celular vibra com uma mensagem de Laura, uma mulher com que sai algumas vezes nas últimas semanas.
"Você sumiu. "
Leio e tento me lembrar da última vez que estivemos juntas, ela é bonita, inteligente, engraçada provavelmente.
Sei que jantamos em algum restaurante cheio, lembro-me da música alta, do vinho e da maneira como ela tocou minha mão sobre a mesa antes de perguntar se eu estava ouvindo. Eu estava ouvindo, só não estava realmente lá.
"Semana difícil", repondo.
A resposta chega quase imediatamente.
"Posso passar aí? "
Olho ao redor, a televisão ligada, o notebook o corredor escuro, a porta fechada no fim dele, quase digo que sim. Não porque queria vê-la, apenas porque a ideia de algum ocupando a casa, falando sobre qualquer coisa, parece mais suportável do que enfrentar outra noite inteira sozinha.
Meus dedos permanecem na tela.
"Hoje não. "
Laura demora alguns segundos.
"Outro dia? "
Bloqueio o celular sem responder, amanhã posso procura-la ou outra pessoa. Não faz diferença, nenhuma delas permanecem por tempo suficiente para perceber que não estou realmente presente. Talvez seja esse o motivo que continuo escolhendo mulheres que não fazem perguntas, é mais fácil dividir a cama do que dividir o silêncio.
Abro novamente o Notebook, trabalho até a meia-noite, a uma da manhã estou deitada olhando para o teto, vinte minutos depois verifico o celular, fico mais meia hora rolando na cama. Levanto para tomar água, na volta paro no corredor.
Não planejei fazer isso, meu corpo apenas decidiu parar ali diante da porta fechada, fico olhando a maçaneta. Faz meses que não entro naquele cômodo, no começo dizia que ainda não estava pronta, depois parei de dizer qualquer coisa, a porta permaneceu fechada e os dias continuaram passando.
Atrás dela estão os livros, as caixas, a escrivaninha, as canetas esquecidas dentro de uma caneca, talvez ainda aja poeira em cima dos porta-retratos, talvez o cheiro dela já tenha desaparecido. Não sei qual dessas possibilidades dói mais.
Levanto a mão, meus dedos quase alcança a maçaneta, o celular toca no quarto, o som me faz recuar como se eu tivesse sido encontrada fazendo algo errado. Volto para o quarto é Heitor, olho o horário antes de atender.
- O que aconteceu?
- Nada, você está bem?
Fecho os olhos
- Você me ligou depois das duas da manhã para perguntar isso?
- Você atendeu rápido demais, então não estava dormindo.
- Talvez o toque tenha me acordado.
- Você é uma péssima mentirosa.
- E você é inconveniente.
Ele fica em silêncio por algum instante.
- Quer conversar?
Olho para a entrada do corredor.
- Sobre o que?
- Qualquer coisa.
- Preciso dormir.
Outra mentira.
- Tudo bem – ele responde, embora esteja claro que não acredita. – Tenta descansar.
- Boa noite, Heitor.
- Boa noite, Theo.
Desligo, não volto até a porta, deito e puxo o lençol até o ombro, tento pensar em tudo que preciso fazer amanhã, em Laura, em qualquer coisa que não tenha a voz da minha mãe.
O sono não vem, pouco depois das quatro, levanto.
Na cozinha preparo outra caneca de café, dessa vez não abro os e-mails e nem ligo o notebook, apenas caminho até a varanda. A cidade permanece quase escura, o vento frio toca meu rosto, fecho os olhos por alguns segundos, estou cansada. Tão cansada, que as vezes, até respirar exige mais esforço do que deveria.
Mas o cansaço é útil, eles mantem as lembranças distantes, os pensamentos perdem as bordas quando estou exausta, os dias passam mais depressa quando tenho mil coisas para fazer.
Só preciso continuar, trabalhar, responder, resolver, manter pessoas ao meu redor sem permitir que nenhuma delas se aproxime o bastante para fazer falta.
A claridade surge lentamente no horizonte, envolvo a caneca com as mãos, quando o sol finalmente aparece já estou pensando no trabalho e por mais uma manhã consigo não pensar em Helena.
Valentina
O despertador toca as 6:30, mas já estou acordada, não porque tenho dormido mal, apenas acordei alguns minutos antes e fiquei aqui olhando para o teto, tentando achar uma razão convincente para não levantar. Não encontro, o segundo despertador toca, desligo e continuo deitada, o terceiro vem acompanhado de uma mensagem de Becca.
"Se você se atrasar outra vez, vou dizer que não te conheço. "
Sorri, respondo:
"Você diz isso toda semana. "
Ela visualiza imediatamente.
"E toda semana você se atrasa. "
Jogo o celular ao lado e finalmente levanto.
Meu apartamento é pequeno, principalmente quando comparado a casa onde cresci, a cozinha quase se mistura com a sala, o quarto mal comporta a cama e o guarda-roupa e a varanda tem espaço suficiente para duas plantas que venho tentando não matar.
