Capitulo 17
Por narrador
O sol mal tinha começado a tingir o céu quando o quarto de Lena foi invadido por uma tempestade de energia. Não era o despertador, nem o canto dos pássaros; era o som inconfundível de três mulheres tentando — e falhando miseravelmente — manter o silêncio enquanto entravam sem serem convidadas.
— Acorda, Bela Adormecida! — Lookmhee gritou, pulando sobre a beira da cama, enquanto Ling e Engfa seguiam logo atrás, com sorrisos que iam de orelha a orelha.
Lena, ainda perdida no conforto do edredom e com a memória do encontro na colina aquecendo seu peito, gem*u e cobriu o rosto com o travesseiro. Embora já fosse acostumada com o jeito espalhafatoso de Lookmhee, ainda assim não podia dizer o porquê da prima ser tão tempestiva. Ainda mais de manhã cedo. Como alguém conseguia ter tanta energia logo ao amanhecer?
— Vocês perderam o juízo? São seis da manhã! – Lena resmungou contrariada.
— E o nosso fôlego para esperar até o café da manhã acabou às dez da noite de ontem! — Engfa respondeu, arrancando o travesseiro das mãos da prima e jogando-o para o outro lado do quarto.
Incrédula, Lena olhou para a mais velha.
– Eu até consigo lidar com Mhee. Mas você? Desde quando você desse jeito? Você sempre foi a que controlava essas duas malucas. – Lena acenou em direção a Lookmhee e sua irmã Lingling.
— Para você ver como a convivência pode ser prejudicial. – Engfa sorriu de canto mostrando as covinhas que todo mundo tanto admirava, em seguida, soltou: – Anda logo, Lena. O relatório de campo precisa ser entregue agora. Como foi a "emboscada"? A Miu gostou do “chá” que você deu? Ou será que vocês passaram o tempo todo apenas se olhando como dois pombinhos apaixonados em um filme clichê?
As bochechas de Lena coraram a medida que a escritora interpretou o duplo sentido por trás das palavras de Engfa quando mencionou “o chá que você deu”. A mais velha era sim muito podada, mas talvez não fosse tanto como Lena conseguia recordar. O tempo que passou longe do vilarejo fazendo apenas visitas ocasionais, fez com que Lena esquecesse o porquê geralmente a mais velha atraía tanto interesse por parte das mulheres. Engfa não era apenas uma mulher séria em volta das pilhas de papéis do trabalho. Longe do trabalho ela conseguia ser interessante, atraente, envolvente, misteriosa, além de dominar bem um lado atrevido de pura sedução.
– Depois eu que sou a cachorra da família.
Lookmhee soltou fingindo estar indignada, mas a verdade é que a mais nova simplesmente venerava o lado depravado de Engfa.
Por sua vez, Ling, sentada na ponta da cama, mantinha um olhar sereno, mas o brilho em seus olhos revelava a mesma ansiedade compartilhada por Engfa e Lookmhee.
— Nós sabemos que vocês voltaram tarde, Lena. O carro da Miu ficou parado na entrada por um bom tempo. Pode começar a contar, ou a Lookmhee vai começar a inventar uma versão fantasiosa desse encontro que vai deixar a gente traumatizada.
Lena sentou-se, passando as mãos pelo rosto, tentando esconder o sorriso que, inevitavelmente, começou a surgir. Ao lembrar da risada de Miu, da forma como ela a olhou sob o pôr do sol e da paz que finalmente tinha instalado no seu coração, um suspiro profundo escapou de seus lábios. Foi um suspiro longo, suave e carregado de um entusiasmo que ela não tentou mais disfarçar.
Ao ouvir aquele suspiro, as três intrusas trocaram olhares imediatos.
— Ai, meu Deus! — Lookmhee levou as mãos ao rosto, fingindo um desmaio dramático. — Ela suspirou! Vocês viram? A nossa Lena, tão gélida quanto a frozen, agora suspira como uma adolescente que acabou de ganhar um primeiro buquê!
— "Aquele olhar, Mhee" — Engfa imitou uma voz fina, debochando de Lena. — "Sabe, a Miu tem um jeito de tocar na xícara que é tão poético...". Eu conheço esse brilho, Lena. Você está perdida, não está?
