Capitulo 15
Por Lena
Dias depois
As conversas que tinha tido com Miu, desde o dia do festival, vinham ditando o ritmo do meu coração nos últimos dias. Não eram só as conversam eu martelavam em minha cabeça, mas também as lembranças dos momentos leves ao lado de Miu na cozinha da confeitaria, durante o festival, no jardim de mamãe enquanto observávamos a beleza e doçura da rosa que repousa, agora seca e cuidadosamente guardada, sobre minha mesa de cabeceira. Sim, a mesma que carinhosamente ganhei de Miu naquela noite. Exatamente tudo o que vivi ao lado da confeiteira desde que cheguei ao vilarejo, parecia ganhar espaço em minha vida.
Eu estava pensativa olhando a noite estrelada pela janela do meu antigo quarto quando cheguei a conclusão que é engraçado como o vilarejo parece ter um ritmo próprio, uma respiração lenta que, aos poucos, foi se infiltrando nos meus próprios pulmões.
Hoje, pela primeira vez em um mês, o silêncio da casa não me pareceu uma ameaça. Sentei-me à mesa e, com uma hesitação que fez meus dedos formigarem, abri o notebook. A tela brilhou, iluminando o arquivo que eu temia encarar: o último capítulo. Aquele que vazou, aquele que causou a fúria das minhas leitoras e o meu próprio colapso.
Li as palavras com uma distância clínica. E, ao reler o final que escrevi — onde as protagonistas, supostamente feridas pela vida, escolhem a solidão como única forma de autoproteção — um aperto frio tomou conta de mim. Após ler e reler cada linha pelo menos cinco vezes seguidas, conclui… Eu as separei! Eu impus a elas o meu cinismo. Na época, eu escrevia aquilo como uma verdade absoluta: o amor é uma falha de sistema, uma promessa que sempre acaba em traição. Eu havia matado o final feliz delas porque, no fundo, eu estava tentando me convencer de que a minha própria decepção com Thai era o destino final de qualquer história.
Então, olhando por aquela perspectiva, eu tinha sido egoista, não apenas com as leitoras fiéis que me acompanhavam e admirava meu trabalho, mas também comigo mesma, com meu trabalho, com meu profissionalismo. Como pude deixar as coisas chegarem aquela ponte? Como pude permitir que uma crença exclusivamente minha e baseada em minhas frustrações, interferisse em meu trabalho a ponto de transferir minha realidade para ele, como se essa fosse a única verdade absoluta?
Como eu conseguia enxergar isso com mais clareza agora? Era simples! Enquanto meus olhos percorriam os parágrafos, uma imagem intrusa se sobrepôs às palavras: Miu.
Lembrei-me dela naquela cozinha da confeitaria, com o nariz sujo de farinha durante nossa desastrosa — e hilária — "guerra" na cozinha da confeitaria. Lembrei do brilho de seus olhos no festival enquanto atendia cada cliente com animação, da calma com que ela sempre me ouvia contar histórias, da sua delicadeza, do seu cuidado, da sua proteção sem pedir nada em troca. Mas especialmente a cena do nosso primeiro beijo tendo as estrelas como testemunhas voltou com uma nitidez avassaladora, fazendo meu coração disparar no peito, determinada em desmentir cada linha pessimista que eu havia digitado ali.
Em minha mente também vieram as palavras ditas por Miu, em um dos últimos momentos que estivemos conversando sobre o final vazado, e isso parecia me encorajar a me reavaliar como escritora, e também como mulher:
Flashback on
“ – Uma curiosidade… Em algum momento você pensou em matar a Anong? – Miu questionou sem qualquer julgamento aparente.
– Isso não importa, já que o final já vazou.
Sim, entre muitos cenários dramáticos, eu realmente cheguei a cogitar aquilo para uma das personagens principais.
– Mas por que você faria algo assim?
Em um primeiro momento, nada escondi. Eu não consegui encontrar palavras que fossem suficiente para explicar como eu me sentia em relação a romances.
– Desculpa! Eu só estou tentando entender a sua cabeça. O que é difícil de conseguir. – Ela disse ao perceber que não iria responder.
– Ótimo! Agora você também faz parte do time. – Ironizei, porém não estava com raiva dela. Pelo contrário, conversar sobre aquilo com Miu, curiosamente estava me fazendo bem.
– Sabe, você não morreria se tentasse facilitar as coisas. Quero dizer, se me ajudasse a te entender.
Estreitei os olhos a observando. Miu conseguia prender minha atenção em sí sem fazer qualquer esforço. Sua calma, seu jeito meigo… Ela era diferente de qualquer outra leitora com quem já cheguei trocar algumas palavras.
– Bom! É que eu não vi outro caminho para elas. – Resolvi responder, porém contida.
