Capitulo 16
Por narrador
O quarto de Lena parecia ter sido atingido por um pequeno furacão de tecidos, cores e opiniões não solicitadas. Sobre a cama, uma montanha de cabides disputava espaço com Lookmhee, que estava sentada de pernas cruzadas, analisando o guarda-roupa da prima com a seriedade de um juiz de tribunal. Lingling, encostada na mesa de cabeceira, segurava um vestido azul-escuro contra a luz, pensativa.
— Eu não sei por que estou deixando vocês fazerem isso. — resmungou Lena, parada em frente ao espelho de corpo inteiro, vestindo apenas uma calça jeans e uma blusa básica preta, mantendo um boné preto na cabeça. Seus dedos tamborilavam nervosamente no próprio braço. — É só um passeio. Um encontro simples. Por que parece que estou me arrumando para uma entrevista com o presidente?
— Porque nas entrevistas você sabe o que responder, dona Lena. — A prima mais nova disparou, jogando uma camisa de linho verde para o lado. — Hoje você está saindo com a mulher que faz você engasgar com mingau de arroz só de olhar para ela. O nível de perigo é muito maior. Falando nisso, para onde você vai levar a confeiteira? Preciso saber se o ambiente combina com esse verde.
— Não vou dizer. — Lena respondeu prontamente, exibindo um sorriso misterioso que raramente usava.
Lookmhee endireitou as costas na cama, os olhos arregalados em pura indignação.
— Como assim não vai dizer? Lena Lalina, fala logo! É um direito familiar saber as coordenadas do evento.
— Nem pensar, Mhee. Conheço você. Se eu falar, você vai dar um jeito de brotar de trás de alguma moita. — Lena rebateu, cruzando os braços.
— Isso é uma calúnia! — A mais nova cruzou os braços, jogando a cabeça para trás, dramaticamente revoltada. — Eu só queria garantir a segurança da minha prima! Agora meu plano de usar os binóculos do meu pai, foi por água abaixo. Você é uma sem coração, Lena! Lingling, faz ela falar!
Lingling apenas riu da revolta da mais nova e voltou sua atenção para as roupas, adotando um tom mais prático.
— Deixa a Mhee sofrer com a curiosidade, irmã. Mas nos dê ao menos uma pista do estilo. É um restaurante chique na cidade ou algo por aqui?
— É ao ar livre. No campo! — Lena cedeu um pouco, sentindo as bochechas esquentarem. Ela sentia que tinha perdido a prática com aquelas coisas. — Um piquenique. Confortável para sentar na grama, mas que ainda mostre que eu me importei em me arrumar.
– Um piquenique? Que coisa romântica. Engfa não vai acreditar quando eu contar. – Disse a mais nova já pegando o celular e digitando freneticamente uma mensagem para a prima mais velha.
— Prontinho, achei o seu meio-termo perfeito. — Anunciou Lingling com um sorriso vitorioso, puxando as peças selecionadas do cabide. — Nada de alfaiataria longa. Vamos de algo bem mais fresco para o campo.
Lena pegou as roupas e foi se trocar no banheiro. Quando a porta se abriu novamente, Lookmhee e Lingling pararam o que estavam fazendo para analisar o resultado.
Lena vestia uma regata branca justa com um detalhe delicado de renda no decote, combinada com uma bermuda de cintura alta em tom cáqui, feita de um tecido confortável e com pregas discretas na frente. Para marcar a cintura, Lingling havia escolhido um cinto fino de couro marrom com fivela envelhecida. Por cima de tudo, uma camisa de botões oversized em linho off-white funcionava como uma terceira peça perfeita, com as mangas já dobradas de forma despretensiosa até os antebraços. Nos pés, o clássico tênis de lona branca garantia que ela pudesse caminhar na grama sem nenhuma dificuldade.
Lookmhee soltou um assobio longo, balançando a cabeça em sinal de aprovação.