— Você está insuportável, Engfa! — Lena jogou um cobertor na mais velha, apesar de rir de si mesma. — Foi... foi perfeito, está bem? Nós conversamos sobre tudo e sobre nada. Falamos sobre o meu medo, sobre o passado dela, sobre o que a gente está tentando construir. Sabem de um coisa? Ela não é como ninguém que eu já conheci. Ela me entende de um jeito que parece... que parece que ela está lendo as entrelinhas da minha vida.
Ling, vendo a irmã tão aberta, suavizou o tom, abandonando a brincadeira apenas por um segundo.
— Ela te faz feliz, não faz?
Lena olhou para as três, sentindo-se finalmente integrada, finalmente em casa.
— Faz! Ela me faz querer ser uma versão melhor de mim mesma. E, pela primeira vez em um tempo considerável, eu não quero mudar o final dessa história.
— Ah, que fofo! — Lookmhee não conseguiu segurar a piadinha. — Se você continuar suspirando assim, vai acabar desidratando antes do café da manhã. Mas, sério, priminha... se você não pedir essa mulher em namoro logo, a gente vai começar a cobrar aluguel pela sua felicidade, porque está ficando caro demais ver vocês duas fazendo doce!
A gargalhada que explodiu no quarto foi o sinal de que, naquele novo capítulo, Lena não precisava mais enfrentar nada sozinha. Ela tinha o apoio, tinha a inspiração e, acima de tudo, tinha a certeza de que o amor, embora ainda aterrorizante, era o único caminho que ela queria percorrer.
O quarto, que antes era seu cenário de refúgio, de silêncio e isolamento, agora parecia pulsar com aquela energia caótica e carinhosa que só suas primas e irmã conseguiam produzir quando estavam juntas. Lena, ainda sentada na cama com os cabelos desalinhados, sentia-se estranhamente leve. O peso das expectativas da editora e o terror do "piloto" pareciam estar a quilômetros de distância, eclipsados pela imagem de Miu e o calor do chá de camomila.
— Mhee, eu não estou fazendo doce. É apenas... processamento de informações. Coisa que você deveria tentar fazer antes de abrir a boca, sua atrevida.
E lá se foi mais um travesseiro, dessa vez em direção a prima mais nova.
— Processamento? — Engfa soltou uma risada, trocando um olhar astuto com Ling. — Lena, você assistiu o pôr do sol em uma colina com uma mulher que é praticamente um anjo de açúcar, e você chama de "processamento"? Nós chamamos de "enrolação profissional".
Ling levantou-se, caminhando até a janela e abrindo as cortinas para deixar a luz da manhã inundar o ambiente.
— Deixem a menina em paz, ela teve um avanço significativo. — Ling se virou, com um sorriso compreensivo, porém igualmente debochado. — O que importa é que o brilho no olhar dela vem de algo que ela está construindo. E se a Miu está disposta a esperar pelo tempo dela, é porque ela entende que o que tem em mãos é valioso e vale a pena.
Lena sentiu o peito apertar de um jeito bom.
— Ela é... ela é muito mais paciente do que eu mereço. — admitiu, sua voz ganhando um tom mais introspectivo. — Ontem, enquanto conversávamos, eu não precisei me explicar. Ela simplesmente me viu. É como se ela estivesse disposta a ler as minhas páginas em branco, aquelas que eu nem tinha coragem de escrever.
Lookmhee, encostada na moldura da porta, fez uma careta cômica, apenas para esconder que seus olhos estavam úmidos. Ela estava feliz por finalmente ver sua prima se reencontrando.
— Ok, chega de melação matinal, senão eu vou começar a ter diabetes de tanto ouvir isso! — Ela deu um empurrãozinho na irmã de Lena. — Vamos, gente. Deixem a "Bela Adormecida" se arrumar. Eu tenho certeza absoluta de que ela vai "por acaso" passar pela confeitaria hoje, mesmo que não seja o dia de ela ajudar na administração.
As três começaram a sair do quarto, mas Engfa parou na porta, olhando para trás com uma expressão genuinamente carinhosa.