É perfeito, tudo aqui foi escolhido por mim, a cor das paredes, os móveis, as xicaras que não combinam, a estante que ocupa espaço demais na sala. Ainda sinto uma satisfação estranha toda vez que penso nisso, talvez porque, durante muitos anos, poucas coisas realmente tenham sido.
Coloco água para ferver e caminho até o banheiro, prendo o cabelo de qualquer jeito, escovo os dentes e olho para o espelho, as olheiras estão discretas, o cabelo está um desastre, mas nada que uma escova e paciência não resolvam. A paciência acaba antes, volto para a cozinha, preparo meu chá e pego uma fatia de pão.
Enquanto como pego meu celular, tenho quatro mensagens da editora, duas de autores ansiosos e uma da minha mãe.
Apenas:
"Precisamos conversar. "
Olho para a tela por alguns segundos, nenhum bom dia, nenhuma pergunta ou assunto. Apenas uma frase que consegue transformar qualquer manhã tranquila em uma expectativa de cobrança. Bloqueio o celular, conversaremos depois ou não.
A três anos eu teria respondido imediatamente:
"Sobre o que? Este tudo bem? Fiz alguma coisa? "
Hoje já consigo continuar tomando meu chá, mas não significa que a mensagem não fica rolando na minha cabeça, significa apenas que aprendi a não entregar todo o meu dia a ela.
Visto uma calça confortável, uma camisa clara e um casaco, pego minha bolsa, o notebook e dois livros que terminei de revisar na noite anterior.
Antes de sair, volto para conferir se desliguei o fogo, está deligado, mesmo assim confiro duas vezes.
A porta do elevador se fecha diante de mim e aperto o botão para o térreo, o espelho mostra uma mulher aparentemente tranquila, sorrio para o reflexo, é automático. Sempre foi, quando se está sorrindo ninguém pergunta se você está bem.
A editora ocupa dois andares de um prédio antigo no centro, as janelas são grandes, os corredores estreitos e existem pilhas de livros em praticamente todas as superfícies disponíveis.
Foi amor à primeira vista, não pelo lugar, pela possibilidade de viver entre histórias que ainda estavam aprendendo o que queriam ser.
Assim que entro, Becca levanta os olhos do computado.
- Sete minutos.
Olho para o relógio.
- De atraso?
- De milagre, achei que seria pelo menos quinze.
Coloco a bolso sobre a minha mesa.
- Você tem muita fé em mim.
- Tenho histórico.
Becca trabalha na parte comercial, embora passe uma quantidade impressionante de tempo acompanhando tudo o que acontece na editora. Ela é ruiva, falante, exagerada e incapaz de respeitar qualquer silêncio que dure mais de trinta segundos.
Talvez por isso tenhamos nos tornado amigas, ela nunca permite que eu desapareça completamente dentro de mim.
- A Isadora quer falar com você.
- Agora?
- Ela disse "Quando a Valentina chegar" você chegou, então suponho que sim.
- E você não podia fingir que ainda não me viu?
- Poderia, mas quero saber o assunto.
- Sua honestidade é comovente.
- Eu sei.
Deixo os livros sobre a mesa e caminho até a sala de Isadora, bato duas vezes antes de entrar.
- Você queria falar comigo?
Ela está sentada atrás de uma mesa coberta de originais, contratos e duas canecas vazias.
- Queria, senta.
Obedeço, Isadora foi a primeira pessoa a me contratar quando sai da casa dos meus pais, não perguntou pelo meu sobrenome, porque eu tinha abandonado a faculdade de administração nem porque alguém com meu currículo aceitava começar como assistente editorial, perguntou apenas se eu gostava de livros. Respondi que não sabia viver sem eles, ela disse que era uma boa qualificação.
- Como está o original do Matheus? – Pergunta.
- Melhor do que quando chegou.
- Isso significa que ainda está ruim?
- Significa que agora existe uma história, antes eram trezentas páginas de um homem reclamando da ex-namorada.
Isadora segura o riso.
- Ele aceitou os cortes?
- Depois de dois áudios de seis minutos e um e-mail dizendo que eu estava destruindo e essência artística dele.
- E você respondeu?
- Que a essência artística precisava de menos vinte e sete mil palavras.
Ela ri.
- Às vezes não sei como os autores ainda gostam de você.
- Eu sorrio bastante.
- Isso realmente engana as pessoas.
O sorriso desaparece por um segundo, Isadora não percebe ou finge não perceber, ela pega uma pasta e desliza sobre a mesa.
- Chegou um trabalho diferente.
- Que tipo?
- Organização e catalogação de um acervo pessoal.
Abro a pasta, há poucas informações, uma estimativa do número de livros, documentos, cartas e fotografias. O pedido é recente e solicita descrição absoluta.
- Nós fazemos isso agora?
- Não normalmente, mas a família procurou a editora pois o acervo pode conter manuscritos e anotações inéditas, primeiro querem organizar tudo para depois decidir o que fazer.
- Parece grande.
- É, estava pensando em mandar o Vinicius com dois assistentes.
Continuo lendo.
- Porque está me mostrando isso?
- Porque quero a sua opinião sobre a parte editorial, você não precisa ir até lá, apenas avaliar o que pode ter relevância depois que estiver catalogado.
Viro a página, meus olhos param no nome impresso no alto do formulário.