— Olha só... Quem diria que a nossa escritora ranzinza conseguiria entregar um conceito "piquenique estético camponês" com tanta precisão? Está perfeita, Lena! Ficou leve, charmosa e com aquela cara de 'coloquei a primeira roupa que vi', mesmo que a gente tenha demorado meia hora escolhendo.
Lena soltou um suspiro pesado, desabando por um instante na cadeira da escrivaninha. A postura de escritora controlada tinha sumido completamente.
— E se eu estragar tudo? — Lena confessou, a voz saindo mais baixa. — Eu passei anos sendo a pessoa ranzinza que só fala de prazos e contratos. E se a Miu perceber que eu sou um tédio fora da confeitaria? E se eu disser alguma idiotice?
Lookmhee escorregou da cama e se agachou perto da prima, deixando a revolta de lado por um instante e apoiando as mãos nos joelhos de Lena. Embora a mais nova geralmente fosse a mais desligada nessas coisas do coração, assim como Engfa, ela era super protetor quando se tratava das primas.
— Lena, presta atenção. — A mais nova começou, com uma rara mistura de leveza e sinceridade. — A Miu já passou uma noite inteira jogando farinha em você e limpando balcão de madrugada, só para conseguir fazer uma receita que te agradasse. Se ela não fugiu depois de ver o pacote completo da nossa família, não é uma frase errada no meio do mato que vai assustar aquela mulher.
— É estranho dizer isso, mas ela tem razão! — Lingling completou fazendo a prima mostrar a língua para ela. Ela entregou a Lena uma cesta de vime trançada com alças de couro que estava guardada no closet. — Leva essa cesta para colocar o chá e as frutas. Você não precisa atuar, irmã. A Miu gosta da Lena que sorri de verdade.
Lena olhou para as roupas e para a cesta em suas mãos, sentindo o nó em seu estômago afrouxar. Ela olhou para as duas com gratidão.
Lookmhee caminhou até a porta, fingindo uma última lufada de ar emburrada.
— Ainda acho uma tremenda injustiça eu não poder usar meus binóculos hoje, mas tudo bem. Agora mexe esse esqueleto e vai logo, porque a confeiteira já deve estar esperando!
Quando Lena estacionou o carro em frente à casa de Miu, seu coração deu um solavanco mais forte. Ela respirou fundo, ajeitou as mangas da camisa de linho e desceu, segurando a cesta de vime com uma firmeza que disfarçava o leve tremor em suas mãos.
Miu já estava na varanda à sua espera. Ao ouvir o barulho do motor, ela ergueu os olhos, e o tempo pareceu desacelerar para as duas enquanto ela descia os pequenos degraus em direção ao portão.
Lena travou os passos por um segundo, completamente sem fôlego. Se ela achava Miu linda usando um avental enfarinhado na confeitaria, vê-la arrumada para um passeio em sua companhia era quase covardia. Miu vestia um vestido midi de caimento fluido e leve em tom off-white, todo adornado com uma estampa floral delicada em tons de verde-sálvia e ramos suaves. A peça tinha mangas curtas soltas e uma costura marcada logo abaixo do busto, definindo a silhueta de forma muito graciosa antes de se estender em uma saia esvoaçante que dançava com a brisa da tarde.
Seus cabelos estavam em um estilo meio-preso clássico, com as mechas recebendo um cuidado especial, puxadas para trás e firmadas no topo da cabeça por um lindo laço de fita verde-oliva escuro, deixando o restante dos fios cair suavemente sobre os ombros. Nos pés, sapatilhas de bico redondo em couro marrom-café completavam o visual com uma simplicidade encantadora.
Miu, por sua vez, abriu um sorriso largo que iluminou seus olhos castanhos, mas logo suas bochechas ganharam aquele tom rosado que Lena já conhecia bem. Ela parou bem perto de Lena, olhando-a de cima a baixo, visivelmente encantada.
— Uau... — Miu murmurou, juntando as mãos em frente ao corpo naquele seu gesto típico de timidez. — Você está... linda, Lena. Quero dizer, eu sei que você é elegante, mas essa roupa... combina tanto com você. Ficou perfeito.