Por um momento foi ela quem passou me observar. Miu me analisava como se estivesse desvendando um enigma ou, se estivesse montando um quebra-cabeça difícil de ser montado.
– Hum! Você não via outro caminho para elas, ou não ver outro caminho para você?
– E isso quer dizer o quê? – A desafiei explicar.
Embora de maneira tímida, eu gostava que Miu não se sentisse realmente retraída a ponto de silenciar o que pensava. Aliás, ser autêntica com os próprios pensamentos, era uma das coisas que em silêncio eu mais gostava nela.
– Eu acho que sua reação para uma coisa horrível é se fechar, ou poder ir de encontro à luz. Sabe, sempre há uma luz. Então você pode encontrar uma coisa melhor do que tinha antes. Eu só quero dizer que sempre tem um jeito. Se você quiser achar.”
Flashback off
Fechei os olhos e respirei fundo. Filosofar sobre o amor, quando se é uma escritora, parece sempre um exercício de intelectualização, mas, naquele momento, a conclusão veio de forma visceral, desprovida de qualquer sofisticação literária. A traição de Thai não foi uma prova de que o amor não existe; foi apenas a prova de que eu estava tentando amar a pessoa errada, no momento errado.
Como eu pude ser tão arrogante a ponto de achar que o fim do meu relacionamento com ela deveria ser a régua para medir todos os outros sentimentos do mundo? O amor não é um contrato que se encerra quando uma das partes quebra a confiança. Ele é, percebi com clareza, uma renovação constante. Ele sobrevive ao cinismo porque ele não é sobre a outra pessoa — é sobre a coragem que a gente encontra de se abrir novamente.
Abri os olhos e encarei o cursor piscando no final do arquivo. As personagens que eu condenei à solidão não mereciam aquele destino. Elas mereciam o que eu, Lena, finalmente estava começando a entender: que novos amores não são réplicas do passado, mas novas histórias que surgem quando encontramos a pessoa certa, aquela que não quer nos consertar, mas que quer apenas caminhar ao nosso lado enquanto a gente se reconstrói pouco a pouco.
Meus dedos tocaram o teclado. Eu não sabia bem como recomeçar, mas sabia que se eu reescrevesse aquele capítulo agora, não ia apenas refazê-lo. Não ia ser de qualquer jeito. Eu ia reescrever a minha própria crença.
Comecei a digitar, não mais como uma escritora que foge da dor, mas como uma mulher que finalmente entendeu que cada um tem seu próprio final.
O som das teclas ecoava pelo quarto, mas o ritmo começou a mudar. A velocidade frenética e frustrada que antes guiava meus dedos, deu lugar a uma cadência mais calma, quase musical. Era o peso das correntes invisíveis que eu mesma havia criado finalmente se desfazendo.
Por muito tempo, olhar para aquela tela em branco significava encarar um labirinto sem saída. Eu me sentia perdida em um emaranhado de conceitos, regras e defesas, tentando prever cada dor para evitar o impacto. Mas, à medida que novas palavras ganhavam forma, a confusão simplesmente começou a dissipar-se, como a névoa da manhã que recua diante dos primeiros raios de sol no vale.
O nó na minha garganta se desfez quando uma verdade muito simples e avassaladora se estabeleceu em minha mente: O amor não é essa engrenagem sofrida e perigosa que eu passei os últimos anos tentando decifrar e combater. O sofrimento não vinha do sentimento em si, mas do egoísmo de querer controlar o amanhã, do medo da rejeição e das mágoas antigas que eu insistia em carregar como um escudo.
A dor que Thai me causou pertencia às escolhas dela, não ao amor que eu havia depositado ali. O que fazem com você é sobre o outro; o que você sente é inteiramente seu.
Uma leve brisa entrou pela janela aberta, trazendo o cheiro sutil da terra molhada do vilarejo. Olhei de relance para a rosa seca na cabeceira e sorri, sentindo uma leveza inédita expandir meu peito. Amar não era um jogo de expectativas onde quem se protege mais ganha. Amar era, essencialmente, entrega. Era ter a coragem de estender a mão sem garantias, de se desarmar por inteiro e aceitar o momento presente pelo que ele é.
De repente, a sensação que eu tinha, é que a confusão que bloqueava minha escrita havia sumido por completo, dando lugar a uma clareza cristalina, a compreensão em torno da complexidade das personagens que eu mesma havia criado, e especialmente, ao entendimento do conceito dos sentimentos. Eu não precisava consertar o passado das minhas personagens, assim como não precisava consertar o meu. Só precisávamos nos dar a chance de recomeçar.
Meus dedos voavam pelo teclado com uma certeza absoluta. Eu não estava apenas salvando a história de Anong e da história que minhas leitoras tanto amavam; eu estava, finalmente, destrancando a porta do meu próprio coração, pronta para o que quer que o destino estivesse reservando para os meus próximos capítulos.