Acervo particular de Helena Fontes.
Conheço o nome, seria impossível não conhecer, Helena Fontes aparecia em revistar de negócios, eventos culturais e reportagens sobre projetos sociais. Empresaria, colecionadora de livros, apoiadora de bibliotecas e dona de uma das trajetórias profissionais mais admiradas do país.
Morreu a alguns meses, lembro de ter visto a notícia, uma fotografia dela sorrindo ocupou a tela do meu celular por alguns segundos, li apenas a manchete antes de continuar rolando a página.
- Helena Fontes – Digo mais para mim do que para Isadora.
- Exatamente.
Volto a primeira página.
- Quem fez o pedido?
- A filha.
Algo em mim se contraiu, não sei explicar, talvez seja apenas curiosidade, talvez o peso daquele nome ou a ideia de alguém precisar entregar a desconhecidos todas as coisas deixadas pela mãe.
- Ela quer se desfazer do acervo?
- Pelo que entendi quer colocar tudo em ordem, a casa ainda está exatamente como Helena deixou.
Olho novamente para a estimativa, livros, cartas, anotações, fotografias, uma vida inteira que transformada em itens que precisam receber número e etiquetas.
- Eu vou.
Isadora franze a testa.
- Vai onde?
- Organizar o acervo.
- Valentina não precisa, só queria que você avaliasse o relatório final.
- Eu sei.
- Você está com três originais em andamento.
- Dois, o Matheus já está praticamente finalizado.
- Você acabou de dizer que ele ainda reclama da ex por trezentas páginas.
- Agora são duzentas e vinte.
Ela cruza os braços.
- Porque quer assumir isso?
Essa é uma boa pergunta, não tenho uma resposta tão boa, passo os dedos pela borda da pasta.
- Porque não quero avaliar a vida de alguém por meio de uma planilha feita por outra pessoa.
Isadora continua me observando.
- É porque é Helena Fontes?
- Também.
Ela fica em silêncio por alguns segundos.
- Tudo bem, mas leve um assistente.
- Posso começar sozinha e chamar alguém se precisar.
- Valentina...
- Você sabe que trabalho melhor assim.
- Sei que você gosta de assumir mais do que deveria e depois fingir que está tudo sob controle.
Sorrio.
- Viu? Está funcionando.
Ela balança a cabeça vencida.
- Vou Marcar a primeira visita, provavelmente amanhã.
Fecho a pasta.
- Perfeito.
Quando me levanto Isadora chama o meu nome.
- Valentina.
Olho para trás.
- A filha parece ser uma pessoa difícil.
- Pessoas difíceis geralmente são somente pessoas cansadas de alguma coisa.
- Ou são realmente difíceis.
- Também é uma possibilidade.
Saio da sala carregando a pasta, Becca praticamente se inclina sobre minha mesa assim que me vê.
- Então?
- Então o que?
- Não se faça de desentendida, qual era o assunto?
Coloco a pasta dentro da gaveta.
- Um acervo particular.
- De quem?
- Confidencial.
Ela estreita os olhos.
- Você é uma péssima amiga.
- Mas uma ótima editora.
- Isso ainda está em discussão.
Sento diante do computador e abro o primeiro original do dia, tento trabalhar, leio os parágrafos duas vezes e depois uma terceira, minha atenção continua voltando para a pasta na gaveta. Helena Fontes, penso na filha, em como deve ser estranho entregar para estranhos os livros que a mãe tocou, as cartas que escreveu e as fotografias que escolheu guardar.
Penso na casa ainda intacta, em uma porta que talvez tenha permanecido fechada por meses.
Minha mãe dizia que pessoas sensíveis demais nunca sobrevivem no mundo dos negócios, talvez tivesse razão, foi exatamente por isso que escolhi viver entre os livros.
Livros também machucam, a diferença é que nunca fingem ser outra coisa.
Meu celular vibra sobre a mesa, outra mensagem da minha mãe "domingo almoço em casa." Não é um convite, nunca é, respiro fundo e escrevo:
"Tenho trabalho" – apago, escrevo novamente " não sei se conseguirei ir" – apago novamente, no fim bloqueio a tela sem responder.
Becca olha por cima do computador.
- Problemas?
O sorriso aparece antes que eu consiga impedir.
- Nenhum.
Ela me observa por um instante, mas não insiste, volto ao original aberto na tela. Pouco depois Isadora envia o endereço da visita e o horário marcado para a manhã seguinte, abro a mensagem e leio o nome da responsável pelo acervo, Theodora Fonte.
Repito mentalmente, Theodora, Não sei nada sobre ela além do sobrenome e da perda recente. Mesmo assim uma sensação estranha se instala no meu peito, talvez porque sempre exista alguma coisa intima demais em entrar na casa de alguém para organizar aquilo que uma pessoa morta deixou para trás, talvez porque eu sabia que, por mais profissional que seja, nenhuma caixa contém apenas papeis ou talvez porque, por algum motivo, que ainda não sei, tenho a impressão de que a casa não guarda somente as histórias de Helena Fontes, guarda alguma coisa que ainda não terminou.
Fim do capítulo
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