Lena sentiu o rosto queimar, mas o elogio sincero desarmou qualquer resquício de pânico.
— Obrigada! — Lena respondeu, a voz saindo mais mansa e relaxada. Ela ergueu um pouco a cesta de vime, exibindo um sorriso de canto. — Você também está maravilhosa, Miu. Esse floral e as cores destacam muito você. Eu... eu queria que fosse algo confortável, já que vamos passar o fim da tarde ao ar livre.
— Eu adorei! — Miu disse, aproximando-se ainda mais.
Antes que Lena pudesse abrir a porta do passageiro, Miu inclinou-se para frente com um movimento suave e depositou um beijo terno na bochecha de Lena. O toque de seus lábios na pele foi rápido, mas carregado de uma doçura que fez o mundo ao redor simplesmente desaparecer por um segundo.
— Para começarmos bem o nosso passeio. — Miu sussurrou, com um sorriso travesso e envergonhado, antes de abrir a própria porta e entrar no carro, acomodando-se no banco.
Do lado de fora, Lena permaneceu estática. Ela piscou os olhos algumas vezes, a mão livre subindo mecanicamente até a bochecha que ainda formigava com o toque de Miu. Ela soltou uma risada boba, sentindo-se completamente abobalhada no meio da rua, sem conseguir tirar o sorriso do rosto. Demorou alguns segundos para recuperar a postura, respirar fundo e finalmente contornar o veículo para entrar, sabendo que aquele já era o melhor início de enredo que ela poderia desejar.
O carro de Lena avançava devagar pela antiga estrada de terra que cortava a propriedade da família. O silêncio da tarde era quebrado apenas pelo som dos pneus esmagando as folhas secas e pelo cantar distante dos pássaros. No banco do motorista, Lena mantinha os olhos firmes na estrada à frente, controlando o volante com gestos suaves, embora sentisse o coração ditar um ritmo acelerado no peito. No banco do passageiro, Miu olhava curiosa pela janela, aproveitando a viagem.
A ansiedade que dominara Lena no quarto, enquanto escolhia a roupa com as primas, começava a se transformar em uma expectativa reverente. Ela estava prestes a abrir as portas do seu lugar mais sagrado.
— Vamos estacionar logo ali, perto daquela árvore grande. — Lena avisou, a voz mansa, mas firme.
Ela desligou o motor, e a calmaria do vilarejo as abraçou de imediato. Quando desceram do carro, Lena pegou a cesta de vime no banco de trás e guiou Miu por uma trilha quase invisível, escondida entre arbustos altos de flores silvestres. Após alguns passos, a vegetação se abriu, revelando um cenário que fez Miu soltar um suspiro audível de admiração.
Era uma clareira suspensa, uma espécie de mirante natural que avançava sobre a colina. No centro, uma enorme e antiga árvore de galhos retorcidos servia de moldura para a vista mais bonita de todo o vilarejo. Dali de cima, era possível ver o reflexo dourado do sol no rio que serpenteava o vale e as montanhas distantes, que já começavam a ganhar tons de violeta e laranja com o entardecer.
— Meu Deus, Lena... — Miu murmurou, os olhos brilhando enquanto absorvia a paisagem. — Isso aqui é... parece um cenário saído de um conto de fadas.
Lena sorriu, um sorriso contido, carregado de uma nostalgia doce. Ela estendeu uma manta leve sobre a grama baixa e indicou para que Miu se sentasse.
— Este é o meu lugar. — Confessou Lena, sentando-se ao lado dela, encolhendo os joelhos e abraçando-os. — Quando eu era criança e o mundo parecia barulhento demais, ou quando eu precisava fugir das broncas da Engfa, eu vinha para cá. Ninguém me procurava aqui. Eu passava horas sentada sob esta árvore, escrevendo minhas primeiras histórias em cadernos velhos. Nem a Lingling conhece esse ponto exato.