— Lena? — Chamou, captando a atenção da escritora. — A Miu é uma escolha excelente. Não só pela paz que ela te traz, mas porque ela é a primeira pessoa em muito tempo que não olha para você como se você fosse uma marca a ser vendida. Ela olha para você como se você fosse a pessoa favorita do mundo dela. Não estrague isso com inseguranças bobas, certo?
Assim que a porta se fechou, o silêncio voltou a reinar no quarto, mas não era o silêncio pesado de antes. Era um silêncio preenchido por possibilidades. Lena caminhou até o espelho, observando seu próprio reflexo. Ela não se via mais como uma escritora quebrada que precisava entregar um rascunho sob ameaça. Ela via uma mulher que, pela primeira vez, estava escrevendo sua vida em tinta indelével. Ela não precisava de um prazo para saber o que sentia.
Lena pegou o celular e, antes mesmo de pensar em se vestir, digitou uma mensagem simples, sem rodeios ou floreios literários:
"O bolo de limão estava perfeito, mas a companhia estava ainda melhor. Bom dia, Miu."
Ela não esperou uma resposta. Ela apenas sorriu, sentindo que, pela primeira vez em muito tempo, o enredo estava sendo conduzido exatamente como deveria estar.
Lena nem tinha terminado de processar a mensagem que enviou, quando o quarto foi subitamente invadido novamente. A porta, que acabara de ser fechada, foi escancarada por Engfa, que parecia ter esquecido completamente a etiqueta básica de privacidade que ela mesma tanto fazia questão de impor. Ela entrou como um furacão, ignorando o fato de que a prima estava apenas de pijama.
Olhando assustada para a figura de uma Engfa, determinada, Lena viu duas cabeças surgirem na porta do seu quarto para espiarem o que acontecia lá dentro.
— Eu não saí daqui satisfeita, Lena Lalina! — Engfa disparou, cruzando os braços com um sorriso de pura provocação. — Você falou sobre "processamento", sobre "abertura", mas pulou a parte mais importante. O "grand finale" do encontro! Teve beijo ou vocês ficaram só trocando declarações filosóficas debaixo daquela árvore? Eu preciso de detalhes, mulher! Foi cinematográfico ou foi aquele beijo de cinema mudo, tímido e sem graça?
Lena voltou a sentir o rosto queimar instantaneamente. Ela tentou se esconder atrás de um travesseiro, mas Engfa era rápida e implacável quando queria algo. Geralmente Lena não sabia lidar com aquela sua versão justamente porque a mais velha era extremamente persuasiva e determinada. Quando era Lookmhee ou Lingling, ela até conseguia se esquivar algumas vezes, mas não era como se fosse fácil dizer não para Engfa, que parecia saber exatamente como contornar qualquer situação em seu favor.
— Engfa, saia do meu quarto! Você perdeu totalmente o senso dos limites? Juro que não sei lidar com essa sua versão. — Lena reclamou, mas a risada que escapou de seus lábios a entregou. Ela não estava realmente brava com a prima.
— Limites? Onde eles estão escritos? — Engfa se aproximou da cama, inclinando-se sobre ela com os olhos brilhando de curiosidade. — Vamos, Lena. Eu conheço o seu padrão. Se você está suspirando assim e enviando mensagens melosas logo cedo, é porque alguma coisa aconteceu. Me dá os detalhes técnicos! Como começou? Quem tomou a iniciativa?
Ao ouvir a pergunta, o mundo ao redor de Lena pareceu silenciar. O quarto agora habitado pela presença marcante de Engfa, a luz da manhã, e a voz insistente da prima, se tronou apenas um mero detalhe. Tudo perdeu o foco. O pensamento de Lena foi sugado para o momento exato da noite anterior, logo antes de entrarem no carro para retornarem para casa.
Flashback on
“O flashback veio com a nitidez de uma lembrança gravada a ferro. Lena e Miu, estavam perto do carro, a luz do poste da estrada lançando sombras longas sobre elas. O ar estava frio, mas a pele de Miu, quando ela tocou no braço da escritora para se despedir, parecia emanar um calor que era possível ser sentido através do casaco. O perfume dela — baunilha, jasmim e algo que era só dela — envolveu Lena, bloqueando o resto do mundo.