Quando finalmente afastei as mãos do teclado e olhei para o canto inferior da tela do notebook, pisquei duas vezes para ter certeza. Passava das 5:30 da manhã, e aquele era o último dia do prazo que eu tinha para entregar o piloto pedido por Yen. A noite havia voado enquanto eu me derramava naquelas páginas, mas, curiosamente, eu não sentia um pingo de cansaço. Pelo contrário, uma eletricidade nova corria pelas minhas veias.
Foi então que a ideia surgiu, brilhante e repentina como o primeiro raio de sol que começava a cortar o céu lá fora: a confeitaria.
Eu sabia que Miu chegava extremamente cedo para preparar as massas e acender os fornos. Olhei para o arquivo salvo na tela sentindo aquela pontada de ansiedade ditar o ritmo do meu coração. Eu não queria esperar o dia avançar, não queria mandar uma mensagem formal ou ligar horas mais tarde. Eu precisava mostrar a ela, em primeira mão, o capítulo que ela mesma, sem saber, me ajudara a reescrever.
Fechei o notebook com um estalo firme, levantei e me arrumei num piscar de olhos. Enquanto pegava as chaves do carro, uma onda súbita de adrenalina atingiu meu peito, trazendo pensamentos que eu nunca me permitira ter antes. De onde está vindo essa audácia? me perguntei, sentindo meu coração acelerar. Eu sempre fui a pessoa que calcula, que planeja, que recua para se proteger. Mas uma voz mais forte ecoou dentro de mim: Não importa de onde veio. Só aceita e vai. Se você hesitar agora, se parar para analisar demais, essa coragem vai embora tão rápido quanto chegou, e você vai se esconder atrás dos seus muros outra vez, duvidando que é possível... Sim, tudo é extraordinariamente possível! Eu precisava colocar aquela coragem para fora. Era agora ou nunca.
Dirigi pelo vilarejo quase deserto sob a luz azulada do amanhecer. Quando estacionei em frente à confeitaria, vi a luz quente da cozinha acesa e o estômago deu um nó. Saí do carro segurando o notebook contra o peito como se fosse um escudo, mas segui. Empurrei a porta, que fez o sininho ecoar pelo salão vazio.
Miu apareceu na porta da cozinha, com as mangas do suéter erguidas e um avental já amarrado na cintura. Seus olhos castanhos se arregalaram em pura surpresa ao me ver ali àquela hora.
— Lena? — Ela murmurou, limpando as mãos num pano de prato. — Aconteceu alguma coisa? Você está bem?
— Eu estou... eu estou ótima. Na verdade, mais do que ótima. — Comecei, a voz saindo um pouco mais alta e rápida do que o meu tom normal, denunciando o meu nervosismo. Dei dois passos na direção dela, sentindo minhas mãos suarem. — Eu preciso te contar algo.
– Para você está aqui tão cedo, deve ser algo realmente importante. – Miu disse ainda atordoada pela surpresa que minha presença provocava.
Senti meus lábios desenharem um sorriso tão tímido quanto verdadeiro.
– Você acredita se eu te contar que passei a noite inteira escrevendo?
– Hum! Eu sempre imaginei que isso fosse algo comum para uma escritora. – Ela disse mordendo os próprios lábios.
– Miu… Não foi qualquer escrita.
– Então o quê? – Ela buscava entender.
– Estou falando do piloto do capítulo final. Aquele que vazou... Eu apaguei tudo o que tinha feito e comecei do zero. Não pela editora, mas pelas leitoras, pelas personagens, e especialmente por mim. – Nosso olhar estavam conectados como se fossem um só. – E eu... Eu precisava que você fosse a primeira pessoa a ler. Quer dizer… Não está tudo finalizado, é só um piloto da ideia que tive.
Tomada por uma súbita surpresa, mas também por uma notória satisfação, Miu disse:
– Eu? Mas por que eu?
Timidamente, mas certa do que estava fazendo, senti minhas bochechas queimarem quando busquei suas mãos e segurei com delicadeza junto as minhas.
Olhei para Miu sentindo uma atmosfera diferente nos embalar.
– Porque foi você quem me fez enxergar o caminho de volta para a luz.
Miu travou por um segundo, olhando para o notebook abandonado na bancada e depois para os meus olhos, tocada pela urgência das minhas palavras. Um sorriso doce começou a brotar em seus lábios, mas antes que ela pudesse falar, a enxurrada de coragem que me levou até ali, exigiu mais de mim. Se era para me entregar, que fosse por completo.