Miu virou o rosto para Lena, tocada pela profundidade daquela revelação. A brisa leve do fim de tarde balançava os fios de cabelo de ambas, e a proximidade física trazia de volta aquela eletricidade estática, mas, dessa vez, de uma forma confortável.
— E por que você me trouxe aqui? — Miu perguntou timidamente, a voz quase sumindo no vento.
Lena desviou o olhar para o horizonte por um segundo, engolindo em seco. O medo de ser vulnerável tentou erguer um muro, mas a presença serena de Miu simplesmente o desmoronou.
— Porque eu passei muito tempo na cidade grande escrevendo sobre finais felizes que depois de um tempo eu mesma passei não acreditar que existiam. — Lena respondeu, voltando a encarar os olhos castanhos e atentos de Miu. — E quando voltei para cá, achei que meu coração estivesse trancado. Mas você... você entrou sem pedir licença, Miu. Trazer você aqui é a minha forma de te mostrar não apenas gratidão por esses dias ao seu lado, mas também que eu não quero mais me esconder. Esse é o meu pedaço mais real, e eu queria dividi-lo com você.
As palavras de Lena pareceram flutuar no espaço entre elas antes de serem carregadas pelo vento suave da colina. Miu não respondeu imediatamente com palavras; em vez disso, ela estendeu a mão devagar pela manta e cobriu os dedos de Lena, que ainda abraçavam seus próprios joelhos. O toque era quente e firme, um contraste perfeito com a brisa fresca que começava a soprar conforme o sol descia mais um pouco no horizonte.
— Eu não entrei sem pedir licença. — Miu disse por fim, a voz macia, acompanhada por um meio-sorriso compreensivo. — Você me deixou entrar, Lena. Mesmo com medo, mesmo achando que seu coração estava trancado, você abriu uma fresta. E eu fico muito feliz por ser a pessoa que está aqui hoje para ver esse seu lado.
Lena olhou para as mãos unidas e sentiu o peito expandir. Era uma sensação nova de não precisar calcular a próxima frase, de não ter que revisar o enredo para garantir que tudo fosse perfeito. Com Miu, a perfeição estava nos pequenos detalhes improvisados.
Lembrando-se da cesta de vime ao lado, Lena pigarreou de leve, tentando dissipar a intensidade do momento antes que suas bochechas entregassem o quanto ela estava tocada.
— Bom... já que estamos dividindo segredos, eu trouxe algo. — Lena mudou de assunto com um sorriso leve, abrindo a cesta. Ela tirou uma garrafa térmica pequena e duas canecas de cerâmica simples. — Chá de camomila com um toque de mel. Sei que você passa o dia cercada pelo cheiro de açúcar e doces complexos na confeitaria, então pensei em algo mais... limpo. E também trouxe algumas fatias de bolo de limão que a Lingling me ajudou a esconder da Lookmhee antes dela comer tudo.
Miu soltou uma risada clara, um som que Lena secretamente desejou poder guardar em um potinho.
— Chá de camomila e bolo de limão sob a sua árvore secreta? Você realmente sabe como planejar um encontro perfeito. — Miu aceitou a caneca aquecida, segurando-a com as duas mãos e deixando que o vapor batesse em seu rosto. — E por favor, agradeça à Lingling por mim. Se a Mhee descobrisse esse bolo, nós só teríamos migalhas agora. Nunca vi alguém para gostar tanto de limão quanto ela.
Elas comeram e conversaram em uma calmaria deliciosa. Miu contou histórias engraçadas sobre os clientes mais excêntricos da confeitaria, e Lena se pegou rindo alto, de um jeito livre que há muito tempo não experimentava. O sol continuou sua descida, pintando o céu de um tom profundo de magenta e dourado, jogando sombras longas sob a imensa árvore antiga.
Conforme o crepúsculo avançava, o frio começou a se fazer notar mais intensamente, trazendo o prenúncio de que a noite logo dominaria o vale.
Fim do capítulo
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