— Eu queria que o tempo tivesse parado lá em cima — Miu tinha dito, os olhos fixos nos de Lena, a voz carregada de uma honestidade que raramente a escritora encontrava por aí.
— Eu também! — Lena respondeu, sem fôlego. O coração batia tão forte que ela tinha medo de que Miu pudesse ouvi-lo.
A confeiteira se aproximou, um movimento lento, como se estivesse dando tempo para a outra fugir. Mas Lena não parecia realmente querer fugir. A mão dela subiu, contornando a linha do maxilar de Lena, o polegar acariciando as bochecha com uma reverência quase sagrada. Quando ela encurtou a distância, o beijo não foi apressado. Foi profundo, lento, uma busca por respostas que Lena nem sabia que estava precisava. O gosto do beijo dela era a própria paz que a escritora tanto buscava. Foi um beijo de "finalmente". O mundo ao redor pareceu encolher até sobrar apenas ás duas, o som da respiração de ambas se misturavam entre si, e a certeza absoluta de que, Lena acabou sem querer encontrando um novo começo.”
Flashback off
Lena voltou ao presente com um sobressalto, os lábios latejando com a lembrança. Ela não percebeu que havia levado os dedos ao lábio inferior, perdida na sensação que o flashback provocara.
Engfa soltou um grito abafado, levando as mãos à boca.
— Ah! Eu não acredito! — Engfa apontou o dedo para Lena, soltando uma risada vitoriosa. — Você não precisa dizer nada! Esse seu olhar de "estou em outro planeta" diz tudo. Foi um beijão, não foi? E pelo seu nível de entrega agora, eu diria que foi melhor do que qualquer coisa que você já escreveu nos seus livros!
Lena voltou a cobrir o rosto com o travesseiro, soltando uma risada envergonhada.
— Você é uma praga, Engfa! Uma praga absoluta!
— Sou a sua praga favorita! — Engfa respondeu, saltando para fora do quarto antes que Lena pudesse atirar uma almofada nela. — Mas admita: você amou cada segundo! E agora, trate de se arrumar, porque eu quero saber se o beijo de hoje vai ser melhor que o de ontem!
A mais velha que agora era acompanhada por Lookmhee e Lingling, gritou do corredor. As três estavam genuinamente felizes pela felicidade de Lena.
Mais tarde
Enquanto o quarto de Lena havia se tornado um palco da euforia juvenil de Engfa e Lookmhee, a cozinha da casa, no andar de abaixo, respirava uma calma diferente. O aroma de café fresco e pão caseiro subia, preenchendo o ambiente com aquele conforto que só a casa da Sra. Malee conseguia oferecer.
Malee movia-se entre as bancadas com uma leveza. Ao lado dela, Lingling ajudava a organizar a mesa para o desjejum, observando o semblante renovado da mãe.
— Sabe, Ling… — Malee comentou, interrompendo o silêncio com um sorriso terno enquanto ajeitava uma travessa de frutas. — Eu não consigo parar de agradecer. Ver a Lena assim, com esse brilho no olhar que ela não tinha desde que voltou da cidade... é como se a vida estivesse, finalmente, retornando para minha menina.
Lingling sorriu, sentindo o calor daquelas palavras ditas pela mãe.
— Ela precisava de um tempo, mamãe. E do vilarejo. Ela sempre amou esse lugar!
— Precisava sim! Mas precisamos ser justas… — Malee completou, olhando para a porta que dava acesso à confeitaria. — A chegada da Miu foi um divisor de águas. Depois de se permitir conhecê-la, Lena pouco a pouco foi mudando. Foi ficando mais leve. Acho que ter atribuído a ela, ensinar a Miu o funcionamento das coisas, fez muito bem. Lena estava tão perdida, tão bloqueada... e ver as duas finalmente aprendendo a conviver, vendo a Miu tão dedicada e a Lena se permitindo baixar a guarda, me enche de um alívio que não sei nem explicar.
Lingling, sentindo o momento propício e carregando aquele ar brincalhão, encostou-se no balcão e deu um gole em sua xícara.