— E... tem mais uma coisa. — Completei, dando um passo em falso e quase tropeçando na ponta de um tapete, o que me fez pigarrear, desajeitada, tentando recuperar a postura enquanto sentia minhas bochechas queimarem. — Eu não vim só por causa do livro. Eu queria saber se... se você gostaria de sair comigo. Sabe… sair tipo… tipo um encontro. Um primeiro encontro, de verdade. Só nós duas. Fora da confeitaria.
O silêncio que se seguiu fez meu coração bater na garganta. Eu me censurei mentalmente por ter sido tão direta, tão estabanada. Mas Miu apenas deu um passo à frente, diminuindo a distância entre nós. Ela olhou para a minha expressão ansiosa, para o meu jeito ligeiramente travado, e uma risadinha suave e deliciosa escapou de seus lábios. Ela entendia perfeitamente o esforço gigante que aquela escritora ranzinza e controlada estava fazendo para se expor daquela maneira.
— Chá de camomila e bolo de limão? — Miu perguntou com um brilho divertido nos olhos, lembrando-se de uma das nossas conversas anteriores.
— O que você quiser. — Respondi, soltando um suspiro de alívio que nem sabia que estava segurando.
Miu deu mais um sorriso largo, daqueles que iluminavam o ambiente inteiro, e estendeu a mão para pegar o notebook.
— Eu aceito, Lena. Com toda a certeza do mundo. Mas primeiro... me deixa ler esse piloto enquanto o café passa. Acho que nós duas merecemos começar o dia com uma história boa.
Miu puxou uma das cadeiras de madeira do salão, indicando com um gesto suave para que eu me sentasse ao seu lado. Ela acomodou o notebook na mesa e, com uma expressão concentrada e respeitosa, começou a passar os olhos pelas primeiras linhas.
O silêncio que se instalou na confeitaria era quebrado apenas pelo som baixo do café passando na cozinha e pelas batidas descompassadas do meu próprio coração. Eu tentava não parecer ansiosa, mas meus olhos acompanhavam cada micro expressão do rosto dela.
Nas primeiras frases, os lábios de Miu se entreabriram de leve. À medida que ela avançava na leitura, a surpresa inicial deu lugar a uma expressão de profunda comoção. Vi seus olhos castanhos brilharem com uma camada fina de lágrimas que ela insistia em não deixar cair, enquanto um sorriso contido, mas imensamente orgulhoso, começava a desenhar seus lábios. Ela lia devagar, como se quisesse saborear a mudança de tom da narrativa, sentindo a transição da dor para a esperança em cada palavra.
Quando chegou ao último parágrafo daquilo que apresentei, Miu soltou um suspiro longo, aquele tipo de suspiro de quem finalmente encontra o final de uma jornada bonita. Ela fechou o notebook devagar e virou-se para mim.
— Lena... — A voz dela saiu um pouco embargada, mais mansa do que o normal. Ela estendeu a mão e, com uma delicadeza que me arrepiou, tocou o meu pulso. — Isso está absolutamente perfeito. Não é só porque as personagens ganharam a chance de serem felizes... é porque dá para sentir você em cada linha. A sua coragem de reescrever isso, de se permitir sentir isso de novo... é a coisa mais linda que eu já li.
Eu engoli em seco, sentindo um calor confortável espalhar-se pelo meu peito, desarmando qualquer resto de insegurança.
— Você realmente gostou? — Perguntei, a voz quase um sussurro. – Olha, faz um certo tempo que não escrevo com prazer, então não me surpreende se estiver ruim.
— Você tá brincando? Tá simplesmente perfeito! Eu amei, Lena. — Miu respondeu, aproximando-se um pouco mais, os olhos fixos nos meus com uma sinceridade avassaladora. — Suas leitoras vão ver a escritora incrível que você é, mas eu... Eu fico muito feliz de poder ver a mulher por trás dessas palavras. Obrigada por me mostrar isso primeiro.
O sorriso que ela me deu naquele instante foi o combustível final que eu precisava para ter certeza do caminho que eu estava trilhando.
Fim do capítulo
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Dolly Loca
Em: 11/08/2026
"novos amores não são réplicas do passado, mas novas histórias que surgem quando encontramos a pessoa certa, aquela que não quer nos consertar, mas que quer apenas caminhar ao nosso lado enquanto a gente se reconstrói pouco a pouco"
Nossa que capítulo incrível! Tocou fundo aqui
Sem cadastro
Em: 12/08/2026
Fico tão feliz em saber que você está gostando. Depois de passar tanto tempo sem escrever algo novo, e hoje receber um comentário assim, aquece minha alma.
Um bj grande!
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priskelly Em: 12/08/2026 Autora da história
Fico tão feliz em saber que você está gostando. Depois de passar tanto tempo sem escrever algo novo, e hoje receber um comentário assim, aquece minha alma.
Um bj grande!