— É verdade, mãe. Elas parecem ter encontrado uma sintonia rara. Mas, me diga uma coisa... — Ling inclinou a cabeça, mantendo os olhos fixos na mãe com um sorriso travesso. — O que a senhora acharia se essa convivência toda acabasse indo além do trabalho? Quero dizer, se a Lena e a Miu decidissem se envolver... romanticamente?
Malee parou o que estava fazendo, o pano de prato suspenso no ar. Ela piscou, visivelmente surpresa com a pergunta direta da filha, e arqueou as sobrancelhas.
— O que você disse? Lingling, por que uma pergunta dessas agora? De onde você tirou isso?
Ling não recuou, mantendo a serenidade, embora o sorriso divertido ainda dançasse em seus lábios.
— Não tirei de lugar nenhum, mãe. Apenas observo. Acho que a convivência delas pode não se tornar apenas profissional. Eu conheço a minha irmã, e sei como ela se comporta quando o coração começa a bater mais forte. E a Miu... bom, a Miu olha para a Lena de um jeito que não deixa dúvidas. Ela enxerga a Lena com admiração, respeito, carinho… E quer saber? Eu acredito, genuinamente, que esse sentimento é recíproco. Lena pode ser um pouco lenta, mas vai por mim, a senhora pode ganhar uma nora para se apegar.
O silêncio tomou a cozinha por alguns instantes. Malee encarou a filha, processando as informações, deixando que a surpresa inicial desse lugar a uma reflexão mais profunda. Ela olhou para o nada, como se pudesse enxergar através das paredes invisíveis uma dinâmica entre as duas moças.
Um suspiro longo e suave escapou dos lábios de Malee. O rosto da mulher mais velha suavizou-se, e uma expressão de aceitação serena tomou conta de suas feições.
— Sabe, Ling... — Malee começou, num tom baixo e pensativo. — Embora o tempo de convivência com a Miu ainda seja curto, eu já aprendi o suficiente sobre ela. Vejo a forma como ela trata nossos clientes, como ela cuida dos mínimos detalhes dentro daquela confeitaria, e como respeita a mim e ao seu pai, a história que construímos naquele lugar. Ela tem um coração bom, uma alma íntegra. No começo, eu só queria que a Lena se estabilizasse, mas agora que você falou... — Ela sorriu, um sorriso materno e genuíno. — Se a sua irmã encontrou na Miu alguém que a faz feliz, alguém que a entende de verdade, eu não veria problema algum. Pelo contrário. Para mim, o que importa é ver a Lena inteira novamente. Se for com a Miu, então que seja uma história bonita.
Lingling sentiu um peso sair de seus ombros. Ela sabia que a aprovação da mãe e do pai seria o selo mais importante que faltava para que Lena não temesse a própria felicidade.
— É uma história muito bonita, mãe. — Ling confirmou, voltando a arrumar os pratos com um ânimo renovado. — E eu acho que, agora, ela está apenas começando. Você vai contar ao papai?
– Ele vai ficar tão surpreso como eu estou. Mas de qualquer maneira, vamos aguardar Lena nos procurar para falar a respeito.
– É justo!
Lingling sorriu, sentindo que a porta estava aberta. Ela deixou sua xícara sobre a mesa e aproximou-se da mãe, baixando o tom de voz como se estivesse compartilhando um segredo precioso.
— Mas mamãe, já que a senhora ver isso com bons olhos… — começou Ling, com uma determinação suave — por que não damos uma ajudinha? A Lena passou tanto tempo trancada naquele mundo cinzento, sofrendo pelo passado e construindo muralhas em torno do próprio coração, que tenho medo de que ela demore demais para se permitir viver isso de verdade. Ela tem o hábito de analisar tudo, de complicar o que deveria ser simples. Se deixarmos as duas sozinhas, com medo de dar o próximo passo, podem levar meses até um romance sólido finalmente florescer.
Malee, ainda absorvendo a ideia, começou a balançar a cabeça positivamente. O brilho nos olhos da mãe de Lena, que antes era de preocupação, agora era de uma animação genuína. Ela adorava a ideia de ver a casa cheia e, acima de tudo, via em Miu a luz que antes faltava nos olhos da filha.
— Você tem razão, Ling. — Malee disse, já começando a organizar mentalmente o que teria na despensa. — A Lena sempre foi muito rigorosa consigo mesma. Às vezes, ela só precisa de um ambiente que a force a relaxar e a ser quem ela realmente é, sem viver qualquer pressão. Um jantar... sim, um jantar seria perfeito. Algo íntimo, sem toda aquela formalidade, apenas a nossa família e a Miu.
— Exatamente! — Ling respondeu, animada. — Nada de grandes celebrações. Só um jantar onde elas não precisem atuar, onde a Miu se sinta parte do nosso círculo. Assim, a Lena não vai sentir que está "no trabalho" ou se escondendo atrás da confeitaria.
Malee começou a andar pela cozinha, seus dedos tamborilando na bancada enquanto ela planejava.
— Podemos fazer aquele Pad Thai de camarão que a Lena tanto gosta, e talvez um Tom Yum Goong. A sobremesa deve ser algo leve. Mas nada de sobremesas da confeitaria. Quero que Miu seja nossa convidada, não que sinta que precisa trabalhar para merecer o lugar à mesa. – A matriarca disse com empolgação.
— Ótima ideia! — Ling riu da animação da mãe. — E podemos pedir para o papai abrir aquele vinho que ele guarda para ocasiões especiais. Acho que, tecnicamente, o começo de uma história de amor da minha irmã é uma ocasião bem especial, não acha?
— Com certeza! — Malee riu também, contagiada pela empolgação da filha. — Vou falar com o seu pai ainda hoje. Mas me diga, Ling, como vamos convidar a Miu sem que a Lena desconfie que estamos armando um plano? Ela é muito perceptiva, vai notar a quilômetros de distância que tem algo por trás desse jantar.
Ling pensou por um segundo, os olhos brilhando com a astúcia característica da genética familiar.
— A senhora deixa isso comigo, mãe. Vou dizer que o papai insistiu em um jantar em agradecimento pela ajuda da Miu com as contas da família nos últimos meses. Será um convite "oficial" e irrecusável. A Lena vai acabar sendo obrigada a aceitar porque, no fundo, ela também vai querer que a Miu esteja aqui.
— Você é uma danada. — Malee brincou, dando um tapinha carinhoso no braço da filha. — Mas faça como achar melhor. Só prometa que vai garantir que o ambiente seja leve. Quero ver a minha menina sorrindo de verdade, aquela risada gostosa que ela andou esquecendo em algum lugar da cidade grande.
— Pode deixar, mamãe. Esse jantar vai ser o primeiro entre muitos com a presença de Miu na nossa família. — Ling piscou.
Antes que a filha pudesse deixar o ambiente, Malee chamou pela filha.
– Ling.
O olhar da filha encontrou com o da mãe, que agora tinha os braços cruzados e uma sobrancelha arqueada.
– Sim, mamãe?
– Quando será sua vez de me apresentar uma nora? Eu nunca me importei que você, sua irmã e suas primas se interessassem por mulheres. Mas vocês todas são tão desajuizada.
Lingling engoliu seco o nó que se formou na garganta. Comparada as duas primas e a sua irmã, Lingling era aquele tipo que fugia de relacionamentos sérios. Ela não tinha nenhum trauma ou coisa assim, ela só não era tão sonhadora quanto Lookmhee, tão pouco romântica como sua irmã. Talvez tivesse herdado o lado sedutor de Engfa, e isso tornava as duas um tanto quanto paqueradoras, mas ainda assim, Ling não herdou de Engfa a certeza absoluta que em algum momento cederia ao amor para manter ao seu lado a mulher “certa”. Em outras palavras, isso significava que Ling gostava da sensação de liberdade para fazer com a própria vida aquilo que melhor quisesse.
– Mamãe, eu estou apressada. Depois conversamos melhor.
Lingling praticamente correu para o andar de cima, onde estavam suas primas e irmã.
Fim do capítulo
Sextamoooos!
Se alcançarmos 10 comentários hoje, amanhã (sábado 15) teremos capítulo extra. ?
bjus!
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Dolly Loca
Em: 14/08/2026
Amando a história. A Lingling fugindo da direta da mãe foi ótima!
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